Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 24: O Ápice

Capítulo 24: Ápice

Zaltan tirou sua capa e deixou ela voar até para fora da plataforma de gelo.

Não era à toa que a divindade da própria natureza estava tomando controle completo de seu corpo. Lentamente, o rei deixava seus traços individuais para trás à medida que os três sóis brilhavam cada vez mais.

Ele olhou para Cálix. O clérigo havia acoplado suas armas de fogo nos braceletes e realizou uma investida. As explosões cor-de-rosa apenas deixaram rastros da imagem do jovem através dos fragmentos de gelo.

Pow!

Um soco na bochecha de Zaltan, seguido de um disparo que ecoou pelos céus. O feiticeiro teve seu rosto quase que completamente deformado por um disparo à queima-roupa.

Esse foi só o primeiro, Cálix prosseguiu, desferindo uma saraivada de socos com tiros pelo corpo de Zaltan.

A velocidade de Cálix estava sendo impulsionada tanto pelo seu misticismo quanto pelo recuo dos disparos de suas armas nos braços.

Cada explosão de um cartucho de bala era um novo movimento que o corpo do clérigo fazia ou era uma nova direção para qual um ataque dele iria.

A princípio, Zaltan apenas aceitou o dano, o corpo dele estava completamente esburacado e suas roupas chamuscadas. Lâmina atacou com outro de seus cortes à distância. Zaltan não respondeu, seu outro braço foi dilacerado. 

Vaia atingiu as costas de Zaltan com um chute embutido de seus relâmpagos vermelhos, o avatar divino teve suas costas queimadas até a carne, mas não chorou. Ele só sorriu de felicidade.

— Materializar!

Todos conseguiram sentir um impacto iminente. As balas de Cálix que se cravaram dentro do corpo do rei de repente saltaram para fora na mesma velocidade, atingindo a todos, menos Talyra, que conseguiu defletir o projétil instantaneamente. Os braços de Zaltan se refizeram num piscar de olhos, superando a regeneração avançada até mesmo de Vaia.

Por sorte, nenhum dos tiros acertou órgãos vitais.

Zaltan conseguiu afastar todos que foram acertados. Talyra se manteve de pé, desfazendo a magia de proteção contra os tiros.

A plataforma de gelo perdeu um pouco de altitude em resposta ao uso excessivo de Aura do feiticeiro.

— Eu odeio magos… Sempre fazem uso da Aura para seu bel-prazer. Não tem nada que eu desgoste mais de quem afeta a ordem natural das coisas — Zaltan ainda falava com a voz de uma idosa, e já tinha alterado completamente sua postura. Agora ele estava um pouco corcunda e com as mãos cruzadas nas costas.

— Tá. Já entendi como vou vencer. — Talyra estava calma e falava com uma voz bem mais confiante.

A maga balançou sua varinha horizontalmente diante de Zaltan. O brilho verde da ponta tomou forma de uma linha e se lançou à frente.

Um ataque óbvio que o feiticeiro desviou na hora, pulando por cima da linha. Abaixo dele, todas as elevações de gelo na plataforma foram cortadas.

— Acho que você errou

— Só estou preparando o terreno…

Ainda no ar, o avatar da Mãe Natureza puxou a umidade de uma nuvem distante e fez diversas lanças no céu que se direcionaram para Talyra, tentando perfurá-la. A maga demonstrou uma confiança imensa e nem se mexeu, Lâmina já estava lá, sua presença congelou as armas.

“Já vi que só água não vai funcionar… a mulher de vermelho também vai anular meus relâmpagos… Se eu tentar ir com força bruta, o clérigo maldito também vai só ser mais rápido que Zaltan…” a consciência da divindade parou por um momento. “Mas é só eu superar eles”

— Devo admitir que estou um pouco enferrujada

Os três sóis pareciam brilhar cada vez mais. Zaltan ergueu seu rosto, iluminado por um calor aconchegante.

Ninguém queria acreditar que mesmo depois de tudo isso…

Ele estava ficando mais forte.

— Não abaixem a guarda! — gritou Lâmina

— Isso está ficando cada vez mais irritante… — murmurou Vaia

O silêncio que seguia Zaltan formando um sorriso torto em seus semblante era agonizante. Cálix sentia sua ira lentamente se esvaindo pela tensão, mas ele não poderia deixar isso acontecer.

— ESTÃO PARADOS POR QUÊ?!

— O desgraçado ainda fica de pé! Eu vou acabar com isso agora!

O avatar se virou para Cálix.

— Na minha época… Clérigos geralmente se trancafiavam em seus próprios monastérios. Caladinhos

Cálix cerrou ainda mais os dentes. Saltou com as explosões de seus equipamentos sem nenhum tipo de plano, nenhum tipo de proteção. Queria só matar.

Zaltan nem se mexeu.

Vaia e Lâmina se entreolharam, cochichando um para o outro em concordância:

— Ele está indo para a morte certa! — disse Vaia

— Não quero que esse maldito morra comigo aqui! — O espadachim já disparou junto do amigo até o clérigo — Falei que iria proteger vocês!

Zaltan entrou em um impasse com os três jovens ali. Conseguia segurar todos eles com facilidade. Mas não gostaria de admitir o mesmo que presumir dele: Todos estavam aumentando a Aura. Aumentando a força, poder e precisão nos ataques.

Além do ódio.

Ele fez o gelo do chão se transformar em diversas estacas, conseguindo perfurar até mesmo Lâmina dessa vez.

Lâmina, Vaia e Cálix se soltaram, partindo para cima de Zaltan, de novo e de novo. Sempre insistiam em mais combates à curta distância, trocavam vezes para lutar contra Zaltan.

Ondas de choque exalavam da plataforma, espantando até mesmo as nuvens.

Cálix perdia mais e mais sangue, toda vez que seus olhos perdiam o brilho. Ele sussurrava “Nanavit” para si, o que fazia ele voltar com determinação total.

Vaia estava visivelmente ficando exausta, sua regeneração desacelerou por ter seus órgãos queimados pelos raios diversas vezes. Os olhos vermelhos deixavam de brilhar.

A Aura de Lâmina enfraquecia, sua espada já havia defletido inúmeros ataques de gelo e relâmpagos do avatar e estava trincada. Uma vez que ele a brandiu, a lâmina simplesmente caiu, nem fincou no chão por estar tão cega.

Talyra tentou bloquear diversos ataques menores de Zaltan nos colegas, estava ilesa. O rei observou isso como uma oportunidade de acabar com um problema grande no futuro.

A maga fez outra linha verde, riscou o chão com um corte profundo. Mais uma vez, Zaltan desviou.

Avançou contra a maga sem nenhum tipo de intervenção, conseguindo desferir um soco bem nas costelas dela.

Por sorte, Talyra não perdeu a consciência, foi lançada para o outro lado da plataforma.

Novamente, ela fez um risco no chão, perpendicular ao que foi feito anteriormente.

“Magos e seus truquezinhos, não posso deixar essa maldita completar esse plano, seja lá qual for”

Zaltan realizou uma investida contra Talyra, impulsionado por relâmpagos.

Agarrou-a pelo pescoço e pulou até o centro da plataforma de gelo.

Já era difícil de respirar pela altitude, Talyra ainda tinha sua garganta pressionada pela mão forte de Zaltan.

Tudo ficava escuro aos poucos. A maga, com seu último suspiro de ar, parecia sussurrar algo.

— …V-Vaia…

— Como eu estava dizendo… — O avatar bateu Talyra no chão, quebrando o gelo e apertando mais seu pescoço — Magos alteram a ordem natural da Aura, e não foi assim que planejei este mundo. Agora, pouco me importa qual magia ridícula você possui, você vai morrer pateticamente como todos os mortais.

“Apesar de que esses olhos verdes são levemente familiares”

Talyra forçou seu braço para levantar a varinha mais uma vez. Zaltan retaliou torcendo contra o chão, quase quebrando.

A adrenalina fluiu pelo corpo de Talyra como uma droga viciante, ela não sentia dor, mas sabia que logo ela viria. Com seus olhos pulsando pela quebra da corrente sanguínea no cérebro, um vulto passou por cima de sua cabeça, atordoando Zaltan.

O rei olhou para frente. Viu apenas o punho de Vaia, brilhando de relâmpagos vermelhos. Com o último uso de suas forças demoníacas, ela golpeou Zaltan com um gancho.

A força era anormal, a divindade no controle nem percebeu que estava alta no céu, acima da plataforma.

— Lâmina! — A voz dela ecoou

Usou seu braço para puxar a plataforma para mais perto, porém, a fria rajada de vento passou, cortando fora o membro acompanhado de um vulto negro.

— Cálix!

Um jato de Aura rosa passou por cima de Zaltan, girando.

O chute do clérigo nas costas do avatar foi devastador. Lançou-o para o chão e quebrou sua postura.

— Talyra! — gritou Cálix, usando todo o ar em seus pulmões feridos — Acaba com essa merda de uma vez!

Desta vez, a divindade conseguia sentir tudo, os jovens estavam todos sacrificando seus últimos esforços, para acabar com ela.

Zaltan bateu na plataforma, sua força divina estava se desfazendo com a potência dos ataques que recebeu, nem conseguia mais regenerar o braço.

A arena de gelo começou a despencar. Caído no chão, Zaltan tentou se levantar, apenas para Talyra pisar em seu peito.

— Idiotas… A Elite d’O Círculo de Wiraqocha não é a única que busca acabar com essa criança maldita… Vocês têm a mínima noção do que pode acontecer se ela crescer?! — A divindade ressoou pelo corpo do rei, agarrando a perna da maga.

— Eu não ligo… — murmurou Talyra — Jurei proteger ela junto dessas pessoas que me apoiam

…!

— E, sobre a minha magia… — A maga se aproximou do rosto de Zaltan, que estava com os olhos arregalados — Matemática… divindade maldita…

— Não é possível…

— “Eixo zero”

Com as duas linhas — horizontal e vertical — cruzando a plataforma de gelo, em cortes feitos no próprio espaço. 

A varinha de Talyra se ergueu contra o rei possuído.

Brilhou em verde. Pulsou. Dobrou de tamanho. E enfim explodiu

O controle da divindade se desfez com uma forte pancada atingindo a cabeça de Zaltan. Atrás dele, um buraco enorme se fez na plataforma.

Talyra suspirou fundo enquanto seus cabelos voavam pela queda. Exalou a frustração em um grito de triunfo que soou por todo o abismo revolto.

Ela venceu…

Eles venceram…

A bebê viveria mais um dia.

Boom!

Splash!

 


 

O Abismo Revolto se encontrava barulhento mais uma vez. Heinrich caminhava sobre as águas, carregando Mirele em suas costas.

A batalha contra Nira havia sido brutal. Mas ele conseguiu sair vitorioso.

Ela fugiu, e sem o sabre negro de Heinrich.

O capitão atravessou os destroços de seu navio, encontrando um barril com barulhos de choro dentro.

— A bebê…! — exclamou

Ele apoiou sua filha em um dos ombros, pegando a bebê com o outro braço.

Ao longe, ele via a plataforma de gelo caída. Todos aqueles moleques… lutando até a morte…

Heinrich só queria evitar brigas. Apenas conseguia olhar para o resultado de seus esforços com olheiras pesadas.

A chuva voltou a cair no oceano. A luz dos três sóis não abençoavam mais aquele campo de batalha.

Se aproximou da plataforma de gelo. Deparando-se com uma visão chocante.

Todos os jovens e Zaltan estão ensanguentados. Mal respiravam.

E Jasmyne… ele nem queria falar.

A bela mulher de cabelos louros estava soterrada por destroços de gelo e as vestimentas de frio da maga.

Ao chegar ao local onde todos se encontravam, Heinrich colocou a filha no chão para ela descansar. Mirele estava gravemente ferida e respirava de forma fraca, à beira da morte.

Fincou o sabre, ainda na bainha, no chão de gelo. Tudo o que queria era chorar; aquela bebê olhava para ele com o rosto fechado. O capitão usou o seu braço forte para proteger a criança da chuva.

Não podia fazer nada pelos jovens. Por isso, esperou. Esperou. Até que os três sóis se encontrassem no horizonte visível a oeste e a tempestade tivesse passado.

Ele não estava sem esperanças. Apenas deprimido. Por não estar lá para proteger estas almas jovens desse caos.

Heinrich se culpava por colocar todos ali naquela situação. Queria se jogar no fundo do oceano para nunca mais ver a cara de sua filha, ou a dos guardiões da bebê.

O rangido de madeira distante era audível. Gritos de diversos homens se aproximavam da plataforma de gelo que derretia lentamente.

Heinrich ordenou que todos, incluindo Zaltan, fossem levados a bordo do navio.

— Capitão… tudo bem? — perguntou um dos homens de Heinrich, ao vê-lo passear em direção a uma cabine reservada.

Heinrich se esforçou o máximo que podia, lábios trêmulos e suspiros que seguravam muitas lágrimas conseguiram expressar uma palavra:

— Sim

— O que devemos fazer com eles? Este não é o rei de Arquoia?

— Não sei se o seu reino vai querer ver ele desse jeito…

Heinrich deveria tomar uma decisão muito difícil ali. Poderia ser considerada egoísta, sim. Mas ele sentia nojo de si, queria vomitar pela própria incompetência.

— Minha rota não vai mudar. — Heinrich engoliu o choro e se virou, balançando o braço — Levem todos eles para Tzoldrich, falarei com a Duquesa Schweitzer.

— M-Mas…

— Isso inclui minha filha, Mirele…

— Por hora, quero fazer o sepulto de Jasmyne… — continuou — preparem o barco a remo.

Alguns minutos depois, um pequeno barco de madeira, tampado por tábuas reservas do navio, foi lançado para o norte.

“Não sei as coisas horríveis que pode ter feito, Jasmyne. Nem eu sei o quão horrível de uma pessoa você pode ser…”

Apesar de tudo… Eles já foram amigos.

Heinrich se lembra das reuniões em Arquoia que participavam juntos, o entusiasmo de anunciar para Jasmyne que tinha adotado duas meninas.

Quando ele recebeu as cartas de Jasmyne sobre o nascimento da filha dela.

Ele gostaria de ter compartilhado esses momentos… ter vivido mais com essa mulher.

Mas no fim… Ela era uma xamã. Uma xamã que servia ao senhor dos mortos…

E ele espera que. Seja lá onde ela esteja. Jasmyne possa viver com sua filha até os últimos tempos de sua alma. Em paz… 

Ele se virou para Cálix, desacordado.

Em amor…

Heinrich voltou para o convés. Se dirigiu até o local onde Mirele repousava e colocou seu sabre embainhado no cinto dela.

Não sabia o que pensar sobre Zaltan, sobre os jovens. Mas sabia que a Duquesa poderia fornecer um tempo para que eles se recuperarem. 

Os jovens foram deixados em um grande colchão. Todos juntos. Nos aproximamos uns dos outros.

E no meio deles, se encontrava a bebê, dormindo pacificamente.

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