Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 23: O Ritual

O apoio divino concedido para Zaltan parecia ficar mais forte, o ar e o mundo vibravam perante sua Aura — como se estivesse viva, consciente ao ritmo de combate crescente do rei de Arquoia.

Quando ele convocou um relâmpago contra Jasmyne, precisou realizar um controle preciso do mar durante um extenso período de tempo.  Agora, porém, o mar o obedecia por instinto. A corrente elétrica podia nascer de onde quisesse.

Vaia foi a primeira a experimentar.

A jovem partiu para cima dele, não demorou para tentar desferir outro de seus chutes que o lançou para fora do navio. O rei, já prevendo algo assim, agarrou a perna de Vaia com muita facilidade e a segurou.

Zaltan carregou sua mão com partículas de água que lentamente tornaram-se pequenas nuvens negras. Elas piscaram e depois brilharam, até que o feiticeiro bateu na barriga de Vaia com a mão aberta.

Os relâmpagos brancos de Zaltan e os vermelhos de Vaia entraram em contato, explodindo o gelo do chão ao redor.

Antes que o rei conseguisse afastar Vaia com outro ataque, Lâmina avançou discretamente pelas costas de Zaltan, preparando um corte com sua espada. Se aquela arma sequer tocasse no rei, ele provavelmente sofreria algum efeito místico de congelamento, não queria arriscar.

Usou sua outra mão, revestida de água, para bloquear o fio da espada. A proteção de Zaltan congelou rapidamente e Vaia estava forçando seu corpo contra os relâmpagos aos poucos.

Ela forçava o corpo para frente junto de suas mãos. Onde estavam as unhas, agora se viam garras afiadas.

Cálix aproveitou que Zaltan estava preso para dar um tiro direto em sua cabeça.

Pow!

Ele efetuou o disparo, mas, da fumaça que se desfez no rosto de Zaltan, a bala dourada se encontrava entre seus dentes.

— Que injusto!

Pow! Pow! Pow!

O clérigo começou a atirar com as duas pistolas sem parar, todos os tiros indo no rosto de Zaltan. A fumaça era dissipada pelo impacto dos disparos, revelando que Zaltan estava manipulando água de alguma forma.

“M-Mas como?! As mãos dele estão ocupadas!”

Ele não tinha movimentos sucintos. A água se mexia por conta própria, defendo os tiros, sendo mais rápida que eles.

A Aura de Zaltan pulsou, espantando Cálix.

— Já chega!

Zaltan cuspiu a bala que estava na sua boca. Deu uma cabeçada em Vaia, lançada para longe pelo ataque dos relâmpagos. Usou do braço, agora livre para encobrir o corpo de Lâmina em uma camada de água que foi congelada.

Cálix até tentou atirar, mas Zaltan se moveu muito mais rapidamente. Fez um escudo de água para cobrir suas costas e girou, preparando um golpe contra Lâmina.

Quando o jovem conseguiu se libertar do gelo, foi imediatamente cumprimentado por um soco de Zaltan direto no peito.

Lâmina cuspiu muito sangue e a mancha vermelha no seu cachecol ganhou mais volume. Sons de gelo se quebrando vinham do espadachim, mas parece que sua Aura não foi o bastante para amortecer o golpe.

— Lâmina!! — gritou Talyra enquanto tentava se aproximar.

— Lily, fique longe! Você não foi treinada para combate!

“Tá certo, seu lixo. Balas não vão funcionar? Tudo bem!”

— Deus, preciso ficar mais rápido… me vê alguma coisa para lutar de perto, por favor. — Cálix fez um gesto com as mãos, em forma de oração para seu Deus.

O clérigo bateu palmas, e, da mesma forma, uma luz dourada brilhou sobre sua cabeça enquanto ele apontava para cima.

Ouro e rosa se cruzaram pelo corpo dele, lhe concedendo pulseiras e tornozeleiras aparentemente normais.

— Clérigo do amor… Não faz sentido… o deus morreu… — a voz de Zaltan ficou bem mais rouca e mais leve, como a de uma idosa.

“Se é para dar o troco… ganhar desse cara, proteger a bebê… Eu não me importo de quantas bênçãos eu tenha que usar, preciso superar o poder de uma divindade, afinal…”

— Eu vou acabar contigo!

No bolso de Cálix, o brilho azul da carta de missão se intensificou, assim como Vaia e Lâmina, não se apagou, entretanto. Ele não estava mais brincando. O Clérigo esticou os braços e as pernas, depois arrancou na direção de Zaltan como um foguete.

Ele estava com sangue nos olhos, dentes rangiam, quase se quebravam. Ele descarregava toda sua raiva em um soco no rosto de Zaltan.

“Um soco de direita…”

As pulseiras de Cálix se modificaram nas pequenas peças, ativando propulsores que alteraram a rota de seu soco. O rei foi pego de surpresa, arregalando os olhos.

Mesmo com a velocidade impressionante de Cálix, Zaltan ainda forçou seu corpo amplificado para poder acompanhar, conseguindo agarrar o pulso do clérigo.

— Eu estou com a força de uma deidade ao meu lado… O que faz você pensar que uns apetrechos mágicos podem me acompanhar?

Cálix levantou a cabeça para Zaltan, seu semblante estampado com um sorriso arrogante de orelha a orelha:

— Tá cego?

Zaltan tentou torcer o braço de Cálix. Foi quando notou: não conseguia apertar mais a mão dele. Na verdade, ele até sentiu um leve calafrio do cotovelo até o rosto.

Os olhos de Zaltan brilharam intensamente em azul, seguido de um pulso elétrico que foi até o seu braço cortado, que nem chegou a sangrar.

“Ele cauterizou o sangramento com o pulso elétrico?!” Talyra observou, pasma.

Zaltan virou a cabeça e viu Lâmina cambaleando enquanto terminava de brandir sua espada no ar. Outra brisa gélida atingiu seu rosto, congelando seus cílios e sobrancelha.

Fiiiiuuuíí!

Cálix assoviou para chamar a atenção de Zaltan, quando o rei virou-se de volta para o clérigo, Cálix o golpeou com o próprio braço dele, enquanto Vaia chegava do outro lado com uma joelhada voadora no templo oposto do crânio.

Zaltan caiu de joelhos, Vaia e Cálix já prepararam outro golpe em conjunto para destruir ele de uma vez por todas.

Outro tremor chegou pelo campo de gelo criado por Lâmina. Todos perderam o equilíbrio exceto por Cálix. O espadachim e Vaia fincaram espada e unhas no gelo para se manterem parados.

Cálix recuou e segurou Talyra, deixava os propulsores da sua bota o equilibrarem. Ele fitou Zaltan, parecendo mais preocupado com o que estava funcionando.

Seu corpo ficou pesado, e o clérigo teve um leve mal-estar. O mar distante no horizonte ficava mais baixo…

Ninguém conseguiria parar ele naquele momento sem arriscar cair centenas de metros.

Vaia rosnou e Lâmina ajustou sua postura.

O rei se levantou assim que a plataforma parou de se mexer. 

Era extremamente difícil respirar pelo ar rarefeito — mesmo assim, Vaia e Lâmina decidiram partir para cima de Zaltan.

Um combate em uma perfeita sincronia inexplicável. 

O rei conseguia se defender automaticamente com o apoio da Mãe Natureza, Lâmina e Vaia conseguiam apoiar mutuamente. A água ofensiva era congelada e os relâmpagos de Zaltan eram completamente anulados pelos de Vaia.

A Aberração com seus raios e olhos vermelhos, uma Aura sombria pulsava ao redor dela, como um amálgama de instintos primitivos e técnicas de combate que se aprimoraram a cada golpe.

Lâmina mantinha seus olhos roxos fixados. Nem uma única rajada de vento naquela altura conseguia desestabilizar sua postura. Força e magia bruta sendo usadas para sobrepujar o poder resoluto de uma divindade.

“O que houve com eles? Estão lutando como máquinas! Desde que suas cartas de missão se apagaram…” pensou Cálix.

“Ah… Eu não vou conseguir lutar… Essa briga escalou demais, se eu tentar intervir ou ajudar… eu vou…” Talyra se afundava nos pensamentos enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Tudo que ela conseguia fazer era olhar para cima. 

Cálix notou os suspiros da menina:

— De novo, não… Lily…

Cálix se lembrou da conversa que tiveram em Fajilla…

“Sabe o que eles dizem? Que eu sou uma fracassada. Uma menininha mimada com o ‘livrinho do papai’ que nem sabe usar a própria magia!”

Ele viu a maga segurando o livro na outra mão. Ela ainda segurava a bengala, cheia de truques e de desculpas.

— Lily! — Cálix se aproximou — Quer realmente ajudar? Então largue a bengala

Sua voz não tinha raiva, apenas urgência. As veias no pescoço dele tremiam…

A maga recebeu sermões como esse poucas vezes… Queria chorar, correr para o colo de seu pai… Mas ele não estava lá.

Agora ela não estava mais na academia, não estava mais com os outros alunos… Ela veio até aqui pela missão d’O Círculo… Estava com estranhos, que cuidaram dela e estão determinados a se apoiarem por um único objetivo…

Talyra arregalou os olhos quando Cálix a levantou pela gola, falando bem perto do rosto dela, ela percebeu… Que não fosse lutar por ela mesma, pelos companheiros…

“Será que eu deveria?” Ela afrouxou sua mão segurando o livro.

— Isso é uma missão do Círculo! Sabe o que significa?!

— Que é com elas que nos redescobrimos, nos reinventamos. Devemos constantemente abrir mão do passado para concluir a missão!

“Devo abdicar da única lembrança de meu pai para proteger a criança?”

Cálix sentiu a dúvida vindo do coração da menina, respondeu em certeza, com um grito determinado:

Sim!

A maga olhou para o abismo abaixo, tentou ver onde estaria Milene e Mirele. Não achou nenhuma das duas, apenas um vulto se mexendo em meio aos ataques turquesa de uma figura misteriosa.

“Eu senti raiva de ter a chance de perder tudo o que eu tinha a respeito de meu pai… Mas agora…”

Ela soltou o grimório… As anotações, lembretes de amor, memórias afetivas…

No bolso de Talyra, a carta dela brilhou em azul… e se apagou completamente.

O livro se tornou um pequeno ponto no azul abaixo até que caiu na água. Nenhum efeito, nenhum último truque. Um livro comum, carregado de um peso considerado apenas por Talyra.

Ela agarrou o pulso de Cálix que a segurava, apertou a varinha com a outra.

— Pode me soltar… — Parecia até mesmo outra pessoa falando, uma voz certeira e mais madura saiu debaixo daquele chapéu junto de um brilho esverdeado de seus olhos.

O clérigo soltou ela, Talyra se levantou e andou lentamente até a luta. Lâmina e Vaia estavam ofegantes, cobertos do próprio sangue. Já Zaltan mal havia se ferido após ter seu braço cortado.

A maga tirou o casaco e o chapéu e os colocou sobre o corpo desfalecido de Jasmyne ao lado, coberto de fragmentos de gelo… Talyra suspirou fundo e deixou uma lágrima cair no rosto da xamã.

Enquanto Talyra parecia carregar uma magia na ponta de sua varinha, o tempo praticamente paralisou para Cálix, ele ainda não entendia. A carta de missão de todos eles se apagaram, mas a dele não… 

Ele colocou a mão sobre a boca, se perguntava do elemento que restava para ele conseguir apagar a própria carta, conseguir atingir novos níveis de poder…

Lâmina largou as restrições impostas sobre si para liberar sua Aura na potência máxima.

Vaia largou sua humanidade e se entregou completamente aos instintos demoníacos para proteger a bebê.

Talyra abdicou de seu passado e das memórias confortáveis para se reinventar e conseguir usar sua magia sem medo.

O que o clérigo do amor deveria fazer? Uma reza? Deveria perguntar para seu Deus sobre o que fazer?

Ele até tentou questionar seu Deus, mas ele não respondeu nada. Sempre agiu de maneiras misteriosas

“Pensa, Cálix! Pensa! Você ajudou todos eles a atingirem este nível! Será que é o passado…?”

“Eu quero realmente lembrar do passado? Eu já deixei ele para trás!”

Todos os jovens de repente viram: a carta prateada de Zaltan voltou a brilhar, levitou no ar e se abriu. Eles pararam de atacara e avançar, assim como o rei.

 


 

Por meio de suas cartas pessoais, a Elite d’O Círculo se comunicava para fazer uma de suas reuniões periódicas.

Atualmente seria a vez dos membros da sede oriental de comentar sobre a situação do continente deles.

— De fato, temos um novo candidato lutando atualmente. — disse Alexei, o Magistrado.

Alexei continuou, erguendo os olhos:

— Imagino que estejam cientes das tempestades no sudeste do Abismo Revolto

— Uma intervenção da Mãe Natureza?! — exclamou Nanavit — O que a senhora da feitiçaria estaria fazendo abençoando o monarca de Arquoia?! 

Os murmúrios continuaram dos outros membros. 

IIsaac interveio para acalmar a todos com uma voz firme:

— Já basta! A sede oriental fechará as comunicações por hora, faremos uma inspeção mais detalhada na situação e voltaremos com um relatório.

As cartas de todos brilharam, com os ecos da chamada mostravam apenas as conexões de Nanavit, Alexei e IIsaac.

— Então… — Nanavit revirou os olhos, entediada — querem ver como o Zaltan está indo?

— Pode ser. Estou estabelecendo um canal de vídeo para a carta de missão de Zaltan neste exato momento. Por favor, aguardem — disse IIsaac.

A carta dos três se expandiu e ganhou uma textura de vidro, como se uma tela se abrisse diante deles, mostrando o campo de batalha em altíssima qualidade.

Quando a carta de Zaltan se abriu no ar, uma espécie de lente parecia ter se formado no papel, fazendo o uso do objeto como uma câmera para observar o campo de batalha inteiro.

Todos pararam de lutar, olhavam surpresos para a carta no ar.

— O que é isso? — murmurou Cálix, confuso

A carta se virou rapidamente para o clérigo, aproximou-se e começou a rodeá-lo.

— Ah, Gi. Não é aquele moleque que você comentou antes?

A voz grossa de Alexei ecoou pelos céus.

— Dá pra calar a boca?! — retrucou ela, irritada

Não foi necessário mais nenhuma letra. Cálix ouviu a voz dela e era mais real do que poderia ser.

Quem tanto odiava, se fez presente por meio de uma imagem borrada através da carta de Zaltan.

Nanavit fitou ele com um olhar de desprezo absoluto.

— Ora, ora, ora… Meu anjinho… O que um verme como você faz andando por aí? Achei que tinha matado você daquela vez — a voz dela era doce e infantil, mas falsa como uma víbora. Tentou forçar um sorriso.

Cálix mordeu a língua com tanta força que sangue escorreu de sua boca. Ele estendeu o pescoço até a carta flutuante.

A Aura dele se alterou de maneira instável, e todos ali sentiram isso.

Cálix teve a sensação de seu Deus tentando acalmar seu coração e sua alma como um vento suava. Dizendo para que ele controle suas emoções — a parte vital de um Clérigo.

Ele não poderia sucumbir ao ódio, não naquele momento.

— Zaltan… ou Mãe Natureza, seja lá quem está aí agora… — riu Nanavit, bocejando — Acabe com isso logo. A gente se fala depois 

— Fechando canais de comunicação — finalizou Alexei

A carta parou de brilhar e voltou rapidamente ao bolso de Zaltan.

Todos ainda mantinham a vista fixa em Cálix. Ele olhava para baixo, respirando fundo e suando. Seus olhos arregalados mostravam veias intensas e ele tremia muito.

Rosnou enquanto a Aura rosa de seu corpo ganhava saturação, indo de um rosa-claro até um rosa choque. Tomava conta da Aura dourada divina de seu Deus.

O mesmo tentou acalmar o coração de Cálix. Mas não havia mais espaço para amor naquele espírito.

— Foda-se você, deus de merda… — murmurou ele, em uma voz de choro, rasgando a própria fé — … você nunca esteve lá!

Cálix convocou as pistolas de antes e engatilhou as duas:

— Agora que eu sei com quem estou lidando… vou matar esse cara!!

O chão de gelo sob os pés de Cálix tremeu e rachou, suas lágrimas viraram sangue.

A carta dele também se apagou.

Neste momento as cartas de todos os jovens estavam apagadas. Num instante calmo naquele céu iluminado pelos três sóis, todos estavam certos do que deveriam fazer…

Liberar todo seu poder…

Abrir mão da humanidade…

Largar o passado…

Ou se lembrar dele e do seu propósito atual…

A carta deles brilhou em branco, com o papel de cada uma saindo do envelope, ele exibia uma nova mensagem:

“Missão em grupo ativada!”

“Integrantes: Lâmina Gélida, Vaia, Talyra Arithmos e Cálix Valente! Vocês atingiram os requisitos secretos para despertar a missão de escolta. Classe da Missão foi de Escolta para ??? Grau: Nacional para Global. Dificuldade: Nula

“Nova diretriz de missão adicionada!”

“Impedir o Kapakocha”

A nova ordem estourou nos céus como uma explosão revelada. 

Os quatro jovens viraram suas cabeças para Zaltan, completamente determinados. O rei possuído apenas respondeu com um sorriso na voz de idosa:

— Não preciso mais me segurar neste corpinho… Podem vir

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