Volume 1
Capítulo 19: Subjugação das Trevas (11)
Alcancei o objeto. Com as mãos ensanguentadas, segurei nele. O sangue escorreu por sua superfície, infiltrando-se nas estranhas fissuras como se fosse absorvido. A arma pulsava — não, respirava. Uma energia própria, quase viva, emanava dela, algo maligno e ancestral. Prometia poder. Mas havia algo errado. Muito errado.
De repente, senti como se o ar tivesse congelado ao meu redor. Uma sombra negra e perturbadora emergiu diante de mim. Era como se a própria escuridão tivesse ganhado forma. Eu quis soltar a arma, mas meus dedos estavam colados nela. Presos. A sombra inclinou a cabeça e sorriu... aquele sorriso vazio, inumano, como se já soubesse meu destino.
O medo veio como uma avalanche. Intenso. Cruel. Eu nunca havia sentido algo assim. Minha pele parecia arder enquanto a sombra me encarava.
"Que frio... Não consigo me mover. Por que tudo está escuro?"
E então veio a dor. Uma dor tão devastadora que parecia me despedaçar de dentro para fora. Era como se algo estivesse me arrancando — não só a pele, mas a alma. Eu gritei, ou tentei gritar, mas nenhum som saía. Tudo que eu sentia era a pressão esmagadora daquela presença.
A criatura me dilacerava, pedaço por pedaço, com uma lentidão insuportável. Enquanto meu corpo era despedaçado, algo estranho acontecia: meu braço começou a crescer de novo. Minha perna, antes perdida, se regenerava. Mas não era natural. Não era humano. Eu podia mexê-los, mas aquilo não era meu. Não mais.
A sombra não parava. Ela invadia cada parte de mim. Meus pensamentos. Minha essência. Minha alma.
"Por quê? O que está acontecendo? Alguém... me ajude!"
E então, quando eu pensei que não poderia piorar, a criatura riu. Um som gutural e distorcido que ecoava dentro da minha cabeça, como se zombasse de mim. Ela me atravessou, literalmente se fundindo ao meu corpo.
Eu flutuava, impotente, enquanto um tornado de trevas se formava ao meu redor. Raios negros cortavam o céu, e minha voz se perdeu em gritos de pura agonia. A floresta parecia distante agora, quase inexistente. Eu era apenas uma marionete naquele vórtice de escuridão.
A fumaça negra engoliu tudo. O mundo ao meu redor desapareceu, e eu estava sozinho naquele vazio opressor. Meu corpo tremia, mas no fundo, eu sabia que já era tarde demais.
"Quanto isso vai me custar? O que mais essa floresta vai tirar de mim? Não sei... e talvez nunca descubra."
Enquanto tudo isso se desenrolava, a criatura que antes me enfrentava estava paralisada. Seus olhos, que antes carregavam um brilho ameaçador, agora estavam arregalados, fixos na sombra negra que dominava o ambiente. Ela não se movia, não emitia um som. Parecia temer mais a presença daquela escuridão do que a própria morte.
Mas para mim, aquilo não parava. Pelo contrário, só ficava mais intenso. A energia sombria me consumia, fragmentando o que eu era. Minha mente lutava para se agarrar a alguma fagulha de humanidade, mas era como tentar segurar areia que escorria pelos dedos.
"O que restou de mim... ainda pode ser chamado de humano?"
Meu corpo inteiro parecia distorcido, estranho. Meus cabelos pretos e curtos começaram a crescer, cada fio mudando de tonalidade, adquirindo uma coloração surreal, como se a escuridão estivesse escorrendo deles. Não era apenas minha aparência que estava mudando — era tudo. Meus sentidos, minha carne, minha própria essência.
Olhei para minhas mãos e quase não as reconheci. Veias pulsavam com uma energia desconhecida, a pele dos meus membros regenerados assumia um tom que parecia desprovido de vida, e meu coração... Bem, eu não tinha certeza se ele ainda batia.
"Isso é bizarro... tudo em mim está diferente."
Mesmo no caos, no terror absoluto, algo dentro de mim sabia que não havia retorno. A sombra estava me refazendo, moldando-me à sua vontade. O que eu me tornava ali, naquele instante, já não pertencia ao mundo que eu conhecia.
A criatura diante de mim não ousava dar um passo, enquanto eu, um misto de dor, desespero e transformação, só podia observar o que restava da minha antiga vida se desfazer.
"Isso... isso vai terminar algum dia?"
Mas no fundo, eu sabia: o que quer que eu estivesse me tornando, era algo que jamais seria o mesmo.
Quando menos esperava, enquanto meus olhos vagavam pelo céu turbulento, um clarão rasgou as nuvens com uma fúria avassaladora. Antes que eu pudesse reagir, o raio desceu em minha direção com uma velocidade esmagadora, como se o próprio céu estivesse me julgando.
O impacto foi devastador. O raio me acertou com tudo, atravessando meu corpo como uma lâmina de energia pura. A explosão que se seguiu foi ensurdecedora, e o clarão ofuscante engoliu tudo ao meu redor, transformando a noite escura em um mar de luz branca e avassaladora.
Fui prensado no chão com uma força brutal, enquanto sentia meu corpo arder e se contorcer em agonia. Por um breve momento, não havia som, apenas o zumbido lancinante que ecoava em minha mente. A terra ao meu redor foi reduzida a cinzas, e as árvores próximas pareciam dobrar-se em reverência ao poder destrutivo que acabou de se manifestar.
Era como se o mundo inteiro tivesse parado, suspenso no caos daquele instante. E então, a escuridão começou a retornar, lenta e opressiva, enquanto meu corpo estava pesadamente no chão.
Enquanto toda aquela fumaça densa se dissipava ao meu redor, comecei a me erguer, ainda meio cambaleante. A cabeça girava como se o mundo ao meu redor estivesse desmoronando e se reconstruindo ao mesmo tempo, mas, aos poucos, tudo parecia voltar ao normal. A dor, que antes me consumia, desapareceu como se nunca tivesse existido.
Passei as mãos pelo meu corpo, tentando entender o que havia mudado. Mas, ao olhar para mim mesmo, um calafrio percorreu minha espinha.
— O que... o que aconteceu com o meu corpo? — murmurei, a voz falhando enquanto observava minha perna transformada e o braço coberto de marca sombrias. Minhas mãos ostentavam garras grotescas, mais de fera que de humano. — Que perna é essa? Tudo em mim parece tão... sinistro.
— Hum... vejo que ganhei mais físico. Por um lado, isso foi bom... — falei para mim mesmo, tentando encontrar sentido no caos que me cercava. — É como se eu tivesse treinado por anos, desde criança. Não que antes eu fosse um completo frangote, mas... isso é diferente. Estou sentindo algo mais... algo que eu não consigo explicar.
Apesar do medo que começava a crescer, não pude ignorar uma estranha leveza que percorreu meu corpo. Era como se a gravidade não tivesse mais o mesmo efeito sobre mim, como se eu pudesse me mover com uma agilidade e força que antes não possuía.
— Que sensação é essa? — sussurrei, sentindo algo gelado e quase reconfortante ao meu redor. — É como se... aquela sombra ainda estivesse aqui, me abraçando.
Uma risada seca escapou dos meus lábios, talvez nervosa, talvez incrédula. Olhei para minhas mãos mais uma vez, tentando aceitar o que havia acontecido.
Grande força pulsava em minhas veias, mas junto com ela, um peso desconhecido. O que quer que eu tivesse me tornado, não era mais a mesma pessoa que antes daquele clarão.
Mas, em meio a toda aquela surpresa, me dei conta de algo que havia esquecido: a criatura ainda estava ali, bem na minha frente. Eu teria que acabar com ela, e rápido.
— Mas espera aí... cadê aquela arma que eu estava segurando? — murmurei, olhando ao redor desesperadamente. — Ela sumiu do nada!
Meu corpo começou a pulsar, cada batida do coração ecoando como um tambor de guerra em meus ouvidos. Era como se o próprio sangue estivesse vibrando, uma energia desconhecida e avassaladora tomando conta de mim. Fiquei completamente imóvel, congelado no lugar como uma estátua de pedra. Mas meus olhos... eles se fixaram na criatura, e, de alguma forma inexplicável, consegui ver além de sua aparência grotesca.
Dentro dela, no fundo de sua essência, havia algo que eu nunca esperaria encontrar: medo. Um medo visceral, sufocante, que fazia seu corpo hesitar. Ela não se movia. Nem mesmo um único passo. Quando aquela energia continuou a pulsar ao meu redor, ela recuou instintivamente, suas garras tremendo, como se a simples ideia de se aproximar fosse insuportável. Sua respiração ficou irregular, e seus olhos, antes cheios de arrogância e fúria, agora eram preenchidos por uma incerteza quase infantil.
Era a sombra. Não a minha sombra literal, mas a escuridão que emanava de mim, como se o vazio dentro de mim tivesse ganhado vida própria. Aquela criatura, que antes parecia invencível, agora temia aquilo que ela não podia compreender ou enfrentar. E eu... bem, eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas sabia que algo tinha mudado. Algo profundo, irreversível.
— Olha só, seu maldito! Está paralisado de medo? Vou acabar com você agora mesmo! — gritou ela, avançando ferozmente em minha direção.
Apesar do terror evidente que a consumia, ela não cedeu. Seus movimentos eram tensos, quase hesitantes, mas sua determinação ardia mais forte que o medo. Ela não se permitia ser derrotada, nem mesmo por aquilo que não compreendia. O rugido que soltou parecia tanto uma tentativa de me intimidar quanto de afastar a própria sensação de impotência que a atormentava.
— Que droga! Meu corpo não me obedecia, eu simplesmente não conseguia me mexer. Era como se algo estivesse me prendendo. Enquanto isso, a criatura vinha cada vez mais perto, seus movimentos eram rápidos e impiedosos
— Como vou derrotar aquela coisa?!
Minha respiração estava descontrolada, cada inspiração queimando como fogo em meus pulmões. O pânico ainda rondava, tentando se infiltrar em minha mente, mas algo dentro de mim começou a mudar. Era como se uma presença adormecida tivesse despertado. Pela primeira vez, eu não me sentia apenas a presa.
Um impulso inesperado percorreu meu corpo, como um chamado vindo de algum lugar profundo e desconhecido. De repente, meu braço transformado se moveu por conta própria, como se fosse guiado por uma força além da minha compreensão. Não era um movimento consciente — era instintivo, inevitável. Antes que eu pudesse processar o que acontecia, senti o peso familiar da arma em minhas mãos novamente.
Minha visão se fixou nela, e um misto de surpresa e determinação tomou conta de mim. Algo estava diferente. Aquilo não era apenas uma arma; era uma extensão do que eu havia me tornado.
Era um machado enorme, pesado, com um brilho sinistro que parecia refletir o terror do momento. Suas lâminas afiadas emanavam uma energia cortante, algo que parecia capaz de atravessar qualquer coisa.
— Que...? Essa arma acabou de aparecer na minha mão do nada! Como isso é possível? — exclamei, a mente lutando para processar o que estava acontecendo.
— Mas mesmo assim... eu ainda não consigo me mexer! Vai logo, corpo, se mexa
A criatura continuava avançando, mas, para mim, parecia que tudo ao redor se movia em câmera lenta. Eu podia ver cada detalhe, cada gota de saliva pingando de sua boca, cada músculo tenso enquanto ela corria para me atacar.
— Ela está mais perto. Mas para mim, não podia ficar ali parado... — murmurei, enquanto uma onda de frustração crescia dentro de mim.
— Eu tenho todo esse poder, mas não consigo usar! Será que meu corpo não está acostumado com toda essa força?
A tensão era insuportável. Eu sentia o peso do machado em minha mão, a força latente em meu corpo transformado, mas algo ainda me impedia de agir. A criatura estava cada vez mais próxima, e o tempo parecia estar se esgotando. Eu precisava fazer algo... antes que fosse tarde demais.
A chuva começou a cair novamente, suas gotas frias despencando do céu pesado e se chocando contra o chão em uma sinfonia melancólica. Eu via cada uma delas em detalhes, como se o tempo estivesse desacelerado, cada impacto na terra ecoando em minha mente confusa.
O que mais eu podia fazer? Meu corpo não respondia, como se a sombra ainda o governasse. Cada fibra gritava por movimento, mas a escuridão me mantinha preso, enquanto o perigo se aproximava a cada passo.
A sensação de impotência era esmagadora. Eu tentava me mover, gritar, fazer qualquer coisa, mas tudo era em vão. Não havia resposta.
—Morrer... será que era isso que me aguardava?
Mas, no fundo, algo me dizia que não. Não seria assim tão simples. A sombra que agora habitava meu ser não parecia disposta a me deixar perecer tão facilmente. Eu não tinha respostas, mas uma coisa eu sabia com certeza: talvez morrer não fosse meu destino. Talvez, de alguma forma perturbadora, a batalha ainda estivesse longe de terminar.
As gotas de chuva se misturavam à lama ao meu redor, enquanto meu corpo parecia estar à beira de algo que eu ainda não conseguia compreender. Era um momento de espera, de tensão... como a calmaria antes de uma tempestade ainda maior.
Eu não tinha percebido no início, mas mesmo com a chuva caindo incessantemente, o calor ao meu redor estava aumentando de forma anormal. Era como se o ar estivesse fervendo, denso e opressivo.
Meus olhos percorriam o ambiente freneticamente, buscando qualquer sinal de algo fora do comum, mas tudo parecia estranhamente calmo. No entanto, em questão de segundos, o machado em minha mão começou a pegar fogo.
— Que negócio é esse?! Está pegando fogo! — exclamei, surpreso, enquanto observava as chamas se formarem e dançarem sobre a lâmina.
O fogo, porém, não era comum. Ele começou a crescer, e logo as chamas se tornaram negras e roxas, pulsando como se tivessem vida própria. O calor ficou insuportável, irradiando em ondas que me faziam suar, mesmo debaixo da chuva.
Meu braço, o que segurava o machado, começou a mudar. A pele ficou vermelha, incandescente, como ferro em brasa recém-saído de uma fornalha. Cada gota de chuva que tocava nele evaporava instantaneamente, criando pequenos sibilos e nuvens de vapor que flutuavam ao meu redor.
Eu tentava me acostumar com aquilo, controlar a sensação, mas era quase impossível. O calor não era apenas físico; ele parecia entrar na minha mente, queimando qualquer vestígio de controle que eu ainda tinha.
E mesmo assim, algo dentro de mim insistia que eu deveria resistir.
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