Volume 1
jogo 9: candle woods

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“Não lute contra um assassino endurecido.”
Essa foi uma lição que Yuki aprendera certa vez, há muito tempo.
“Essa indústria atrai muitos tipos problemáticos. Pode chegar o dia em que você cruze o caminho de um psicopata sedento de sangue… mas não pense nem por um segundo em enfrentá-lo. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para evitar um confronto direto.”
Essas palavras haviam vindo de — usando um termo comum — sua mentora.
Mesmo em uma profissão tão mortal quanto a de Yuki, existiam relações de mentora e pupila.
Como qualquer veterana da área, Yuki também já havia sido orientada, aprendendo os truques do ofício em algum momento.
“Quantidade de experiência em jogos, especificações do seu equipamento — nada disso importa. No instante em que jogadoras como você ou eu entram em combate contra um psicopata enlouquecido, nossas chances de vitória caem para zero.”
“…Eu não entendo”, protestou Yuki. “Até eu já tirei vidas com as minhas próprias mãos. Sem contar que sobrevivi a inúmeros jogos que envolviam combate entre jogadores. Isso é mais do que suficiente para que a sociedade me veja como uma assassina fria… e mesmo assim você diz que eu não conseguiria vencer alguém assim?”
“Não conseguiria. Na verdade, a sua experiência só a coloca em ainda mais desvantagem. Você foi moldada para sobreviver, não para matar. São conjuntos de habilidades completamente diferentes. Pense nisso como a diferença entre um mangaká e um ilustrador. Um fisiculturista e um atleta. Um artista marcial e um gângster.”
O objetivo desses jogos não é matar — é sobreviver. Treinamos nossos corpos e mentes em torno desse único propósito, então nossas habilidades não funcionam em um campo diferente.
Ninguém pode competir com alguém que se especializa em assassinato. Nem mesmo profissionais de jogos mortais como nós temos chance contra um jogador amador que matou alguém no calor do momento. Não existe caminho para a vitória. Portanto, evite o confronto a qualquer custo.”
“E se eu não tiver outra escolha?” perguntou Yuki. “E se for a única maneira de concluir o jogo? O que eu deveria fazer então?”
“Aceite o seu destino.”
A resposta foi fria e impiedosa.
“Você só pode rezar para nunca se encontrar nessa situação.”
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Yuki despertou sobre um colchão familiar.
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Ela conhecia aquela cama — o que significava que nenhum jogo novo havia começado.
A familiaridade servia como prova de que Yuki estava deitada dentro do Apartamento 107, em um prédio residencial de concreto armado com trinta anos de idade, localizado a quinze minutos de caminhada da estação de trem mais próxima. Um apartamento tipo estúdio que lhe custava trinta e cinco mil ienes por mês, taxas de manutenção incluídas.
Ela se sentou, sentindo-se decepcionada, como se tivesse sido arrancada de um sonho agradável.
O quarto estava completamente às escuras.
Era noite.
Yuki estendeu a mão e tateou ao redor, tocando o chão várias vezes antes de finalmente conseguir pegar o celular. Após pressionar um botão e fazer a tela ganhar vida, conferiu o horário.
O visor marcava 2:07.
Ela lançou um olhar para a janela sem cortinas. Pouco era visível além do vidro. Tirando os postes de luz que pontilhavam a paisagem distante, tudo estava envolto em escuridão. Se fosse de tarde, o visor mostraria 14:07, então Yuki não teve escolha a não ser aceitar que já passava um pouco das duas da manhã.
Ela refletiu sobre as lembranças do dia anterior. Depois de um almoço tardio, cochilara no começo da noite. Um forte sono a tomara — possivelmente resultado de um pico de açúcar no sangue — e, sem ânimo para fazer qualquer coisa, ela se enfiara debaixo das cobertas e fechara os olhos. Calculando a partir do horário atual, percebeu que cerca de oito horas haviam se passado desde então.
O ritmo de sua vida estava completamente desajustado.
Yuki se levantou, segurando a cabeça ainda pesada.
Ela acendeu as luzes, iluminando todo o seu horrível apartamento de um cômodo.
Primeiro ponto horrível: havia mais sacos de lixo cheios do que móveis. Três sacos de lixo queimável e cinco sacos de lixo plástico estavam espalhados pelo chão. Em comparação, os únicos itens que poderiam ser chamados de móveis eram um conjunto de cama, uma geladeira e um pequeno cofre para objetos de valor. Yuki não possuía mesa, panela, faca ou qualquer outro utensílio de cozinha.
Segundo ponto horrível: uma montanha de caixas de papelão ocupava um canto do quarto. Yuki não as estava acumulando de propósito; ela simplesmente não fazia ideia de como descartá-las em sua cidade.
Terceiro ponto horrível: mofo crescia nas quatro paredes. Yuki não sabia como lidar com aquilo. Seria algo natural, impossível de remover? Ou talvez, se ela aprendesse algumas habilidades básicas de vida, o mofo lhe prestaria reverência e desapareceria?
Quarto ponto horrível: as únicas roupas espalhadas eram agasalhos esportivos. Isso não era surpresa, já que Yuki não possuía nenhum outro tipo de vestimenta, além de alguns trajes usados em jogos anteriores. Ela jogara todo o resto fora por causa do problema do mofo. Como se sentia constrangida em ser vista usando um agasalho, passara a sair de casa exclusivamente à noite.
Além desses, havia muitos outros elementos horríveis a mencionar — fios de cabelo espalhados pelo chão, o fato de ela não conseguir dizer se havia tomado banho ou não, e assim por diante — mas como a lista não teria fim, nada mais será citado.
O estômago de Yuki começou a reclamar de fome.
Ela abriu a geladeira em busca de comida, mas não encontrou nada. Isso não significava que o interior estivesse vazio. Na verdade, estava lotada até a borda — caixas de leite vazias que ela negligenciara descartar há muito tempo, restos de comida enlatada que temera deixar fora da geladeira, um repolho que havia enfiado ali em algum momento desconhecido do passado, um pequeno saco de temperos que sua avareza a impedira de jogar fora, fatias de queijo que certamente já haviam adquirido poderes mágicos… e muito mais.
Yuki fechou a porta para proteger sua sanidade daquela visão aterradora.
Ela trocou o agasalho de dormir pelo que usava para sair. Era o mesmo tipo de agasalho e, sendo bem sincera, a diferença de limpeza entre eles era mínima. Ainda assim, Yuki sempre seguia esse hábito. Mesmo não tomando banho todos os dias, ela ficaria insatisfeita se ao menos não mantivesse essa rotina.
Calçou os sapatos com os pés descalços e saiu do apartamento. Graças ao Tratamento de Preservação, não precisava se preocupar em machucar os pés.
Após caminhar por cinco minutos, chegou a uma loja de conveniência. No entanto, por algum motivo, sua fome havia desaparecido nesse curto intervalo de tempo. Apesar de ter perdido o apetite, ela já havia caminhado até ali, então pegou um sorvete que chamou sua atenção enquanto percorria os corredores e seguiu até o caixa.
Pegou o celular e pagou 220 ienes com dinheiro eletrônico.
Depois disso, esperou alguns instantes com o sorvete apoiado no balcão.
“……?”
Ela olhou para o caixa, que a encarava com confusão.
“Ah… uma sacola também, por favor.”
Certo. Yuki havia se esquecido de que as sacolas plásticas haviam deixado de ser gratuitas há algum tempo. Ela não receberia uma a menos que pedisse. Já fazia três dias desde a última vez que falara algo, então sua voz não saiu muito clara, mas pareceu ter sido compreendida.
Após pagar mais três ienes com dinheiro eletrônico, deixou a loja de conveniência com a sacola plástica na mão.
Enquanto caminhava pela rua noturna, Yuki tirou o sorvete. Era do tipo no palito. Ela não tinha qualquer reserva em comê-lo enquanto andava.
No instante em que abriu a embalagem, percebeu que não precisava de uma sacola plástica para começo de conversa. Logo em seguida, lembrou-se de que precisava repor seu estoque quase esgotado de sacos de lixo, então se virou — mas deu apenas alguns passos antes de parar.
Ela já havia aberto o sorvete e se sentiu envergonhada ao imaginar encarar o mesmo atendente novamente, então desistiu da ideia.
Yuki comeu o sorvete. Estava delicioso. Ela terminou antes mesmo de chegar à metade do caminho de volta para casa, colocando o palito dentro da embalagem antes de jogá-la na sacola plástica. Prendeu a sacola no dedo e a girava enquanto caminhava, mas, ao atravessar uma ponte, a sacola escorregou de seu dedo e voou para fora do corrimão, caindo no rio e sendo levada pela correnteza para um ponto distante demais para ser recuperado.
Embora a situação estivesse fora de seu controle, Yuki sentiu uma culpa esmagadora por ter jogado lixo.
Foi então que se lembrou de que o lixo queimável seria recolhido no dia seguinte. Ela precisava se livrar dos três sacos acumulados em seu quarto, mas achou isso trabalhoso demais. Se aquela sacola plástica não tivesse sido levada pelo rio ou… Enquanto inventava desculpas, arrastou-se de volta ao prédio.
No entanto, ela não voltou ao seu quarto.
Um carro estava parado em frente ao edifício.
A janela do lado do motorista estava aberta, e alguém falou com ela de dentro do veículo:
“Desculpe incomodar a esta hora.”
Era o agente de Yuki.
Depois de concluir seu terceiro ou quarto jogo, ela recebera um agente exclusivo. E, devido ao seu estilo de vida noturno, ele normalmente aparecia no meio da madrugada.
“Você foi convidada para participar de Candle Woods. Seus preparativos estão concluídos?”
Era uma pergunta estranha. Ela vestia um agasalho e estava voltando da loja de conveniência — era óbvio que não havia feito nenhum “preparo”. Mas aquilo não era novidade. Todas as vezes, ela aceitava o convite com a roupa que estivesse usando, então o agente certamente imaginava que dessa vez não seria diferente.
E Yuki não tinha a menor intenção de trair essa expectativa.
“Sim. Por favor, leve-me até lá imediatamente”, respondeu.
Ela abriu um sorriso.
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Início do jogo.
Yuki despertou no meio de uma floresta.
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Ela estava no meio de uma floresta.
Yuki abriu os olhos e viu raios de luz atravessando as árvores acima. Embora sempre tivesse dificuldade para acordar no início de um jogo, a luz do sol a despertou rapidamente. Ela se sentou e examinou os arredores. No instante seguinte, percebeu que fora um erro pensar que se tratava de uma floresta comum.
Ela estava em uma floresta sintética.
Aquilo não era um bosque plantado. Tinha sido construído por mãos humanas.
A paisagem artificial ao seu redor lembrava o interior de um café temático ou uma área de parque de diversões criada para reproduzir a natureza do mundo antigo.
Yuki se encontrava dentro de um pequeno cômodo, parecido em tamanho com seu apartamento de cerca de doze metros quadrados. Árvores e folhas falsas revestiam as paredes e o chão, enquanto apenas o teto permanecia parcialmente exposto. A luz entrava por entre os galhos, e o céu azul que se estendia além deles não apresentava sinais de artificialidade. A luz do sol provavelmente era real.
O ambiente não continha mais nada. Yuki estava completamente sozinha.
Ela se levantou, fazendo as folhas farfalharem. Depois de examinar atentamente suas roupas, um som escapou de seus lábios.
“Urgh…”
Yuki havia sido forçada a vestir uma fantasia de coelhinha.
Provavelmente apenas uma pequena parcela das pessoas já tinha visto uma roupa dessas na vida real. Era o tipo de traje que diziam ser comum em cassinos ou casas noturnas, composto pelos seguintes elementos: uma tiara com orelhas de coelho; um top formado apenas por mangas, uma gola e um laço; um body que ressaltava ao máximo, em teoria, as curvas de seu corpo; e saltos altos desconfortáveis de se andar. Suas duas pernas estavam completamente expostas.
De certa forma, aquilo era mais constrangedor do que estar nua.
Enquanto tocava o pequeno pompom branco e felpudo preso próximo ao seu quadril, Yuki soltou outro gemido.
“Ugh…”
Os deuses das fantasias haviam a abandonado. As roupas dos jogadores variavam de acordo com o jogo e, embora quase sempre fossem algum tipo de fantasia, o modelo exato afetava profundamente o estado mental de quem a vestia.
Em toda a trajetória de Yuki como jogadora, aquela era, sem dúvida, a pior de todas. Até mesmo o maiô escolar de três jogos atrás seria uma melhora significativa em comparação. Ela se perguntou se o público realmente estava satisfeito com aquela visão. Nenhuma fantasia deixava tão clara a diferença brutal entre fantasia e realidade. Como Yuki não conseguia ver o próprio corpo por completo, sofreu apenas danos mínimos à sua sanidade — mas ela sabia que as câmeras de vigilância escondidas em algum lugar do cômodo estavam registrando uma cena horrível. Aquilo era realmente aceitável? O fato de o jogo ser tão cruel tornava isso aceitável?
Yuki deixou o cômodo.
Ela entrou em um corredor estreito, com pouco mais de dez centímetros de folga além da largura de seus ombros, batendo repetidamente em quinas a cada poucos metros. O espaço a lembrava daqueles enormes labirintos comuns em parques de diversão do interior. Talvez aquele lugar tivesse sido exatamente isso no passado. Yuki teve a impressão de que tais labirintos eram relíquias da era da bolha econômica. Reformar um deles para servir de cenário a um jogo mortal era um ato de ganância sem precedentes.
Yuki continuou avançando pelo labirinto.
Existe uma estratégia para resolver labirintos conhecida como a “regra da mão esquerda”, que afirma que seguir sempre a parede esquerda leva inevitavelmente à saída. Até alguém tão pouco instruída quanto Yuki conhecia isso, mas, dessa vez, ela decidiu não utilizá-la.
Isso porque ela sabia para onde precisava ir.
Mais precisamente, ela ouviu para onde precisava ir.
Depois de vagar pelo labirinto por um curto período, murmúrios de um grande grupo de pessoas começaram a se misturar aos sons da floresta sintética e chegaram aos seus ouvidos. O barulho lembrava uma sala de aula pela manhã antes do sinal tocar, ou um teatro momentos antes do início de um filme. Pelo volume do som, o jogo muito provavelmente…
Suas suspeitas foram confirmadas no instante em que a cena se revelou diante dela.
Ela estava diante de um grande salão — um salão com algumas centenas de coelhinhas dentro.
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Em nítido contraste com o corredor, o espaço era extremamente amplo. Seu tamanho tornava a palavra sala inadequada demais para descrevê-lo. Talvez fosse mais apropriado chamá-lo de salão ou praça. Questões semânticas à parte, aquele vasto espaço abrigava coelhinhos suficientes para encher uma escola primária inteira.
É claro que nenhum deles era um coelho de verdade — eram coelhos de cosplay. Assim como Yuki, eram garotas vestindo roupas humilhantes. Ainda assim, Yuki teve a impressão de que todas pareciam combinar muito bem com o visual, transformadas em magníficas coelhinhas. Será que a roupa só ficava estranha nela? Ou talvez, como franja na puberdade, do ponto de vista de quem observa de fora estivesse perfeitamente aceitável? Torcendo para que fosse a segunda opção, Yuki entrou no salão.
Várias coelhinhas se viraram para olhá-la. Por ser uma dorminhoca inveterada, Yuki já estava acostumada a chegar atrasada no início dos jogos e atrair os olhares de inúmeros jogadores. Para seu alívio, nem todas tinham voltado a atenção para ela, poupando-a do constrangimento de ser o único centro das atenções. Ignorando os olhares, ela caminhou até uma coelhinha sentada sobre um toco falso, mais ao fundo do salão.
“Bom dia, Mestra”, cumprimentou Yuki. “Essa roupa não favorece nada você.”
Diante dela estava um coelho branco de cabelos ondulados, tão claros que lembravam algodão-doce. Sua pele era extremamente pálida, sem o menor traço de cor. O traje de coelhinha destacava seu corpo esguio, e Yuki sabia que aquela silhueta não era frágil, mas definida — resultado de eliminar toda massa desnecessária.
Seu nome era Hakushi.
Ela era a mentora de Yuki, a jogadora de jogos mortais mais experiente ainda viva.
“Posso dizer o mesmo de você”, respondeu Hakushi em voz baixa. Embora suave, sua voz tinha boa projeção. “Já faz quanto tempo? Três meses? Como tem passado? Nenhum ferimento estranho?”
“Está tudo bem, eu acho. Tem sido tranquilo.”
“Em que número você está agora?”
“Seis… sete… ou oito. Tenho quase certeza de que ainda não cheguei a dez.”
Aquilo não tinha relação com a idade de Yuki, mas com o número de jogos que ela já havia disputado.
“Comece a anotar isso”, disse sua mentora, estreitando os olhos. “Já te falei um milhão de vezes. Mantenha um registro dos jogos que joga.”
“Que diferença faz? Nunca precisei disso.”
“Com essa atitude, você não vai durar muito. Não chega nem aos trinta.”
“E você, Mestra, como tem passado?” Yuki perguntou, desviando a conversa. “Três meses significam mais três ou quatro jogos. Não me diga… já chegou aos noventa e nove?”
“Não.” Hakushi cruzou as longas pernas. “Estou no noventa e seis. Não jogo desde aquele jogo da piscina.”
“…Você anda pegando leve demais.”
Yuki inclinou a cabeça. Aquele jogo da piscina tinha sido a última vez que as duas se viram — ou seja, sua mentora havia tirado uma pausa de três meses.
“Cautela nunca faz mal”, respondeu Hakushi. “Faltam quatro. Não vou conseguir descansar em paz se morrer por falta de preparo.”
Dizer que Yuki não tinha objeções seria mentira. Ela acreditava que manter o ritmo era mais importante do que tentar recuperar a forma. Aquele era o único lugar onde se podia aprimorar habilidades para jogos mortais — fora do mundo comum. O mais importante era não deixar grandes intervalos entre os jogos. Ela já ouvira inúmeras histórias de jogadores que morreram logo no primeiro jogo após uma longa pausa, e Hakushi certamente também conhecia esses relatos.
Apesar da preocupação de Yuki —
“Entendo.”
Foi tudo o que ela disse. Não sentia vontade de criticar o julgamento de sua mentora. “Então? Acha que sua preparação valeu a pena?”
“Quem sabe. Só vamos descobrir quando esse jogo acabar.”
Hakushi voltou o olhar para um ponto distante. Lá, um mascote inspirado em um tanuki — o cachorro-guaxinim japonês — jazia no chão. Ele havia sido destruído, com peças eletrônicas saindo de seu abdômen aberto.
“O que é aquilo?”
“O explicador do jogo. Todo mundo caiu em cima dele.”
Alguns jogos tinham um explicador; outros, não. Aquela era a terceira vez que Yuki encontrava um personagem assim. Em geral, quando um jogo tinha regras complexas ou difíceis de entender intuitivamente, um explicador aparecia no início. Por algum motivo desconhecido, ele sempre assumia a forma de um mascote, em vez de um humano, de uma voz sem corpo ou de instruções escritas.
“Isso deve ter exigido coragem”, comentou Yuki. “Eu imaginaria que atacar algo assim renderia algum tipo de punição.”
“Duvido que tivessem destruído se fosse uma tartaruga ou um lobo. Foi porque era um tanuki. Ele podia estar escondendo um item.”
“……? É permitido destruir um tanuki?”
“Você conhece aquele conto popular antigo, Kachi-Kachi Yama, né? Aquele em que o coelho mata o tanuki. Prova de que coelhos são superiores.”
“Era isso que a história queria dizer?”
“Enfim, não encontraram nada de especial.” Hakushi claramente não queria lidar com a ignorância de Yuki.
“…Então, qual é o jogo dessa vez?” Yuki perguntou.
“Esconde-esconde, em resumo. Jogadores do Time dos Coelhos vencem se sobreviverem por uma semana. Jogadores do Time dos Tocos — os procuradores — vencem ao matar pelo menos cinco Coelhos. O explicador não mencionou, mas imagino que os Tocos tenham algum tipo de equipamento.”
“Tocos não deveriam estar mortos?”
“Mesmo assim, eles matam coelhos. Nunca ouviu aquele ditado sobre coelhos batendo em tocos?”
“Claro que sim.”
Na verdade, aquilo era blefe. Yuki não fazia ideia do que sua mentora estava falando.
“O jogo ainda não começou, certo? Quanto tempo falta?”
“Não foi dito, mas provavelmente umas seis horas.”
“Como você sabe?”
“Tem um cronômetro digital ali. Vermelho, do tipo que se vê preso a uma bomba.”
Yuki olhou na direção indicada pelo polegar de Hakushi. Um grupo de coelhinhas bloqueava a visão.
“Como pode ver”, continuou Hakushi, “ele chega a zero em seis horas.”
“Não dá pra ver nada com tanta gente na frente.”
“Você tem duas pernas. Use-as.”
“Ainda assim, é gente demais. Você sabe quantos jogadores tem nesse jogo?”
“Trezentos Coelhos e trinta Tocos. É o maior jogo em que já estive.”
Naturalmente, também era o maior em que Yuki já havia participado. Esqueça trezentos — ela mal tinha experiência com jogos que ultrapassassem cem jogadores.
“É chocante ter tanta gente”, disse Yuki. “Imagino que a maioria seja iniciante…”
“Errou. Olha, os únicos rostos novos estão naquele grupo ali.”
Hakushi apontou com o queixo para um canto do salão, onde cerca de trinta jogadores estavam reunidos — um grupo de novatos.
“A maioria dos outros eu já vi antes”, continuou ela. “Nunca tinha parado para pensar nisso, mas esses jogos têm mais de duzentos jogadores regulares. Surpreendente.”
“Hm. Não sabia que existiam tantos idiotas dispostos a arriscar a vida por alguns milhões de ienes.”
“Olha quem fala.”
Pessoas de fora provavelmente imaginariam que os jogadores entravam nesses jogos por razões sérias e urgentes — problemas com agiotas, pedidos de resgate, ou o desejo de sustentar crianças em orfanatos, por exemplo. Mas isso estava longe da verdade. Embora jogadores de uma única participação às vezes tivessem esses motivos, qualquer um que fizesse carreira nesses jogos — cujos riscos superavam em muito os benefícios — precisava ter algo errado na cabeça.
O motivo mais comum para se tornar um jogador regular era o desejo de experimentar a excitação de uma situação de vida ou morte. Também havia um número considerável de jogadores que já haviam decidido se suicidar e entravam nos jogos por pura curiosidade. Às vezes, psicopatas cruéis usavam os jogos como oportunidades ideais para matar sem consequências legais. Independentemente do motivo, era melhor ter uma razão clara; por mais difícil que fosse acreditar, muitos jogadores simplesmente continuavam jogando sem motivo algum.
Yuki era uma deles.
Não era que ela não tivesse razões. Tinha poucas chances de conseguir um emprego comum, por não possuir as habilidades necessárias para se encaixar na sociedade. Sentia certo orgulho por ter algo em que era minimamente boa. Criara laços com jogadoras como Hakushi. Sentia-se confortável naquele papel. E, além disso, também se divertia com os jogos. Ainda assim, todas essas justificativas eram frágeis, mesmo somadas. Yuki não teve escolha a não ser admitir que também havia algo errado com ela.
Surpreendentemente, o que mais lhe causava dificuldade era entender seus próprios sentimentos.
Havia mais caos em seu coração do que na geladeira de seu apartamento.
Em palavras simples, ela estava cheia de auto abandono. Sem vontade de viver, participava dos jogos com o mesmo estado de espírito de alguém que engole um punhado de comprimidos para dormir.
“Você é quem eu menos entendo, Mestra”, disse Yuki. “Noventa e nove jogos? Não é como se você ganhasse um troféu ou dinheiro extra por chegar lá, certo?”
“É, seria só um novo recorde. Mas, sinceramente, nem isso é garantido. Até onde sei, noventa e oito é a maior sequência.”
“Me surpreende você se apegar a isso.”
“Eu quero um objetivo.” Hakushi se levantou. “Um dia, você também vai perceber isso.”
Yuki ficou em silêncio.
Um recorde de noventa e nove jogos consecutivos.
Era isso que sua mentora buscava alcançar. Entre todos os motivos difíceis de compreender que os jogadores regulares tinham, o de Hakushi era o mais enigmático de todos. Para começar, a dificuldade era inimaginável. Noventa e nove jogos, cada um com uma taxa de sobrevivência em torno de 70%. Yuki não chegou a calcular as probabilidades, mas elas deviam ser astronomicamente baixas. O perigo também era impensável. Quebrar a sequência significava morte. Como Hakushi conseguia reunir motivação para arriscar a vida assim? E, como ela mesma havia dito, o recorde real sequer era confirmado. Talvez noventa e nove não fosse suficiente — ou talvez ela já tivesse entrado em território desconhecido ao concluir o nonagésimo quinto jogo. Yuki acreditava haver uma grande chance de a segunda opção ser verdadeira, o que tornaria sua mentora a definição literal de uma tola.
Ainda assim, um objetivo era um objetivo. Só por tê-lo, Hakushi já era mais digna do que sua aluna. Yuki não sentia vontade de zombar dela; pelo contrário, sentia até certa inferioridade. Para sua vergonha, não conseguia se identificar com a atitude de avançar corajosamente em direção a uma meta.
Por mais absurdo que seja um objetivo, pensou, ainda é melhor do que vagar pela vida como eu faço.
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Pouco depois, Hakushi foi designada líder do Time dos Coelhos. Mesmo com mais de duzentos jogadores regulares presentes, ninguém possuía o nível de experiência dela.
Os Coelhos realizaram sua reunião estratégica. O jogo tinha regras semelhantes ao esconde-esconde, mas considerando a duração de uma semana, era irrealista continuar apenas fugindo dos Tocos. Se cada um dos trinta Tocos cumprisse a condição de vitória de cinco mortes, metade dos trezentos Coelhos morreria, reduzindo a taxa de sobrevivência para cerca de 50%.
Naturalmente, surgiu a ideia de uma estratégia ofensiva: roubar e usar as armas que os Tocos provavelmente possuíam para matá-los. Quanto mais Tocos fossem eliminados, mais membros do Time dos Coelhos poderiam evitar a morte, elevando a taxa de sobrevivência. Em teoria, seria possível terminar o jogo sem nenhuma baixa, exterminando completamente o Time dos Tocos. Esse seria o melhor resultado possível — a forma ideal de vitória para os Coelhos.
O problema era que alguém teria de enfrentar os Tocos armados. Yuki se perguntou quem assumiria esse papel, mas Hakushi e a maioria dos jogadores veteranos se voluntariaram prontamente. Conseguir roubar uma arma aumentaria drasticamente as chances de sobrevivência daquele Coelho, já que um Toco não teria motivo para caçar intencionalmente um Coelho armado quando havia tantos outros desarmados. Ou seja, saltar para o perigo aumentava as chances de sobreviver.
Era uma estratégia arriscada, perfeitamente condizente com jogadores veteranos de jogos mortais.
Yuki decidiu não adotar essa tática, achando que era melhor deixar esse trabalho para os experientes. Em vez disso, escolheu permanecer no grande salão, assim como outros jogadores cautelosos que optaram por não enfrentar os Tocos, junto ao grupo de iniciantes.
Enquanto observava o grupo de Coelhos combativos liderados por Hakushi discutir a melhor formação para atravessar o labirinto, Yuki refletiu sobre algo que não tinha relação direta com o jogo em si — as fantasias.
Ela sabia que o Time dos Coelhos vestia roupas de coelhinha.
Então… o que os Tocos estariam vestindo?
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Início do jogo.
Moegi acordou no meio de uma floresta.
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Para Moegi, o pior momento de um jogo era logo no começo. Isso porque sua cabeça sempre latejava.
As dores eram como uma reclamação do corpo por falta de sono, semelhantes às que surgem depois de uma soneca longa demais ou na manhã seguinte a virar a noite. Moegi culpava o medicamento usado para colocar os jogadores para dormir. Talvez fosse totalmente incompatível com ela, ou talvez os outros jogadores também acordassem com fortes dores de cabeça, mas simplesmente aguentassem a dor.
Ela sempre planejava perguntar às outras garotas, mas todas as vezes o início do jogo acabava tirando essa oportunidade, e desta vez provavelmente não seria diferente. Sentindo-se meio resignada, Moegi abriu os olhos.
Imediatamente, ela percebeu que não era uma floresta de verdade, pois sentia as costas apoiadas sobre algo perfeitamente plano, que só podia ter sido feito pelo homem.
Ela se levantou do chão, espalhando folhas falsas com textura de celofane pelo ar.
Moegi se encontrava dentro de um espaço do tamanho de uma sala de aula, projetado para imitar um ambiente natural.
A imagem de uma sala de aula veio à sua mente porque havia algumas dezenas de outras pessoas ali e, assim como Moegi, todas pareciam garotas adolescentes. E, apesar da falta de provas concretas, ela sabia que deviam ser estudantes do ensino fundamental ou médio. Neste país, qualquer pessoa em idade escolar ou mais jovem emanava uma aura claramente diferente da de universitários ou adultos trabalhadores.
As outras já haviam acordado e se viraram para olhar a dorminhoca.
“...Oi”, Moegi cumprimentou, sentindo-se um pouco constrangida. “Eu sou a Moegi. Prazer em conhecer vocês.”
Várias garotas responderam com cumprimentos semelhantes.
“Então… parece que eu fui a última a acordar. As regras já foram explicadas?”
Ela esperava iniciar uma conversa com um pouco de conversa fiada, mas, ao contrário do que imaginava, as outras garotas demonstraram grande relutância.
“É… oi?”, Moegi chamou novamente, mas mais uma vez houve pouca reação.
Achando aquilo estranho, ela observou a sala inteira. Havia cerca de trinta jogadores no total — provavelmente exatamente trinta, incluindo ela mesma. Todos pareciam avaliar o ambiente com nervosismo, como na primeira aula de um novo ano letivo. Isso indicava que não estavam acostumadas àquela situação.
Uma teoria surgiu na mente de Moegi, e ela não conseguiu evitar dizer em voz alta:
“...Não me diga… Essa é a primeira vez de todo mundo?”
Como ninguém demonstrou reação visível, Moegi reformulou a pergunta:
“...É… vocês estão todas confusas sobre o motivo de estarem aqui?”
As garotas olharam umas para as outras para avaliar as reações e, logo em seguida, começaram a balançar a cabeça em tempos diferentes. Apesar da hesitação em seus movimentos, por mais descoordenado que fosse o coro de cabeças, só havia uma interpretação possível: eram acenos de confirmação.
Todas eram inexperientes.
Todas eram jogadoras de primeira viagem.
Com exceção de Moegi, todas ali eram iniciantes.
“……”
Ela levou a mão à cabeça.
“Isso é ruim…”
“Com licença…” Uma das garotas levantou a mão.
“O que foi?”, perguntou Moegi.
“Quando você diz ‘primeira vez’, isso quer dizer que você já tem experiência com isso, Moegi? Você sabe o que está acontecendo?”
“…Sei.” Moegi lançou um olhar de lado para a garota. “Mas escuta, não preciso explicar tudo. Acho que todas vocês já têm alguma ideia. Deixem a imaginação adolescente correr solta, e o que surgir é a resposta. Tenho certeza de que pelo menos já ouviram falar disso antes.”
A outra garota ficou em silêncio.
Moegi acrescentou:
“Ah, isso não é um programa de pegadinha nem uma ação promocional de filme, só pra deixar claro.”
Ela olhou ao redor mais uma vez.
Além do fato de o local imitar uma floresta, duas coisas chamaram sua atenção como incomuns.
A primeira era uma porta que levava para fora. Ela era feita de aço resistente e exalava uma presença intimidadora que praticamente gritava “Você não passará”. De fato, estava trancada. Ao lado da porta havia um pequeno painel LCD com números vermelhos que diminuíam a cada segundo. O visor marcava 06:12:56 quando Moegi olhou, sugerindo que algo aconteceria dentro de seis horas.
A segunda coisa era um mascote em um dos cantos da sala. Era uma árvore diferente das demais, com cerca de um metro de altura, que não tentava esconder sua artificialidade. O rosto de um velho estava esculpido em seu tronco. Moegi deduziu que aquela árvore de rosto humano era a explicadora do jogo.
Ela tocou gentilmente a parte superior da árvore, como se estivesse fazendo um carinho em sua cabeça.
Uma risada ecoou, e um som eletrônico começou a tocar.
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A explicação dada pela árvore será levemente condensada.
Isso foi necessário, pois explicadores sempre se prolongavam demais.
Eles faziam comentários provocativos contra os jogadoras, falavam em círculos, gargalhavam com vozes irritantes e, no geral, eram desagradáveis de inúmeras formas. Moegi simplesmente não suportava ouvi-los. Ela filtrou mentalmente cerca de 80% do que a árvore dizia e organizou as informações restantes da seguinte maneira:
Este era um jogo de esconde-esconde, e o time de Moegi seria o dos procuradores.
Quando a contagem regressiva ao lado da porta chegasse a zero, o jogo começaria oficialmente. O time dela teria que caçar os trezentos Coelhos do outro lado da porta.
O jogo duraria uma semana e, durante esse período, cada uma delas precisaria matar cinco Coelhos. Qualquer procuradora — que o explicador chamava de “Tocos” — que não atingisse essa cota seria morta por um dispositivo implantado em seu corpo.
Havia regras mais detalhadas. A condição para concluir o jogo seria avaliada individualmente para cada Toco. Em outras palavras, não se tratava de uma partida em equipe. Os Tocos podiam cooperar entre si, mas, no fim das contas, era cada procuradora por si.
Apenas o número de Coelhos mortos contaria para a condição de vitória; mortes entre Tocos ou entre Coelhos não trariam qualquer benefício. Caso vários Tocos se unissem para matar um Coelho, a contagem valeria apenas para aquele que desferisse o golpe final. Cada procuradora podia verificar sua contagem individual de mortes tocando no explicador.
Além disso, o jogo só terminaria após uma semana completa, e mesmo os Tocos que atingissem sua cota antes disso teriam de esperar até o final. Eles também foram alertados para possíveis retaliações do Time dos Coelhos.
Assim que o explicador terminou sua fala, uma das paredes girou. Do outro lado, estavam pendurados três tipos diferentes de armas.
A primeira era baseada em uma flor-de-manhã-glória. Possuía um cano em formato de trombeta, além de cano interno, gatilho, empunhadura e cão. A arma tinha um tamanho reduzido, ideal para a mão de uma garota. Sementes de manhã-glória não continham substâncias alucinógenas? Se fosse o caso, então o que quer que aquela flor disparasse provavelmente deixaria uma pessoa inconsciente.
Moegi pegou uma e percebeu que a arma lhe parecia familiar — devia ter sido reaproveitada de um jogo anterior. Pelo que se lembrava, ela podia disparar oito vezes, mas como o carregador não podia ser recarregado, tornava-se inútil depois que a munição acabava.
A segunda arma parecia uma folha de bambu. Havia um relato sobre alguma figura histórica que teria usado uma folha de bambu como arma, mas aquilo aparentemente era completamente falso. Ainda assim, as folhas presas à parede eram extraordinariamente afiadas. A lâmina parecia ter mais de quinze centímetros de comprimento e era tão leve quanto uma folha de bambu de verdade. Ao balançá-la, produzia um som cortante satisfatório no ar, despertando em Moegi uma sensação imoral de querer testá-la em combate.
A terceira lembrava uma pinha. Era pequena o bastante para caber na palma da mão, mas, diferente das outras duas armas, tinha um peso considerável. A pinha havia sido pintada inteiramente de marrom, e o pino em sua ponta era feito de um material transparente, talvez para manter a ilusão. As pinhas certamente seriam altamente inflamáveis, mas como não havia nada dentro da sala que servisse de abrigo contra um incêndio, Moegi não sentiu vontade de testar essa teoria.
Essas armas eram seus “amigos da floresta”. E representavam uma grande ameaça, sem qualquer traço de misericórdia.
A parede continha dez unidades de cada arma, totalizando trinta — o suficiente para que todas do time empunhassem uma.
Moegi pegou todas as dez folhas de bambu e começou a jogá-las para os outros Tocos. Algumas garotas as pegaram com habilidade, enquanto outras as recolheram depois que cravaram no chão. Ainda assim, ninguém parecia duvidar que fossem armas de verdade, pois pequenos gritos de surpresa ecoaram um após o outro.
“Querem conferir se as outras também são reais?” Moegi apontou para as manhã-glórias e as pinhas.
Ninguém respondeu. Moegi interpretou o silêncio como um sinal de que não havia necessidade.
“Tudo o que a árvore explicou é verdade”, continuou ela. “Em seis horas, aquela porta vai se abrir, e o jogo vai começar. Cada uma de nós precisa matar cinco pessoas ao longo da próxima semana.”
Ninguém reagiu. Moegi ignorou o silêncio e prosseguiu.
“Há trezentos Coelhos no total. Como somos trinta, precisamos matar cento e cinquenta no total para que todas cumpram a cota. Se fizermos tudo direito, podemos sobreviver juntas. Vamos unir forças e dar o nosso melhor.”
“Vamos lá”, não disse ninguém. O que preenchia a sala era apenas o silêncio estranho e constrangedor típico de quando um grupo de desconhecidas se encontra pela primeira vez.
Uma das Tocos levantou a mão.
“O que foi?” perguntou Moegi.
“…Isso é mesmo real?” A voz da garota tremia. “Você está envolvida nisso, não está? Quer dizer, é estranho você ser a única que sabe de tudo…”
“…………”
Era inútil. Moegi sabia muito bem disso.
Isso se aplicava a vários aspectos da situação. Antes de tudo, seria impossível convencer aquelas garotas da realidade do jogo. Afinal, havia vinte e nove iniciantes entre as trinta. Se estivesse no lugar delas, Moegi também teria dificuldade em acreditar. As chances de convencê-las sozinha eram praticamente nulas.
Mesmo que conseguisse, isso só levaria o grupo até a linha de partida. O jogo era uma competição entre Coelhos e Tocos, e era difícil imaginar um grupo de iniciantes saindo vitorioso. Para piorar, elas precisavam caçar o outro time. Diferente dos Coelhos, que apenas precisavam fugir, os Tocos tinham de agir de forma decisiva para sobreviver.
Talvez eu devesse abandoná-las e agir sozinha. Esse pensamento cruzou a mente de Moegi. No entanto, isso também era impraticável. Enfrentar o jogo sozinha seria perigoso — imprudente, até.
O explicador fizera parecer que o time delas massacraria os Coelhos, mas isso dificilmente seria verdade. Moegi entendia que o núcleo desse jogo era o massacre mútuo. Não havia como os Coelhos caírem sem lutar, e era bem possível que roubassem as armas durante um confronto e contra-atacassem. O explicador não mencionara nenhuma regra que protegesse os Tocos, o que significava que elas também corriam risco de morte. Além disso, um contra-ataque nem sequer era o pior cenário — um grande número de Coelhos certamente estaria se preparando para lançar uma ofensiva total.
Fazia sentido: reduzir o número de Tocos aumentaria o número de Coelhos que poderiam sobreviver. Jogadoras experientes de jogos mortais adoravam esse tipo de estratégia arriscada; era algo que Moegi havia aprendido em seus dois jogos anteriores.
Moegi não era capaz o suficiente para sair vitoriosa de um confronto contra os Coelhos sozinha. Ela vinha comandando o grupo como se fosse uma veterana experiente, mas aquele era apenas seu terceiro jogo. Ainda estava aprendendo cuidadosamente sob a orientação de sua mentora. E embora seu time tivesse a vantagem das armas, seria imprudente demais andar sozinha, enquanto trezentos Coelhos poderiam usar a superioridade numérica para atacá-la. O ideal seria que os Tocos também se coordenassem como um grupo.
Mas arrastar um bando desorganizado de jogadoras seria inútil. Ainda assim, se elas entendessem que aquilo era um jogo de vida ou morte e aprendessem a manejar suas armas mesmo que de forma desajeitada para tirar a vida de alguém, ainda haveria esperança. Sem isso, tudo seria inútil. Nas próximas seis horas, Moegi precisava guiar suas companheiras até esse nível.
Não importava como.
Felizmente, ela tinha uma ideia, pois ela mesma havia sido treinada para se adaptar aos jogos em pouco tempo. Poderia repetir a lição que sua mentora lhe ensinara sobre como matar. A questão era sua determinação para fazer isso. Ela realmente faria aquilo ali?
Seu coração começou a disparar. Moegi levou a mão ao peito, em um ângulo fora da vista das outras garotas, e se recompôs, ao menos externamente.
No instante seguinte, ela pegou uma das manhã-glórias da parede.
“O tempo está acabando.” Ela se virou para o grupo. “Não vou mais tentar convencer vocês com palavras. Vejam. Ouçam. Sintam.”
Ela apontou o cano da manhã-glória para uma garota aleatória… e disparou três vezes.

(10/43)
Sementes voaram para fora da flor, perfurando as pernas e o tronco da garota. O Tratamento de Preservação entrou imediatamente em ação, com uma substância branca e fofa jorrando de seus ferimentos.
Embora o sangramento tivesse cessado na hora, nenhum ser humano conseguiria permanecer em pé após levar disparos em ambas as pernas. A garota caiu de joelhos. As folhas no chão amorteceram a queda.
Instantes depois, ela começou a chorar como um bebê. Sua voz não era muito alta. Assim como se dizia que tiros na vida real eram mais baixos do que nos filmes, gritos reais raramente atingiam volumes elevados, o que fazia com que a voz de Moegi fosse facilmente ouvida acima dos soluços.
“Matem ela. Isso será treino. Todas vocês, matem ela.”
A mesma expressão tomou o rosto de todas as outras Tocos.
Moegi apontou o cano da arma para outra garota.
“Qual é o seu nome?”
“A-Ah… eu sou Kabane.”
“Certo. Kabane, esfaqueie aquela garota se não quiser levar um tiro.” Moegi lançou um olhar para a folha de bambu na mão direita de Kabane. “Use essa arma. Duas vezes por pessoa, essa é a cota. Atravesse pelo menos até o meio da lâmina. De preferência, mire em um ponto vital.”
“M-Mas…”
“Estamos perdidas se cada uma de vocês não for capaz de suportar esfaquear alguém”, resmungou Moegi, sua irritação aumentando a cada segundo. “Estão me ouvindo? Este jogo não é sobre caçar Coelhos, é uma batalha até a morte. A cada Toco que morre, mais Coelhos conseguem sobreviver, então eles certamente virão atrás de nós. Mostrem qualquer fraqueza, e um Coelho vai roubar sua arma e matar vocês. Isso não é ruim só para você, mas para o time inteiro. Não teremos chance alguma se vocês não conseguirem brandir uma lâmina sem hesitação.”
Mesmo após aquela explicação adicional, Kabane continuou relutante.
Acho que vou precisar dar outro exemplo, pensou Moegi.
Mais três disparos ecoaram pelo ar. Todas as três sementes atravessaram o tronco de Kabane, que desabou no chão como uma marionete cujos fios haviam sido cortados. Várias garotas engasgaram ao mesmo tempo, fazendo um sopro coletivo de ar preencher a sala.
“Considerem isso um aviso”, disse Moegi. “Não tenho problema nenhum em matar cinco ou seis de vocês, se for preciso.” Ela se apoiou na parede de armas:
“Prefiro vinte e cinco lutadoras treinadas às pressas do que trinta amadoras inúteis em qualquer dia da semana. Vocês precisam se acostumar a tirar vidas o quanto antes, e alguns sacrifícios são necessários para que isso aconteça.”
Não importava o que fosse, a primeira vez sempre era a mais difícil. Isso porque fazer algo pela primeira vez significava se tornar alguém novo, transformar-se de alguém que não fazia em alguém que fazia.
Toda ação se construía sobre a primeira vez. A mesma lógica explicava por que jogos de celular ofereciam bônus iniciais em gachas, por que serviços de pagamento eletrônico davam grandes descontos para novos usuários e por que aplicativos de entrega ofereciam cupons generosos no cadastro.
Depois que alguém superava o primeiro obstáculo, tudo o que vinha depois se tornava mais fácil. O ato de matar não era exceção; qualquer pessoa melhoraria rapidamente após o primeiro assassinato.
Era por isso que a prioridade de Moegi era criar o clima certo e preparar o terreno para fazer as outras superarem essa barreira, sem se importar com aparências.
Enfraquecer a presa com antecedência. Ameaçar as outras apontando a manhã-glória para suas cabeças. E, além disso, manipular o grupo com palavras bem escolhidas.
“Qual é o seu nome?”
Moegi apontou a manhã-glória para uma garota aleatória pela terceira vez. Desta vez, escolheu alguém que parecia relativamente mais calma.
Um segundo depois, a garota respondeu:
“…Hikawa.”
“Esfaqueie uma delas. Não me importa qual.”
Como era de se esperar, a garota não reagiu de imediato.
Moegi acrescentou:
“Prefere chorar no chão como aquele bebê ali? Ou vai pegar uma arma para sobreviver?”
A falácia do falso dilema: uma técnica retórica em que apresentar duas opções extremas fazia parecer que não existia nenhuma outra alternativa. Era pura sofística, mas isso não impediu Moegi de tentar. Ela havia decidido usar qualquer coisa ao seu alcance.
“Você tem três segundos”, disse ela. “Um. Dois…”
Não houve necessidade de chegar ao três. Com a folha de bambu na mão, Hikawa mudou para uma empunhadura invertida e esfaqueou Kabane na coxa. O grito da garota ficou mais alto.
Depois de esperar o barulho diminuir, Moegi disse:
“Mais uma vez.”
Desta vez, nem precisou contar. Um segundo ferimento apareceu a cerca de dez centímetros do primeiro. O grito que encheu a sala foi mais fraco do que o anterior, apenas reforçando a teoria de que a primeira vez para qualquer coisa era a mais difícil.
“Ótimo. Agora, passe a lâmina para quem você quiser. Essa pessoa será a próxima.”
Hikawa fez como foi instruída.
Moegi apontou a manhã-glória para a garota seguinte.
“Três segundos.”
(11/43)
O treinamento avançou sem grandes problemas.
Assim que o clima começou a mudar, o resto fluiu com facilidade.
Os únicos pontos dignos de nota foram o fato de Moegi ter repetido a frase “três segundos” tantas vezes que acabou desenvolvendo um sotaque estranho, e o fato de que, apesar de muitos sucessos, apenas Kabane foi esfaqueada.
Ela morreu antes mesmo que a outra garota, aquela que Moegi havia baleado primeiro, fosse esfaqueada uma única vez. Isso aconteceu porque todas simplesmente seguiram o exemplo de quem vinha antes. Esfaquear um cadáver não contava como matar, então Moegi instruiu o restante das jogadoras a esfaquear a garota que ainda estava viva.
As garotas restantes demonstraram relutância, obrigando Moegi a fazer mais um exemplo com alguém para forçá-las a mudar de alvo.
Somando com as duas anteriores, aquilo resultou em três sacrifícios no total.
Pouco depois, as Tocos concluíram o treinamento.
Três podia ser considerado um número relativamente pequeno. Moegi havia planejado matar cinco ou seis Tocos caso fosse necessário, e até se preparara mentalmente para a possibilidade de ter que eliminar ainda mais. Estava pronta para continuar reduzindo o número delas, fosse para vinte, dez ou até duas, até que as outras garotas finalmente encontrassem sua determinação.
Ter precisado de apenas três sacrifícios foi um golpe de sorte e, no fundo, Moegi sentiu uma pontada de alívio.
Ainda assim, foram três perdas.
Moegi não encarou aquilo como ter salvado vinte e seis vidas. Ela viu como três garotas sendo mortas. Embora outras Tocos tivessem desferido os golpes finais, ela havia sido a instigadora de toda a operação.
Qualquer tribunal julgaria dessa forma. Moegi havia assassinado três pessoas e nem sequer como parte do jogo principal; tudo fora apenas para organizar sua equipe.
Dizer que seu coração doía não chegava nem perto de descrever o que sentia. Moegi não era alguém insensível ao sofrimento alheio. Vinha da classe média-baixa e se sentia culpada até por coisas como receber mesada demais.
Ela não conseguia adotar a mesma mentalidade de sua mentora. Sua cabeça parecia pesada. Por um instante, chegou até a pensar em abrir um buraco nela para torná-la mais leve.
Mesmo assim, as coisas haviam dado certo, e ela reconheceu isso. Uma pessoa forte, que não se importasse com aparências, alguém como sua mentora, teria feito exatamente o mesmo.
Moegi sentiu orgulho dos vários minutos anteriores, nos quais conseguiu se portar dessa maneira. Esse sempre fora seu objetivo, afinal. Ela sacrificaria qualquer coisa para conseguir agir assim o tempo todo.
Um ser humano poderoso, que jamais hesitava sequer por um instante.
Uma pessoa forte, que não se importava com aparências.
Até se tornar alguém assim, ela estava preparada para enfrentar a morte quantas vezes fosse necessário.
(12/43)
As Tocos vestiam vestidos do tipo jumper.
(13/43)
O jogo finalmente começou.
No momento em que o cronômetro regressivo dentro da sala chegou a zero, um ruído ensurdecedor de uma porta sendo destrancada ecoou, como o som de portões de prisão se abrindo.
Conforme decidido na reunião de estratégia, as Bunnies atravessaram o labirinto gigante em grupos de seis.
As coelhas haviam investigado todo o labirinto antes do início do jogo, mas havia várias contradições nos relatórios de reconhecimento. Algumas paredes que haviam sido relatadas anteriormente agora tinham desaparecido.
Aparentemente, também havia uma porta camuflada instalada em uma das paredes, e as coelhas sabiam que o som ouvido momentos antes era dessa porta se abrindo, sinalizando oficialmente o início do jogo.
Além da porta havia um labirinto ainda maior. Devido aos corredores estreitos e às inúmeras curvas e desvios que dificultavam a passagem de duas pessoas ao mesmo tempo, o campo de visão das jogadoras era severamente limitado.
Embora não soubessem as dimensões exatas do labirinto, eles haviam determinado que o local tinha cerca de metade do tamanho de um campo de futebol antes da porta se abrir. Surgiu então a teoria de que, somada à nova área acessível, o labirinto agora cobria a área equivalente a um campo de futebol inteiro.
Isso era mais do que suficiente para um labirinto, mas claramente insuficiente para permanecer escondido por uma semana, o que dava ainda mais legitimidade à estratégia de eliminar ativamente as Toco.
A área recém-aberta continha salas com comida, água, banhos e banheiros, garantindo que as necessidades diárias das jogadoras seriam atendidas por uma semana.
As garotas sentiram um grande alívio ao saber que não precisariam comer suas próprias fezes como coelhos de verdade e logo avançaram mais fundo no labirinto em busca de membros da equipe adversária.
As Tocos usavam vestidos jardineira.
Com base no nome da equipe, Yuki havia imaginado que as Tocos se pareceriam com personagens de árvores de uma peça infantil, mas sua suposição estava errada. Elas vestiam jardineiras marrons, com uma blusa preta e uma fita verde no peito.
A imagem até fazia certo sentido, apenas porque ela já conhecia a palavra stump de antemão. O traje era dividido em parte superior e inferior por um cinto, como um uniforme escolar, e como as jogadoras pareciam estar na idade do ensino fundamental II, aquilo não lembrava exatamente uma fantasia. Do ponto de vista de uma coelha, Yuki sentiu apenas inveja.
Logo ocorreu o primeiro encontro entre coelhos e Tocos.
Aquilo marcou o verdadeiro início do jogo. Duas coelhas morreram. Em troca, sua equipe conseguiu capturar uma das Tocos.
(14/43)
“Ha! Ah-ha-ha! Ha… Ha-ha!”
Uma garota estava rindo. No entanto, sua voz falhava repetidamente. Isso se devia em parte à falta de oxigênio para sustentar o riso, mas também à resistência psicológica de rir dentro da base inimiga.
“Ha-ha! Ah-ha-ha-ha!”
Ela estava sendo interrogada.
Ao capturar um inimigo, o interrogatório era obrigatório. Cercando a Toco solitária havia cerca de trinta Bunnies. Elas eram algumas das “caras novas” que Hakushi havia mencionado: membros do grupo de iniciantes. Como não podiam ir para a linha de frente, ficaram encarregadas do trabalho nos bastidores.
Elas estavam em uma sala espaçosa, a mesma onde todas as trezentas Coelhas haviam se reunido durante o prelúdio do jogo. Aquilo havia se tornado o acampamento-base da equipe. Dentro dela havia uma Toco capturada, cerca de trinta Coelhas iniciantes, aproximadamente quarenta Coelhas cautelosas que haviam optado por não lutar e cerca de dez Coelhas que haviam retornado do labirinto para tomar um breve descanso, totalizando mais de oitenta jogadoras.
Entre elas estava Yuki.
Ela estava em serviço de vigilância, observando de longe os iniciantes interrogarem a Toco para garantir que não passassem dos limites. Pela experiência de Yuki, interrogatórios conduzidos por iniciantes lenta, mas inevitavelmente, acabavam se transformando em violência. Ela estava pronta para intervir caso qualquer sorriso demonstrasse o menor sinal de barbárie, mas, no momento, o interrogatório ainda parecia bastante inofensivo. Não havia problemas.
“Nós costumávamos fazer isso com garotos na pré-escola”, disse Yuki. “Mas agora não consigo lembrar o que tinha de tão divertido.”
“Só coisa de criança brincando”, respondeu uma voz ao seu lado.
Yuki virou-se naquela direção. Quem estava ali era uma jogadora chamada Sumiyaka.
Sumiyaka era outra jogadora regular e conhecida de Yuki. Sua aparência malandra sugeria que ela havia sido uma encrenqueira no passado, e sua voz cronicamente rouca era resultado de álcool e cigarro. Ela era a imagem perfeita de uma delinquente. Da última vez que se encontraram, Sumiyaka estava em seu vigésimo terceiro jogo, sendo muito mais experiente que Yuki. E, assim como ela, também era uma coelha que adotava uma postura cautelosa, permanecendo no acampamento-base.
“Consigo pensar em várias maneiras mais rápidas de resolver isso. Elas estão dificultando a própria vida.”
“Bem, elas foram instruídas a não recorrer à violência”, respondeu Yuki.
Tanto Yuki quanto Sumiyaka eram jogadoras bastante competentes e conheciam muitos métodos eficazes de interrogatório, métodos mais rápidos e que envolviam muito mais dor. No entanto, a líder das Bunnies, Hakushi, havia proibido estritamente tais práticas, pois seriam desastrosas em um jogo com um número tão grande de participantes. Segundo ela, a violência faria a moral se desintegrar e acabaria levando à queda do grupo.
“Além disso, o jeito como estão fazendo não é tão ridículo assim. Você nunca foi feita de cócegas por tanta gente, né, Sumiyaka?”
“Bom… não…” Sumiyaka lançou um olhar de canto para Yuki.
No instante seguinte, ela desapareceu do campo de visão de Yuki. Seus movimentos foram tão naturais que Yuki não teve tempo de reagir.
Momentos depois, Yuki sentiu mãos tocando embaixo de seus braços.
“Wah!” Yuki saltou, como uma coelha. “Sumiyaka, para com isso.”
“Ha-ha, você tem razão. Não é tão ridículo assim.” O ataque de Sumiyaka não parou aí. Em vez de soltar Yuki, ela manteve firme os dedos e começou a fazer cócegas.
“Sem dúvida”, continuou ela. “Afinal, foi isso que a veterana das noventa e cinco partidas ordenou. Seguir as instruções dela não vai nos levar pelo caminho errado.”
“Ela é incrível…”, Yuki conseguiu dizer, se contorcendo. Mesmo sendo torturada por cócegas, suas palavras estavam cheias de respeito.
Hakushi estava jogando seu nonagésimo sexto jogo. Em outras palavras, ela acumulava noventa e cinco vitórias consecutivas.
De todas as jogadoras que Yuki já havia conhecido, sua mentora tinha, de longe, o melhor histórico invicto. A taxa média de sobrevivência em um jogo era de 70%. Yuki não conseguia calcular as chances de passar por noventa e cinco jogos, mas entendia perfeitamente o quão impressionante esse feito era. Era algo sobre-humano. Em comparação, recordes de seis, sete ou até vinte e três jogos pareciam triviais, embora tanto Yuki quanto Sumiyaka estivessem claramente na categoria de jogadoras avançadas. Especialmente Sumiyaka, que podia ser considerada uma das cinco melhores jogadoras ativas.
Mesmo assim, comparada às duas, Hakushi estava em outro nível. Uma deusa entre pesos-pesados — era essa a posição que ela ocupava.
“Incrível não chega nem perto. Você sabe quais são as chances de vencer noventa e cinco jogos seguidos?”
“Hã…?” Yuki pensou um pouco. “Não sei… uma em mil?”
“Bem longe disso. Tente uma em quinhentos trilhões.”
Yuki ficou chocada. “Você tá brincando.”
“É verdade. Faz as contas quando chegar em casa. Não existe ninguém na Terra que se compare a ela. Ela é mais talentosa do que qualquer um da história. É diferente de todos nós. Enquanto isso, eu fico aqui me preocupando em chegar aos trinta.”
O número trinta chamou a atenção de Yuki. Da última vez que se encontraram, Sumiyaka havia concluído seu vigésimo terceiro jogo. Isso significava que ela já estava perto dos trinta?
Antes que Yuki pudesse perguntar sobre o recorde atual, a estimulação sob seus braços ficou ainda mais intensa.
“Então, algum progresso?”, perguntou Sumiyaka, mudando de assunto. “Quero dizer, no interrogatório. A garota disse alguma coisa?”
“Não… nada de importante.” Yuki balançou a cabeça. “Só conseguiram alguns nomes.”
“Quais nomes?”
“O nome dela é Kushieda, e a líder do time dela é… Ei, dá pra me soltar agora?” Yuki bateu nas palmas de Sumiyaka, que ainda estavam sob seus braços.
“Tá bom.” Yuki esperava que Sumiyaka a soltasse completamente, mas tudo o que ela fez foi deslizar as mãos para frente e abraçar Yuki por trás.
“Ah, qual é…”
“Para de reclamar. Deixa eu te abraçar. Esse é o jogo número vinte e nove pra mim, então eu tô nervosa.”
Vinte e nove.
“Você tá batendo na Muralha dos Trinta?”, perguntou Yuki. “Isso não é só um mito?”
A Muralha dos Trinta.
O termo não tinha nada a ver com idade para casamento; referia-se ao número de jogos concluídos por um jogador. Era um fenômeno em que as chances de sobrevivência caíam drasticamente por volta do trigésimo jogo, uma das muitas superstições que surgiram dentro da indústria. Normalmente, a taxa de sobrevivência de um jogador era mais baixa em seu primeiro jogo e aumentava gradualmente conforme ganhava experiência, mas, por algum motivo, esse padrão não se mantinha em torno do jogo número trinta.
“Não é mito. Como você explica o fato de tão poucas jogadoras terem passado dos trinta? O fenômeno existe. A Muralha dos Trinta é real.”
“Os organizadores têm algo a ver com isso? Tipo, ficam frustrados quando alguém chega aos trinta?”
“De jeito nenhum. Com certeza eles querem que surjam jogadoras estrela; isso só beneficia eles. Mas ainda assim… tem que haver algo. Alguma coisa que separa uma veterana comum como eu de jogadoras de elite como a superestrela das noventa e cinco partidas.”
“Como o quê?”
“Se eu soubesse, não estaria tão nervosa.”
A conversa morreu ali.
“Sobre o que a gente estava falando mesmo…?”, Yuki murmurou.
“O interrogatório. Você disse que descobriram nomes.”
“Ah, é. O outro time é liderado por alguém chamada Moegi. Aquela Toco parece ter um medo extremo dela, então se calou logo depois disso. Provavelmente não vai revelar mais nada, mesmo que o interrogatório continue.”
“Medo?”
“Governo pelo terror.” Yuki se inclinou para trás. “A líder delas segue uma abordagem diferente da nossa.”
A Stump interrogada, Kushieda, era uma jogadora de primeira viagem. Segundo as Bunnies que encontraram o grupo dela, as outras duas também pareciam inexperientes. Era incomum um esquadrão composto apenas por iniciantes, então Yuki concluiu que a maioria das Tocos — talvez até todas — fossem novatas. Essa “Moegi” devia ser uma das poucas jogadoras experientes do time. Ou então possuía um talento inato para governar como uma déspota, conseguindo organizar o grupo rapidamente por meio do medo. Só podia ser isso.
“Se eu estivesse no lugar dela, provavelmente teria feito o mesmo”, continuou Yuki. “É a única forma de forçar iniciantes a agir.”
“Então, o quê? Pela teoria da Hakushi, isso quer dizer que nosso lado é melhor organizado?”
“Sim. Pelo menos em teoria.” Yuki concordou. “Mas isso não é motivo pra relaxar… Mesmo sendo mais organizadas, isso não garante vantagem. O outro time pode ter armas que ainda não conhecemos.”
“Até agora conhecemos dois tipos, certo?”
“Certo. Uma faca parecida com uma folha de bambu e uma pistola que parece uma flor-de-manhã. Infelizmente, não conseguimos colocar as mãos nessa última.”
“Não seria estranho se o time delas tivesse uma terceira.”
“Ei, uma pistola é melhor do que uma faca?” perguntou Yuki. “Já ouvi dizer que armas de fogo não são úteis em combate corpo a corpo e que não são uma grande ameaça nas mãos de iniciantes.”
“Não sei. Não sou especialista.”
“Mas qual é a sua opinião?”
“Armas de fogo têm prós e contras. Mas com o Tratamento de Preservação, uma faca talvez seja melhor. É mais fácil atingir os pontos vitais”, disse Sumiyaka, fazendo um gesto com a mão, como se estivesse assassinando o ar com uma faca invisível. “Além disso, as pistolas do jogo são fáceis de usar pra iniciantes e garotas.”
“Não parece meio exagerado dizer que são ‘feitas pra mulheres’…?”
Yuki imaginou a arma. Como não podia ser recarregada, depois de disparar oito tiros, ela não seria mais perigosa do que uma flor-de-manhã de verdade. Aquela informação seria importante de se lembrar ao enfrentar uma Toco.
A avaliação de Sumiyaka, de que uma faca poderia ser melhor, claramente levava em conta as especificações das armas.
Era possível que as pistolas tivessem sido atualizadas para comportar doze tiros, e o inimigo sempre poderia armar uma armadilha fingindo estar sem munição enquanto escondia outra arma no corpo. Ainda assim, não havia mal algum em guardar mentalmente as informações que Sumiyaka havia fornecido.
“…………”
Não. Isso não era necessariamente verdade.
No momento, Yuki não tinha nenhum papel a desempenhar. Ela só conseguia aproveitar aqueles momentos de tranquilidade em um jogo mortal porque havia muitas jogadoras mais experientes do que ela. As veteranas lutariam contra as Tocos e virariam a maré da batalha. Tudo o que Yuki precisava fazer era permanecer parada naquela sala como um fantasma. Ela não precisava de informações sobre as armas do inimigo.
“Hã?” A voz era de Sumiyaka. “Para onde aquela garota foi?”
Sumiyaka havia se inclinado para frente, pressionando o peito farto contra as costas de Yuki.
“Que garota?”
“Aquela de cabelo longo, cor de caramelo. Ela estava com o grupo das iniciantes.”
Yuki olhou para o grupo de iniciantes. Como elas cercavam a Toco, metade estava de costas para Yuki, mas não foi difícil verificar as cores de cabelo.
Ela apontou para uma garota de cabelo castanho. “É aquela?”
“Não, idiota. Isso é castanho. Eu tô falando de alguém com cabelo cor de caramelo.”
“Qual a diferença?”
“Caramelo é um tom mais claro e suave.”
Embora fosse impossível formar uma imagem precisa apenas com aquela descrição, nenhuma das garotas parecia se encaixar.
“Tem certeza que não foi coisa da sua cabeça?”, perguntou Yuki. “Quando você viu ela? Ela estava aqui agora há pouco?”
“Quando o time inteiro estava reunido no começo. Tenho certeza de que ela estava naquele grupo.”
Yuki achou estranho o quanto Sumiyaka estava fixada naquela garota. Poderia muito bem ser apenas um engano e, mesmo que não fosse, Yuki não via problema nisso.
Pouco depois, Sumiyaka voltou a falar:
“Yuki, eu vou perguntar pra elas sobre—”
A frase foi interrompida.
Uma voz alta ecoou pela sala.
(15/43)
“Todo mundo!”
Um único substantivo. Não veio acompanhado de um “Olhem aqui!” ou “Escutem!”. Ainda assim, como a voz ecoou com força, todos na sala se viraram em sua direção.
Ela vinha da entrada.
A sala não tinha portas. O interior e o exterior eram ligados diretamente por um vão do tamanho de uma porta e, ali, bloqueando o caminho, estava ninguém menos que a líder das Coelhas, Hakushi.
A super-humana que havia sobrevivido a noventa e cinco jogos mortais.
Ela não apresentava ferimentos visíveis. Em sua mão direita estava a arma em forma de flor-da-manhã, aquela que havia surgido na conversa entre Yuki e Sumiyaka. Isso significava que Hakushi havia encontrado um Stump armado com uma pistola e conseguido tomar a arma sem sofrer nenhum dano. Ainda assim, apesar desse feito, ela estava ofegante, e seu rosto demonstrava pânico.
“Todos vocês, levantem!”
A expressão de Hakushi permanecia frenética.
“Fujam! Vamos cancelar a estratégia! Alguém entre as Coelhas é um—”
(16/43)
Moegi havia sido encurralada.
A diferença de força entre elas era cristalina.
(17/43)
Moegi não fazia ideia de qual seria a formação ideal. Ela não tinha nenhuma experiência militar, nem interesse particular por esse tipo de coisa. O melhor que conseguiu imaginar foram esquadrões de três pessoas, pois achava que os grupos não deveriam ser nem grandes demais nem pequenos demais.
Com poucos integrantes, correriam o risco de serem sobrepujados pela quantidade de inimigos; com integrantes demais, a autonomia individual de cada um diminuiria, reduzindo efetivamente sua força pela metade. Ela concluiu que esquadrões de três eram um arranjo apropriado.
Ela não sabia se aquela havia sido a melhor decisão.
Independentemente disso, a realidade era que o jogo avançava com os Tocos em constante desvantagem. A previsão de Moegi de que o Time dos Coelhos partiria para a ofensiva acertou em cheio. Após apenas trinta minutos, o primeiro esquadrão retornou para relatar a captura de Kushieda, e a situação rapidamente começou a piorar.
Durante as primeiras seis horas de jogo, os Stumps foram reduzidos a menos da metade. Em contraste, as Coelhas haviam perdido aproximadamente o mesmo número — ou até menos. Com ambas as equipes perdendo jogadoras na mesma proporção, até um goblin conseguiria calcular qual time seria o primeiro a ser completamente eliminado se aquilo continuasse.
O único ponto positivo era que todos os Tocos estavam lutando com tudo o que tinham. A equipe conseguiu evitar o pior cenário possível: o de não conseguir matar um único jogador. Isso significava que a lição de Moegi havia sido, até certo ponto, bem-sucedida. E, embora ela pudesse dizer que havia feito o melhor que podia nesse aspecto, esses jogos não concediam menções honrosas.
Ela precisava fazer algo logo, ou então a morte seria inevitável.
Isso aconteceria caso os Tocos perdessem para os Coelhos, mas, naquele estágio do jogo, Moegi também temia seus próprios companheiros de equipe. Afinal, o mundo não era tão tolerante a ponto de permitir que um líder incompetente governasse para sempre.
Considerando que nenhum reinado de terror jamais durou muito, a vida de Moegi estava em sério perigo.
O que fazer? O que ela deveria fazer?
Ela estava no acampamento-base do Time Tocos — a sala do tamanho de uma sala de aula onde todos haviam despertado. Moegi se encostou na parede vazia que antes abrigava três tipos de armas e começou a pensar.
O que uma pessoa forte faria nessas circunstâncias?
Se ela fosse uma pessoa forte que não se importasse com aparências, se estivesse no lugar de sua mentora, o que deveria fazer? Moegi não conseguiu chegar a uma resposta. Não — na verdade, ela tinha uma resposta: essa pessoa nunca teria se colocado naquela situação desde o início. Teria usado sua liderança superior para coordenar melhor as forças e já teria quase dizimado todo o Time Coelho.
Essa era a resposta.
Do jeito que as coisas estavam agora, nem mesmo sua mentora seria capaz de reverter a situação. Era tarde demais. No momento em que alguém se colocava em uma posição desvantajosa, perdia o direito de ser chamado de forte. Quando Napoleão e o Império Romano foram derrotados, foram derrotados de forma esmagadora. Tudo havia acabado. O destino de Moegi já estava selado.
Esses pensamentos passavam por sua mente.
Ela só podia esperar que a realidade inevitável viesse desabar sobre ela.
Era a primeira vez em sua vida que o medo a dominava por dentro. Ela era como uma prisioneira no corredor da morte subindo as escadas pela última vez. Como uma empreendedora à beira da falência. Como uma trabalhadora sem qualquer ambição de construir uma carreira.
Moegi já tinha visto cenas em filmes em que comandantes militares se suicidavam ao serem cercados pelo inimigo, e sempre havia se perguntado, de forma ingênua, por que eles não lutavam até o fim. Agora, ela entendia. Era porque o tempo gasto esperando pela morte era muito mais assustador do que a própria morte. Encarar a certeza da morte despertava um medo puro e absoluto.
“Com licença.”
A mão direita de Moegi tremeu. Nela estava uma das morning glories, a mesma que ela havia usado durante a lição. Ela havia atirado três vezes na primeira garota, três vezes na segunda e uma vez na terceira, restando apenas uma bala dentro da arma.
Um pensamento lhe ocorreu — assustador demais para ser dito em voz alta: como seria, exatamente? Será que morreria sem dor? Por causa do Tratamento de Preservação e do pequeno diâmetro do cano da arma, ela provavelmente sentiria bastante dor. Mas, independentemente do método, o resultado não mudaria.
Mesmo que fosse doloroso, ainda lhe parecia uma opção viável.
Moegi ergueu lentamente a mão direita —
“Com licença!”
Foi como se alguém tivesse jogado água fria nela.
Moegi se sobressaltou. Sua cabeça se ergueu bruscamente após ter caído para baixo em algum momento.
Diante dela estava uma Toco.
O nome da garota era Airi, e ela tinha belos olhos cor de índigo. Ela era uma das jogadoras que haviam se adaptado rapidamente à lição de Moegi e já havia matado com sucesso quatro Coelhas.
Em sua mão, havia uma folha de bambu.
O coração de Moegi quase saltou do peito. Um pensamento aterrador cruzou sua mente, e ela congelou no lugar. Seu braço direito parou no meio do movimento, em uma posição estranha. Ela estava completamente paralisada.
Percebendo ou não que tinha total liberdade para brincar com a garota à sua frente, Airi moveu os lábios.
“Tenho algo a relatar.”
Levaram três segundos inteiros para que Moegi respondesse. Era o tempo necessário para agarrar sua alma, que havia saltado para fora do corpo.
“…O quê?”
“Eu… descobri algo estranho.”
O vigor retornou ao corpo de Moegi. Seu braço direito retomou o movimento e bateu contra o peito.
“…Ah… e-eu… entendo.”
“Gostaria de ouvir? Não é algo tão importante que você precise…”
“Continue. O que foi?”
“Encontrei um cadáver cujas roupas haviam sido arrancadas. Era de uma das Stumps. E ao lado do corpo havia uma roupa de coelhinha, o que significa que…”
“…Alguém se disfarçou”, disse Moegi, antes que Airi pudesse terminar.
Não havia regras proibindo tal ato. Isso não alteraria o time da pessoa nem as condições para concluir o jogo. Ainda assim, as jogadoras eram livres para trocar de roupa como quisessem. Era óbvio que trocar uma roupa de coelhinha constrangedora por um vestido tipo jumper relativamente menos embaraçoso teria efeitos positivos no estado mental, mas também havia um propósito estratégico nisso.
Confundia a linha entre aliado e inimigo.
Airi continuou:
“Como éramos apenas trinta no início, não acho que confundiríamos um inimigo mesmo que trocassem de roupa… mas achei melhor relatar.”
“Obrigada. É bom saber disso.”
“Havia também algo estranho no cadáver que você deveria saber…” Airi cobriu a boca com a mão.
“Ele estava severamente mutilado. Acho que alguém mexeu nele depois da morte.”
“Mutilado?” repetiu Moegi. “Pode ser mais específica?”
“Não é algo agradável de ouvir…”
“Continue.”
“O corpo foi aberto”, disse Airi, empalidecendo. “Os órgãos… tudo foi retirado. Isso pode significar que há alguém que mata por prazer no outro time? Mesmo com o Tratamento de Preservação, não consigo imaginar alguém fazendo isso com outro ser humano.”
(18/43)
Um arrepio percorreu o corpo de Moegi. Não por causa do relato de Airi, embora fosse assustador, mas por outra coisa.
“O que você disse?” perguntou ela, com os lábios frios. “Quando diz ‘aberto’, quer dizer… como se fosse um peixe sendo filetado?”
“…Se eu tivesse que comparar, seria isso.”
“E a garota morta estava sem roupas?”
“Sim.”
Moegi olhou para a própria roupa. Ela vestia um jumper dress marrom modelado como um tronco de árvore. Comparado à roupa de coelhinha, era bem mais folgado.
Uma lembrança voltou à sua mente. Aquela garota havia mencionado que não gostava de roupas apertadas.
Era possível. Era totalmente possível que ela tivesse esse desejo.
“De quem era o corpo?” perguntou Moegi.
“Não sei quem ela era…”
“Então qual era a altura do corpo?”
“Hã?”
“Era por volta de um metro e setenta?”
Airi pareceu confusa.
“Isso é relevante?”
“Apenas me responda.”
“…A garota morta era mais alta que a média, mas não sei dizer a altura exata.”
Isso resolveu tudo. Moegi encostou as costas na parede.
Ela está aqui? Neste jogo? Nesse caso, se matou alguém daquele jeito, então…
“Airi.”
“Sim?”
“Saia daqui imediatamente.”
Airi encarou Moegi sem expressão. Ela podia ver claramente os belos olhos índigo da garota.
Moegi gaguejou:
“N-não… espere… então concluir o jogo… mas isso vai nos prejudicar…”
“Hã? Do que você está falando?” perguntou Airi. “Uma das Coelhas se disfarçou de Toco. Não é só isso?”
“Desculpa, Airi. Minha cabeça está completamente confusa…”
“Pode me dizer o que está acontecendo?”
“Apenas me escute e fuja!!”
Sua voz soou estranhamente alta. A energia deixou o corpo de Moegi, e ela desabou no chão, mas isso não a impediu de forçar ainda mais a voz.
“Matar é como beber água do mar para ela! Uma vez que começa, não consegue parar! Os times já não importam mais! Nesse ritmo, ninguém vai sobreviver!”
No entanto, nem metade do que ela disse pareceu alcançar Airi. Moegi reformulou a explicação, tentando torná-la mais fácil de entender.
“Escuta—!”
(19/43)
“Alguém entre as Coelhas é uma assassina maníaca! Ela tem cabelo castanho-escuro."
(20/43)
Logo após Hakushi gritar isso, dois objetos voaram por cima de sua cabeça.
Ambos tinham mais ou menos o tamanho de um punho e o formato de pinhas.
Por mais que Yuki olhasse, não conseguia enxergá-los como outra coisa além de pinhas. Ainda assim, graças ao que já sabia sobre as ipomeias e as folhas de bambu, estava claro que aqueles objetos não eram simples enfeites. Todos na sala, inclusive os iniciantes, devem ter pensado o mesmo.
Todos se jogaram no chão, buscando cobertura. Eles esperavam uma explosão.
A previsão estava meio certa. Houve, sim, uma detonação, mas ela não representava perigo direto à vida. O que se espalhou pela sala não foi ar quente nem estilhaços de pinha, mas fumaça cinzenta.
A fumaça se expandiu muito mais do que o tamanho das pinhas sugeria. Em um piscar de olhos, dois pequenos objetos haviam tomado uma sala com trezentas pessoas.
A visão de Yuki ficou turva, mas, em compensação, sua audição se aguçou.
“Ng…”
Uma voz chegou aos ouvidos de Yuki, rouca demais para ser de uma garota. Ela entendeu instintivamente que era o som da agonia da morte. As cordas vocais de uma garota tremiam de forma involuntária após sofrer um ferimento grave, como uma facada no estômago.
Incontáveis pensamentos atravessaram a mente de Yuki.
Quem tinha sido esfaqueada? Quem havia atacado? Aquela voz era da Hakushi? Será que a “assassina psicopata” tinha alcançado ela? Impossível. Uma super-humana que superou probabilidades de um em quinhentos trilhões cairia tão facilmente? Não. Então o que estava acontecendo?
A assassina que Hakushi mencionou provavelmente tinha lançado as pinhas. Mas isso significaria que sua mentora havia sido seguida. Impossível. Não havia como uma veterana de noventa e cinco jogos cometer um erro desses.
Mas não havia outra explicação que fizesse sentido —
Yuki deu um tapa no próprio rosto.
Não, gritou seu coração. Pensar nisso não ajudaria em nada. Ela havia desperdiçado segundos preciosos. Sua pouca experiência em jogos mortais estava cobrando seu preço. Não, isso não importava agora. Este não era o momento de pensar nisso.
Ela precisava descobrir em que deveria focar.
O que precisava pensar naquele instante.
A coisa mais importante.
“Como sobreviver.”
Certo. Faz sentido. Então, o que você precisa fazer?
“Sair daqui.”
Sensato. O melhor seria seguir as instruções da Hakushi. Então por que você não está fazendo isso?
“Porque há uma cortina de fumaça.”
Exato. Mas você lembra onde fica a saída. O problema é que a assassina pode estar à espreita. Então, o que você deve esperar?
“Um som.”
Correto. A assassina ativou a fumaça para caçar. Se Yuki esperasse ali, com certeza ela atacaria alguém de novo. E essa garota soltaria um grito de agonia em seus momentos finais, sinalizando que o caminho estaria livre.
Era possível que a própria Yuki se tornasse essa vítima miserável, mas essa foi a melhor estratégia que conseguiu formular no pouco tempo que teve. Assim, permaneceu imóvel, aguardando aquele momento, enquanto suportava a sensação de estar deitada numa mesa de cirurgia.
“Arf…”
Ela ouviu um gemido de morte estranho e quase cômico, parecido com o som de uma foca. Como vinha da direção oposta à saída, Yuki correu com todas as forças para salvar a própria vida.
(21/43)
Moegi entrou no gigantesco labirinto.
Ela iria caçar algumas Coelhas.
(22/43)
O interior do labirinto era como uma pintura do inferno.
Toda vez que virava uma esquina, ela se deparava com um novo cadáver.
Uma Coelha com o rosto explodido por uma morning glory.
Duas Tocos caídas no chão, abraçadas uma à outra.
Uma Coelha que havia rastejado o máximo que conseguiu em seus últimos momentos, deixando para trás um rastro de penugem branca pelo corredor.
Havia também uma Toco que ela provavelmente havia matado, cujas entranhas haviam sido arrancadas do corpo.
Os corredores do labirinto gigante eram estreitos, então sempre que Moegi encontrava um corpo, era obrigada a passar por cima dele. Ainda assim, sentia certa relutância em fazê-lo, por causa da superstição de que passar por cima de alguém impede a pessoa de crescer.
O fato de serem cadáveres não diminuía sua hesitação, e ela se irritava consigo mesma por sentir culpa por algo tão insignificante.
Apenas os fracos sentiam culpa. Ela não podia se deixar ser arrastada por isso.
Moegi atravessava o labirinto gigante com o objetivo de matar Coelha.
Essa era a condição para vencer o jogo e sua prioridade imediata.
Embora ainda restassem mais de seis dias até o fim do prazo, se as coisas continuassem nesse ritmo, logo não haveria mais Coelhas para ela matar.
Isso porque a assassina maníaca, Kyara — mentora de Moegi — estava à solta.
Para a garota de cabelo castanho-escuro, trezentas Coelhas não passavam de brincadeira. Todo o Time das Coelhas seria exterminado em breve. O mesmo aconteceria com as Tocos.
Isso tornaria impossível cumprir a condição de vitória, e todos — Coelhas e Tocos — seriam mortos por suas mãos.
Não haveria sobreviventes.
Nem mesmo Moegi estava segura por ser a pupila de Kyara.
Ela conhecia bem demais o quão imprevisível sua mentora podia ser. Era totalmente possível que Moegi fosse morta depois que Kyara perdesse o controle. Mesmo que isso não acontecesse, sua mentora não sabia que Moegi fazia parte do Time das Tocos, então não havia chance de ela deixar cinco Coelhas vivas para que Moegi cumprisse sua cota.
Embora aquela fosse uma situação fora do comum, agora era tudo ou nada.
Ela precisava matar cinco Coelhas o mais rápido possível.
Apesar da pressa, Moegi ainda não havia matado nenhum membro do time inimigo.
Por onde passava, só encontrava corpos.
Ela levantava Coelhas caídas para confirmar se estavam realmente mortas, tocava seus corpos para estimar há quanto tempo haviam sido assassinadas e escolhia a direção a seguir com base nisso — mas tudo em vão.
Talvez todos já tenham sido mortos —
Assim que esse pensamento inchou dentro de sua mente até se tornar impossível de ignorar, Moegi finalmente encontrou uma sobrevivente.
Não era uma Coelha.
“Ah…”
As duas expressaram surpresa ao se depararem uma com a outra.
Era uma Toco. Moegi se lembrava do nome da garota: Hikawa.
Ela havia sido a primeira a completar a lição de Moegi.
“Moegi!” Hikawa disse, aliviada. “Ainda bem que te encontrei. Você tá viva?”
“……” Moegi fez uma breve pausa antes de responder. “Tô.”
“Você… ficou sabendo, né? Sobre a assassina entre as Coelhas. Agora tem coisa pior pra se preocupar do que o jogo… pode acabar não sobrando ninguém pra matar…”
A fala da garota começou a se embolar, mas a mensagem foi clara.
“Sim,” respondeu Moegi.
“Eu fiquei com medo de ficar sozinha, então fico feliz de ter te encontrado. Tá tudo um caos, mas vamos sobreviver juntas.” As palavras de Hikawa estavam cheias de determinação.
“Sim,” respondeu Moegi.
“É… não quero incomodar, mas posso pedir um favor?”
“O quê?”
“Fiquei sem armas.” Hikawa puxou uma morning glory do bolso do jumper. Apertou o gatilho duas, três vezes, mas nada saiu. “Sem balas. Se você tiver alguma coisa sobrando, eu agradeceria…”
“Tudo bem,” respondeu Moegi.
Ela puxou a morning glory que mantinha escondida atrás das costas.
“Um disparo é suficiente?”
(23/43)
Ao vasculhar o corpo de Hikawa, Moegi encontrou uma folha de bambu e uma pinha.
A garota havia mentido descaradamente ao dizer que não tinha armas. Talvez quisesse juntar o máximo possível, ou talvez estivesse planejando esfaquear Moegi pelas costas no instante em que surgisse uma oportunidade.
Se a morning glory de Hikawa não tivesse ficado sem balas, muito provavelmente quem estaria morta agora seria Moegi.
Desde o início, Moegi pretendia matar Hikawa.
Ela havia decidido matar qualquer pessoa que encontrasse — Coelho ou Toco.
Embora eliminar companheiras Tocos não ajudasse a concluir o jogo, simplesmente não havia Coelhas suficientes para todos.
Do jeito que as coisas estavam, os próprios Tocos eram rivais brigando por fatias de uma torta pequena demais.
No momento, Moegi carregava três morning glories, duas folhas de bambu e três pinhas. Todas haviam sido tomadas de Tocos.
Apesar de ainda não ter matado nenhum Coelho, seu número de Tocos mortos já passava de cinco.
Para impedir que outros reduzissem ainda mais a quantidade de Coelhas — e para colocar as mãos no máximo de equipamentos possível —, Moegi havia abatido seus próprios aliados com determinação implacável.
Era isso que ela acreditava que pessoas fortes faziam.
Na sociedade, uma ideia idiota vinha ganhando força: a de que a verdadeira força não era medida pelo poder físico, mas pela força mental.
Para Moegi, aquilo era pura e absoluta baboseira. Nada mais do que um pretexto criado por fracassados patéticos que se recusavam a admitir que não tinham habilidade alguma, tentando legitimar a própria inutilidade.
Força verdadeira.
Força verdadeira não era nada além da capacidade de fazer as coisas acontecerem. O poder de expressar egoisticamente os próprios desejos. A postura de não se importar com aparências. Aceitar a violência como meio para alcançar um fim.
Visto por outro ângulo, essa tal “força mental” — aguentar tudo em silêncio enquanto se reclama por dentro — não servia para absolutamente nada. Ética, moral, respeito às leis… tudo isso era repulsivo.
A capacidade de agir era o que definia a ética da nova era, e quem não possuía essa capacidade não era humano.
Garotas boas perdem tudo.
Essa foi a lição mais importante que Moegi aprendeu em seus dezesseis anos de vida.
Era por isso que ela estava participando desses jogos.
Era por isso que havia se tornado pupila de Kyara.
Tudo para renascer como uma nova pessoa.
Ela desprezava a Moegi chorona do passado.
Ia se transformar em alguém sem fraquezas.
Ela ia se tornar forte.
Moegi encontrou uma Coelha.
(24/43)
A garota possuía uma aura fantasmagórica. Sua pele pálida dava a impressão de que jamais havia tomado sol, e seu rosto sem vida fazia parecer que tinha perdido uma fortuna inteira na bolsa de valores. Ela pertencia ao Time Coelho e vestia um traje de coelhinha, mas talvez por causa da atmosfera de morte que emanava de seu corpo, a roupa ficava estranhamente sem graça nela.
Elas estavam em uma esquina.
Ambas haviam tentado virar na direção uma da outra.
Aquilo lembrou Moegi da clássica cena em que uma garota fofa, com pão na boca, tromba com um garoto bonito. Mas, dessa vez, não havia pão — e elas não chegaram a se esbarrar. Havia menos de trinta centímetros entre as duas.
O tempo parou.
As duas garotas congelaram, frente a frente.
“……!”
Um clima constrangedor pairou no ar.
Incapaz de avançar, Moegi deu um passo para trás. Enquanto ganhava distância, apontou o cano da morning glory para o peito da garota fantasma. Mas toda ação gera uma reação: a garota também recuou e desapareceu além da esquina.
Um disparo ecoou seguido pelo recuo da arma.
A postura horrível de tiro de Moegi cobrou seu preço. Ela cambaleou para trás, perdeu o equilíbrio e caiu sentada. Não sentiu dor, pois as folhas no chão amorteceram a queda, mas levou um tempo até conseguir se levantar.
Esperando alcançar a garota fantasma, Moegi virou a esquina. A garota já estava dobrando outra, mais à frente, quando Moegi atirou em suas costas — ou melhor, tentou. O tiro errou e acertou a parede. Xingando a própria incompetência, Moegi continuou a perseguição.
Virou a próxima esquina, morning glory em mãos.
Mas o alvo havia desaparecido.
À sua frente, apenas um corredor vazio envolto em silêncio.
Ela havia perdido a garota.
Moegi abaixou a arma e encostou as costas na parede. Apesar de ter corrido pouco, estava sem fôlego, com o coração disparado. Respirou fundo várias vezes, tentando acalmar cada órgão do corpo.
Então, aguçou os ouvidos.
Havia um leve farfalhar.
Eram passos. A garota fantasma havia pisado em folhas. As leis da natureza determinam que qualquer movimento gera som. Como Moegi também estivera se movendo até pouco antes, os ruídos se sobrepuseram, impedindo-a de perceber que a outra se aproximava. Ainda assim, o jogo era projetado para permitir que as jogadoras detectassem inimigos próximos.
Mesmo achando inútil, Moegi avançou o mais silenciosamente possível, seguindo o som.
Virou mais três ou quatro esquinas até chegar a um cruzamento. Moegi correu na direção do ruído. E então…
“…Hã…?”
No chão, havia um par de orelhas de coelho. Apenas uma tiara. Nada mais. As orelhas avançavam em um ritmo constante, saltitando. Aquilo era a origem do som que Moegi confundira com passos.
Claro, a tiara não se movia sozinha. No topo do arco que ligava as orelhas havia um nó, feito com a fita que adornava o traje Coelho como um laço no pescoço.
A fita seguia adiante pelo corredor. Parecia ter sido confeccionada a partir de várias fitas retiradas de cadáveres, pois havia nós amarrados em intervalos regulares. Moegi não conseguia ver o que havia na ponta, já que desaparecia além da esquina, mas era lógico supor que alguém estivesse puxando aquilo.
Resumindo toda essa explicação em quatro palavras: era uma isca.
Nesse instante, Moegi sentiu uma força intensa ao redor do pescoço. Algo com textura lisa e sedosa a estava estrangulando por trás. Ela percebeu imediatamente: era outra fita — ou melhor, uma corda feita de várias fitas.
Moegi cambaleou para trás e bateu contra o corpo de alguém. Não foi preciso pensar muito para saber de quem era.
Ela levou a morning glory da mão direita até perto da orelha. Como se estivesse falando ao telefone, disparou um tiro para trás, na direção da garota fantasma. Mas a tentativa foi um desastre.
O tiro explodiu em seu ouvido.
Uma faísca atravessou sua cabeça, como se tivesse injetado cafeína diretamente no cérebro. Em choque, Moegi soltou a arma. A pistola caiu no chão e deslizou à frente, espalhando folhas. A garota fantasma havia chutado a arma para longe.
Mesmo após o disparo, a pressão em seu pescoço continuava. Prova de que a bala não havia acertado o alvo.
Moegi sacou uma folha de bambu e cortou a fita ao redor do pescoço. Normalmente, seria um ato aterrador, mas a falta de oxigenação no cérebro havia privado Moegi do bom senso. Por reflexo, ela projetou o pescoço e a cabeça para frente.
Ao mesmo tempo, olhou para cima e girou o corpo. Em uma sequência fluida de movimentos, ergueu a folha de bambu e atacou, sem tempo algum para mirar.
Uma mão agarrou seu pulso.
A lâmina parou a centímetros dos olhos e do nariz da garota fantasma.
As duas ficaram frente a frente. Moegi não sabia dizer por quantos segundos permaneceram assim, mas durante todo o tempo, ela se esforçou desesperadamente para empurrar a lâmina mais alguns centímetros adiante.
Então veio o arrependimento — no instante em que um chute atingiu em cheio a boca do estômago.
“Ah—”
Um som entre um gemido e um suspiro escapou de seus lábios. Moegi deu um passo para trás para criar distância. À medida que a garota fantasma se aproximava, Moegi tentou intimidá-la, brandindo a folha de bambu que ainda segurava.
Depois, recuou.
Foi uma retirada física e psicológica. A diferença de habilidade entre elas havia ficado clara. A experiência de jogo era outra. Moegi não tinha chance alguma em combate corpo a corpo.
Dominada pelo pensamento amador de que só lhe restava atacar à distância, ela jogou a folha de bambu fora e puxou as duas morning glories restantes dos bolsos do moletom.
Atirou.
As duas armas dispararam ao mesmo tempo.
Mas foi aí que ela percebeu: estavam no meio de um cruzamento. Bastava à garota fantasma dar um único passo para o lado para evitar a chuva de balas. Ela desapareceu novamente, deixando Moegi sozinha.
Uma enxurrada de pensamentos tomou sua mente. A respiração ficou irregular. O ouvido direito ainda latejava. A blusa estava encharcada de suor. O cabo da morning glory absorvia o calor de seu corpo. Ao redor do pescoço, tudo ardia, possivelmente ferido no momento em que cortara a fita.
Nenhum passo ecoava.
A garota fantasma ainda aguardava além da esquina.
Não havia chance de ela estar paralisada pelo medo. Devia estar esperando, julgando vantajoso permanecer imóvel. Afinal, com Moegi empunhando duas pistolas, uma fuga impensada seria perigosa. Ainda havia inúmeras formas de transformar aquilo em um combate corpo a corpo.
Moegi não tinha coragem de avançar. Momentos antes, havia se saído de forma patética. Se entrassem em luta direta, ela perderia.
Independentemente da lógica, suas pernas não se moviam. Tudo o que podia fazer era permanecer ali, arma em mãos, esperando que a inimiga cometesse um erro e reaparecesse.
Com o passar dos segundos, o pânico crescia.
Ela ainda não havia matado nenhum Coelho. Enquanto hesitava, seu mentor, Kyara, provavelmente estava eliminando outras jogadoras. Zero. Aquela garota fantasma seria a primeira. Moegi mordeu o lábio, frustrada com a dificuldade de matar sequer uma pessoa.
Sinceramente, ela achara que seria mais fácil. Subestimara a situação por estar armada contra uma oponente desarmada, acreditando que bastaria puxar o gatilho.
Então por quê?
Como cheguei a um ponto em que um único erro significa morte?
Eu realmente vou ter que fazer isso mais quatro vezes? Uma idiota como eu nunca—
Pare.
Pare. Pare. Pare.
Pare de ceder a esses pensamentos inúteis. Uma pessoa forte nunca faria isso. Este não é o momento para se afogar em covardia. Isto é uma provação. Um ritual para renascer como meu eu ideal. Aquela garota é apenas um degrau. Experiência. Material para uma história de superação que contarei no futuro.
Exato.
Os deuses só nos impõem desafios que podemos vencer. O esforço sempre compensa. A vida é um jogo de soma zero, e todos que zombaram de mim no passado vão pagar.
“Eu não vou perder” Moegi disse em voz alta.
E continuou:
“Eu não vou perder aqui! Eu sou a pupila de Kyara! Ouça meu rugido!!”
Não houve resposta.
Em vez disso, a garota fantasma lançou um objeto na direção de Moegi.
(25/43)
Era uma pinha — uma granada de fumaça. Tentáculos de fumaça se espalharam violentamente pelo cruzamento e avançaram até onde Moegi estava. No mesmo instante, Moegi recuou.
Ela olhou para si mesma, para o vestido jardineira. Usava o cinto para carregar as pinhas e, embora tivesse começado com três, percebeu então que apenas uma ainda estava presa. A garota fantasma não havia roubado apenas uma, mas duas, durante o confronto.
Como se tivesse esperado Moegi chegar a essa conclusão, a segunda pinha surgiu da nuvem de fumaça, girando no ar e passando por ela. Explodiu atrás de Moegi, fazendo a fumaça subir e bloquear sua rota de fuga.
Ela ficou presa entre duas paredes cinzentas.
É claro que a fumaça era algo pelo qual ela poderia atravessar facilmente, e essa deveria ter sido sua prioridade imediata. Não havia necessidade de hesitar sobre o que fazer naquele momento: sair da fumaça e se afastar da garota fantasma. Não era uma fuga — ela apenas precisava ganhar distância. Independentemente de desistir ou não da perseguição, ficar cercada por fumaça dos dois lados não era uma situação favorável. Ela deveria ter escapado rapidamente.
Na realidade, Moegi permaneceu imóvel.
Isso porque ela temia avançar para dentro da fumaça, para um espaço onde seu campo de visão estaria bloqueado. A ideia de atravessar a cortina de fumaça sequer passou por sua mente.
As duas paredes cinzentas se uniram em uma só e engoliram Moegi.
Sua visão se reduziu a nada.
Ela ouviu passos apressados.
Por instinto, Moegi puxou o gatilho da morning glory, disparando duas vezes em direção ao cruzamento. Os tiros não foram seguidos por nenhum gemido, e ela percebeu que os passos não estavam se aproximando — estavam se afastando. A garota fantasma estava correndo para mais fundo no labirinto.
Ela vai escapar…
Não levou mais do que alguns segundos para esse pensamento ser refutado. Os passos voltaram a se aproximar, mas vinham de outra direção. A garota devia ter dado a volta para tentar atacá-la por trás.
Determinada a não permitir isso, Moegi girou o corpo.
Um farfalhar mais alto ecoou nas proximidades. Moegi se lembrou da tiara conectada às fitas no chão, então sabia que não deveria confundir aquele som com passos da garota fantasma. Por mais distraída que estivesse, conseguia distinguir um do outro.
Isso mesmo. Independentemente da fumaça ou do inimigo tentando flanqueá-la, o fato permanecia: Moegi tinha vantagem por estar em um corredor reto. Afinal, o alcance de ataque delas era completamente diferente. Nenhuma pessoa, por mais experiente que fosse, conseguiria enfrentar duas armas de fogo estando completamente desarmada —
“—Ah!”
Um som escapou de sua boca.
Todo o calor drenou de seu corpo em um instante.
Ela se lembrou — no início da batalha, carregava três morning glories.
Ela se lembrou — havia deixado cair a primeira depois de dispará-la perto da orelha.
Ela se lembrou — a garota fantasma a havia chutado para longe.
Então… onde ela estava agora?
(26/43)
Disparos consecutivos ecoaram.
Metade vinha de Moegi; a outra metade, de outra pessoa.
Moegi estava no meio de um corredor estreito, tão apertado que era impossível contornar um cadáver sem passar por cima dele — e ainda mais impossível desviar de um ataque.
Agora que ambas empunhavam morning glories, a situação havia se invertido. Uma delas estava no centro de um corredor mal largo o suficiente para se mover. A outra, posicionada junto a uma esquina, podia facilmente esconder o corpo. Era óbvio quem venceria o tiroteio.
Moegi foi atingida no ombro, no estômago e na perna direita.
Ela nem sequer conseguiu assumir uma postura defensiva ao cair.
Se houvesse algo pelo qual pudesse ser elogiada, seria por não deixar a dor transparecer na voz. Ainda assim, não conseguiu esconder o fato de ter desabado.
Um novo disparo a atingiu. Ela já não sabia dizer onde havia sido ferida. A dor percorreu todo o seu corpo, como se cada parte disputasse atenção.
Uma sensação ardente atacou seus nervos. Todo o seu ser parecia prestes a explodir.
Dois pensamentos preencheram cada canto de sua mente. O primeiro: estava sentindo dor. O segundo: queria escapar da dor. Mas, no fundo, ela sabia que, mesmo que tentasse correr, não conseguiria fugir.
Moegi tateou o chão com ambas as mãos em busca da morning glory que havia deixado cair.
No instante seguinte, um salto alto pisou com força sobre sua mão direita.
O cano de uma arma surgiu diante de seus olhos.
“……”
Embora a fumaça ainda estivesse presente, já começava a se dissipar, e a curta distância não deixava margem para enganos. Ela encarou o rosto da garota fantasma atrás da morning glory. A garota tinha uma expressão severa. Havia malícia em seus olhos? Ou seria repulsa pelo ato de matar?
Moegi concentrou o olhar na arma apontada para seu rosto. Era aquela que ela havia derrubado. Se sua memória não falhasse, ainda restava uma bala. Mesmo que estivesse vazia, a garota simplesmente passaria a golpeá-la com o corpo da arma.
Tinha acabado. Moegi já não precisava sustentar uma fachada de força.
Ela sentiu algo nos cantos dos olhos que não experimentava havia muito tempo.
A garota que segurava a morning glory puxou o gatilho, disparando uma bala com poder suficiente para perfurar um crânio humano.
No breve instante em que o projétil percorreu a distância de menos de um palmo entre o cano da arma e o rosto de Moegi — nos momentos finais de sua vida — Moegi estava, sem sombra de dúvida, chorando.
(27/43)
A fumaça se dissipou.
(28/43)
Yuki esperou a fumaça desaparecer por completo antes de recolher as armas.
A Toco ainda tinha duas pistolas, mais uma pinha e, provavelmente, ao menos uma folha de bambu também. Para enfrentar uma assassina psicopata, a prioridade imediata de Yuki era garantir armamento. Como a fumaça já estava rala no momento em que matou a Toco, sua visão não estava obstruída, e ela poderia ter começado a saquear o corpo imediatamente — mas optou por permanecer imóvel por um tempo.
No instante em que a fumaça se dissipou por completo, Yuki começou a se mover.
Ela golpeou a parede com toda a força. Era dura. Não se moveu nem um centímetro. Isso não a surpreendeu, afinal fazia parte do cenário do jogo. Yuki não tinha a intenção de destruir a parede. Não — ela só queria descarregar a frustração, e teria se dado por satisfeita até mesmo espancando o cadáver da Toco.
Isso porque a garota estendida no chão à sua frente a havia irritado profundamente.
“…Se gabando de ser forte e madura…”, murmurou Yuki, com reprovação na voz.
“Uma garota como você não serve para esses jogos! Seu lugar é no mundo real!!”
A Toco não representava ameaça alguma. Não tinha talento. Yuki não tinha mais nada a dizer. A garota não havia demonstrado o mínimo de bom senso. Ao que tudo indicava, era pupila daquela psicopata, mas se aquilo era tudo o que conseguia fazer, então não havia esperança para ela.
Durante o confronto, Yuki não sentiu em momento algum sua vida em perigo. Mesmo que o mundo fosse reiniciado cem vezes, nada teria impedido Yuki de vencer aquela batalha.
Na superfície, havia sido uma vitória esmagadora.
No entanto, Yuki tinha visto.
O rosto da garota em seus momentos finais.
Era um presente de despedida cruel.
Até então, Yuki já havia visto os rostos de inúmeros jogadores morrendo, mas, diferente deles, o daquela Toco não estava tomado por medo, desespero ou rancor alimentado por uma vontade de lutar ainda ardente. Tampouco exibia a expressão tola de quem se recusa a aceitar a própria morte.
O rosto da garota estava tingido de exaustão.
Era a emoção que surge quando alguém dedica corpo e alma a algo, mas ainda assim fracassa. A compensação concedida àqueles que entregam tudo o que têm à vida, mas não obtêm resultados à altura. O prêmio de consolação desses jogos mortais.
Yuki não fazia ideia do que havia por trás daquela expressão — e, mesmo que descobrisse, não seria capaz de se identificar com aquilo.
Ainda assim, havia algo ali. Algo diferente dos motivos superficiais de Yuki para participar desses jogos. Algo diferente das razões dos jogadores que entram apenas uma vez. Aquela garota queria alcançar algo continuando a participar.
Fosse o que fosse, Yuki havia destruído qualquer chance disso acontecer.
Como alguém que apenas vagava pela vida, ela havia pisoteado aquilo com seus instintos inatos.
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Mesmo depois de terminar de saquear o corpo, as emoções de Yuki continuavam turvas.
Mesmo após obter duas morning glories, duas folhas de bambu e uma pinha — e mesmo depois de deixar o cadáver da Toco para trás —, ela ainda se sentia da mesma forma. O que havia criado raízes dentro de Yuki era algo que não cicatrizaria sozinho; ela sentia aquilo crescer lenta, porém constantemente, em sua alma.
Ela continuou caminhando pelo gigantesco labirinto, seguindo em direção ao acampamento-base do Time dos Coelhos, sem um plano definido. Se quisesse aumentar suas chances de sobrevivência, deveria ter continuado a explorar o labirinto. Hakushi havia ordenado que todos continuassem fugindo da maníaca homicida, e Yuki precisaria garantir comida e água para sobreviver por uma semana. Voltar ao acampamento significava correr o risco de encontrar a psicopata de frente — como uma mariposa atraída pela chama. Era um ato que ia muito além da imprudência.
Ainda assim, ela queria voltar.
Queria confirmar se Hakushi estava bem.
Embora não soubesse se a psicopata ainda rondava o acampamento-base, Yuki sentia certeza de que sua mentora estaria lá.
Viva ou morta.
O ideal seria que Hakushi ainda estivesse viva. Yuki havia aprendido que derrotar um assassino experiente era impossível, mas talvez sua mentora tivesse conseguido uma vitória fácil. Talvez Hakushi tivesse reunido todos os Coelhos sobreviventes e estivesse comemorando no acampamento naquele exato momento. Por outro lado, mesmo que ela estivesse morta, tudo também estaria resolvido. O que Yuki precisava era entender o que havia acontecido. Ela odiava vagar sem saber quem estava vivo ou morto — sem saber nada sobre a situação como um todo.
À medida que se aproximava do destino, o número de cadáveres espalhados pelo caminho aumentava.
Parecia haver cerca do dobro de corpos em comparação com antes. Pilhas deles cobriam o chão. Graças ao Tratamento de Preservação, Yuki foi poupada da visão de tudo tingido de vermelho. Aproximadamente um em cada dez corpos estava brutalmente mutilado, e ela compreendeu de imediato: aquela era a marca registrada da maníaca homicida.
Entre os cadáveres, havia alguém que ela conhecia.
Sumiyaka.
Seu corpo fazia parte dos nove em cada dez — um cadáver “normal”. Incontáveis perfurações cobriam seu peito, infligidas com a mesma precisão de quem perfura uma máquina para torná-la mais leve. Uma delas fora o golpe fatal. Suas cordas vocais, que haviam ficado roucas por causa do álcool e do cigarro, não vibravam mais, e suas mãos — que haviam atacado as axilas de Yuki algum tempo atrás — não demonstravam qualquer sinal de vida. Ao tocar seu corpo, Yuki não sentiu resquício algum de calor. A alma de Sumiyaka havia partido para longe demais para ser recuperada.
Ela fora morta pela psicopata.
A mulher de cabelos cor de ágar, que, segundo Sumiyaka, fazia parte do grupo de iniciantes. A mulher que desaparecera sem que Yuki percebesse.
Se Yuki não a tivesse ignorado… ou talvez se tivesse —
Ela descartou esses pensamentos no instante em que surgiram. Hakushi a havia ensinado a não assumir responsabilidade pelo que acontece dentro de um jogo. Yuki passara por um treinamento rigoroso para endurecer o coração. Após inspirar lenta e profundamente uma ou duas vezes, conseguiu apagar aquelas lembranças — como um político diante da imprensa.
Ainda assim, nem mesmo essa técnica foi capaz de dissipar seus sentimentos turvos.
Era como se uma agulha estivesse perfurando seu peito.
Ela não conseguia tirar da mente o rosto da Toco em seus últimos momentos. Era o rosto de alguém que estava sendo confrontado, de forma cruel, com seu valor como ser humano. Yuki chegou a sentir que havia algo errado com os próprios batimentos cardíacos. De acordo com suas regras pessoais, aquela Stump era superior a ela, e Yuki não conseguia aceitar plenamente a realidade de que a garota havia morrido enquanto ela permanecia viva.
Em jogos onde todos estavam à beira da morte, esse tipo de mentalidade era fatal.
Yuki compreendia isso.
E sabia que, naquele estado mental, morreria caso encontrasse a maníaca homicida.
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Yuki chegou ao acampamento-base.
Deitada ali estava o cadáver de Hakushi.
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O corpo dela fazia parte daquele “um em dez”. O cadáver havia sido tão completamente mutilado, além de qualquer possibilidade de reconhecimento, que Yuki sentiu que merecia elogios por tê-lo identificado como sendo de Hakushi. Ela chegara a essa conclusão com base na altura, na compleição e na cor dos poucos fios de cabelo que ainda restavam, mas o corpo — ou ao menos algumas de suas partes — poderia muito bem ter pertencido a uma completa estranha.
Por onde começar a colocar aquela cena em palavras?
Antes de tudo, havia a questão da localização do corpo. Ele fora disposto de forma ostensiva no centro de um salão imenso, grande o suficiente para abrigar trezentos Bunnies, como se fosse uma rocha lunar em exibição. E, de fato, o corpo tinha um valor comparável ao de uma rocha da lua, pois pertencia a alguém que havia sobrevivido a noventa e cinco jogos de morte. Tanto o cadáver quanto todo o local do jogo que o abrigava naquele momento poderiam muito bem ser considerados relíquias sagradas.
O corpo de Hakushi — sua cabeça, abdômen, braços e pernas, até mesmo cada dedo e cada fio de cabelo — havia sido completamente desfigurado. O sangue, transformado em uma penugem branca pelo Tratamento de Preservação, cobria quase cada centímetro de sua carne. Até o interior do corpo havia sido mutilado. Ao redor do cadáver, costelas foram dispostas como as marcações de um relógio analógico; o intestino delgado se estendia no formato de uma vista aérea de uma pista de corrida; e os órgãos estavam espalhados como pedras pontilhando um jardim paisagístico.
Histórias de suspense costumavam recorrer ao clichê de cadáveres que transmitiam alguma mensagem grotesca, mas, pelo que Yuki conseguia perceber, não havia qualquer sinal de que o psicopata estivesse tentando chamar atenção ou comunicar algo. Em vez disso, ela concluiu que a cena era simplesmente o resultado de um assassino que queria mutilar um corpo.
Talvez, só talvez, o corpo ainda estivesse respirando.
— Impressionante, não é?
Uma voz veio de um dos lados do salão.
Ali estava uma mulher, sentada e abraçando os próprios joelhos.
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A mulher tinha cabelos da cor de madeira de ágar. Cor de caramelo.
Yuki não sabia qual era exatamente a cor da madeira de ágar, então supôs que fosse o mesmo tom do cabelo da mulher. Pelo que a Toco havia dito antes, o nome dela era Kyara.
À primeira vista, ela lembrava Hakushi, com os cabelos longos e a estatura alta. No entanto, sua postura era completamente diferente da de sua mentora.
O rosto da mulher era difícil de descrever. Ao mesmo tempo, ela parecia um lendário ferreiro de espadas mal-humorado, relutante em aceitar pedidos; um velho tão obcecado por pachinko que seus olhos começavam a se parecer com as próprias bolinhas do jogo; uma professora de cursinho com um jeito estranho de dar aula; uma heroína tsundere que ficara mais delicada depois de bater a cabeça; e um androide que acabara de receber um programa capaz de lhe conceder emoções. Ainda assim, nenhuma dessas descrições parecia realmente precisa. Yuki nunca tinha conhecido alguém sequer remotamente parecido com aquela mulher.
Quanto mais tentava organizar seus pensamentos em palavras, mais sentia que se afastava da verdade.
Essa mulher…
Foi ela?
“Foi você?”, a primeira fala de Yuki saiu como uma pergunta estúpida. “Foi você quem fez isso?”
“Foi.”, Kyara assentiu.
E, assim, como se não fosse nada, elas começaram a conversar.
Uma maníaca homicida. A mulher que havia derrubado Hakushi, uma jogadora veterana em seu nonagésimo sexto jogo.
“Por que você está usando um uniforme de Toco?”
Como indicava a pergunta de Yuki, Kyara vestia um vestido tipo jumper. Segundo Hakushi e Sumiyaka, aquela mulher deveria estar no Time dos Coelhos, mas, como estava usando uma roupa de Toco…
“Eu prefiro roupas folgadas.” A resposta veio do nada. Kyara encarou Yuki. “Deixa eu te perguntar: você não sente vergonha de usar isso?”
“…Sinto.” Yuki tocou o laço na base do próprio pescoço.
O uniforme de Toco que a mulher vestia estava limpo demais para ter sido tirado de um cadáver. Ainda assim, Yuki tentou não pensar muito a respeito.
“Então você estava fingindo ser iniciante?”, continuou Yuki.
“Estava. Mas eu ainda me considero uma novata. Afinal, esse é só o meu décimo jogo.”
“Eu diria que isso já é bastante. Pelo menos, é mais do que eu.”
“É mesmo?”
“Com trezentos jogadores por aqui, como ninguém te reconheceu?”, perguntou Yuki.” Se você já participou de dez jogos, com certeza alguém devia saber como você é.”
“Difícil.” Um sorriso cínico se espalhou pelo rosto de Kyara. “Quer dizer, eu matei todos os outros jogadores em todos os jogos em que participei.”
“…O que você disse?” Os olhos de Yuki se arregalaram.
“Não, espera. O meu segundo jogo foi exceção.” Kyara voltou atrás. “Eu deixei Moegi viver. Uma boa garota, aquela.”
Moegi. Esse era o nome da líder do time inimigo e, muito provavelmente, o nome daquela Toco.
“Tenho quase certeza de que eu a conheci” respondeu Yuki.
“Ah, é? E como ela parecia?”
“Morta.” Yuki omitiu o fato de ter sido ela quem tirara a vida de Moegi. “Por que levar isso tão longe? Por que você sempre mata todo mundo? Nenhum dos jogos exige isso. Como aqui, por exemplo, você só precisava atingir As Tocos, sabia? Foi porque a Moegi estava no Time dos Tocos? Você estava ajudando ela?”
“Não.”
“ Você ganha algum dinheiro extra por cada pessoa que mata?”
“Não.”
“Então por quê? Você acha que vai virar algum tipo de heroína depois de matar um milhão de pessoas ou algo assim?”
“Eu já te disse eu só queria essas roupas.” Kyara puxou uma das mangas. “Eu tive que matar a dona anterior sem machucá-la pra manter o uniforme em perfeito estado, sabia? Isso acabou sendo mais difícil do que eu pensei. Ela resistiu bastante… então eu perdi a paciência.”
Yuki franziu a testa. “Você perdeu a paciência… e?”
“Só isso.”
Nada daquilo fazia sentido para Yuki. “Eu não vejo como isso se relaciona com sair por aí matando todo mundo.”
“Ah, é?” Kyara bufou. “Certo.”
Ela lançou um olhar para Yuki.
Um único, simples olhar.
Um arrepio percorreu o corpo de Yuki, descendo até a ponta dos dedos.
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Yuki estava congelada até o fundo da alma. Seu corpo também. Ele ficou frio, como se o sangue estivesse escapando por algum lugar, e, como se para compensar isso, sua cabeça começou a esquentar. Seu cérebro entrou em sobrecarga.
Uma onda de informações inundou sua mente, como se ela tivesse ganhado quatro olhos novos. A base do Time dos Coelhos. A floresta sintética. O mascote de guaxinim caído de bruços. O cadáver de Hakushi. O estado da sala, tão cheia de corpos que ela nem havia prestado atenção neles. A psicopata “a única outra pessoa viva no acampamento” encostada na parede, relaxada como se estivesse na própria sala de estar. A forma como ela se sentava, abraçando as pernas. Os olhos que cintilavam por baixo da franja.
A expressão “olhar que mata” surgiu na mente de Yuki, seguida por uma voz que começou a repreendê-la, dizendo que o ditado não significava exatamente aquilo que ela pensava.
O ar se agitou e, um instante depois, uma aura de sede de sangue preencheu o salão.
“Você não entende?” Kyara se levantou lentamente. Seus cabelos da cor de madeira de ágar balançaram de um lado para o outro. — Sério? Você já participou desses jogos, então com certeza já teve a chance de matar alguém, não teve? Mesmo que não tenha ido tão longe, pelo menos já descontou sua frustração em pessoas ou em coisas, certo? Eu não consigo imaginar como você não entende.
A psicopata começou a se mover. Em contraste, as pernas de Yuki permaneceram travadas no lugar.
“Matar não levanta o seu ânimo, sabia?” continuou Kyara. “Só engana você mesma.” Você sai em fúria, se cansa até nada mais fazer sentido, e isso te carrega até que a raiva passe por conta própria. É a mesma coisa que beber para esquecer o futuro. Não importa quantas vidas você tire, isso nunca resolve o problema na raiz.
Kyara lançou outro olhar para Yuki.
“É isso.” Havia fúria no rosto da psicopata. — Esses olhos. Todo mundo me olha de cima quando ouve que eu sou uma assassina. Isso me dá nos nervos. Se você quer saber, todo mundo me empurra para esse papel. Todos provocam a sede de sangue de propósito. Não há uma única pessoa que eu tenha matado porque, no fundo, eu quis. Eu sou um produto do meu ambiente. Se você quer viver, é melhor se endireitar como a Moegi.
Kyara enfiou a mão no bolso e puxou algo imediatamente — uma folha de bambu.
“Eu não me importo se você não entende.” Kyara começou a andar em passos rápidos e decididos.
Yuki tentou, repetidas vezes, ordenar que suas pernas se movessem. Mexe. Mexe. Mexe. Mexe. Mas elas não obedeciam. Não davam o menor sinal de sair do lugar.
Se não conseguia se mover, então só restava uma opção: parar a outra mulher.
“De jeito nenhum” disse Yuki. “Você está dizendo que ela perdeu só porque você precisava descontar?!”
Embora Yuki não tivesse mencionado o nome da mentora, Kyara entendeu que ela se referia a Hakushi.
“Hã?” respondeu, num tom casual. “Você não consegue ver a resposta com os próprios olhos?”
“ Mas ela era a jogadora mais experiente de todas! Esse era o nonagésimo sexto jogo dela!”
“Ela me pareceu fraca.” As palavras saíram com facilidade da boca da psicopata. “Além disso, o corpo dela se movia todo errado.”
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Nesse ponto, não só o corpo de Yuki estava congelado — o frio também havia alcançado sua cabeça. Enquanto permanecia ali, em transe, a voz da psicopata chegava aos seus ouvidos.
“ Olhe só por dentro dela. Estranho, não é” Kyara lançou o olhar para o lado e, como se os olhos de Yuki estivessem ligados aos dela por um fio, eles acompanharam o movimento.
Eles pousaram no cadáver grotesco de Hakushi. A visão era tão repulsiva que a palavra “cadáver” parecia inadequada. O corpo fora cortado em tantos pedaços que surgia a dúvida se algo tão mutilado ainda poderia ser considerado um corpo sob as leis do país.
Yuki concentrou o olhar em cada parte.
Ela não conseguia dizer, só de encarar, se aquilo era “estranho”. Não sabia como era o interior de uma pessoa saudável, mas, agora que Kyara havia mencionado, alguns detalhes realmente pareciam fora do normal. As costelas eram tão finas que lembravam cenouras cultivadas com cuidado num deserto apocalíptico, e os órgãos tinham escurecido, como garotos bronzeados de um time de futebol. Além disso, a quantidade de órgãos espalhados pelo chão parecia baixa, considerando que tudo havia sido retirado. Se Yuki se lembrava bem, o manequim humano da antiga sala de ciências tinha mais órgãos do que aquilo.
“ Bem, ela já estava quase chegando aos cem jogos, sabe”
disse Kyara.
“É natural que fique fraca.”
Yuki se lembrou de que Hakushi havia tirado uma pausa de três meses depois do jogo anterior. Aquilo parecia tempo demais só para se preparar. Qual era o verdadeiro motivo?
“ Ela devia ter parado depois de juntar todo aquele dinheiro” continuou a mulher. “ Quem sabe, talvez fosse viciada.”
O objetivo de Hakushi de completar noventa e nove jogos já era difícil de entender, mas agora se tornava ainda mais incompreensível. Depois que o corpo dela ficou daquele jeito, nunca passou pela cabeça dela que era hora de parar? A teoria de Kyara, de que Hakushi era viciada, era a única coisa que fazia algum sentido.
Será que a meta de completar noventa e nove jogos era tão atraente a ponto de valer a pena forçar um corpo já gasto até o limite?
Yuki ficou sem palavras.
A imagem do rosto da Toco morrendo surgiu em sua mente. O som de insetos estridentes encheu seus ouvidos.
“ Satisfeita?” perguntou Kyara.
A distração terminou ali. Kyara voltou a se mover.
“De qualquer forma, ela não tinha chance contra mim. E não só ela, isso vale para todo mundo.”
Ela acelerou o passo.
“ E tenho certeza de que você não vai ser diferente.”
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Curiosamente, mesmo naquela situação, Yuki continuava paralisada no lugar. Ela observava, em branco, enquanto Kyara passava de uma caminhada para uma arrancada, com uma expressão severa no rosto, apontando a ponta da folha de bambu para ela. Se Yuki estivesse assistindo a essa cena por uma tela, teria uma reação muito mais intensa. Ao pensar que o jogo estava sendo transmitido em algum lugar, sentiu vergonha da própria incapacidade de agir.
Sua mão se contraiu, como se estivesse sinalizando que aquele não era o momento de ficar parada.
Nela, havia uma ipoméia.
Yuki ergueu o braço rapidamente.
Três disparos ecoaram em sucessão. Ela tinha certeza de que os três haviam atingido o alvo. Embora tivesse pouca experiência com armas de fogo, a precisão podia ser atribuída ao fato de a pistola ser, como Sumiyaka dissera, de “tamanho feminino”, ou talvez a um talento natural.
As três balas se alojaram na cabeça de Kyara, e os movimentos vigorosos da mulher cessaram. O corpo de Kyara se arqueou tanto para trás que Yuki conseguiu ver nitidamente o contorno do queixo e do pescoço. Escorregando levemente para a frente, a assassina caiu de costas.
Uma revoada de folhas rodopiou no ar com um farfalhar. Um instante depois, todo o som desapareceu da sala. O silêncio era tão profundo que Yuki conseguia ouvir o próprio coração batendo.
Enquanto o cheiro de pólvora fazia cócegas no nariz, Yuki olhou para Kyara. A mulher estava estendida no chão, completamente imóvel. O sangue escorria de sua cabeça e, ao tocar o ar, transformava-se imediatamente em tufos de penugem branca. Uma das pernas estava dobrada num ângulo como o boneco de uma placa de saída de emergência, e as mãos estavam erguidas, como se ela estivesse em uma pose de comemoração.
Era uma visão patética. Embora a mão direita ainda segurasse a folha de bambu, aquilo só podia ser resultado do rigor mortis ou de algum efeito semelhante; Kyara não estava em condições de manter o aperto. Ela havia levado três tiros na cabeça. Nem mesmo Hakushi sobreviveria a isso.
Ainda assim, Yuki achou que precisava conferir para ter certeza.
Ela abaixou a ipoméia. Estava sem balas. Jogou-a de lado e a substituiu pela segunda pistola que havia tirado de Moegi.
Mas não a ergueu. Yuki se aproximou do corpo sem se proteger.
Esse foi o maior erro dela.
Kyara se ergueu num estalo, como uma ratoeira.
Uma folha de bambu veio voando na direção de Yuki.
Mesmo com o impulso, considerando a postura de Kyara e o fato de aquilo não ser uma faca de arremesso, não ganhou velocidade suficiente para ser chamada de rápida. Ainda assim, pegou Yuki desprevenida. Ela ainda tinha dúvidas se Kyara estava realmente morta, mas jamais imaginou que a mulher contra-atacaria tão depressa. Yuki foi descuidada.
E o preço que pagou foi a metade direita da sua visão.
O ferimento era profundo, e ela pressionou o local com a mão. Ou o globo ocular, ou alguma parte ao redor dele, havia sido cortada, mas ela não conseguia identificar o ponto exato, porque toda a área pulsava de dor.
Sem tempo para avaliar o próprio estado, Yuki focou o olho esquerdo na inimiga.
A psicopata já estava de pé. Mesmo agora, o sangue continuava a escorrer de sua cabeça.
Yuki olhou para onde as balas haviam atingido. Carne, sangue, cabelo da cor de madeira de ágar e penugem branca se misturavam a ponto de ser difícil distinguir uma coisa da outra, mas havia ali uma cor inesperada, que não correspondia a nenhum desses elementos — prata.
Sob a pele da cabeça de Kyara, havia algo com um brilho prateado.
“ O quê…?”
Yuki não conseguiu evitar a confusão. — O que é isso?
“ Não dá pra perceber? “
Kyara bateu na parte exposta, produzindo um som metálico. — Armadura. Está implantada por todo o meu corpo. Pra me proteger de balas, é claro.
Yuki ficou sem palavras. Ela achava que já estava acostumada a coisas fora do senso comum. Jogos da morte. Tratamento de Preservação. Jogadores comuns que entravam nesses jogos sem motivo algum. Nunca havia um momento nessa indústria em que você não estivesse cara a cara com o inacreditável, então Yuki acreditava ter nervos fortes o bastante para não se abalar com quase nada.
Mas isso? Isso era um nível completamente diferente de absurdo.
Só havia uma forma de reagir a algo assim—
“ Você é louca?! Isso é como transformar a si mesma num ciborgue!”
“Não fale assim. A armadura só cobre parte de mim. A maior parte do meu corpo ainda é humana.”
“ Isso vai contra as regras”
— Por favor. Se isso violasse as regras, então obturações de prata também violariam. Deixa eu te perguntar: como você consegue jogar com um corpo humano indefeso? Por que nunca passou pela sua cabeça se modificar para ganhar vantagem? Eu não consigo entender.
Yuki ergueu a ipoméia. Mas não fazia ideia de onde mirar. Kyara havia dito que a armadura estava implantada por todo o corpo. Era certo assumir que todos os pontos vitais estavam protegidos? Nesse caso, as pernas seriam bons alvos. Mas também era possível que ela tivesse reforçado a parte inferior para manter o equilíbrio. Pelos movimentos rápidos de antes, era improvável que cada centímetro da carne dela estivesse protegido—
Claro, Kyara não tinha motivo algum para esperar Yuki organizar os próprios pensamentos. A psicopata disparou em uma arrancada, segurando uma segunda folha de bambu que parecia ter surgido do nada.
Tanto faz, pensou Yuki. Ela mirou no centro do peito da mulher e puxou o gatilho. O tiro errou — ou melhor, Kyara desviou. Só porque tinha armadura não significava que ela tivesse qualquer motivo para aceitar todos os impactos. Tarde demais, ocorreu a Yuki que havia permitido que Kyara calculasse o momento certo para desviar ao deixar óbvio onde estava mirando.
No segundo tiro, Yuki disparou como um pistoleiro em um duelo do Velho Oeste. Acertou. A bala raspou o lado do estômago de Kyara, mas não impediu a investida da mulher.
Nesse ponto, Yuki finalmente pegou o jeito. Em seguida, decidiu atirar no estômago de Kyara e repetiu o mesmo movimento de antes, mas nada saiu. A arma estava sem balas. Moegi havia disparado apenas cinco tiros daquela ipoméia durante a luta delas, então Yuki percebeu imediatamente que devia ter atirado uma vez antes de se encontrarem. De qualquer forma, a pistola estava vazia.
Ela segurou a ipoméia de lado e usou o corpo da arma para aparar a folha de bambu que vinha em sua direção. Mas as armas não se chocaram. Kyara puxou a folha de bambu de volta e a estocou para a frente. Yuki se esquivou. Como não tinha armadura sob a pele, tinha vantagem em mobilidade. Enquanto continuava a evitar a enxurrada de ataques, ela puxou a própria folha de bambu e passou para a ofensiva.
O primeiro golpe de Yuki foi absorvido.
Não por uma folha de bambu — mas pelo pescoço da mulher.
A arma atingiu diretamente um dos pontos vitais de Kyara, mas não fez mais do que cortar uma fina camada de pele. Nem o pomo de Adão de um velho ofereceria tanta resistência. Um arrepio percorreu a espinha de Yuki quando caiu a ficha de que a oponente havia implantado armadura num lugar que certamente afetava o dia a dia dela. Como Yuki havia atingido metal, sua mão ficou dormente por um instante — algo que não passou despercebido pela inimiga.
Nesse breve momento, Kyara esfaqueou Yuki três ou quatro vezes.
“ ……! Aaah!” Yuki soltou um grito patético.
Depois de descarregar tudo, ela se afastou um pouco. Olhou para baixo por um segundo. Penugem branca jorrava de seu corpo. Ela não se importou com onde, onde, onde e onde havia sido perfurada. Por enquanto, seus membros ainda funcionavam, e isso era a única coisa que importava.
“Ha-ha!”
riu a psicopata, de forma maníaca. — Indo direto no meu pescoço, é? Gosto da sua coragem! Você tem muito mais noção do que qualquer um desses fracotes no chão!
Kyara apontou a folha de bambu para um monte de corpos caídos ali perto. Entre eles, estava o cadáver de Hakushi.
Por algum motivo, aquilo encheu Yuki de uma fúria cegante.
“Para de se divertir com isso!” ela gritou, jogando fora os últimos resquícios de civilidade que ainda demonstrava. — O quê, você é uma viciada em batalha em pleno século atual? Acorda pra realidade!
“ Engraçado vindo de você!”
“O que você sabe sobre mim?!”
“ Um olhar já me diz tudo o que eu preciso saber! Você é um livro aberto!” Kyara ergueu a voz ainda mais. “ Você é igual a mim! Você acha esse mundo confortável, não acha?!”
Uma sensação atingiu Yuki, como se seu coração estivesse se contraindo. Como se tivesse perdido o equilíbrio ou como se o próprio valor estivesse desmoronando. Era algo que ela não sentia desde o ensino fundamental, uma sensação que não a havia alcançado nenhuma vez desde que parara de se relacionar com pessoas e com a sociedade.
Era a sensação de estar perdendo uma discussão.
Kyara continuou: — “Esse lugar é simplesmente perfeito! Não tem uma única regra com a qual eu discorde! Posso matar qualquer um que me irrite! Não só faço o que eu quero sem consequências, como às vezes garotas fofas ainda me bajulam! Depois de experimentar esse paraíso, não consigo mais voltar ao mundo normal! Esse é o único lugar pra nós! Eu sonho em morrer aqui!” — “É isso que você pensa, lá no fundo!”
“Não.”
Yuki queria rebater. Queria dizer que esse não era o único lugar para ela. Que não sonhava em morrer ali. Que havia escolhido esse caminho por vontade própria. Que decidira viver naquele mundo por si mesma. Irritava-a ser rotulada como alguém que havia fugido para ali por não conseguir se encaixar no mundo real. Queria afirmar que se orgulhava da própria vida, que era diferente da psicopata à sua frente, que agia apenas por impulso.
Mas isso seria uma mentira. Yuki não tinha o que era necessário para sustentar essas palavras.
Para vencer — para sobreviver — ela precisava de uma história.
Yuki gritou:
“Não me coloque no mesmo saco que você!!”
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Yuki falou sem pensar muito.
Mas, como se as palavras tivessem o poder de alterar a realidade, no instante em que a frase saiu de sua boca, uma sensação de satisfação a envolveu. Todo o seu corpo foi tomado por uma ilusão reconfortante, uma que, surpreendentemente, indicava que talvez ela realmente acreditasse no que havia dito.
Yuki entendeu o que sua mentora quisera dizer sobre ter um objetivo.
O que ela precisava era de um roteiro. Uma narrativa coerente.
Por que eu venceria essa psicopata? Por que eu sobrevivi em vez daquele Stump? Yuki precisava preparar uma explicação que amarrasse tudo. Não tinha a ver com estratégia. Tinha a ver com seu espírito, sua mente. Antes de pensar em táticas de verdade, ela precisava primeiro convencer o próprio coração, que naquele momento se afundava em inferioridade. Ela não podia lutar enquanto carregasse fraqueza. Não precisava que Hakushi lhe dissesse isso.
E havia uma explicação adequada bem ali, na palma da sua mão.
Ainda assim, Yuki não precisava escolher exatamente aquela explicação. Não haveria problema em optar por uma história de vingança, de fazer a assassina pagar pelo que fizera à sua mentora, ou de querer provar sua força como ser humano. Mas escolher aquela explicação específica dava origem a um certo orgulho, pois lhe permitia traçar um caminho por conta própria.
Era uma declaração que a guiaria à vitória. Um ato calculado. E, ainda assim, para uma explicação forçada, soava estranhamente natural. Talvez fosse verdade. Desde o momento em que pusera os olhos no cadáver de Hakushi — ou talvez, só talvez, desde o instante em que conhecera sua mentora —, aquele desejo estivesse em algum lugar dentro dela.
Yuki não conhecia a própria verdade.
Mas, independentemente disso, ela a disse em voz alta.
“Eu sou a protegida dela!” Yuki gritou. “Eu vou herdar a vontade dela! Eu vou completar noventa e nove jogos! E não tem a menor chance de eu perder pra alguém como você!!”
Ela se impulsionou do chão, avançando em desespero.
Enquanto corria, Yuki tocou a lâmina da folha de bambu com a ponta dos dedos, confirmando que ainda estava afiada. Não checou com os olhos — seu olhar estava fixo apenas em Kyara.
Kyara torceu os lábios em um leve sorriso. Não era um sorriso de desprezo, nem de deboche pelas palavras inflamadas de Yuki, que nem pareceriam fora de lugar em um mangá shounen moderno. O sorriso de Kyara demonstrava interesse — como se estivesse animada por as coisas terem tomado um rumo inesperadamente divertido.
Yuki não sabia de verdade por que Kyara estava sorrindo, nem tentou descobrir. Sua inimiga era uma maníaca homicida. Era óbvio que Yuki só se afundaria se tentasse entender.
Com a mão livre, Yuki arremessou um objeto — uma pinha.
Uma nuvem de fumaça se formou entre as duas.
Como tinha sido ela mesma quem lançou a pinha, Yuki continuou avançando. Correu direto para dentro da fumaça sem hesitar. Ela se lembrava com precisão da distância entre ela e a assassina e, como havia imaginado, avançou — esquerda, direita, esquerda — colocando todo o peso em um único golpe com a folha de bambu no ponto onde Kyara deveria estar.
A lâmina cortou o vazio.
Yuki viu o marrom de um vestido tipo jumper pelo canto do olho direito.
No instante seguinte, uma dor ardente atravessou seu ombro. Ela soltou um grito, mas não parou. Quase deixando a folha de bambu cair ao apertar o ombro ferido, ela seguiu correndo, passou por Kyara e saiu disparada para fora da cortina de fumaça.
O objetivo dela não era emboscar Kyara. Yuki não era como Moegi, e sabia que uma simples cortina de fumaça não seria suficiente para paralisar a adversária. Ela tinha atacado pensando que talvez, por sorte, pudesse acertar um golpe — mas seu verdadeiro objetivo estava além do ponto onde Kyara havia estado.
Yuki não estava fugindo.
Ela estava avançando.
Quando alcançou aquilo, se agachou e colocou as mãos sobre o objeto. Então se virou, vendo Kyara sair da fumaça.
Um instante depois, os olhos de Kyara se arregalaram em surpresa.
E era compreensível.
Porque o objeto que Yuki segurava não era uma arma, nem nada do tipo.
Era o mascote tanuki — o explicador do jogo.
Yuki achou aquilo estranho. Hakushi sempre lhe dissera para evitar enfrentar assassinos experientes. Yuki era boa em sobreviver, não em matar. Só agora ela sentia o peso real dessas palavras. Num confronto direto, não tinha chance de vencer.
Mas Kyara havia dito que Hakushi “parecia fraca”.
Yuki tinha pensado que era por causa do corpo desgastado após noventa e cinco jogos. A raiva por ouvir sua mentora ser chamada assim foi tão grande que ela não percebeu o detalhe escondido naquela frase.
Porque aquilo significava que Hakushi havia lutado contra Kyara. Contra uma assassina de verdade. Com um corpo que não podia vencer. Contra alguém que ela não tinha como derrotar.
E, mesmo assim, o corpo de Hakushi estava ali. Despedaçado no chão.
A mutilação não era obra de um ataque rápido. Tinha sido raiva. Tinha sido uma luta.
E Hakushi nunca entraria numa batalha que não pudesse ganhar.
Então Yuki pensou:
Será que ela deixou algo para trás?
Se não podia vencer com o próprio corpo, talvez tivesse deixado um presente para quem chegasse depois. Uma última jogada contra Kyara.
Talvez fosse só esperança. Talvez fosse apenas o que Yuki queria acreditar.
Ainda assim, ao examinar o salão com essa ideia em mente, algo se destacou.
O mascote do guaxinim.
Yuki só tinha ouvido falar dele depois de acordar tarde, mas diziam que era o “explicador” do time coelho. Seu abdômen estava rasgado, com peças eletrônicas expostas. Hakushi tinha contado que todos tinham se juntado para espancá-lo.
Antes, o boneco estava de barriga para cima.
Agora, estava virado para baixo.
Alguém podia ter chutado, claro. Mas havia outra possibilidade.
Hakushi também tinha dito: “Todo mundo bateu nele. Talvez estivesse escondendo um item.”
Sem dar atenção ao olhar surpreso de Kyara, Yuki virou o mascote.
Como esperava, sobre os circuitos dentro do abdômen, havia uma única morning glory.
Yuki empunhou a arma e mirou em Kyara.
Seu olho direito estava ferido. Metade do mundo tinha sumido, e o que restava parecia embaçado, como se estivesse à beira das lágrimas — mesmo sem chorar.
Ela sentiu o peso do que sua mentora tinha feito.
Hakushi podia ter usado aquela arma. Mesmo fraca, ainda conseguia puxar o gatilho. Isso teria aumentado, nem que fosse um pouco, suas chances de vitória.
Mas ela escondeu a pistola.
Para que Kyara não a encontrasse.
Para que alguém, algum dia, tivesse uma chance.
Provavelmente, ainda havia oito balas.
Yuki disparou três vezes.
Ombro. Abdômen. Perna direita.
Os mesmos pontos em que Moegi fora atingida.
Se Moegi, a protégé de Kyara, não tinha blindagem ali, talvez Kyara também não tivesse.
As balas acertaram.
As pernas de Kyara falharam, e ela caiu de joelhos. Tentou arremessar a bamboo leaf, mas Yuki não se moveu.
Disparou mais três vezes.
A quarta bala errou. Kyara tinha se abaixado.
A quinta acertou a cabeça. Kyara tinha caído para frente.
No sexto disparo, Yuki mirou na coxa esquerda.
Acertou.
A folha de bambu voou na direção do seu peito — e parou no botão da fantasia de coelha, caindo sem força no chão.
Yuki soltou um riso curto. Talvez aquela roupa não fosse tão inútil assim.
O sétimo tiro atravessou o olho aberto de Kyara.
Olho por olho.
O oitavo entrou pela boca.
Quando o gatilho não respondeu mais, Yuki largou a arma e pegou a bamboo leaf caída.
Ela se aproximou.
E esfaqueou.
No rosto.
No peito.
Nas mãos.
Nos pés.
Sem ritmo. Sem forma. Só raiva.
Kyara tentou resistir com as unhas, mas Yuki não parou. Procurou pontos vitais. Encontrou metal sob o peito.
Então afundou a lâmina no abdômen.
De novo.
E de novo.
E de novo.
Até o punho desaparecer dentro do corpo da mulher.
Só então Yuki percebeu que Kyara tinha parado de respirar.
O campo de visão de Yuki se expandiu.
Ela parou a mão. Acalmou a respiração. Só então conseguiu enxergar o que tinha feito.
À sua frente estava o corpo de Kyara — o abdômen dilacerado. Não chegava ao nível grotesco do que restara de Hakushi, mas ainda assim era, sem qualquer dúvida, um cadáver. Não havia margem para erro.
Yuki olhou para a própria mão esquerda, ainda fechada em torno da bamboo leaf.
Não havia sangue.
Por causa do Tratamento de Preservação, qualquer vestígio vermelho tinha virado penugem branca. Sua mão estava limpa. Limpa demais. Ninguém imaginaria que, segundos antes, ela tinha acabado de matar alguém.
As mangas da fantasia de coelha também não tinham uma única mancha.
A bamboo leaf escorregou de seus dedos.
Yuki caiu sentada no chão.
Sua guarda estava completamente baixa. Era a pior decisão possível. Uma das pessoas que ela tinha dado como morta antes tinha se levantado depois. O jogo ainda não tinha acabado. Um Stump sobrevivente podia estar escondido em algum canto, esperando o momento certo para atacá-la enquanto ela estava ferida.
Yuki sabia disso.
Mas não conseguia se mover.
O cansaço que a dominava não era só físico. Era mental. Era algo que superava qualquer exaustão que ela já tivesse sentido em jogos anteriores.
Era o peso de ter chegado ao fim.
Ela soltou um suspiro longo.
A luz atravessava os troncos artificiais da floresta sintética. Seu corpo foi ficando leve, leve demais, como se estivesse absorvendo aquela claridade. Se nada a interrompesse, talvez dormisse ali mesmo.
Mas passos ecoaram pelo salão.
Yuki se sentou.
Na entrada estava uma Stump. Uma garota de olhos azul-índigo brilhantes. O rosto mostrava o mesmo cansaço que Yuki sentia no próprio corpo. As mãos estavam juntas, como em oração. Entre elas, uma bamboo leaf.
Um Coelho contra um Toco.
O confronto que o jogo sempre quis.
A garota ficou parada por alguns segundos, imóvel.
“ Você vai me matar?” Yuki perguntou.
“…Não.”
A garota ergueu as mãos, deixando a bamboo leaf cair no chão.
“ Já matei cinco. Chega.”
Yuki piscou, surpresa.
“Isso é… impressionante.”
“Eu cansei. Nunca mais quero me envolver com um jogo desses.”
Um sorriso tímido surgiu no rosto de Yuki. O movimento puxou a pele ao redor do olho direito, e a dor veio junto.
“Consigo imaginar.”
E assim, o jogo chegou ao fim.
Candle Woods quebrou dois recordes: o maior número de participantes da história e a menor taxa de sobrevivência.
De 330 jogadores, 298 Coelhos e 29 Tocos morreram.
Apenas três sobreviveram.
Nome do jogador: Yuki
Nome real: Yuki Sorimachi
Nome do jogador: Airi
Nome real: Airi Hitose
Nome do jogador: Hakushi
Nome real: Manami Shiratsugawa
Traduzido por Moonlight Valley
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