Volume 1

capitulo 1- parte 0 até 7

(0/7)

Yuki acordou dentro de seu estúdio de cento e vinte pés quadrados.

(1/7)

Esse era o momento que Yuki mais odiava nos jogos: encarar a visão já familiar do teto de seu pequeno e decadente apartamento.

A cena martelava em sua cabeça ainda grogue, lembrando-a de que os dias divertidos passados em um jogo mortal — o único palco no mundo onde ela realmente conseguia existir — tinham chegado ao fim. Yuki sempre acordava de mau humor.

Ela se sentou e saiu do colchão. Seu corpo se movia normalmente outra vez. O olho direito também estava curado, sem qualquer problema de percepção de profundidade. Tirou a roupa para examinar o próprio corpo e constatou que todas as perfurações haviam desaparecido.

Estava completamente restaurada.

Yuki elogiou, em silêncio, a capacidade dos organizadores de curar tudo — até mesmo um globo ocular.

Pegou o celular ao lado do travesseiro. Eram cinco da tarde.

Só então percebeu o tom avermelhado da luz do lado de fora da janela. Nem precisava ter olhado a hora — era claramente o pôr do sol.

Ainda era cedo demais para Yuki se mexer. No fundo, ela era uma criatura da noite. Sempre dormia às sete da manhã e acordava às sete da noite. Doze horas inteiras de sono.

O resultado natural de uma vida sem rumo desde que terminou o ensino fundamental.

E também o motivo pelo qual se considerava uma pessoa vergonhosa, incapaz de encarar a sociedade. Durante o dia, não conseguia nem sair do apartamento, com medo de ser vista.

Vou cochilar de novo, pensou. Faltam só duas horas para o meu horário.

O sono já tinha ido embora, então provavelmente não conseguiria dormir de verdade. Mas podia, ao menos, deitar e ficar olhando para o nada.

Ou, como uma adolescente nada saudável, matar o tempo no celular.

De qualquer forma, só mais duas horas.

Yuki puxou de volta o cobertor que tinha afastado e se deitou.

No instante seguinte, uma sensação estranha tomou forma dentro do peito.

Parecia incômodo. Ou talvez culpa.

Uma voz dentro dela perguntou se estava tudo bem fazer isso.

Yuki já tinha voltado a dormir depois de acordar inúmeras vezes, mas aquela era a primeira vez que sentia algo assim.

Se remexendo sob o cobertor, ela procurou o motivo.

E encontrou quase de imediato.

Era porque tinha herdado a vontade de sua mentora.

As palavras que tinha gritado sem pensar para sobreviver em Candle Woods estavam pesando muito mais do que ela imaginava.

De forma surpreendente, uma mentalidade começava a brotar dentro dela.

Preciso me endireitar.

Preciso agir como uma sucessora de Hakushi de verdade.

Com o passar dos segundos, a inquietação só cresceu.

“Aaaah… — Yuki suspirou, jogando o cobertor para o lado, já sem conseguir mais conter seus sentimentos. — Eu só preciso levantar, né…?”

Murmurando para si mesma, ela deu um passo para fora.

(2/7)

O único lugar para onde ela podia ir era a loja de conveniência a cinco minutos de caminhada.

Yuki temeu que uma nova voz surgisse em sua cabeça, mandando que ela melhorasse seus hábitos alimentares, mas esse medo não se concretizou. Carregando uma refeição pronta abarrotada de açúcar, sódio, gordura e conservantes, ela voltou para o apartamento.

Comprar comida sempre foi um desafio para Yuki. Seu apetite costumava assumir o controle, obrigando-a a devorar tudo o que comprava no mesmo instante. De forma incomum, dessa vez ela apenas colocou a refeição no chão e a deixou ali.

Em seguida, abriu a porta do armário, pegou roupas que estavam dobradas — ou melhor, amassadas em forma de bola — em um canto, e as espalhou pelo chão.

Eram os trajes que ela havia usado em jogos anteriores.

O mais recente antes deste tinha sido o de uma sacerdotisa. Antes disso, um uniforme de delinquente. Antes, um maiô escolar, e assim por diante.

Ao todo, seis roupas estavam estendidas no chão. Além dessas, Yuki se lembrou de ter jogado fora outros dois trajes por causa de mofo, totalizando oito.

Somando o traje de coelhinha do jogo mais recente, eram nove.

Esse era o recorde atual de Yuki.

Nove jogos. Ainda faltavam noventa para chegar aos noventa e nove.

O objetivo estava muito distante.

Yuki nunca havia parado para refletir sobre os jogos passados, mas se lembrava com clareza de um ou dois apuros em que tinha se metido. Sentia orgulho por ter conseguido atravessar o inferno e voltar viva.

Depois de sobreviver a situações especialmente perigosas em seus dois jogos anteriores e, claro, em Candle Woods, ela tinha conseguido emendar apenas uma sequência de nove vitórias.

Para chegar aos noventa e nove, precisaria repetir essa façanha mais dez vezes.

Yuki voltou a perceber o quão insana sua mentora tinha sido — e o quão ambicioso tinha sido o próprio blefe.

Ainda assim, em um tom cheio de força, declarou:

“Tudo bem. Eu vou conseguir, droga!”

(3/7)

Voltando no tempo…

(4/7)

O jogo de Candle Woods havia terminado.

Depois que a ameaça do assassino psicopata foi eliminada, as poucas sobreviventes — Yuki e Airi — permaneceram em uma sala equipada com o básico para viver, montada dentro do labirinto.

Como os organizadores concluíram que o jogo havia chegado a um equilíbrio e não havia mais motivo para continuar, ele foi encerrado antecipadamente no terceiro dia.

Após resgatar as duas jogadoras, os funcionários da organização começaram a limpar o local.

Entre eles, um empregado entrou no grande salão que havia servido como base do Time dos Coelhos.

O lugar onde trezentos Bunnies se reuniram pela primeira vez.

Onde Hakushi foi morta.

Onde Yuki e Kyara travaram seu confronto fatal.

O funcionário parou diante do corpo de Hakushi, deixado em seu estado grotesco.

“Vim buscar você — disse ao cadáver. — O jogo acabou. Não precisa mais fingir de morta.”

Depois de um tempo…

…um único estalo ecoou.

Logo, o som se multiplicou.

Creec. Creec. Creec. Creec. Creec. Creec.

Quando finalmente cessou, o cadáver horrendo estava de pé.

Mesmo com ossos, músculos e vísceras destruídos, mesmo tendo sido despedaçada pessoalmente pelo assassino psicopata, o corpo permanecia erguido, coberto inteiramente por uma camada de pelos brancos.

Parecia uma fantasia de Halloween.

(6/7)

Yuki passou um tempo pensando — o que ela precisava fazer para sobreviver a noventa e nove jogos?

Ela fez tudo o que conseguiu imaginar.

Primeiro, limpou o quarto.

Até o lixo ela jogou fora.

Comprou um caderno e uma caneta e finalmente refletiu sobre todos os jogos que havia enfrentado.

Também comprou um monte de cabides e pendurou seus trajes de jogo no armário.

Melhorou a alimentação.

Decidiu consertar seu estilo de vida sedentário, um passo de cada vez.

Por fim, chegou ao último item.

“…Isso nem é vergonhoso nos jogos, então por que eu me sinto assim…?”

Yuki tocou a própria bochecha quente.

Seu rosto inquieto apareceu refletido na tela do celular, captado pela câmera frontal.

A resposta para o desconforto estava logo abaixo do pescoço.

O que ela vestia não era seu agasalho de ficar em casa.

Nem o de sair.

Era um uniforme escolar estilo marinheira, impecável.

Ela havia comprado pela internet.

Não havia um motivo especial para ser um uniforme, mas como Yuki não tinha o menor senso de moda, escolheu aquilo por segurança.

Agora, se arrependia amargamente.

Mesmo assim, o horário estava chegando.

Não havia tempo para trocar.

E ela não podia se dar ao luxo de desistir.

Para sobreviver a noventa e nove jogos, ela precisava de conhecimento.

Afinal, uma garota que nem sabia a história de Kachi-Kachi Yama — e que nem conseguia calcular as próprias chances de sobreviver a noventa e nove partidas — não tinha como se tornar uma jogadora de elite.

Yuki calçou os loafers que também comprara online e saiu do apartamento.

O céu estava tingido de vermelho.

Era o entardecer.

Ela ia estudar à noite.

O celular indicava que estava atrasada.

Ela correu.

Enquanto a garota fantasma disparava pela rua, a saia esvoaçando no ar, várias pessoas viraram a cabeça para olhá-la.

Mas Yuki não sentiu o menor constrangimento.

Seus pés batiam no asfalto com mais força do que nunca.

Não importava o quanto corresse — o cansaço não vinha.

Ela achou que era porque, pela primeira vez, estava seguindo o próprio caminho.

O objetivo que agora existia no núcleo do seu ser preenchia cada centímetro do seu corpo com força.

A partir de agora, eu vou viver como uma jogadora.

E vou jogar jogos de morte para colocar comida na mesa.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

 

Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra e interagir com a comunidade:

 

https://discord.com/invite/4m4E6zxRRk

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora