Volume 1

jogo 28: Casa Assombrada



















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Yuki acordou em uma cama desconhecida.

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O colchão era grande o suficiente para acomodar pelo menos cinco pessoas. Tratava-se de uma luxuosa cama com dossel, cercada por cortinas em todos os lados — o tipo de cama onde uma princesa criada com todo o luxo descansaria seu corpo cansado, algo que uma pessoa comum jamais veria na vida.

Yuki não reconhecia aquela cama. Isso, por si só, já deixava claro que ela não fazia parte da alta sociedade.

Ela se sentou, agora completamente desperta. Nenhum cobertor a cobria; na verdade, ela havia dormido sobre ele. Seu corpo estava deitado na diagonal da cama, com a cabeça longe do travesseiro. Nessas condições, dizer que ela estava “dormindo” talvez não fosse o termo mais adequado. Seria mais correto dizer que ela apenas “se deitou” ali — ou, sendo mais direto, que havia sido “jogada” sobre a cama.

Como era de se esperar, as roupas que Yuki usava não eram pijamas. Em termos simples, ela estava vestindo um uniforme de empregada doméstica.

“…Urgh…”

Um gemido escapou de seus lábios quando ela olhou para si mesma.

Um uniforme de empregada. Aquele clássico contraste de preto e branco. Um tipo de roupa que já havia passado do auge da popularidade, mas que ainda possuía muitos fãs pelo país.

Caso isso não fosse suficiente como descrição, eis os detalhes: era um vestido com um avental rendado por cima. Os uniformes de maid normalmente vinham com dois tipos de saia — extremamente longa ou extremamente curta — e o de Yuki era do tipo longo, conhecido como estilo “clássico”.

Yuki desceu da cama, parecendo tão “clássica” quanto o próprio uniforme.

Ela estava em um quarto luxuoso, condizente com a cama em que havia acordado.

Por causa de sua criação simples, Yuki não conseguia descrever aquele luxo com palavras sofisticadas. Ainda assim, forçando ao máximo seu vocabulário, ela diria que o quarto transmitia uma sensação de elegância.

O teto era tão alto que era difícil imaginar como alguém conseguiria limpá-lo. Em contraste com o tamanho exageradamente amplo do cômodo, havia pouquíssimos móveis. Mesmo assim, os poucos que existiam tinham uma presença imponente, como a de uma rainha no xadrez. Essa comparação surgiu por causa do chão quadriculado em preto e branco, que lembrava um tabuleiro.

Mas o chão não era a única coisa sem cor.

Todo o interior do quarto era monocromático — do teto às paredes, da cama aos móveis, incluindo até o uniforme clássico de empregada que Yuki vestia. A única exceção visível era sua própria pele, que, ainda assim, era bastante pálida.

Era nesse tipo de quarto que ela havia acordado, e nada ali lhe era familiar.

Ela havia “dormido” na cama, então em algum momento deve ter se deitado ali. Porém, não se lembrava de nada disso. Não se lembrava de ter entrado no quarto, nem de ter trocado de roupa, nem de ter se deitado.

Ela simplesmente acordou em um lugar desconhecido, vestindo roupas desconhecidas, sobre uma cama desconhecida.

Como alguém chamaria uma situação dessas?

O quarto não tinha janelas, o que indicava que ficava no subsolo ou não possuía paredes externas. Porém, havia uma porta.

Yuki caminhou até ela e, após atravessar o enorme quarto, parou diante da saída.

Após uma rápida inspeção, girou a maçaneta. Não havia resistência.

A porta se abriu para um corredor.

Yuki espiou com cautela. Assim como o quarto, o corredor era luxuoso e completamente monocromático, estendendo-se até onde a vista alcançava.

Ela saiu lentamente, deixando a porta aberta atrás de si, e seguiu pelo corredor sem fazer barulho.

As paredes estavam cheias de portas, todas igualmente espaçadas, como se quisessem compensar a ausência de janelas. Várias estavam abertas, assim como a de Yuki, e ela tinha uma boa ideia do que isso significava.

Sem janelas, a única forma de entender sua situação era explorar aquelas portas.

Yuki já havia decidido que abriria a maior que encontrasse. Normalmente, essa era a escolha certa — e, naquele caso, a maior porta ficava no fim do corredor.

Ela avançou com a cautela de um soldado atravessando um campo minado.

Quando chegou até ela, girou a maçaneta e entrou.

No instante seguinte, encontrou-se em uma sala de jantar — com cinco empregadas.

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Seguindo o mesmo padrão do corredor e do quarto, a sala de jantar era inteiramente preta e branca.

No centro do cômodo havia uma mesa, mas ela estava longe de ser um móvel modesto. Era tão grande que seria impossível para uma única pessoa carregá-la. Ao seu redor, havia seis cadeiras — três de cada lado mais longo.

A mesa estava coberta por uma toalha branca, sobre a qual repousava um grande prato do que pareciam ser doces. Considerando todos esses elementos, ficava claro que aquele espaço era uma sala de jantar.

Cinco das seis cadeiras estavam ocupadas — por cinco empregadas.

Todas eram garotas. Embora essa conclusão pudesse ser precipitada, era assim que pareciam aos olhos de Yuki. Ela as observou com mais atenção e estimou que a mais velha tinha idade de universitária, enquanto a mais nova parecia estar no ensino fundamental.

As cinco se encontravam em algum ponto da adolescência, a fase da vida em que ainda podem ser chamadas de “garotas”.

Curiosamente, segundo um certo grupo seleto de entusiastas, uma empregada não é definida pela roupa, mas sim pela personalidade. A beleza de uma criada ou atendente estaria em sua capacidade de permanecer calma, controlada e digna em qualquer situação, resolvendo todos os problemas com a cabeça fria.

Mas, por esse critério, nenhuma daquelas cinco garotas seria considerada adequada para o papel.

Nenhuma delas exalava sofisticação.

Uma se mexia sem parar, outra olhava nervosamente para os lados, a terceira estava escorada no encosto da cadeira, fazendo-a ranger, e a quarta mantinha a cabeça baixa, chorando.

A quinta tentava acalmar a garota em lágrimas, esfregando suas costas, mas nem mesmo sua expressão podia ser descrita como serena.

Elas não eram empregadas de verdade.

Eram apenas um grupo de garotas vestidas como empregadas.

Naturalmente, todos os olhares se voltaram para a sexta empregada recém-chegada.

Com os olhos de todas sobre si, Yuki caminhou até a mesa, puxou a cadeira vazia e se sentou em um assento que parecia elegante demais para alguém como ela.

“Olá”, disse. “Meu nome é Yuki. Prazer em conhecê-las.”

Ela foi recebida pelo silêncio.

Após uma longa pausa, alguém finalmente respondeu:

“…Prazer em conhecê-la.”

“Então eu fui a última a chegar?”

“Parece que sim.”

Yuki fixou o olhar na garota que havia respondido.

“Vocês já estavam aqui desde o começo?”

“Não. Acordamos em quartos diferentes e viemos para cá separadamente…”

“Estavam esperando há muito tempo?”

“Não muito. Talvez uns dez ou vinte minutos.”

“Desculpem por isso. Eu costumo ter dificuldade para acordar, então sempre me atraso.”

“…Você parece calma. Estranhamente calma.”

A garota estreitou os olhos.

“Mesmo tendo acordado em um lugar como este.”

“Ah, bem… é que…”

Yuki parou por um instante para escolher as palavras.

“Isso não é novidade pra mim. Mas, pelo visto, é para o resto de vocês.”

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Por onde começar a explicar tudo isso?

Pensando bem, Yuki percebeu que aquela era a primeira vez que tinha essa oportunidade. Uma sensação estranha tomou conta de seu peito — por um motivo diferente do das outras garotas.

“Certo… deixa eu perguntar uma coisa: alguém aqui não faz ideia do que está acontecendo?”

Ela ergueu a mão.

“Levantem as mãos… quantas de vocês não sabem por que estão aqui?”

Yuki foi a primeira a levantar a própria mão. Não porque as outras não soubessem fazer isso, mas para tornar psicologicamente mais fácil para elas imitarem o gesto.

Duas mãos se ergueram depois da dela.

“E quantas de vocês já sabiam sobre esses jogos, mas estão participando pela primeira vez?”

Duas das três garotas restantes levantaram a mão.

A última abriu a boca para falar:

“Este é o meu segundo jogo, mas você parece ter mais experiência do que eu.”

“Você está certa. Eu tenho experiência”, respondeu Yuki.

“…Muita, na verdade.”

“Então a palavra é sua.”

Com todos os olhares voltados para ela, Yuki se apressou em organizar as palavras.

“…Primeiro, alguém talvez já tenha mencionado isso, mas este prédio é perigoso. Pode haver armadilhas em qualquer lugar.”

Os ombros da empregada que chorava tremeram.

“E quando digo armadilhas, não estou falando de coisas como chicletes que dão choque nos dedos ou balões que fazem barulho quando você senta. Essas armadilhas são letais. Alguém já se machucou?”

“Não.”

“Que alívio. A partir de agora, evitem se movimentar mais do que o necessário. Até mesmo nos reunirmos aqui na sala de jantar já é arriscado para jogadores iniciantes. Ainda bem que todas chegaram inteiras.”

“Então o que você quer dizer é…” — alguém falou, visivelmente irritada com a explicação confusa de Yuki — “…que devemos tratar isso como um jogo de escape?”

“Exatamente.”

Yuki percebeu que estava falando de forma mais formal do que o normal. Talvez fosse instinto humano agir com mais educação ao falar com um grupo grande. De qualquer forma, ela continuou.

“Esse é o tipo de jogo em que precisamos encontrar uma saída do prédio enquanto evitamos cair em armadilhas mortais.”

“A gente… precisa escapar?” perguntou outra garota.

“Sim”, respondeu Yuki.

“Caso contrário, não poderemos voltar às nossas vidas normais, nem receberemos um prêmio em dinheiro. Não há indicação de limite de tempo, então podemos assumir que não existe um. Porém, como a comida e as bebidas são limitadas, esse acaba sendo o nosso verdadeiro limite.”

“Ah… com licença!” gritou a empregada chorosa.

“Isso é mesmo real? Isso está mesmo acontecendo com a gente?!”

“Desculpe trazer más notícias, mas sim, está.”

“Como isso pode ser possível?!”

Ela levantou a voz.

“Porque… isso simplesmente não faz sentido…”

“Eu também tenho minhas dúvidas”, acrescentou a empregada que acariciava as costas da garota em prantos.
“Eu sei que esses são jogos mortais onde dá para ganhar uma fortuna rapidamente, mas o que exatamente eles são? Um passatempo secreto e doentio de algum bilionário? Ou algo mais parecido com um negócio?”

“Eu mesma não sei todos os detalhes”, disse Yuki, balançando a cabeça.
“O que eu sei é que estamos sendo filmadas o tempo todo. Há um público nos observando por câmeras de vigilância. Isso é só um palpite, mas acho que eles apostam em quem vai sobreviver, porque… o valor do prêmio varia de acordo com o jogador.”

“Quem costuma ganhar mais?”

“Os participantes com os rostos mais fofos.”

“…Que mundo cruel.”

Um silêncio diferente tomou conta da sala.

“Acho que todas vocês têm chance de ganhar bastante dinheiro se sobreviverem”, acrescentou Yuki.

Ela havia tentado aliviar o clima, mas sua tentativa falhou.

“A gente não consegue ver a reação do público, né?”

“Não.”

“Então não dá para pedir doações…”

A empregada ficou em silêncio, pensativa.

“Então isso é real mesmo…”, murmurou outra garota.
“Eu já tinha ouvido vários rumores sobre esse tipo de coisa, mas nunca imaginei que realmente existisse.”

Yuki sentia o mesmo. Ainda assim, a ideia desses jogos não era totalmente absurda. A história da humanidade sempre teve formas grotescas de entretenimento.

Houve uma época em que execuções na guilhotina eram um espetáculo público.

Em outra, escravos eram forçados a lutar contra feras para divertir seus donos.

E nos tempos modernos, a ética foi deixada de lado, com a sociedade aceitando práticas sujas como algo “necessário”.

Em um mundo assim, não era estranho que jogos da morte tivessem surgido.

Mesmo operando nas sombras, Yuki se perguntava se, em trinta anos, eles poderiam se tornar algo comum.

Mas isso provavelmente era exagero. Ela já estava nesse ramo havia tempo demais, então sua visão era tendenciosa.

Independentemente do futuro, o presente era real —

Esses eram jogos em que pessoas realmente morriam.

“Talvez seja melhor nem perguntar”, continuou a mesma garota,
“mas qual é a taxa de sobrevivência?”

“Não, essa é uma boa pergunta. Existem jogos em que quase todos morrem…
mas, em média, cerca de setenta por cento sobrevivem.”

“Essa é a média geral, não é?”

A empregada que estava em seu segundo jogo interferiu.

“Mas e para iniciantes? Yuki, como você avalia nossas chances neste jogo?”

“……”

A pergunta direta deixou Yuki sem resposta por um instante.

“É verdade que jogadores de primeira viagem têm menos chances de sobreviver. Mas—”

Decidindo que era hora de parar de agir de forma tão distante, Yuki pigarreou de forma exagerada.

“Mas não se preocupem”, continuou.
“Eu adoto uma postura altruísta nesses jogos.”

“Vou fazer tudo o que puder para garantir que o maior número possível de nós sobreviva.”

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“Altruísta?” uma das garotas repetiu.

“Em jogos da morte, os jogadores costumam adotar uma de três atitudes em relação aos outros…”

Yuki fez uma pausa e decidiu transformar a explicação em uma pergunta.

“Alguma ideia de quais sejam?”

“Manipular os outros jogadores para garantir a própria sobrevivência.”

“Isso.”

“Ignorar os outros participantes e tentar concluir o jogo sozinho, evitando interações ao máximo.”

“Exato.”

“E a terceira… ajudar todo mundo a sobreviver?”

A garota que estava em seu segundo jogo lançou um olhar desconfiado para Yuki.

“Mas o que você ganha com isso? Claro, gostaríamos da sua ajuda, mas o que tem nisso para você?”

“Isso aumenta minhas chances de sobrevivência a longo prazo. Se eu ajudar vocês agora, talvez se sintam mais inclinadas a retribuir da próxima vez que nos encontrarmos em um jogo.”

“Da próxima vez? Você nem sabe quantas de nós vão ter uma ‘próxima vez’.”

“Eu não me importo. Desde que não vá contra meus próprios interesses, eu prefiro—”

Embora aquilo fosse o que Yuki realmente acreditava, suas palavras não foram suficientes para afastar os olhares desconfiados dirigidos a ela.

“Bem, de qualquer forma”, acrescentou,
“é melhor vocês continuarem cautelosas. Eu posso estar dizendo tudo isso enquanto planejo algo muito mais sinistro. Talvez eu só veja vocês como escudos de carne. Não posso controlar o que vocês pensam, então me julguem como quiserem.”

Yuki estendeu a mão para o grande prato sobre a mesa.

Havia uma grande variedade de doces: chocolates, biscoitos, muffins, macarons e outros que ela nem sabia nomear. Como tudo naquele lugar, os doces eram completamente pretos ou completamente brancos.

O esquema de cores não era exatamente apetitoso, mas quem conseguiria resistir ao açúcar?

Ela rasgou a embalagem e deu uma mordida no muffin escuro.

“Isso aí é mesmo seguro para comer?”

As outras empregadas encararam Yuki, incrédulas.

“É sim. E está bem gostoso”, respondeu.

“Esse não é um daqueles jogos. A comida que encontramos geralmente não é envenenada. Esses lanches estão aqui para matar nossa fome.”

“Nossas vidas podem estar sendo usadas como brinquedo, mas, surpreendentemente, existem limites que esses jogos nunca ultrapassam.”

Yuki olhou em volta e viu que nenhuma das outras garotas havia tocado no prato.

Não era surpresa. Afinal, elas não estavam exatamente em uma situação propícia para relaxar e comer doces, e, em um jogo da morte, ver guloseimas normalmente faria qualquer um ficar em alerta.

Depois de ouvir Yuki, uma das empregadas lentamente levou a mão até o prato.

Mas, antes de pegar algo, hesitou e olhou para Yuki.

“…Esse é exatamente o tipo de coisa com a qual deveríamos tomar cuidado, não é?”

Yuki sorriu.

“É. Quem sabe eu não sei secretamente identificar quais doces são seguros.”

Na verdade, Yuki não sabia nada disso. Ela só havia pegado o muffin porque parecia delicioso.

Comidas e bebidas em jogos da morte eram um porto seguro.

Embora nunca tivesse sido anunciado oficialmente que eram seguras para consumo, existia uma espécie de regra não escrita de que não seriam adulteradas.

Mesmo sendo uma violação extrema dos direitos humanos, esses jogos ainda seguiam certos padrões. Sem essa consistência, a indústria nunca teria prosperado — nem atraído jogadores regulares como Yuki.

Mas, como as outras cinco não sabiam disso, continuavam cautelosas diante dos doces.

Em outras palavras, o palco estava armado para que Yuki monopolizasse a comida.

Um sorriso presunçoso surgiu em seu rosto enquanto ela dava outra mordida no muffin…

quando, de repente—

—alguém estendeu a mão do outro lado da mesa e arrancou o pedaço meio comido.

“Hã?”

Yuki virou-se para a ladra. Era a empregada que quase tinha pegado um doce momentos antes.

“Então é isso que você quer que a gente faça”, disse a garota.

“E-er… não exatamente…”

A garota não respondeu. Apenas deu a terceira mordida no muffin.

“Ahhh…”

Yuki gemeu.

Depois de se recompor, ela estendeu a mão para o prato novamente — mas percebeu seu erro na hora.

Dessa vez, nem conseguiu abrir a embalagem antes que a mão de outra maid surgisse ao seu lado.

As peles se tocaram.

No instante seguinte, o macaron branco foi roubado.

A mesma coisa aconteceu mais três vezes.

No fim das contas, a única coisa que Yuki realmente aprendeu foi que o corpo das outras participantes não era tão frio quanto o dela.

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“Então, é… que tal a gente se apresentar?” sugeriu Yuki, depois que a guerra pelos doces finalmente chegou ao fim.

As outras estavam bem mais famintas do que deixaram transparecer, pois continuaram roubando comida de Yuki e devorando tudo rapidamente. Pegaram tanto dela que, no final, Yuki fechou os olhos e passou a tentar adivinhar, apenas pelo toque, de quem era a mão que estava roubando.

Foi então que percebeu que ainda não sabia o nome das outras garotas — daí a proposta.

“Eu começo”, continuou, enquanto cinco pares de olhos se voltavam para ela.

“Meu nome é Yuki, e este é o meu vigésimo oitavo jogo. Como sou a mais experiente aqui, espero poder ajudar todas a escapar deste prédio.”

“Você já jogou tudo isso?” uma delas perguntou. As outras provavelmente pensavam o mesmo.

“Se este é o seu vigésimo oitavo jogo, você deve estar nadando em dinheiro. Por que ainda continua jogando?”

“Bem… eu não faço isso pelo dinheiro.”
Yuki ficou um pouco envergonhada ao explicar.

“Quero bater o recorde de jogos consecutivos vencidos. Minha meta é noventa e nove.”

“Hã? Um recorde… nesses jogos da morte?”

“É… isso mesmo.”

“Quebrar a sequência significa morrer, né?”

“Sim.”

“E a taxa de sobrevivência é de setenta por cento, certo? Então noventa e nove jogos significa…”

“Não começa a calcular as probabilidades. Dá medo só de pensar nisso.”

“Por que você se submeteria a algo assim…?”

“Porque isso combina comigo.”

Tendo ouvido essa pergunta inúmeras vezes, Yuki respondeu quase automaticamente.

“As pessoas gostam de jogar com seus pontos fortes. Para mim, isso aqui é o meu.”

A sala ficou em silêncio.

Os olhares voltaram a ficar cautelosos.

Talvez tivesse sido um erro explicar. Teria sido melhor inventar uma justificativa qualquer para sua escolha de vida.

“Então, é…” Yuki falou, sem querer deixar o silêncio se prolongar.

Ela apontou para a maid sentada à sua frente — a que havia roubado seu primeiro muffin.

“Você pode ir agora?”

“Sou a Kinko.”

A garota tinha dois rabos de cavalo loiros que se destacavam ainda mais contra o cenário preto e branco da sala.

Algumas garotas têm corpos tão frágeis que fazem qualquer um se preocupar, e Kinko era exatamente esse tipo. Seu pescoço era tão fino que parecia que poderia quebrar com o menor toque, e seus dedos eram tão delicados que Yuki se perguntava se havia ossos ali.

Mesmo usando um uniforme largo de empregada, sua constituição frágil era evidente.

Ela tinha o menor corpo entre as seis garotas e parecia ser a mais jovem. Ainda assim, sua expressão séria e seu comportamento indicavam que ela sabia pensar e agir por conta própria.

“Este é o meu primeiro jogo. Estou aqui para pagar uma dívida.”

“Dívida?”
Yuki inclinou a cabeça.

“Não parece o tipo de pessoa que se endividaria.”

“Não é minha. É do meu pai.”

“…Mas você não é legalmente responsável por isso, sendo menor de idade.”

“Eu sei, mas achei que era o certo a fazer.”

Yuki ficou sem palavras.

Kinko era esse tipo de pessoa.

Arriscar a própria vida por uma quantia tão pequena mostrava algo errado — ou desprezo—

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Muitas pessoas no mundo provavelmente já jogaram algum jogo de escape que não colocava suas vidas em risco.

 

Como o nome sugere, um jogo de escape tem como objetivo encontrar uma forma de sair de um espaço fechado. Porém, por algum motivo, a saída sempre está trancada; a chave costuma estar guardada em algum lugar, como dentro de um cofre; e a Perfeito — A combinação desse cofre costuma ficar escondida embaixo da cama, atrás de uma estante ou em algum canto próximo ao teto, forçando os jogadores a vasculhar cada centímetro do local em busca de pistas e itens.

Além de explorar o ambiente, às vezes também é necessário resolver enigmas ou quebra-cabeças.

Nos jogos da morte, no entanto, nunca havia problemas complicados para resolver — pelo menos, na experiência de Yuki. Afinal, aquilo fazia parte de um espetáculo, um programa voltado para entretenimento, e enigmas difíceis não rendiam um bom drama.

Na maioria das vezes, a chave ficava à vista e abria a saída sem dificuldade.

O verdadeiro problema, porém, surgia em torno da chave.

Por isso, as garotas não podiam baixar a guarda. Ainda assim, ao menos encontrar o que precisavam seria moleza.

Mas elas ainda tinham que vasculhar o local — e não podiam esquecer que estavam dentro de uma mansão da morte.

“Por enquanto, vou explicar os pontos mais importantes que vocês precisam ter em mente”, disse Yuki às outras cinco depois que todas saíram da sala de jantar e entraram no corredor.

Ficou decidido que as seis se moveriam em grupo.

Como Yuki era a única com experiência de verdade, tecnicamente as outras poderiam tê-la enviado sozinha para explorar, identificar armadilhas e garantir uma rota segura até a saída antes de voltar para buscá-las.

Isso garantiria a maior segurança possível.

Mas ninguém sugeriu isso.

Na verdade, foi um acordo silencioso.

Provavelmente porque todas tinham medo de serem deixadas para trás. Se Yuki encontrasse a saída sozinha, nada garantiria que ela voltaria. A solução óbvia para evitar isso era permanecerem juntas.

Mesmo sendo mais seguro ficar em um só lugar dentro de uma mansão cheia de armadilhas, andar ao lado de uma veterana dos jogos da morte também trazia uma sensação de segurança.

Entre as duas opções, todas escolheram confiar em Yuki.

“Antes de tudo, a chave para sobreviver é a covardia”, disse ela.

“Não se aproximem de nada que pareça minimamente suspeito. Avisem assim que notarem algo estranho. Existem pessoas que chamam uma ambulância quando um táxi bastaria — e é exatamente esse tipo de postura que vocês devem adotar.”

“O ideal é serem tão cautelosas a ponto de hesitar antes de dar um único passo.”

“Isso não é exagero demais?” perguntou Beniya, a empregada de aparência principesca.

“Não estamos sendo observadas? Se parecermos relutantes demais, os organizadores podem interferir…”

“Não vão — pelo menos, até onde eu sei.”

“Já participei de jogos em que todo mundo foi tão cauteloso que nada aconteceu por mais de uma semana, e também de jogos que terminamos sem feridos graças à cooperação.”

“E, mesmo assim, os organizadores nunca intervieram. Os jogadores têm total liberdade para decidir como avançar no jogo… pelo menos, eu acho.”

Como não havia informações oficiais sobre isso, Yuki suavizou o tom.

“Em jogos como este, o pessimismo é seu melhor amigo. Sempre imaginem o pior cenário possível. Desconfiem de tudo.”

“Só essa mentalidade já aumenta bastante suas chances de sobreviver.”

“E além disso… como eu vou abrir caminho, não se afastem muito de mim.”

“Você realmente consegue encontrar uma rota segura de fuga?” perguntou Kinko, a maid de rabos de cavalo loiros.

“Isso vem com a experiência. E eu aprendi da pior forma.”

“…Da pior forma…”

Uma expressão preocupada surgiu no rosto de Kinko.

“Isso quer dizer que cair numa armadilha não mata necessariamente?”

Talvez ela estivesse aproveitando para tirar todas as dúvidas. Ou talvez estivesse seguindo o conselho de Yuki e desconfiando de tudo.

“Isso mesmo. O público não se diverte vendo alguém morrer de uma vez só.”

“A menos que você seja extremamente azarada ou enfrente um obstáculo de grande escala, é improvável morrer instantaneamente.”

“O que você quer dizer com ‘obstáculo de grande escala’?”

“Existem algumas armadilhas inevitáveis, especialmente comuns em jogos de escape. Elas são o ponto alto do espetáculo e custam caro para serem feitas.”

“Com seis jogadoras, é provável que enfrentemos uma ou duas.”

“…Vou me preparar mentalmente.”

Imaginando um futuro nada animador, Kinko ficou em silêncio.

Yuki sentiu alguém puxar seu braço direito.

Como já estava em alerta, virou-se rapidamente — mas, felizmente, não era uma armadilha.

Era Aoi, o retrato vivo do pessimismo, que havia segurado a manga de sua roupa.

“Ah…”

A garota fez contato visual.

“E-eu… desculpa.”

“Não precisa se desculpar… o que foi?”

Aoi levantou o rosto tanto que parecia que o pescoço ia quebrar.

“Você disse que a gente não devia se afastar de você, então…”

“Ah…”

De fato, se agarrar ao corpo de Yuki era a forma mais eficaz de ficar perto.

Mas ela nunca tinha sugerido isso — e nem havia pensado nisso.

Quando se chega a certa idade, existe um entendimento implícito de que não se deve tocar nas pessoas sem necessidade.

Pare de agir de forma fofa, pensou Yuki, sorrindo.

Logo depois, sentiu alguém puxar seu braço esquerdo.

Era Kinko, que agora se agarrava firmemente a ele.

“Isso é permitido, né?” perguntou ela, com um sorriso sem graça.

Yuki achou que, depois de roubar seu muffin meio comido, ela teria a mesma expressão — mas aparentemente, Kinko tinha critérios diferentes.

Então, Yuki sentiu um peso nas costas.

Alguém havia abraçado sua barriga por trás.

Não precisou nem olhar para saber que era Momono.

No instante seguinte, mãos surgiram em seu ombro e quadril direitos — o que só podia ser obra de Beniya.

“Você é bem popular, Yuki”, comentou Kokuto, que caminhava na frente, com um sorriso malicioso no rosto.

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As empregadas avançaram pelo corredor em um aglomerado.

Todas estavam juntas, exceto Kokuto, que parecia um pouco mais relaxada por estar em seu segundo jogo.

Embora nenhuma delas expressasse seus sentimentos em voz alta, provavelmente todas estavam nervosas.

Elas se agarravam a Yuki pelo mesmo motivo que Beniya acariciava as costas de Momono — o contato físico com outra pessoa gerava uma sensação de segurança.

Essa era uma lei da natureza humana que se mantinha verdadeira até mesmo em uma montanha nevada e congelante.

Mas, por algum motivo, Yuki sentia uma leve inquietação, mesmo que as outras parecessem confortáveis com aquela formação.

Ela estava, literalmente, espremida entre um grupo de garotas bonitas.

Até Aoi havia passado de segurar suavemente a manga de Yuki para abraçar seu corpo com força, assim como as outras.

Ainda assim, o que Yuki sentia não era alegria nem felicidade, mas nervosismo.

Por que as pessoas ficavam tensas ao ter contato físico com garotas bonitas?

Garotas bonitas, pelo amor de Deus.

Seria porque o nível de felicidade ultrapassava o limite máximo?

Esses pensamentos passaram pela cabeça de Yuki enquanto ela seguia em frente.

O grupo foi primeiro até a porta no final do corredor, diretamente oposta à sala de jantar, por acharem que ela era importante.

No entanto, estava trancada.

As garotas concluíram que precisariam encontrar uma chave para avançar, então voltaram sua atenção às outras portas ao longo do corredor.

Vale reforçar: aquilo era menos um jogo de escape e mais um jogo da morte.

O problema não era encontrar a chave — era o risco de alguém acionar uma armadilha e se ferir.

Por isso, a chave não estaria escondida em um lugar difícil de encontrar.

Na maioria das vezes, ficava em um local visível, como sobre uma mesa ou prateleira.

Porém—

“Não está aqui”, disse alguém.

O grupo estava, naquele momento, vasculhando o quarto onde Yuki havia acordado.

Normalmente, os locais iniciais de um jogo da morte — neste caso, os quartos — eram áreas seguras.

Afinal, o jogo perderia o sentido se os jogadores morressem em armadilhas enquanto dormiam.

Como esses cômodos eram seguros, nunca continham itens necessários para avançar no jogo.

Yuki sabia muito bem que procurar ali era inútil, mas elas já haviam verificado todos os outros lugares, incluindo os cinco quartos onde as demais garotas haviam acordado.

Aquele era o último local possível para a chave.

Mesmo assim, tudo o que conseguiram foi a certeza de que ela não estava ali.

“O que isso significa?” perguntou Kinko, agarrando com força o braço esquerdo de Yuki.

“Será que deixamos passar algo óbvio, ou precisamos procurar com mais atenção?”

“Talvez buscar uma chave tenha sido um erro desde o começo.”

“Não, tenho quase certeza de que precisamos de uma chave…”, respondeu Beniya.

“Afinal, não encontramos nada que indique outro caminho.”

“Então… deveríamos dar mais uma olhada rápida?” sugeriu Momono timidamente.

“Procurar com mais cuidado parece assustador demais.”

O ponto de Momono fazia sentido.

Olhar embaixo das camas ou atrás dos armários aumentaria o risco de acionar uma armadilha.

Antes de recorrer a isso, seria mais prudente revisar o caminho que já haviam percorrido — que sabiam ser seguro — e verificar se não haviam simplesmente deixado passar a chave.

Justo quando Yuki ia concordar—

“O que vocês estão falando?”

A objeção veio da única “fora da lei” que não fazia parte do rebanho de Yuki — Kokuto.

“Ainda existe um cômodo que não procuramos.”

“Hã?”

“A sala de jantar. Aquilo não era uma área segura, era?”

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A sala de jantar estava exatamente como o grupo a havia deixado.

Isso não era surpresa, já que não havia mais ninguém por ali.

Ao entrarem no cômodo, as empregadas afrouxaram os braços em torno de Yuki, provavelmente aliviadas por estarem de volta a um lugar familiar.

Um lugar familiar.

E ainda assim, não havia nenhuma chave ali.

“Acho que não está aqui”, disse Kokuto.
“Pensando bem, ficamos sentadas aqui por tanto tempo que com certeza teríamos notado. Foi mal, isso foi perda de tempo.”

“Não, foi uma boa sugestão”, respondeu Yuki.
“Essa sala era um ponto cego.”

Em condições normais, essa era uma conclusão à qual Yuki deveria ter chegado sozinha.

Mas, por estar guiando um grupo de iniciantes pela primeira vez — ou talvez por estar de bom humor depois de ser abraçada por várias empregadas — sua percepção estava mais limitada.

“Já que estamos aqui, podemos aproveitar para descansar um pouco.”

Yuki se aproximou da mesa, e as outras garotas se afastaram completamente de seu corpo.

Ela sentiu uma pontada de solidão com a perda do contato humano.

Sentou-se, e as outras cinco fizeram o mesmo.

Elas haviam passado no máximo uns trinta minutos procurando — pelo menos de acordo com a estimativa de Yuki, já que não havia relógios na mansão.

Esse esforço mal justificava uma pausa.

E embora Yuki estivesse nervosa, seu nível de cansaço era quase inexistente.

Ainda assim, considerando que suas vidas estavam em jogo e que as outras garotas não estavam acostumadas com jogos da morte, aquela experiência provavelmente pesava mais sobre elas do que Yuki imaginava.

Ela mesma havia cometido o erro de ignorar a sala de jantar como local de busca, então também não estava em sua melhor forma.

Fora ela quem dissera que ser excessivamente cautelosa era aceitável.

Agora era a hora de colocar suas próprias palavras em prática.

Yuki estendeu a mão para o grande prato sobre a mesa.

Mirou em um biscoito, mas antes que pudesse pegá-lo, Kokuto o arrancou.

“Ah, fala sério…”, suspirou Yuki.
“Você já comeu um monte. Já devia saber que isso é seguro. Para com isso e me deixa comer em paz.”

Yuki lançou um olhar fulminante para Kokuto.

No entanto, a garota não pareceu nem um pouco arrependida, nem respondeu com outro olhar agressivo.

Seus olhos estavam fixos no biscoito, imersa em pensamentos.

“…Um ponto cego…”, murmurou Kokuto.

Ela desviou o olhar para o prato, que tinha o tamanho de uma pizza grande.

Depois de devolver o biscoito, ergueu o prato com as duas mãos e o moveu para outro ponto da espaçosa mesa retangular.

Debaixo de onde o prato estava havia um círculo de chaves douradas.

“…Ah!”

As empregadas começaram a murmurar.

Kokuto pegou as chaves.

“Isso sim estava em um ponto cego. Quem diria que a gente passou a mão por cima disso o tempo todo?”

Ela mostrou o objeto para as outras.

Naquele exato momento, Yuki percebeu algo brilhando perto da base do aro — um fio extremamente fino, como os usados em truques de mágica.

Então, em um ato incomum, ela se levantou num pulo e gritou com toda a força:

“Kokuto! Abaixa!”

“Hã?”

Um zwoosh cortou o ar—











(9/23)

Três sons ecoaram em rápida sucessão.

O primeiro foi o som de um objeto voador cravando-se na cabeça de Kokuto — um ruído pequeno e seco, tão sutil que contrariava qualquer expectativa de um cérebro humano sendo perfurado.

O segundo foi o baque do corpo de Kokuto caindo no chão, empurrado pela força do impacto após perder a capacidade de se manter em pé.

E o terceiro foi o tilintar do molho de chaves ao cair de suas mãos sobre a mesa.

Tecnicamente, houve também um quarto som — o da cadeira de Yuki tombando. Ela se levantara com tanta força que acabou chutando-a para longe. Mas fora só isso. Três sons ou quatro, nada mais aconteceu enquanto a vida de Kokuto chegava ao fim.

Ela deu seu último suspiro.

O jogo havia feito sua primeira vítima.

“—!”

Um grito abafado preencheu o ar.

Momono se encolheu em forma de bola, segurando a própria cabeça. Era uma postura que transmitia o desejo de voltar ao útero da mãe. Sua reação foi a mais marcante entre todas, já que nenhuma das outras empregadas entrou em pânico. Esse foi o único ponto positivo.

Mas, embora tivessem evitado a histeria, nenhuma delas deixou de ficar em choque. O rosto de todas estava pálido.

Suas expressões mostravam que finalmente haviam aceitado que estavam em um jogo de morte.

“O que foi isso…?”

Depois de um tempo indeterminado, Kinko foi a primeira a recuperar a compostura e falar.

“Aquilo foi uma armadilha?”

A pergunta mostrava que ainda havia lacunas em sua compreensão.

Yuki assentiu. Mantendo os olhos no corpo de Kokuto, explicou:

“Isso acontece com frequência. Itens importantes costumam ter armadilhas extremamente perigosas ao redor. Eu deveria ter deixado isso mais claro quando tive a chance.”

Kokuto havia sido a única jogadora experiente além de Yuki. Será que ela não conhecia a regra de ouro desses jogos de fuga? Ou conhecia, mas não a levou a sério? Seja como for, a resposta desapareceu junto com seu último suspiro.

Yuki se arrependeu de não ter gritado um segundo antes. Mesmo que não fosse possível impedir a armadilha de ser ativada, Kokuto poderia ter se abaixado e evitado o golpe.

Se ao menos Yuki estivesse um pouco mais atenta.

Se ao menos tivesse experiência em liderar iniciantes.

Se ao menos tivesse deduzido a localização das chaves antes de Kokuto.

Se ao menos tivesse considerado a possibilidade de uma armadilha e analisado a situação com mais cuidado.

Talvez Kokuto ainda estivesse viva.

Yuki sentiu pena da garota, mas não expressou isso em voz alta.

Ela se aproximou do corpo. Kokuto estava, sem sombra de dúvida, morta. Uma estaca metálica afiada, parecida com um picador de gelo, havia atravessado seu crânio, da têmpora direita até sair pelo lado esquerdo. À distância, parecia até um daqueles adereços de pegadinha, mas a realidade era inegável.

“E… o que a gente faz com isso?”

A voz era de Beniya. Percebendo a escolha ruim de palavras, ela se corrigiu:

“O que fazemos com ela?”

“Nada. Não temos escolha a não ser deixá-la assim”, respondeu Yuki, com um tom despreocupado.

“Não há onde enterrá-la. A única coisa que poderíamos fazer seria rezar… mas eu não recomendo.”

“Por quê?” perguntou Kinko.

“Porque podem surgir situações em que nem teremos o luxo de rezar por alguém. Se rezarmos por Kokuto, mas não pudermos fazer o mesmo por outra pessoa depois, nossos corações vão enfraquecer — e essa fraqueza pode nos destruir quando as coisas ficarem difíceis.”

“Em jogos como esse, feridas emocionais são mais profundas do que você imagina. Por isso, eu não paro para lamentar cada morte. Eu faço isso tudo de uma vez quando o jogo acaba.”

“…Entendi.”

Yuki voltou seu olhar para a mesa — mais especificamente, para o molho de chaves sobre ela. O fio fino que havia ativado a armadilha ainda estava intacto. Como era possível que a armadilha fosse acionada novamente, ela o cortou com extremo cuidado.

Nada aconteceu.

Yuki pegou as chaves.

“Isso deve abrir aquela porta de antes.”

Ela olhou para o grupo de empregadas, agora reduzido em número.

“Vocês ainda têm vontade de continuar?”

(10/23)

As cinco empregadas voltaram a se agrupar e caminharam pelo corredor.

Nenhuma delas disse uma palavra. Apenas o som de cinco pares de passos ecoava no ar.

Elas não acionaram nenhuma armadilha. Isso era esperado, já que já haviam atravessado aquele mesmo corredor antes.

Ao chegarem à porta sem problemas, o grupo se dispersou temporariamente, pois era possível que o simples ato de inserir a chave as fizesse reviver o pesadelo de antes.

Yuki ordenou que as outras se agachassem e, então, aproximou-se da porta, testando as chaves uma por uma.

A terceira encaixou perfeitamente e girou na fechadura. A porta se abriu — e nada aconteceu.

Como tinham acabado de experimentar a sensação de ver suas esperanças serem erguidas apenas para serem esmagadas logo depois, nem Yuki nem as outras demonstraram qualquer alegria. Em vez disso, redobraram a cautela e atravessaram o batente da porta em alerta máximo.

O grupo entrou em uma câmara hexagonal.

O ambiente era diferente de todos os outros cômodos que haviam explorado. Cada centímetro do interior era branco, lembrando um laboratório ou um hospital.

A sala não tinha móveis, deixando claro que não fora feita para ser um espaço de convivência. Ela tinha outro propósito. Um propósito ligado ao jogo.

“O que é este lugar…?” Kinko expressou sua confusão, percebendo a estranheza da sala.

“Será que isso é um daqueles ‘obstáculos de grande escala’ que você mencionou?”

“Provavelmente,” respondeu Yuki.

Uma armadilha inevitável. Algo que precisariam enfrentar para continuar no jogo.

Do lado oposto da sala havia outra porta — uma porta deslizante com um painel acima da maçaneta escrito

FECHADA.

Como a palavra indicava, ela não se movia. Nenhuma força física seria capaz de abri-la.

“Com licença!” Momono gritou.

“Essa porta não abre!”

Momono tentava abrir a porta por onde tinham entrado. Ela não estava brincando — suas tentativas sinceras eram frustradas pela maçaneta teimosa.

Todas as saídas estavam bloqueadas.

“Estamos presas,” disse Yuki calmamente.

“Parece que não vamos sair daqui até fazermos o que o jogo quer.”

“Com isso você quer dizer… que temos que usar aquilo?”

Beniya olhou para um ponto na parede.

Cada uma das seis paredes da sala hexagonal tinha uma alavanca. Não eram alavancas de porta, mas sim duas barras de metal ligadas a um cabo que podia ser puxado para baixo, como os controles de um robô gigante.

Quatro ficavam no centro das paredes, e duas estavam levemente deslocadas por causa das portas.

Seis alavancas ao todo.

“Será que precisamos puxá-las ao mesmo tempo?” Yuki refletiu em voz alta.

Ela estendeu a mão, mas parou antes de tocar na alavanca. Com iniciantes por perto, não valia a pena correr riscos.

“Provavelmente isso vai ativar algo novo… mas deve ser o caminho certo.”

“Ao mesmo tempo…?” Momono repetiu, hesitante.

“Mas agora só tem…”

Ela se referia à morte de Kokuto. Havia cinco pessoas e seis alavancas.

“Não acho que isso seja um problema,” disse Beniya.

“O jogo deve ter sido projetado considerando que alguém poderia morrer. Talvez só precisemos puxar cinco. Ou talvez uma fique travada depois de puxada. Ou podemos improvisar uma corda com nossos uniformes.”

“Nem sabemos se precisamos puxá-las,” observou Yuki.

“Às vezes existem caminhos ocultos que parecem óbvios depois. Isso deixa o jogo mais interessante para o público. Precisamos questionar tudo. As alavancas devem ser o último recurso.”

“Então vamos tentar todas—”

(11/23)

Uma algema de metal havia surgido ao lado da alavanca.

A posição da alavanca estava claramente ligada ao aperto da algema — quanto mais alta a alavanca, maior a força pressionando o pulso de Yuki.

Ela começou a sentir dor quando a alavanca estava cerca de sete décimos levantada, então parou de testar. Se soltasse completamente, sua mão provavelmente seria arrancada.

Ao puxar a alavanca para baixo, o aperto afrouxava, mas não o suficiente para escapar.

Ela estava algemada.

Isso era uma prova inquestionável de que um minigame havia começado.

Partes do chão começaram a se erguer até alcançarem o teto.

Do ponto de vista de Yuki, duas paredes surgiram a partir dos vértices do hexágono em direção ao centro da sala, separando-a das outras quatro garotas.

Junto da parede onde estava presa, formavam um triângulo.

As outras empregadas provavelmente viam o mesmo.

A sala hexagonal fora dividida em seis seções iguais, como um bolo fatiado.

Um som áspero e estridente atacou os ouvidos de Yuki.

Ela ergueu a cabeça.

Lâminas de serra haviam descido do teto.

Havia três delas, posicionadas ao longo das laterais da fatia triangular.

Giravam rápido demais para distinguir os dentes, mas certamente os tinham. Mesmo sem eles, o contato com aquelas lâminas em alta rotação significaria morte certa.

As serras se aproximavam lentamente. Não era uma descida rápida, mas era suficiente para fazer o coração disparar.

Yuki percebeu que aquela velocidade havia sido cuidadosamente calculada. Se chegassem ao chão, não haveria como escapar sem ferimentos fatais.

Ela precisava parar as lâminas — com uma mão presa à parede.

“Yuki! Yuki!”

Era Kinko, batendo na parede.
“Tem serras descendo do teto!”

“Eu sei”, respondeu Yuki com calma.

Por dentro, ela realmente estava calma. Sua experiência havia moldado sua mente para ficar mais fria quanto maior fosse o perigo.

Agora, o que precisava ser feito?

Yuki examinou a algema enquanto mexia na alavanca. Na lateral, encontrou algo parecido com uma fechadura.

Uma fechadura.

Aquilo podia ser aberto.

Com a mão livre, ela puxou o molho de chaves do bolso do avental. Eram muitas.

Vasculhou uma por uma até encontrar uma compatível.

Girou a chave.

Clack.

A algema se soltou.

Ao mesmo tempo, o som das serras diminuiu. As três lâminas acima dela haviam parado.

“Então é assim…”

Mas apenas as serras da seção dela haviam parado. As outras ainda faziam barulho.

As outras garotas também precisavam das chaves.

Yuki procurou uma abertura entre as paredes. No centro da sala, encontrou uma saliência.

Ao pressioná-la, parte da parede deslizou, criando uma abertura estreita.

“O centro da sala!” Yuki gritou.
“Vou passar as chaves! Abram suas algemas! Assim as serras param!”

Ela enfiou a mão pela abertura e largou o molho de chaves.

No instante seguinte—

“Eep—!”

Quatro mãos se chocaram contra a de Yuki.

As garotas estavam brigando pelas chaves.

“Parem de brigar! Temos tempo suficiente para todas!”

Mas uma mão desapareceu com o molho.

Yuki reconheceu: Beniya.

Logo depois, quatro mãos reapareceram — inclusive a de Beniya.

Ela estava passando as chaves para Momono.

Yuki sentiu um aperto no peito.

Favoritismo.

O tempo estava sendo desperdiçado.

Se o jogo fosse balanceado, agora já não havia chance de todas sobreviverem.

Alguém iria morrer.

De repente, um braço inteiro atravessou a abertura.

Era Kinko.

Yuki não conseguia entender como ela alcançou aquela distância — até perceber.

Kinko provavelmente soltou a própria algema à força.

O braço recuou rápido.

Ela havia pegado as chaves.

Yuki encostou o ouvido na parede.

O som frenético das chaves ecoava.

Por favor…

Então—

Clack.

As serras pararam.

Um leve bater na parede.

Kinko sobreviveu.

Yuki suspirou aliviada.

Mas, no mesmo instante—

“AAAAAAAH!! AAAA*************AA!! ******!!

********************!! AA!! AAAA!!

****!!

***************AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!”

Um grito ensurdecedor ecoou.

Era a primeira e última vez que ouviriam aquela voz.

Pertencia à empregada tímida.

Aoi.

(12/23)

Tudo ficou em silêncio.

Um silêncio ensurdecedor envolveu a sala, como aquele que se sente ao sair de um fliperama barulhento.

Então, um som ecoou pelo ambiente — o som dos dispositivos do jogo sendo desativados.

As paredes que haviam se erguido voltaram para o chão, e os seis conjuntos de três serras — dezoito lâminas ao todo — se recolheram no teto.

O único objeto que permaneceu foi a parte da parede que Yuki havia removido para passar o molho de chaves.

A câmara triangular voltou a ser hexagonal, e Yuki, que estava encostada na parede, caiu no chão.

Outra pessoa também caiu.

Era Kinko, do outro lado da parede.

Yuki se levantou e olhou para ela.

A garota estava estirada de bruços no chão, tremendo violentamente. Parecia estar chorando.

Além disso, repetia algum tipo de movimento rítmico — talvez estivesse falando, respirando fundo ou simplesmente tendo espasmos.

As serras a haviam atingido: partes de seu uniforme de maid e de seus belos cabelos loiros estavam cortadas.

E, acima de tudo…

Não havia nada além de seu pulso direito.

O que antes estava ali jazia próximo à parede.

Foi assim que Kinko conseguiu: ela havia decepado a própria mão.

Era a forma mais simples de escapar da algema.

Corpos humanos não são bonecos de plástico — ninguém corta um membro por vontade própria.

Não foi Kinko quem fez isso, mas a própria algema.

O mecanismo estava ligado à alavanca: quanto mais alta, mais apertada ficava.

Yuki já havia deduzido que, se a alavanca chegasse ao topo, a pressão seria suficiente para arrancar uma mão.

Talvez essa fosse a solução esperada do jogo.

Enquanto algumas disputavam as chaves com as pontas dos dedos, quem tivesse coragem de sacrificar a própria mão e usar força total sobreviveria.

Era esse o tipo de mentalidade que o jogo exigia.

Kinko sobreviveu porque abriu mão de sair ilesa.

Seu tremor provavelmente não era apenas dor.

“Desculpa…”

A voz fraca chegou até Yuki.

E não foi dita apenas uma vez — Kinko repetia essas palavras sempre que uma nova onda de emoções a atingia.

Sua voz era tão baixa que fazia Aoi parecer barulhenta em comparação.



Falando em Aoi…

Seus restos estavam espalhados no setor do chão que pertencia à sala ao lado da de Kinko.

“O… que é isso?” perguntou Momono.

Ela e Beniya estavam lado a lado. Seus rostos pareciam exaustos, como se tivessem trabalhado por dias sem descanso.

“Por que não é vermelho?”

A voz de Momono não expressava medo nem nojo — apenas confusão.

Três lâminas haviam dilacerado completamente o corpo de Aoi, mas não havia sangue fresco. Não havia pedaços de carne visíveis, nem cheiro metálico, nem odor de excrementos.

Em vez disso, o chão estava coberto por uma grande quantidade de um material branco e fofo — como o enchimento de um ursinho de pelúcia rasgado.

Yuki percebeu que aquela era a primeira vez que as outras viam algo assim. Kokuto havia morrido sem sofrer danos corporais visíveis.

“Isso é por causa do Tratamento de Preservação”, explicou Yuki.

“As pessoas assistem a esses jogos, então eles usam uma técnica para reduzir a violência visual. Todos que morrem acabam assim.”

“Dá pra fazer isso tão rápido?” perguntou Beniya, tentando manter a compostura.

“Limpar sangue, espalhar algodão, eliminar odores… Eles teriam só alguns segundos.”

“Não é assim”, disse Yuki, balançando a cabeça.

“O tratamento não acontece depois da morte. Ele está ativo desde o começo.”

As duas ficaram ainda mais confusas.

“Esse material branco… é o fluido circulatório da Aoi. Nosso sangue solidifica ao entrar em contato com o ar. Por isso não sangramos. Também não há cheiro. E os corpos não apodrecem. Acho que nos injetaram conservantes.”

A cor sumiu do rosto delas.

“Então… nossos corpos foram modificados?” murmurou Beniya.

“Sim. Quando fomos trazidas pra cá. Depois explicam tudo.”

Beniya ficou em silêncio e abaixou a cabeça.

Momono começou a esfregar suas costas, invertendo os papéis.

Yuki olhou para Kinko.

Ela ainda estava de bruços, chorando, repetindo “desculpa”.

O pulso amputado estava coberto de material branco, e não havia sangue.

“Você deveria parar de dizer isso”, alertou Yuki.

“Pensar é uma coisa. Falar em voz alta só te enfraquece.”

Kinko não reagiu.

Yuki entendia o que ela sentia.

Kinko tinha um senso distorcido de responsabilidade — a ponto de pagar a dívida do pai com a própria vida. Ela havia sofrido o maior dano físico e mental até agora.

Yuki também tinha parte da culpa como líder.

Mas decidiu reprimir esses sentimentos.

Ela havia escolhido, há muito tempo, não assumir responsabilidade dentro dos jogos.

Por isso não chorou por Kokuto.

E por isso não pediria desculpas para Kinko, mesmo que fosse exigido.

Era seu dogma.

Sua regra de ferro para sobreviver mais um segundo nesse mundo.

Yuki se aproximou da porta cujo painel agora dizia aberto e a deslizou para o lado.

Ela ficou ali, esperando que as outras maids, por vontade própria, mostrassem que ainda queriam continuar.

 

(13/23)

Um único caminho se estendia além da porta.

As empregadas caminharam em completo silêncio. Ninguém disse uma palavra sequer.

Era igual à vez em que haviam atravessado o corredor anterior — mas o significado era totalmente diferente.

Antes, o silêncio vinha da determinação. Elas estavam quietas porque estavam motivadas.

Agora, o silêncio era um sinal claro de desespero.

Carregadas de angústia pela situação terrível e arrependidas por terem entrado no jogo, avançavam arrastando os pés, sem ânimo, movidas apenas pela resignação de que não havia mais como voltar atrás.

A inércia as empurrava para frente.

Além disso, as quatro já não caminhavam mais juntas como antes.

O motivo não era claro.

Talvez fosse porque a empregada que costumava se agarrar ao braço direito de Yuki havia morrido, ou talvez os acontecimentos da sala anterior tivessem causado rachaduras no relacionamento entre elas.

Yuki havia se sentido tensa sendo abraçada por várias garotas bonitas, mas agora, sem ninguém por perto, não conseguia afastar a sensação inexplicável de solidão.

Mesmo com o grupo desfeito, Yuki continuava na frente como a única jogadora experiente.

Kinko vinha atrás à esquerda, com uma expressão sombria, como se tivesse herdado o espírito de Aoi.

À direita, Momono e Beniya caminhavam de mãos dadas, com os corpos encostados, praticamente confirmando que haviam criado um laço forte entre si.

“Bem, já passamos pela pior parte”, disse Yuki, tentando aliviar o clima pesado.

“Começamos com seis jogadoras. É seguro dizer que não enfrentaremos nada mais brutal do que aquilo.”

Isso não era mentira.

Esses jogos da morte eram projetados para ter uma taxa média de sobrevivência de cerca de setenta por cento.

Com duas mortes entre seis participantes, esse limite já havia sido ultrapassado.

Era improvável que obstáculos ainda mais perigosos aparecessem.

Se houvesse mais algum desafio, seria no máximo um — e provavelmente sem vítimas.

Mesmo assim, nenhuma das empregadas parecia aliviada.

“Ah, e sobre a sua mão”, acrescentou Yuki, olhando para o braço direito amputado de Kinko.

“Com o Tratamento de Preservação, dá pra reimplantar facilmente. Eles vão consertar tudo depois do jogo.”

Surpreendentemente, esses jogos contavam com suporte médico completo.

Apesar de os tratamentos serem feitos por médicos clandestinos, eles faziam o possível para curar os ferimentos sofridos no jogo. E, graças ao Tratamento de Preservação, a capacidade de recuperação das jogadoras era muito maior que o normal.

Membros decepados podiam ser reimplantados. Cabelo, pele, dentes e unhas também podiam ser restaurados. Às vezes, até órgãos de reposição eram fornecidos — embora de origem desconhecida.

Seria mais correto chamar esses procedimentos de “restaurações”.

Enquanto o coração ainda estivesse batendo, os jogadores normalmente saíam praticamente como novos.

Kinko recuperaria sua mão direita.

Mesmo assim, o rosto dela continuava sombrio.

Por quê?

Yuki não sabia dizer.

Apesar de aquele ser seu vigésimo oitavo jogo, ela nunca aprendera a animar uma iniciante abatida. Nunca havia liderado um grupo de novatas antes.

Em toda a sua carreira como jogadora, poucos jogos haviam sido tão anormais quanto aquele.

Após refletir, Yuki percebeu que o equilíbrio de habilidades era estranho demais.

Os participantes eram extremamente desiguais.

O jogo praticamente garantia que ela dominaria tudo.

E isso não tinha graça nenhuma.

Seria diferente se houvesse um “lobo” disfarçado de iniciante, mas, pelo que havia observado, não existia ninguém assim ali.

O sistema de seleção de jogadores não era perfeito.

Momono, por exemplo, havia sido recrutada apenas para completar o número.

Era possível que o desequilíbrio fosse pura coincidência.

Mesmo assim, Yuki não conseguia parar de pensar:

E se o jogo tivesse sido montado de propósito assim?

E se tivesse sido projetado assumindo que Yuki lideraria o grupo e tentaria escapar com todas cooperando?

“…………”

Perdida nesses pensamentos, Yuki permaneceu em silêncio.

As quatro garotas seguiram pelo corredor reto.

Havia diversos móveis típicos de uma mansão — quadros emoldurados, animais empalhados, um gaveteiro de cinco andares e outros —, mas, sem saber se havia armadilhas, ignoraram tudo.

Elas permaneceram completamente caladas até chegarem ao final do corredor.

(14/23)

O corredor levava a uma pequena sala, que continha duas portas lado a lado.

A da esquerda estava aberta, e dentro havia um espaço do tamanho aproximado de um box de banheiro — pequeno demais para ser considerado uma sala de verdade.

Muito provavelmente—

“Um elevador”, disse Yuki ao se aproximar da porta aberta. “Se formos levar isso ao pé da letra, acho que eles estão mandando a gente entrar…”

Yuki examinou o vão entre a porta e a cabine do elevador.

A armadilha mais simples que lhe veio à mente foi uma lâmina de guilhotina atravessando o espaço e cortando ao meio a primeira pessoa que ousasse entrar.

Ela tirou a tiara da cabeça e a passou lentamente pelo vão.

Nada aconteceu.

Talvez a armadilha só funcionasse com seres vivos, então Yuki enfiou o braço esquerdo dentro do elevador.

Nada aconteceu.

Ela então deu um passo à frente, com a saia longa roçando o chão.

Nada aconteceu.

Yuki inspecionou o interior do elevador, mas nenhuma lâmina apareceu.

Isso era esperado, já que ela havia concluído que o pior do jogo já tinha passado, mas mesmo assim soltou um suspiro de alívio.

Ela fez um gesto para as três garotas que aguardavam do lado de fora, indicando que estava seguro.

Uma por uma, elas entraram no elevador.

Nada aconteceu quando Kinko entrou, nem quando Beniya entrou depois.

Mas assim que Momono pisou lá dentro, um alarme soou.

“Ngh…”

Um gemido quase inaudível escapou dos lábios de uma das garotas.

O significado do alarme ficou claro na mesma hora.

As quatro se viraram para o monitor LCD preso no topo de uma das paredes do elevador.

A tela indicava um limite de peso de 330 libras.

“…………”

Era difícil dizer, apenas pelas expressões, o quanto as outras haviam entendido o significado daquele número.

“…Ah…” Yuki suspirou, falando antes de qualquer outra.

“Por enquanto, vamos sair todas. Ao mesmo tempo.”

As outras assentiram.

As quatro se alinharam e saíram do elevador juntas.

Depois, se espalharam livremente pela pequena sala.

“Limite de 330 libras…” Beniya foi a primeira a falar.

“Isso dá exatamente para três pessoas.”

“Parece que sim”, respondeu Yuki.

Apesar do tom calmo, ela estava irritada.

“Não importa se eles calcularam uma média de 110 libras por pessoa ou só escolheram um número semi-redondo… isso me irrita. O limite está num painel digital. Acho que ele foi ajustado para o número atual do nosso grupo. Se as seis tivessem chegado até aqui, poderia muito bem ser 550 libras.”

“Então a gente sobe de dois em dois… certo?” sugeriu Momono, buscando confirmação.

“Se só cabem três, não tem problema ir em duplas, né?”

“Infelizmente”, respondeu Beniya, “o elevador só funciona uma vez.”

“Como você sabe disso?”

“Está escrito ali. ‘APENAS UMA VEZ.’”

Beniya apontou para a parede ao lado do elevador.

As três palavras estavam escritas em inglês simples.

A implicação era óbvia:

O elevador só funcionaria uma única vez.

“Esse elevador foi feito para apenas três pessoas usarem.”

“…Mas então isso quer dizer—”

Momono parou no meio da frase.

Seu olhar não estava mais no elevador, mas na outra porta — que Yuki havia esquecido completamente.

Ela era feita de vidro comum, sem ser fosco ou reforçado, permitindo ver claramente o interior da sala.

Lá dentro havia assentos em níveis, como numa sauna — na verdade, provavelmente era uma sauna.

A iluminação era quente, algo incomum dentro daquela mansão monocromática.

Mas o que realmente chamou a atenção de Yuki foram as paredes, cobertas por uma enorme variedade de armas de todos os tipos e tamanhos.

Espadas, armas de impacto, projéteis, lanças.

Parecia uma loja de armas de um mundo de fantasia.

Felizmente, não havia explosivos nem armas de fogo.

Em um canto, havia um martelo com “2 Toneladas” gravado, dando ao ambiente um ar quase cômico — como se fosse algo de ficção.

Mas tudo era real.

Quatro empregadas.

Um elevador que só comportava três pessoas.

Uma sala cheia de armas.

Esses elementos sugeriam claramente as regras do jogo—

“—Não, ainda não.” Yuki balançou a cabeça.

“Não podemos tirar conclusões precipitadas. É verdade que o limite de peso corresponde a três pessoas, mas isso não significa que precisamos deixar alguém para trás. Só precisamos nos livrar do peso de uma pessoa.”

“……?” Beniya franziu a testa.

“O que você quer dizer?”

“Bem…” Yuki hesitou antes de falar claramente.

Ela apontou para a sauna com o polegar.

“Precisamos descartar, pouco a pouco, o peso de uma das quatro.”

(15/23)

Um arrepio visível percorreu a sala.

“Eu só lembro vagamente disso… mas acho que cada braço representa menos de cinco por cento do peso do corpo”, disse Yuki.

Ela havia aprendido isso em um jogo anterior.

Continuou vasculhando a memória.

“Cada perna é um pouco menos de vinte por cento. A água representa cerca de sessenta por cento do nosso corpo, e podemos suar uns dez por cento disso, o que dá seis por cento.”

“Cortar mãos e pés somaria cerca de cinco por cento, então não é tanto assim…”

“Curiosamente, o cabelo quase não pesa, então isso só reduziria uns cento e poucos gramas.”

“E não podemos esquecer desses uniformes de empregada. Eles pesam vários quilos, então deveríamos cortá-los o máximo que nos sentirmos confortáveis.”

“Você tá brincando”, disse Momono.

Seu rosto estava mais pálido do que em qualquer outro momento do jogo.

“Isso é uma piada, né?”

“Por favor, diz que é uma piada!”

“Deixe os cortes comigo”, respondeu Yuki.
“Não sou estranha a esse tipo de coisa. Prometo cortar qualquer parte do corpo com um único golpe.”

“Isso não torna nada melhor!”
Momono desabou no chão imediatamente.

“Não há com o que se preocupar, graças ao Tratamento de Preservação”, disse Yuki, olhando para o redemoinho de cabelo de Momono.
“Desde que não façamos um trabalho horrível ao separar o que for necessário, tudo será recolocado depois.”

“É melhor que seja mesmo…” murmurou Beniya, encostada na parede.
“…Não tem um jeito menos violento de resolver isso? Talvez possamos encontrar um caminho alternativo.”

“Vamos procurar, claro, mas vocês devem se preparar para a possibilidade de não encontrarmos nada.”

“Dividir 110 libras entre quatro pessoas dá pouco mais de 25 libras por pessoa, certo?” Momono insistiu.
“Lutadores não perdem até uns 40 quilos antes de uma luta? A gente não pode tentar fazer isso…?”

“Eles fazem isso ao longo de um mês… Nós não temos esse tempo.”

Aquilo foi o golpe final para Momono, cuja voz desapareceu no ar.

Isso pode ser ruim, pensou Yuki.

Elas só teriam que deixar partes de seus corpos para trás temporariamente.

Graças ao Tratamento de Preservação, tudo o que fosse cortado seria recolocado depois do jogo, e elas não precisariam temer morrer de sangramento.

Comparado à sala hexagonal e à disputa pelas chaves, isso poderia ser considerado um minigame bem mais seguro.

Mesmo assim, Yuki não esperava que as outras reagissem de forma tão intensa.

Essa diferença de reação vinha da experiência — ou da falta dela — das outras em jogos mortais.

Elas não estavam acostumadas a tratar o próprio corpo como uma carta na mão ou como um peão descartável.

Além disso, só haviam descoberto recentemente sobre o Tratamento de Preservação e provavelmente ainda não estavam totalmente convencidas de como ele funcionava.

Em outras palavras, elas resistiam à ideia de mutilar o próprio corpo.

Essa relutância talvez superasse até a resistência à ideia de matar alguém.

Não seria surpreendente se alguém estivesse considerando eliminar uma pessoa para permitir que as outras três escapassem.

Yuki fechou o punho dentro do bolso do uniforme.

Se isso acontecesse — se alguém atacasse de repente — ela seria obrigada a intervir.

Ela manteve Momono, Beniya e Kinko todas no campo de visão, pronta para reagir ao menor movimento.

Yuki se preparou mentalmente, reconhecendo que aquele era um momento crítico.

Toda a sua atenção estava focada nas outras três—

“I…”

No entanto…

As próximas palavras que ecoaram na sala destruíram completamente sua linha de raciocínio.

“Eu vou ficar para trás.
Vocês três, por favor, sigam em frente.”

(16/23)

Aquelas palavras pegaram Momono, Beniya e até a veterana Yuki de surpresa.

As três ficaram paralisadas, e o tempo dentro da pequena sala pareceu parar por um instante.

Aproveitando a pausa, Kinko disparou para frente, suas tranças loiras girando suavemente no ar atrás dela.

“……! Espera!” gritou Yuki, a primeira a recobrar os sentidos.

Mas já era tarde demais.

A sala era pequena, com apenas alguns metros de largura.

Yuki não teve nenhuma chance de impedir Kinko de entrar na sauna e fechar a porta atrás de si.

Um segundo depois, Yuki agarrou a maçaneta da porta de vidro, mas ela não se mexeu, não importa o quanto tentasse abri-la.

Ou estava trancada, ou algo a mantinha bloqueada como um batente.

De qualquer forma, o resultado era o mesmo.

Yuki começou a socar o vidro, mas seus esforços foram inúteis.

O som parecia não atravessar para o outro lado, então nem adiantava tentar gritar.

A única reação de Kinko foi um olhar, com os olhos tomados por um cansaço esmagador.

Momentos depois, ela se deixou cair sentada no chão e abraçou os próprios joelhos — embora fosse impossível dizer se havia desabado ou apenas se sentado.

Ela tinha se trancado lá dentro.

“É… e-eh… o que está acontecendo?” perguntou Momono, aflita.
“O que acabou de acontecer?”

“…Exatamente o que parece. Kinko desistiu de escapar.”

Yuki apoiou a testa contra a porta.

Por trás de sua aparência angustiada, seu coração esfriava rapidamente.

Isso só podia significar uma coisa.

Era uma forma de pânico.

Histórias de mistério costumam mostrar o tropeço de um covarde que perde a confiança em todos, se tranca em um quarto e acaba sendo encontrado morto na manhã seguinte. Mas ali era o oposto: coragem excessiva. Abandonar a própria vida depois de ser empurrado para uma situação extrema.

Yuki já tinha visto isso acontecer inúmeras vezes. Bem quando um jogo chegava à fase final, jogadores mentalmente esgotados pelas surpresas constantes se entregavam ao destino e jogavam suas vidas fora. O máximo que ganhavam com isso era a satisfação de morrer com um sentimento de responsabilidade ou culpa.

“Eu sou culpada pela morte da Aoi.”
“Preciso pagar com a minha vida.”

Yuki continuou batendo com força no vidro, convencida de que ele iria quebrar. Afinal, aquela porta não era uma parte essencial do jogo, então não havia motivo para ser indestrutível. No entanto, a dor pulsante em seu punho deixou claro que era impossível atravessá-la sem ferramentas.

Ela precisava de algo para quebrar o vidro.

As armas na sauna brilhavam como espadas sagradas, mas eram inúteis enquanto ela não pudesse alcançá-las.

Yuki girou sobre os calcanhares, pronta para sair da sala.

No instante seguinte, sentiu alguém puxar seu braço. Ela se virou e viu Momono ali.

“É… então…” A garota tinha uma expressão de protesto.

Beniya, um pouco mais ao fundo, exibia o mesmo olhar.

Yuki, sem perceber, curvou os lábios em um sorriso.

Os olhos de Momono e Beniya diziam tudo.

“Qual é o problema? Se ela quer morrer, devemos deixá-la.”
“Nós três deveríamos escapar.”

“O quê?” perguntou Yuki de propósito.

As duas ficaram sem palavras. Estavam esperando que Yuki “lesse o ambiente”.

Uma onda de euforia percorreu o corpo de Yuki.

O fato de aquelas duas empregadas adoráveis estarem pensando algo tão horrível parecia estranhamente impuro — e encantador. Ela não as julgava por serem frias ou cruéis; achava isso até fofo. Talvez, no fundo, Yuki só continuasse participando desses jogos para sentir esse tipo de êxtase.

Pelo canto do olho, ela viu algo se mover.

Yuki virou a cabeça.

Kinko estava pegando uma faca da parede.

Era improvável que ela fosse entregá-la a alguém — o que significava que pretendia usá-la em si mesma. E só havia uma coisa ali por perto onde ela poderia usá-la: o próprio corpo.

Ela ia se esfaquear.

Com a intenção de tirar a própria vida.

Se isso acontecesse, as três não teriam escolha a não ser deixá-la para trás.

Era isso que Kinko tinha decidido depois de ver Yuki e as outras hesitando.

Os olhos de Yuki se arregalaram. Felizmente, a faca na mão trêmula de Kinko estava apontada para o cotovelo direito.

“Que fofa…”, pensou Yuki.

Um ferimento ali não seria fatal, com ou sem o Tratamento de Preservação.

Mas agora que Kinko havia começado a agir, o tempo estava se esgotando.

Yuki se virou para Momono.

“Momono, pensa bem”, disse Yuki, indo direto ao ponto.
“Se Kinko morrer aqui—”

Foram necessárias apenas mais algumas palavras para convencê-las.

Ao ouvir a explicação de Yuki, Momono — e até Beniya — mudaram de expressão.

Exato. Naquela situação, havia um motivo cristalino para não deixarem Kinko se matar — e ele não tinha nada a ver com moral ou sanidade.

Se Kinko morresse ali, Yuki e as outras ficariam encurraladas.

Mesmo que não morressem, era possível que sofressem ferimentos que nunca se curariam, nem mesmo com o Tratamento de Preservação.

Yuki explicou isso às duas.

Momono afrouxou o aperto em seu braço.

“Posso ir?” perguntou Yuki, olhando diretamente em seus olhos.

Sem muita alternativa, Momono assentiu em resignação.

(17/23)

O corredor que levava até a pequena sala não tinha bifurcações.

Pelo que Yuki se lembrava, não havia nenhuma arma naquele caminho. Mesmo assim, ela tinha um plano. Uma ferramenta capaz de quebrar uma porta de vidro? A mansão estava cheia de objetos que serviriam para isso.

No meio do caminho, ela avistou uma cômoda. Era um móvel charmoso, com cerca de metade da altura de Yuki, e suas gavetas alternavam entre branco e preto. Ela já tinha visto móveis parecidos em corredores de jogos e filmes, mas por que aquele corredor precisaria de espaço para armazenamento? O que haveria ali dentro? Ela logo descobriria.

Reunindo toda a coragem que podia, Yuki abriu a primeira gaveta, decidida a evitar qualquer ferimento fatal.

Nada aconteceu.

Ela continuou, alternando as mãos. Abriu a segunda, a terceira, a quarta.

A quinta gaveta, porém, teve um puxão levemente diferente.

Imediatamente, Yuki se jogou para o lado e rolou pelo chão do corredor.

Um assobio cortou o ar, seguido pelo som de algo atravessando a madeira.

Yuki se levantou e olhou para frente.

Como esperado, uma barra de metal estava cravada na cômoda — do mesmo tipo que havia tirado a vida de Kokuto algum tempo antes.

Era uma das armadilhas da mansão.

A barra era afiada e grossa, parecida com um picador de gelo ou uma chave de fenda. Como não tinha cabo, Yuki precisou fazer força para arrancá-la da madeira. Em seguida, voltou correndo pelo caminho por onde viera.

“Bem, é que…” começou Yuki.

“Ela desmaiou completamente — completou Beniya, que estava diante da porta de vidro. Do outro lado, Kinko estava deitada de costas no chão. — Acredito que seja exaustão mental, não um ferimento físico. Não parece que ela se cortou em nenhum lugar importante.”

“Entendi.”

Yuki correu até a porta de vidro e cravou a barra de metal na borda.

Uma rachadura se formou.

Ela sorriu. Esse era um dos métodos mais eficazes para quebrar vidro quando se usa uma ferramenta pequena.

Após remover vários cacos e abrir um buraco grande o suficiente para passar o braço, Yuki enfiou a mão e tateou em busca da maçaneta. Sentiu uma saliência do outro lado, mexeu nela, destravou a fechadura e puxou a mão de volta, fazendo um pedaço de vidro voar quando sua manga ficou presa.

A porta se abriu.

A primeira coisa que Yuki notou foi o calor.

Sem dúvida, era uma sauna. Fazia sentido existir uma ali, já que elas precisavam perder peso. O calor parecia ainda mais sufocante por causa do pesado uniforme de maid.

Aliviada por saber que o Tratamento de Preservação impediria qualquer cheiro de suor, Yuki correu até Kinko e sacudiu seus ombros com força.

“Kinko!”

Os olhos da garota se abriram lentamente.

Não havia vida neles.

Nem alguém que ficasse preso em uma sauna por meio dia ficaria daquele jeito. Na verdade, Yuki raramente via expressões assim, já que a maioria dos jogadores morria logo após cair em desespero.

O rosto de Kinko era o de alguém cuja alma havia abandonado o corpo, sem qualquer vontade de continuar vivendo.

Yuki jogou o corpo frágil da garota sobre o ombro.

Ela era leve.

Tão leve que parecia não ter nenhum órgão dentro do corpo. Leve o bastante para não precisar carregá-la nas costas. Como se estivesse levando um grande bichinho de pelúcia de um jogo de garra, Yuki segurou Kinko firme e se virou para sair da sauna.

“Por quê? — perguntou Kinko. — Por que você entrou, Yuki?”

‘Porque você não saía” respondeu Yuki, casualmente.

“Eu não disse para vocês irem sem mim?

‘E eu disse que tentaríamos passar por esse jogo com o maior número possível de pessoas.

“…Então me deixa para trás! — a voz de Kinko tremia. — Eu não me importo de morrer! Por favor, me abandona!”

Em situações assim…

O socialmente “correto” seria dar um sermão, chamá-la de idiota, dar um tapa no rosto e discursar sobre como a vida é preciosa. Mas Yuki não conseguia fazer isso. Ninguém valorizava a vida tão pouco quanto ela mesma. Como jogadora veterana de jogos mortais, não era cara de pau o suficiente para fingir o contrário.

Além disso, mesmo fora dos jogos, Yuki odiava usar violência para intimidar. Era impossível para ela.

Então, dizer que salvava os fracos sem motivo algum também seria mentira. Yuki não se orgulhava de ter um coração puro. Seu altruísmo existia apenas para lhe dar vantagem nos jogos. Traição, falsidade, mentiras, manipulação — ela acreditava que confiar nessas coisas apodrecia o coração até levar à autodestruição.

No fim das contas, Yuki era uma jogadora até os ossos — alguém que vivia na fronteira entre a vida e a morte. Ela não podia dizer nada sentimental.

“Eu não posso deixar isso acontecer.”

Por isso, no final, só havia uma coisa que ela podia dizer:

“Porque, mesmo sem você, nós três ainda estaríamos acima do limite de peso.”

“…Hã?”

“Bom, você sabe… A Momono e a Beniya são meio pesadas. Então ainda teríamos que perder peso. Sem acesso à sauna, estaríamos em apuros.”

(18/23)

As alturas e os corpos das quatro empregadas eram os seguintes.

Kinko era a menos favorecida em ambos os aspectos. Suas costas tinham mais ou menos o comprimento de um banquinho pequeno. Seu pescoço era tão fino que parecia que poderia quebrar com qualquer força aplicada. Seu corpo delicado era visível mesmo por baixo do uniforme de empregada. Depois de carregá-la, Yuki teve uma noção ainda mais clara de sua estrutura física. Em números, Kinko provavelmente não pesava nem trinta quilos — algo comparável a uma criança antes do estirão de crescimento.

No extremo oposto estavam Momono e Beniya. Uma tinha um corpo extremamente voluptuoso. A outra possuía uma aparência principesca, com uma altura que parecia tocar os céus. Mas, pensando melhor, Beniya não era o problema. Ela era alta e tinha um físico bem definido.

O verdadeiro problema era Momono.

Qual era o problema com ela… com aquelas coxas?

No início do jogo, Yuki tinha pensado, de forma distraída, que gostaria de tocá-las. Mas agora, só de olhar, aquilo a irritava. O corpo de Momono era tão exagerado que perguntar seu peso faria qualquer um se sentir culpado.

Ainda assim, Yuki não estava em posição de criticar os outros. Embora fosse menor que Momono e Beniya, seu peso certamente também ultrapassava cinquenta quilos.

Ou seja, todas, exceto Kinko, estavam acima da média.

Yuki estimou que houvesse cerca de vinte quilos de excesso entre as três. Nem quinze, nem vinte e cinco — vinte. Ela teorizou que, como o jogo usava cento e cinquenta quilos como o peso máximo para três pessoas, o peso médio dos seis jogadores iniciais devia ter sido ajustado para algo em torno de cinquenta quilos por garota.

Nem Aoi nem Kokuto tinham corpos fora do padrão, então o peso de Yuki, Momono e Beniya provavelmente compensava a leveza de Kinko. Foi assim que Yuki chegou ao número vinte.

Vinte quilos.

Mesmo que tivessem decidido deixar Kinko para trás, ainda precisariam eliminar essa quantidade de peso. Isso daria cerca de seis a sete quilos por pessoa.

Algumas pessoas acreditam que é possível perder esse peso apenas ficando em jejum, mas isso é um equívoco. O jejum causa uma perda inicial por conta da água, mas logo se estabiliza. O metabolismo basal só elimina cerca de cento e cinquenta gramas por dia. Yuki e as outras provavelmente morreriam de fome antes de perder sete quilos.

E mesmo que conseguissem, o jogo ainda não teria acabado.

Estariam fracas demais para continuar.

Portanto, a única opção real era um método mais direto.

Cortar partes do corpo.

Para isso, precisariam das armas dentro da sauna.

Yuki e Kinko voltaram para a pequena sala.

Yuki soltou o braço da garota, e Kinko apoiou os pés no chão. Nem Momono nem Beniya demonstraram alegria por vê-la de volta. Ninguém se aproximou ou disse nada. Um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente.

Yuki olhou de lado para Kinko. O rosto da garota estava vermelho, provavelmente por ter fugido com a intenção de se sacrificar, apenas para descobrir que sua atitude havia colocado todas em uma situação ainda pior — e sem nem ter conseguido se sacrificar de verdade.

Ela mantinha a cabeça baixa, mexia nervosamente as mãos e movia os lábios sem produzir som algum. Parecia extremamente envergonhada.

Só de imaginar o que Kinko estava sentindo, o coração de Yuki acelerou. Como não podia encará-la para sempre, ela apenas deu alguns tapinhas suaves em suas costas.

“Pra constar, Kinko, acho que você pode se dar ao luxo de ser mais desonesta às vezes.”

Yuki percebeu que, em algum momento, passou a se sentir menos cautelosa com Kinko. Desde quando? Desde o começo? Ela não se lembrava de ter mantido distância da garota, ao contrário do que fez com as outras.

Talvez fosse porque, inconscientemente, sempre a enxergou como a mais frágil.

Sem mais o que fazer, Yuki entrou sozinha na sauna. Pegou várias lâminas que pareciam capazes de cortar carne humana, voltou para a sala e as largou no chão com um estrondo metálico.

O barulho chamou a atenção das outras.

“Dividir cento e dez quilos igualmente dá vinte e sete quilos e meio por pessoa — disse Yuki, tentando soar casual. — Mas como nossos pesos são diferentes, é melhor pensar em porcentagem. Precisamos eliminar o peso de uma pessoa entre nós quatro, então cada uma precisa perder cerca de vinte e cinco por cento do próprio corpo.”

O clima pesado voltou.

“Pelas porcentagens que você mencionou” comentou Beniya. “Parece que a única opção real é cortar uma perna.”

Cada braço representava cerca de cinco por cento do peso corporal, enquanto cada perna correspondia a vinte por cento. Para chegar aos vinte e cinco, só havia uma escolha sensata.

“Exato” Yuki assentiu. “Cada uma corta uma perna, perdendo vinte por cento, e depois usamos a sauna para suar os cinco por cento restantes. É o plano mais realista e com menos perdas.”

“Vai ter que ser bem perto do quadril, né? — Beniya olhou para as próprias pernas. — Essas lâminas realmente dão conta?”

“…Tenho experiência com isso. Vai ser minha primeira vez amputando alguém vivo, mas vou garantir que seja o mais rápido e indolor possível.”

Yuki olhou para Momono.

“Por que está me olhando?! — Momono escondeu as coxas com as mãos. — E… vai mesmo dar pra reencaixar tudo depois, né?”

“Vai. Isso é garantido.”

“Ainda acho difícil acreditar que vai cicatrizar totalmente — disse Beniya, olhando para Momono.’

‘Para! Não me olha assim!”

“Não tem problema — afirmou Yuki. — Pensem nisso como se tivessem um corpo de boneco ou zumbi. Enquanto todas as partes estiverem intactas, qualquer ferimento pode ser curado. Meus braços e pernas são prova disso.”

Yuki estendeu os braços.

Esta era sua vigésima oitava partida. Seus membros já tinham sido arrancados inúmeras vezes. Ela já tinha sofrido ferimentos piores que amputações — e mesmo assim continuava jogando normalmente.

Esse era o verdadeiro poder do Tratamento de Preservação.

“Isso é mesmo verdade? — Beniya ainda parecia desconfiada. — Pode provar agora?”

‘Hã? Como eu faria isso?”

“Tire a roupa — disse ela, séria. — Mostre provas visíveis de que esses braços e pernas são realmente seus.”

(19/23)

Alguns detalhes dos acontecimentos seguintes serão omitidos.

As cenas que vieram depois foram difíceis de assistir. E isso não teve nada a ver com Yuki tirando a roupa — teve tudo a ver com o horror gráfico envolvido.

Mesmo que Yuki tivesse prometido realizar tudo da forma mais indolor possível, desmembramento ainda era desmembramento. E o que seria de um desmembramento sem gritos de dor?

Apesar de as empregadas serem jogadoras de um jogo mortal, elas ainda tinham direito à própria dignidade. Por isso, Yuki apagou completamente da memória tudo o que elas gritaram durante o procedimento, a forma como se debatiam e suas reações ao perder uma perna, preservando apenas os fatos objetivos.

Como primeira medida, o grupo procurou por um caminho alternativo.

Mesmo com a garantia do Tratamento de Preservação, queriam evitar perdas desnecessárias a qualquer custo.

Será que tinham entendido errado o limite de peso?

Será que existia uma passagem secreta?

Havia alguma forma de disfarçar o peso?

Ou um método mais simples e eficaz de eliminar o excesso?

Com tantas possibilidades, vasculharam a área como se estivessem completamente desligadas da realidade. Mas não encontraram nada.

Não havia outro caminho além do desmembramento.

Ainda assim, a busca não foi totalmente inútil — ela fortaleceu a determinação do grupo.

A ordem das amputações foi: Yuki, Kinko, Beniya e, por último, Momono.

Yuki precisava ir primeiro para evitar um cenário em que as três ainda ilesas se unissem para matar a pessoa já mutilada, satisfazendo o limite de cento e cinquenta quilos e escapando.

Com Yuki sendo a primeira, esse risco desaparecia. Talvez fosse orgulho, mas mesmo com apenas uma perna, ela não pretendia perder para três iniciantes.

O maior problema era que Yuki não conseguia cortar a própria perna sozinha.

Kinko se ofereceu por culpa, mas não tinha força suficiente.

Yuki agradeceu o gesto e escolheu Momono.

À primeira vista, Beniya parecia mais calma e capaz, mas Yuki deduziu que ela ficaria enjoada ao ver sangue, como havia acontecido com a morte de Aoi.

Isso deixou Momono — justamente quem menos parecia adequada para usar uma lâmina.

Mesmo assim, ela fez o melhor que pôde.

Assim, Yuki foi a primeira.

A vez de Kinko não teve muito drama. Suas pernas eram tão finas que parecia que poderiam ser arrancadas com as mãos.

Ainda assim, Yuki segurou a lâmina e mirou na virilha da garota, enquanto Momono e Beniya imobilizavam seus braços e pernas.

Yuki superou completamente sua hesitação.

Na verdade, sentiu até um prazer culposo ao ver duas empregadas segurando Kinko.

Em seguida, cortou a perna de Beniya sem dificuldades.

O verdadeiro problema foi Momono.

Yuki colocou a mão em sua coxa.

Nunca imaginou que seu antigo desejo se realizaria dessa forma.

Sentia-se perturbada, mas ao mesmo tempo determinada.

Talvez fosse assim que restauradores de arte se sentiam em seus trabalhos.

Ela fez a amputação com perfeição, sem deixar um único erro.

Depois disso, usaram as armas em forma de haste da sauna para criar muletas improvisadas.

Suaram o máximo possível para reduzir o peso da água no corpo.

Cortaram seus uniformes sem hesitar, mesmo sabendo que estavam sendo filmadas.

Ainda assim, continuavam acima do limite.

Então, cada uma cortou o próprio cabelo bem curto.

Por fim, Yuki carregou Kinko nas costas para eliminar o peso de uma muleta.

Assim, finalmente ficaram abaixo do limite de 150 kg.

O elevador começou a se mover.

Ao perceber isso, todas caíram no chão.

Com apenas uma perna, levantar-se seria difícil.

Mesmo que um milagre restaurasse seus corpos naquele instante, ainda assim precisariam de tempo.

Elas haviam superado algo enorme.

Yuki olhou ao redor.

Elas já não pareciam empregadas.

Tinham tirado os aventais, usando apenas vestidos curtos e rasgados.

Trocaram olhares e sorriram.

Sentiam uma espécie de irmandade por terem passado por aquilo juntas.

O sofrimento compartilhado havia criado um laço.

Yuki sabia que talvez fosse uma ilusão temporária, mas aproveitou aquele momento.

Era confortável.

Era bonito.

Ela até pensou que não se importaria se o elevador continuasse subindo para sempre, sem nunca chegar ao destino.

(20/23)

O ideal seria que o elevador levasse diretamente à saída.

Considerando a quantidade de obstáculos que haviam superado, Yuki sentia que havia uma boa chance de isso acontecer — mas sua teoria estava errada.

As portas se abriram para revelar um grande espaço que lembrava um saguão de entrada.

Elas ainda teriam que caminhar um pouco mais.

Yuki se levantou do chão.

“Vamos — disse ela. — Esses jogos às vezes criam esperança só para destruí-la depois, então fiquem em alerta até o fim.”

As garotas saíram do elevador.

Nenhuma delas estava acostumada a andar com muletas, mas, comparado às dificuldades anteriores, aquilo era insignificante.

Logo, avistaram o que parecia ser a saída e, apesar da lentidão, seguiram direto em sua direção.

“É bem irritante a saída estar bem na nossa frente e ainda assim parecer tão distante — comentou Beniya, com os olhos fixos no objetivo. O ritmo delas era muito mais lento do que nunca.”

“Pois é — respondeu Yuki. — Que tal conversarmos sobre alguma coisa? Ficamos em silêncio por muito tempo, então temos bastante assunto.”

“Conversar sobre o quê?” perguntou Momono.

“Sobre a primeira coisa que queremos fazer depois de escapar.”

‘…Isso não dá azar?” disse Momono. “Não é tipo uma death flag, onde quem fala isso acaba morrendo?”

“Não. Pode até ter o efeito oposto. Parece clichê, mas pessoas que têm um motivo para viver sobrevivem mais facilmente.”

Já que Yuki havia puxado o assunto, decidiu começar:

“Eu, por exemplo, preciso urgentemente jogar o lixo fora, senão vou me dar mal.”

“Você tem a vida fácil demais…”

“Estou falando sério. Tenho dois sacos cheios de plástico no meu apartamento. Como esse é meu trabalho, nunca sei que dia da semana é, então sempre perco o dia da coleta. Amanhã é sexta, né?”

“Não sabemos nem que dia é hoje. Vai saber quanto tempo ficamos desacordadas.”

“Não devemos ter pulado nenhum dia… então hoje deve ser quinta. Ah, mas nossas pernas precisam ser reimplantadas, então amanhã não vou ter tempo…”

Yuki fez uma careta.

Depois de encarar Yuki por alguns segundos, Momono falou:

“…Eu quero comer ramen. Se eu sair viva daqui, vou comer até minha barriga quase explodir.”

“Você gosta de ramen?”

“Não é meu favorito absoluto nem nada, mas desde que cheguei aqui só comi coisas doces.”

“Ah…” Isso fazia sentido.

“E você, Beniya?” perguntou Momono, virando-se para ela.

Beniya respondeu:

“Bom, primeiro vou pagar minhas dívidas.”

“Certo” ela tinha “passivos”.

“E depois?” perguntou Yuki.

“Vou estudar mais.”

“Estudar?”

“O dinheiro desse jogo provavelmente não vai ser suficiente. Vou me preparar melhor para sobreviver da próxima vez.

“Você está tão endividada assim?” Momono ficou chocada. “Aliás, quanto é o prêmio?”

“Geralmente gira em torno de três milhões no primeiro jogo” respondeu Yuki.

Era em ienes, claro.

Pouco para arriscar a vida, mas muito para, no máximo, meio dia de “trabalho” sem exigir experiência ou qualificação.

“Não é fácil participar de jogos seguidos” continuou Yuki.
“Quanto tempo devo esperar antes de entrar em outro?

“Depende da pessoa, mas para mim, menos de uma semana é arriscado. Se eu esperar demais, meu corpo enferruja. Então tento jogar pelo menos uma vez por mês. Eu diria entre uma semana e um mês.”

“Entendi…”

“ E você, Kinko? — perguntou Yuki, olhando para trás. — O prêmio vai ser suficiente?”

“ ……”

Após uma breve pausa, Kinko respondeu:

“Vai.”

“ Ótimo. O que você quer fazer quando voltar pra casa?”

“Não pensei nisso. Vou pagar a dívida, e depois…”

Ela parou por alguns segundos.

“ Não sei. De verdade, não sei”.

Sua resposta não mostrava nenhuma direção própria.

Durante o jogo, Kinko havia agido com decisão, mas Yuki não via contradição nisso.

Provavelmente, ela só funcionava bem dentro de regras claras.

Boa em provas, ruim na prática.
Boa com chefes e colegas, ruim com a família.
Boa em jogos mortais, ruim na vida.

Assim como Yuki, ela tinha o perfil de uma jogadora.

“ Você não precisa se culpar — disse Yuki, encorajadora.”
“ O que aconteceu com Aoi não foi sua culpa. O jogo a matou. Ninguém tem o direito de te culpar, legal ou moralmente. Volte para sua vida de cabeça erguida.”

Kinko não respondeu.

“ Isso volta ao que eu disse antes “ continuou Yuki.
“ Acho que você deveria ser mais desonesta. Um pouco de maldade dá profundidade às pessoas. Não é, Momono?”

“ Por que está perguntando pra mim? “ disse Momono, confusa.
“ Quer dizer… eu não tinha escolha. Era o que a situação exigia.”

A resposta foi surpreendentemente honesta.

Yuki sorriu.

Ela não havia dito aquilo só para confortar.

Era o que realmente acreditava.

Jogos mortais revelam o lado vil das pessoas.

E isso ficava claro:

“ Elas caminhavam tranquilamente mesmo sem terem salvo Kokuto ou Aoi.”
“ Pareciam amigas para sempre, apesar de terem brigado desesperadamente pelo chaveiro.”
“Momono tentava minimizar seu comportamento, apesar de ter querido abandonar Kinko.”

Mas Yuki não achava isso imoral, falso ou algo a ser “purificado”.

Era isso que tornava aquelas garotas adoráveis.

“ …Você acha mesmo isso? — murmurou Kinko.”

“Acho. Cem por cento.”

“ Então, se eu sobreviver… vou tentar ser assim.”

E a conversa terminou ali.

As quatro finalmente chegaram ao que parecia ser a saída.

Era um grande portão duplo.

Yuki foi na frente, segurou as maçanetas e empurrou com força.

Nada.

Tentou puxar.

Nada de novo.

Yuki olhou para cima.

Três lâmpadas estavam alinhadas acima da porta.

(21/23)

A posição das lâmpadas lembrou Yuki do painel de andares acima de um elevador.

Mas como elas tinham acabado de usar um, era improvável encontrarem outro tão cedo.

Duas das lâmpadas estavam acesas, então era fácil concluir que a porta se abriria quando a terceira se acendesse.

O detalhe mais marcante, porém, era o formato das lâmpadas.

Cada uma tinha a silhueta de um corpo humano com um X sobreposto.

“ ……”

Alguém engoliu em seco, audivelmente.

Parecia que alguém havia desenhado corpos humanos em semáforos vermelhos.

Três alinhados. Dois acesos.

Qualquer um pensaria na mesma coisa.

Mas… o que exatamente aquilo significava?

“ Ha!”

Alguém riu. Era Momono.

“ Não vamos tirar conclusões erradas. Só porque parecem pessoas, não quer dizer aquilo. Deve ter outra solução.”

Ela olhou para Yuki, que não respondeu.

“ Talvez representem o número de obstáculos — acrescentou Beniya.”
“ A sala hexagonal e o elevador foram dois, então talvez precisemos enfrentar um terceiro. Deve haver algo aqui nesse salão.”

Yuki achou isso improvável.

Três obstáculos eram demais para um jogo com apenas seis jogadores.

Além disso, essa teoria não explicava os X nas lâmpadas.

Os jogos podiam enganar, mas nunca criavam símbolos sem significado.

A forma das lâmpadas tinha que ser importante.

Então… o que elas queriam dizer?

Só havia uma explicação possível.

Yuki não agiu imediatamente, pois outra questão lhe veio à mente.

Considerando a taxa média de sobrevivência de 70%, esse jogo era cruel demais.

Mas logo ela entendeu o motivo.

Esse jogo estava cheio de novatos — e a taxa de sobrevivência deles era menor.

Se apenas três dos seis sobrevivessem, isso ainda estaria dentro do esperado.

O desequilíbrio entre jogadores experientes e iniciantes era intencional.

Tudo fazia sentido agora.

O coração de Yuki esfriou.

Ela jogou Kinko no chão.

“Ai…”

A garota rolou até parar de costas.

Olhou para Yuki com confusão, mas também com esperança de que aquilo tivesse sido um acidente.

Não havia nenhuma reprovação em seu olhar.

Ela é uma boa garota, pensou Yuki.

Então apoiou a ponta da muleta no rosto inocente de Kinko.

No instante seguinte, pressionou o peso do corpo contra ela.

CRAC!

O som seco ecoou pelo ar.

O pescoço de Kinko havia quebrado.

Tão fino.
Tão frágil.

Depois de perder tanta água do corpo, ela não teve forças para resistir.

Nem sequer gemeu.

Como não havia ferimentos visíveis, o Tratamento de Preservação não foi ativado.

Alguns segundos depois, com apenas alguns quilos de pressão…

Kinko morreu.

A terceira lâmpada se acendeu.

A porta se abriu.

Uma brisa leve e refrescante entrou no salão.

À frente, surgiram um céu azul e um jardim verdejante.

Era uma regra não escrita: ao sair do prédio, o jogo terminava.

Se chegasse ao jardim, Yuki poderia simplesmente se deitar.

Um funcionário viria buscá-la logo em seguida.

Só mais alguns passos.

Enquanto avançava com a muleta e sua única perna, Yuki percebeu que não ouvia mais passos além dos seus.

Virou-se.

Duas garotas estavam paradas atrás dela, completamente imóveis.

Seus olhos mostravam que haviam testemunhado algo indescritível.

Era como se tivessem visto um fantasma.

Yuki saiu do prédio.

Ela havia vencido o jogo.

E agora que tudo tinha acabado, finalmente podia dizer aquilo.

Era sua regra.

Ela olhou para baixo, para o corpo silencioso de Kinko.

E então falou:

“Desculpa.”

(22/23)

Ela não havia enganado ninguém.

Yuki realmente tentou concluir o jogo mantendo o maior número possível de jogadores vivos.

Embora sua tentativa não pudesse ser considerada um sucesso, no fundo do coração ela havia sido sincera em seus esforços.

Ela agiu contra Kinko porque não teve outra escolha.

Sabia que o jogo não terminaria até fazer sua terceira vítima.

Yuki não escolheu Kinko por ser fácil de matar.

Nem porque Kinko havia dito que queria morrer.

Nem porque Yuki nutria algum ódio especial por ela.

Yuki a escolheu simplesmente porque ela estava fisicamente mais próxima.

Sempre que se tornava necessário matar alguém durante um jogo, Yuki escolhia a pessoa mais próxima naquele momento.

Essa era a decisão que ela havia tomado.

Ela criou essa regra para reduzir, ainda que um pouco, sua hesitação em tirar a vida de outra pessoa.

Regras lhe davam força.

E, naquele caso, deram-lhe coragem para matar com as próprias mãos alguém que ela havia salvado — alguém a quem oferecera palavras de encorajamento.

No fim, Yuki não conseguiu chegar a tempo para o dia do lixo.

Depois de ser levada por um funcionário até uma ambulância, ela perdeu a consciência.

Quando acordou novamente, estava em seu apartamento.

Pegou o celular ao lado do travesseiro.

Para sua decepção, já era meio-dia de sexta-feira.

Ela ajustou um temporizador para três minutos, fechou os olhos e juntou as mãos.

Esse era seu ritual pós-jogo — uma oração.

Como Yuki não seguia nenhuma religião, sua oração era feita à sua própria maneira.

Talvez o termo “oração” nem fosse o mais adequado.

Ela não estava pedindo desculpas às garotas que morreram no jogo, nem expressando tristeza.

Ela simplesmente passava aqueles três minutos pensando nelas.

Talvez fosse tolice rezar por alguém que ela mesma havia matado, mas, ao menos, Yuki não via nenhuma contradição nisso.

Quando o alarme padrão tocou, ela abriu os olhos.

Desligou o temporizador, jogou o celular no chão e tirou a roupa para examinar o corpo.

Não havia ferimentos.

E não havia nenhum problema com sua mobilidade.

Verificar se seu corpo havia sido completamente restaurado era o segundo ritual que ela realizava após voltar de um jogo.

Ela se levantou sobre as duas pernas e iniciou o terceiro ritual.

Foi até o guarda-roupa de portas duplas de seu apartamento e o abriu.

O interior estava uma bagunça.

No canto direito pendia um uniforme de líder de torcida — o traje usado em sua vigésima sétima partida.

À esquerda dele havia um quimono, usado na vigésima sexta.

Mais à esquerda estavam um maiô escolar, roupas funerárias, um uniforme militar, roupas de educação física, um cheongsam e outros trajes.

No canto esquerdo havia um uniforme de marinheiro.

No entanto, aquele não era o traje de sua primeira partida.

Yuki às vezes tirava as roupas para relembrar seus jogos passados, então a ordem estava desorganizada.

Ela se virou.

O traje de maid estava dobrado de forma organizada ao lado do travesseiro.

Sempre que um jogo terminava, o traje usado era entregue como presente.

Mesmo tendo sido rasgado em pedaços na frente do elevador, ele havia sido restaurado ao seu estado original.

Sentindo-se grata, Yuki pendurou o uniforme no canto direito do armário como lembrança de sua vigésima oitava partida.

Esse era seu terceiro ritual importante.

E o momento do quarto ritual se aproximava.

Como seus erros haviam sido totalmente expostos para o público desta vez, o ritual provavelmente levaria mais tempo do que o normal.

Yuki se deitou em seu colchão e se envolveu em um cobertor próximo.

Envolta naquele calor, ela começou a refletir sobre seu jogo mais recente.

(23/23)

 

 

 

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