vol 3
jogo numero:44 (praia nublada)

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Yuki acordou com batidas na porta.
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Yuki sempre acordava tarde no início de um jogo.
Como forma de ocultar a localização do jogo, os organizadores faziam as jogadoras dormirem com um sonífero enquanto eram levadas até o local, e esse remédio era consistentemente — e de forma incomum — eficaz em Yuki. Apesar de já ter passado por esse processo quarenta e quatro vezes, ela não demonstrava qualquer sinal de melhora na reação do seu corpo à droga. Desta vez, Yuki havia dormido profundamente mais uma vez, como uma estudante universitária que tinha acabado de começar a morar sozinha.
No entanto, estar adormecida não significava que Yuki estivesse completamente indefesa. Mesmo dormindo, ela permanecia subconscientemente em alerta. Ela certamente acordaria com qualquer ruído ao seu redor — e isso era ainda mais verdadeiro quando se tratava do som de alguém batendo à porta, um barulho feito justamente para ser ouvido.
Yuki sentou-se na cama.
Ela estava dentro de um cômodo de madeira com aproximadamente o mesmo tamanho de uma sala de aula da escola noturna que frequentava. Tábuas de madeira cercavam todo o espaço — chão, paredes e teto. O local possuía instalações comuns de cozinha, banheiro e chuveiro, além de móveis simples, como uma geladeira, uma cômoda, uma escrivaninha, um sofá e um tapete. Enquanto encarava a cama de estrutura de madeira onde havia acordado, começou a se perguntar como aquele lugar deveria ser chamado. Seria uma cabana de toras, uma pensão ou uma vila? Ou talvez um chalé ou uma casa de campo. Depois de decidir pelo termo chalé, ela imediatamente percebeu que a construção ficava próxima ao mar, pelo rugido das ondas e pelo belo tom azul da água visível através da janela.
Yuki havia despertado ao som de batidas na porta.
— Pelo menos, essa era sua suposição. Como o barulho ocorrera exatamente no instante em que acordava, ela não tinha certeza absoluta da origem do som. No entanto, pouco depois, outra batida — mais forte — ecoou na porta, claramente com a intenção de acordar quem estivesse dentro. Evidentemente, a primeira batida não havia sido uma alucinação auditiva.
Alguém estava do lado de fora. Yuki não tinha como saber se era um inimigo ou um aliado, mas a única forma de seguir em frente era descobrir quem era.
Ela saiu da cama e caminhou até a porta, também feita de madeira. Considerando a possibilidade de que quem estivesse batendo pudesse arrombar a porta com uma arma carregada no instante em que ela abrisse, Yuki girou a maçaneta.
Do lado de fora estava—
“Hã?” “Hã?”
As vozes de Yuki e da pessoa à sua frente se sobrepuseram perfeitamente.
Ali estava Airi, uma garota de belos olhos cor de índigo e uma aura melancólica. Assim como Yuki, ela era uma sobrevivente de Candle Woods. As duas haviam se encontrado novamente apenas um mês antes.
“…Oi”, disse Yuki, repetindo a mesma saudação do encontro anterior.
“…Nos encontramos de novo”, respondeu Airi.
Sem saber bem como reagir, Yuki observou Airi com atenção. A pele de porcelana da garota estava totalmente à mostra. Ela usava um maiô ombro a ombro que parecia que poderia cair com um simples puxão. Seus pés não estavam descalços nem calçavam sandálias, mas sim sapatos de praia que cobriam os dedos.
“É… ficou bonita nisso”, disse Yuki.
Airi tocou o próprio maiô e fez uma careta antes de responder:
“O mesmo vale pra você.”
Só então Yuki percebeu o que estava vestindo. Suas roupas eram diferentes das de Airi — feitas de um material justo que cobria menos de um décimo da superfície total de sua pele.
Para este jogo à beira-mar, o traje era um maiô.
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Uma luz suave envolveu Yuki quando ela saiu do chalé.
Ela estava em uma praia. Areia branca e oceano azul se estendiam até onde os olhos alcançavam. Longe da água, a terra era coberta por uma vegetação exuberante, com um verde tão vívido quanto as cores da areia e do mar. Yuki nunca havia visitado uma área turística antes; até então, só tinha visto paisagens assim em fotografias. O céu estava coberto por nuvens cinza-claras. Como o jogo havia acabado de começar, provavelmente ainda era início da manhã.
O chalé havia sido construído sobre estacas em águas rasas. Yuki seguiu Airi e, depois de caminhar pela água do mar que chegava aos tornozelos, pisou na areia. As duas caminharam pela beira da água.
O chalé de Yuki não era o único na praia. Havia oito ao todo, alinhados horizontalmente e espaçados de forma uniforme. Yuki havia sido colocada no chalé mais à direita, de frente para o mar.
Airi apontou para dois chalés adiante, o terceiro a partir da direita.
“Aquele é o meu. Imagino que cada chalé tenha sido designado para uma jogadora.”
“O que significa que há oito jogadoras…”, disse Yuki, colocando o número em palavras.
Airi então indicou o chalé dois à esquerda do seu.
“Aquele pertence a uma jogadora chamada Koyomi. Você já a conheceu?”
O nome não dizia nada a Yuki, então ela balançou a cabeça.
“Ela e eu acordamos bem cedo”, continuou Airi. “Eu estava andando pela praia quando a encontrei. Decidimos nos separar para acordar as outras jogadoras… Ah, lá está ela agora.”
Airi olhava para o chalé mais à esquerda, de onde duas jogadoras acabavam de sair. Elas estavam distantes demais para que Yuki reconhecesse seus rostos, mas, pela quantidade de pele à mostra, concluiu que também usavam maiôs. As duas se dirigiam ao chalé seguinte.
“Koyomi e eu decidimos que ela começaria pela esquerda, enquanto eu começaria pela direita. Precisamos nos apressar também.”
Airi aumentou o passo, e Yuki a acompanhou.
Após alguns minutos de caminhada, chegaram ao segundo chalé a partir da direita. A porta se abriu quase imediatamente após Airi bater, indicando que a moradora já estava acordada.
A garota que abriu a porta parecia ter idade de uma estudante do ensino fundamental. Vestia um maiô de peça única, apropriado para alguém tão jovem. Sua expressão vazia lembrava a de uma boneca, e sua aura dispersa dava a impressão de que poderia flutuar para longe a qualquer momento.
“O…olá”, disse Airi. “Prazer em conhecê-la. Meu nome é Airi.”
A garota encarou Airi com um olhar tão intenso que Yuki quase esperou ver raios laser saírem de seus olhos. Logo depois, virou-se para Yuki.
Aproveitando a deixa, Yuki se apresentou:
“Eu sou a Yuki.”
“Hizumi.” Após pronunciar esse único nome, a garota se calou.
Hizumi — seria esse seu nome de jogadora? Ela claramente não era muito comunicativa. Era o retrato perfeito de uma garota peculiar. Embora fosse a primeira vez que Yuki encontrava Hizumi, ela já havia conhecido garotas semelhantes inúmeras vezes antes. Como a indústria dos jogos mortais reunia todo tipo de excluídos, encontros com jogadoras assim não eram raros.
Airi explicou a Hizumi que pretendiam reunir todos e pediu que ela se juntasse a elas. Hizumi assentiu e passou a seguir Airi e Yuki com passos vacilantes. O trio seguiu adiante, passando direto pelo chalé de Airi.
Quando chegaram ao chalé seguinte, Yuki se deparou com um segundo rosto familiar.
“Uau…” Airi estava claramente impressionada com a jogadora que precisou se abaixar para passar pela porta.
Era Maguma, uma jogadora gigante, cujo corpo imponente superava até mesmo a altura da porta do chalé. Assim como as outras, ela também usava um maiô; o dela deixava à mostra seus músculos bem definidos. Embora Yuki não verbalizasse sua reação como Airi, sentiu-se igualmente intimidada ao ver o corpo da mulher, o que lhe causou certo desconforto. Yuki sabia que, se entrasse em uma briga com Maguma, seria transformada em carne moída em menos de três segundos.
“O que foi?”, perguntou Maguma, olhando para Airi.
Airi desviou o olhar do abdômen de Maguma, tão definido que alguém provavelmente não se cansaria de tocá-lo nem após um dia inteiro.
“Ah… nada”, respondeu Airi apressada. “Estamos tentando reunir todo mundo. Você poderia vir conosco?”
Maguma concordou, aumentando o grupo para quatro pessoas.
Ao retornarem à praia, avistaram outro grupo de quatro — presumivelmente Koyomi e as jogadoras que ela havia acordado — caminhando em sua direção. Koyomi vinha à frente e, ao notar o grupo de Yuki, apontou para o chalé logo ao lado do seu grupo. Era o quarto chalé a partir da esquerda, o designado a ela. Pouco depois, a garota conduziu seu grupo para dentro. Aparentemente, aquele seria o local de reunião.
O grupo de Yuki seguiu para o chalé de Koyomi.
Enquanto caminhavam, Yuki perguntou:
“Ei, Maguma?”
“O quê?”
“Esse é o seu jogo de número quanto?”
“Quarenta e três. Já completei quarenta e dois.”
Ao ouvir isso, Yuki curvou os lábios em um sorriso.
“Esse é o meu quadragésimo quarto.”
“Sério? Droga, você me passou.”
Uma expressão frustrada surgiu no rosto de Maguma. Embora Yuki não acreditasse que um número maior de jogos tornasse alguém superior, ainda assim sentiu uma pontada de satisfação.
“Até a Airi já passou dos trinta”, acrescentou Yuki, olhando para a garota à frente.
“Eu sei”, respondeu Maguma. “Estive com ela no jogo número trinta.”
“Espera, sério?”
Então não foi a primeira vez que vocês se encontraram…, pensou Yuki.
“Foi pesado”, continuou Maguma. “Estávamos em uma vila nas montanhas, no topo de um pico nevado, e tivemos que enfrentar um abominável homem das neves baixo e atarracado. Vencer o jogo não foi difícil, mas os problemas começaram depois. Nossos agentes não conseguiram nos alcançar por causa de uma nevasca inesperadamente forte. Conseguimos resistir por um tempo, mas depois de três ou quatro dias, comida e água começaram a faltar. No fim, estávamos nos matando por provisões. Já vi o ‘número trinta’ de várias jogadoras, mas nunca um jogo como aquele. Aquela garota nasceu sob uma estrela estranha.”
“Ah… entendo o que você quer dizer”, disse Yuki, concordando.
“Algo parecido aconteceu no jogo em que estivemos juntas. Ela é uma sobrevivente de Candle Woods, sabia?”
Maguma pareceu surpresa.
“Sério?”
“Sim. Aparentemente foi o primeiro jogo dela, e ela estava no Time do Toco — aquele que começava em desvantagem. Mesmo assim, conseguiu sobreviver. Acho que ela é o tipo de garota que sempre acaba em situações difíceis, mas nunca desiste.”
“Ela tem a sorte do diabo, hein?”
Nesse momento, Airi se virou e lançou um olhar para Yuki e Maguma. Não havia raiva nem hostilidade em seus olhos, mas a mensagem era clara: dariam um tempo nisso? As duas obedeceram.
“Outro jogo com três jogadoras que já passaram dos trinta…”, comentou Yuki, mudando de assunto.
“Não. São quatro”, corrigiu Maguma. “Você não viu? A Essay estava no outro grupo.”
Essay — uma garota de cabelo fofinho e aura de estudiosa. Na última vez em que ela e Yuki se encontraram, Essay já havia completado seu quadragésimo quarto jogo, o que significava que, naquele momento, tinha um histórico superior ao de Yuki e Maguma.
Aparentemente, ela estava no outro grupo de quatro. Como havia bastante distância entre eles e a garota não chamava muita atenção, Yuki acabou não a notando.
“Se já temos quatro, pode haver mais”, disse Maguma. “E você, baixinha?”
Ela olhou para Hizumi, a estranha garota do ensino fundamental. No entanto, a menina não apenas permaneceu em silêncio, como também evitou contato visual, desviando o olhar.
Desistindo de tentar conversar com Hizumi, Maguma voltou-se para Airi.
“E a Koyomi?”
“Não perguntei sobre o número de jogos dela… mas não há dúvidas de que ela joga há bastante tempo.”
“Eles realmente não estão facilitando pra gente.”
Pelo menos quatro das oito jogadoras haviam superado a marca dos trinta jogos.
Se isso deveria ser visto como algo tranquilizador ou assustador ainda era incerto. Caso fosse um jogo competitivo — um jogo centrado em conflito entre jogadoras — isso significaria lutar contra veteranas experientes por vagas limitadas de sobrevivência.
Uma jogadora com a sorte do diabo, que não se abalava nem diante de Candle Woods e da Muralha dos Trinta.
Uma jogadora com um corpo tão poderoso que alguém estaria pronto para admitir derrota no instante em que a enfrentasse.
Era possível que Yuki tivesse de lutar contra elas até a morte
(3/11)
Assim como fizera com os outros, Airi bateu na porta do chalé de Koyomi.
“Pode entrar”, veio a resposta de dentro.
A voz soava bastante rouca, como se pertencesse a uma mulher de idade avançada. Será que realmente havia uma jogadora assim no outro grupo? E, mesmo que houvesse, ela conseguiria participar de um jogo tão perigoso? De qualquer forma, a porta estava destrancada, então o grupo de Yuki entrou no chalé.
O interior tinha o mesmo design do chalé onde Yuki havia acordado. Quatro jogadoras estavam sentadas ao redor de uma mesa no centro do cômodo. Entre elas havia alguém que Yuki conhecia — Essay.
Maguma estava certa; Essay estava ali, com seu característico cabelo parecido com algodão-doce e sua expressão calma e intelectual. Por cima do maiô, ela usava uma veste que lembrava bastante um jaleco de laboratório.
As outras três jogadoras eram desconhecidas para Yuki. Uma delas bebia uma garrafa de refrigerante ramune que provavelmente havia tirado da geladeira, outra parecia extremamente nervosa, e a terceira emanava uma forte aura de idosa.
“Sentem-se”, disse a mulher mais velha. Sua voz correspondia à resposta rouca de antes.
Yuki, Airi, Hizumi e Maguma sentaram-se nos lugares vagos ao redor da mesa.
“Que tal começarmos nos apresentando?”
Yuki já havia encontrado três das outras sete jogadoras em jogos anteriores. E, a julgar pelas atitudes das demais, parecia que elas também tinham algum tipo de ligação entre si. No entanto, como montar um diagrama de relações seria trabalhoso demais, o grupo seguiu o costume padrão e começou as apresentações.
As recém-chegadas — o grupo de Yuki — começaram primeiro. Yuki disse seu nome de jogadora e informou que aquele era seu quadragésimo quarto jogo. Maguma declarou, como já havia dito a Yuki antes, que aquele era seu quadragésimo terceiro. Airi revelou que estava em seu trigésimo terceiro jogo. Yuki esperava ouvir também o número de Hizumi, mas, assim como no primeiro encontro, a garota murmurou apenas o próprio nome e nada mais.
Então chegou a vez das outras quatro.
“Eu começo”, disse a mulher de voz rouca. “Meu nome é Koyomi, e este é meu vigésimo jogo. Prazer em conhecê-las.”
Koyomi passava uma impressão curiosamente envelhecida. Em termos de aparência, parecia ter pouco mais de vinte anos. Era o retrato de uma jovem saudável — sua pele não tinha rugas, o cabelo não apresentava fios grisalhos e não havia aquele cheiro característico de gente idosa. Ainda assim, por algum motivo estranho, ela possuía a aura de alguém extremamente velho. Yuki não se surpreenderia se alguém dissesse que Koyomi tinha, na verdade, cento e vinte anos e mantinha sua juventude banhando-se em sangue de virgens. O traje de Koyomi no jogo — um casaco curto tradicional, como o usado por mergulhadoras de pérolas — combinava muito bem com ela.
Koyomi voltou seus olhos curiosos para Yuki.
“Você disse que seu nome é Yuki? Eu sei tudo sobre você.”
“…? Já nos conhecemos antes?”
“Não diretamente. Mas já ouvi falar de você. Pela sua mentora.”
O coração de Yuki deu um salto.
Sua mentora — nome de jogadora: Hakushi. Uma jogadora lendária que havia completado noventa e cinco jogos. Por um tempo, Yuki treinou sob sua tutela em uma relação de mentora e pupila — uma prática comum nos jogos.
Koyomi dizia ter ouvido falar de Yuki por meio de Hakushi. Mas isso era estranho, porque—
“Quando você ouviu falar de mim? Minha mentora… você sabe…”
Hakushi havia deixado este mundo.
Ela morreu no nono jogo de Yuki — Candle Woods. A psicopata havia mutilado seu corpo até o último osso da costela. Yuki vira o cadáver com os próprios olhos.
Então como Koyomi poderia ter se encontrado com uma jogadora morta e ouvido falar de Yuki?
No entanto, nenhuma resposta veio. Koyomi apenas sorriu, saboreando a reação de Yuki. Quando Yuki estava prestes a pressioná-la por detalhes, Airi cutucou seu braço.
“Yuki, ela é uma jogadora veterana”, disse Airi, com seus olhos cor de índigo.
“O que você quer dizer?”
“Aparentemente, ela está na indústria desde antes de Candle Woods.”
Yuki não conseguiu esconder o choque.
“Não há nada de estranho nisso”, comentou Koyomi. “Nem toda jogadora ativa na época participou daquele jogo. Jogadoras como eu são raras, mas não sou a única.”
“Você… não participou de Candle Woods?”
“Tive um mau pressentimento quando meu agente trouxe o convite, então recusei. Tenho um faro apurado para esse tipo de presságio. Esse sexto sentido é uma das grandes razões pelas quais ainda estou viva.”
Koyomi pertencia a uma geração mais antiga de jogadoras do que Yuki e as outras; ela era da era pré–Candle Woods. Nesse caso, era perfeitamente plausível que tivesse conhecido Hakushi quando ela ainda estava viva — e que Hakushi tivesse contado histórias sobre os tempos em que Yuki era uma pupila imprudente.
“Interessante… então você é aquela Yuki.” Koyomi riu baixinho, como se achasse graça em algo.
Yuki sentiu uma forte vontade de perguntar o quanto Hakushi havia revelado, mas antes que pudesse—
“Desculpe pela digressão. Continue”, disse Koyomi, apontando para a garota de aparência estudiosa.
“Sou Essay”, disse a jogadora, tocando seu cabelo fofinho, parecido com algodão-doce. “Este é meu quinquagésimo jogo. Prazer em conhecê-las.”
Apenas Maguma, Airi e Yuki reagiram visivelmente ao número. Era natural que a peculiar Hizumi permanecesse indiferente, enquanto Koyomi e as outras duas jogadoras provavelmente já sabiam do histórico de Essay antes da chegada do grupo de Yuki.
Desde Candle Woods, Yuki não encontrara nenhuma jogadora que tivesse alcançado cinquenta jogos. Assim como trinta e quarenta, cinquenta era um número marcante para ela, pois representava o ponto médio de seu objetivo pessoal de completar noventa e nove jogos. Embora Essay não tivesse relação direta com esse objetivo, a presença de alguém que chegara tão longe mais rápido despertou em Yuki tanto respeito quanto frustração.
“Mozuku, pode ir você agora”, disse Essay.
A jogadora indicada se apresentou de forma nervosa.
“Eu sou a Mozuku. E-este é, hm, meu décimo jogo. Prazer.”
A garota não tinha nenhuma característica marcante. Era até reconfortante ver uma jogadora tão insegura. Esse comportamento costumava ser típico de iniciantes que ainda não haviam se acostumado aos jogos, mas, se aquele realmente fosse o décimo jogo de Mozuku, seu medo provavelmente não vinha do jogo em si, mas das jogadoras ao redor — muitas delas veteranas com mais de trinta jogos completados, incluindo a mulher musculosa sentada ao seu lado.
“É… só isso”, disse Mozuku, apontando para a última jogadora, aquela que segurava a garrafa de ramune.
A essa altura, porém, a garota não estava apenas bebendo refrigerante. Durante as apresentações, ela havia tirado da geladeira um pacote de bolinhos de polvo takoyaki, aquecido no micro-ondas, e ainda mastigava a comida fumegante. Mesmo quando Mozuku lhe passou a vez e todos os olhares se voltaram para ela, a garota continuou comendo tranquilamente. Só depois de fazer todos esperarem até terminar a refeição e a bebida é que finalmente se apresentou.
“Sou Mitsuba. Este é meu trigésimo jogo. Prazer.”
Um número chocante escapou de seus lábios com naturalidade.
A Muralha dos Trinta — uma superstição da indústria. Dizia-se que, por volta do trigésimo jogo, as jogadoras enfrentavam irregularidades inimagináveis que reduziam drasticamente suas chances de sobrevivência. Tanto Yuki quanto Airi — e muito provavelmente Maguma e Essay também — haviam sofrido por causa desse fenômeno quase amaldiçoado. Praticamente toda jogadora já ouvira falar disso, e Mitsuba certamente não era exceção.
Mesmo assim, a garota não demonstrava nenhum sinal de apreensão. Observando a garrafa vazia de ramune e o pacote de takoyaki ao lado dela, Yuki concluiu que Mitsuba marchava ao próprio ritmo.
“Eu fui a última?” perguntou Mitsuba, lançando um olhar rápido sobre as outras jogadoras.
Em seguida, ela foi até a geladeira e, como se ainda não estivesse satisfeita, pegou um segundo pacote de takoyaki e o colocou no micro-ondas. Observando o recipiente plástico girar sob a luz alaranjada, continuou:
“Que tipo de jogo será esse, hein? Tudo o que temos é uma praia, maiôs… e acho que ramune e takoyaki também.”
“Parece seguir o padrão de um jogo de fuga”, disse Koyomi, com sua voz rouca característica. “Essa praia é isolada do mundo exterior. Se isso não é um cenário de jogo de fuga, eu não sei o que é.”
A praia era cercada por uma floresta em três lados e, naturalmente, pelo mar no lado restante. Para sair dali, as jogadoras não teriam outra opção senão entrar na floresta. Como Koyomi dissera, a situação se encaixava perfeitamente no modelo tradicional de um jogo de fuga.
“De qualquer forma, deveríamos começar examinando os arredores”, sugeriu Essay.
Sua autoridade como jogadora de cinquenta jogos parecia surtir efeito, pois suas palavras prenderam a atenção da maioria. “Não será tarde demais para tentar entender as regras depois.”
Não houve objeções. Assim, as jogadoras se levantaram uma a uma, até que restasse apenas Mitsuba.
(4/11)
Todas, exceto Mitsuba, saíram do chalé. O grupo de sete pisou na areia e começou a explorar. A faixa de terreno arenoso era tão longa que alguém parado em uma extremidade pareceria apenas um ponto distante visto da outra. As jogadoras percorreram toda a areia cor de merengue, mas, ao não encontrarem nada digno de nota, voltaram sua atenção para as árvores ao redor.
O grupo entrou na floresta. Como todas já estavam acostumadas com os jogos, ninguém demonstrou hesitação em avançar usando apenas um maiô.
“Vamos em linha reta”, sugeriu Essay. O grupo fez como ela disse.
Se aquele fosse um jogo de fuga cujo objetivo fosse atravessar a floresta com vida, seria razoável esperar uma grande quantidade de armadilhas entre as árvores. No entanto, não parecia haver nenhuma sequer. Embora não pudessem provar que não existiam armadilhas, ao menos nenhuma delas havia sentido algo suspeito ou ativado algum mecanismo e se ferido. O grupo seguiu adiante, e adiante, e adiante—
—até que, finalmente, o campo de visão se abriu.
“Como eu imaginava”, comentou Maguma.
O grupo estava no topo de um penhasco íngreme. O terreno gramado terminava abruptamente, como um bolo mordido pela metade. No fundo do paredão rochoso, via-se o mesmo oceano azul que haviam observado mais cedo na praia.
À esquerda e à direita, o penhasco se estendia até onde a vista alcançava. Embora fosse impossível confirmar sem caminhar ao longo da borda, tudo indicava que ele circundava completamente a praia.
Em resumo, a praia era cercada por uma floresta, que por sua vez era cercada por penhascos íngremes. Em outras palavras — aquela praia não estava conectada ao continente.
As jogadoras estavam em uma ilha isolada.
“…Se essa for a nossa situação”, disse Essay — que sempre parecia estar refletindo sobre coisas complexas, mas agora realmente estava —, “isso muda completamente o significado de ‘fuga’. Maguma, posso te perguntar uma coisa?”
“O quê?”
“Você consegue ver alguma terra no horizonte?”
Yuki instintivamente olhou para o mar ao ouvir a pergunta. Ela vasculhou todo o horizonte, da esquerda para a direita, mas não encontrou nenhum sinal de terra.
“Nem um pouco”, respondeu Maguma, confirmando o mesmo. “Quer olhar dos meus ombros?”
“Sim, por favor.”
Essay subiu nas costas de Maguma e passou as pernas por cima dos ombros da mulher. Quanto mais alto o ponto de observação, mais distante ficava o horizonte. Era por isso que Essay havia feito a pergunta à jogadora mais alta do grupo — e por isso havia subido em seus ombros. A altura combinada das duas, descontando o comprimento das pernas de Essay, chegava a cerca de três metros, mas mesmo assim, ela desceu com uma expressão abatida; o esforço havia sido em vão.
“Só para confirmar — alguma de vocês viu terra quando estava na praia?”, perguntou Essay.
Ninguém respondeu. A resposta era obviamente não.
“A distância até o horizonte é de uns cinco quilômetros, certo?”, perguntou Maguma.
“Neste caso, seria um pouco mais do que isso”, disse Essay. “Do topo dos seus ombros, meu ponto de observação estaria a cerca de três metros do chão.”
O horizonte existe porque a Terra é redonda e, devido à curvatura do planeta, torna-se impossível enxergar além de uma certa distância. Yuki lembrava de ter aprendido na escola que era possível calcular essa distância com uma aplicação simples do teorema de Pitágoras.
Mas antes que pudesse transformar esse conhecimento superficial em algo prático, Essay se adiantou.
“Isso colocaria o horizonte a quase seis quilômetros de distância. E como estamos em um penhasco, seria ainda mais longe. De qualquer forma, não é uma distância pequena. Então, se este jogo for realmente um jogo de fuga…” — Essay encarou o horizonte vazio — “teremos que atravessar pelo menos essa extensão de oceano.”
Seis quilômetros. Yuki tentou imaginar essa distância. O máximo que já havia nadado foram cinquenta metros, quando estava no ensino fundamental. Nadar seis quilômetros seria como atravessar uma piscina olímpica de cinquenta metros mais de cem vezes. Como sua referência era insignificante em comparação, Yuki teve dificuldade em compreender a gravidade da situação.
“…Não tem como isso funcionar”, comentou Maguma. “Seja nadando ou construindo uma jangada, não temos ideia de para onde ir, então nem conseguiríamos zarpar.”
“Exatamente. Por isso, se assumirmos que este é um jogo de fuga, precisa haver algum tipo de truque. Pode existir um mapa indicando nossas coordenadas, ou um meio de comunicação com alguém fora da ilha. Ou talvez…”
Essay fez uma breve pausa antes de continuar.
“…talvez este não seja um jogo de fuga.”
Yuki percebeu os ombros de uma das jogadoras — Mozuku, a garota azarada jogada em meio a veteranas de elite — se contraírem ao ouvir isso.
A ideia de que aquilo não fosse um jogo de fuga, mas sim um jogo competitivo, certamente havia passado pela mente da garota. Se fosse verdade, as jogadoras ao redor seriam, na realidade, suas inimigas. Yuki tentou imaginar o estado mental de Mozuku. E se, em seu décimo jogo — Scrap Building, se a memória de Yuki não falhava — ela tivesse sido forçada a lutar contra jogadoras em seu trigésimo, quadragésimo ou até quinquagésimo jogo? Havia apenas uma palavra para descrever isso: desespero.
No momento, a probabilidade desse cenário angustiante parecia bastante alta, pois durante toda a caminhada até o penhasco, o grupo não havia encontrado um único objeto que se assemelhasse a uma armadilha. Apesar de estarem em um jogo mortal, ainda não tinham se deparado com nada que pudesse levá-las à morte — exceto, é claro, as sete criaturas vivas ali presentes e a oitava deixada na praia, todas armadas com um corpo completo.
Por outro lado, havia uma forma mais otimista de enxergar a situação. Talvez não fosse nem um jogo de fuga nem um jogo competitivo, mas sim um jogo de sobrevivência, como o que Yuki havia enfrentado recentemente em um parque de diversões. Por exemplo, era possível que as jogadoras precisassem sobreviver cem dias na ilha até que um navio de resgate preparado pelos organizadores viesse buscá-las — o que tornaria o ambiente selvagem de uma ilha isolada do mundo exterior a verdadeira ameaça à vida delas. E, claro, ainda era cedo demais para descartar completamente a teoria inicial de que se tratava de um jogo de fuga. Talvez uma garrafa contendo plantas de um barco tivesse dado à praia, e Mitsuba, que ficara brincando por lá, estivesse examinando os detalhes naquele exato momento.
Estariam elas no paraíso ou no purgatório? Havia apenas uma forma de descobrir.
“Vamos continuar explorando”, disse Essay.
(5/11)
O grupo completou uma volta inteira ao redor da ilha, mas não encontrou nenhuma passagem para o continente.
A ilha era grande o bastante para levar cerca de uma hora para circundar todo o perímetro. Tirando a faixa de areia, o resto da ilha era coberto por árvores. O grupo vasculhou tanto a orla quanto o interior da floresta, mas não encontrou nenhuma construção além dos chalés, nem qualquer objeto feito pelo homem — exceto câmeras de vigilância usadas para transmitir as imagens do jogo. As jogadoras retornaram à praia de mãos vazias.
Àquela altura, o sol já havia começado a se pôr.
“Oh, bem-vindos de volta”, disse Mitsuba quando elas retornaram. Parecia que ela tinha acabado de ir nadar, pois carregava uma boia apoiada no ombro e todo o seu corpo estava molhado. Um rastro de gotículas de água se estendia atrás dela na areia.
“…………”
Yuki e as outras a ignoraram. Depois de horas andando, elas não tinham nem energia para repreender a garota por ter matado aula e se divertido sozinha.
“Mitsuba”, disse Essay, a única disposta a falar com a garota.
“Hm?”
“Você descobriu alguma coisa nova sobre o jogo?”
“Nada não. Fiquei por aqui o dia inteiro, então tô completamente por fora.”
“…………”
Essay desviou o olhar de Mitsuba e voltou o rosto para o céu escarlate.
“Que tal encerrarmos por hoje?” — sugeriu. “O sol está se pondo, então vamos retomar amanhã.”
Uma brisa repentina soprou pela praia. O frio do entardecer se instalou, atacando a pele delas, que estava mais exposta do que o normal.
“Vamos ter que dormir de maiô?”, perguntou Airi, abraçando o próprio corpo. “Com essas roupas, nenhum número de cobertores vai dar conta do frio.”
“Bom, não tinha nenhuma outra roupa por aqui”, respondeu Mitsuba. “Tinha um monte de toalhas extras e trajes de banho, mas nem uma peça de roupa normal.”
Yuki já esperava isso. Era difícil imaginar os organizadores preparando qualquer vestimenta além do traje do jogo. Como aparentemente havia maiôs extras, o máximo que as jogadoras podiam fazer para se proteger do frio era pegar roupas relativamente menos reveladoras, como o vestido de Essay ou o casaco curto de Koyomi.
Depois de combinarem de se encontrar novamente no chalé de Koyomi na manhã seguinte, as jogadoras se dispersaram e voltaram para suas respectivas acomodações.
Parada diante da porta do seu chalé, Yuki percebeu que não havia tranca. A porta podia ser aberta ou fechada apenas aplicando força. Como não havia como trancar o chalé, qualquer pessoa poderia entrar furtivamente a qualquer momento.
Yuki entrou no prédio. Os mesmos móveis que ela tinha visto ao acordar naquela manhã permaneciam intocados. Um deles chamou sua atenção: uma cômoda robusta de cinco gavetas. Ela a ergueu com as duas mãos e a carregou até a porta para usá-la como barricada.
Yuki não imaginava uma ameaça específica; estava apenas bloqueando a porta por precaução. Mesmo não tendo problema em dormir de maiô, ela não era tão imperturbável a ponto de conseguir dormir em um quarto totalmente destrancado. Como a porta se abria para fora, a cômoda não impediria de fato alguém de abri-la, mas montar um obstáculo era, sem dúvida, melhor do que não ter nada.
Depois disso, Yuki jantou. Como certa pessoa havia beliscado comida mais cedo naquele dia, ela já sabia o que havia dentro da geladeira. Estava abastecida com comidas e bebidas típicas de praia, incluindo pacotes de takoyaki, yakisoba e garrafas de refrigerante ramune. Sobre a geladeira havia um micro-ondas, que ela sabia ser seguro para aquecer os recipientes de plástico. Como Yuki tinha caminhado o dia inteiro, seu estômago roncava de fome, mas como não sabia quantos dias teria de permanecer na ilha, ela hesitou em comer sem pensar nas consequências, como Mitsuba fizera. Yuki decidiu parar quando estivesse 80% satisfeita.
A comida estava deliciosa.
Depois de tomar banho, trocar para outro traje de banho e escovar os dentes com a escova fornecida, ela se deitou na cama.
Ela não tinha a intenção de cair em um sono profundo. Embora tivesse montado uma barricada, não acreditava nem por um segundo que aquilo fosse suficiente para garantir sua segurança. Bastaria um chute forte para derrubar a cômoda, sem falar que as janelas do chalé não pareciam nada resistentes. Se alguém estivesse determinado a entrar no quarto de Yuki, nenhuma dessas barreiras seria de grande utilidade. Ela precisava dormir levemente, de modo a acordar ao primeiro sinal de algo fora do normal.
Yuki havia adquirido a habilidade de modular o próprio sono. Essa habilidade era indispensável em jogos que duravam mais de um dia. Qualquer jogador que tivesse ultrapassado a marca de trinta jogos — e até mesmo Mozuku, Koyomi e, embora o número de partidas dela permanecesse um mistério, Hizumi — provavelmente também teria aprendido a fazer o mesmo. Era uma técnica básica que se esperava de qualquer pessoa da área.
E assim, Yuki conseguiu rapidamente atingir o nível de sono que desejava.
Felizmente, ela acordaria para ver mais um dia.
(6/11)
Yuki acordou com alguém batendo à porta.
(7/11)
Yuki saltou da cama no exato instante em que o som chegou aos seus ouvidos, arremessando o cobertor com força para o alto. Se alguém estivesse se aproximando furtivamente dela, aquilo teria bloqueado o campo de visão do intruso. Usando apenas a força das pernas, ela se pôs de pé sobre a cama e assumiu uma postura de combate.
No entanto, ela estava lutando contra moinhos de vento, pois não havia mais ninguém dentro do chalé. Sentindo uma pontada de constrangimento, Yuki se acalmou. Nesse momento, outra batida soou na porta. Era o mesmo barulho que ela havia ouvido no dia anterior.
Forçando os ouvidos, ela escutou uma voz chamando repetidamente: “Yuki, Yuki”.
Enquanto identificava quem era a visitante pelo timbre da voz, Yuki se dirigiu até a porta.
Então, ela franziu a testa ao ver o objeto parado à sua frente.
Uma cômoda.
Yuki a havia colocado ali como barricada na noite anterior. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi: Que saco. Em seguida, perguntou a si mesma: Quem diabos colocou isso aqui? antes de responder: Foi você ontem à noite, sua idiota. Com os braços ainda sem funcionar direito por ter acabado de acordar, Yuki afastou a cômoda e abriu a porta.
Airi estava do lado de fora.
“Bom dia”, cumprimentou Yuki.
A visitante, porém, não respondeu de imediato. A garota estava ofegante, com as bochechas coradas. Se Yuki assumisse que ela não havia pegado um resfriado, isso significava que tinha corrido até o chalé de Yuki a toda velocidade. Mas por quê?
“Bom dia.” — O alívio tomou conta do rosto de Airi. “Foi você que colocou isso na frente da porta?”, perguntou, olhando além de Yuki para a cômoda que já não cumpria mais seu papel de barricada.
“É… achei que não faria mal ser cautelosa”, respondeu Yuki.
“…Provavelmente foi a decisão certa.”
“Hã?”
“Por favor, você precisa vir comigo.” — Airi agarrou a mão de Yuki e a puxou.
Yuki sentiu seu centro de gravidade inclinar-se para a frente.
“Espera, eu nem me arrumei ainda…”
“Isso pode esperar.”
Yuki tocou o cabelo com a mão livre. Como havia acabado de acordar, ele estava completamente bagunçado. Yuki dava mais importância à sua rotina matinal do que pessoas comuns. Como possuía naturalmente uma aura fantasmagórica, ela ficava ainda mais chamativa quando estava desgrenhada logo ao despertar.
Mesmo assim, Airi havia mandado ela deixar isso para depois, apesar de ter visto o estado deplorável em que Yuki se encontrava. O que poderia ter deixado a garota tão impaciente?
Yuki conseguia pensar em apenas uma resposta.
(8/11)
Havia outros cinco jogadores na praia.
Uma jogadora cujo corpo gigantesco lembrava a imagem de um urso: Maguma.
Uma garota peculiar que parecia rejeitar qualquer tentativa de conversa: Hizumi.
Uma jogadora veterana que estava na indústria desde a era pré–Candle Woods: Koyomi.
Uma jogadora em seu décimo jogo, que mais uma vez agia de forma nervosa: Mozuku.
E o espírito livre que havia demonstrado uma completa falta de cooperação no dia anterior: Mitsuba.
Somando Yuki e Airi, eram sete ao todo.
Todas se viraram para Yuki quando ela saiu do chalé. Como alguém que passava a maior parte da vida privada usando um agasalho, Yuki era tão suscetível à vergonha quanto qualquer outra pessoa. Ser vista naquele estado desleixado, com sua aura fantasmagórica elevada ao máximo, era extremamente constrangedor.
“O que você estava fazendo?”, perguntou Maguma, sem sequer cumprimentá-la.
“Dormindo”, respondeu Yuki.
“…Você dorme demais, hein?” — Maguma conhecia bem a natureza de Yuki por causa dos jogos anteriores que haviam disputado juntas.
“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou Yuki, já com uma suspeita do que tinha ocorrido. “Tem… um jogador faltando.”
As outras trocaram olhares. Yuki já esperava essa reação.
“Lembra que ontem combinamos de nos reunir no chalé da Koyomi pela manhã?”, disse Maguma.
“Sim.”
“Então, hoje cedo seis de nós apareceram lá. Nem você nem Essay foram, então decidimos ir até os chalés de vocês. Mandamos a Airi ir ao seu, como ontem, e eu fui ao da Essay, já que nós duas nos conhecemos de jogos passados.”
A expressão de Maguma se tornou preocupada, como se o espírito da estudiosa Essay tivesse possuído seu corpo. Em seguida, ela olhou para um dos chalés.
“Aquele chalé ali, o terceiro da esquerda, é o da Essay. Fica bem ao lado do da Koyomi. Como o seu chalé é o último, eu cheguei ao da Essay antes da Airi chegar ao seu. Não houve resposta quando bati, então eu entrei…”
O vinco entre as sobrancelhas de Maguma se aprofundou.
“Aí chamei todo mundo.”
Yuki sentiu a inquietação no ar se intensificar. Todas as outras — até mesmo Mitsuba, em certa medida — tinham expressões sombrias no rosto.
“Então começamos a pensar que talvez você tivesse tido o mesmo destino. Era a próxima conclusão lógica. Foi por isso que a Airi correu até o seu chalé. Ainda bem que você saiu sem nenhum sinal de problema, e é por isso que estamos aqui agora.”
“Fico feliz que você esteja bem”, disse Airi. Sua expressão normal havia retornado, uma que parecia forçada, como se ela estivesse encarando algo que não queria ver.
“A Essay” — Yuki olhou para o chalé. “Ainda está lá dentro?”
“Está.”
Yuki tocou o cabelo bagunçado e olhou para si mesma; estava coberta de fiapos do cobertor.
“Hm… Maguma?”
“O quê?”
“Você acha que seria falta de educação eu ir vê-la desse jeito?”
(9/11)
Dentro do chalé jazia o cadáver de Essay.
(10/11)
Jogadoras de jogos mortais tinham seus corpos modificados por meio de um procedimento conhecido como Tratamento de Preservação. Seus efeitos eram abrangentes, mas o mais importante era a transformação do sangue. Após receber o Tratamento de Preservação, qualquer sangue que saísse do corpo de uma jogadora solidificava-se imediatamente e se transformava em uma substância branca e fofa. Por isso, para as jogadoras, a cor do sangue não era vermelha, mas branca. A cor que simbolizava o grotesco também não era o vermelho, e sim o branco. Yuki havia internalizado essa noção tão profundamente que se assustava apenas ao ver algodão saltando para fora de um colchão.
O interior do chalé estava coberto por penugem branca.
Era como se um bicho de pelúcia tivesse sido rasgado, como se uma banheira cheia de espuma tivesse sido derrubada, como se uma máquina de neve artificial tivesse sido deixada ligada na potência máxima. E ali estava, sobre a mesa no centro do cômodo. Embora o corpo também estivesse coberto pela penugem branca, o cabelo característico, semelhante a algodão-doce, que despontava tornava a identificação da figura algo trivial.
Era o cadáver de Essay.
Ou, para ser mais preciso, eram a cabeça e o tronco dela. Seus membros estavam espalhados pelo ambiente. Yuki não teve dificuldade em localizá-los, pois estavam relativamente intactos. O braço esquerdo de Essay repousava no sofá, o direito estava sobre a cama, e as pernas jaziam no chão, ao lado da cômoda. Embora ainda fosse possível identificar os membros, as articulações haviam sido quebradas, a pele rasgada e as unhas arrancadas. Também faltavam alguns dedos das mãos e dos pés.
Os braços e as pernas de Essay estavam em um estado macabro, mas o tronco sobre a mesa estava em condições ainda piores. Ele havia sido aberto como um peixe seco, e exatamente cinco costelas apontavam para o teto como uma mão estendida em busca de salvação. As demais costelas também não estavam intactas — algumas haviam se quebrado, outras estavam cravadas na cama; nenhuma permanecia em sua posição original. Com o peito de Essay completamente exposto, seria ingênuo esperar que as partes mais internas tivessem escapado ilesas. Seu coração, pulmões e outros órgãos haviam sido cuidadosamente organizados e dispostos como itens apreendidos pela polícia. Muitos deles estavam colocados próximos à entrada, o que era um dos motivos pelos quais Yuki teve dificuldade em dar um passo para dentro depois de abrir a porta.
O corpo de Essay havia sido horrivelmente mutilado. No entanto, o pavor que Yuki sentia não vinha da brutalidade do cadáver.
“Yuki”, chamou Airi, por trás dela. “Isso… é o mesmo, não é?”
As palavras de Airi pareciam vazias à primeira vista, mas Yuki compreendia perfeitamente o significado por trás delas.
Exatamente — o cadáver lhe parecia familiar.
É claro que aquela era a primeira vez que Yuki via Essay morta, mas ela já tinha visto um corpo em um estado semelhante no passado. Fora durante seu inesquecível nono jogo, em Candle Woods. O corpo da lendária jogadora Hakushi, mentora de Yuki, havia sido dilacerado pelas mãos daquela psicopata — e o cadáver diante de Yuki naquele exato momento transmitia a mesma impressão.
No entanto, assim como Hakushi, aquela psicopata deveria ter morrido em Candle Woods. Na verdade, fora a própria Yuki quem havia encerrado a vida da mulher, esfaqueando-a repetidas vezes com uma lâmina em forma de folha de bambu. Yuki ainda conseguia se lembrar vividamente da sensação de segurar a faca e enfiar todo o punho esquerdo no estômago da psicopata.
Então por quê?
Por que havia outro cadáver mutilado ali?
(11/11)
(0/15)
Candle Woods.
O nono jogo de Yuki — o jogo que a levara a decidir viver como jogadora. Nenhum outro havia sido tão especial quanto aquele, e Yuki não era a única a pensar assim. Não havia uma única alma na indústria que desconhecesse Candle Woods — ele representava um divisor de águas na história dos jogos mortais, a ponto de as jogadoras se referirem aos períodos como “pré–Candle Woods” e “pós–Candle Woods”.
O jogo tornara-se infame por seu altíssimo número de participantes e sua baixíssima taxa de sobrevivência. Ao todo, 330 pessoas haviam participado, divididas em duas equipes, mas pouquíssimas conseguiram concluir o jogo com vida. A maioria das jogadoras ativas da indústria naquela época — morreu como consequência de uma única jogadora que perdeu o controle.
O nome dessa jogadora era Kyara.
Ela era uma assassina psicopata, de cabelos da cor do incenso de ágar, que entrou no jogo não com o objetivo de sobreviver, mas de matar. Usando ao máximo um conjunto de habilidades completamente oposto ao de uma jogadora comum, ela levou a indústria à beira do colapso.
Muito tempo havia se passado desde então, e a indústria aparentemente se recuperara quase por completo dos danos que ela causara.
No entanto — o corpo mutilado de Essay diante de Yuki trouxe de volta à sua mente a obra daquela psicopata. Aquela visão podia muito bem ser um sinal de que tudo estava prestes a ruir novamente no esquecimento.
(1/15)
Sete jogadoras se reuniram no chalé de Koyomi.
(2/15)
Assim como no dia anterior, as jogadoras se reuniram em torno da mesa. Apenas duas coisas eram diferentes. A primeira era que Mitsuba não abriu a geladeira — seja por não estar com vontade de comer, seja por simplesmente não ter apetite. A segunda era, obviamente, o fato de que faltava uma jogadora.
O corpo da jogadora desaparecida, Essay, fora deixado exatamente como havia sido encontrado. Graças ao Tratamento de Preservação, não havia risco de decomposição mesmo deixando o cadáver exposto, então decidiram realizar primeiro a reunião da manhã.
Naturalmente, a conversa girava em torno de um único assunto.
“Há várias coisas que me intrigam”, disse Koyomi, iniciando a discussão. Sua voz rouca e o casaco curto eram os mesmos do dia anterior. Tudo indicava que ela assumiria a liderança da conversa.
“Está claro o que precisamos descobrir” — continuou ela, articulando bem cada palavra. “Por que Essay morreu?”
Por que Essay morreu? Isso era óbvio — porque aquilo era um jogo mortal. O aspecto “morte” do jogo, que permanecera oculto no dia anterior, finalmente revelara suas presas afiadas.
“Pelo que vimos”, disse Maguma, mantendo sua expressão dura. “Só pode ter sido assassinato. Não consigo imaginar outra coisa além de um ser vivo despedaçando o corpo da Essay com tanto cuidado.”
Inicialmente, o grupo havia levantado a hipótese de ser um jogo de fuga — um tipo de jogo em que os participantes precisam escapar de uma área delimitada enquanto evitam armadilhas perigosas. No entanto, ninguém acreditava que Essay tivesse morrido em uma armadilha. A mutilação de seu corpo era deliberada demais para ter sido causada por um mecanismo automático, e, pelo que Yuki vira, não havia nada parecido com armadilhas dentro do chalé dela. Como nenhum dos outros chalés parecia conter armadilhas, era improvável que apenas o de Essay tivesse sido preparado dessa forma.
Isso significava que alguém a havia matado.
‘A questão é: quem fez isso?” — continuou Maguma. “Pode ter sido um animal treinado, ou um assassino enviado pelos organizadores. Ou talvez…”
Ela deixou a frase no ar, mas todos entenderam onde ela queria chegar.
“Vamos começar compartilhando tudo o que sabemos com certeza”, sugeriu Koyomi. “Temos duas possibilidades. A primeira é que exista alguém além de nós nesta ilha, sob ordens para atacar jogadoras, e que essa pessoa matou Essay.”
Nesse caso, seria um jogo de sobrevivência, como o quadragésimo jogo de Yuki no parque de diversões. As sete jogadoras presentes teriam de cooperar como um time.
“Em termos de probabilidade, não compro essa ideia”, disse Maguma. “Vasculhamos a ilha inteira ontem. Se houvesse mais alguém aqui, teríamos encontrado.”
“Exato”, respondeu Koyomi. “Isso torna mais provável a segunda possibilidade: de que nós oito somos as únicas pessoas na ilha, e que a assassina está entre nós.”
As jogadoras trocaram olhares.
“Pensando bem, tudo aponta para isso, não acham?” — continuou Koyomi. “Oito pessoas passam a noite em uma ilha isolada, cercada pelo mar, sem rota de fuga. Na manhã seguinte, um corpo esquartejado aparece. É o cenário clássico de uma história de suspense.”
Um mistério de espaço fechado — era assim que se chamava?
Esse subgênero da ficção policial retratava crimes ocorridos em locais isolados do mundo exterior, como uma ilha ou uma cabana na montanha durante uma nevasca. Yuki raramente lia romances, muito menos histórias de mistério, mas ao menos conhecia o termo.
“…Se o assassino for uma de nós”, disse Mozuku, apoiando o queixo nas mãos. “Então por que matar Essay?”
“Porque essa deve ser a condição de vitória dele”, respondeu Koyomi. “Quem quer que seja deve ter sido informado previamente de que assumiria o papel de ‘culpado’. Nesse caso, teria que matar um certo número de jogadoras… Duas ou três, eu diria.”
Dois ou três. Koyomi provavelmente chegara a esse número levando em conta a taxa média de sobrevivência. A maioria dos jogos era projetado para que pelo menos metade das participantes sobrevivesse. Para Yuki, três parecia o número mais plausível.
“Então… o que o resto de nós precisa fazer para vencer?”, perguntou alguém.
“Não sabemos. Talvez baste sobreviver. Talvez precisemos desmascarar o culpado. Ou talvez, como discutimos ontem, tenhamos que escapar da ilha construindo uma jangada e remando até o continente.”
“Por enquanto, acho que podemos focar apenas em sobreviver”, disse Yuki, entrando na conversa.
“Por quê?”, perguntou Koyomi.
“Porque nenhuma regra nos foi explicada. Se o objetivo fosse investigar e identificar a assassina, os organizadores deixariam isso muito mais claro. Não dá para esperar que, com as informações atuais, cheguemos sozinhas à conclusão de que devemos agir como detetives. E, como vimos ontem, escapar da ilha parece quase impossível.
Koyomi pareceu convencida.
“As regras não foram explicadas porque talvez nem precisemos delas” — continuou Yuki. “As jogadoras que não são as culpadas só precisam sobreviver por um determinado período. Já a culpada precisa matar um certo número de pessoas dentro desse mesmo prazo.”
Yuki voltou o olhar para a geladeira.
“Posso abrir?”
“…Claro.”
Com a permissão de Koyomi, Yuki abriu a geladeira. Dentro havia garrafas geladas de ramune e comidas embaladas.
“Quantos pacotes você comeu ontem?”, perguntou Yuki.
“Dois. Contando os que a Mitsuba comeu, devem faltar quatro no total.”
“Então havia vinte e uma refeições no começo.”
No momento, restavam dezessete pacotes. Somando os quatro consumidos, totalizavam vinte e um. Yuki só conseguia pensar em um motivo para não ser um número redondo como vinte.
“Quer dizer que esse jogo vai durar uma semana?”, perguntou Koyomi.
Vinte e uma refeições divididas por três por dia resultavam em sete dias. Embora as porções fossem um pouco pequenas, era razoável supor que a quantidade de comida indicava a duração do jogo.
“Ainda é arriscado afirmar com certeza”, disse Yuki, fechando a geladeira. “Não temos prova definitiva. A comida é preciosa, então devemos consumi-la com cautela. E, mesmo eu dizendo isso… posso ser a culpada inventando mentiras.”
Era possível que Koyomi estivesse certa e que o objetivo real fosse expor o assassino. Talvez as regras não estivessem claras porque ainda faltava explorar algo. Mesmo assim, Yuki não tinha intenção de passar a semana inteira apenas comendo e dormindo no chalé.
Koyomi lançou um olhar fulminante para Mitsuba.
“Ouviu isso? A comida é preciosa.” — Seu tom era irritado. “Você vai devolver o que comeu ontem.”
“Hã?”
“Nada de “hã”. Entendeu? Depois da reunião, vamos ao seu chalé.”
Depois da reunião.
Como se fosse estimulada por aquelas palavras, Mozuku falou:
“E-então… o que vamos fazer hoje?”
Todas voltaram sua atenção para ela, claramente ansiosa.
“Vamos… continuar andando juntas, como ontem?”
O motivo de sua preocupação era claro: o medo de que o assassino estivesse entre elas.
“Eu tô fora”, disse Maguma, quebrando o silêncio. “Se o culpado é uma de nós, ficar juntas é perigoso demais. Vou agir sozinha.”
“É exatamente isso que não se deve fazer.” — Mitsuba sorriu de lado. “Quem anda sozinho é sempre o primeiro a morrer. Nunca viu um suspense?”
“Eu não vou cair fácil”, respondeu Maguma, no mesmo tom firme. “Mesmo que todas aqui se tornem minhas inimigas, eu derrubo vocês.”
Ninguém conseguiu responder com a mesma convicção.
Yuki sabia, por experiências passadas, que os músculos de Maguma não eram apenas aparência. Nenhuma jogadora conseguiria vencê-la em um confronto direto. Sua afirmação de que poderia derrotar as outras seis ao mesmo tempo não era exagero.
“Quem quiser andar em grupo, que vá” — continuou Maguma. “Eu vou seguir meu próprio caminho.”
“Eu também”, disse uma voz inesperada. Era Hizumi. “Prefiro ficar sozinha.”
“…Vocês duas não gostam de trabalho em equipe, hein?” — Koyomi sorriu de forma amarga. “Tudo bem. Cada um é livre para agir como quiser. Além disso, não é certeza absoluta que exista uma assassina entre nós.”
A teoria só parecia plausível porque nada fora encontrado no dia anterior. Não havia provas concretas. Talvez realmente houvesse um assassino enviado pelos organizadores.
“Ainda assim…” — continuou Koyomi. “Se cada uma fizer o que quiser, teremos problemas sem um mínimo de coordenação. Que tal nos reunirmos todas as manhãs? Compartilhamos o que fizemos no dia anterior e qualquer descoberta. Depois disso, cada uma age por conta própria. Concordam?”
Ela olhou para Hizumi e Maguma.
“Não é como se vocês quisessem ficar isoladas o tempo todo, certo?”
“…Acho que sim”, respondeu Maguma, com o rosto impassível. “Mas nessas reuniões, somos obrigadas a contar tudo?”
“Não. O culpado certamente mentirá, e nem todas aqui são aliadas incondicionais. Guardem silêncio se quiserem. Mas falar a verdade tende a reduzir suspeitas.”
Maguma soltou um leve resmungo.
Nos jogos mortais, as posturas variavam bastante. Alguns, como Yuki, preferiam cooperar quando possível; outros, como Maguma e Hizumi, agiam como lobos solitários. Assim como o culpado esconderia seus atos, outras jogadoras também poderiam ocultar informações para aumentar suas chances.
“Mais alguma pergunta?”— Koyomi olhou ao redor.
Como ninguém respondeu, ela concluiu:
“Então, estamos dispensadas por hoje. Até amanhã. Com sorte, todas ainda estaremos vivas.”
(3/15)
Maguma foi a primeira a sair do chalé, seguida por Hizumi. Mitsuba tentou sair também, mas, assim que se levantou—
“Você não vai a lugar nenhum”, disse Koyomi, parando a garota no meio do caminho e fazendo-a sentar de novo, emburrada.
As outras três jogadoras —Mozuku, Airi e Yuki— permaneceram completamente imóveis ao redor da mesa.
Depois de avaliar a atitude de todas, Airi falou:
“Estou pensando em visitar o chalé da Essay… Vocês gostariam de vir comigo?”
Um breve silêncio se seguiu.
Mitsuba foi a primeira a responder.
“Vou passar. Dá trabalho demais.”
“Eu vou”, disse Yuki. “Tenho algumas coisas que quero investigar… Mas, Airi, se você quer ir à cena do crime, isso significa que pretende caçar o culpado?”
“Sim. Essa é a minha intenção”, respondeu Airi, com uma expressão sombria no rosto, que transmitia exaustão com a própria vida.
Contrariando sua aparência, a postura de Airi era extremamente agressiva. Yuki achou isso surpreendente, mas, ao refletir melhor, percebeu que aquilo combinava perfeitamente com ela. Afinal, Airi havia matado cinco jogadores em seu primeiro jogo, Candle Woods. Apesar da expressão deprimida, ela era o tipo de pessoa que fazia o que precisava ser feito quando chegava a hora.
Airi lançou o olhar para as duas jogadoras restantes —Koyomi e Mozuku.
“Eu gostaria que vocês duas viessem conosco, se puderem… Como dizem, segurança em números.”
Nesse tipo de jogo, havia duas maneiras de garantir a própria segurança. A primeira era agir sozinho, como Maguma e Hizumi haviam escolhido fazer. Não permitir que outras jogadoras se aproximassem naturalmente diminuía as chances de ser morta. A segunda era exatamente o que Airi havia sugerido: permanecer em um grupo grande. Com vários pares de olhos atentos, o culpado teria mais dificuldade para agir.
A única abordagem que deveria ser evitada a todo custo era agir em um grupo pequeno —do tamanho perfeito para ser eliminado com facilidade pelo assassino.
“Eu não me importo, mas…”, disse Koyomi. “Posso resolver uma coisa antes? Tem algo que preciso cobrar dessa encrenqueira aqui.”
Ela apontou o polegar para a “encrenqueira”, Mitsuba, que fez bico novamente. Yuki se lembrou do início da reunião, quando Koyomi havia exigido que Mitsuba devolvesse a comida que tinha comido no dia anterior.
“Tudo bem”, respondeu Airi. “Na verdade… nós vamos com vocês. Seria perigoso vocês duas ficarem sozinhas.”
“E-eu vou também. Por favor, me deixem ir com vocês”, disse Mozuku, fazendo o grupo chegar a quatro pessoas.
“Vocês estão levando isso mesmo a sério, hein?”, disse Mitsuba aos outros. Ela apoiava o queixo nas mãos sobre a mesa. “Estamos numa praia paradisíaca, e vocês vão passar o tempo brincando de detetive?”
“O estranho é uma jogadora estar agindo de forma tão leviana no seu trigésimo jogo”, rebateu Koyomi, trazendo a contagem de jogos da garota à tona.
Mitsuba, porém, não demonstrou preocupação.
“Então existe mesmo um culpado, né? Eu fiquei observando todo mundo durante a reunião, mas não faço ideia de quem possa ser. Parece que é alguém profissional em esconder isso.”
Na verdade, Yuki vinha fazendo o mesmo em segredo. Ela imaginava que o culpado —por mais acostumado que estivesse a matar— teria demonstrado algum comportamento suspeito depois de esquartejar alguém de forma tão brutal. Mas, assim como Mitsuba, ela não havia descoberto nada. Era impossível dizer quem era o responsável. Todas pareciam um pouco mais sérias do que no dia anterior, mas nada em suas atitudes podia ser considerado suspeito. Yuki chegou a se sentir perturbada com a falta geral de reação à morte de Essay. Embora não estivesse em posição de julgar, as jogadoras estavam acostumadas demais à morte.
“Koyomi, você ouviu algum grito ou barulho ontem à noite?”, perguntou Mitsuba. “Seu chalé é logo ao lado do da Essay, não é? Não houve nenhum som de luta?”
“Não ouvi nada. E meus ouvidos são bem aguçados”, respondeu Koyomi. Em seguida, devolveu a pergunta: “E você? O seu chalé não fica à esquerda do dela?”
“Nada mesmo. Eu não fazia ideia de que tinha ocorrido um assassinato.”, Mitsuba falava de forma leve demais para alguém comentando sobre uma morte. “O problema é que qualquer uma de nós poderia ter feito isso. Esses chalés não têm tranca. Bastava entrar enquanto a Essay dormia e matá-la com um único golpe. Moleza.”
Ao que parecia, o chalé de Yuki não era o único sem tranca. Embora fosse possível improvisar uma barricada, como ela havia feito na noite anterior, impedir completamente que alguém abrisse a porta era praticamente impossível.
“Certamente não teria sido uma ‘moleza’ “, rebateu Koyomi.
“Não teria?”
“Não. Entrar em um chalé pode até ser fácil, mas enfrentar a Essay? Ela era uma veterana no seu quinquagésimo jogo. Mesmo antes de Candle Woods, quase não havia jogadoras do nível dela. Não dá pra chamar de moleza entrar no quarto dela e matá-la.
A explicação de Koyomi fazia todo o sentido. Mesmo nesse jogo cheio de participantes experientes, Essay se destacava. Ela certamente acordaria no instante em que alguém entrasse em seu chalé. Mesmo que tivesse sido atacada de surpresa no escuro, era impensável que tivesse sido derrotada tão facilmente.
“Por que eles foram atrás da Essay?” —Airi entrou na conversa. —Se eu fosse a culpada, não acho que atacaria de propósito a jogadora com o maior número de jogos… Sem querer ofender, mas eu provavelmente escolheria a Mozuku ou a Koyomi.”
Mozuku recuou visivelmente ao ouvir seu nome.
Aquele era o décimo jogo de Mozuku e o vigésimo de Koyomi. Embora a quantidade de jogos não refletisse necessariamente a habilidade de uma jogadora, havia certa correlação. Se o culpado precisava matar um número específico de pessoas, o mais lógico seria começar pelos mais fracos e avançar aos poucos.
“Talvez quisessem cortar a cabeça do grupo”, disse Yuki. “Lembram como a Essay estava agindo como o cérebro da equipe ontem? O culpado pode ter ido atrás dela de propósito para impedir que nos coordenássemos…”
“E apesar de ter o maior número de jogos, a Essay não parecia exatamente forte”, disse Koyomi. “Isso pode ter influenciado. Ela não era do tipo que lutava com os punhos.”
“Exato. Fiel à aparência, ela era mais uma estrategista."
Yuki já havia participado de vários jogos com Essay no passado e, até onde sabia, a inteligência era sua maior arma. Ela era o completo oposto de monstros físicos como Maguma. Não seria absurdo pensar que o culpado tivesse olhado para seu corpo esguio e concluído que ela seria um alvo fácil.
“Talvez consigamos descobrir o motivo investigando a cena”, disse Airi.
Suas palavras colocaram o grupo em movimento.
“Vamos indo”, disse Koyomi, levantando-se.
Yuki, Airi e Mozuku fizeram o mesmo. Apenas Mitsuba permaneceu imóvel, até Koyomi dizer:
“Você vem também.”
Com uma expressão azeda, Mitsuba se levantou.
(4/15)
As cinco jogadoras saíram e caminharam pela areia em direção ao chalé de Mitsuba.
No caminho, Yuki refletiu sobre a disposição dos chalés. Da direita para a esquerda, eles pertenciam a ela, Hizumi, Airi, Maguma, Koyomi, Essay, Mitsuba e Mozuku. Estavam espaçados de forma uniforme, e levar alguns minutos a pé para alcançar o chalé vizinho era o normal. Caminhar do chalé de Koyomi até o de Mitsuba —uma distância de dois chalés— levava, portanto, o dobro do tempo.
O grupo pegou dois pacotes de takoyaki e uma garrafa de ramune no chalé de Mitsuba.
“Bom, aqui é a minha parada”, disse Mitsuba, ficando para trás.
O grupo, agora reduzido a quatro pessoas, voltou rapidamente ao chalé de Koyomi para guardar os itens na geladeira. A primeira missão havia sido concluída sem problemas.
Em seguida, as quatro se dirigiram ao chalé de Essay. Incapaz de afastar a sensação de perigo iminente, mesmo estando em grupo, Yuki permaneceu cautelosa em relação as outras três enquanto caminhava. A areia rangia sob seus pés. Era o segundo dia do jogo, e a praia antes impecável agora estava cheia de pegadas. Como cada jogadora usava um tipo diferente de calçado —de sandálias a sapatos—, as marcas deixadas eram distintas. Por um instante, Yuki pensou que talvez fosse possível descobrir quem havia visitado o chalé de Essay analisando as pegadas, mas logo descartou a ideia. Afinal, os chalés eram construídos sobre palafitas, em águas rasas, e não sobre a areia. Embora eles estivessem deixando pegadas na praia, alguém andando pela água não deixaria nenhuma. Naturalmente, o culpado devia ter seguido esse caminho para cometer o assassinato.
Não levou muito tempo para chegar ao chalé de Essay, já que ele ficava ao lado do de Koyomi. Yuki parou diante da entrada e, imaginando o que encontraria lá dentro, abriu a porta.
No entanto—
Mesmo tendo se preparado mentalmente para o que esperava ver, ela ficou atônita.
“O-o quê…?”
Yuki se virou. Airi, Koyomi e Mozuku estavam atrás dela, tão cautelosas quanto ela havia sido, mantendo certa distância. De onde estavam, não conseguiam ver o interior do chalé.
Ao notar a surpresa de Yuki, Airi perguntou:
“…Aconteceu alguma coisa?”
“Ah… venham ver.”
Após um breve lapso de palavras, Yuki se afastou. As outras três se aproximaram e, ao conseguirem espiar pela porta—
“…Hã…?” “Oh meu…” “O quê…?”
—cada uma reagiu de forma diferente.
Dentro do quarto, o corpo de Essay não estava em lugar nenhum.
O tronco sobre a mesa, os membros sobre o sofá e a cama, os inúmeros órgãos espalhados pela entrada— tudo havia desaparecido.
Yuki se perguntou se não tinham entrado no chalé errado, mas logo descartou essa possibilidade. Havia dois chalés à esquerda e cinco à direita —era, sem dúvida, o mesmo lugar que ela visitara naquela manhã. E embora o corpo de Essay tivesse sumido, o quarto estava exatamente no mesmo estado de antes, com penugem branca espalhada por todo lado, como se alguém tivesse rasgado um edredom de algodão. Aquilo era, sem dúvida, o chalé de Essay. O lugar onde seu corpo deveria estar.
Onde deveria estar.
“O que isso significa…?” —Yuki entrou no quarto; agora estava muito mais fácil, já que os órgãos que antes bloqueavam o chão haviam desaparecido.
“Será que… alguém entrou aqui antes de nós e limpou tudo?”, sugeriu Airi, seguindo Yuki para dentro.
Era uma explicação plausível. Se o cadáver não tinha se levantado e saído andando sozinho, e se uma brisa travessa não o havia levado embora, então alguém o tinha retirado dali.
Nesse caso, o responsável só poderia ser uma de duas pessoas.
“Maguma ou Hizumi?”
As duas haviam deixado o chalé de Koyomi logo após o fim da reunião matinal. Como as outras cinco jogadoras permaneceram ali por mais algum tempo, uma delas teria que ser a responsável por levar o corpo de Essay. Talvez até tivessem trabalhado juntas.
“Mas por quê? Para dar um enterro digno à Essay?”
Embora enterrar os mortos fosse um costume aceito na sociedade em geral, isso não se aplicava ao mundo dos jogos mortais. Dar um enterro a alguém dentro do local do jogo não agradaria nem ao falecido nem aos organizadores. Quando surgiam cadáveres, o normal era deixá-los onde estavam ou movê-los apenas para que não atrapalhassem; tanto Maguma quanto Hizumi sabiam disso muito bem.
“Isso pode soar rude, mas não acho que nenhuma das duas seja do tipo que faria isso.”
“Concordo. Deve haver outro motivo…” —Airi levou a mão aos lábios, pensativa. “Na verdade, mesmo que assumíssemos que eles são os responsáveis —ainda que trabalhando juntas— não teria havido tempo suficiente. Não se passaram mais de cinco minutos entre o momento em que elas saíram do chalé e o momento em que nós fomos para fora…”
Embora o corpo estivesse mais leve por causa da perda de sangue e mais fácil de carregar por estar esquartejado, ainda devia pesar cerca de cinquenta quilos. Mesmo Maguma teria dificuldade para carregar algo tão pesado.
Quando Yuki e os outros foram buscar comida no chalé de Mitsuba, nem Maguma nem Hizumi estavam na praia. Eles teriam que limpar o local e desaparecer em poucos minutos, enquanto as outras ainda conversavam após a reunião. Seria fisicamente impossível.
Nenhuma das sete jogadoras poderia ter levado o corpo de Essay. Assim, a conclusão lógica era—
“Isso dá ainda mais força à teoria de que existe um culpado externo”, disse Koyomi, tocando a mesa de onde o corpo havia desaparecido. “O assassino solto pelos organizadores limpou tudo durante a nossa reunião… Essa é a única explicação.”
A descoberta do cadáver havia feito a reunião diária se estender bastante. Houvera tempo de sobra para alguém transportar o corpo enquanto o grupo discutia. Assim, fazia mais sentido pensar que o culpado não estava entre as jogadoras.
Mesmo que isso fosse verdade, o motivo pelo qual o corpo fora removido ainda permanecia um mistério. Se também tivesse sido obra do assassino, certamente não fora um ato de respeito.
Será que uma investigação do corpo teria revelado algo que o culpado não queria que fosse descoberto?
(5/15)
Embora o desaparecimento do corpo de Essay tivesse sido um choque, isso não mudou os planos do grupo. As quatro jogadoras começaram a investigar a cena.
A primeira coisa que chamava atenção no quarto era o sangue de Essay. A penugem branca preenchia o chalé da mesma forma que pela manhã, seja porque quem levou o corpo não conseguiu recolhê-la, seja porque não precisou fazê-lo. Como o sangue havia se espalhado e se misturado à penugem, era difícil determinar exatamente quanto havia sido derramado, mas não havia dúvidas de que fora uma quantidade considerável — suficiente para matar Essay.
No entanto, contrariando a cena grotesca, não havia sinais de luta. Nada no quarto havia sido destruído, e não existia um único arranhão nas paredes ou no chão de madeira. Tanto Koyomi quanto Mitsuba haviam afirmado não ter ouvido nada, e provavelmente não havia mesmo muito o que ouvir. O culpado assassinara Essay em silêncio.
O grupo logo concluiu que o assassino havia entrado silenciosamente pela porta, já que não havia danos nas janelas ou nas paredes externas, nem sinais de que algo tivesse sido colocado para bloquear a entrada. Tudo indicava que Essay não montara uma barricada. Talvez tivesse achado inútil, já que a porta ainda poderia ser aberta, ou talvez confiasse demais em sua própria capacidade de enfrentar um intruso. Ou, quem sabe, simplesmente não sentira a necessidade de tomar precauções, pois no dia anterior as regras do jogo ainda estavam pouco claras.
Yuki esperava que Essay tivesse deixado alguma mensagem final, mas não havia nada do tipo. O grupo vasculhou o quarto inteiro, porém não encontrou nenhuma informação — deixada de forma intencional ou não — que pudesse levar à identidade do assassino.
“Bom, isso é tudo o que conseguimos com tanto esforço”, disse Yuki, com um leve tom de sarcasmo.
Ela encarava a geladeira aberta. Ao que parecia, o assassino não havia levado nada dali — ainda restavam provisões suficientes para seis dias.
“…Você está pensando em comer?”, perguntou Airi.
“Não é como se isso fosse uma oferenda aos mortos”, respondeu Yuki. “Não vamos atrair a ira dos deuses se pegarmos alguma coisa.”
Yuki pegou uma garrafa de ramune e a abriu, pressionando a bolinha de vidro. Em seguida, estendeu a bebida para Airi.
“…Obrigada”, disse Airi, aceitando.
Yuki abriu outra garrafa para si e deu um gole. Mesmo em um quarto onde uma tragédia havia ocorrido, a bebida estava refrescante.
Depois de pegar mais duas garrafas, perguntou:
“Vocês duas querem? Estou começando a ficar com fome… que tal fazermos uma pausa para comer?”
Yuki esquentou quatro pacotes de comida no micro-ondas. Como comer na mesa onde o corpo de Essay havia estado não ajudaria em nada o apetite, o grupo foi para fora do chalé. Yuki e Koyomi devoraram a comida como se fosse uma refeição comum; Airi e Mozuku, embora visivelmente tensas, também comeram.
“Que tal organizarmos o que sabemos até agora?”, sugeriu Airi, enquanto comia. “…Embora… não haja muita coisa para analisar.”
“Melhor do que não fazer nada”, disse Yuki, apoiando a ideia.
“Então, vamos começar restringindo o horário da morte. Quando foi a última vez que vocês viram Essay viva?”
Todas deram a mesma resposta: na noite anterior, quando haviam se dispersado e retornado aos próprios chalés.
“E nós a encontramos morta esta manhã… Não houve nenhum barulho que indicasse violência durante a noite, certo?”, Airi perguntou a Koyomi, cujo chalé ficava ao lado do de Essay.
“Não ouvi nada”, respondeu Koyomi. “Ou melhor, eu não estava prestando atenção. Não faço ideia do que aconteceu depois que adormeci. Mesmo sendo vizinhas, ainda há uma certa distância entre os chalés, e eu não perceberia nada enquanto estivesse dormindo.”
“E as luzes do chalé dela? Estavam acesas quando você foi dormir?”
“Não prestei muita atenção, mas acredito que sim.”
“Se assumirmos que o crime ocorreu depois que Essay apagou as luzes e foi dormir, ainda assim isso significa que aconteceu em algum momento entre ontem à noite e esta manhã…”
“E se considerarmos o tempo necessário para esquartejar o corpo, não pode ter sido depois do início da manhã. O intervalo é longo demais.”
Além disso, como não havia relógios na ilha, era impossível determinar com precisão o horário do dia, o que tornava o período exato do crime ainda mais incerto. Era improvável que isso ajudasse a identificar o assassino.
Em casos desse tipo, o normal seria estimar a hora da morte analisando o rigor mortis do corpo, mas o desaparecimento do cadáver de Essay tornava isso impossível. A única forma de restringir o horário do crime seria por meio de depoimentos das jogadoras. No momento, não parecia provável que surgisse algo novo sobre isso.
“Que tal discutirmos o método do assassinato agora?”, sugeriu Airi. “Entre a noite passada e o início da manhã, o culpado se esgueirou para dentro do chalé de Essay. Como as janelas e as paredes externas estão intactas, podemos assumir que ele entrou pela porta da frente. Provavelmente matou Essay de uma só vez; não há sinais de luta. Depois disso, esquartejou o corpo antes de retornar ao próprio chalé.”
“Esquartejou… Isso quer dizer que o culpado tem uma arma?”, perguntou Mozuku, falando pela primeira vez em um bom tempo. “Não consigo imaginar alguém fazendo isso com as próprias mãos…”
“Eu também acho que não”, concordou Yuki. “Os organizadores devem ter fornecido ferramentas ao assassino para facilitar as coisas. No mínimo, ele com certeza possui uma lâmina capaz de cortar carne. E, considerando como eliminou uma jogadora do nível da Essay com tanta facilidade, podemos praticamente confirmar que ele tem mais do que isso.”
Mozuku estremeceu visivelmente.
“Se ele recebeu armas, então revistar os chalés de todas talvez revele alguma coisa…”, sugeriu Airi.
“N-não, mas… —”, por algum motivo, Mozuku demonstrou grande relutância. “Não seria estranho o assassino deixar armas no próprio chalé…? Ele certamente esconderia isso em outro lugar…”
A atitude dela parecia extremamente suspeita. Talvez Mozuku tivesse algo em seu chalé que não quisesse que as outras encontrassem. Ainda assim, Yuki concordava com sua lógica. O culpado não seria tão incompetente a ponto de deixar provas à vista.
“E também não é como se alguém fosse querer convidar as outras casualmente para entrar” disse Koyomi. “Esqueça uma velha como eu, você se sentiria confortável deixando uma adolescente revirar seu quarto?”
Embora tivesse falado em tom de brincadeira, Koyomi levantou um ponto válido. A ideia de o assassino —ou qualquer jogadora — vasculhar cada canto do chalé naturalmente deixaria todas desconfortáveis. Além disso, seria difícil revistar todos os chalés. As duas jogadoras que haviam escolhido agir sozinhas —Maguma e Hizumi— certamente se oporiam.
“…Suponho que sim…”, disse Airi. Embora parecesse querer argumentar, ela mudou de abordagem rapidamente. “Então vamos tentar traçar o perfil do culpado. Por enquanto, temos duas teorias: ou ele é uma de nós, ou é alguém de fora.”
“Eu não consigo acreditar totalmente em nenhuma das duas…”, disse Yuki. “Se for uma jogadora, ela teria que ter levado o corpo de Essay nos poucos minutos após a reunião. Se for alguém de fora, é estranho não termos encontrado essa pessoa ontem.”
“Podemos deixar isso de lado por enquanto. Há algo mais importante”, disse Koyomi. “Primeiro: o culpado possui uma lâmina afiada o suficiente para esquartejar um corpo humano. Segundo: ele conseguiu matar Essay, uma jogadora experiente em seu quinquagésimo jogo, sem que ela resistisse. A pergunta que deveríamos estar fazendo é: como podemos nos proteger de alguém assim?”
O ar ficou pesado de repente. Era uma realidade que nenhuma delas queria encarar de frente.
Mais uma vez, o número de jogos de uma jogadora não reflete necessariamente sua habilidade, mas havia uma correlação. Essay, a jogadora com o maior número de jogos entre elas, havia sido eliminada. Isso significava que, se alguém do grupo de Yuki fosse alvo, não haveria garantia alguma de segurança, mesmo tomando todas as precauções possíveis.
O horário do assassinato. O método. O perfil do culpado. Depois de abordarem todos esses tópicos, com o clima cada vez mais sombrio, o grupo terminou a refeição.
“Ah… Airi?”, chamou Yuki.
“Sim?”
“Posso comentar sobre como o corpo parecia familiar?”
A expressão normalmente sombria de Airi ficou ainda mais carregada.
“Tenho certeza de que eu a matei, mas me pergunto se ela ainda está viva de alguma forma… Aquela psicopata, quero dizer.”
“Bem… eu não acho que ela tenha feito isso sozinha…”, Airi respondeu seriamente. “Mas se existir alguém como ela por aqui, precisamos ter cuidado… Este jogo pode acabar se tornando outra grande tragédia, como Candle Woods.”
“É… você tem razão.”
“Do que vocês duas estão falando?”
“interrompeu Koyomi.” “O que foi isso sobre uma psicopata?”
“Ah, é que…”, respondeu Yuki. “Havia uma jogadora que gostava de esquartejar pessoas em um jogo antigo em que participamos —Candle Woods.”
A menção ao nome do jogo pareceu despertar o interesse da veterana.
“Hmm…”, murmurou Koyomi.
“O nome dela era Kyara. Ela já está morta, então não pode aparecer neste jogo… mas é estranho surgir um corpo que lembra tanto o trabalho dela. O culpado pode ser alguém com uma inclinação parecida.”
“Se não for a própria psicopata, então talvez alguém ligado a ela esteja neste jogo”, continuou Airi. “Lembra? Ela tinha uma pupila… Moegi. Talvez houvesse outras também, e uma delas pode estar entre as jogadoras…”
Moegi. O nome trouxe lembranças à mente de Yuki. Aquela garota era tão marcante quanto a própria Kyara.
Assim como em muitos outros setores, a indústria dos jogos mortais estava repleta de relações entre mentores e pupilos. Como um único erro podia ser fatal, todos entendiam a importância de aprender com alguém mais experiente. Encontrar um mentor o quanto antes era essencial para a sobrevivência a longo prazo. Para um mentor, aceitar um pupilo equivalia a adicionar alguém ao próprio time, aumentando o número de aliados unidos por interesses em comum.
Nada dizia que essas conexões precisavam ser um para um. Kyara muito bem poderia ter tido outros pupilos além de Moegi. Se uma delas estivesse neste jogo, o candidato mais provável seria a distraída—
Yuki balançou a cabeça.
Era cedo demais para tirar conclusões. Kyara não tinha monopólio sobre mutilar cadáveres. Não seria estranho que houvesse outra pessoa com o mesmo gosto, por mais incomum que isso fosse.
Ainda assim, Yuki sentia uma inquietação nervosa. Não era efeito do açúcar do refrigerante —era instinto. Embora seu sexto sentido não fosse tão aguçado quanto o de Koyomi —que havia recusado participar de Candle Woods—, ao longo de sua carreira como jogadora, Yuki desenvolvera a habilidade de perceber presságios sombrios do futuro.
Um jogo cheio de jogadoras de elite.
O quadragésimo quarto jogo de Yuki.
Tenho certeza de que este vai me marcar.
(6/15)
Depois de voltar ao chalé para jogar fora as embalagens vazias e as garrafas de ramune, as quatro jogadoras deixaram o local.
“O que fazemos agora?”, perguntou Yuki. “Continuamos juntas?”
“…Não, vamos encerrar por aqui”, respondeu Airi. “Vocês podem continuar juntas se quiserem, mas eu quero ficar sozinha.”
Yuki achou isso surpreendente. Afinal, fora Airi quem havia convidado todas a investigar a cena.
“Não seria mais seguro agir em grupo?”, questionou Yuki.
“Sim, mas… se fizermos só isso, não vamos sobreviver.”
Embora as palavras não explicassem muito, Yuki entendeu o que elas significavam.
Airi provavelmente queria se armar. Como acreditavam que o culpado tinha acesso a armas, a prioridade imediata de todas as jogadoras era se preparar o máximo possível para enfrentá-lo. Embora não houvesse armas convencionais na ilha, uma jogadora que havia superado a Barreira dos Trinta, como Airi, certamente estava cheia de ideias sobre como se equipar.
Se esse fosse seu objetivo, agir sozinha seria melhor do que permanecer em grupo. Embora não fosse impossível preparar suprimentos em grupo, ela correria o risco de revelar seus planos ao culpado, que poderia estar entre elas. O trabalho conjunto fora apenas temporário; depois da investigação, Airi provavelmente concluíra que seguir sozinha era a melhor opção.
“E-eu também”, disse Mozuku. “Prefiro ficar sozinha…”
Yuki ficou ainda mais surpresa; não esperava ouvir isso de alguém como Mozuku. Somado ao fato de a garota ter se oposto à revista em seu chalé momentos antes, parecia que ela estava tramando alguma coisa.
“…Não dá pra chamar duas pessoas de grupo, né?” —Koyomi olhou para Yuki. “Vamos seguir o exemplo delas e cada uma ir para o seu lado?”
“Parece bom”, respondeu Yuki. “Então vamos encerrar por hoje. Espero que nos vejamos novamente amanhã.”
As quatro se despediram e se separaram.
Yuki observou para onde as outras três foram: Airi seguiu em direção à floresta, como as jogadoras haviam feito no dia anterior, enquanto Koyomi e Mozuku caminharam pela praia em direções opostas, cada uma rumo ao próprio chalé.
Depois de vê-las se dispersarem, Yuki também partiu. Primeiro, seguiu pela praia —mas não em direção ao seu chalé. Em vez disso, pretendia explorar o perímetro da ilha. No dia anterior, durante a busca, ela só havia visto a praia e a floresta —o interior da ilha—, então decidiu examinar a orla. Seu plano era começar pelas águas rasas antes de avançar um pouco mais no oceano. Embora sua prioridade fosse se preparar para um confronto com o culpado, explorar a área do jogo era igualmente importante, pois poderia revelar mais regras ou itens deixados pelos organizadores.
Assim, Yuki entrou lentamente nas águas rasas da praia.
Imediatamente, encontrou outra jogadora.
“Ah, Yuki. Olá."
Era Mitsuba. A garota estava novamente no oceano, boiando sobre uma boia.
Yuki parou a uma boa distância dela, garantindo que poderia fugir rapidamente caso Mitsuba fosse a assassina.
“…Brincar ontem não foi o bastante para você?”, perguntou Yuki.
“Nem de longe”, respondeu Mitsuba. “Olha esse mar. Não é lindo? Um dia só não chega nem perto de matar a vontade. É como aquele ditado sobre não se enjoar de uma mulher bonita em três dias.”
“Não é o contrário? Que você se enjoa em três dias…?”
“É assim mesmo? Enfim, quero aproveitar enquanto posso —não dá pra nadar se eu estiver ferida ou morta. Isso seria literalmente jogar sal na ferida.”
Aquele deveria ser o trigésimo jogo de Mitsuba, um marco conhecido como a Barreira dos Trinta. Ainda assim, ela não demonstrava o menor sinal de inquietação.
“Então os vencedores da vida são os que se divertem, é isso?”, murmurou Yuki. Ela esperava que a garota concordasse, mas—
“Não gosto dessa frase”, respondeu Mitsuba.
“Sério?”
“Sim. Não é meio deprimente? Essa ideia de vencedores e perdedores. Nem fica claro se isso é algo bom ou ruim.”
É uma forma de ver as coisas, pensou Yuki.
A conversa caiu em silêncio.
“…Hm…”, sentindo o clima estranho, Yuki procurou outro assunto. “Ah, você descobriu algo novo sobre o jogo?”
“Nada. Nenhuma pista. Nem um pedaço de lixo. Tentei ir mais longe no oceano, mas ainda não dá pra ver terra.” —Mitsuba bateu as pernas na água, fazendo a boia girar. “Acho que você está certa, Yuki. Sobre isso ser um jogo de sobrevivência com uma jogadora no papel de assassina. Sua teoria encaixa tudo.”
Ela diminuiu o giro até parar de frente para Yuki.
“Você acabou de voltar da investigação, né? Descobriram alguma coisa?”
Yuki não viu problema em contar.
“Na verdade, o contrário. Perdemos algo.”
“Como assim…?”
“O corpo da Essay sumiu.”
“…Ah?”
“O sangue espalhado ainda estava lá. É como se o corpo tivesse evaporado. O culpado provavelmente o levou.”
“Isso é uma pista importante”, disse Mitsuba, pensativa. “Então isso quer dizer que Maguma ou Hizumi são as culpadas, certo? O resto de nós tem álibi.”
“Não necessariamente. Se assumirmos que uma delas fez isso, não teria havido tempo para carregar o corpo. Foram só alguns minutos entre a saída delas e a nossa. Nesse sentido, eles também têm álibi.”
“Ah… justo.”
“Então consideramos a possibilidade de um assassino externo. Mas essa teoria também tem falhas… Enfim, não encontramos nada conclusivo.”
Mitsuba voltou a chutar a água, girando outra vez.
“E você, pessoalmente? Quem acha que é o mais provável culpado? Não precisa ter certeza —só quero saber o que você pensa.”
Yuki organizou os pensamentos.
“Eu diria Hizumi ou Mozuku.”
“Oh? Por quê?”
“Hizumi é… difícil de ler. Se ela for a culpada, faz sentido que tenha mantido uma expressão neutra na reunião.”
Yuki decidiu não mencionar o verdadeiro motivo de suspeitar de Hizumi —ela lembrava a psicopata do passado.
“Quanto à Mozuku… não sei, parece que ela esconde algo. Este deveria ser o décimo jogo dela. Talvez esteja só nervosa, talvez tenha um objetivo oculto. Mas não há provas contra ela.”
“É, consigo ver isso.”
“E você, Mitsuba? Algum palpite?”
“Eu? Bem…”, Mitsuba pensou um pouco. “Também acho a Mozuku bem suspeita. Está até no nome dela.”
“Como assim?”
“O jogo se chama Cloudy Beach, né? E o nome dela usa os ideogramas de oceano e nuvem. Tem que ter um significado mais profundo aí.”
“…Parece coincidência” —Yuki estreitou os olhos. “Além disso, esse é o nome dela desde antes do jogo. E mesmo que os caracteres coincidam, juntos eles formam outra coisa: um tipo de alga marinha.”
“É mesmo!”, Mitsuba caiu na gargalhada.
Que despreocupada…, pensou Yuki.
“Mas ninguém aqui é totalmente confiável”, continuou Mitsuba. “Sempre existe a chance de alguém que não seja a assassina aproveitar a confusão para me matar.”
“Hã…? Por quê?”, perguntou Yuki, pega de surpresa.
Mitsuba pareceu confusa, como se não entendesse a dúvida. Pouco depois, lançou um sorriso inquieto.
“Você é pura demais, Yuki. Não acredito que ainda seja tão pura no seu quadragésimo quarto jogo.”
“Do que você está falando?”
“O mundo é feito de ressentir e ser ressentido. Isso é ainda mais forte nessa indústria. Onde quer que eu vá, pode haver alguém que jurou me matar na primeira oportunidade por algo que aconteceu em um jogo passado.”
“Tem alguém específico em mente?”
“O quê, você acha que eu não teria?”
De jeito nenhum.
Mitsuba era o tipo de garota que seguia apenas o próprio ritmo e não tinha um único osso cooperativo no corpo. Com certeza acumulava inimigos.
“Você não é exceção, Yuki”, disse Mitsuba. “Na verdade, até eu tenho sentimentos fortes em relação a você.”
“…?”, Yuki ficou ainda mais confusa. “Este não é nosso primeiro jogo juntas? Já nos encontramos antes?”
“Não diretamente”, respondeu Mitsuba, de forma parecida com o que Koyomi dissera no dia anterior. “Mas eu sei quem você é, Yuki. Já sei há muito tempo.”
Mitsuba saiu da boia. A água do mar chegava à canela, assim como acontecia com Yuki.
“Vou te contar um segredinho”, disse ela, chamando Yuki para perto. “Chega mais, vou sussurrar.”
Yuki hesitou. A possibilidade de Mitsuba ser a assassina passou por sua mente. Estar sozinha com ela na praia era perigoso.
Ainda assim, a curiosidade venceu. O que Mitsuba quisera dizer com “sentimentos fortes”? Como ela conhecia Yuki há tanto tempo? O tom de voz dela sugeria algo além de simples rumores.
À primeira vista, Mitsuba não parecia esconder uma arma capaz de esquartejar alguém. Também não parecia hostil. Tudo isso se combinou na mente de Yuki, levando-a a concluir que se aproximar seria seguro.
Então, Yuki deu alguns passos à frente e se inclinou.
Mas…
…aquilo foi um erro de julgamento, pois as próximas palavras de Mitsuba fizeram a mente de Yuki ficar em branco.
“Eu era a pupila da Mishiro.”
(7/15)
Mishiro.
O nome de uma jogadora que tinha uma forte relação de antagonismo com Yuki. As duas haviam se conhecido pela primeira vez no décimo jogo de Yuki, Construção com Sucata, e se reencontraram em seu inesquecível trigésimo jogo, Banho Dourado. Mishiro havia se colocado diante de Yuki como a personificação da Muralha dos Trinta, a provação aterradora que afligia as jogadoras como uma maldição.
Yuki sabia que Mishiro havia treinado ao menos uma pupila. Na verdade, Yuki já a tinha conhecido — e enfrentado —, uma jogadora chamada Riko. Mishiro devia tê-la instruído a matar Yuki, pois no instante em que Riko ouviu o nome dela, lançou-lhe um olhar de ódio e partiu para o ataque.
No fim das contas, porém, Mishiro havia tomado outra garota sob sua tutela.
E foi essa outra pupila que puxou o tapete debaixo dos pés de Yuki.
(8/15)
Yuki não conseguiu reagir; seus pés perderam contato com o chão e seu equilíbrio se desfez. Somente depois de o rosto triunfante de Mitsuba — como se dissesse te peguei! — e o céu azul entrarem em seu campo de visão é que Yuki finalmente percebeu o que havia acontecido. Mas, sem qualquer forma de se conter, ela caiu na água com um grande respingo.
Então, um peso pressionou seu corpo de cima.
As bolhas que escapavam de sua boca impediram Yuki de identificar quem era a responsável, mas a resposta era óbvia: Mitsuba. Ela estava prendendo Yuki no fundo. Embora a água chegasse apenas até as canelas, Yuki se afogaria se fosse mantida submersa naquela posição, de costas. Yuki fechou a boca à força e apertou o nariz para não desperdiçar seu limitado suprimento de ar, então tentou se erguer usando os músculos do abdômen.
“Deve ter sido há cerca de um ano.” Mitsuba começou a falar casualmente enquanto Yuki se debatia sob ela. “Eu conheci a Mishiro mais ou menos quando entrei nesses jogos. Aparentemente, ela estava procurando jogadoras que pudesse transformar em suas pupilas… ou melhor, em seus capachos. Garotas submissas, vazias por dentro, que obedeceriam a qualquer ordem dela. Eu não me chamaria de submissa, mas sou vazia por dentro. Foi isso que chamou a atenção da Mishiro.”
Por fim, Yuki conseguiu colocar a cabeça para fora d’água, mas Mitsuba pressionou seu rosto para baixo, submergindo-a mais uma vez.
“Eu queria uma mentora que me ajudasse a sobreviver por muito tempo, então virei pupila dela. E, nossa, foi horrível. Era Yuki isso, Yuki aquilo, o tempo todo. Nunca conheci alguém tão rancorosa. Ela é o tipo de pessoa que guardaria ódio da professora do primário de quem menos gostava pelo resto da vida. ‘Se algo acontecer comigo, esmague a Yuki em meu lugar’ — foi isso que ela ordenou a mim e às outras pupilas.”
Yuki tentou arrancar Mitsuba de cima dela, mas a garota bloqueou seus esforços com habilidade.
“Não se preocupe; eu não vou te matar. Afinal, eu deixei de ser pupila dela. E também não sou empática o suficiente para agir movida pelo rancor de outra pessoa. Tenho inveja de como as outras garotas conseguiam dedicar suas vidas com tanta paixão a alguém. Eu não conseguiria fazer isso nem se quisesse.”
De fato, Mitsuba provavelmente não tinha intenção de matar Yuki. Afinal, ela não emanava qualquer malícia. Mas, independentemente de suas intenções, qualquer ser humano morreria se permanecesse submerso na água por muito tempo sem ar.
“Aposto que você está se perguntando por que estou fazendo isso. Bem, eu só tive vontade. Fiquei curiosa para saber que tipo de pessoa conseguia deixar a Mishiro tão obcecada, mas, pelo que estou vendo, ela se iludiu ao criar uma imagem exagerada de você.”
No fim, Yuki não conseguiu se livrar de Mitsuba. Em vez disso, foi Mitsuba quem se levantou. Com a liberdade recém-conquistada, Yuki ergueu a cabeça acima da água e viu Mitsuba pegar sua boia.
“Adeus, Yuki”, disse Mitsuba antes de se afastar rapidamente.
Yuki permaneceu ali, na praia. Recuperando o fôlego, murmurou: “…Que espírito livre…”
(9/15)
Agora que Mitsuba havia ido embora, Yuki estava livre para explorar a praia com tranquilidade. Ela caminhou pelas águas rasas, tentou avançar mais para dentro do oceano, deu uma volta completa pela ilha e até nadou um pouco.
No entanto, não encontrou nada digno de nota. Tentou nadar até uma distância confortável da costa, mas não apenas não alcançou terra firme, como sequer conseguiu avistar qualquer terra para usar como referência. Pelo segundo dia consecutivo, sua busca não deu em nada. Talvez não houvesse nada a ser encontrado desde o início, e sua teoria de que a única regra do jogo era sobreviver estivesse correta.
Enquanto Yuki continuava andando em círculos, o sol começou a se pôr. Justo quando estava prestes a encerrar o dia, ela percebeu algo extremamente importante: todas as jogadoras haviam passado a noite anterior em suas cabanas, mas não havia regra alguma que as obrigasse a fazer o mesmo naquela noite. Nada as impedia de passar a noite ao ar livre e, de fato, elas não tinham sequer a obrigação de dormir. Com o assassino de Essay à solta na ilha, dormir em uma cabana sem tranca era muito mais perigoso do que adormecer diante de um espelho. Aquilo não era um jogo de lobisomem; não havia necessidade de permanecer em um local fixo esperando que o lobo atacasse.
Na prática, porém, decidir onde dormir não era algo tão simples. Dormir ao ar livre também não garantia segurança e, mais importante, Yuki não havia feito qualquer preparação para isso. A praia estava longe de ser um paraíso de verão eterno, já que o ar ficava frio após o pôr do sol. O ambiente não era tão indulgente a ponto de uma jogadora conseguir um sono tranquilo apenas levando um colchão e um cobertor. E, embora virar a noite inteira para estar pronta para reagir a um ataque do assassino fosse uma estratégia viável, chegar aos momentos críticos do jogo em um estado subótimo, privado de sono, era tão arriscado quanto dormir dentro de uma cabana.
Então — qual seria o melhor curso de ação?
(10/15)
A noite caiu.
Mitsuba estava em sua cabana, olhando para o nada.
(11/15)
Ela estava completamente acordada, já que havia tirado um cochilo prolongado depois de voltar da praia. Embora estivesse deitada na cama, coberta por um cobertor, seus olhos permaneciam bem abertos, e as luzes da cabana estavam acesas. Incapaz de decidir se estava tentando dormir ou não, ela continuava encarando o vazio enquanto os segundos passavam.
Enquanto permanecia ali, totalmente consciente, sua mente vagava naturalmente por assuntos diversos — como o quanto já estava cansada de beber ramune e as missões diárias do jogo de celular que vinha jogando ultimamente. Mas esses pensamentos triviais empalideciam diante daqueles relacionados à garota fantasmagórica com quem havia lutado mais cedo naquele dia.
Então aquela é a Yuki, pensou. Ela já estava cansada de ouvir esse nome desde a época em que fora pupila de Mishiro. Segundo Mishiro, Yuki era uma jogadora verdadeiramente divina. Depois de conhecê-la em carne e osso, porém, Mitsuba concluiu que Mishiro sofria de delírios. Mitsuba acreditava que poderia ter matado Yuki facilmente, se assim quisesse. Yuki não era nem uma deusa nem um fantasma — apenas uma humana completamente comum.
Mitsuba considerava sua mentora tola por ter se obsessado com alguém tão banal. Essa opinião também se estendia às outras pupilas de Mishiro, como Riko, cujas mentes haviam sido completamente dominadas pelos motivos sem sentido da mentora.
“…………”
Mas elas não eram tão tolas quanto eu, pensou.
Mishiro, as outras pupilas — todas tinham vida nos olhos. Todas eram movidas por algo. Não eram frívolas como Mitsuba. A felicidade humana se resumia ao quanto alguém conseguia enganar o próprio cérebro.
A tolice não era algo digno de pena — era muito melhor ser tolo do que sequer ter capacidade para isso.
As pessoas frequentemente chamavam Mitsuba de “espírito livre”.
Ela também acreditava que isso fosse verdade. Nada no mundo conseguia prendê-la. Embora não fosse incapaz de achar coisas divertidas, ela sempre esquecia essas memórias no dia seguinte. Não havia nada que considerasse realmente envolvente. Nada capturava seu espírito, nada a fazia se sentir viva. No fim, nem mesmo sua mentora — alguém que sentia grande prazer em controlar os outros — conseguiu exercer influência sobre Mitsuba. Ela era irremediavelmente vazia.
Aparentemente, era justamente essa característica que a tornava adequada para esses jogos. Mesmo quando todas as outras pupilas haviam morrido, mesmo quando sua mentora pereceu, Mitsuba continuou viva. Aceitando participar de novos jogos sempre que sua agente a convidava, ela chegou ao trigésimo — a Muralha dos Trinta. Talvez este fosse o jogo que finalmente daria um fim a Mitsuba. Talvez, enfim, lhe oferecesse algo do qual ela não pudesse escapar.
Do fundo do coração, Mitsuba desejava que isso fosse verdade.
Foi por isso que, quando a porta de sua cabana se abriu, ela não sentiu nem um pingo de pânico.
(12/15)
A intrusa entrou descaradamente pela porta da frente. Seu rosto estava oculto, envolto por finas tiras de tecido cortadas de um traje semelhante a um jaleco — a roupa que Essay usava. A cobertura não se limitava ao rosto; estava enrolada por todo o corpo, fazendo-a parecer uma múmia. Ainda assim, era quase certo que havia uma garota por baixo daquelas camadas de pano.
Havia uma prova definitiva de que a múmia pretendia ferir Mitsuba: ela segurava uma lâmina de tamanho médio na mão direita. Era maior que uma faca, mas pequena demais para ser considerada uma espada. O termo mais apropriado provavelmente seria facão.
Não havia dúvidas. Aquela pessoa só podia ser a culpada.
“Boa noite”, cumprimentou Mitsuba, sentando-se na cama.
A estratégia ideal de sobrevivência provavelmente seria gritar o mais alto possível para avisar as outras jogadoras da presença da culpada. No entanto, isso seria um pouco vergonhoso demais, e ela não tinha como saber se alguém ouviria seus gritos. Além disso, Mitsuba era provavelmente a única jogadora que havia ignorado os perigos e permanecido em sua cabana mesmo sabendo que o assassino estava à solta.
E assim, ela não gritou. Tinha um plano para vencer sem precisar pedir ajuda.
“Vamos fazer isso?”, disse Mitsuba, saltando da cama com o impulso das molas do colchão.
Agarrada ao cobertor, ela caminhou diretamente em direção à culpada. A múmia não pareceu nem um pouco intimidada, mas também não demonstrou vontade de aceitar um confronto direto. Sua mão livre — a esquerda, também envolta em pedaços do traje — moveu-se sutilmente.
Mitsuba sabia exatamente o que ela pretendia fazer.
E, por causa disso — nada aconteceu.
“……?!”
Mitsuba não conseguia ver a expressão da múmia, mas ela parecia abalada. Mitsuba continuou avançando, exatamente como vinha fazendo nos segundos anteriores. A múmia estava completamente atônita, como se estivesse testemunhando algo impossível.
A agitação mental da inimiga não passou despercebida por Mitsuba.
No exato momento em que a múmia reagiu com surpresa — do ponto de vista de Mitsuba, antes mesmo de a mão esquerda da outra se mover — Mitsuba disparou em corrida. Ela jogou o cobertor para longe, expondo braços e pernas. Com a passada mais larga que conseguiu, fechou a distância entre as duas em apenas três passos. No último, pisou com força no chão, girou o corpo horizontalmente no ar e canalizou todo o impulso para as pernas.
Era um chute voador.
Ela acertou o alvo no peito. A múmia cambaleou para trás, com o fôlego momentaneamente roubado. Em seguida, Mitsuba desferiu um chute alto no rosto da inimiga, arremessando-a para fora da cabana, nas águas rasas que chegavam até os tornozelos.
Mitsuba não deu trégua. Depois de sair da cabana, pegou rapidamente o facão que a múmia havia deixado cair. Sua oponente ainda não havia se recuperado do chute no rosto. Com movimentos leves, Mitsuba se aproximou da múmia —
— e cravou a lâmina em seu peito sem hesitar por um instante sequer.
Não houve qualquer resistência. O facão atravessou o peito da múmia com tanta facilidade que parecia cortar o ar.
Mitsuba soltou a arma. A lâmina havia se enterrado tão profundamente no corpo da múmia que atravessava até as costas, permanecendo no lugar mesmo depois que ela largou o cabo. A imagem de hashis fincados em uma tigela de arroz lhe veio à mente, e ela esboçou um sorriso autodepreciativo ao perceber o quão inadequada era aquela comparação.
“— Você não vai conseguir o que quer”, disse Mitsuba à múmia, sabendo que suas palavras cairiam em ouvidos mortos. “Eu removi aquilo durante o dia. Não sou obediente a ponto de me deixar prender por aquele aparato malfeito.”
Mitsuba olhou para dentro da cabana. Mais precisamente, seu olhar se voltou para o coador triangular da pia da cozinha. Claro, ela não conseguia vê-lo dali de fora, mas em sua mente estava a imagem do que havia sido jogado ali dentro —
doze objetos ao todo, que haviam forçado Mitsuba a passar por uma experiência dolorosa.
Ela os havia notado apenas algumas horas antes. Ao despertar de seu cochilo, os descobrira enquanto encarava o próprio corpo, vazia. Foi naquele momento que Mitsuba compreendeu por que o corpo de Essay havia sido tão brutalmente mutilado: aquilo fora feito para ocultar a existência daqueles objetos. Eles representavam a maior vantagem da culpada contra suas vítimas, constituindo uma foice da morte da qual nem mesmo a veterana de cinquenta jogos, Essay, conseguira escapar.
Mas Mitsuba os havia percebido. E, por ter percebido — aquele era o resultado.
“Agora…” Mitsuba girou o dedo ao redor do rosto da múmia. “Vamos ver quem você realmente é. Hora de dar uma boa olhada nesse seu rosto.”
Mitsuba arrancou as finas tiras de tecido, semelhantes a bandagens. Embora não esperasse ter muito trabalho, levou um bom tempo para remover as inúmeras camadas de pano. Após muita frustração, as bandagens finalmente chegaram ao fim —
“…Hã?”
O rosto de Mitsuba congelou ao ver o que havia por baixo.
No instante seguinte, uma força atingiu sua cabeça — poderosa o suficiente para fazê-la perder a consciência.
(13/15)
A aurora rompeu.
Yuki saiu de sua cabana, viva.
(14/15)
Depois de considerar todas as opções, Yuki decidiu não dormir. Embora tivesse a habilidade de entrar em um sono leve, ela se convenceu de que dormir era perigoso; afinal, Essay havia sido assassinada apesar de presumivelmente possuir a mesma habilidade. Assim, Yuki aguardou dentro de sua cabana, completamente desperta, preparando-se para contra-atacar caso o culpado surgisse. Ela concluiu que aquela era a escolha mais segura.
Felizmente, a manhã chegou sem incidentes. E, como havia permanecido acordada, Yuki não precisou ser despertada por Airi batendo à sua porta, como acontecera nos dois dias anteriores. Assim que o sol nasceu, Yuki foi até a cabana de Koyomi. Com consideração, bateu na porta com força suficiente para ser ouvida por alguém acordado, mas suave o bastante para não despertar quem estivesse dormindo.
“Estou acordada”, veio uma voz de dentro. “Pode entrar.”
Após receber a permissão, Yuki entrou no recinto.
A cabana estava às escuras. A única luz vinha da porta que Yuki acabara de abrir e das janelas, mal grandes o suficiente para uma pessoa passar. Koyomi estava de pé, próxima a uma das janelas.
“Oh?”, disse ela ao ver Yuki. “Estou surpresa em ver você aqui primeiro.”
Koyomi fitou Yuki de maneira inquisitiva.
“…Aha. Você não dormiu, dormiu?” Ela deduziu imediatamente o motivo de Yuki ter chegado antes de todas.
“Nem um pouco.”
“Se você estiver certa sobre este jogo, ainda restam cinco dias. Você vai aguentar?”
“Dou um jeito… E você, Koyomi? Dormiu na sua cabana?” Yuki lançou um olhar para a cama, que mostrava sinais claros de ter sido usada.
“Dormí sim. Não seria fácil para uma velha como eu dormir ao relento ou passar a noite em claro. Ironicamente, sou bastante confiante na minha capacidade de dormir de forma leve. Não preciso tomar cuidados especiais. Eu acordo na hora se alguém se aproximar da minha cabana.”
“…Quantos anos você tem?”
“Vinte e oito. Isso me torna uma avó nessa indústria, não é?”
Embora a idade de Koyomi combinasse com sua aparência, ela passava a impressão de ser muito mais velha.
“…Não sei”, respondeu Yuki. Como fizera nos dois dias anteriores, ela fez menção de se sentar à mesa.
“Pare aí mesmo”, disse Koyomi, interrompendo Yuki. “Não chegue mais perto. Espere exatamente onde está até a próxima jogadora chegar.”
“Hã? …Ah, certo.”
Yuki e Koyomi eram as únicas duas na sala, o que daria ao culpado a oportunidade perfeita para agir. Era natural manter a guarda alta, então Yuki aguardou obedientemente junto à entrada.
Cerca de meia hora depois — ao menos segundo o relógio interno de Yuki — uma segunda jogadora, Airi, chegou. Ao entrar na sala e ver Yuki, sua expressão mudou para puro espanto.
Com ceticismo estampado no rosto, Airi disse: “Bom dia.”
Intrigada com o significado daquela expressão, Yuki respondeu: “Bom dia.”
Logo depois, uma terceira jogadora apareceu — Maguma. Hizumi veio em seguida. E, por fim, Mozuku entrou, com o cansaço evidente no rosto. Presumivelmente, Mozuku teria chegado mais cedo se tivesse passado a noite inteira acordada; sua exaustão provavelmente se devia a ter tentado ficar desperta, mas acabado cochilando no meio da noite, dormindo apenas um período intermediário antes do amanhecer.
Cinco jogadoras haviam entrado na cabana. Com Koyomi, isso totalizava seis.
Não haveria uma sétima jogadora chegando.
(15/15)

(0/22)
Pouco antes do início de Cloudy Beach…
Um quarto escuro — as cortinas estavam fechadas e as luzes apagadas. O único brilho vinha de um único monitor de computador, diante do qual uma garota estava sentada, encarando fixamente a tela.
Um vídeo era reproduzido no monitor, retratando cenas saídas diretamente do inferno.
Pessoas morriam uma após a outra; era um filme snuff.
As imagens eram de Candle Woods, um jogo lendário da indústria na qual a garota ganhava a vida. Ela havia conseguido recentemente colocar as mãos naquele vídeo, o que lhe permitia, apesar de ser uma jogadora, observar o jogo como espectadora.
O jogo continuava a se desenrolar, aproximando-se de seus estágios finais.
“— E não tem como eu perder para uma fracote como você!!”
Esse grito poderoso veio de uma garota vestindo um traje de coelhinha e que possuía a aura de um fantasma. Seu nome de jogadora era Yuki. Ela era pupila da poderosa jogadora Hakushi e havia herdado de sua mentora o objetivo de completar noventa e nove jogos consecutivos. Naquela cena, ela estava enfrentando Kyara, a maníaca homicida que havia saído em fúria em Candle Woods.
À medida que as imagens passavam pelo monitor, o rosto da garota que assistia se contorceu em uma careta.
É ela. Ela é minha oponente destinada—
(1/22)
Mitsuba jazia esquartejada em sua cabana.
(2/22)
Em grande parte, ela havia tido o mesmo destino de Essay. Seus membros haviam sido arrancados, o tronco repousava sobre a mesa, e suas vísceras estavam espalhadas pelo cômodo. Era o tipo de cadáver que uma pessoa comum jamais encontraria em toda a vida — ainda assim, Yuki já tinha visto corpos como aquele várias vezes antes.
O corpo pertencia à garota que quase havia afogado Yuki no dia anterior.
No entanto, Yuki não sentiu schadenfreude ao saber da morte da garota; na verdade, sentiu compaixão. Não era uma visão agradável para Yuki ver uma jogadora com quem tinha ao menos alguma familiaridade encontrar um destino tão grotesco. Ela tomou cuidado para não deixar suas emoções transparecerem no rosto.
Yuki não era a única alma viva no cômodo; todas as seis jogadoras sobreviventes haviam se reunido na cabana de Mitsuba. Eles haviam esperado e esperado, mas a garota não aparecera para a reunião matinal, então decidiram ir até ela, assim como haviam feito com Essay um dia antes.
Quando chegaram à cabana, o resultado não foi diferente do dia anterior.
“Diante desse novo desenvolvimento”, disse Koyomi. “Vamos ter outra longa discussão hoje.”
Koyomi fez menção de sair da cabana. Provavelmente pretendia voltar para a sua própria, como o grupo fizera no outro dia.
“Espere um segundo”, disse Yuki para detê-la. “Vamos realizar a reunião aqui.”
“— O quê?” — Koyomi encarou Yuki por um momento antes de lançar um olhar para o corpo de Mitsuba sobre a mesa. “Na frente de um cadáver?”
“Sim. Não queremos correr o risco de o corpo desaparecer de novo.”
A observação de Yuki provocou uma expressão de confusão em uma das jogadoras: Maguma. Ao que parecia, ela não sabia do desaparecimento de Essay, já que passara o dia anterior sozinha.
“O corpo da Essay sumiu”, explicou Yuki. “Fomos verificar a cabana dela depois da reunião de ontem, mas ela já havia desaparecido naquela altura.”
“Hã… então não foram vocês que limparam tudo?” A pergunta de Maguma implicava que ela também havia visitado o local em algum momento do dia anterior.
“De fato, talvez seja melhor vigiar o corpo hoje”, disse Koyomi. “Todas de acordo?”
Koyomi olhou ao redor do cômodo, mas como ninguém expressou objeções, o grupo acabou realizando a reunião na cabana de Mitsuba.
Primeiro, as jogadoras limparam o local. Recolheram as partes separadas de Mitsuba e as colocaram em seus devidos lugares em um canto do cômodo. Depois de cobrir o corpo da garota com um cobertor, várias jogadoras juntaram as mãos como se estivessem rezando. Em seguida, o grupo limpou a maior parte do sangue transformado em uma penugem branca, antes de se sentar ao redor da mesa onde o tronco de Mitsuba estivera momentos antes.
Maguma sentou-se diretamente em frente a Yuki. Ela vestia o mesmo maiô do dia anterior, mas agora uma porção maior de sua pele estava coberta. Havia panos enrolados em seus braços e pernas, além de outras partes do corpo.
“Maguma, o que aconteceu?”, perguntou Yuki.
“Hã?” — Maguma olhou para o pano enrolado logo abaixo do cotovelo esquerdo. “É um dos vestidos da Essay. Peguei um sobressalente da cabana dela ontem.”
“Não, isso eu já tinha percebido… Por que você se enrolou com ele?”
“Me machuquei um pouco ontem, então me enfaixei.”
Yuki arqueou uma sobrancelha.
Machucada? Aquele corpo sólido como uma rocha? Quando? Onde? Yuki queria lançar essas perguntas contra Maguma, mas antes que pudesse—
“Vamos direto ao ponto”, declarou Koyomi, forçando Yuki a recuar. “Primeiro, cada um vai relatar o que fez ontem.”
Koyomi olhou para as outras jogadoras antes de pousar o olhar em Airi.
“Se não se importar, poderia começar? E contar àquelas duas o que descobrimos ontem.”
Koyomi gesticulou em direção às “duas” a quem se referia — Maguma e Hizumi.
“Certo. Vamos ver…”
Airi compartilhou os acontecimentos do dia anterior. Após a reunião da manhã, o grupo dela ficara na cabana de Koyomi conversando. Depois, foram buscar comida no quarto de Mitsuba antes de seguirem para a cabana de Essay.
Quando chegaram lá, descobriram que o corpo de Essay havia desaparecido sem deixar vestígios.
As cinco jogadoras que estiveram juntas — Yuki, Airi, Koyomi, Mozuku e Mitsuba — todas tinham álibis. Isso significava que as únicas pessoas capazes de esconder o corpo eram—
“— Vocês duas”, disse Koyomi.
Maguma e Hizumi. Todas as outras encararam as duas jogadoras que haviam deixado a cabana de Koyomi imediatamente no dia anterior.
“Não olhem pra mim”, respondeu Maguma.
Hizumi não disse nada, mas balançou a cabeça.
“É mesmo?”, replicou Koyomi. “Isso significaria que o culpado não é nenhuma de nós.”
Yuki voltou a olhar para Maguma, examinando novamente os panos enrolados por todo o corpo da mulher.
“Maguma, onde você se feriu?”, perguntou Yuki.
“Hã?”
“Você disse que se machucou ontem. Pode nos dizer quando e onde isso aconteceu?”
“Não vejo por que isso importa.”
“Como a Koyomi disse, você e a Hizumi são as únicas que tinham capacidade física para esconder o corpo da Essay. Vocês duas também foram as que disseram preferir agir sozinhas. E hoje aparece machucada. É quase como se tivesse se ferido lutando com alguém.”
“Tá me acusando de ser a culpada?”
Não parecia que Maguma estava sendo intencionalmente ameaçadora, mas Yuki ainda assim recuou diante de sua aura intimidadora.
“Poupe-me dessa besteira”, continuou Maguma. “Se eu fosse a culpada, não precisaria ser sorrateira nem atacar à noite. Eu simplesmente mataria quantas jogadoras fosse preciso aqui e agora.”
“É possível que tenham sido impostas condições ao culpado das quais não estamos cientes. Talvez ele só possa matar no máximo uma jogadora por noite, ou precise manter sua identidade escondida das outras. Se levarmos isso em consideração, há muitos motivos para suspeitar de você, Maguma.”
“…………”
“Pode nos dizer o que aconteceu?”
O confronto silencioso entre Yuki e Maguma durou alguns segundos.
Maguma foi a primeira a desviar o olhar.
“Eu me cortei em galhos de árvore, só isso”, admitiu. “Passei o dia inteiro de ontem andando pela floresta. Quando percebi, estava toda arranhada. Não tem nada de estranho em conseguir alguns cortes e arranhões andando de maiô, certo?”
Ela tinha razão. Isso era ainda mais verdade para uma jogadora de porte tão grande quanto ela.
“Eu só não quis admitir, tá bom? Porque é vergonhoso se machucar com algo que não é uma armadilha. Quer ver os arranhões?”
“…Não, tudo bem. Obrigada por responder”, disse Yuki.
“Não foi nada”, respondeu Maguma.
“Vamos continuar”, disse Koyomi, voltando-se para Airi. “Continue. Investigamos a cabana… e depois o que aconteceu?”
(3/22)
Depois disso, a reunião prosseguiu sem maiores problemas. Cada jogadora compartilhou o que havia feito no dia anterior.
Primeiro foi Airi. Após investigar a cabana de Essay, ela entrou na floresta ao redor da praia. Enquanto pensava em ideias de armas que poderia usar contra o culpado, procurou um local que parecesse adequado para dormir ao ar livre. Ela não explicou exatamente que tipo de armas havia preparado nem onde dormira, mas revelou ao grupo que não passara a noite em sua cabana.
Yuki foi a próxima. Após investigar a cabana de Essay, ela explorou a praia. Embora tivesse avançado bastante mar adentro, não aprendera nada particularmente útil. Ela também mencionou ter encontrado Mitsuba e conversado com ela, mas omitiu o fato de quase ter sido morta pela garota, tanto para evitar mal-entendidos indesejados quanto por frustração consigo mesma.
Em seguida vieram Koyomi e Mozuku. Ambas aparentemente passaram o resto do dia em seus respectivos quartos após investigar a cabana de Essay. Tirando Koyomi, Yuki estava bastante curiosa sobre o que Mozuku fizera, já que a garota demonstrara aversão a ter sua cabana investigada. Ainda assim, como o clima não parecia propício para um interrogatório, Yuki conteve o impulso de perguntar.
Então foi a vez de Maguma. Assim como Airi, ela admitiu ter passado a noite ao ar livre. Estivera andando pela floresta à procura de um lugar para dormir, o que explicava os arranhões. Em comparação com as quatro jogadoras anteriores, ela revelou pouca informação. Era improvável que tivesse passado o dia inteiro apenas se preparando para dormir fora, então Yuki imaginou que ela devia ter estado envolvida em outra coisa — e Yuki suspeitava que esse “algo mais” fosse a verdadeira razão dos ferimentos da mulher.
Por fim, chegou a vez da última jogadora falar — Hizumi.
“Eu não estava fazendo nada”, foi tudo o que ela disse.
“…Devemos entender com isso que você ficou na sua cabana o dia inteiro?”, perguntou Koyomi.
Hizumi assentiu.
A declaração da garota era extremamente suspeita, mas como pressioná-la por detalhes também pareceria estranho, Yuki deixou passar.
Não havia informações sobre regras mais detalhadas do jogo, nem pistas que ajudassem a identificar o culpado. Ninguém havia descoberto nada, ou alguém estava escondendo o que sabia? De qualquer forma, a reunião chegou ao fim e, assim como no dia anterior, Maguma e Hizumi se levantaram imediatamente de seus lugares.
Diferentemente do dia anterior, porém, apenas quatro jogadoras permaneceram na cabana.
(4/22)
O ar no cômodo estava carregado de tensão.
O motivo era óbvio — Mitsuba não estava mais com elas. Ela fora um espírito livre, o tipo de jogadora que abria descaradamente a geladeira das outras e beliscava o que encontrava dentro. Sua ausência deixava claro o quanto ela influenciava o humor de todas.
Yuki lançou um olhar para o corpo de Mitsuba, escondido sob um cobertor. Naquele momento, sentiu falta do jeito despreocupado da garota. Perdemos uma boa pessoa, pensou.
“— Vou ser direta”, disse Koyomi. “O que vocês acham daquelas duas?”
Era imediatamente óbvio a quais “duas” Koyomi se referia. As duas jogadoras que insistiam em agir sozinhas. As duas jogadoras que não estavam presentes na cabana. As duas jogadoras mais suspeitas de terem levado o corpo de Essay.
Maguma e Hizumi.
“Eu também suspeito delas”, respondeu Yuki. “Mas mesmo que apontemos o dedo, algumas coisas ainda não se explicam. Elas não teriam tido tempo de esconder o corpo da Essay antes de chegarmos à cabana.
Mesmo levando em conta a quantidade de sangue derramado, o cadáver de Essay ainda devia pesar cerca de cinquenta quilos. Carregar o corpo para longe em questão de poucos minutos seria uma tarefa árdua, mesmo para uma jogadora de braços de ferro como Maguma, com ou sem a ajuda de Hizumi.
“…Por que alguém precisaria se livrar do corpo em primeiro lugar?”, perguntou Mozuku. “Será que ele tinha algo comprometedor que não queriam que fosse encontrado…?”
“Se for esse o caso, talvez descubramos algo novo desta vez”, disse Airi, olhando para o canto do cômodo onde o corpo de Mitsuba repousava. Ela se virou para Yuki e perguntou: "Yuki, você suspeita da Maguma?”
“Até certo ponto”, respondeu Yuki. “Relativamente falando, em comparação com as outras jogadoras. Não é como se eu desconfiasse fortemente dela nem nada. Se você julgar apenas pela atitude, ela parece bastante suspeita, mas ela sempre foi assim. Uma loba solitária, por assim dizer.”
As jogadoras geralmente se fixavam em estilos de jogo individuais ao ultrapassar o Muro dos Trinta. O de Yuki era o “altruísmo”, que envolvia ajudar outras jogadoras de várias formas para construir uma rede ampla, porém superficial, de aliadas. Mishiro — a jogadora arrogante, de comportamento principesco, com quem Yuki havia entrado em conflito algum tempo atrás — possuía um estilo “dominador”, caracterizado pela manipulação de outras para que agissem conforme sua vontade. E, embora ainda não tivesse ultrapassado o Muro dos Trinta, Koyomi, que evitara jogos perigosos como Candle Woods por completo, poderia ser considerada adepta de um estilo “covarde”.
Dentro dessa escala, o estilo de Maguma era definido pela “independência”. Ela buscava a sobrevivência ao maximizar suas capacidades individuais ao extremo. As outras não tinham papel algum em sua estratégia, fato que frequentemente resultava em conflitos entre ela e seus pares. Ela era um tipo diferente de fora da curva quando comparada a Mitsuba.
Em jogos anteriores, Maguma também se isolara de maneiras semelhantes. Acusá-la de ser a culpada apenas com base em sua atitude seria tirar conclusões precipitadas.
Yuki continuou:
“Ainda assim, parece que ela está escondendo algo… Tenho quase certeza de que mentiu sobre ter se machucado na floresta.”
Maguma jamais seria descuidada a ponto de sofrer ferimentos evitáveis. Como Yuki sugerira durante a reunião, Maguma provavelmente se ferira em uma luta com alguém — ou havia enfrentado uma anomalia no nível do Muro dos Trinta, algo grande demais até para ela sair ilesa.
“É…” Mozuku falou timidamente. “Isso pode ser inadequado, mas posso dizer algo?”
“O que foi?”, perguntou Airi.
“Até agora, houve uma vítima por noite, certo? E se levarmos em conta a taxa média de sobrevivência, faz sentido haver três vítimas no total. Nesse caso… o jogo termina depois desta noite?
“Ah…”
De forma alguma era um comentário inadequado — era uma observação crucial.
O grupo havia se perdido na busca pelo culpado, mas aquilo era um jogo de sobrevivência. O jogo não terminaria ao desmascarar ou repreender o assassino — terminaria quando essa jogadora tirasse vidas suficientes para se satisfazer.
“As regras não estão mais claras hoje do que ontem, hein?”, disse Koyomi. “Mas, Yuki, sua teoria provavelmente acertou em cheio. As regras não foram explicadas porque não há margem para interpretação: todos, exceto o culpado, só precisam sobreviver por uma semana. O problema é quantas jogadoras o culpado precisa assassinar…
No mínimo, o número de vítimas tinha de ser dois, já que duas jogadoras já haviam morrido. O máximo teórico seria sete jogadoras, caso o culpado matasse uma jogadora por noite durante toda a duração de uma semana do jogo. No entanto, isso seria uma condição de vitória excessivamente severa para o culpado e, considerando a taxa média de sobrevivência, fazia sentido supor que o número exigido não seria tão alto.
“Pensando bem, provavelmente gira em torno de três”, disse Yuki. “Ainda assim, ências disso agora cobravam seu preço. Ela imaginou que teria de tirar um breve cochilo.
“Que tal encher o estômago?”, sugeriu Koyomi, apontando para a geladeira que havia perdido sua dona. “Isso deve ajudar a te acordar.”
“Vou fazer isso…”
Yuki se arrastou até a geladeira de joelhos e pegou uma garrafa de ramune. Ela se levantou na cozinha para empurrar a bolinha de vidro da tampa.
Foi então que o coador triangular no canto da pia entrou em seu campo de visão.
Ele estava vazio.não temos como saber se o jogo termina depois desta noite. Não há garantia de que o culpado precise matar uma jogadora todos os dias. Ele pode estar planejando tirar uma noite de folga depois de duas noites consecutivas de assassinato.”
“Eu também estive pensando nisso”, disse Airi. “Tanto Essay quanto Mitsuba foram mortas durante a noite, e em noites diferentes. Existe algum motivo para isso precisar ser assim?”
O jogo fora modelado como um mistério de círculo fechado, ambientado em uma ilha isolada no oceano. Nesse caso, não seria estranho haver várias condições determinando como o culpado poderia matar. Por exemplo, talvez só pudesse matar durante a noite, ou apenas dentro de uma cabana. O esquartejamento dos corpos provavelmente era consequência de uma dessas condições. No entanto, como Yuki não era a culpada, não tinha como saber a verdade.
Além disso, muito sobre o jogo permanecia desconhecido. Havia informação demais sendo negada as jogadoras que não eram a culpada. Isso talvez fosse uma escolha intencional de design para forçar os jogadoras a fazerem suas próprias deduções, mas tal configuração não combinava com Yuki, que ao longo de sua carreira havia sobrevivido principalmente confiando em seus instintos, e não em seu intelecto.
O que devo fazer para aumentar minhas chances de sobrevivência? Yuki quebrou a cabeça em busca de uma resposta, mas—
“…Tanto faz. Estou com sono demais pra isso.”
Quando sua cabeça começou a doer, Yuki franziu a testa. Ela passara a noite inteira acordada, receosa do culpado, e as consequ
(5/22)
Depois disso, as quatro jogadoras investigaram a cena. O estado da cabana era praticamente o mesmo da de Essay no dia anterior, com a diferença de que o grupo havia limpado a penugem branca ao redor da mesa e o corpo ainda permanecia no cômodo. Ou seja, em nítido contraste com o cadáver esquartejado, o ambiente estava virtualmente impecável. Não havia marcas no chão causadas pelo balanço de um porrete, nem um único arranhão na mesa provocado por um golpe de faca.
O grupo concluiu a investigação da cabana e passou a examinar o corpo de Mitsuba. Ao removerem o cobertor, descobriram que o cadáver, de forma chocante — ou melhor, nada chocante —, permanecia ali com a mesma glória grotesca de antes. Embora as jogadoras tivessem recolocado as partes do corpo em suas posições corretas, nenhuma das articulações estava intacta. O corpo havia sido completamente mutilado.
“Será que há algum motivo para o assassino tê-la cortado desse jeito?” — ponderou Koyomi.
Yuki refletiu sobre a ideia. Era possível que o culpado tivesse feito isso por uma razão prática, como ocultar a causa da morte, ou talvez fosse simplesmente alguém que sentia prazer em esquartejar corpos. Yuki acreditava haver uma probabilidade razoável de que a segunda opção fosse a verdadeira.
“Esses cortes não são nada limpos”, comentou Airi, observando o braço direito de Mitsuba, decepado. “Os membros dela certamente não foram cortados com uma lâmina afiada. Parece que o culpado teve bastante trabalho, golpeando o mesmo ponto repetidas vezes até conseguir atravessar.”
“O que significa que… não estão acostumados a usar lâminas?”, perguntou Yuki.
“Ou pode ter sido intencional. Mutilar um corpo e arrancar membros de forma grosseira são duas faces da mesma moeda, afinal.”
Airi parecia profundamente pensativa. Yuki tentou imitar sua expressão, mas não conseguiu chegar a nenhuma nova revelação.
Após examinarem o corpo, as quatro jogadoras se separaram. Airi disse ao grupo que havia algo que queria investigar e seguiu para a cabana de Essay. Koyomi e Mozuku retornaram às suas próprias cabanas, aparentemente com a intenção de passar o dia inteiro em silêncio dentro delas, pelo segundo dia consecutivo.
Depois de se despedir das outras três, Yuki começou a pensar em quais seriam seus próximos passos.
Ela tinha 99% de certeza de que aquilo era um jogo de sobrevivência. As jogadoras basicamente venceriam o jogo automaticamente desde que não fossem escolhidas como vítimas. Do ponto de vista do culpado, o mais lógico seria atacar primeiro as jogadoras mais fracas, mas na prática, o jogo não havia seguido esse padrão. A primeira vítima fora Essay, uma veterana de jogos mortais em seu jogo de número cinquenta. A segunda fora Mitsuba, um espírito livre que também enfrentava um marco importante: seu trigésimo jogo. Em vez de eliminar as mais fracas, o culpado parecia estar mirando justamente os mais fortes do grupo. Havia uma boa chance de Yuki ser escolhida como a terceira vítima.
O que intrigava Yuki era o fato de tanto Essay quanto Mitsuba terem sido derrotadas com tanta facilidade. Mitsuba havia feito Yuki de completa idiota na praia no dia anterior. Será que ela realmente teria caído sem lutar, mesmo estando plenamente ciente da existência do culpado? E, se sim, haveria algum segredo por trás do motivo de ela não ter conseguido resistir? Será que as jogadoras haviam deixado passar algo crucial nesse jogo — algo capaz até mesmo de derrubar Essay e Mitsuba?
Falando em segredos, havia também algo estranho em Maguma. Ela estava coberta de ferimentos que afirmara serem arranhões causados por galhos de árvores — mas de onde eles realmente vinham? Supondo que o segredo dela não tivesse relação com ser a culpada, será que ela poderia ter tropeçado no truque por trás do jogo? Teria descoberto uma informação vital, algo que essencialmente determinaria quem sairia viva? E estaria tentando esconder isso, mesmo correndo o risco de ser suspeita como a assassina?
Yuki decidiu procurar Maguma.
E assim, entrou na floresta.
(6/22)
Felizmente, Yuki encontrou Maguma quase imediatamente.
Ou, mais precisamente, encontrou algo que sugeria que Maguma estava por perto: uma armadilha. As jogadoras não haviam se deparado com nenhuma quando exploraram a floresta dois dias antes.
Era uma armadilha simples, composta apenas por estacas de bambu afiadas projetando-se do chão. Ainda assim, uma armadilha era uma armadilha — e estava claramente ali por intervenção humana.
Yuki estava convencida de que fora Maguma quem a montara. Airi também passara a noite anterior na floresta, mas era pouco provável que aquilo fosse obra dela. Armadilhas eram uma fonte potencial de conflitos com outras jogadoras, já que poderiam ferir alguém que não fosse o culpado. Apenas Maguma, sempre individualista, criaria algo assim.
O esconderijo de Maguma devia estar adiante. Essa era a implicação da armadilha, projetada para afastar intrusos. Isso também significava que o segredo que Maguma guardava estava por perto. Avançar mais fundo na floresta implicaria um grande risco, já que Yuki provavelmente teria de superar outras armadilhas no caminho, mas o risco de não fazer nada era muito maior. Se o assassino escolhesse Yuki como a terceira vítima, ela não teria garantia alguma de sobreviver. Ela queria fazer tudo o que pudesse para aumentar suas chances de sair viva do jogo.
Então Yuki avançou ainda mais para dentro da floresta.
(7/22)
Airi retornou à sua cabana.
(8/22)
Depois que as quatro jogadoras se dispersaram, Airi visitou a cabana de Essay. Ela havia dito às outras que estava indo até lá por algo que a deixara curiosa, mas aquilo esticava a verdade. Embora não tivesse mentido, fizera uma declaração intencionalmente enganosa. Ela fora à cabana de Essay não para investigar uma curiosidade, mas para recuperar um item específico de que precisaria para investigar o que tinha em mente.
O item em questão era a roupa de Essay.
Essay usava um vestido que lembrava um jaleco, e ainda havia sobressalentes dentro da cômoda de sua cabana. Ao que parecia, Maguma não havia levado todos.
Airi pegou um dos vestidos e voltou para sua própria cabana. Depois de vasculhar cuidadosamente todo o cômodo para se certificar de que ninguém estava escondido ali, sentou-se no sofá. Ela olhou para o braço esquerdo e esfregou com firmeza um ponto logo acima do cotovelo — o mesmo local onde o braço de Mitsuba havia sido decepado.
Ao sentir uma textura estranha, Airi parou de mover a mão.
Eu sabia, pensou.
Havia objetos do tamanho de comprimidos embutidos sob sua pele. Um na parte interna do braço e outro na parte externa, posicionados exatamente em lados opostos. Eles seriam quase impossíveis de detectar se ela não estivesse examinando o braço sob a forte suspeita de que algo estava ali; não havia sinais de que a pele ao redor tivesse sido cortada, nem qualquer anormalidade na mobilidade do braço. Na verdade, Airi não suspeitara de nada até aquele exato dia — o terceiro dia do jogo. Muito provavelmente, a maioria das outras jogadoras ainda não havia percebido. Os únicos cientes da existência daqueles objetos eram o culpado e Airi — e provavelmente Maguma também.
No momento em que sentiu aquela textura, tudo se encaixou. Por que os corpos haviam sido esquartejados? Para esconder a existência desses objetos. Como Essay e Mitsuba puderam ser mortas sem oferecer resistência? Por causa desses objetos. Por que Maguma estava com panos enrolados por todo o corpo? Para esconder as cicatrizes deixadas pela extração desses dispositivos.
Aquilo representava as armadilhas criadas para aquele jogo — dispositivos implantados.
Antes do início do jogo, os organizadores haviam implantado dispositivos nos corpos das jogadoras, quase certamente com o propósito de dar vantagem ao culpado. Sua função mais óbvia seria transmitir a localização das outras jogadoras ao assassino. Como a ilha não carecia de esconderijos, fazia sentido que os dispositivos tivessem essa utilidade. Airi já havia especulado que o culpado estivesse assistindo às câmeras de vigilância junto com o público, mas essa linha de pensamento fora ingênua demais. O culpado tinha conhecimento direto de sua localização. Isso significava que não havia diferença de segurança entre dormir dentro de uma cabana ou enfrentar a noite ao ar livre.
Além disso, à luz das mortes de Essay e Mitsuba, era razoável supor que os implantes tivessem uma função adicional: especificamente, a capacidade de gerar uma corrente elétrica. Ao apalpar com mais cuidado o restante do corpo, Airi encontrou os mesmos implantes no braço direito, além de quatro em cada perna, totalizando doze. Se seu palpite estivesse correto, ativar os implantes faria com que uma jogadora ficasse imediatamente paralisada, incapaz de mover qualquer parte do corpo. E se o culpado tivesse recebido um controle remoto para gerenciar os dispositivos? E se ativasse essa função estando bem diante de Airi? Nesse caso, ela seria incapaz de oferecer qualquer resistência e seria esquartejada ao bel-prazer do assassino. Esses dispositivos haviam tornado até jogadoras experientes como Essay e Mitsuba completamente indefesas.
Com essas coisas em jogo, a segurança não passava de uma ilusão.
“…Tenho que arrancá-los”, murmurou ela.
Não estava confirmado se os implantes realmente podiam gerar corrente elétrica, mas, se ela assumisse que tinham essa funcionalidade, provavelmente haveria restrições de uso. Como apenas uma jogadora havia sido morta a cada noite, o culpado provavelmente estava limitado a usar o dispositivo uma vez por noite. Independentemente das restrições, porém, os implantes tinham poder mais do que suficiente para compensar. Agora que sabia da existência deles, Airi não era tola a ponto de ignorá-los.
Ela precisava removê-los o quanto antes.
Airi enfiou a mão por baixo do maiô de ombro caído e puxou uma faca de vidro. Ela havia conseguido a arma no dia anterior, improvisando-a a partir de um estilhaço que quebrara de uma janela na cabana de Essay. A lâmina era romba o bastante para ser guardada com segurança sob o maiô, mas ainda afiada o suficiente para cortar carne humana e permitir a extração do que havia dentro.
Airi ficou de pé na cozinha. Com a ponta da faca, tocou os pontos do corpo onde havia dispositivos sob a pele. Ao imaginar o que estava prestes a fazer, sentiu uma hesitação genuína. Ainda assim, convenceu-se de que aquilo precisava ser feito. Em seguida, pensou se conseguiria encontrar uma ferramenta melhor do que uma lâmina cega; talvez pudesse desmontar o micro-ondas e usar uma de suas partes metálicas, ou arrancar e afiar um osso do cadáver de Mitsuba. Embora pudesse fazer qualquer uma dessas coisas, isso não mudaria o fato de que jamais encontraria a ferramenta perfeita. Sempre haveria a sensação de que existia algo melhor. Buscar a perfeição só a levaria a ficar presa em um pântano sem fim. Aquele era o momento de ceder. Aquele era o momento de romper sua hesitação.
Ela pressionou a faca com força contra a pele.
Não desviou o olhar. Nunca fora do tipo que desviava. Quando criança, Airi sempre encarava diretamente a agulha ao tomar injeções, e mesmo quando sua mãe lhe dissera que ela não poderia cursar o ensino médio por causa da situação financeira da família, ela aceitara rapidamente, resignada. Mesmo quando lhe entregaram uma faca e ordenaram que matasse em Candle Woods, ela não conseguira entrar na gaiola do escapismo; e quando ficara presa naquela montanha nevada durante seu trigésimo jogo, fora incapaz de se revoltar ou se enfurecer como as outras jogadoras, apenas se resignando à situação.
Parecia que as pessoas precisavam de óculos cor-de-rosa para serem felizes.
Suponho que isso signifique que nunca serei capaz de encontrar a felicidade.
Se ao menos não tivesse percebido a existência dos implantes, não estaria cortando a própria pele, não estaria sentindo a dor do coração batendo a mais do que o dobro do ritmo normal. Embora não fosse a primeira vez que machucava o braço, isso não mudava o fato de que doía. Pensando que seria problemático se gritasse, decidiu morder o vestido que havia pegado da cabana de Essay. Inicialmente, planejara realizar o procedimento na cozinha, para garantir que a penugem branca resultante do ferimento não caísse no chão. No entanto, não conseguiu manter a compostura e, quando extraiu um dos objetos do tamanho de um comprimido, já estava deitada na cama, ofegante.
O suor escorria por seu rosto como se ela fosse uma personagem de mangá. Airi agarrou o dispositivo e o jogou no coador da pia. Embora doesse apenas mover o braço esquerdo, ela ainda o virou e tocou o implante no lado externo com a mão direita. Como sempre, sua voz da razão permaneceu firme, informando-lhe um número com um tom extraordinariamente calmo.
Onze restantes.
(9/22)
Todo o suplício não durou mais que trinta minutos, mas, para Airi, aqueles trinta minutos foram um inferno interminável, o suficiente para fazê-la pensar que havia morrido e renascido. Depois de extrair os doze implantes, ela apalpou o corpo inteiro para se certificar de que não havia mais nenhum. Não encontrou outros, ao menos nos lugares que conseguia verificar. Talvez houvesse um décimo terceiro dispositivo implantado perto do coração e todo o esforço até então tivesse sido em vão, mas Airi manteve a calma e concluiu que teria de aceitar isso caso fosse verdade.
Com os pedaços do vestido de Essay que havia cortado, ela enfaixou as feridas do corpo, ficando no mesmo estado em que Maguma estivera naquela manhã. Como nenhuma outra jogadora tinha feito o mesmo, naquele momento parecia que apenas Airi e Maguma haviam percebido a existência dos dispositivos. Agora que o assassino havia perdido metade de sua vantagem sobre ela, a probabilidade de Airi ser escolhida como o terceiro alvo depois de Essay e Mitsuba deveria estar próxima de zero.
Airi ficou dividida sobre como lidar com o conhecimento de que o culpado paralisava as vítimas com uma corrente elétrica. Assim como Yuki, ela adotara um estilo de jogo de cooperação até certo ponto, mas revelar a verdade iria além desse “certo ponto”. Se todos extraíssem os implantes de seus corpos, o risco de o culpado mirar em Airi aumentaria. Além disso, se o assassino descobrisse que Airi havia exposto a existência dos dispositivos, teria um motivo para ir atrás dela especificamente, como vingança por ter perdido sua vantagem. Seria melhor compartilhar a verdade ou manter silêncio? Airi hesitou, mas decidiu adiar a decisão. Tinha até a reunião da manhã seguinte para se decidir.
De qualquer forma, ela havia reforçado suas defesas.
Em seguida, era hora de partir para o ataque.
A descoberta de Airi lhe oferecera uma pista adicional: dispositivos haviam sido implantados sob a pele de todas as jogadoras da ilha, exceto do culpado. Isso significava que examinar o corpo de todos tornaria a identificação do assassino algo trivial. Embora não pudesse descartar a possibilidade de o culpado também ter implantes reais ou falsos — afinal, a maníaca homicida de Candle Woods havia modificado o próprio corpo —, havia uma boa chance de que não fosse o caso. Até então, as jogadoras só tinham conseguido agir defensivamente por falta de pistas sobre a identidade do culpado, mas agora Airi havia obtido uma via de ataque. Não podia desperdiçar a oportunidade.
Aquilo era um jogo de sobrevivência. Bastava sobreviver por uma semana; identificar o assassino não era necessário. No entanto, Airi duvidava que o jogo se desenrolaria conforme as regras. Se aquela garota fosse a culpada — se fosse o tipo de pessoa que Airi imaginava —, não havia garantia de que o número de vítimas pararia de aumentar ao atingir o limite presumido de três. No pior dos casos, o assassino poderia eliminar um número absurdo de pessoas, muito além do exigido pelas regras, como acontecera em Candle Woods, aquele jogo inesquecível.
Ela precisava confirmar suas suspeitas por conta própria. Dependendo da situação, também teria de bolar contramedidas.
E assim, Airi seguiu para a cabana de Hizumi.
(10/22)
Hizumi — uma jogadora de aparência distraída.
Para ser totalmente franca, Airi desconfiava da garota. Conseguira transmitir isso a Yuki no dia anterior, pois acreditava que a pupila de Kyara havia se infiltrado no jogo, e suspeitava fortemente que fosse Hizumi.
Tanto Essay quanto Mitsuba haviam sido desmembradas. Fazia sentido que o assassino precisasse mutilar ambas para extrair os dispositivos, ocultando assim a existência dos implantes, mas era altamente improvável que esse fosse o único motivo. Na verdade, a carnificina falhara completamente em esconder os implantes, pois levara Airi a desconfiar da maneira antinatural como os corpos haviam sido cortados. Tinha de haver outro fator motivador.
Quando Airi começou a pensar no que poderia ser, a imagem daquela psicopata surgiu imediatamente em sua mente. Kyara — uma demônia que havia matado mais de trezentos jogadoras, levando a indústria dos jogos mortais à beira do colapso. Com Airi e Yuki, sobreviventes de Candle Woods, participando deste jogo, só havia uma resposta: os cadáveres serviam como uma mensagem. Uma pupila de Kyara estava à espreita neste jogo, planejando provocar uma repetição de Candle Woods. Por meio dos corpos mutilados, ela declarara que massacraria todas as jogadoras da ilha — incluindo, é claro, as duas que haviam mandado Kyara para o inferno. Todas as peças pareciam se encaixar perfeitamente.
E a jogadora mais suspeita de ser a pupila da psicopata… era Hizumi.
“…………”
Você é uma idiota? disse à Airi sua voz da razão.
Aquilo era pura paranoia. Uma teoria fantasiosa construída sobre especulação em cima de especulação. Airi sabia que equivalia a uma acusação sem fundamento. Sua estrutura mental não era tão frágil a ponto de ceder a meras ilusões.
Porém — aqueles corpos eram absolutamente grotescos. Mesmo neste mundo de morte, cadáveres daquele tipo não apareciam com frequência. Era impossível não ligá-los a Kyara. E já fazia bastante tempo que Airi temia a segunda vinda de Candle Woods. Embora esses receios fossem essencialmente infundados, ela não conseguia evitá-los.
Uma vez que esses sentimentos criaram raízes dentro dela, sentiu-se compelida a verificar por si mesma. Se estivesse errada, a história terminaria ali.
Airi bateu à porta da cabana de Hizumi. Após esperar um pouco, a porta se abriu sem aviso, e Hizumi apareceu no vão. A garota lançou a Airi um olhar mortal.
“O quê?”, perguntou Hizumi.
Sentindo-se pressionada pela aura peculiar da garota, Airi disse: “Eu queria te pedir um favor…”
“O quê?”
“Você poderia deixar eu examinar o seu corpo?”
“Por quê?”
Achando que ser sincera era a única opção, Airi explicou: “Descobri que os organizadores implantaram dispositivos em nossos corpos.”
Airi esfregou o pano enrolado em seu braço esquerdo. Hizumi, instintivamente, olhou para o mesmo ponto em seu próprio corpo.
“Acredito que eles funcionem como transmissores e também possam gerar uma corrente elétrica, como uma arma de choque. Esse deve ser o motivo pelo qual veteranas como Essay e Mitsuba foram eliminadas com tanta facilidade. Só percebi isso há pouco tempo e corri para extraí-los.”
Hizumi tocou o próprio braço, provavelmente para confirmar a veracidade das palavras de Airi. A reação parecia genuína para uma jogadora que não fosse a culpada, mas Airi não podia descartar a possibilidade de ser encenação.
“Você se importaria se eu te examinasse?”, perguntou Airi. “Devemos conseguir determinar a identidade do culpado com base em quem tem ou não esses implantes. Quero ver se você os tem. Não vai demorar nada, então, por favor…”
Airi deu um passo à frente.
Hizumi recuou a mesma distância.
“— Não”, disse ela. “Não chegue mais perto.”
“…Por quê?”
“Afaste-se.”
Ela estava desconfiada de Airi como possível culpada? Ou apenas fingia estar em guarda?
Airi levantou as mãos. “Estou desarmada.”
“Mentirosa. Você está escondendo algo no seu maiô.”
Airi olhou para o maiô ombro a ombro. De fato, era possível esconder uma arma ali. Na verdade, até pouco tempo atrás ela estivera escondendo uma.
“Não estou escondendo nada”, respondeu Airi. “Posso tirar se isso te convencer, mas seria um pouco constrangedor…”
“Fique longe!”
Airi se sobressaltou, não apenas por estar sendo repreendida aos gritos, mas também porque era a primeira vez que ouvia Hizumi elevar a voz.
Hizumi assumiu uma postura de luta. As coisas estavam prestes a explodir. Airi se perguntou como deveria interpretar a atitude da garota. Ela estava genuinamente desconfiada de Airi, ou era de fato a culpada tentando evitar ser investigada?
“Eu entendo”, disse Airi. “Então não vou insistir. Posso te fazer uma pergunta em vez disso?”
“…O quê?”
“Você conhece uma jogadora chamada Kyara?”
Os olhos de Hizumi se arregalaram. Aparentemente, seu olhar ainda não havia atingido a forma final.
“Ela tem cabelo da cor de madeira de ágar. Se você souber de alguma coisa—”
As palavras de Airi foram interrompidas.
Hizumi desferiu um golpe com a mão na direção dela.
(11/22)
Armas externas eram proibidas nos jogos de morte, pois a presença de ferramentas não previstas pelos organizadores poderia interferir no andamento do jogo. As jogadoras só podiam levar seus próprios corpos e o traje designado, além de alguns poucos itens que constituíam exceções, como acessórios de cabelo e óculos.
No entanto, visto de outra forma, os organizadores não tinham problema algum com jogadoras modificando partes de seus próprios corpos para transformá-las em armas. Neste mundo em que diferenças minúsculas podiam decidir entre a vida e a morte, muitas jogadoras buscavam maneiras de explorar essa brecha.
Por exemplo — as unhas. Embora não pudessem transformá-las em lâminas propriamente ditas, era possível lixá-las e afiá-las. Usando-as para perfurar pontos vitais como um olho ou o pescoço, alguém poderia, potencialmente, causar dano fatal.
A mão de Hizumi chegou perto o suficiente de atingir Airi a ponto de sair de foco.
Airi saltou para trás, recuando mais rápido do que Hizumi conseguia avançar. Fez isso por instinto, sem margem para prestar atenção à postura. Como resultado, caiu de costas e aterrissou nas águas rasas ao redor da cabana.
Quando Airi tentou se levantar, Hizumi se aproximou com uma expressão furiosa no rosto. Antes que Hizumi pudesse se lançar sobre ela, Airi agarrou as mãos da garota. As duas acabaram lutando corpo a corpo, Hizumi por cima e Airi por baixo, nenhuma das duas conseguindo usar as mãos.
“— Você a conhecia?”, perguntou Airi. “Você conheceu Kyara? Qual é a sua ligação com ela?!”
“E daí?”, respondeu Hizumi com um olhar tão intenso que parecia que seus olhos iam saltar das órbitas. “E daí se eu a conheci? E daí se eu fui sua pupila? Você está tentando dizer que eu gosto de esquartejar pessoas? Está tentando dizer que vou enlouquecer como minha mentora?”
Mentora. Pupila. Hizumi havia revelado isso espontaneamente, sem que Airi tivesse mencionado nenhuma das duas palavras.
“Vocês são todas iguais! Só enxergam as outras do jeito que querem! Eu sou eu! Sou uma pessoa com minha própria vontade e meu próprio corpo! Não me transforme em alguém que eu não sou!”
Hizumi devia não estar acostumada a gritar, pois ajustava continuamente o volume da própria voz enquanto berrava.
“Escuta bem! Por enquanto estou me controlando, mas logo vou matar todas vocês! Não vai sobrar um único osso quando eu terminar! Vocês vão morrer todas, e eu vou continuar viva!”
Airi achou que a garota estava terrivelmente incoerente. Embora o significado de cada frase fosse compreensível, as palavras soavam desconexas quando juntadas. Airi entendeu apenas uma coisa — daquele jeito, Hizumi muito bem poderia matá-la.
Então, sem outra escolha, ela firmou sua determinação.
Airi ergueu o joelho e atingiu Hizumi no estômago.
— Um contra-ataque.
Hizumi engasgou. Foi apenas por um segundo, mas a garota vacilou. Airi usou essa abertura para se desvencilhar debaixo de Hizumi e fugir, espirrando água enquanto corria.
“Espere!”, gritou Hizumi.
No entanto, quando a garota conseguiu se levantar, Airi já havia aberto uma boa distância entre as duas. Dada a diferença de altura, Airi presumiu que Hizumi não conseguiria alcançá-la.
Airi alcançou terra firme, atravessou a praia correndo e entrou na floresta.
Sem diminuir o ritmo, Airi começou a pensar. Não havia encontrado nenhuma prova definitiva, mas também não podia descartar completamente suas dúvidas. Tudo o que era certo era que Hizumi reagira de forma anormal ao ouvir o nome daquela psicopata. E, embora não tivesse sido uma confissão direta, a garota indicara que era pupila de Kyara.
Ela era realmente a culpada?
(12/22)
Yuki recuou.
Quanto mais avançava — quanto mais se aproximava do esconderijo de Maguma —, mais ferozes e bem camufladas ficavam as armadilhas. Embora Yuki tivesse confiança absoluta na própria habilidade de evitá-las, sua oponente estava um passo à frente, e Yuki acabou caindo em uma armadilha de poço, cujo fundo era forrado com estacas de bambu. Apesar de evitar virar um espetinho humano e escapar apenas com arranhões, ela considerou perigoso demais continuar avançando.
Assim, ela recuou. Pensando que seus esforços tinham sido em vão, Yuki caminhou entre as árvores.
“…Ah.” “Ah!”
De repente, ela encontrou Airi.
“…Oi.” “Quanto tempo.”
Airi olhou para o corpo arranhado de Yuki. “Como você se machucou?”
“Caí em uma das armadilhas da Maguma… eu estava esperando encontrá-la.”
“Ah…”
“E você, Airi? Se machucou?”
Havia panos enrolados por todo o corpo de Airi. Ela estava no mesmo estado em que Maguma estivera naquela manhã.
“…Vou deixar isso para a sua imaginação”, respondeu.
Até a reação dela lembrava a de Maguma. Parecia estar escondendo algo. Observando com mais atenção, Yuki percebeu que os pontos que Airi havia enfaixado eram exatamente os mesmos de Maguma.
“…………”
Yuki esfregou o braço.
(13/22)
Depois de se separar de Airi, Yuki seguiu para uma cabana. Não a sua — a de Essay. Era para lá que Airi tinha ido após a reunião da manhã, depois de mencionar que queria investigar algo. Lá dentro, Yuki pegou um dos vestidos reservas de Essay e um caco de vidro de uma janela quebrada, depois voltou para sua própria cabana.
Ali, sentou-se no sofá e tocou o braço. Assim como antes, sentiu um objeto estranho.
Maguma tinha o corpo todo envolto em panos. Mais tarde, Airi aparecera exatamente no mesmo estado. Yuki não era lenta a ponto de ignorar a implicação daquela coincidência evidente. Neste jogo, todas as jogadoras, exceto o culpado, haviam recebido implantes. A função principal desses implantes provavelmente era incapacitar uma jogadora por meio de uma corrente elétrica ou algo semelhante. Era a arma atípica fornecida ao assassino. Além disso, era possível que os implantes também funcionassem como transmissores e monitores dos sinais vitais de cada jogadora.
A busca das garotas naquela manhã não encontrara nenhum dispositivo dentro do corpo de Mitsuba, o que significava que o assassino provavelmente os havia removido da cena. O corpo fora desmembrado justamente para ocultar esse fato. Yuki ficou impressionada por Airi ainda assim ter conseguido perceber a existência dos implantes.
Por outro lado, Yuki se frustrou por não ter chegado a essa conclusão sozinha. Não era um truque totalmente inconcebível. Afinal, em seu trigésimo jogo, Golden Bath, ela quase participara com um dispositivo dentro do próprio corpo — embora, naquele caso, isso fosse contra as regras e, no fim, não tivesse acontecido. Enquanto desculpas por não ter percebido os implantes passavam por sua mente — como o fato de ter passado a noite inteira acordada —, Yuki ficou na cozinha e começou a usar o caco de vidro para extraí-los.
Como Yuki já tivera todos os quatro membros decepados em um jogo passado, não encontrou dificuldade alguma. Recordando os pontos que Airi havia enfaixado, Yuki suportou a dor e terminou de extrair dez dispositivos —
“…Opa. Essa foi por pouco.”
Então, ela descobriu implantes nos calcanhares dos pés.
Como Airi estava usando sapatos aquáticos, não havia tecido ao redor dos pés, então Yuki não percebeu imediatamente que havia implantes ali. Depois de extrair os dispositivos de ambos os pés, o total chegou a doze. Após uma busca minuciosa em cada centímetro do corpo, Yuki confirmou que não havia mais nenhum.
Então, soltou um suspiro.
Yuki sentia vergonha por ter precisado obter essa informação por meio de outra pessoa, mas, acima de tudo, estava aliviada. Agora, a probabilidade de ser escolhida como alvo do culpado naquela noite cairia drasticamente, e mesmo que fosse atacada, conseguiria reagir.
Assim que o alívio tomou conta dela, um pensamento lhe ocorreu.
Acho que vou tirar uma soneca rápida.
Yuki deitou-se na cama. Não esperava dormir tranquilamente, mas achou que um cochilo não faria mal. Afinal, havia removido os implantes, e os assassinatos só vinham ocorrendo à noite. Agarrando-se firmemente à borda da própria consciência, Yuki adormeceu.
Logo, a noite caiu.
(14/22)
Era o meio da noite.
Maguma despertou sobressaltada.
(15/22)
Maguma estava dentro de uma tenda improvisada, construída com lençóis.
Mesmo uma jogadora como ela, que estava em outro nível quando se tratava de força física, precisava se preparar adequadamente para dormir ao ar livre. Embora tivesse camuflado a tenda, ela ainda se destacava. Apesar de ser fácil de avistar, aproximar-se dela era outra história. Maguma havia montado inúmeras armadilhas cruéis nos arredores, sem se importar com a possibilidade de ferir terceiros. Caso alguém conseguisse atravessar todas elas, uma trepadeira amarrada ao seu pulso a avisaria da presença de um intruso.
E, momentos atrás, essa “remota possibilidade” acabara de acontecer.
Maguma levou menos de um segundo para despertar completamente. Ao sair da tenda, ela imediatamente avistou o intruso parado a alguns metros da entrada.
A figura tinha o corpo inteiro envolto em ataduras, como uma múmia.
Maguma percebeu na hora que as ataduras eram pedaços de tecido cortados do vestido de Essay, assim como ela própria fizera no dia anterior. Embora fosse noite, Maguma conseguiu ver bem a silhueta da múmia graças à luz que ela segurava na mão esquerda. O brilho fraco não vinha de uma ferramenta como uma lanterna ou lampião, mas sim de um aparelho eletrônico do tamanho de um smartphone. Maguma tinha uma boa ideia do que aquilo fazia.
A múmia avançou lentamente em direção à tenda.
“— Eu já removi todos eles”, disse Maguma. “Você não vai querer desperdiçar isso comigo, vai?”
A múmia não respondeu.
Decidindo mostrar uma prova concreta de sua afirmação, Maguma pegou os objetos que estavam dentro da tenda e os lançou no chão — tomando cuidado para não tocá-los com as mãos nuas, é claro.
Eram doze dispositivos, cada um aproximadamente do tamanho de uma pílula.
“Meu palpite é que você só pode usar essa geringonça uma vez por dia, certo? E depois de disparar a corrente, precisa esperar mais vinte e quatro horas antes de ativá-la de novo. É por isso que você teve de ir atrás de uma jogadora por vez, em vez de matar três de uma vez.”
Como antes, a múmia permaneceu em silêncio.
Maguma continuou: “E não é só essa a função, né? Você encontrou meu esconderijo, então essas coisas também devem funcionar como transmissores, certo? Mas você não sabia que eu já tinha arrancado todos, o que significa que eles não medem batimentos cardíacos nem temperatura corporal. Deve ter sido um belo choque pra você.”
“Como você descobriu?”, perguntou a múmia.
A voz surpreendeu Maguma — porque pertencia a alguém que ela não esperava.
“Hã… então era você? Agora é a minha vez de me surpreender.”
“Como você descobriu?”
“ ‘Como’ é algo que eu deveria estar perguntando a você…”, murmurou Maguma, antes de responder à pergunta. “Pode não parecer, mas eu cuido muito bem do meu corpo. Então eu perceberia na hora se algo fosse colocado dentro de mim. Achei que essas coisas podiam ser importantes, então deixei lá no primeiro dia, mas arranquei tudo no começo do segundo. Que azar o seu, hein? Você devia ter ido atrás de mim primeiro.”
“Você contou para alguém?”
“Por que eu faria isso? Quem você acha que eu sou? Na reunião de hoje de manhã, não parecia que ninguém tinha percebido. Vá lá escolher qualquer uma das outras.”
A múmia não respondeu.
A luz do aparelho eletrônico piscou e se apagou, e a figura desapareceu na escuridão. Depois de se certificar de que o agressor tinha ido embora por completo, Maguma voltou para a tenda. Ela enrolou novamente a trepadeira em volta do pulso, assumiu a mesma posição de alguns minutos antes e fechou os olhos.
Então era ela a culpada desde o início.
Isso implicava, naturalmente, uma certa verdade. Maguma havia duvidado se a ciência moderna seria capaz de algo assim, mas agora não havia como negar. Aquele era o tipo de pessoa que a culpada era.
Maguma bufou.
“Não sou fã do jeito como ela faz as coisas.”
(16/22)
Yuki chegou à manhã do quarto dia.
Mais uma vez, ela havia passado a noite inteira acordada. Embora a probabilidade de o culpado mirar Yuki fosse baixa, já que ela havia removido os implantes, ainda assim permanecera desperta. Parte disso se deve ao fato de não ter conseguido dormir, pois tirara uma soneca mais cedo naquele dia. Pela segunda noite consecutiva, o assassino não aparecera à sua porta. Quando o sol surgiu no horizonte, Yuki seguiu em direção à cabana de Koyomi.
Desta vez, porém, ela não foi a primeira a chegar.
“E aí.”
Era Maguma. Ela estava esperando perto da porta, como Yuki fizera no dia anterior.
“…Olá”, cumprimentou Yuki.
Maguma examinou atentamente Yuki, que havia se enfaixado exatamente nos mesmos pontos que ela. “Hã, então você percebeu?”
“Não sozinha, mas…”
Yuki lançou um olhar para Koyomi, que estava perto da janela. Como ela vestia um casaco curto, Yuki não conseguiu dizer de imediato se ela havia removido os implantes. Mesmo que Koyomi ainda não soubesse da existência deles, certamente perceberia a verdade ao ver os corpos de Yuki e Maguma, tão semelhantes.
As três se sentaram em volta da mesa. Logo depois, Airi e Mozuku também chegaram.
Com o número de jogadoras na sala igual ao número de sobreviventes atuais, menos um, Maguma se levantou.
“Certo…”
“Para onde você vai?” — ninguém perguntou.
(17/22)
Hizumi havia sido assassinada. Seu corpo esquartejado jazia dentro de sua cabana.
Embora aquela cena devesse ser o espetáculo definitivo do horror, como o corpo da garota não estava nem mais nem menos mutilado do que os dois anteriores, ela ofereceu pouco estímulo ao cérebro de Yuki.
“Isso faz três”, disse Koyomi.
“Então isso quer dizer que… o jogo acabou? Mas nada de novo está acontecendo…”, comentou Mozuku.
“Talvez tenhamos que esperar a semana inteira, independentemente do número de mortes do culpado”, disse Airi, calmamente. ”Ou talvez o jogo ainda não tenha acabado. As regras podem exigir quatro ou mais vítimas…”
“Se acabou, o culpado não deveria ter problema em se revelar”, disse Maguma. “Até isso acontecer, devemos continuar em guarda.”
“…………”
Yuki não contribuiu com nenhuma palavra à conversa.
Hizumi possuía uma aura profundamente misteriosa. Pela presença da garota e pelo fato de as vítimas terem sido esquartejadas, Yuki suspeitara em particular que Hizumi fosse a segunda vinda de Kyara, mas ela parecia ter encontrado o fim sem sequer um gemido. Parecia seguro assumir que sua teoria não passava de uma preocupação desnecessária, já que os corpos haviam sido mutilados apenas para esconder a existência dos implantes.
Ainda assim, a inquietação no peito de Yuki se recusava a desaparecer. Quem era o verdadeiro culpado? Por que o jogo não havia terminado? Além dos implantes, ainda existiriam outros segredos nesse jogo?
(18/22)
Mais uma vez, as jogadoras decidiram realizar a reunião no local do crime. Como era a segunda vez que faziam algo assim, removeram o corpo de Hizumi com eficiência e limparam a cabana antes de passarem aos relatos do dia anterior. Koyomi e Mozuku haviam permanecido em suas respectivas cabanas, enquanto Maguma passara o dia inteiro em seu esconderijo na floresta. Airi relatou que, após extrair os implantes em sua cabana, retornara à sua base na floresta. Yuki também contou a verdade sobre suas ações do dia anterior. Nem ela nem Airi mantiveram os implantes em segredo. Como três das cinco jogadoras tinham faixas de pano enroladas exatamente nas mesmas partes do corpo, a verdade acabaria vindo à tona de um jeito ou de outro.
Depois de concluírem os relatos, Airi propôs revistar o corpo de todas em busca dos implantes, como forma de identificar o culpado. A investigação confirmou que tanto Koyomi quanto Mozuku tinham dispositivos implantados em seus corpos. As jogadoras que já haviam removido seus implantes — Yuki, Airi e Maguma — voltaram temporariamente às suas bases e trouxeram os dispositivos que haviam retirado.
“…E o que isso nos diz?”, perguntou Koyomi. ”Todos nós, os sobreviventes, temos ou tivemos dispositivos em nossos corpos. Isso significa que o culpado não é uma de nós?”
“Para ser precisa, eu, Yuki e Maguma — nós três que já removemos nossos implantes — não estamos livres de suspeita”, disse Airi. ”Poderíamos ter recuperado os dispositivos da Mitsuba ou da Hizumi, apresentado um conjunto aqui e nos ferido de propósito. Não é impossível falsificar.”
Embora isso não fosse inconcebível, qualquer farsa seria imediatamente exposta ao se examinarem os ferimentos das jogadoras. Se houvesse implantes em seus corpos, as feridas teriam cavidades do mesmo formato. Seria implausível falsificar isso apenas se machucando.
“Acho que o culpado não era, na verdade, uma jogadora”, comentou Yuki. “Essa é a única forma de explicar o desaparecimento do corpo da Essay…”
“…Isso levanta outra questão: onde essa pessoa estava se escondendo?”, perguntou Koyomi.
Com vários mistérios ainda sem solução, a reunião chegou ao fim.
O grupo se dispersou. Maguma foi embora para algum lugar, deixando para trás as suspeitas de sempre.
“Koyomi “ — chamou Yuki, “se possível, eu gostaria de falar com você a sós. Tudo bem?
“…A sós?”, Koyomi repetiu.
A hesitação ficou visível em seu rosto. Era natural. Embora três jogadoras já tivessem sido mortas, não havia garantia de que o jogo tivesse realmente chegado ao fim. Ficar sozinha com outra jogadora ainda era algo a ser evitado.
“…Não me importo se ficarmos aqui”, disse Yuki, como compromisso.
“Há algo que você quer conversar só entre nós duas?”
“Sim. É sobre minha mentora.”
Hakushi — uma jogadora que havia perdido a vida em Candle Woods.
“Koyomi, você conhecia a minha mentora, certo? E ouviu falar de mim por meio dela…”
“Ah, sim. Conheço muito bem vocês duas.”
“…O que ela dizia sobre mim?”, perguntou Yuki, sentindo-se consciente dos olhares de Airi e Mozuku.
Era algo que Yuki sempre tivera curiosidade de saber. Como o assunto não tinha relação com o jogo, ela evitara mencioná-lo, mas agora que as coisas haviam se acalmado um pouco, achou que não haveria problema em perguntar.
“A Hakushi dizia muita coisa, sabe. Vamos ver… se eu tivesse que resumir em poucas frases…”
Koyomi levou alguns segundos para procurar as palavras certas.
“Ela dizia que você era uma pupila tola”, disse Koyomi. “Uma preguiçosa. Uma completa simplória. O tipo de atleta que nasce com talento natural, mas desaparece imediatamente depois de fazer uma grande jogada. Em geral, era assim que ela via você.”
“…Entendo.”, Yuki sentiu uma certa decepção.
Pensando melhor, aqueles comentários faziam sentido. Embora a Yuki de hoje fosse outra pessoa, a jogadora que ela havia sido na época de Candle Woods certamente se encaixava nessas descrições.
Koyomi deu uma risadinha. “Estava morrendo de curiosidade?”
“Bem… acho que sim…”
“A Essay me perguntou a mesma coisa depois que nos conhecemos. Parece que vocês estão na mesma sintonia.”
Um enorme ponto de interrogação surgiu na mente de Yuki.
“A Essay? Por quê?”, perguntou.
“Como assim, por quê? Vocês não eram colegas de aprendizado?”
“O que isso quer dizer?”
“Oh? Você não sabia?”, Koyomi soou surpresa. “Vocês tinham a mesma mentora. A Essay também aprendeu com a Hakushi como pupila.”
“…Sério?” — O choque fez Yuki escorregar para uma fala mais casual.
“Sim. Primeira vez que ouve isso?”
“É.” — Yuki assentiu. “Eu não fazia ideia. Nem sabia que minha mentora tinha outras pupilas…”
“Claro que você não seria a única. Estamos falando de uma veterana de noventa e cinco jogos. É óbvio que ela teria várias pupilas.”
Isso fazia sentido. Hakushi nunca lhe contara sobre ter outras pupilas, nem Yuki jamais imaginara essa possibilidade.
Koyomi continuou: “Bem, ela na verdade não assumiu tantas pupilas assim… O máximo que teve ao mesmo tempo foi cinco, talvez? Quem sabe quantas delas ainda estão vivas…”
“…Não sei o que dizer”, disse Yuki. “É irônico que uma delas tenha acabado morrendo da mesma forma que a mentora… E logo daquele jeito horrível, entre todas as formas possíveis.”
Dessa vez, um ponto de interrogação se acendeu acima da cabeça de Koyomi. “Do que você está falando?”
“Hã? Quero dizer, a Essay foi morta e esquartejada, certo? Minha mentora morreu do mesmo jeito, então eu estava pensando que as duas tiveram o mesmo destino…”
“……?”, Koyomi parecia cada vez mais confusa. “A Hakushi está morta? Desde quando?”
“Hã?”
“Ela ainda está viva. Fomos beber juntas na semana passada.”
(19/22)
Yuki não conseguia processar o que acabara de ouvir.
“…Hã?”
“Conversamos por uma ou duas horas no nosso bar de sempre. Inclusive falamos sobre você e a Essay. Ela comentou como você estava ficando famosa depois de concluir trinta jogos.”
“Não, mas… o quê?”
Yuki levou as mãos à cabeça. Alguns segundos depois, ergueu o olhar novamente para Koyomi.
“Hum, só para confirmar… estamos falando da mesma Hakushi, certo?”
“Sim. O nome de jogadora dela é Hakushi. Acho que o sobrenome verdadeiro é Shiratsugawa.”
“E ela está… viva?”
“Não é isso que eu venho dizendo? Quer ir vê-la depois que o jogo acabar? Se você me passar seu contato, posso marcar um encontro.”
“Não, mas… o corpo dela não tinha sido mutilado? Por um psicopata chamado Kyara. Do mesmo jeito que os da Essay e da Mitsuba… Até o fígado dela estava para fora do corpo. Como ela conseguiria sequer processar álcool?”
“…Sério? Ela me disse que se aposentou depois de Candle Woods, mas eu não sabia que tinha sofrido um dano tão grave no corpo.” — A expressão de Koyomi se aprofundou. “Espera… então isso quer dizer que…”
Yuki provavelmente estava com a mesma expressão. Em sua mente, ela foi juntando, um a um, os fatos que vieram à tona.
A sobrevivência de sua mentora, apesar de o corpo ter sido dilacerado quase além do reconhecimento.
Uma pupila companheira, morta exatamente da mesma maneira.
O estado inexplicável do jogo, no qual parecia não haver um culpado plausível.
As vozes de Yuki e Koyomi se sobrepuseram.
“Não pode ser—”
(20/22)
Aos pés de um penhasco, uma jogadora coberta de bandagens sentou-se.
(21/22)
O penhasco, formado pelas ondas que se chocavam constantemente contra a terra, ficava ao longo do perímetro da ilha. Em sua base havia um espaço mal largo o suficiente para uma única pessoa se deitar. Como a superfície era inteiramente rochosa, o local não oferecia nenhum conforto para dormir, além de ser extremamente perigoso descer até ali. Nenhuma jogadora comum consideraria usar aquele lugar como base.
Para uma jogadora fora do comum, no entanto, era o local perfeito para montar acampamento.
Uma jogadora coberta de bandagens sentou-se.
Ela pegou o facão e o dispositivo eletrônico ao seu lado. Os organizadores lhe haviam dado ambos os itens quatro dias antes, para conceder-lhe uma vantagem no jogo.
O rosto da jogadora refletiu-se na tela negra do aparelho. Embora seu rosto também estivesse envolto em bandagens, o vento havia afrouxado algumas enquanto ela dormia, expondo o topo de sua cabeça…
…e seus cabelos azulados, parecidos com algodão-doce.
Entre as oito jogadoras, apenas uma pessoa na ilha possuía aquele tipo de cabelo. Era a pupila de Hakushi, uma veterana experiente jogando sua quinquagésima partida — Essay.
Ela era a única e verdadeira culpada.
(22/22)
(0/22)
Aprendizado.
Essa única palavra resume perfeitamente a força de Essay como jogadora.
Ela absorvia conhecimento das outras pessoas e do passado, usando isso para guiar seus próximos passos. Ao buscar o sucesso, Essay se interessava muito mais em observar os esforços alheios do que em tentar descobrir tudo sozinha. Porém, isso ia além de um simples interesse — sua capacidade de aprendizado era verdadeiramente extraordinária. Era exatamente o tipo de aptidão que permitia a alguém trilhar com segurança o caminho elevado dos death games, que puniam severamente as jogadoras por um único erro.
Essay considerava Hakushi — a veterana de noventa e cinco jogos a quem pedira para ser sua mentora — uma fonte suprema de conhecimento. Sua principal estratégia de sobrevivência era imitar absolutamente tudo da professora. Ela aprendia não apenas com os ensinamentos diretos de Hakushi, mas também com o comportamento da mulher. Essay chegou a estudar as partidas passadas de sua mentora — incluindo Candle Woods, cujo vídeo obtivera de uma certa fonte. Naturalmente, o conhecimento que adquiriu incluía informações sobre um procedimento de modificação corporal pelo qual Hakushi havia passado, capaz de conceder a uma jogadora algo próximo da imortalidade, permitindo-lhe sobreviver até mesmo a ser esquartejado por um psicopata. Para seguir os passos de Hakushi, Essay precisou descartar quase a totalidade de seu corpo original, mas essa decisão nada significava para ela. Se quisesse se colocar acima da concorrência, teria de fazer sacrifícios maiores do que as outras.
Seus resultados brilhantes provaram que seu método estava correto. Ela acumulou clears com facilidade, ultrapassou tranquilamente o Muro dos Trinta e se viu à beira de concluir cinquenta jogos — um feito raro até mesmo na era pré–Candle Woods.
E agora, ela estava jogando seu quinquagésimo jogo.
Era um marco digno de celebração e proporcionou a Essay uma experiência inédita: ser informada das regras antes do início da competição. O jogo assumiria a forma de um mistério de círculo fechado e seria realizado em uma ilha isolada no meio do oceano. Uma assassina à espreita entre as participantes mataria jogadora após jogadora, noite após noite — e Essay fora escolhida para desempenhar o papel de culpada.
Para mitigar as desvantagens de ser um time de uma pessoa só, os organizadores concederam a Essay dois equipamentos. O primeiro era uma faca grande — um facão. O segundo era um pequeno dispositivo eletrônico. Aparelhos haviam sido implantados sob a pele de todas as jogadoras, exceto a culpada, e, ao usar o dispositivo, Essay podia localizar qualquer um deles a qualquer momento. Essa não era a única função do aparelho: ele também podia ser usado para ativar remotamente os implantes e enviar uma corrente elétrica pelo corpo das jogadoras, incapacitando-os temporariamente. Contudo, como precisava de um período de resfriamento de vinte e quatro horas após cada uso, Essay só podia matar no máximo uma jogadora por dia. Ela compreendia que essa limitação existe para tornar o jogo mais semelhante a um mistério de círculo fechado com uma sequência de assassinatos em série.
Quanto às regras mais detalhadas, o jogo duraria uma semana. A culpada, Essay, venceria se matasse pelo menos três jogadoras nesse período. Não havia método de assassinato prescrito, e ela era livre para usar ou não o dispositivo como quisesse. Entretanto, seus atos precisavam ser “assassinatos”, e não “desaparecimentos” — em outras palavras, ela precisava deixar os corpos onde as outras jogadoras pudessem vê-los. Após o término da semana, um navio de resgate preparado pelos organizadores chegaria, e a condição de vitória para todas as jogadoras que não fossem a culpada seria embarcar e escapar da ilha. Caso Essay não tivesse matado três ou mais jogadoras até então, os numerosos agentes a bordo do navio a executariam.
Essay refletiu sobre as regras após ser informada delas. O jogo duraria uma semana. No entanto, ela precisava matar apenas três jogadoras. A vantagem proporcionada pelo dispositivo só podia ser usada uma vez por dia. As regras não exigiam que ela mantivesse em segredo sua identidade como culpada, mas ela queria evitar a detecção sempre que possível —
Após alguma deliberação, Essay decidiu estrategicamente desperdiçar o primeiro dia.
Ela se tornaria a primeira vítima. Depois de induzir as outras a acreditarem que estavam jogando um jogo de fuga, ela esquartejou o próprio corpo naquela noite. Houve dois motivos para tornar sua morte tão exagerada. O primeiro foi causar uma forte impressão de seu falecimento nas competidoras; o segundo foi preparar o terreno para que pudesse extrair os implantes dos corpos de suas vítimas subsequentes sem levantar suspeitas. Apesar de arrancar os quatro próprios membros e até expor diversos órgãos, Essay sobreviveu graças ao procedimento pelo qual havia passado. Assim, escapou do radar das outras e conquistou liberdade.
A partir da noite seguinte, Essay passou a se envolver ativamente com o jogo.
Para seu primeiro alvo, escolheu Mitsuba. Como precisava matar apenas um número determinado de jogadoras, pareceria lógico atacar primeiro as mais fracas, mas os implantes inverteram completamente a dinâmica do jogo. Era importante eliminar as jogadoras mais fortes logo no início, antes que alguém percebesse a existência dos dispositivos. Foi por isso que Essay foi atrás de Mitsuba primeiro. Ela não esperava que Mitsuba tivesse removido os implantes, mas, quando a garota estremeceu de surpresa ao descobrir a identidade de sua atacante, Essay aproveitou a oportunidade para contra-atacar e garantir a vitória.
Para a segunda vítima, ela inicialmente havia decidido por Maguma. A mulher era incomparável em termos de força física, mas Essay possuía a ferramenta perfeita para anular esse poder. Sua decisão também foi influenciada pelo fato de conhecer bem as capacidades de Maguma, já que haviam jogado juntas em várias partidas anteriores. Contudo, como Maguma já havia removido os implantes, Essay recorreu ao plano B e passou a mirar Hizumi. Essay sabia que a garota era pupila de Kyara. Desde antes do jogo, ela planejara eliminar Hizumi caso surgisse a oportunidade, a fim de evitar uma repetição de Candle Woods. Hizumi descobrira a existência dos implantes, mas, como negligenciara remover aqueles em seus calcanhares, Essay não teve dificuldade em enviar a garota para o mesmo destino de sua mentora, Kyara.
Assim, ela conseguiu matar duas jogadoras, mas o terceiro assassinato seria o verdadeiro desafio. Pelos movimentos estranhos dos transmissores, Essay deduziu que as outras jogadoras haviam descoberto os implantes. Ela já confirmara que Maguma havia extraído os seus. Yuki e Airi provavelmente haviam feito o mesmo, enquanto Koyomi e Mozuku não demorariam a removê-los também. Sem esses dispositivos, a vantagem de Essay se reduzia ao seu único facão. Além disso, como havia se esquartejado recentemente, ela não estava em sua melhor forma física. Enfrentar as jogadoras restantes de frente seria imprudente.
Ainda assim, Essay já havia definido um plano de ataque.
Antes do início do jogo, ela imaginara incontáveis formas de como tudo poderia se desenrolar — incluindo um cenário em que alguém descobrisse a existência dos implantes, privando-a de sua vantagem. Como havia antecipado essa possibilidade, naturalmente já pensara em uma maneira de lidar com a situação. Ela não era ingênua a ponto de jogar confiando apenas nos benefícios que lhe foram concedidos.
Essay entrou na floresta. Pouco depois, alcançou o destino que pretendia. Afastou as plantas que usara como camuflagem e confirmou que o objeto que vinha construindo gradualmente desde o segundo dia do jogo ainda estava lá.
Era uma jangada para seguir rumo ao mar.
(1/22)
Quatro jogadoras estavam tendo uma discussão dentro de uma cabana.
(2/22)
Após o fim da reunião da manhã, as quatro jogadoras que permaneceram na cabana de Koyomi — Yuki, Airi, Koyomi e Mozuku — trataram de cumprir várias tarefas.
Koyomi e Mozuku extraíram os doze dispositivos implantados em cada uma de suas próprias partes do corpo. Yuki e Airi permitiram que as outras duas examinassem seus ferimentos, provando que não haviam se machucado de propósito como parte de um ardil. Tudo indicava cada vez mais que a culpada não estava entre elas.
Depois de confirmarem a inocência de todas, o grupo passou a refletir sobre a teoria absolutamente absurda que acabara de ser levantada.
“…Você está falando sério?”, perguntou Airi. “Você realmente acha que a Essay é a culpada?”
Yuki e Koyomi assentiram ao mesmo tempo.
Essay — ela havia sido a primeira vítima da ilha. As outras ficaram profundamente abaladas ao encontrar seu corpo esquartejado.
Yuki e Koyomi compartilharam a teoria de que Essay não estava realmente morta, mas vagando livremente pela ilha, orquestrando um massacre. Depois disso, Airi e Mozuku as encararam com evidente nervosismo.
“Mil por cento”, respondeu Yuki. “Pelo menos, é nisso que eu e a Koyomi acreditamos.”
“Mas, é que… a Essay foi, tipo…”, Mozuku tentou objetar.
Era um clichê clássico das histórias de mistério — a primeira vítima, presumida morta, acaba estando viva e bem. Porém, naquela situação, a teoria soava completamente absurda. Afinal, os músculos, ossos e até os órgãos de Essay haviam sido arrancados de seu corpo. As garotas não precisavam de um legista para saber que ela fora assassinada. No mundo comum, seria simplesmente inconcebível que alguém sobrevivesse a algo assim.
Ainda assim, havia fundamentos que sustentavam a hipótese.
“Existe uma jogadora que encontrei exatamente no mesmo estado e que ainda está viva”, explicou Yuki. “Minha mentora. Embora eu estivesse convencida de que ela tinha morrido…”
A mentora de Yuki, Hakushi, era uma jogadora lendária que teria morrido de forma brutal em Candle Woods — ou assim Yuki acreditava. Aparentemente, Hakushi ainda não havia se tornado apenas uma lenda. Apesar de ter se aposentado do ramo, parecia estar bem o suficiente para sair para beber.
“Koyomi”, perguntou Yuki, “a minha mentora… mexeu no próprio corpo?”
“Sim. Acho que ela fez o procedimento por volta do octogésimo jogo”, explicou Koyomi. “Ela tinha sido ferida tantas vezes que não teve outra escolha. Uma boa parte do corpo dela já não era humana. Com o tempo, a palavra ‘fatal’ começou a ter um significado diferente para ela. Ferimentos que matariam pessoas comuns já não tinham efeito. É chocante pensar que ela conseguiu sobreviver a danos tão devastadores…”
Yuki se lembrou da cena grotesca que vira em Candle Woods: o corpo de Hakushi, mutilado por Kyara. Ela se perguntava o que, afinal, sua mentora havia feito com o próprio corpo para sobreviver a um pesadelo daqueles — mas não tinha alternativa senão aceitar aquilo como um fato.
“Então a Essay também é mesmo outra pupila da minha mentora, né?”
“A própria Hakushi me contou sobre a Essay, e a Essay confirmou isso antes de vocês entrarem na minha cabana no primeiro dia.”
Koyomi lançou um olhar para Mozuku, que estava com elas naquela ocasião.
“…Sim, é verdade”, confirmou a garota.
“Sua mentora está viva”, afirmou Koyomi. “E há uma grande chance de que a pupila dela, Essay, também esteja viva.”
Yuki abaixou o olhar para a mão esquerda. Os dedos do meio até o mindinho eram artificiais. Aquela era a única parte de seu corpo que ela havia substituído. Ela não tinha conhecimento de procedimentos de modificação corporal capazes de conceder imortalidade.
No entanto, isso não significava que o mesmo valesse para as outras pupilas de sua mentora.
Hakushi muito provavelmente poderia ter revelado seus segredos a Essay.
“Tudo faz sentido quando você pensa bem”, disse Koyomi. “Por que a Essay, a jogadora com o maior número de jogos e o alvo menos provável, foi escolhida como a primeira vítima? Porque ela é a culpada. Ela deve ter planejado escapar das suspeitas forjando a própria morte. Por que o corpo dela desapareceu de repente? Porque ela ainda estava viva. Enquanto conversávamos, ela juntou suas coisas e foi embora sozinha. Por que o jogo ainda não acabou? Porque a culpada — Essay — não está realmente morta.”
Koyomi elevou ainda mais a voz. “Só houve duas vítimas até agora. Mais uma jogadora precisa morrer para o jogo acabar.”
A cabana ficou tão silenciosa que Yuki conseguia ouvir o zumbido da geladeira.
“Seria prudente ficarmos juntas”, disse Airi após alguns instantes. “Independentemente de a Essay ser ou não a assassina. Já confirmamos praticamente que a culpada não é nenhuma de nós quatro, então devemos agir como um grupo para nos protegermos.”
Yuki e Koyomi assentiram, concordando com o plano.
“Mas…”
A jogadora restante, Mozuku, começou a dizer algo.
“O que foi?”, incentivou Koyomi.
“Ah… não é nada”, Mozuku recuou, murmurando.
Yuki sabia exatamente o que a garota estava prestes a mencionar: o jogo provavelmente terminaria assim que mais uma jogadora morresse. Isso significava que, se três delas conspirassem para amarrar e oferecer a quarta à culpada, garantiriam a vitória. Nenhuma das quatro era a culpada, mas esse fato não as tornava automaticamente aliadas.
Ainda assim, parecia haver um acordo tácito para não tocar no assunto. Mesmo considerando esse risco, os benefícios de trabalhar juntas eram grandes. Essay poderia hesitar em enfrentar quatro oponentes de uma vez e acabar mirando Maguma, a loba solitária. Além disso, elas ainda não tinham certeza absoluta de que Essay era a assassina. Era possível que Maguma ou até uma parte externa fosse a culpada — e que o jogo já tivesse terminado após a morte de três jogadoras.
Yuki realmente esperava que esse fosse o caso.
(3/22)
O grupo decidiu se entrincheirar dentro de uma cabana.
Embora fosse perigoso permanecer em um local óbvio, era a única forma de as quatro ficarem juntas em um mesmo lugar. Acampar na floresta seria ainda mais chamativo e, como o plano era permanecer em um único ponto por um longo período, o risco de serem descobertas era praticamente o mesmo em qualquer lugar.
As jogadoras decidiram se abrigar na cabana de Koyomi, onde já haviam se reunido antes. As outras três voltaram primeiro às próprias cabanas para buscar comida, bebidas, roupas de banho extras e outros itens necessários. Yuki, minimalista e meio desleixada como era, levou apenas o que cabia em uma bolsa de mão, enquanto Airi e Mozuku trouxeram várias vezes mais coisas — especialmente Mozuku, que chegou a retirar uma gaveta inteira da cômoda e enchê-la até o topo. Yuki ficou bastante curiosa sobre o que havia ali dentro, mas Mozuku cobriu a gaveta com um lençol, escondendo o conteúdo. A consciência de Yuki a impediu de puxar o pano para espiar.
A estratégia era passar o restante da semana na cabana, revezando-se na vigília. Essay não arrombou uma janela com seu corpo imortal como se estivesse encenando um filme de zumbis, e o grupo não sofreu uma traição devastadora em que três jogadoras abandonassem a quarta enquanto esta dormia.
E assim, o quarto dia terminou sem incidentes.
(4/22)
Yuki abriu a porta da cabana e saiu para o ar livre, sob o céu noturno.
No instante em que pisou do lado de fora, abraçou a si mesma com força ao sentir o ar gelado. Ela havia pegado emprestado um dos casacos curtos de Koyomi, mas aquilo não era suficiente para protegê-la do frio. Assim, apenas um segundo depois de começar seu turno como vigia, Yuki já desejava que a próxima pessoa viesse logo substituí-la.
Ela ergueu o olhar e viu um céu estrelado deslumbrante. Como o ambiente estava livre de luz artificial, o brilho natural das estrelas chegava à Terra praticamente sem obstruções. Yuki não entendia nada de estrelas — desde que nascera, vivera apenas em áreas urbanas, e livros de astronomia jamais haviam despertado seu interesse na infância. Sua única impressão do céu acima era simples: era bonito. Mais cedo, porém, ela havia recebido uma pequena aula de Airi, que aparentemente tivera exatamente esse tipo de infância. Graças a isso, Yuki conseguiu localizar a Ursa Maior, junto com a estrela para a qual ela apontava, a Estrela Polar.
O céu noturno cintilante não oferecia apenas uma bela visão, mas também um benefício prático: era possível medir a passagem do tempo pelo movimento das estrelas. Como não havia nada dentro da cabana que funcionasse como relógio, durante a noite as jogadoras usavam as estrelas para gerenciar os turnos de vigia. Era um método curioso de marcar o tempo — ao mesmo tempo romântico e primitivo. Enquanto permanecia no ar gelado, o único desejo de Yuki era que, por algum capricho do destino, as estrelas começassem a se mover mais rápido pelo céu.
Cortando essa linha de pensamento tola, Yuki voltou a se concentrar em suas funções.
Ela manteve os olhos atentos à área ao redor da cabana. Não viu Essay — nem qualquer outro sujeito suspeito, aliás. Yuki fez mais do que apenas observar; ela também patrulhou os arredores, mantendo-se alerta a qualquer anomalia. Depois de completar dez voltas ao redor da cabana, já não precisava pensar conscientemente em caminhar, então usou sua capacidade mental livre para refletir sobre outras coisas.
Era o fim do quarto dia. Como o jogo duraria apenas uma semana, restavam apenas três dias. Para ser mais precisa, como o jogo havia começado pela manhã, ainda faltavam pouco mais de três dias. Elas já tinham passado da metade.
No fim das contas, nada havia acontecido durante o dia. O que Essay estaria fazendo? Estaria elaborando um plano de ataque após descobrir que quatro jogadoras estavam unidas? Ou teria ido atrás de Maguma, julgando irrealista enfrentar o grupo em número, e as duas estariam lutando naquele exato momento?
Yuki esperava que fosse a segunda opção.
“…………”
Ela continuou vigiando. Tirando a temperatura, seu tempo do lado de fora foi tranquilo. Os muitos eventos que haviam ocorrido nos últimos dias passaram por sua mente como uma estrela cadente.
Pensando bem, Yuki não tinha muito do que se orgulhar naquele jogo. No segundo dia, Mitsuba fizera dela uma tola; no terceiro, ela caíra em uma armadilha de Maguma. Também não havia percebido a existência dos implantes por conta própria, precisando que Airi praticamente desenhasse a resposta para ela. E, embora estivesse na melhor posição possível para perceber que Essay estava viva, a ideia sequer lhe passara pela cabeça até o quarto dia.
Em um jogo repleto de veteranas experientes, Yuki vinha ficando para trás o tempo todo.
E então havia Essay — sua colega pupila, uma jogadora experiente em seu quinquagésimo jogo.
Yuki não tinha escolha senão reconhecê-la. Não conseguia reprimir completamente o pensamento que surgia em sua mente.
Por favor, não me faça lutar contra a Essay.
Ela esperava que Essay tivesse como alvo Maguma. Mais do que isso, esperava que a teoria de que Essay era a assassina estivesse errada. Idealmente, uma terceira parte seria a culpada, e o jogo já teria terminado pelo simples fato de três jogadoras terem morrido.
Esses pensamentos passaram por sua cabeça.
“…Eu sou patética”, murmurou Yuki.
Esperar e rezar para que tudo dê certo? Não é assim que uma jogadora age. Não foi você mesma que estava preocupada com o fato de as coisas estarem fáceis demais até alguns dias atrás? É assim que você reage diante de uma oponente um pouco mais formidável? Não seja ridícula. Você está ignorando completamente os ensinamentos da Mestra.
Por que não aprender com sua colega pupila?
Aprenda com a pessoa que abriu o próprio corpo—
“……?”
Yuki franziu as sobrancelhas.
(5/22)
A partir daí—
Para a ansiedade de Yuki, o tempo continuou a passar sem incidentes.
O quinto dia chegou. Tirando o fato de que a convivência em grupo começava a ficar um pouco desgastante, não houve problemas.
O sexto dia chegou. Maguma não apareceu na reunião da manhã. Será que Essay a havia matado, ou Maguma simplesmente não viu necessidade de comparecer? Como Maguma poderia ser a verdadeira culpada, ela poderia ter faltado de propósito para atrair o grupo para fora; assim, as quatro jogadoras continuaram entrincheiradas na cabana.
O sétimo dia chegou. O grupo começou a se perguntar se havia entendido as regras do jogo de forma errada. Será que, no primeiro dia, estavam certas sobre precisar construir uma jangada para escapar da ilha? Será que estavam caindo exatamente na armadilha de Essay ao permanecerem juntas como um grupo de quatro? Embora uma discussão acalorada tenha surgido entre elas, no fim o grupo decidiu manter o estado atual das coisas. Raciocinaram que, já tendo chegado ao sétimo dia, não seria tarde demais agir depois de ver o que o dia seguinte lhes reservaria.
Fora essa discussão, nada aconteceu.
E, finalmente, as jogadoras alcançaram a marca de uma semana.
Na manhã do oitavo dia, Yuki foi acordada com um sacolejo.
(6/22)
Yuki saltou da cama, lançando o cobertor com força para o ar. Aquilo bloquearia a visão de quem quer que a tivesse sacudido para acordar. Usando apenas a força das pernas, Yuki se levantou sobre a cama compartilhada pelas quatro jogadoras e adotou rapidamente uma postura de combate.
No entanto, seus esforços foram inúteis, pois a pessoa ali não era Essay.
“Q-qual é a ideia?”
À frente de Yuki estava alguém se remexendo sob o cobertor que ela acabara de arremessar. Após um breve momento, a garota conseguiu tirá-lo, revelando o rosto.
Era Mozuku.
“…Bom dia”, Yuki cumprimentou. No mesmo instante, um alívio tomou conta dela.
Yuki havia baixado a guarda. Como pôde não acordar antes de a garota tocá-la? Embora não fosse a primeira vez naquela semana que alguém a acordava de surpresa, aquilo era um novo fundo do poço. Ela havia se tornado descuidada demais nesse período sem incidentes.
Ela examinou a cabana. Não havia ninguém lá dentro além dela e de Mozuku. Como o grupo havia adotado um sistema em que sempre havia uma pessoa do lado de fora de vigia, não era estranho faltar alguém, mas onde estava a outra? Trancada no banheiro, talvez?
“Eu, ah… foi mal”, Yuki se desculpou com Mozuku. “Já é a hora do meu turno? Desculpa ter feito você me acordar.”
“Oh, não, não é isso…”
Mozuku fez uma expressão aflita, aparentemente tentando se lembrar do que precisava dizer. Dois segundos depois, como se fosse substituir todo o ar do corpo, os olhos, as narinas e a boca de Mozuku se abriram ao mesmo tempo.
“Ah, é mesmo! Eles vieram nos buscar!”
Essas palavras dissiparam instantaneamente o resto da sonolência de Yuki.
(7/22)
Yuki correu para fora atrás de Mozuku, seguindo a liderança da garota enquanto ela escalava a parede externa da cabana até o telhado.
Airi e Koyomi já estavam lá.
“Finalmente acordou?”, Koyomi perguntou.
Sem sequer cumprimentar, Yuki pressionou Koyomi por respostas. “É verdade? Nosso transporte para fora da ilha realmente chegou?”
“Sim. Olha ali.”
Yuki se virou na direção que Koyomi apontava.
O telhado da cabana oferecia uma visão mais ampla do mar ao redor. Yuki conseguia até enxergar além da floresta, o oceano do outro lado da ilha. Embora ainda não pudesse ver nenhum sinal de terra, havia algo no horizonte que não estava lá uma semana antes.
Um navio.
Da posição de Yuki, ele parecia não ser maior que uma semente de papoula, mas era inconfundivelmente um navio.
“Você tem que agradecer à Airi”, disse Koyomi, agora apontando para ela. “Ela estava de vigia esta manhã e ficou observando daqui do telhado. Concluiu que um navio teria que vir pelo outro lado da ilha.”
“As águas deste lado são rasas”, explicou Airi. “Nenhum navio conseguiria se aproximar. Faz sentido que ele venha pelo lado oposto à praia.”
Yuki manteve o olhar fixo no barco. Ele parecia seguir diretamente em direção à ilha. Não havia chance de um navio aleatório e sem relação alguma estar passando por ali naquele momento, o que significava que tinha sido enviado pelos organizadores.
“Então, no fim das contas, nada aconteceu”, comentou Koyomi. “Será que a gente só estava se enganando achando que a Essay ainda estava viva?”
“Difícil dizer…”, respondeu Yuki.
Era inegável que um navio havia vindo buscá-las. No entanto, o jogo ainda não havia terminado. Talvez Essay estivesse planejando eliminar alguém no momento em que todos baixassem a guarda, a poucos passos da linha de chegada. Elas precisavam continuar atentos.
“Será que deveríamos mesmo estar aqui?”, perguntou Mozuku. A pergunta podia soar bastante profunda, dependendo de como fosse interpretada. “O navio não consegue chegar até esta área, certo? Isso quer dizer que não seremos resgatadas a menos que vamos para o outro lado?”
“Não… Eles certamente vão mandar um bote salva-vidas ou algo assim, não vão?”, Airi apresentou um argumento contrário. “O outro lado é cheio de penhascos, então também seria difícil para eles desembarcarem lá. Aposto que usarão um bote para chegar até nós.”
“A Essay ainda está à solta”, acrescentou Koyomi. “Eu ficaria apavorada de sair desta cabana. Seria prudente esperar um pouco e ver como as coisas se desenrolam.”
Yuki tinha a mesma opinião. Se estivesse no lugar de Essay, atacaria no momento em que as jogadoras tentassem sair da cabana em direção ao navio. Como já haviam decidido há muito tempo adotar uma estratégia de esperar para ver, Yuki relutava em deixar a área antes da última hora.
Essa relutância certamente não vinha do medo de Essay — ou pelo menos era isso que ela dizia a si mesma.
(8/22)
Dentro do navio, a agente de Essay balançava de um lado para o outro, acompanhando o movimento da embarcação.
(9/22)
A agente de Essay estava a bordo do navio de resgate enviado pelos organizadores do jogo. A embarcação avançava a toda velocidade em direção à ilha isolada onde Cloudy Beach estava sendo realizado, para recolher as jogadoras sobreviventes.
Normalmente, navios de resgate eram pequenos e leves, priorizando a velocidade, mas aquele que transportava a agente de Essay era consideravelmente maior. Isso porque precisava cumprir várias funções além de simplesmente resgatar jogadoras. Por exemplo, o navio estava equipado com instalações médicas, para garantir a sobrevivência de jogadoras que tivessem sofrido ferimentos graves, além de botes infláveis para alcançar as águas rasas da ilha. Também havia soldados armados a bordo, aguardando para executar Essay caso ela falhasse em completar sua missão.
Havia agentes no navio também, prontos para receber de volta suas jogadoras ao fim do jogo.
A agente de Essay caminhava por um corredor da embarcação. Enquanto estava em sua cabine mais cedo, fora informada de que o navio chegaria em breve e recebera instruções para cumprir suas funções. Assim, com um colete salva-vidas por cima do terno preto, ela apressou o passo em direção ao local designado. Os outros sete agentes a bordo provavelmente faziam o mesmo.
Ao chegar a um cruzamento de quatro corredores, a agente parou subitamente. Um grupo de pessoas havia alcançado o caminho que ela pretendia seguir antes dela. Vestidos inteiramente de preto, com capacetes, óculos de proteção, luvas, botas e diversas outras peças de armadura, eles exalavam uma aura ameaçadora. Eram os soldados armados encarregados de executar Essay.
Enquanto aguardava que eles passassem, a agente murmurou para si mesma:
“Isso aí não vai servir pra nada.”
Ela se referia às armas robustas que cada soldado carregava. Eram submetralhadoras de aparência sinistra — do tipo que alguém pensaria que arrancaria um dedo se fosse tocada com a mão nua; do tipo que valeria uma fortuna mesmo como arma de modelo; do tipo que faria as pessoas morrerem de choque só de apontá-la para elas, sem sequer disparar.
Essas armas são inúteis, pensou a agente. Vocês só vão precisar usá-las se a Essay falhar. E, sinto muito, mas isso não vai acontecer. Não existe nenhuma jogadora viva que tenha chance contra ela. Ela é mais determinada, mais talentosa e mais cautelosa do que qualquer outra. Um mundo em que ela cai em chamas é um mundo podre.
Havia muita coisa que ela gostaria de dizer, mas, por estar apavorada demais para verbalizar qualquer pensamento diante de um grupo de soldados armados, manteve suas opiniões afiadas para si mesma. O único comentário que havia feito em voz alta fora aquele murmúrio anterior, abafado pelo som das botas dos soldados e que provavelmente não chegara aos ouvidos de ninguém.
Era isso que ela pensava — mas, ao contrário—
“Não. Eu vou usar uma.”
A resposta ecoou depois que os soldados desapareceram do campo de visão da agente.
A voz vinha de trás dela.
“Hã…?” Ela se virou.
Ali estava Essay.
(10/22)
“O qu—?!”
Antes que a agente pudesse gritar, uma mão cobriu sua boca.
“……???”
A agente observou atentamente a pessoa à sua frente enquanto murmurava.
Era Essay. Embora as bandagens enroladas em seu corpo dificultassem a identificação, o físico, o cabelo despontando do topo da cabeça e a voz de antes pertenciam claramente a ela.
“Silêncio. As coisas vão ficar complicadas se eu for pega.” Era, sem dúvida, a voz de Essay vindo debaixo das camadas de pano. Com a mão livre, ela ergueu um dedo até a boca enfaixada e fez “Shhh”.
A agente assentiu. Depois que Essay retirou a mão, a agente perguntou em voz baixa:
“É… então… o que você está fazendo aqui?”
Essay estava viva. Isso era esperado e nada surpreendente. Ainda assim, a agente não conseguiu deixar de se chocar com o fato de Essay ter aparecido diante dela parecendo uma múmia — e, mais ainda, por ter conseguido embarcar no navio antes mesmo de ele chegar à ilha.
“Tenho alguns assuntos para resolver aqui, então tomei a liberdade de embarcar mais cedo”, respondeu Essay.
Seu corpo estava completamente seco. Isso significava que ela havia remado até ali em uma jangada? Será que ela tinha mesmo embarcado em um navio em movimento sem sequer uma escada? Não restava dúvida na mente da agente de que sua jogadora era um monstro.
“Bem, é… acho que devo lhe dar parabéns por concluir cinquenta jogos”, disse a agente.
“……?” Essay inclinou a cabeça, confusa. “Ah, não. Isso ainda não aconteceu. Até agora, matei apenas duas jogadoras, então ainda não completei o jogo.”
“Hã? Então por que você está aqui…?”
“Naturalmente, para garantir que eu mate mais uma. Você não me ouviu? Eu vou ‘usar uma para mim’.”
Essay tinha dito isso. E a agente intuiu o significado por trás daquelas palavras.
“Não me diga… você veio a bordo para obter uma arma?”
“Sim”, respondeu Essay, com naturalidade.
“Você não pode fazer isso! Esses soldados estão aqui para te executar, sabia? Se descobrirem que você embarcou no navio sem cumprir as condições para concluir o jogo—”
“Não vejo problema. O jogo deve terminar depois que uma semana se passar e as jogadoras forem resgatadas. Como isso ainda não aconteceu, esses soldados não têm motivo para me matar, mesmo que me vejam. Não é assim?”
Talvez seja verdade…, pensou a agente. “Ainda assim, será um problema se você puser as mãos em alguém que trabalha para os organizadores.”
“Não acredito. As jogadoras são livres para usar qualquer coisa presente no local do jogo como bem entenderem. E, neste caso, podemos considerar o local não apenas a ilha, mas também as águas ao redor. Como este navio entrou na área do jogo, ninguém a bordo pode razoavelmente se opor a qualquer coisa que lhes aconteça.”
A agente ficou sem palavras. Seu silêncio indicava tanto a incapacidade de formular um contra-argumento quanto a incredulidade diante das intenções de sua jogadora.
“Estou com pressa, então, com licença.” Essay fez um pequeno aceno de cabeça.
“C-claro, tudo bem…” A agente assentiu de volta. “…Você realmente bolou um plano insano, hein?”
Quem, afinal, pensaria em roubar armas dos organizadores para tentar concluir um jogo?
Os lábios de Essay se moveram sob as bandagens. Embora sua expressão estivesse coberta, ela certamente estava sorrindo.
“É do meu estilo contornar as regras em vez de segui-las.”
(11/22)
Yuki perdeu o navio de vista atrás da floresta à medida que ele se aproximava da ilha. O grupo desceu do telhado da cabana e aguardou a chegada da equipe de resgate.
Pouco tempo depois, um bote inflável surgiu de uma das extremidades da praia, provavelmente lançado a partir do navio maior. Ele seguia diretamente em direção à cabana onde Yuki e as outras aguardavam.
Yuki observou atentamente o bote. Aparentemente, alguns botes modernos eram equipados com motores, mas aquele que se aproximava da ilha era operado manualmente. A pessoa que remava estava vestida inteiramente de preto, mas não usava o traje característico dos agentes do jogo; a roupa era mais robusta, semelhante ao uniforme de uma força especial militar. O capacete impedia as jogadoras de confirmar sua identidade.
“Mostre o rosto!” A voz de Koyomi ecoou pela praia. “Não nos trate como crianças. Não vamos sair com um estranho!”
Os braços do remador pararam por um breve instante. Mas foi só isso. Ele continuou a remar, como se nada tivesse acontecido.
Ao perceberem aquela reação claramente suspeita, as quatro jogadoras se afastaram umas das outras, preparando-se para o que estivesse por vir. Dependendo da arma empunhada pelo oponente, todas poderiam ser abatidas de uma só vez se permanecessem juntas.
“Vamos deixar que chegue um pouco mais perto”, disse Airi. “Se ainda assim não mostrar o rosto, fugimos para a floresta.”
As outras três assentiram em concordância.
O grupo acompanhava atentamente cada movimento do remador. Embora todos estivessem com os olhos fixos na figura misteriosa, a pessoa não olhou de volta. Apenas continuou remando em silêncio, sem demonstrar qualquer intenção de remover o capacete e revelar o rosto.
No exato momento em que Yuki sentiu o perigo…
…a pessoa de preto fez seu movimento.
Ela retirou um objeto da parte traseira do bote, que estava coberto por um pano. Arremessou-o para a frente com tanta força que o tecido voou, revelando a identidade do objeto por baixo.
Mesmo à distância, era imediatamente reconhecível como uma arma de aparência sinistra. E, claro, o cano estava apontado para a cabana.
Com a coronha apoiada no ombro, o remador se posicionou para atirar.
As quatro jogadoras reagiram ao mesmo tempo.
(12/22)
Yuki saltou para o lado. Airi se protegeu atrás de um canto da cabana. Koyomi se agachou onde estava. Mozuku entrou pela janela aberta.
Vários disparos ecoaram.
Só isso? Yuki se perguntou ao tocar o chão. Armas semelhantes em mangás e filmes sempre disparavam em rajadas rápidas, com um ratatatatatá, então ela havia esperado — e, em parte, até desejado — vivenciar algo assim. Pelo visto, porém, ser alvejada não era tão exagerado na vida real. E, como aquilo era o mundo real, ninguém havia se ferido. Yuki recuperou o equilíbrio e, ao disparar em direção à floresta, viu que Airi, Koyomi e Mozuku já estavam fugindo.
“Eu não acredito nela!”, Yuki gritou enquanto corria. “Ela pegou essa arma do navio?!”
A identidade da agressora era óbvia — Essay. Ninguém mais lançaria um ataque daquele tipo.
Ela só podia ter obtido o equipamento no navio de resgate que haviam avistado. Se a culpada tivesse acesso a uma arma dessas desde o início, certamente a teria usado antes. Havia apenas uma explicação plausível para ela começar a usá-la naquele momento: a arma não estava na ilha até instantes atrás. Os organizadores provavelmente a trouxeram para executar a culpada, e Essay deve tê-la roubado do navio de resgate.
Mais disparos soaram atrás delas.
Yuki não conseguiu evitar olhar para trás. Felizmente, ela e as outras três estavam ilesas. A areia levantava fumaça em vários pontos. Não era que Essay fosse uma péssima atiradora; ela simplesmente estava longe demais. Como o grupo se mantivera cauteloso, Essay não conseguira se aproximar o suficiente para ter um bom alcance.
“O-o que a gente faz agora?!”, Mozuku gritou. A garota carregava algo nas mãos, que devia ter pego na cabana.
“O que mais podemos fazer além de correr?!”, respondeu Koyomi. “Mesmo em maior número, não temos chance contra uma arma! A partir de agora, nosso time está dissolvido!”
Koyomi balançava os braços, correndo a toda velocidade. Como havia se agachado na água há pouco, as mangas de seu casaco curto estavam encharcadas, espalhando respingos ao redor.
“Quem for o alvo, sem ressentimentos! Fechado?!”
(13/22)
Depois de saltar do bote inflável, Essay atravessou a praia em disparada, com a submetralhadora em mãos.
Idealmente, ela teria preferido matar uma jogadora ali mesmo na areia, mas sabia desde o começo que isso seria improvável. Aquelas quatro eram veteranas de jogos mortais. Se fossem do tipo que cairia numa emboscada surpresa como aquela — que, aparentemente, mal havia sido uma surpresa —, o jogo teria sido fácil desde o início.
Seus alvos quase certamente haviam percebido a chegada do navio. Por isso tinham fugido para a floresta. Se conseguissem atravessar as árvores até o outro lado da ilha, seria o fim para Essay. Ela não permitiria que isso acontecesse.
Essay avançou pela floresta atrás das quatro. O terreno trazia vantagens e desvantagens. Como não faltavam obstáculos capazes de bloquear balas, a ameaça de sua arma diminuía bastante. Por outro lado, como era difícil se mover em silêncio, Essay podia determinar facilmente as rotas de fuga das outras. Além disso, ela não vestia nem traje de banho nem fantasia de múmia — estava totalmente equipada. Em comparação às quatro, que estavam praticamente nuas e precisavam se desviar de cada galho no caminho, Essay tinha vantagem em agilidade. Não seria difícil alcançá-las.
A questão era — quem atacar?
Ela não precisou pensar — Mozuku.
A garota estava em seu décimo jogo, sendo a menos experiente do grupo. Presumivelmente, isso também a tornava a mais fácil de matar. Muito provavelmente, Mozuku ainda não aprendera a se esquivar de balas ziguezagueando entre as árvores, nem desenvolvera a técnica de detectar hostilidade e prever com precisão o momento dos disparos. Claro, com o equipamento atual, Essay quase certamente poderia matar qualquer uma que encontrasse, mas a prática padrão era ir atrás do alvo mais fácil. Quando ainda contava com os implantes, Mozuku não era prioridade — mas isso não se aplicava mais. A vida da garota seria dela.
Essay alcançou Mozuku rapidamente.
Mas, ao contrário do que supusera, a garota parecia capaz de detectar a presença de outros; ela se virou para encarar a perseguidora.
Aproveitando o instante em que o ritmo de Mozuku diminuiu, Essay apontou o cano da arma para a garota —
— e abriu fogo.
Agora que estava perto o suficiente, mudou a arma para o modo totalmente automático. Mozuku se jogou atrás de uma árvore grande próxima, mas não antes de Essay confirmar que uma bala havia atingido sua perna.
“……!!”
Mozuku soltou um grito incoerente.
Essay havia acertado. Mozuku não podia mais fugir. Nessas circunstâncias, finalizar o trabalho seria moleza para Essay. Ela chegou a se sentir confiante o bastante para desviar o olhar e trocar o carregador vazio, mas…
…foi forçada a parar ao sentir hostilidade vindo da sua frente.
Essay ergueu o olhar. Mozuku espiava por trás da árvore, expondo cerca de 70% do corpo. As mãos estavam juntas — mas não em oração.
Elas envolviam um objeto com formato de arma.
O dedo de Mozuku no gatilho se contraiu.
(14/22)
Essay desviou por reflexo.
Sua mente ficou presa no quão pouco barulho a arma fizera no momento em que disparara. Por curiosidade — e também pelo impulso gerado ao se esquivar do ataque —, Essay girou parcialmente o corpo e viu o que havia atingido a árvore atrás dela.
Eram os dispositivos do tamanho de pílulas que haviam sido implantados nos corpos das jogadoras.
Embora apenas um disparo tivesse ecoado, dois implantes haviam sido lançados. Fios se estendiam a partir de cada um deles, ligando-os à arma nas mãos de Mozuku.
A arma era um taser.
Não só isso — era do tipo que disparava eletrodos. Essay não havia recebido um desses como culpada, nem existia qualquer item parecido no navio de resgate. Considerando que a arma utilizava os dispositivos implantados, ela só podia ter vindo de um lugar.
“— Você fez isso?”
Mozuku não respondeu à pergunta surpresa de Essay.
Observando melhor, dava para ver que a arma havia sido montada de forma bastante rudimentar, sem qualquer refinamento artesanal. Era, sem dúvida, feita à mão. As cabanas da ilha tinham fornecimento de eletricidade, além de vários eletrodomésticos. Para alguém com o conhecimento adequado, não seria impossível fabricar algo assim do zero.
Essay se lembrou do que Mozuku fizera durante o jogo. Embora não tivesse observado a garota diretamente, ela acompanhara o movimento de seus transmissores. Durante todo o segundo e o terceiro dia, Mozuku permanecera em sua cabana. Essay chegara a se perguntar por que a garota não estava fazendo nada, mas agora tudo fazia sentido. Mozuku havia se trancado ali para construir aquela arma. Como ela fora feita usando os implantes, a garota só podia tê-la concluído no quarto dia ou depois disso — mas provavelmente concebera a ideia de criar uma arma muito antes, talvez logo após o início do jogo.
Enquanto Essay permanecia ali, paralisada pelo choque, Mozuku jogou sua arma de lado — e sacou uma segunda.
Antes que ela pudesse mirar, Essay se moveu. Não para frente, mas para trás. Ela imitou a ação anterior de Mozuku e se protegeu atrás de uma árvore. Mozuku aparentemente percebeu que atingir Essay naquela posição seria impossível, então nenhum disparo soou, e Essay não foi atingida na perna como Mozuku fora.
Essay não havia antecipado esse desdobramento. Como Mozuku poderia ter feito uma arma daquelas? Essay se considerava bastante inteligente, mas nem mesmo ela seria capaz de algo assim. A situação foi um lembrete brutal de que não se deve julgar um livro pela capa.
Em seguida, Essay se perguntou o quão poderosa aquela arma realmente era. Enquanto armas de fogo improvisadas geralmente eram inferiores às produzidas em massa, o oposto costumava valer para tasers. Os modelos comerciais, voltados à autodefesa, eram propositalmente limitados em potência, mas a arma nas mãos de Mozuku provavelmente não fora criada com esse cuidado. Um único disparo poderia causar morte instantânea. Embora Essay tivesse modificado seu corpo com grande cautela, ele não era um isolante perfeito. Um choque elétrico poderia ser tão letal — ou até mais — para ela quanto para uma pessoa comum.
Concluindo que não havia outra escolha, Essay recuou ainda mais.
Ela se afastou cada vez mais, fugindo da cena. Com sua razão para atacar aquela garota completamente anulada pela descoberta de que Mozuku tinha uma arma, Essay decidiu que o mais sensato era cortar suas perdas.
Ela não sentiu pânico. O jogo ainda não havia terminado. Havia mais do que tempo suficiente para caçar outra jogadora.
(15/22)
A presença hostil de Essay desapareceu.
Em resposta, Mozuku desabou no chão. Ela já estava sentada, mas agora escorregou ainda mais, até ficar caída de bruços.
Seus olhos se voltaram para o “revólverzinho” em sua mão esquerda. Ela puxou o gatilho de forma displicente. Com um fraco pew!, dois pequenos dispositivos que antes estavam implantados em seu corpo voaram para fora.
“…Ainda bem…”, murmurou Mozuku, saboreando a alegria de estar viva.
Então, ela jogou fora seu trunfo — uma arma de brinquedo que não fazia nada além de disparar dispositivos.
Tudo não passara de um enorme blefe. Um taser em forma de arma de fogo que disparava eletrodos? Embora Mozuku tivesse desejado desesperadamente criar um, seus esforços haviam fracassado. Ela havia estudado engenharia elétrica na faculdade, mas abandonara o curso no segundo ano, carecendo do conhecimento especializado necessário para construir algo assim. Nunca havia se arrependido tanto de não ter estudado mais quanto naquele momento.
Sem outra opção, Mozuku decidira blefar, criando um objeto que se parecesse com um taser. Como Essay usara choques elétricos para paralisar e matar suas vítimas, ela precisava estar, ao menos subconscientemente, ciente do perigo que os implantes representavam. Foi por isso que Mozuku apostara que Essay recuaria — e, felizmente, o cenário se desenrolara exatamente como planejado. Nem mesmo uma jogadora do clube dos cinquenta jogos conseguia ler a mente de suas inimigas.
Mozuku virou-se de costas e colocou a mão sobre o coração acelerado. O que sentia era, em sua maior parte, medo — uma reação natural após enganar uma jogadora muito acima do seu nível. Ao mesmo tempo, porém, Mozuku não podia negar uma certa sensação de euforia. Sua alma parecia flutuar, tomada por algo que só podia ser descrito como uma descarga de dopamina. Ela havia tropeçado em algo que sempre lhe escapara. Depois de abandonar a faculdade e a sociedade em geral, fora arrastada inexoravelmente para a indústria dos jogos mortais, mas só agora, naquele momento, descobrira algo que podia chamar de seu ponto forte — um estilo de jogo baseado em “trapaça”.
Enquanto refletia sobre isso, seu pulso voltou ao normal. Ela se apressou em direção ao navio de resgate, arrastando atrás de si a perna ferida.
(16/22)
Tiros.
Yuki foi tomada pelo terror enquanto corria pela floresta.
Ela os ouviu com muita clareza, o que significava que Essay tinha de estar perto — extremamente perto. Alguém tinha sido atingido? O que havia acontecido? Essay tinha conseguido matar uma jogadora? O jogo tinha acabado?
Os tiros poderiam ter cessado por inúmeros motivos, mas Yuki continuou correndo. Ir em direção ao navio era a melhor estratégia. Ela vinha seguindo o caminho mais curto até o lado oposto da ilha, mas o som dos disparos a fez mudar de rota e fazer um pequeno desvio. Continuou avançando na direção do navio, ao mesmo tempo em que se esforçava para se afastar do barulho.
E, ainda assim…
“……!!”
Pouco depois, Yuki sentiu uma malícia no ar.
Ela saltou instantaneamente para uma manobra evasiva.
Desviou por um triz. Algo passou zunindo por seu cabelo em alta velocidade, vindo de trás. Para proteger o corpo, ela se agarrou como um besouro-veado à maior árvore que conseguiu encontrar.
Yuki ficou impressionada consigo mesma. Sempre confiara em sua capacidade de detectar hostilidade, mas, para sua própria surpresa, descobriu que também conseguia desviar de balas. Tentou acalmar o coração acelerado, sem saber se o pulso elevado vinha da alegria ou do medo.
Ela espiou rapidamente ao redor do tronco da árvore, na direção de onde o tiro viera. Essay não estava em lugar nenhum. A garota estaria longe demais para ser vista ou estaria escondida? De qualquer forma, aquela bala não fora um tiro perdido. Yuki sentira uma intenção assassina direcionada diretamente a ela, cortando o ar com mais ferocidade do que qualquer projétil.
“…Acho que vou ter que fazer isso…”, murmurou Yuki, encostando a testa no tronco da árvore.
Ela tivera um pressentimento de que tudo acabaria assim. Não era o desfecho que desejara, mas sabia que seu destino era inevitável.
O jogo não terminaria sem um confronto entre Yuki e sua colega de tutela, Essay.
(17/22)
Essay estalou a língua, irritada. Sua presa não estava cooperando em ser caçada. Ela esperava ocultar sua presença o máximo possível, mas a garota havia desviado do disparo por um fio.
Yuki fora treinada por Hakushi, assim como a própria Essay. A garota não cairia facilmente.
Ainda assim, a ideia de mudar de alvo não passou pela mente de Essay. As outras duas jogadoras, Airi e Koyomi, também eram adversárias claramente habilidosas, e mesmo que ela fosse atrás delas, não havia garantia de que conseguiria alcançá-las antes que chegassem ao navio. Além disso, havia algo naquela situação que parecia predestinado. Aquele encontro com sua companheira de tutela não era nada menos que uma mensagem da deusa do destino, ordenando que ela esmagasse Yuki de uma vez por todas.
Considere isso feito, pensou Essay.
(18/22)
Durante toda a semana, algo ficara preso na mente de Essay: a verdade tremendamente difícil de engolir que ela aprendera com Koyomi no primeiro dia do jogo.
Koyomi era uma amiga jurada de Hakushi, uma jogadora de jogos mortais da era anterior a Candle Woods. Por isso, Essay não conseguiu conter sua curiosidade. No início do jogo, após ser guiada até a cabana de Koyomi, Essay perguntara como Hakushi a avaliava.
“Um gênio, em um sentido negativo”, Koyomi respondera. “Uma jogadora que se destaca em inteligência, mas que, talvez por isso mesmo, tem mal-entendidos surpreendentemente estranhos de vez em quando. O tipo que desfruta de sucessos temporários, mas que eventualmente implode — ou pelo menos é isso que ela diz.”
“…Entendo”, respondeu Essay.
“Não leve para o lado pessoal. Ela sempre teve a língua afiada.”
A falta de reconhecimento de sua mentora foi dolorosa. Contudo, o que feriu Essay ainda mais foi o assunto que surgiu logo depois.
“Ah, isso me lembra”, disse Koyomi. “Havia outra jogadora como você naquele grupo que vimos mais cedo. A garota que parecia um fantasma. Será que era a Yuki?”
Essay tinha visto o outro grupo de quatro jogadoras na praia enquanto era conduzida à cabana de Koyomi. Yuki, de fato, estava entre elas.
“Sim, mas por que mencioná-la?”
“Hm? Ela não é outra das pupilas de Hakushi? Você não sabia disso?”
Essay já havia se encontrado com Yuki em vários jogos no passado, mas era a primeira vez que ouvia aquilo. Provavelmente Yuki também não sabia.
“Fico pensando como ela é. Hakushi parece ter grandes expectativas em relação a ela…”
— No instante em que essas palavras chegaram aos ouvidos de Essay, um sentimento indescritível brotou em seu coração.
“Como assim?”, perguntou Essay por impulso.
Num tom casual, que demonstrava total alheamento ao desconforto de Essay, Koyomi respondeu: “Aparentemente, porque ela é um fantasma. Já está morta, então não há como morrer, ou algo do tipo…”
Essay ficou sem palavras. Seu torpor deve ter durado pelo menos dez segundos. Ao finalmente notar o estado anormal de Essay, Koyomi disse: “Ah, mas não é como se Hakushi tivesse poucas expectativas em relação a você, sabe. Você concluiu mais jogos, certo? Isso significa que ela deve esperar ainda mais de você.”
Isso não é nada reconfortante, pensou Essay.
Pelos encontros passados, Essay conhecia muito bem as capacidades de Yuki como jogadora. Aos seus olhos, a garota tinha talento para os jogos, mas jamais alcançaria o nível de Essay.
Por que minha mentora me considerou um ‘gênio que implode’, enquanto deposita ‘altas expectativas’ nela? Não seja ridículo. Eu me recuso a aceitar isso.
Então, sua mente atônita se fixou numa única direção.
Minha mentora não sabia absolutamente nada. Depois de um ano e meio aposentada, até o olhar afiado dela se deteriorou. Eu estou seguindo o caminho certo. Este é o jeito correto. Não há absolutamente nada de errado com a minha forma de agir.
É por isso que vou concluir cinquenta jogos. É por isso que agora tenho vantagem neste jogo. Não existe chance alguma de eu acabar abaixo daquela garota fantasma.
E vou provar isso esmagando-a.
(19/22)
Nos últimos dias, uma coisa não saíra da mente de Yuki: a estratégia de Essay para o jogo. No primeiro dia, Essay havia desmembrado o próprio corpo em sua cabana para fingir a própria morte. Todas as jogadoras caíram no truque — mas Yuki se surpreendeu por Essay ter recorrido a isso. Em sua concepção, uma pupila de Hakushi jamais deveria ter adotado tal tática.
Hakushi era uma jogadora lendária que havia concluído noventa e cinco jogos. Ainda assim, esse recorde não tinha para ela mais valor do que o de um cachecol que abandonara pela metade. Hakushi tinha apenas um objetivo: concluir noventa e nove jogos. Com apenas quatro jogos a separando dessa meta, ela encontrou um fim prematuro. Embora parecesse que Hakushi não tivesse realmente morrido, sua aposentadoria implicava que ela não conseguia mais retornar a um estado em que pudesse participar novamente. Os danos acumulados após quase cem jogos a impediam de alcançar seu desejo mais profundo.
Essay deveria saber como a carreira de Hakushi havia terminado. Sendo assim, deveria saber que não se deve adotar voluntariamente uma estratégia que prejudique o próprio corpo. E, ainda assim, foi exatamente isso que ela fez. Foi a falha máxima de julgamento, uma pequena fissura em uma atuação que, de resto, fora dominante.
E por causa disso, Yuki acreditava que podia revidar. Aquela era sua justificativa para desafiar uma veterana experiente, com cinquenta jogos concluídos.
Exatamente, pensou ela. Essay não é perfeita. Ela comete erros. Aposto que, às vezes, deixa as emoções tomarem conta. Talvez tenha cometido ainda mais falhas do que eu imagino. Não há necessidade de ter medo. Não coloque sua oponente num pedestal. Você pode vencê-la se fizer as coisas do jeito certo.
Ela pode ter um corpo imortal, mas não possui a força sobrenatural de um vampiro ou zumbi. Tudo o que esse corpo faz é afastar a morte. O fato de ela ter arrastado o jogo até o final e conseguido uma arma prova isso. Ela tem medo de combate direto. Terei chance de vencer se conseguir lidar com aquela arma. Mesmo que eu não possa matá-la, posso ao menos incapacitá-la e fugir para o navio.
Yuki deixou a sombra da árvore.
Com o destino em mente, disparou em velocidade máxima.
(20/22)
Yuki precisava continuar correndo. Se parasse por sequer um segundo, seria atingida.
Ela também não podia correr em linha reta. Se Essay decifrasse seus movimentos, ela seria baleada.
Assim, ora usando árvores como cobertura, ora se movendo de forma imprevisível e, em alguns momentos, farejando a hostilidade no ar, Yuki desviou dos ataques por um triz. Ela continuou a escapar das rajadas de balas por vários minutos, realizando uma façanha que poderia alterar o próprio futuro da guerra terrestre, caso o mundo conseguisse reproduzir sua técnica.
O ideal seria Yuki continuar daquela forma até alcançar o navio, mas ela via isso como uma empreitada impossível. Por isso, seguiu em direção a um local completamente diferente — um que serviria como as mandíbulas da morte para Essay… e para a própria Yuki.
Inúmeros talos afiados de bambu se projetavam do chão — uma armadilha que Maguma havia preparado. Seu esconderijo ficava nas proximidades.
Mas Yuki não estava indo até lá para pedir ajuda a Maguma. Afinal, a mulher provavelmente já tinha deixado a área e alcançado o navio de resgate. Ainda assim, tudo o que ela havia criado continuava perfeitamente utilizável.
Enganar Essay para que caísse numa armadilha — tampouco era esse o plano de Yuki.
Ela tinha exatamente o oposto em mente.
“Eu me recuso a cair sem lutar!”, gritou Yuki.
E então expôs sua estratégia, clara como a luz do dia.
“Prefiro me matar a cair nas suas mãos!”
(21/22)
Era uma aposta.
Se a condição de Essay para concluir o jogo fosse simplesmente a morte de três ou mais jogadoras, então a declaração de Yuki seria completamente inútil. Vá em frente, Essay diria. E depois que Yuki caísse em uma das muitas armadilhas da área, o jogo terminaria. Essay conquistaria a distinção de ter concluído cinquenta jogos.
Porém — e se não fossem as mortes que Essay precisava, mas sim os assassinatos? Nesse caso, a situação se inverteria. Essay seria forçada a impedir Yuki de morrer. Se sua presa se matasse, Essay não conseguiria mais cumprir as condições necessárias para a vitória.
Yuki acreditava ser altamente provável que Essay tivesse sido instruída a assassinar as outras jogadoras. O jogo, afinal, havia sido modelado como um mistério de círculo fechado. Se Essay deixasse Yuki escapar por entre seus dedos, provavelmente não teria tempo suficiente para encontrar um novo alvo. A vida de Yuki estava inextricavelmente ligada à de Essay.
A estratégia era infalível. O único problema era que Yuki morreria junto com Essay.
Por isso, Yuki precisava injetar um pouco de engenhosidade no plano.
As pernas de Yuki cederam de repente. Toda a área, com cerca de um metro de diâmetro, desabou no chão. Era uma armadilha de alçapão, do mesmo tipo daquela em que Yuki havia caído no terceiro dia. Após confirmar que o poço estava densamente revestido de lanças de bambu, ela se agarrou desesperadamente à parede para evitar ser empalada. Cravou os dez dedos na terra e conseguiu não cair até o fundo.
Alguém observando tudo aquilo, porém, não seria capaz de dizer o que havia acontecido com Yuki. E assim, Essay não teve escolha senão espiar dentro do buraco. Ela precisava confirmar se Yuki ainda estava viva e, caso estivesse, teria de garantir que a causa da morte da garota não fosse “empalamento”, mas sim “tiro”.
Yuki ouviu os passos de Essay se aproximando através da parede de terra. Como uma aranha, rápida e silenciosa, Yuki escalou a lateral do poço.
A sombra de Essay pairou sobre Yuki. Ao mesmo tempo, Yuki estendeu o braço e agarrou a perna de Essay.
Ela puxou, fazendo Essay perder o equilíbrio e cair. Já de volta à superfície, Yuki usou toda a força para arrancar a submetralhadora das mãos de Essay antes que a oponente pudesse reposicioná-la. Como Yuki suspeitava, Essay não era exatamente forte, então arrancar a arma não foi difícil. Sem tempo para ler qualquer manual de instruções, Yuki apontou o cano para Essay e apertou o gatilho.
As balas dispararam em rápida sucessão.
O carregador esvaziou em apenas dois segundos. O recuo foi mais forte do que Yuki esperava e fez a arma subir, o que significou que apenas cerca de metade dos projéteis atingiram Essay. Tendo sido alvejada à queima-roupa, Essay naturalmente acabou desabando no chão, mas, sem grande surpresa, o dano não foi fatal. Num movimento contínuo, ela se levantou, puxou o facão e o golpeou contra Yuki.
Yuki se defendeu usando o corpo da arma. Em seguida, arrancou o facão das mãos de Essay. Embora a oponente estivesse vestida com uma armadura de corpo inteiro, como um membro de forças especiais, Yuki cravou a lâmina no único ponto pouco protegido — o pescoço de Essay.
Essay caiu no chão, mas ainda continuava se mexendo. Como ela tentava puxar o facão do próprio pescoço, Yuki montou sobre ela para impedir. Então Yuki começou a socar Essay, alternando os punhos, mas a sensação era como golpear o ar.
“Que diabos são esses seus órgãos vitais, sua aberração?!”
Mesmo lançando insultos mal formulados contra a oponente, Yuki continuou o ataque. Apesar das tentativas de resistência de Essay, Yuki a imobilizou com destreza, arrancou sua armadura e rasgou as bandagens por baixo, revelando o corpo remendado da garota, que lembrava o monstro de Frankenstein. Yuki enfiou a mão nas costuras do corpo de Essay e puxou a primeira coisa que tocou — um pulmão. Enfiou a mão novamente, desta vez retirando o coração de Essay. Continuou o ato, alternando as mãos para extrair os órgãos um após o outro — fígado, tecido do estômago, intestino delgado, intestino grosso, rins, e até partes cujos nomes ela não conseguia lembrar de imediato. O que quer que estivesse mantendo o corpo de Essay unido, Yuki despedaçou com a facilidade de arrancar uvas. Inacreditavelmente, Essay continuou resistindo mesmo após perder todos os órgãos internos, de modo que Yuki não teve escolha senão partir para os ossos e músculos.
Yuki não era estranha a matar, mas aquela era a primeira vez que desmontava completamente um corpo humano. Justo quando começava a sentir respeito pela psicopata por ter repetido um ato tão exaustivo—
—finalmente, Essay parou de se mover.
Yuki cessou o ataque.
A garota não parecia estar fingindo de morta. Yuki esperou por um tempo, mas o corpo de Essay permaneceu completamente imóvel.
“…Bom jogo”, disse Yuki.
Ela limpou a penugem branca das mãos e deixou o local.
(22/22)
(0/4)
Yuki embarcou com segurança no navio de resgate.
Ela foi recebida por sua agente, que aparentemente aguardava depois de acompanhar o desenrolar do jogo pelas câmeras de vigilância. O navio parecia estar equipado com instalações médicas, mas como Yuki não havia sofrido ferimentos graves além das cicatrizes deixadas pela extração dos implantes, ela não passou por nenhum exame e foi levada diretamente a uma cabine.
Assim que entrou no quarto, deitou-se e adormeceu. Embora seus ferimentos não fossem profundos, ela estava acometida por um cansaço extremo, dormindo pesadamente até o navio chegar ao porto. Por isso, Yuki não fazia ideia de como o jogo havia terminado. Quem estava viajando no navio com ela? Será que realmente tinha conseguido matar Essay? Depois de pisar novamente em terra firme, Yuki foi levada para casa por sua agente e teve ampla oportunidade de descobrir as respostas — mas decidiu não fazê-lo.
Afinal, se algum deles ainda estivesse vivo, Yuki certamente os encontraria outra vez.
(1/4)
Yuki havia aprendido o endereço do local com Koyomi, quando as duas ficaram confinadas juntas na cabana. A data e o horário do encontro também tinham sido definidos com antecedência. Assim, Yuki viajou até lá num horário em que a maioria das pessoas estaria aconchegada na cama, enquanto corujas noturnas como ela estariam apenas começando a despertar.
Era um bar de mágica — um estabelecimento onde os clientes podiam apreciar um espetáculo de ilusionismo enquanto bebiam. Como sua mestra era frequentadora assídua, Yuki imaginara que fosse um lugar luxuoso, mas ele era surpreendentemente comum. O bar ficava em um bairro pequeno e acolhedor, um pouco afastado do centro urbano. Ao entrar, Yuki percebeu que o interior era bastante compacto, com apenas dez assentos no total e somente um cliente presente.
“—Quanto tempo”, disse a mulher, numa voz que não carregava o menor sinal de remorso por não ter mantido contato.
Ela tinha uma figura alta e esguia, cabelos longos e ondulados. Seu corpo era perfeitamente proporcionado, sem um grama sequer de excesso. Sua aura transmitia invulnerabilidade, e sua voz se projetava de forma estranhamente clara. Sua presença avassaladora dominaria completamente a atmosfera de qualquer ambiente.
Era Hakushi.
Pela primeira vez em um ano e meio, Yuki ficou frente a frente com sua mestra.
“…É bom te ver”, respondeu Yuki, sentando-se ao lado da mulher.
Para ser sincera, ela ainda estava meio incrédula. Afinal, tinha visto o corpo sem vida de sua mentora com os próprios olhos, incluindo os órgãos escurecidos e ossos dilacerados. Apesar de tudo o que acontecera com Essay, Yuki não conseguia apagar a sensação de que devia haver algum engano.
No entanto, suas dúvidas se dissiparam em menos de um segundo após o reencontro. Aquela mulher não era uma sósia. Seria impossível encontrar alguém com uma aura tão singular, mesmo vasculhando o mundo inteiro. Para constrangimento de Yuki, o pensamento resignado de que jamais alcançaria o nível de sua mestra emergiu em sua mente. Ao lado de Hakushi, ela se sentia muito mais inferior do que quando estava com Maguma ou Essay. Não conseguia acreditar que, um ano e meio atrás, seu antigo eu conversava regularmente com aquela mulher. Agora que Yuki havia evoluído, finalmente era capaz de perceber a diferença de nível entre elas.
“Peça alguma coisa.” Hakushi deslizou um cardápio até Yuki. “É por minha conta.”
“…Obrigada.”
Por sinal, o governo japonês havia reduzido recentemente a idade legal da maioridade. Assim, Yuki tinha se tornado oficialmente adulta, mas a idade mínima para beber ainda era vinte anos. Embora vivesse à margem da lei e não visse problema em beber, decidiu pedir uma cola.
Após fazer o pedido, Yuki percorreu o ambiente com o olhar — não para observar o bar, mas para procurar Koyomi. Yuki tinha ouvido que seria um encontro das três, mas será que ela ainda não tinha chegado?
No fim, Koyomi não apareceu. Apenas as duas, Yuki e Hakushi, puderam experimentar o elemento “mágico” do bar. Yuki entendeu por que sua mestra era uma frequentadora regular ao testemunhar as habilidades excepcionais do bartender-mágico, mas não conseguiu aproveitar genuinamente o espetáculo, pois estava ocupada tentando desesperadamente encontrar as palavras certas para dizer à sua mestra. Na mente de Yuki, Hakushi tinha morrido um ano e meio atrás. Reencontrá-la era ótimo, mas ela não fazia ideia do que dizer.
Depois que o show de mágica chegou a uma pausa, Yuki deixou de lado suas reservas e falou:
“Hum, mestra?”
“O quê?”
“Então… você esteve viva esse tempo todo, né?”
“Estive.”
“Eu encontrei Koyomi no meu jogo mais recente, e ela me falou deste lugar.”
“Sim. Ela me colocou a par de tudo.”
Claro. Isso era óbvio de imediato.
Hakushi continuou: “Soube que você teve um confronto com Essay.”
“…Sim. Ela tinha um corpo imortal, como o seu.”
“Pelo visto.”
“Hã…? Quer dizer que você não contou a ela sobre o seu procedimento?”
“Claro que não contei. Eu te contei? Ela descobriu tudo sozinha.”
Hakushi apoiou o queixo nas mãos, fazendo uma sombra se formar em um lado do rosto.
“Mestra.”
“O quê?”
“Quem você teria preferido encontrar hoje à noite, entre Essay e eu?”
Uma jogadora cuja estratégia demonstrava total desprezo pelo próprio corpo não merecia ser pupila de Hakushi — esse tinha sido o motivo de Yuki lutar contra Essay. E, no fim, Yuki havia vencido. Mas como era a realidade? Qual delas sua mestra teria desejado que sobrevivesse?
Com um breve suspiro, Hakushi respondeu: “Essay.”
O coração de Yuki disparou.
“—Se eu dissesse isso, você iria trocar de lugar comigo?”
“…Não.” Yuki balançou a cabeça.
“Então está resolvido”, disse Hakushi. “Você não é mais minha pupila. Não deveria se importar com a forma como os espectadores te veem.”
(2/4)
Yuki deixou o bar depois de terminar seu copo de cola.
Alguns minutos depois, no momento ideal para a troca de clientes, outra pessoa entrou. Uma mulher que tinha a aura de uma idosa apesar de estar na casa dos vinte anos — Koyomi.
“Oi.” “Oi.”
Após essa troca casual de cumprimentos, Koyomi se sentou.
“Você chegou atrasada de propósito, não foi?”, disse Hakushi.
“Cheguei sim. Achei que vocês duas precisavam de um tempo a sós.” Koyomi riu. “Mesmo assim, que coincidência maluca duas das sass pupilas se encontrarem no mesmo jogo.”
“Parece que os jogos estão combinando cada vez mais os níveis dos jogadoras. A possibilidade pode ser pequena, mas não é nada surpreendente… Você não colocou lenha na fogueira entre elas, colocou?”
“Claro que não… Provavelmente.”
É mesmo?, pensou Hakushi.
Koyomi cruzou os braços sobre a mesa e apoiou o queixo neles. “Eu vou me aposentar. Foi meu primeiro jogo em muito tempo, e fiquei surpresa com o quanto o nível das jogadoras aumentou. Eu não fazia ideia dos implantes nem do papel de Essay. No fim, só sobrevivi por pura sorte… Não consegui acompanhar nenhuma das outras. Acabou pra mim.”
“Tudo bem, sua covarde.”
“Covardia”: esse era o estilo de jogo de Koyomi. Embora normalmente seja vista como um defeito de personalidade, em jogos mortais era uma virtude. As habilidades de Koyomi como jogadora eram perfeitamente medianas, mas ela brilhava quando se tratava de detectar o menor sinal de morte. Hakushi também era habilidosa em sentir hostilidade e farejar armadilhas, mas Koyomi estava em outro patamar. Era como se tivesse sido abençoada pelo destino ou tivesse a capacidade de ver o futuro — ela havia evitado Candle Woods, o jogo que encerrou a carreira de Hakushi, porque sentira maus presságios ao receber o convite. Isso fazia de Koyomi uma jogadora talentosa que Hakushi respeitava.
Se Koyomi não via futuro para si mesma na indústria, então isso certamente era verdade. Hakushi não estava em posição de dizer o contrário.
“Talvez você possa investir seus ganhos no mercado de ações.”
“Não, o risco é assustador demais… Então, como foi o encontro com Yuki? Ela já se formou como pupila tola?”
“Ela não é mais minha pupila, o que a torna apenas uma tola”, respondeu Hakushi. “Ela me perguntou quem eu teria preferido que vencesse entre ela e Essay. Não há limites para a tolice dela.”
“Você está sendo bem dura.”
“Esse é o meu estilo.”
Quando ainda era jogadora, Hakushi havia adotado um estilo de jogo baseado na “negação”.
Se tinha algum talento, era o de encontrar falhas em tudo e em todos. Ela não precisava procurar para encontrar seus próprios defeitos. Sua estratégia de sobrevivência era conquistar cada uma de suas fraquezas até que não restasse nenhuma.
Em resumo, ela era uma pessoa extremamente negativa.
“Isso não funciona mais hoje em dia”, provocou Koyomi.
“Por isso me aposentei sem alarde.”
“E então você passou o bastão para Yuki… Ainda espera que ela chegue aos noventa e nove jogos no seu lugar?”
“Sim. Ela é a única pupila que declarou isso em voz alta, então minhas esperanças estão nela. Mas eu não me importaria se ela decidisse desistir.”
“Sempre quis perguntar: por que noventa e nove, e não cem? Esse número tem algum significado especial?”
“Quem sabe.” Hakushi se fez de desentendida. Ela virou o copo com dedos que já não conseguiam sentir temperatura alguma, deixando o álcool fluir para os órgãos artificiais de seu corpo.
“Seu corpo é muito mais misterioso do que a mágica deste bar”, comentou Koyomi.
(3/4)
Alguns minutos depois de sair do bar de mágica, Yuki recebeu uma ligação. Ela pegou o celular e viu que era sua agente.
Isso é raro, pensou.
Embora tivesse passado seu número à agente, aquela provavelmente era a primeira vez que a mulher ligava. Com curiosidade e apreensão em partes iguais, Yuki atendeu e levou o telefone ao ouvido.
“Sim, alô?”
“Boa noite, Yuki”, disse a agente, com a voz apressada. “Você tem um tempo para falar?”
“……? Sim, agora está tudo bem.”
“Pensei que devia te contar isso… embora os detalhes ainda não tenham sido confirmados.”
“O que foi?”
“É sobre um jogo que aconteceu mais ou menos na mesma época de Cloudy Beach…”
Depois de uma pausa longa o suficiente para capturar a atenção de Yuki, a agente continuou:
“Embora não seja comparável a Candle Woods, os resultados do jogo foram, pelo que ouvi, bastante chocantes. Apenas três de oitenta jogadoras sobreviveram; o resto foi completamente exterminado.”
Cloudy Beach havia sido, de fato, um jogo crucial para Yuki. No entanto, sua batalha estava longe de terminar. Ainda havia muitos obstáculos que Yuki precisaria superar para concluir noventa e nove jogos.
(4/4)
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