vol 2 – vol 2

jogo 30: casa de banho

 

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Assim como em qualquer outro ramo, a indústria dos jogos da morte possuía relações de veterano e novato, bem como laços de mentoria entre mestre e pupilo. Encontrar um mentor logo no início era o fator mais importante para a sobrevivência de longo prazo de uma jogadora. Aprender apenas por tentativa e erro era inviável, pois um único deslize em um jogo poderia levar à morte, e a internet não oferecia dicas ou truques de sobrevivência devido à natureza clandestina da indústria, restrita às sombras da sociedade. Dessa forma, o único meio real de “estudo” era recorrer ao método de ensino mais antigo que existia: encontrar um mentor e aprender por transmissão oral.

Yuki já tivera um mentor — alguém chamada Hakushi — que havia superado impressionantes noventa e cinco jogos, o maior número entre todos os jogadores que Yuki conhecia. Houve um período em que Yuki aprendera os fundamentos dos death games com essa mentora extraordinária.

“Cuidado com o seu trigésimo jogo.”

Essa foi uma das lições que Yuki recebeu.

“Existe algo conhecido como a Parede dos Trinta. Por volta do trigésimo jogo, jogadoras plenamente capazes e experientes, que vinham passando pelos jogos sem grandes problemas, simplesmente começam a morrer. A ‘parede’ se refere a essa queda brusca nas chances de sobrevivência. É por isso que existem tão poucos jogadores como eu que ultrapassaram os trinta.”

“…Isso acontece porque os organizadores aumentam a dificuldade de propósito?”, perguntou Yuki. A organização por trás dos jogos certamente teria meios de prejudicar jogadoras específicas.

“Não”, respondeu Hakushi. “A dificuldade permanece a mesma. Também não há indícios de que os organizadores interfiram diretamente nos jogos. Na verdade, eles detestam a ideia de manipular o resultado inclinando a balança.”

“Então é descuido? Tipo… o trigésimo jogo é quando as jogadoras já têm experiência suficiente para ficarem confiantes demais…”

“Isso pode fazer parte. Algumas também ficam excessivamente conscientes da Parede dos Trinta e acabam se sabotando psicologicamente. Mas, falando por experiência própria, não acho que o fenômeno seja algo tão vago assim. Tudo começa a se voltar contra você, e parece que o mundo inteiro decidiu te destruir. Só dá para descrever isso como uma maldição. Quando aconteceu comigo, foi a primeira e última vez que passei por um jogo daquele tipo. Definitivamente não é algo que eu queira enfrentar duas vezes.”

“…E como alguém consegue atravessar essa parede?”, perguntou Yuki.

“Quem dera soubéssemos”, respondeu Hakushi.

 

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Yuki acordou dentro de seu pequeno apartamento tipo estúdio.

 

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Sua cabeça ainda estava um pouco zonza, e o corpo, pesado. Eram efeitos colaterais persistentes dos comprimidos para dormir que lhe eram administrados no início e no fim de cada jogo. Ao perceber que um jogo havia acabado de terminar, Yuki soltou um gemido de desagrado antes de se levantar do colchão.

Um jaleco branco estava dobrado ao lado de seu travesseiro. Fora o traje de seu vigésimo nono jogo, mas Yuki sabia que não era o que ela própria vestira. Sua roupa havia se desintegrado quando certos produtos químicos respingaram nela durante o jogo. Embora muitos de seus trajes anteriores tivessem sido rasgados ou danificados, nunca antes um deles havia simplesmente se dissolvido por completo. Essa também era a primeira vez que os organizadores lhe entregavam um traje totalmente novo como lembrança do jogo.

Yuki pegou o jaleco nas mãos.

No instante seguinte, arremessou-o contra o chão com um baque seco.

“Droga”, murmurou.

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Após concluir seus rituais habituais de pós-jogo — guardar o traje no armário, fazer uma prece pelas jogadoras falecidas e refletir sobre o jogo em si — Yuki deixou o apartamento.

Ela saiu para caminhar. Em algum momento, aquilo havia se tornado um hobby. A Yuki do passado acreditava que andar sem um objetivo específico era perda de tempo, algo reservado a idosos entediados, mas sua visão sobre isso havia mudado. Aparentemente, reservar um tempo para não fazer nada era uma necessidade humana básica. Quando algo desagradável acontecia, ou quando ela se sentia mal por cometer um erro idiota, uma caminhada longa acabava curando seu espírito antes que ela percebesse.

Desta vez, porém, a caminhada não conseguiu melhorar seu humor.

No seu vigésimo nono jogo, Yuki havia feito papel de tola mais uma vez. O jaleco não fora a única coisa a se desintegrar; os produtos químicos que haviam caído sobre ela queimaram a pele de todo o seu corpo e, segundo sua agente, chegaram até a derreter metade de seu crânio. O cabelo que agora cobria sua cabeça não era o verdadeiro. Dizem que o cabelo de uma mulher é a sua vida — não era exatamente uma crença que Yuki compartilhava, mas ainda assim não conseguiu deixar de se chocar ao encarar a realidade de ter sofrido um ferimento na cabeça que a deixara careca.

E seus erros não se limitaram ao jogo mais recente. No jogo anterior a esse — e no anterior também — Yuki já não vinha atuando em sua forma habitual. Embora o resultado de seu vigésimo oitavo jogo, Ghost House, provavelmente não tivesse sido diferente mesmo se ela estivesse no auge, ainda assim ela tinha plena consciência de sua atuação vergonhosa.

Não está com uma boa cara, pensou. Mesmo agora que o próximo jogo finalmente será o meu trigésimo.

Ou talvez… justamente porque o próximo jogo será o meu trigésimo?

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Depois de mais duas semanas gastando os saltos de seus mocassins, Yuki voltou a pisar no asfalto em uma caminhada noturna. Isso havia se tornado parte de sua rotina diária ultimamente. Ela estava frequentando uma escola noturna e, em vez de ir direto para casa após as aulas, vinha optando por vagar pela vizinhança.

No começo, Yuki costumava passar primeiro em seu apartamento para trocar de roupa e vestir um agasalho antes de sair novamente, mas acabou se cansando disso. Agora, fazia suas caminhadas usando o uniforme estilo marinheiro. Ficar perambulando tarde da noite vestida daquele jeito era socialmente reprovável — ainda mais para uma menor de idade —, mas, por algum motivo, ninguém jamais a repreendera. Talvez ela simplesmente tivesse tido sorte e não cruzado com policiais; ou talvez os organizadores dos jogos estivessem trabalhando nos bastidores a seu favor — ou quem sabe as pessoas a enxergassem como um verdadeiro fantasma e se escondessem nas sombras, murmurando encantamentos na esperança de apaziguar seu espírito.

Duas semanas haviam se passado desde seu jogo anterior, e Yuki ainda não tinha recuperado sua forma. Tentara de tudo: alimentos nutritivos, evitar cochilos, acrescentar essas caminhadas à rotina — nada funcionara. Ela sabia muito bem que parte do problema era não conseguir identificar o que surtia efeito. Era como se as engrenagens de seu corpo não estivessem mais se encaixando, como se algo em seu núcleo tivesse sido profundamente abalado.

Para Yuki, um período de duas semanas representava um ciclo. Era o intervalo típico entre seus jogos. Uma semana não bastava para recuperar seu vigor, enquanto uma pausa de um mês inteiro desgastaria seus sentidos. Por isso, ela acreditava que o ideal era operar num ritmo de um jogo a cada duas semanas — o que significava participar de dois ou três por mês. Sua agente sabia muito bem disso e em breve — talvez ainda naquela mesma noite — apareceria com um convite para outro jogo.

O problema crucial era que Yuki não estava em condições de aceitar.

Uma possibilidade em particular martelava sua mente: adiar o retorno aos jogos. Era, obviamente, uma opção disponível. Embora os organizadores não tivessem qualquer consideração por direitos humanos, eram absurdamente gentis com as jogadoras fora dos jogos. Cada uma tinha o direito de aceitar ou recusar qualquer convite. Rejeitar um não tornaria os jogos futuros mais difíceis, nem resultaria em ameaças do tipo “que irmãzinha adorável você tem; seria uma pena se algo acontecesse com ela”. Dizer não era perfeitamente aceitável.

Mas, para Yuki, isso seria apenas empurrar o problema para frente. Ela não conseguia imaginar sua condição melhorando com o tempo — na verdade, só tenderia a piorar. Quanto mais tempo ficasse afastada dos jogos, mais enferrujados ficariam seus instintos.

Uma visão desagradável do futuro tomou forma em sua mente: após recusar o convite, ela não conseguiria recuperar o ritmo e acabaria recusando o seguinte… e o seguinte… repetindo a mesma decisão uma vez após a outra. Eventualmente, seus instintos se perderiam por completo, sua autoconfiança desapareceria e, no fim—

—ela nunca mais participaria de um jogo pelo resto da vida.

“Isso é a única coisa que eu quero evitar…”, murmurou Yuki. Ela não tinha a menor intenção de assistir passivamente enquanto seu objetivo de vencer noventa e nove jogos escorria por entre os dedos.

Mas então, o que ela deveria fazer? Aceitar participar apesar de sua condição atual? Não seria isso a marca de uma amadora — aceitar um desafio de qualquer jeito só porque, do contrário, as coisas continuariam a piorar? Yuki não queria apenas vencer; queria vencer como uma profissional experiente. Para ela, uma atuação imprudente era tão vergonhosa quanto desistir no meio do caminho.

Ela passara as últimas duas semanas refletindo sobre tudo isso. E, ainda assim, não chegara a conclusão alguma. Estava presa em um impasse.

Naquele dia, Yuki mais uma vez não conseguiu encontrar uma resposta. Após completar seu trajeto habitual de caminhada, normalmente compraria um sorvete na loja de conveniência antes de voltar para casa. Hoje, porém, desviou desse hábito, julgando indesejável esfriar demais o corpo. Respirando pela boca para conter a vontade de comer, Yuki tomou o caminho de casa.

E, por um instante, parou no meio do caminho.

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Depois que aquele segundo se esvaiu, ela voltou a andar. Havia parado por apenas um instante — o mais breve possível. Não havia praticamente nada de estranho em seus movimentos. Se houvesse cem pessoas observando-a de perto, noventa e nove não perceberiam nada fora do normal.

Sua ação teria passado despercebida por um leigo, mas, aos olhos de um profissional, poderia muito bem ser considerada um erro.

Yuki sentira alguém a observando por trás. Ela havia cultivado esse sexto sentido ao flertar com a linha entre a vida e a morte ao longo de vinte e nove jogos. Ele lhe permitia perceber qualquer ameaça à própria vida. Isso obviamente incluía hostilidade, mas também lhe dava a capacidade de detectar, com precisão relativamente alta, a presença e o olhar de outras pessoas. Além disso, ela treinara a si mesma para não alertar os outros de que havia percebido sua presença.

Era isso que ela esperava fazer naquela situação também.

Ainda que tivesse sido por um instante ínfimo, Yuki reagira ao olhar de alguém. Um profissional com olhos atentos — como um detetive da polícia ou um investigador particular — poderia muito bem ter notado o movimento antinatural. Ela fora descuidada demais. Mesmo fora de um jogo, demonstrara uma falta excessiva de atenção. Seu estado estava claramente anormal—

Yuki interrompeu o próprio fluxo de pensamentos.

Nada disso importava agora. Sua prioridade era o olhar.

Há quanto tempo ele estava sobre ela? Muito provavelmente, tinha acabado de pousar, mas, como Yuki não estava em sua melhor forma, não podia afirmar isso com certeza. Era possível que alguém a estivesse observando desde o início da caminhada — ou até mesmo desde a aula.

A quem pertencia aquele olhar? A uma colega da escola noturna? A um policial prestes a repreender uma menor por andar sozinha tarde da noite? À sua agente, que finalmente viera convidá-la para o trigésimo jogo? Ou talvez a uma jogadora ressentida que descobrira onde Yuki morava e esperava o momento perfeito para executar um assassinato?

De qualquer forma, Yuki precisava descobrir a identidade de quem a seguia.

Ela se desviou de sua rota habitual para casa e seguiu em direção a um parque próximo. Não havia um motivo específico para ter escolhido o parque. Ela acreditava que poderia minimizar os danos ali caso fosse forçada a causar um alvoroço, mas também tinha um pressentimento — beirando a convicção — de que um parque era o cenário perfeito para um encontro à meia-noite.

De um jeito ou de outro, foi parar em um parque. Era um lugar bastante simples: havia balanços, um escorregador, brinquedos de montar com molas saindo de seus “abdômens” e um único banco. Parecia que a manutenção não aparecia havia anos — os equipamentos estavam enferrujados e as ervas daninhas cresciam livremente. Como era madrugada, não havia ninguém por ali.

Yuki parou no centro do parque e se virou com a agilidade de um fantasma. Durante o caminho, ela já havia identificado a direção de onde vinha o olhar. Bem à sua frente havia uma árvore grande o bastante para alguém se esconder atrás.

“Apareça”, disse Yuki. “Por que está se esgueirando desse jeito?”

Não houve resposta. Yuki se irritou. Ao perder a paciência, aproximou-se da árvore, decidida a resolver aquilo com as próprias mãos. No trajeto até o parque, ela também havia delimitado melhor a identidade de quem a seguia. Não era um profissional. Devia ser alguma colega ou um sujeito esquisito qualquer que a havia notado.

Por que isso tinha que acontecer agora, de todos os momentos? pensou. Era para este ser um marco importante para mim. Estou prestes a chegar ao trigésimo jogo, pelo amor—

Espere… será que isso é justamente porque o meu trigésimo jogo está se aproximando?

Quando Yuki estava a meio caminho da árvore, a pessoa saiu das sombras.

Era um homem de meia-idade.

Yuki nunca o tinha visto antes. Como ganhava a vida em uma indústria composta exclusivamente por mulheres, sua lista de conhecidos do sexo masculino era extremamente curta, limitada ao pai, colegas de classe e professores. Aquele homem não constava em nenhuma delas.

E ainda assim, por algum motivo, ele lhe parecia familiar. Não era sua aparência — Yuki nunca tinha visto antes aquele terno xadrez gasto, nem aquele corpo tonificado que sugeria o hábito regular de exercícios, tampouco o semblante sombrio de alguém que fora castigado pelas ondas turbulentas da sociedade por décadas. Mas a aura do homem — aquela qualidade que sugeria que ele poderia muito bem morrer por se forçar demais — parecia familiar para Yuki.

“Peço desculpas”, disse o homem, retirando o chapéu e fazendo uma reverência baixa. “Eu pretendia falar com você depois que terminasse seus afazeres. Lamento sinceramente o incômodo.”

“…Quem é você?”, perguntou Yuki.

“Meu nome é Tsutomu Kaneko. Acredito que você tenha conhecido minha filha outro dia.”

Os olhos de Yuki se arregalaram em descrença ao ouvir o nome do homem. Sua mente sobrepôs o rosto de uma certa garota ao dele. Nome de jogadora — Kinko. Uma garota cujo nome usava os mesmos caracteres do sobrenome do homem. Uma garota que havia perdido a vida no vigésimo oitavo jogo de Yuki, Ghost House. Uma garota cuja morte era algo pelo qual Yuki carregava grande responsabilidade.

Esse homem era—

“—O pai dela?!”

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Yuki havia conhecido a garota dois jogos atrás, durante Ghost House. Seu nome de jogadora era Kinko. Ela era pequena, tinha tranças loiras e uma compleição frágil que parecia que se quebraria ao menor toque errado, além de uma personalidade excessivamente séria que dava a impressão de que havia perdido boa parte da vida. Era uma jogadora íntegra — algo raríssimo em death games — o que a tornara ainda mais marcante para Yuki.

E, após os acontecimentos daquela noite, Kinko havia evoluído para uma jogadora que Yuki provavelmente jamais esqueceria pelo resto de sua vida.

Embora Yuki já tivesse encontrado outras jogadoras fora dos jogos anteriormente, aquela era a primeira vez que ela se deparava com o pai ou outro parente de uma jogadora.

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Em vez de continuarem a conversa em pé, Yuki e o Sr. Kaneko sentaram-se no banco. Ele estava em condições precárias, condizentes com um parque decadente. Sendo quem era, Yuki não se incomodava nem um pouco com isso, mas se sentia relutante em fazer aquele cavalheiro se sentar em um assento tão ruim. De fato, ela chegou até a sugerir que fossem para outro lugar.

“Não, aqui está bom”, respondeu o Sr. Kaneko. “Esta não é uma conversa apropriada para se ter em outro local.”

Os dois estavam sentados lado a lado.

“…Por onde devo começar…?”, murmurou o homem, alisando a barba.

“Ah, Sr. Kaneko?”, Yuki interveio antes que ele continuasse.

“Sim?”

“Primeiro, eu só queria perguntar… como exatamente o senhor conseguiu me encontrar?”

No momento, essa era a pergunta mais importante na mente de Yuki. Os organizadores protegiam rigorosamente as informações pessoais das jogadoras. Mesmo que o Sr. Kaneko tivesse sido um membro da plateia durante Ghost House, não havia como ele saber o endereço de Yuki. Além disso, não era como se Yuki andasse por aí se gabando de ser uma jogadora recorrente de death games e, fora frequentar aulas noturnas, ela praticamente não tinha nenhuma presença social. E ainda assim, de alguma forma, o homem conseguira localizá-la.

“Tudo o que posso dizer… é que recorri à minha rede de contatos”, respondeu o Sr. Kaneko, com certa dificuldade. “Peço desculpas. Eu mesmo não sei exatamente os detalhes.”

“…Entendo.” Percebendo que o homem tinha circunstâncias especiais, Yuki achou melhor não se aprofundar demais no assunto. “O quanto o senhor sabe sobre mim?”

“Sei que você é uma jogadora regular e que participou recentemente do mesmo jogo que minha filha.”

“Imagino que esteja se referindo à Kinko.”

“Esse era o nome que ela usava?”

“Hã?… Bem, sim. As jogadoras normalmente usam nomes falsos para esconder sua identidade. Chamamos isso de ‘nome de jogadora’.”

“Entendo…”

Parecia que o homem não estava muito familiarizado com os detalhes específicos dos jogos. Sendo assim, ele provavelmente não sabia quem havia causado a morte de sua filha.

“Ela era uma garota pequena, com tranças loiras”, disse Yuki, “e tinha o mesmo senso forte de responsabilidade que o pai.”

“Como eu…? Não sei se me daria tanto crédito assim… mas não há dúvida. Essa é a minha filha.”

A expressão do homem era melancólica — algo esperado, considerando que havia perdido a filha. Não havia nada mais trágico do que perder um filho. Yuki sentiu a reação humana natural de compaixão, além da culpa por ter estado envolvida na morte de Kinko.

Mas, ao mesmo tempo, algo não parecia se encaixar direito. O que exatamente estava lhe incomodando? Ela revisitou mentalmente tudo o que Kinko havia dito durante o jogo. Certo — o motivo pelo qual ela havia participado era…

“A propósito, senhor”, disse Yuki, “há algo que me deixou curiosa.”

“…O que seria?”

“Kinko mencionou que entrou no jogo para pagar as dívidas do pai. O senhor teria algo a dizer sobre isso?”

Na época, Yuki havia pensado que Kinko fora criada em um ambiente familiar tóxico, com uma mãe desprezível e um pai canalha, que a haviam forçado a carregar todo o peso sozinha. Porém, o homem sentado ao lado de Yuki estava muito distante da figura que ela havia imaginado — na verdade, ele parecia muito mais pé no chão do que ela jamais poderia esperar ser.

Não incomodaria Yuki se o homem acabasse sendo o tipo de pessoa capaz de vender a própria filha para jogos mortais, mas, ainda assim, ela sentira a necessidade de perguntar.

“Não tenho desculpas”, respondeu o Sr. Kaneko. “É verdade que eu tinha dívidas. Meu negócio passou por dificuldades, e bem…”

“Então o senhor fez sua filha participar de um death game?”, Yuki perguntou diretamente.

“De forma alguma! Eu jamais… faria algo assim”, respondeu ele com veemência. “Mas esse pode ter sido o resultado final. Naquela época, eu estava ocupado demais comigo mesmo…”

“…Entendo.”

Yuki concluiu que, provavelmente, o homem não era o verdadeiro culpado. Era completamente compatível com a personalidade de Kinko pesquisar sobre os jogos e entrar por conta própria, sem que ninguém a pressionasse. Talvez os organizadores a tivessem recrutado, mas, de uma forma ou de outra, Kinko quase certamente se tornara uma jogadora por vontade própria.

“Imagino que o senhor saiba o que aconteceu com sua filha durante o jogo”, disse Yuki.

“…Apenas o fato de que ela não saiu viva.”

“E isso tem relação com o motivo pelo qual o senhor veio me procurar?”

“Com certeza.” O Sr. Kaneko cerrou os punhos sobre os joelhos. “Eu desejo vingar minha filha. Não vou parar até que a organização por trás desses jogos seja destruída. E gostaria de solicitar a sua ajuda nisso, senhorita Yuki.”

 

 

 

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O Sr. Kaneko levou a mão ao bolso interno do paletó. Yuki esperava que ele tirasse um cartão de visitas, mas, como eles já haviam encerrado as apresentações, o que surgiu em suas mãos foi, em vez disso, um pequeno saco plástico, semelhante ao tipo usado para armazenar provas em uma investigação de homicídio. Dentro dele havia uma cápsula, grande o bastante para ser difícil de engolir.

“O que é isso?”, perguntou Yuki.

“Um transmissor. Ele transmitirá continuamente as informações de localização de quem o ingerir, de qualquer lugar do mundo.”

O homem ofereceu o objeto a Yuki, que o aceitou e o examinou com cuidado. Como a cápsula era opaca, ela não conseguia ver o transmissor em seu interior, por mais que forçasse a vista.

Ao perceber o olhar do Sr. Kaneko sobre si, Yuki ergueu a cabeça.

“Eu gostaria que você engolisse isso antes de participar do seu próximo jogo.”

“…Então esse é o seu plano.”

Yuki não teve dificuldade alguma em ligar os pontos. Levar um transmissor para dentro de um death game, que operava nas sombras da sociedade, só podia ter um propósito —

“O aspecto mais desconcertante dos jogos é o sigilo”, explicou o homem. “E isso não se aplica apenas aos jogos em si, mas também à organização por trás deles, bem como ao público. Tudo acontece fora do olhar do mundo. Por outro lado, se a existência dessa operação vier à tona, desmantelá-la não será tarefa difícil.”

Era uma conclusão lógica. No Japão do século XXI — ao menos no Japão atual — jogos mortais como aqueles não tinham espaço na sociedade. Se sua existência fosse revelada, tanto os jogos quanto a organização por trás deles seriam rapidamente desmontados.

“É claro que não haverá nenhum dano para você ao engolir o transmissor, e ele será naturalmente expelido do seu corpo após alguns dias. Não há mais nada que você precise fazer. Tudo o que peço é que ingira a cápsula. Assim que a localização do jogo for revelada, nós cuidaremos do resto.”

“Nós?”, Yuki repetiu.

Uma expressão de choque surgiu no rosto do homem, como se ele tivesse falado demais.

“O senhor não está agindo sozinho, Sr. Kaneko?”

“…Não. Para dizer a verdade… essa cápsula foi criada por associados meus.”

A resposta evasiva revelou muito a Yuki sobre a situação do homem.

“E o senhor não pode me contar nada mais sobre esses ‘associados’?”

“Não posso… Peço desculpas.”

Yuki imaginou que o Sr. Kaneko fizesse parte de uma espécie de sociedade de vítimas. Como muitas pessoas além de Kinko haviam sido vítimas dos jogos, naturalmente existiriam ainda mais familiares dessas vítimas. Não era difícil imaginar essas pessoas se unindo. Isso também explicaria a menção do homem a ter encontrado Yuki por meio de sua “rede de contatos”.

O homem provavelmente havia sido instruído a manter a existência dessa sociedade em segredo, daí suas respostas evasivas. Isso devia ser uma forma de reduzir riscos — sem saber se Yuki era confiável, eles não podiam descartar a possibilidade de ela vazar informações sobre o grupo. Esconder-se nas sombras para garantir segurança não era uma tática exclusiva dos organizadores dos jogos.

Yuki brincou com a cápsula dentro do saco plástico.

“O senhor percebe que está pedindo isso a uma jogadora, certo?”

“Sim. Você vai me ajudar?”

“Eu sou uma jogadora — isso significa que eu aprovo os jogos. O senhor realmente acha que eu ajudaria alguém a destruí-los?”

“É claro que considerei isso. Quando os jogos forem desmantelados com sucesso, oferecerei a você minha ajuda para garantir que nunca mais enfrente dificuldades na vida. Com minhas conexões pessoais, posso indicá-la a um novo emprego.”

Yuki achou que a resposta do homem estava completamente fora do ponto. Mesmo sem qualquer apoio, ela poderia viver por bastante tempo apenas com o total de seus ganhos. Ser indicada a um novo emprego não significava nada; sua incompatibilidade com o mundo comum era um dos motivos pelos quais ela havia recorrido aos death games em primeiro lugar. Além disso, Yuki não se tornara jogadora em busca de fortuna ou estabilidade profissional.

“Acho que o senhor está com uma ideia errada”, disse Yuki. “Sr. Kaneko, o senhor acha que eu participo desses jogos contra a minha vontade?”

“…Não é esse o caso?”

O coração de Yuki deu um aperto.

“De forma alguma”, respondeu ela. “Claro, existem jogadoras como a Kinko, que se sentem obrigadas a participar, mas elas geralmente desistem depois de cinco ou seis jogos. Nós, que temos um número maior de partidas, estamos aqui porque queremos estar. Somos aquelas com uma visão distorcida sobre a vida e a morte. Temos algo que não conseguimos aceitar, algo que pesa mais do que a ideia de perder nossas próprias vidas. É por isso que continuamos jogando.”

“Algo que você não consegue aceitar…?”

“Para mim —”

— seria uma vida vazia, sem propósito algum, Yuki estava prestes a dizer.

—é uma vida vazia, sem fazer nada algum, Yuki estava prestes a dizer.
É por isso que estou mirando completar noventa e nove jogos, ela estava prestes a dizer.

No entanto, nenhuma palavra saiu de sua boca.

“Srta. Yuki?”

“…Bem, são muitas coisas. Um monte delas”, disse Yuki, desconversando.

O Sr. Kaneko não insistiu mais, provavelmente percebendo que se tratava de um assunto delicado.

“Tenho plena consciência de como isso pode soar rude”, disse o homem, “mas acredito que você, Srta. Yuki… ou melhor, que todas as jogadoras deveriam valorizar mais a si mesmas.”

Algo se agitou dentro do coração de Yuki. Ela sentira essa mesma sensação durante a discussão verbal com o psicopata de algum tempo atrás. Antes disso, sentira-a ainda criança, quando era repreendida por professores ou por sua mãe. Era como se suas pernas estivessem prestes a ceder, como se algo tivesse roçado seu coração.

Era a sensação de alguém invadindo um lugar onde ela não queria que entrassem.
A sensação de alguém rejeitando a raiz de sua própria existência.

O homem continuou: “Nossa era moderna abraça uma diversidade de estilos de vida, embora ainda existam limites razoáveis. Death games deveriam ser apreciados apenas por meio de mangás ou filmes. Sua existência no mundo real — e digo isso com total convicção — é claramente anormal.”

Cale a boca, pensou Yuki. É óbvio que os jogos são anormais. Nós jogamos sabendo disso. Infelizmente, nós jogadoras somos igualmente anormais. Então poupe o fôlego e não me diga o que eu já sei. Apenas me deixe em paz.

“Esses jogos não têm lugar no Japão do século XXI. Srta. Yuki, eu lhe imploro. Você já participou de inúmeros jogos… Alguém como você certamente tem outros caminhos disponíveis, com ou sem eles. Por favor, nos conceda sua ajuda.”

Cale a boca. Não fale “participou de inúmeros jogos” com tanta leviandade. Minhas conquistas são minhas e somente minhas. Como ousa dizer que tenho outros caminhos disponíveis; como ousa falar como se me conhecesse?

Yuki apertou a cápsula com força. Pensou em jogá-la de volta no homem.

Ela tinha muitas coisas a dizer. Tenho orgulho de ser uma jogadora. Escolhi esse caminho por vontade própria. Vou completar noventa e nove jogos. Então pegue isso e saia da minha frente.

Ela ia dizer isso.

“—…”

No entanto, nenhuma palavra saiu de sua boca.

Em vez disso, um sorriso involuntário se formou em seu rosto.

Este caso não tem salvação, ela pensou.

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Depois de se despedir do Sr. Kaneko, Yuki tomou o caminho de seu apartamento. Achou que seria até engraçado se um segundo perseguidor aparecesse, mas, infelizmente, o trajeto foi tranquilo, permitindo-lhe pensar livremente sobre o problema que tinha na palma da mão — o transmissor em forma de cápsula.

“…Japoneses realmente não sabem dizer não, né?”

Yuki não havia aceitado o pedido do Sr. Kaneko, mas também não fora capaz de recusá-lo. O homem dissera que ela poderia jogar o transmissor fora, mas pediu que ao menos considerasse a proposta antes de seu próximo jogo. E assim, Yuki aceitara a cápsula. Não dissera sim, mas também não dissera não. Essa era sua situação atual.

Ela passou os dedos pelo saco plástico. Por que havia aceitado a cápsula? Não havia como engoli-la. Embora sentisse genuína simpatia pelo Sr. Kaneko pela perda da filha, isso era completamente irrelevante. Se o plano fosse descoberto, Yuki certamente não seria poupada, e se os jogos fossem desmantelados, isso também seria um problema — seu juramento de completar noventa e nove jogos ruiria.

Ainda assim, ela fora incapaz de dizer isso em voz alta, pois sua mente começara a vacilar. Seu longo período de estagnação corroera sua confiança e o orgulho de viver como jogadora. Ela se sentira envergonhada demais para admitir que não podia aceitar o pedido do homem porque isso interferiria em seu objetivo de completar noventa e nove jogos.

Yuki abriu o saco plástico e retirou a cápsula, que era tão grossa quanto seu dedo mínimo. A ideia de engoli-la ali mesmo cruzou sua mente. Isso resolveria dois problemas de uma só vez. Primeiro, ela seria forçada a ficar fora dos jogos enquanto o transmissor estivesse dentro dela, o que a levaria a recusar o próximo convite. Segundo, isso lhe daria uma desculpa educada para se livrar da cápsula, já que ela seria descartada naturalmente em alguns dias. Não haveria desvantagens.

Apesar da lógica desse cenário, ela descartou a ideia porque não gostava de comprimidos. A possibilidade de a cápsula ficar presa em sua garganta a deixava inquieta, então não conseguiria engoli-la sem água. O comprimido para dormir que recebia antes de cada jogo causava problemas semelhantes; ela sempre precisava fechar os olhos e engoli-lo do mesmo jeito que uma criança exigente come cenouras. Precisava se preparar, e assim, com a cápsula na mão, voltou ao seu apartamento decadente.

Um carro estava estacionado em frente ao prédio.

“—Boa noite.”

A janela do banco do motorista desceu, revelando o rosto da agente de Yuki.

Yuki instintivamente escondeu a mão esquerda — aquela que segurava a cápsula — atrás das costas. Como ela estava fechada em punho, provavelmente não dava para ver nada, mas Yuki ainda se sentiu ansiosa. Se aquilo fosse descoberto, ela estaria encrencada antes mesmo do jogo começar.

Aparentemente alheia ao pânico de Yuki, sua agente falou com o tom habitual: “Você foi convidada para um jogo. Está pronta?”

“Oh, sim.”

No segundo seguinte em que Yuki soltou essas palavras, percebeu o que havia acabado de fazer. O que você está dizendo? Não se deixe levar pelo momento.

Sua agente abriu a porta traseira do carro. “Por aqui.”

Yuki abriu a boca para tentar corrigir o que havia dito. “Não, quer dizer—”

“Há algo errado?”

“…Não. Não é nada”, respondeu Yuki — não por instinto, mas por escolha própria.

Acho que tudo bem, pensou. Já que estava presa entre a cruz e a espada, seguir o fluxo parecia uma opção perfeitamente válida. Sempre fora de seu feitio não recusar nada que surgisse e responder aos chamados imediatamente. Bastava levar as coisas até o fim. Ela poderia se livrar do transmissor jogando-o pela janela quando sua agente não estivesse olhando.

Yuki entrou no carro ainda vestindo seu uniforme de marinheira.

“Isso é para você.” Sua agente lhe entregou um objeto — uma cápsula de tamanho normal.

É claro que não era um transmissor — era um comprimido para dormir. Essa era uma das formas pelas quais os organizadores mantinham as localizações dos jogos em segredo. As jogadoras apagavam imediatamente após ingerir o medicamento, e quando acordavam novamente, o jogo já havia começado.

“Aqui.” A agente de Yuki lhe ofereceu um copo de papel. Como trabalhava com Yuki havia mais de um ano, sabia muito bem que ela não conseguia engolir comprimidos sem água.

Yuki estendeu a mão esquerda para pegar o copo, mas parou no meio do movimento. Ela não podia segurar nada com o transmissor ainda na mão. Em vez disso, colocou primeiro a cápsula na boca e só então aceitou o copo com a mão agora livre. Em seguida, engoliu toda a água de uma vez, mandando a cápsula garganta abaixo. Por algum motivo, aquilo pareceu mais estranho do que o normal.

Não muito depois, Yuki percebeu que havia cometido um erro grave.

“……?!”

Ela abriu a mão direita. Nela estava uma cápsula de tamanho normal — o comprimido para dormir.

Então… o que foi que ela acabou de engolir?

Isso é ruim, pensou. Não posso entrar no jogo assim.

Yuki levou a mão ao estômago. Infelizmente, ela não tinha a habilidade de vomitar sob comando. Embora pudesse provocar vômito enfiando a mão na garganta, causar uma cena tão dramática levantaria suspeitas de sua agente.

Yuki olhou para frente. O carro já estava em movimento. Ela lançou um rápido olhar para a agente pelo retrovisor. Precisava fazer algo — seria estranho permanecer acordada depois de ter engolido o comprimido. Se sua agente começasse a suspeitar que Yuki havia ingerido outra coisa, a verdade viria à tona em pouco tempo.

Minhas mãos estão atadas, pensou. Enquanto fingia esfregar os olhos, engoliu o comprimido para dormir que estava em sua mão direita.

Momentos depois, percebeu seu segundo erro. Que diabos eu estou fazendo? Só porque o carro está em movimento não quer dizer que não possamos voltar. Eu deveria ter recusado o convite…

Mas já era tarde. A droga agiu imediatamente, e uma onda de sonolência atacou Yuki. Ela tentou resistir, mas em nenhuma de suas vinte e nove vezes anteriores havia conseguido escapar do sono. Assim, pela trigésima vez consecutiva, Yuki adormeceu rapidamente.

Ela teria a chance de vivenciar isso pela trigésima primeira vez?

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Início do jogo.

Mikan despertou com uma sensação de sacolejo.

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A dor percorreu todo o seu corpo, forçando-a a abrir os olhos. Mikan olhou ao redor, grogue, virando a cabeça para a esquerda e para a direita.

Ela estava em um espaço apertado.

O ambiente era tão pequeno que ela não conseguia sequer se deitar no chão. Com as costas apoiadas na parede e as pernas dobradas sob o corpo, Mikan mal conseguira caber ali dentro. Estava numa posição tão desconfortável que devia ter sido uma cãibra que a despertara. Enquanto esse pensamento passava por sua mente, ela se levantou.

Mikan identificou imediatamente o local como um box de chuveiro, pois bateu a cabeça em um magnífico chuveiro no instante em que ficou de pé. Segurando a cabeça, ela ergueu o olhar para o chuveiro antes de examinar os outros itens no espaço — a mangueira, a torneira, o espelho, uma pequena prateleira com diversos produtos de higiene, um suporte com uma toalha fina e uma luminária redonda projetando-se próxima ao teto. Quanto mais observava, mais claro ficava que aquilo só podia ser um box de chuveiro.

Embora muitos compartimentos desse tipo tivessem paredes de vidro, as paredes ao redor de Mikan eram completamente brancas e opacas. Ela girou a trava da maçaneta, abriu a porta um pouco e espiou para fora.

Através da fresta, tudo o que conseguia ver era branco — vapor branco, para ser exata. O fato de ter acordado dentro de um box de chuveiro a convenceu de que era vapor, e não neblina. Além dele, conseguia distinguir um piso e paredes de azulejo, além de várias banheiras cheias de água quente. O local deste jogo era um grande balneário.

Considerando a enorme quantidade de vapor suspensa no ar, Mikan certamente sentiu a malícia dos organizadores. Ela supôs que o jogo exigiria extrema atenção ao caminhar, então saiu do box com cuidado—

—apenas para perceber, então, que estava completamente nua.

“……?!”

Mikan correu de volta para dentro e fechou a porta, garantindo que ninguém visse seu corpo.

Ela abraçou os próprios ombros. Estava nua. Completamente nua. Do mesmo jeito que viera ao mundo, sem um único fio de roupa sobre o corpo.

Por que estou nua?, perguntou a si mesma.

Porque isto é um balneário, respondeu.

Não é isso, ela retrucou de imediato.

Mikan lançou os olhos ao redor como uma caipira visitando a cidade grande pela primeira vez. Havia câmeras naquele recinto também? Estava sendo observada de algum lugar?

Death games eram formas de entretenimento, e as jogadoras estavam constantemente sob vigilância dos membros da audiência. Aquele era o quinto jogo de Mikan, e em um de seus jogos anteriores ela fora obrigada a usar uma roupa provocante. Na época, aceitara aquilo por dinheiro. No entanto, estar nua era uma história completamente diferente.

Mikan olhou ao redor, inquieta — não à procura de câmeras, mas de alguma roupa. Todo jogo apresentava algum tipo de vestimenta, variando de um figurino apropriado, na melhor das hipóteses, até algo que beirava o exibicionismo, na pior. Não havia nenhuma para este jogo? Como o local era um balneário, as jogadoras teriam que prosseguir sem roupas?

No instante em que Mikan estava prestes a cair no desespero absoluto ao imaginar que teria de continuar nua, ela avistou uma toalha pendurada na parede. Então é isso que querem que a gente use, hein? Depois de enrolar a toalha em volta do corpo, Mikan observou seu reflexo no espelho. Ao perceber que sua aparência havia se aproximado alguns níveis da de uma pessoa civilizada, ela pensou, de forma nada elegante, que Adão e Eva provavelmente deviam ter se sentido da mesma maneira.

Enquanto se preparava para sair do box de chuveiro pela segunda vez, Mikan fez outra descoberta. Pelo canto do olho, percebeu algo reluzindo dentro da pequena prateleira.

“……?”

Ela estreitou os olhos para enxergar melhor. Seja o que fosse, tinha um brilho dourado. Provavelmente não teria dado importância se fosse prateado, mas a cor ouro nunca deixava de enfeitiçar os corações daqueles acostumados a viver em uma sociedade capitalista.

Mikan afastou os produtos de higiene com a mão.

Dentro da prateleira havia um pequeno bloco retangular dourado — uma chave de armário para sapatos.

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Em vez de chaves comuns, os armários de sapatos em balneários tradicionais utilizavam blocos de madeira com um entalhe na borda inferior. Esse costume surgira séculos atrás, quando frequentadores de teatros e outros estabelecimentos deixavam seus sapatos na entrada e recebiam um bloco em troca, como uma espécie de comprovante.

Mikan não conseguia se lembrar quando havia aprendido aquele fato trivial.

Diante dela estava uma chave dourada de armário de sapatos com um grande número 17 gravado. Mikan a pegou e percebeu que era mais pesada do que esperava — cerca de um quilo, talvez até mais. De qualquer forma, era pesada demais para ser apenas um bloco de madeira pintado com folha de ouro. Embora não conseguisse deduzir se era ouro verdadeiro, estava claro que continha metal.

Mikan levou o bloco dourado consigo ao sair do box de chuveiro.

Ela caminhou com cuidado pelo balneário repleto de vapor, prestando atenção suficiente para não escorregar. Mikan tinha certeza de que o bloco era um item-chave do jogo. Seu brilho dourado e peso elevado sugeriam que era valioso. Além disso, não era um lingote de ouro comum; tinha o formato de uma chave de armário de sapatos. Qualquer jogadora experiente conseguiria imaginar as implicações—

—Levar o bloco até a saída era a condição para concluir o jogo.

Isso tornava aquele um tipo especial de jogo de fuga. Simplesmente sair do balneário não seria suficiente. As jogadoras precisariam vasculhar o local em busca de uma chave de armário — a maioria delas provavelmente bem escondida — e usá-la para recuperar calçados antes de escapar. O vapor denso e quaisquer armadilhas ocultas no balneário ficariam em seu caminho.

Enquanto avançava com cuidado, atenta a possíveis armadilhas, os lábios de Mikan se curvaram num sorriso. A sorte havia sorrindo para ela: uma chave fora escondida em seu box de chuveiro, e ela conseguira encontrá-la. Também considerava uma sorte que aquele jogo — que muito provavelmente seria seu último — fosse um jogo de fuga. Comparados a competições, jogos de fuga costumavam apresentar taxas de sobrevivência mais altas.

A sequência de boa sorte de Mikan continuou quando ela avistou a saída quase de imediato. Sua localização era óbvia mesmo em meio ao vapor intenso — ou melhor, justamente por causa dele. O vapor naquela parte do ambiente parecia muito mais denso do que em outras áreas. Isso significava que a temperatura era baixa o suficiente para que o vapor d’água se condensasse em gotículas, sugerindo a existência de uma porta aberta.

Mikan avançou em direção ao vapor espesso, e sua visão foi rapidamente comprometida. Ela elevou a guarda, avançando pelo piso de azulejos de forma lenta, porém firme.

Falando apenas do resultado positivo: ela já não precisava ter cautela alguma.

A textura dos azulejos sob seus pés desapareceu. Mikan flutuou no ar por um instante antes de cair para trás e se chocar contra o chão. Tarde demais, percebeu que havia sido derrubada. O som de inúmeros passos de pés descalços ecoou ao seu redor.

Um grande número de braços — provavelmente equivalente à quantidade de passos que ouvira — atravessou o vapor e prendeu seu corpo. Um puxão forte em seus característicos cabelos laranja fez seu couro cabeludo arder. Seu pescoço extremamente sensível não sentiu cócegas quando mãos se fecharam ao redor de sua garganta. As mãos em seus ombros pareciam agarrar ossos em vez de carne, e o peso de várias pessoas pressionava seu torso. Seu campo de visão já limitado foi coberto por uma toalha e, em três segundos de chutes desesperados tentando evitar a captura, Mikan perdeu a liberdade de abrir e fechar a boca, e seus gritos de protesto foram silenciados.

Naturalmente, suas mãos, que seguravam a chave do armário, também não foram poupadas.

Mikan ouviu os passos de uma pessoa e percebeu que haviam levado sua chave. Mas naquele ponto, ela já não se importava com o item. O medo dominava sua mente. Sentia muitas pessoas ao seu redor. Estava sendo contida por um grande grupo de garotas. Ficou tonta com a sensação de dedos finos cravando-se em sua carne, cabelos roçando irritantemente sua pele, o peso dos corpos mantendo-a contra o chão, a umidade da pele, as temperaturas corporais, as respirações e até a sede de sangue nua e crua. O que vai acontecer comigo?, ela se perguntou. Roubaram minha chave, mas o que pretendem fazer comigo agora que sou inútil para elas?

Mikan aprenderia a resposta em instantes. Depois que o peso sobre seu corpo desapareceu, ela foi arrastada pelo piso de azulejos. A ideia de que estivessem guiando-a até a saída não lhe passou pela cabeça em momento algum.

No instante em que sua cabeça e ombros foram mergulhados em uma banheira, Mikan compreendeu o destino que a aguardava. Ela inspirou no momento do impacto, infelizmente permitindo que a água invadisse seus pulmões. Já havia se rendido mentalmente, mas seus instintos continuavam a gritar para que resistisse. Contudo, esses instintos eram muito inferiores à inteligência combinada da dúzia ou mais de garotas que a mantinham submersa. Enquanto uma dor como jamais sentira antes assolava o interior de seu nariz, uma única imagem surgiu em sua mente.

Era o rosto de seu irmão mais novo, deitado em uma cama de hospital — o garoto que Mikan teria sido capaz de salvar se tivesse retornado viva daquele jogo.

Ela havia feito sua última resistência. O corpo de Mikan amoleceu, e sua mente se dissolveu no nada.

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Início do jogo.

Yuki despertou com uma sensação de sacolejo.

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A dor percorreu todo o seu corpo, forçando-a a abrir os olhos.

“Ai…”, gemeu Yuki ao se sentar.

Ela estava dentro de um espaço apertado.

O ambiente era tão pequeno que Yuki não conseguia se deitar completamente no chão. Seu corpo só cabia ali porque estava encolhido, com os pés contra a parede. Ela devia ter ficado assim por um bom tempo, pois o estalo dos ossos por todo o corpo denunciava que dormira numa posição desconfortável.

O jogo havia começado. Yuki levou a mão à cabeça. Suas lembranças de antes de adormecer estavam um tanto confusas. Ocorrera-lhe que aquele era um marco importante: seu trigésimo jogo. Ela não estivera em boa forma ultimamente e hesitara quanto a participar, mas no fim fora levada pela corrente e aceitara. E então sua agente lhe entregara o comprimido para dormir—

“—Isso mesmo.”

Yuki olhou para o próprio estômago. Não vestia roupa alguma, e sua barriga estava completamente exposta. Não havia qualquer sinal de que seu abdômen tivesse sido aberto. Sua agente não notara nada? O transmissor que ela ingerira sem querer ainda estaria dentro de seu corpo naquele exato momento?

Sua localização estaria sendo transmitida, de dentro de seu estômago, para algum lugar fora do local do jogo?

Eu fiz uma cagada colossal, pensou Yuki. Talvez tenha sido uma sorte ela não ter dito isso em voz alta. Ela tinha entrado em um jogo depois de engolir o transmissor e, com isso, acabara aceitando o pedido do Sr. Kaneko e ajudando sem querer o plano de destruir os death games. O que diabos eu estou fazendo? Que tipo de idiota engole o comprimido errado? A vergonha que sentia pelo que tinha acontecido era muito maior do que o constrangimento de estar nua diante da audiência.

Yuki olhou para as paredes brancas ao seu redor. Como será que está lá fora? O jogo já acabou? Ou ainda está acontecendo? Esquece isso; como o Sr. Kaneko e os outros familiares das vítimas vão seguir com o plano? O que eles vão fazer depois de descobrir a localização do jogo? Ele disse que ia “cuidar do resto”, mas isso quer dizer que vai fazer deste o jogo final? Ou ele e os associados só vão usar esta chance para observar e preparar o terreno para algo no futuro? Eu não ia aceitar o acordo, então nem perguntei nada disso. Como é que eu deveria—?

Yuki deu um tapa forte na própria bochecha. A dor assentou seu espírito inquieto de volta no corpo.

Calma, ela disse a si mesma. Não se preocupe com o transmissor. O Sr. Kaneko não disse que você só precisava engolir a cápsula? Engolir não muda o que você tem que fazer. Viver. Sobreviver. Mesmo que este seja seu último jogo, mesmo que você perca seu objetivo de completar noventa e nove jogos, você não pode morrer aqui. Não deixe sua vontade de sobreviver se apagar.

Yuki deu outro tapa na bochecha para reajustar a mente. A verdade era que não funcionou nem um pouco, mas, no mínimo, ela tinha demonstrado para si mesma a intenção de focar no jogo.

Ela analisou sua situação atual. Tinha sido colocada em um espaço parecido com um box de chuveiro. Ao abrir a porta e espiar para fora, viu um grande balneário, tomado por muito mais vapor do que qualquer banho que já tivesse visto na vida. O vapor denso provavelmente era uma escolha proposital de design para limitar o campo de visão das jogadoras.

Em seguida, Yuki olhou para o próprio corpo. Tinham tirado suas roupas e a deixado completamente nua. Talvez este jogo não tivesse figurino, já que o local era um balneário. Yuki achou isso uma escolha estranha. Ela pegou a toalha pendurada na parede e a enrolou em volta de si, mal conseguindo esconder as partes do corpo que precisava esconder.

Quando estava prestes a sair do box, percebeu algo cintilar pelo canto do olho.

Dentro do filtro de cabelo do ralo havia uma chave dourada de armário de sapatos.

Um grande número 9 estava gravado nela.

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Depois de sair do box, Yuki se virou e examinou o exterior do compartimento onde tinha despertado. O box era do tamanho mínimo possível e parecia mais uma cabine telefônica ou um banheiro químico. Talvez “cabine de chuveiro” fosse um termo mais apropriado. Olhando de perto, ela viu marcas de atrito na parede e, olhando ainda mais de perto, notou arranhões na parte do piso logo abaixo dessas marcas, sugerindo que os boxes haviam subido de dentro do chão. A sensação de sacolejo que a acordara não tinha sido alucinação — ela fora chacoalhada desperta pela força do box emergindo do solo.

Com as duas mãos, Yuki segurou firme o bloco dourado que encontrara no seu box. Ela acreditava que aquilo era um item-chave. Será que precisava abrir um armário e pegar o calçado lá dentro para conseguir escapar? Isso faria deste um jogo de fuga? Ela não tinha evidências suficientes para montar o quadro completo.

Yuki continuou cautelosa enquanto caminhava. O box dava para uma área repleta de banheiras. Para listar o que era visível: antes de tudo, havia um vapor pesado, como o de Londres, a cidade da neblina. O vapor umedecia a pele de Yuki conforme ela avançava e limitava severamente o quanto ela conseguia enxergar.

O chão era inteiramente azulejado. Por causa do vapor, estava bastante molhado; qualquer pessoa que andasse sem cuidado o suficiente provavelmente escorregaria e cairia. Talvez fosse melhor descrever o chão como uma passagem, pois era extremamente estreito devido às banheiras individuais alinhadas dos dois lados. Yuki tentou pegar com a mão o conteúdo de uma delas, apenas para descobrir que era água quente comum. Havia um banho medicinal, uma jacuzzi e até algo descrito como banho elétrico ali. Lembrando do estalo dos ossos ao acordar, Yuki chegou a cogitar entrar em uma banheira enquanto ainda estava ilesa, mas acabou desistindo.

Aqui e ali, Yuki também viu vários boxes de chuveiro iguais ao que ela havia despertado. A porta de cada um deles estava aberta, indicando que Yuki tinha largado na “partida” depois das outras jogadoras.

Pouco tempo depois, Yuki encontrou essas “outras jogadoras”. Ela ouviu sons de gente em uma banheira à frente.

Yuki semicerrrou os olhos para ver melhor. A distância dificultava, mas parecia haver três figuras humanas dentro de uma banheira mais adiante na passagem. Os sons sugeriam que elas não estavam jogando água em si mesmas, e sim se movimentando dentro da banheira.

Yuki se aproximou e, assim que chegou perto o bastante para identificar silhuetas humanas, os ruídos cessaram, sugerindo que as outras jogadoras a tinham notado. Ela continuou avançando quando, de repente—

“Quem é você?” Uma voz atravessou o vapor. Era uma voz grave, tingida de cautela. Mesmo sendo bem baixa, Yuki conseguiu ouvi-la sem dificuldade, talvez porque as ondas sonoras estivessem sendo amplificadas por toda aquela água.

“Ah, eu só—”

Yuki ia dizer que tinha acabado de acordar, mas não conseguiu terminar a frase.

No instante seguinte em que abriu a boca, uma das silhuetas fez um movimento, e então veio o som de algo cortando o ar.

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Yuki se abaixou no ato. Uma rajada de ar passou por cima de sua cabeça.

Momentos depois, ela ouviu o som metálico de um objeto quicando no piso de azulejos.

Yuki virou na direção do som, mas o vapor espesso impediu que identificasse o projétil. Ela poderia ter ido até lá, mas decidiu, em vez disso, focar em onde aquilo havia se originado.

Yuki se virou de volta. As três silhuetas saíram da banheira aos respingos.

Prestando atenção cuidadosa onde pisava, Yuki correu atrás delas.

Como estava de olho no chão, ela viu uma quarta jogadora agachada junto à borda da banheira.

A quarta jogadora golpeou as pernas de Yuki. Mesmo através do vapor, Yuki percebeu que ela segurava alguma coisa, então tirou as pernas do chão por reflexo — mergulhando para a frente. No ar, arremessou sua chave de armário para dentro de uma banheira para que não a atrapalhasse numa luta. No mesmo instante em que o bloco caiu na água com um splash, Yuki aterrissou apoiada nas mãos; ela se virou enquanto deslizava pelo piso.

A quarta jogadora já estava a poucos centímetros.

Yuki agarrou o pulso direito dela, que vinha na direção do rosto de Yuki. Ela conseguiu interromper o ataque, mas como não tinha assumido uma postura defensiva adequada, a força a fez desabar para trás. A jogadora agarrou o ombro de Yuki e apoiou os joelhos no estômago dela.

Os rostos das duas estavam muito próximos — próximos o bastante para que conseguissem se ver através do vapor.

Os olhos de Yuki se arregalaram em choque — essa jogadora era um garoto?

Mas ela recuou dessa ideia de imediato. Embora a jogadora tivesse um rosto de menino, Yuki não precisava arrancar a toalha enrolada na adversária para saber que o corpo era claramente o de uma mulher. Ela parecia extremamente masculina, mas era uma garota. Yuki soltou um suspiro de alívio. Os organizadores não tinham alterado as regras a ponto de permitir a participação de meninos pré-púberes.

Ainda segurando o pulso direito da atacante, Yuki direcionou o olhar para a mão dela. Ela empunhava uma arma — um caco de espelho. Nesse momento, Yuki se lembrou de que seu box tinha um espelho. A adversária tinha quebrado um e estava usando um fragmento como faca. Yuki também notou algum tipo de tecido entre o caco e a mão da garota — era um pedaço de toalha enrolado na lâmina para formar um cabo improvisado. Enquanto, mentalmente, Yuki enviava elogios à engenhosidade dela, no instante seguinte—

A garota afrouxou o aperto no caco de espelho e, como resultado natural, a gravidade assumiu, fazendo a “faca” despencar para baixo.

Desviar não era problema. Embora a garota estivesse por cima, Yuki tinha liberdade para mover a cabeça. O problema foi que Yuki fechou os olhos involuntariamente ao ver o objeto cair em direção ao seu rosto. Quando alguém próximo tenta te ferir, recuar por reflexo é muito mais vergonhoso do que levar uma facada na cara.

Uma dor aguda subiu da bochecha direita de Yuki até o osso da face. Ela tinha levado um soco.

Assim que abriu os olhos, o segundo soco acertou. Sua visão tremulou.

Quando o tremor cessou, ela viu a garota erguer a mão esquerda — sinal de que ia socar com a esquerda.

Yuki tentou levantar a mão direita para se proteger, mas sua posição por baixo trouxe um problema: no caminho, o braço prendeu na borda da banheira. Como o ombro direito estava pressionado contra a banheira, o alcance do movimento ficou limitado. A prioridade imediata de Yuki era criar distância da oponente. Mesmo levando um quarto e um quinto soco, ela colocou toda a força nas pernas, conseguindo se arrastar alguns centímetros para a esquerda junto com a atacante.

Então Yuki devolveu com um direto no rosto da garota.

A garota estava focada apenas em atacar e não tinha percebido Yuki se posicionando para contra-atacar, então o soco a pegou de surpresa. Aproveitando a abertura, Yuki puxou a garota pelos ombros, arqueou a parte superior do corpo com as costas para encaixar uma cabeçada. A garota reagiu como qualquer ser vivo reagiria — dobrou o corpo e recuou, deslocando o centro de gravidade para trás.

No instante seguinte, Yuki empurrou as mãos contra o peito da garota e conseguiu tirá-la de cima de si. Agora era a vez de Yuki ficar por cima da oponente, cujas costas bateram no piso. Enquanto fazia isso, ela pegou com astúcia a “faca” de espelho que a garota tinha deixado cair e a encostou no pescoço dela, pressionando o suficiente para que o mínimo de força a mais cortasse a pele.

A garota parou de resistir. Ela não tinha dado seu último suspiro — estava admitindo derrota.

“Quem é você?” Yuki perguntou, repetindo as mesmas palavras que tinha ouvido antes. “Por que as outras três fugiram? Por que você ficou?”

A garota de aparência masculina não respondeu.

“Responde,” Yuki insistiu. “Como eu estava tentando dizer antes, eu acabei de acordar. Eu não faço ideia de como este jogo funciona, então eu agradeceria se você me contasse tudo que sabe.”

“…Hã?” A garota pareceu confusa. “Você não é do pessoal da entrada?”

“Entrada?”

“Uma novata…? A essa altura do jogo?” A garota pareceu espantada.

“Desculpa, mas eu tenho sono pesado. Eu sempre chego atrasada na festa.”

“…………” Depois de um silêncio prolongado, a garota respondeu: “Foi mal.”

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Depois de ver a vontade de lutar sumir do rosto da garota, Yuki baixou a lâmina. Ela pegou a chave de armário que havia jogado na banheira e seguiu a garota, que fez sinal para que ela a acompanhasse.

A garota de aparência masculina se apresentou como Azuma.

“Esse aqui é meu sétimo jogo. Prazer.”

Nesses jogos, era bem comum as jogadoras trocarem gentilezas com alguém que tinham tentado matar segundos antes. Achando isso normal, Yuki respondeu com um “prazer” também.

Então tentou se apresentar. “Eu sou—”

“Yuki, né?”

“Hã? A gente já se conheceu?”

“Não, primeira vez. Mas eu já ouvi falar de uma veterana com cara de fantasma. As histórias estavam certas — você é forte pra caramba.”

Azuma tocou o próprio pescoço. Ela tinha sido cortada durante a luta.

Yuki nunca tinha encontrado uma estranha que soubesse seu nome. Agora que tinha chegado ao trigésimo jogo, talvez estivesse entrando de vez no grupo das jogadoras de peso.

“Ainda bem que você não é inimiga,” Azuma disse.

“Como você suspeitou, eu sou a Yuki. Este jogo é o meu trigésimo. É uma ocasião importante, então eu tenho que me dedicar de verdade.”

“Trigésimo, hein? Isso é um marco.” A garota parecia conhecer a Muralha dos Trinta.

“A propósito, pra onde a gente tá indo?” Yuki perguntou a Azuma, que caminhava alguns passos à frente. “Pra algum lugar pra usar isso?” Yuki ergueu sua chave.

“Não. A gente tá indo pro lado oposto.”

“……?”

“Chegamos.”

As duas chegaram a uma parte do balneário onde o vapor parecia muito mais denso do que no resto. Yuki atravessou o vapor, seguindo Azuma.

Embora não houvesse mais do que um metro entre elas, a visão de Yuki estava tão limitada que ela provavelmente perderia Azuma se desviasse o olhar por um segundo.

“Quem vem lá?” perguntou alguém através do vapor.

“Nenhuma alma suspeita,” Azuma respondeu.

Depois disso, Azuma e a voz misteriosa trocaram uma breve conversa. Yuki percebeu que Azuma tinha usado uma senha — se alguém não desse a resposta correta, seria marcado como inimigo.

“Pode passar,” disse a voz.

Azuma e Yuki seguiram caminhando. Logo o vapor afinou, o ar esfriou e uma luz suave preencheu a área. E diante dos olhos de Yuki surgiu…

“…Um banho ao ar livre?”

“Bem-vinda à nossa base.”

A área consistia em uma única banheira grande, cercada por pedras. A água chegava um pouco acima dos joelhos de Yuki. Ao redor havia um bosque de árvores e, além delas, Yuki conseguia ver uma parede feita de altos colmos de bambu.

Aquilo provavelmente indicava o limite do local do jogo.

Azuma e Yuki avançaram mais para dentro da base. Depois de chapinhar pela água por um bom tempo, chegaram à parte mais interna, onde as companheiras de Azuma estavam reunidas. Ao notarem Azuma, as outras jogadoras a receberam de volta. Algumas se viraram para olhar Yuki, e Yuki devolveu os olhares com um aceno e um “oi”.

As garotas responderam com acenos. Yuki as avaliou. Eram nove, o que significava que as três pessoas de antes não eram o resto inteiro do time. Somando a sentinela no vapor e outras que talvez tivessem saído para a área interna, Yuki estimou que o time tinha quinze jogadoras. Como ela, a maioria estava sem roupa e usava apenas uma toalha como “defesa”, mas entre elas havia—

“Hã?” Yuki reagiu. “Ei, Azuma…”

“Que foi?”

“Algumas garotas aqui estão usando roupões… de onde saiu isso?”

“Ah… A gente roubou de inimigas. Parece que tinha uns no vestiário.”

“Tem vestiário?”

“Tem. A gente mesmo não viu, não.”

Azuma afundou na água até os ombros.

“Entra,” ela sugeriu.

Yuki obedeceu.

“Eu sei que tô repetindo, mas… foi mal,” Azuma disse, baixando a cabeça. “Nem passou pela minha cabeça que ainda tinha alguém que tinha acabado de acordar. Mas agora pensando, não tinha como a inimiga agir sozinha. Desculpa eu ter me empolgado e te tratado como inimiga.”

“Não peça desculpa.” Yuki gesticulou com as mãos para mostrar que não tinha ressentimento. “Ninguém se machucou, então não fica se culpando.”

Azuma assentiu.

“A propósito, faz quanto tempo que o jogo começou?”

“Não dá pra ter certeza sem relógio por perto, mas pelo menos algumas horas. Você provavelmente foi a última a acordar.”

Yuki ficou chocada com o quanto tinha se atrasado. Embora não fosse novidade ela acordar tarde no começo de um jogo, nunca tinha dormido por várias horas além do normal. Não era surpresa que tivesse ocorrido um mal-entendido.

Por que ela acordara tão tarde desta vez? Era mesmo só coincidência ela ter caído num sono mais profundo do que o habitual? Ou tinha sido uma intervenção deliberada dos organizadores? Ela esfregou o estômago.

“Eu vou te dar um resumo das regras,” Azuma continuou, “mas antes quero que você concorde com uma coisa.”

“O quê?”

“Você se importa de deixar essa sua chave com a gente?”

Yuki olhou para o lado. Um bloco de ouro puro descansava sobre uma pedra. Yuki acreditava que era o item-chave do jogo.

“Isso significa entrar pro nosso time,” Azuma disse. “Você vai perceber depois que eu te contar como tá o jogo agora, mas é quase impossível limpar esse jogo sozinha. Tem outro time além do nosso, mas eles pararam de recrutar gente nova. É vantajoso pra você e pra gente. Fechado?”

“Fechado,” Yuki respondeu. Sua prioridade imediata era entender as regras. Ela entregou sua chave a Azuma.

“Valeu.”

Azuma aceitou o bloco e o passou para outra companheira, que desapareceu no bosque ao redor da banheira, provavelmente indo para um esconderijo de chaves.

Azuma começou a explicar: “Esse jogo tá basicamente dividido em três áreas.”

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A primeira área era o banho ao ar livre, onde elas estavam. Consistia em uma única banheira grande cercada por um bosque de árvores e servia como base do time de Azuma. Com muitos lugares para se esconder e uma parede de vapor cobrindo a entrada, era fácil de defender e difícil de atacar.

A segunda área era onde as jogadoras tinham despertado — a área interna do balneário, com fileiras de banheiras individuais. A instalação provavelmente tinha sido preparada especificamente para este jogo, pois tinha um layout incomum e era maior do que um balneário normal. Um pequeno número de chaves de armário tinha sido escondido dentro das banheiras, então Azuma e outras jogadoras estavam procurando quando Yuki as avistara pela primeira vez.

A terceira área ficava além da saída do banho interno e se estendia do vestiário até a entrada do prédio. Essa parte do local supostamente continha armários de sapatos que poderiam ser abertos com as chaves. O time de Azuma ainda não tinha visto essa área com os próprios olhos; era informação que tinham obtido do que Azuma tinha chamado de “pessoal da entrada”. Assim como no banho ao ar livre, a entrada da área era coberta por vapor espesso, o que tornava o lugar perfeito para uma emboscada.

Havia apenas uma entrada entre o banho ao ar livre e o banho interno, e apenas uma entre o banho interno e o vestiário. Pelo que o time de Azuma conseguiu determinar, não existiam passagens secretas ou portas ocultas.

“O ponto mais importante é que isso aqui é um jogo de fuga,” Azuma continuou. “Você provavelmente já sacou isso, mas esses blocos são itens-chave. Vencer significa levar eles pra fora da área de banhos, chegar na entrada, pegar calçados nos armários e sair do prédio.”

Yuki assentiu.

“O problema é que, diferente de jogo de fuga normal, não tem armadilha nenhuma. A gente não olhou cada canto, então não dá pra ter certeza absoluta, mas até agora não trombamos com uma única. Em vez disso, tem uma coisa ainda mais cruel nesse jogo… A sua chave tava no seu box?”

Yuki não tinha por que mentir. “Tava.”

“Na minha não tinha. Se você perguntar por aí, vai ouvir respostas dos dois tipos. Isso quer dizer que não tem chave suficiente pra todo mundo. Então—”

“Existe um limite rígido de quantas pessoas podem escapar,” Yuki completou.

Em muitos jogos, o número de vencedoras era definido com antecedência, talvez para facilitar o equilíbrio da dificuldade. Na experiência de Yuki, esses jogos tinham taxa de sobrevivência por volta de 70%. Ou seja, provavelmente havia apenas sete décimos do número de chaves em relação ao número de jogadoras.

“E como tem um limite, as pessoas vão acabar brigando pelas chaves,” Yuki continuou. “Então isso vira um jogo competitivo também.”

“Yuki, digamos que você tivesse acordado cedo e não achado nada no seu box. O que você faria?”

“Bom, eu provavelmente tentaria encontrar a saída.”

“E digamos que você chegasse na entrada e descobrisse que precisa de uma chave. Você voltaria pro banho interno?”

“Eu não voltaria,” Yuki respondeu na hora. “Eu esperaria na entrada alguém aparecer com uma chave.”

Existiam duas estratégias principais para vencer um jogo com item-chave: procurar o item ou roubar de outra jogadora. Quem confiava na própria força costumava preferir a segunda, porque dava bem menos trabalho.

“Imaginei. Eu faria o mesmo,” Azuma respondeu. “Então logo que o jogo começou, um monte de gente se amontoou na entrada. Toda vez que aparecia uma ovelha desavisada com uma chave, todo mundo brigava por aquela chave. Yuki, qual seria o seu plano nessa situação?”

“Formar uma aliança.” De novo, Yuki respondeu de imediato. “Ficar brigando por chave toda hora é ineficiente demais. Eu me juntaria com algumas pessoas e tentaria garantir chaves suficientes pro nosso grupo.”

“Isso. Então o pessoal da entrada se juntou. E como eles não podem escapar até ter chaves pra todas, cada vez mais jogadoras e chaves foram se acumulando na entrada. E o fato importante é que quanto maior o time, mais forte ele fica. Por isso eles foram se fundindo com outros, e o número foi inchando.”

Imitando uma brincadeira comum de criança na banheira, Azuma usou a toalha para formar uma bolha de ar na água, representando visivelmente a palavra “inchar”.

“Mas esse crescimento não é sustentável,” ela continuou. “Afinal, a briga começou porque não tem chave pra todo mundo. Então o pessoal da entrada parou de recrutar gente nova quando tava chegando perto do limite.”

“…E quão grande é o time deles?”

“Trinta, pelo que a gente estima. Eles são o maior bloco de jogadoras desse jogo e são a maioria.”

Yuki fez algumas contas de cabeça. Se havia trinta chaves, o total de jogadoras devia ser menos de cinquenta. Embora não fosse tão grande quanto Candle Woods, ainda era um número considerável.

Azuma ajustou a postura na água, como se estivesse evitando cãibra.

“É mais ou menos assim que rolou,” ela disse. “Eu não vi tudo acontecer, então pode ter diferença… mas não deve ser muita. De qualquer forma, a gente sabe duas coisas com certeza: um, existe um time na entrada. E dois, nós somos as que ficaram de fora.”

Azuma olhou para as companheiras antes de continuar. “Em outras palavras, a gente chegou atrasada. A gente tá no mesmo barco que você. Se a gente fosse pra saída com chave, o pessoal da entrada ia tomar da gente, então a gente não teve escolha a não ser se esconder aqui. O máximo que dá pra fazer é procurar nas banheiras e achar o máximo de chaves possível.”

Azuma encarou Yuki. “É isso. Alguma pergunta?”

“Certo…” Yuki levou um instante para organizar as ideias. “Você disse que o outro time tem por volta de trinta pessoas, mas em que vocês basearam isso? Nos números gravados nos blocos?”

Cada chave de armário tinha um número. A de Yuki tinha o número 9. Não era difícil imaginar que a quantidade de chaves fosse igual ao maior número.

“Em parte, mas também por causa do número de boxes. Tem uns cinquenta, então se você usa a taxa média de sobrevivência de setenta por cento, dá trinta e cinco. Tira alguns por chaves que talvez já tenham sido usadas, e dá trinta.”

Faz sentido, pensou Yuki. O número de boxes tipo cabine telefônica onde elas tinham acordado equivalia ao número de jogadoras.

“Quantas jogadoras têm no seu time?” Yuki perguntou.

“Contando eu e você, doze. Não tem time além da gente e do pessoal da entrada. E eu duvido que tenha gente neutra ou alguém ainda dormindo.”

“Quantas chaves vocês juntaram?”

“Com a sua, dá dez. Oito vieram dos nossos boxes e duas a gente achou nas banheiras.”

Yuki achou isso muita coisa. Assumindo que havia trinta chaves no total, dez era uma fatia grande. Contanto que as chaves estivessem seguras na base, seria impossível o time da entrada escapar com todas as integrantes.

O que significava que a próxima jogada do outro time provavelmente seria—

“Que postura o time da entrada tomou em relação ao de vocês? Eles tentaram roubar suas chaves?”

“Não. Pelo menos, ainda não. Os dois times tão procurando nas banheiras numa boa. Já teve briguinha por chave recém-achada, mas foi no máximo uns empurrões. O outro time não sabe que a gente tem dez, então eles provavelmente acham que procurar vai levar eles até o fim.

“Mas…” Azuma mudou o tom. “Eu duvido que isso dure muito. Em algum momento, eles vão perder a paciência e invadir aqui. Por isso a gente vem se preparando…”

Enquanto dizia isso, Azuma pegou a faca de espelho que tinha dado trabalho pra Yuki antes. Yuki já a tinha segurado uma vez, então sabia que não era só um caco embrulhado em pano — era afiada o bastante para cortar carne humana.

“Isso é impressionante,” Yuki disse. “Não é a arma mais durável, mas fora isso, parece mais do que utilizável.”

“Bom ouvir isso de uma profissional como você. Mas… qual é a real? Você acha que a gente tem chance de sobreviver?”

Yuki olhou para Azuma. Depois olhou em volta para as companheiras de Azuma, que agora eram suas companheiras.

“Relaxa,” Yuki respondeu. “A gente tá em desvantagem numérica, mas tem várias vantagens também. Incluindo essas facas de espelho e o fato de que o inimigo vai ser forçado a atacar. E além disso… eu não posso falar pelas outras, mas você luta bem, Azuma. Eu acho que dá.”

Yuki não tinha dito isso só para animar. O outro time tinha trinta jogadoras, enquanto o delas tinha doze. Yuki já tinha enfrentado desvantagens assim várias vezes no passado. Além do mais, este jogo não era estritamente competitivo — era um jogo de fuga. Não havia necessidade de enfrentar o outro time de frente. Contornar o outro lado e escapar era outro caminho para a vitória. Para Yuki, isso não era um beco sem saída.

No entanto, embora tivesse dito palavras tranquilizadoras, por dentro ela sentia uma certa inquietação. Primeiro, ela estava fora de forma. As engrenagens do seu corpo pareciam desalinhadas. Seus movimentos estavam rígidos, porque pensamentos sobre a Muralha dos Trinta turvavam sua mente. Seu mau estado era evidente no fato de ela ter engolido a cápsula errada e de sua bochecha direita ainda arder por causa dos socos de Azuma. Hakushi, mentora de Yuki, chamara a Muralha dos Trinta de “maldição”, e naquele momento Yuki estava sentindo efeitos adversos compatíveis com essa descrição.

Ela também estava ansiosa quanto à líder que comandava o time da entrada. Não apenas estavam à frente de um grupo enorme de trinta jogadoras, como as regras não tinham nenhuma estipulação sobre alianças, o que significava que a possibilidade de traição estava sempre na mesa. Gerenciar um time assim não seria tarefa fácil. Yuki imaginou que quem estivesse liderando aquilo não era amadora — tinha que ser uma jogadora de calibre parecido com o dela, alguém com muita experiência, que já tivesse participado de mais de vinte ou trinta jogos. Muito provavelmente, era alguém que Yuki já tinha encontrado pelo menos uma vez.

A pergunta era: quem exatamente era a comandante inimiga?

(19/41)

Mishiro estava sentada em uma cadeira de massagem diante dos armários de sapatos.

(20/41)

A cadeira de massagem não estava funcionando, nem ligada. Seria o auge da idiotice usar ladas perto da saída se viraram na direção dela — provavelmente uma armadilha para impedir violadoras das regras —, ela foi forçada a desistir do escape, frustrada. Quem viu aquilo entendeu que não dava para sair sem seguir o procedimento correto: obter os sapatos necessários.

Mishiro olhou para a frente. Armários de sapatos preenchiam o local. Eram compartimentos pequenos, como se esperaria de um balneário comunitário. Cada armário tinha um buraco no canto inferior esquerdo para inserir um bloco, e a maioria já estava preenchida. Mishiro confirmara que todos os armários abertos continham sapatos e que usá-los na entrada impediria que alguém fosse eletrocutada.

Era por isso que Mishiro poderia concluir o jogo agora, se quisesse.

O motivo de ela não fazê-lo era que tinha mais do que a própria vida nas mãos.

Mishiro liderava um grupo grande composto pela maioria das jogadoras do jogo. Ela não podia ir embora até que sua equipe tivesse chaves suficientes para todas. Como a aliança não era amarrada por nenhuma regra, ela não seria penalizada por trair o time e escapar sozinha, mas, considerando que poderia encontrar suas atuais companheiras em um jogo futuro, desertá-las não seria uma boa ideia. Além dos prós e contras de traí-las, ela não tinha intenção de fazer uma jogada tão mesquinha.

Mishiro ouviu passos vindo de trás dos armários. Uma garota surgiu voando através das cortinas que separavam a área da entrada e o vestiário.

“A gente conseguiu!” ela gritou, correndo até Mishiro com aquela mesma energia. “A gente eliminou o time inteiro delas! Isso dá mais cinco pra gente!”

A garota mostrou os itens nas mãos: cinco chaves de armário de sapatos, brilhantes e reluzentes.

Essa jogadora usava o nome de Riko. Era uma garota pequena, lembrando um animalzinho, e era a protegida de Mishiro. Elas tinham se conhecido no trigésimo jogo de Mishiro, e Riko havia se apegado muito à mentora.

“Excelente trabalho,” Mishiro respondeu.

Riko enfiou as cinco chaves nos armários correspondentes. Com as mãos vazias, voltou para Mishiro.

“Por favor, faz aquilo!” Riko fechou os olhos, e uma expressão ansiosa surgiu no rosto.

“…………”

Mishiro pareceu ligeiramente incomodada. Depois de lançar um olhar rápido para a própria mão esquerda, ela passou a mão pela cabeça da protegida.

O rosto de Riko derreteu de alegria.

“Eu me surpreendo que você não se canse disso…,” Mishiro disse, movendo a mão de um lado para o outro.

O carinho era a recompensa. Conforme a relação mentora–protegida evoluiu, em algum momento Riko começou a exigir que Mishiro fizesse carinho na sua cabeça. Mishiro não fazia ideia do que havia de tão prazeroso em ter a cabeça afagada, mas, julgando pela expressão de êxtase de Riko, era evidente que aquilo a agradava.

Riko apontou para o próprio pescoço com um dedo, como se dissesse: aqui também.

“…………”

Mishiro olhou para a própria mão direita.

Então usou essa mão para fazer cócegas no pescoço de Riko.

O rosto de Riko explodiu numa euforia tão intensa que seria quase inapropriado exibir aquilo para a audiência.

“Eu não adquiri uma prótese para este propósito…,” Mishiro suspirou, com a mão esquerda na cabeça de Riko e a direita no pescoço dela.

Aquilo era rotina. As duas eram próximas o bastante para se encontrarem não só em jogos como também na vida privada e, como Riko exigia recompensa pelos feitos mais triviais — como chegar pontualmente a um encontro —, Mishiro já tinha dado incontáveis afagos. Além disso, Riko vinha ficando mais exigente ultimamente e pedia serviços extras como cócegas no pescoço. Embora aquilo parecesse satisfazê-la por hora, se a tendência continuasse, Mishiro possivelmente precisaria adquirir um terceiro braço. Riko era capaz e trabalhadora, então, sem essas exigências, seria a protegida perfeita e adorável.

Como seus braços já estavam cansando, Mishiro encerrou a recompensa.

“Chega por hoje.” Ela deu tapinhas gentis nas bochechas de Riko.

“Ah… muito obrigada…”

“O jogo ainda não acabou. Você deve se recompor.”

“…Certo!” Riko deu tapas nas próprias bochechas. “Então a gente vai atacar o time de lá agora?”

“Não, vamos esperar mais um pouco. A situação mudou.”

“Hã? Aconteceu alguma coisa?”

“O esquadrão de reconhecimento que enviamos ainda não retornou. É justo supor que foram capturadas — ou melhor, mortas. Embora o inimigo só estivesse respondendo às nossas investidas até agora, finalmente mostrou intenção de partir para a ofensiva.”

“Então quer dizer que elas vão atacar como último recurso?”

“Talvez. Ou alguém novo pode ter se juntado ao time delas. É possível que uma jogadora que acabou de acordar esteja influenciando-as.”

“…Tão tarde assim no jogo?”

As jogadoras deste jogo tinham começado em horários diferentes. Elas ficaram presas dentro dos boxes até serem erguidas do subterrâneo.

Neste jogo, quem acordava cedo levava vantagem. À primeira vista, parecia injusto que pessoas despertassem em tempos diferentes, mas talvez os organizadores achassem que isso deixaria a coisa mais divertida. Na prática, o jogo tinha progredido de um jeito que se desviou completamente do conjunto original de regras.

“Se o esquadrão de reconhecimento foi capturado… então o segredo vazou.” Riko olhou na direção do vestiário.

“Não estávamos tentando esconder nada, então não há problema,” Mishiro respondeu. “Aproveite para descansar. Por que não usar este balneário e entrar na água? Veja se consegue localizar alguma chave que ainda não foi recuperada enquanto faz isso.”

“Pode deixar!” Riko fez uma saudação vigorosa, batendo a mão na testa. “Até já!”

Do mesmo jeito que veio, Riko atravessou as tábuas a passos fortes e sumiu. O alívio de se ver livre da garota trouxe a Mishiro uma certa melancolia, como alguém que finalmente escapa de uma multidão.

Mishiro se recostou na cadeira e murmurou: “Ela é cheia de energia…”

Riko era o tipo de garota que absorvia a vitalidade de quem estava ao redor. Bastava conversar com ela por dois ou três minutos para deixar Mishiro exausta. Mishiro se orgulhava de sua habilidade de manipular os outros, polida jogo após jogo, mas aquilo não funcionava com Riko — e apenas com Riko. Em vez disso, sempre que estavam juntas, era Mishiro quem acabava sendo conduzida de um lado para o outro.

Ainda assim, ter Riko por perto era um deleite. Embora ela desse trabalho, Mishiro ficava genuinamente feliz por ter alguém que a bajulasse com tanta sinceridade. Isso era impensável para seu eu do passado, que só conseguia comandar os outros com uma atitude opressiva e formar relações superficiais. A presença de Riko fazia Mishiro sentir que tinha crescido muito como jogadora.

Fazia-a pensar que tinha valido a pena superar as dificuldades que enfrentara com a Muralha dos Trinta.

“…Mesmo assim…,” Mishiro murmurou, encarando o teto.

Ela pensou na possibilidade de uma nova jogadora — alguém que tivesse acordado várias horas atrasada, quando o fim já estava próximo. Se alguém assim existia, devia ser bem capaz, considerando que tinha levado o time do banho ao ar livre a lutar.

Quem poderia ser?

(21/41)

O time de Yuki fazia tudo o que podia para se preparar para um confronto final.

Primeiro, elas avaliaram seu poder de combate atual. O time tinha doze jogadoras, incluindo Yuki e Azuma. Tirando Yuki, todas eram novatas com menos de dez jogos no currículo. Azuma era a única com alguma habilidade de combate, enquanto as outras só conseguiam fazer tanto quanto uma adolescente normal. Para evitar confundir suas companheiras com inimigas, Yuki memorizou os rostos e nomes de todas.

Quanto a outros recursos, o time possuía algumas dezenas de facas de espelho, como a que havia dado trabalho a Yuki antes. Elas também tinham acesso a várias armadilhas feitas com objetos naturais do bosque ao redor do banho ao ar livre. Elas não estavam montadas desde o início do jogo; em algum momento, o time as tinha confeccionado para proteger o esconderijo de chaves. Yuki achou as armadilhas bem impressionantes e concluiu que o time era mais adequado para defesa do que para o ataque.

Em seguida, investigaram o terreno ao redor — o bosque, a faixa de vapor denso na entrada e a área interna do balneário também. Durante essa investigação, encontraram um grupo de garotas do time da entrada que provavelmente tinha sido enviado como força de reconhecimento. Com apenas facas de espelho em mãos, o time de Yuki decidiu que matá-las daria trabalho demais, então se contentaram em nocauteá-las e jogá-las dentro dos boxes. As inimigas ficariam inconscientes por várias horas, e o time de Yuki ainda dificultou a situação bloqueando as portas pelo lado de fora e ferindo as garotas de modo que cada uma ficasse incapaz de usar uma das pernas. Na prática, era seguro considerá-las fora do jogo. O sucesso em reduzir os números da equipe inimiga elevou a moral do time do banho ao ar livre, mesmo tendo eliminado apenas um punhado.

Depois de voltarem à base, começaram uma reunião de estratégia. Dada a vantagem de terreno e o fato de que seu time era mais adequado para reagir do que para atacar, todas concordaram em adotar uma estratégia de recuo ofensivo. Como as melhores lutadoras corpo a corpo, Azuma e Yuki formariam a vanguarda, enquanto as outras dez ficariam na retaguarda. O plano era reduzir gradualmente o número de inimigas recuando a linha de frente através de táticas de guerrilha, como ataques de bate-e-corre no vapor e arremesso de facas à distância.

E assim o time de Yuki tomou posição e esperou a hora.

(22/41)

Perto da entrada do banho ao ar livre, o ar frio que vazava de fora diminuía a temperatura, facilitando a condensação do vapor d’água em gotículas e, com isso, tornando o vapor ainda mais denso. Yuki entendia o princípio por trás do fenômeno graças às aulas noturnas, onde vinha expandindo aos poucos sua base de conhecimento. Dito isso, ela não tinha conseguido juntar isso sozinha; só tinha entendido de verdade depois que Azuma explicou.

De qualquer forma, Yuki e Azuma estavam escondidas atrás de uma parede de vapor, onde a visibilidade era tão ruim que mal conseguiam enxergar o espaço à frente. Sendo as duas melhores lutadoras do time, elas usariam táticas de guerrilha quando o time da entrada atravessasse.

“Acha que dá pra gente conseguir?” Azuma perguntou. Embora estivesse ao lado de Yuki, o vapor pesado impedia Yuki de ver a expressão dela.

“Provavelmente,” Yuki respondeu.

Vencer significava terminar o jogo com a maioria do time viva. Não significava dizimar o time da entrada — isso nunca ia acontecer. Se conseguissem reduzir as forças inimigas em certa medida, o outro time provavelmente buscaria um cessar-fogo.

O maior problema do jogo era que o número de jogadoras que podiam sobreviver era menor que o total. Em outras palavras, se o número de sobreviventes ficasse menor ou igual ao máximo possível, as jogadoras restantes estariam garantidas para concluir o jogo. Nesse ponto, seria irracional lutar até a morte até um lado ser totalmente exterminado. Ambas as partes teriam interesse em negociar quando o total de jogadoras diminuísse o suficiente.

No momento, o time do banho ao ar livre tinha doze jogadoras, enquanto o time da entrada tinha cerca de trinta. Como o número de chaves restantes também era estimado em trinta, seriam necessárias doze mortes para o jogo terminar. Na prática, porém, ambos os lados provavelmente prefeririam mais folga e esperariam até quinze ou vinte jogadoras irem de base; de qualquer forma, as equipes começariam negociações pacíficas muito antes de qualquer lado ser exterminado.

Ambos os lados certamente guardariam ressentimento um pelo outro após perderem suas aliadas, mas nenhuma jogadora seria tola a ponto de jogar fora uma vitória garantida por um motivo tão estúpido. Assim, o jogo terminaria com um acordo amistoso e um pacto de divisão de chaves.

Portanto, o conflito que estava prestes a começar não era uma campanha de aniquilação nem uma guerra para proteger chaves do inimigo.

Era uma batalha para determinar qual time carregaria uma parcela maior das doze mortes restantes.

Esse era mais um motivo para o time de Yuki ter escolhido uma estratégia defensiva. Elas venceriam não por exterminar as oponentes, mas por desgastar as forças inimigas até atingirem o número de ouro.

“…………”

Dentro da parede de vapor, Yuki e Azuma esperaram, tensas. Muito tempo passou, mas o time da entrada não dava sinais de aparecer. Como o esquadrão de reconhecimento tinha sido neutralizado, elas estavam avançando com cautela? Seja qual fosse o motivo, Yuki tinha tempo sobrando. Os minutos a sós com Azuma foram passando.

Quando não havia nada mais para preencher o tempo, Yuki tinha um assunto de conversa padrão com outras jogadoras: perguntava por que elas tinham entrado naquele ramo, onde a vida humana valia tão pouco. Ela chegou a abrir a boca, mas antes de falar—

“Ei.” Azuma a interrompeu.

Forçada a mudar rapidamente a forma dos lábios, Yuki respondeu: “O quê?”

“Por que você decidiu viver de death game?”

Yuki ficou surpresa por receber justamente a pergunta que pretendia fazer.

“Ah… Bom…”

A garota-fantasma tentou responder, mas—

“……”
“…Yuki?”

Yuki levou a mão à garganta.

Ela não conseguia dizer. O mesmo tinha acontecido com o Sr. Kaneko. Fora de forma como estava, ela não conseguia se obrigar a dizer que pretendia completar noventa e nove jogos.

Em vez disso, Yuki deu outra justificativa. “…Acho que foi porque não tinha nenhum outro caminho pra mim. Eu não combinava com o mundo normal. Entrei nesses jogos querendo uma fuga, e daí as coisas seguiram a partir disso.”

“Hm. Igual eu, então.”

“Sério?”

“Sim. Quer dizer, não é óbvio? Você acha que uma garota direta e masculina como eu consegue se encaixar na sociedade?”

Era uma pergunta difícil de responder.

“Bom, eu não vejo problema,” Yuki disse, optando por uma resposta diplomática. “Pelo menos você não fala de si mesma na terceira pessoa nem nada assim.”

“Ha-ha, nisso você tá certa… Mas acho que pra mim é menos sobre não conseguir me encaixar e mais sobre não querer me encaixar.” Havia emoção na voz de Azuma. “Nem sei por quê. Usar uniforme, agir simpática… nada disso devia ser impossível ou doloroso, mas por algum motivo nunca funcionou pra mim. É muito mais fácil cortar o pescoço de alguém pra matar.”

“O que você faria se alguém dissesse que vai te tirar desses jogos?”

“Hã?”

“Digamos que alguém se oferecesse pra te arrumar um emprego ‘de verdade’ pra você não precisar mais jogar nesses jogos perigosos. Como você responderia?”

É claro, Yuki tinha a proposta do Sr. Kaneko na cabeça. Ela só queria jogar a pergunta no ar.

Veio um som de estalo de onde Azuma estava; ela devia ter dado um soco no ar.

“Eu dava um belo de um soco na pessoa,” ela respondeu. “Sim, eu não tinha outro caminho, mas eu tô aqui porque eu quero. Eu ia ficar puta se alguém dissesse que vai me arrumar um emprego ‘de verdade’, como se eu fosse um caso de caridade. Um babaca desses merece um soco.”

“Eu entendo perfeitamente.”

“Você perguntou isso porque alguém falou alguma coisa pra você?”

“Não, não é isso…” Quando Yuki tentava disfarçar, sua boca travou. Ela ergueu a guarda. “Elas estão aqui.”

“Eu também notei,” Azuma disse.

Yuki sentiu um grande número de jogadoras se aproximando, vindo direto na direção das duas. Yuki pegou a faca de espelho aos seus pés com as duas mãos. Azuma fez o mesmo.

“Vamo nessa.”

“Sim.”

Depois dessa troca breve, as duas se calaram. Elas se prepararam para a batalha iminente.

As facas nas mãos não eram para arremessar. Seria praticamente impossível acertar um alvo com tanto vapor, e tudo o que isso faria seria denunciar a posição delas. A decisão inteligente era esperar até o inimigo entrar no alcance das lâminas.

Então elas esperaram. Logo perceberam não só a presença do inimigo, como também o som de passos misturados ao barulho de água sendo agitada. Yuki forçou os ouvidos—

“……?”

Estranho, pensou Yuki. Tem tanta gente assim?

Havia muito mais passos do que ela esperava. Não eram dez ou vinte — era mais perto de trinta. Azuma e as outras tinham estimado que havia cerca de trinta no time adversário, o que significava que praticamente toda a força inimiga estava avançando.

O que também significava que poucas jogadoras estavam de guarda na entrada. Para comparar com futebol, seria como se o time inteiro, exceto a goleira, estivesse no ataque. Nem crianças do primário fariam uma jogada tão sem noção. Se as guardas falhassem em notar o time de Yuki passando — algo bem provável com o vapor —, deixariam o inimigo alcançar a entrada. A defesa estava esticada demais.

Yuki considerou a situação. O inimigo estava tentando fazê-las acreditar que a entrada estava vulnerável? Talvez houvesse poucas guardas, mas extremamente fortes, capazes de barrar qualquer uma. Isso seria o oposto da formação do time do banho ao ar livre, que tinha posto as melhores lutadoras na frente. Se o time de Yuki presumisse que a entrada estava fraca e tentasse correr, a retaguarda do inimigo as pararia e ganharia tempo para a vanguarda de trinta voltar e atacar pelos dois lados. Era bem possível que esse fosse o plano do inimigo — eliminar completamente o time do banho ao ar livre.

Ou seria—

No instante em que a segunda possibilidade passou pela cabeça de Yuki, ela ouviu passos vindos do banho ao ar livre.

“Ei… Azuma! Yuki!”

Alguém sussurrou chamando as duas. Yuki virou na direção da voz e viu uma silhueta no vapor. Era uma das companheiras.

“O que foi?” Azuma perguntou, em voz baixa.

“Aconteceu uma coisa estranha.”

“O quê?”

“Tem sons vindo da parede de bambu, como se alguém estivesse raspando…”

“…Hã…?”

Essa reação não veio de Azuma, e sim de Yuki.

A mente de Yuki ficou completamente em branco, como se ela tivesse cuspido a alma junto com aquele único sopro. Sua cabeça pareceu muito mais pesada do que a nuvem de vapor ao redor.

Um choque intenso tomou seu coração oco. Um amontoado de raiva, arrependimento e vergonha — tão forte que dava vontade de se bater. A mesma sensação já a tinha atingido no jogo anterior, e no jogo anterior a esse também.

Por quê? Por que eu não percebi? Por que eu não fui ver com meus próprios olhos?

As pernas de Yuki se moveram mais rápido do que ela conseguia pensar. Sem prestar atenção no chão, ela disparou para dentro do banho ao ar livre.

“Espera… Yuki?!”

Uma voz e passos vieram de trás. Era Azuma.

Azuma estava seguindo Yuki, mas Yuki não respondeu nem sequer olhou para trás. Naquele momento, não tinha espaço mental para isso.

Por quê?

Mais uma vez, Yuki se questionou.

Azuma disse que o jogo estava dividido em três áreas. Por que você acreditou nisso automaticamente? Tá, você ficou impressionada com a capacidade de luta dela, mas isso não muda o fato de que ela é uma novata no sétimo jogo. Por que não considerou que ela podia ter cometido um erro de julgamento? Por que não pensou em perguntar se realmente eram só três áreas ou sobre quaisquer outras regras? Não é questionar tudo que garante a sobrevivência? Como você esqueceu o básico de ser jogadora? Quando foi que você ficou tão preguiçosa?

Antes do confronto final, você investigou com cuidado o campo de batalha — o banho ao ar livre. Você teve tempo de sobra pra olhar a parede de bambu. Por que não pensou nada sobre ela? Você sabia que o local era um balneário. Então por que não considerou a possibilidade óbvia? O que tem de errado com o seu cérebro? Ele é feito de bambu?

Não ouse botar a culpa na Muralha dos Trinta.

Inacreditável. Você é uma completa tapada.

Yuki saiu do vapor e saltou para dentro do banho ao ar livre. Atravessou a água, correu pelo bosque e avançou contra a parede de bambu como se fosse dar uma ombrada nela. A parede tinha quase três vezes a altura dela e, embora não houvesse saliências para usar de apoio, Yuki escalou com uma técnica impressionante.

Ela espiou por cima para o outro lado.

Do outro lado havia um segundo banho ao ar livre — e um grande contingente de jogadoras do time da entrada.

(23/41)

Mishiro abriu os olhos sentada na cadeira de massagem.

Diante dela havia dois conjuntos de armários de sapatos, lado a lado. Cada um guardava trinta e cinco pares distribuídos em sete colunas e cinco fileiras — setenta pares ao todo. Considerando a quantidade de sapatos, bem como o número de boxes instalados em ambos os banhos, o número inicial de jogadoras provavelmente era cem. Somando as sessenta e cinco do time da entrada e a dúzia ou mais do time do banho ao ar livre, o número atual de jogadoras estava pouco abaixo de oitenta.

Os armários à esquerda de Mishiro eram abertos com blocos de ouro puro, enquanto os da direita eram destrancados com blocos de prata pura. Além disso, cada conjunto de chaves era numerado independentemente do outro. Por isso, apesar de o jogo ter começado com cem jogadoras, o maior número gravado em uma chave era 35. Enquanto as jogadoras permanecessem nas áreas de banho ao ar livre e banho interno, seria difícil perceber a verdade de que existiam dois banhos.

Além dos armários havia conjuntos separados de cortinas que levavam a dois vestiários. Cortinas de balneário normalmente indicavam homens e mulheres, mas como todas as jogadoras eram garotas, as cortinas não separavam por gênero. Em vez disso, a palavra ouro estava escrita nas cortinas da esquerda, enquanto a palavra prata estava nas da direita. Naturalmente, as chaves escondidas nos respectivos banhos correspondiam a essa cor.

A aliança de Mishiro acabara de eliminar o time que se escondia no banho de prata. O próximo alvo era o time no banho dourado, mas como agora tinham acesso total ao banho de prata, Mishiro propusera atacar pela retaguarda, atravessando a parede de bambu do banho de prata. A emboscada seria extremamente eficaz, desde que o inimigo não percebesse que existia mais de um banho.

O som de passos enérgicos vindos do vestiário do banho dourado informou Mishiro dos resultados da estratégia.

“Conseguimos, Mishiro!” Riko disparou para fora do vestiário, empurrando as cortinas com a cabeça. “Sua estratégia funcionou! A gente roubou as chaves do time do banho ao ar livre!”

Mishiro se surpreendeu. “Sério…? Tão rápido assim?”

“Sim. Foi um sucesso enorme!”

Isso foi fácil demais, pensou Mishiro. O time do banho de prata lutou muito mais.

“Houve baixas do nosso lado?” Mishiro perguntou.

“Só coisas leves! Algumas meninas se machucaram, mas todo mundo tá viva!”

“Quantas chaves o time do banho dourado tinha?”

“Se prepara: elas tinham dez!” Riko abriu as mãos mostrando os dez dedos.

Mishiro olhou para os armários. Elas quase tinham completado o conjunto de chaves de prata e já tinham juntado a maioria das douradas. Mais dez chaves significava que teriam sapatos suficientes para todas do time da entrada escaparem.

Então Mishiro olhou para as mãos de Riko, estendidas à sua frente. Todos os dez dedos estavam abertos para indicar dez chaves, mas Riko não tinha uma única chave em mãos.

“Onde estão as chaves agora?”

“As outras se dividiram e tão trazendo pra cá agora mesmo! Elas são pesadas demais pra eu carregar tudo sozinha!”

Depois da incursão no banho de prata, Riko voltara com as cinco chaves que tinham roubado. Mas desta vez tinham conseguido o dobro — e a densidade do ouro era o dobro da prata. De fato, seria difícil para Riko carregar as dez sozinha.

“É isso que eu tenho pra reportar por enquanto! Pode esperar mais notícia boa!” Riko não exigiu a recompensa de sempre — talvez achasse que não havia tempo — e girou no calcanhar.

“Espere um momento,” Mishiro disse, olhando para as costas de Riko. “Para onde você vai agora?”

“Hã…? Eu ia voltar lá e proteger as chaves. O time inimigo provavelmente vai reagir com tudo…”

Fazia sentido. Como o time de Mishiro agora tinha o número necessário de chaves, o time do banho dourado ficaria encurralado se o calçado fosse usado para escapar. Isso significava que o inimigo teria que contra-atacar o quanto antes. Mishiro não tinha objeções à avaliação de Riko. No entanto…

“Você vai ficar aqui,” Mishiro disse. “Faça a guarda no meu lugar e garanta que nenhuma doninha tente escapar debaixo do nosso nariz.”

“No seu lugar…?”

“Eu vou tomar o seu lugar.” Mishiro se levantou da cadeira de massagem. “Seria desonroso se eu não aparecesse ao menos para o final.”

As líderes que surgiam naturalmente em death games caíam em uma de duas categorias: “soldadas”, que lutavam na linha de frente, e “comandantes”, que davam ordens da retaguarda. Embora Mishiro fosse do tipo comandante, ela havia decidido se expor em momentos críticos.

Isso porque ficar esperando na retaguarda o jogo inteiro faria as outras acharem que ela estava relaxando.

Mishiro empurrou Riko pelos ombros e a fez sentar na cadeira de massagem.

“Não, mas…,” Riko protestou.

“O que foi?”

“Você tem certeza disso, Mishiro? Afinal, este jogo é o seu…”

Riko parecia preocupada. Mishiro demorou um instante para entender, até lembrar que aquele jogo era um marco pessoal. Riko estava receosa de que Mishiro enfrentasse algum tipo de maldição, como a Muralha dos Trinta.

“Jogadoras só têm azar por volta do trigésimo jogo,” Mishiro disse. “Este jogo não deve me trazer problema algum.”

Riko ainda parecia inquieta, então Mishiro fez carinho na cabeça da garota para cortar o protesto pela raiz.

“Estou contando com você,” Mishiro sussurrou no ouvido dela. “Como sempre, se alguma coisa acontecer comigo, você está livre para ir com tudo.”

Riko assentiu. Mishiro deu um tapinha no ombro da garota e então virou as costas para a entrada.

(24/41)

O time de Yuki lutou com tudo.

(25/41)

Um segundo banho ao ar livre. As implicações eram óbvias. Assim como balneários comuns tinham banhos separados para homens e mulheres, este jogo também tinha dois banhos. O time de Yuki assistiu, impotente, enquanto as jogadoras do time da entrada abriam um buraco na parede de bambu e infiltraram sua base, percebendo tarde demais que o plano delas tinha sido frustrado.

A existência de dois banhos também significava que o número de jogadoras — e de inimigas — era o dobro do que tinham estimado. Embora a diferença enorme de tamanho já não ajudasse, ser atacadas pelos dois lados foi devastador. Como foram pegas de surpresa pela verdade chocante, elas não conseguiram se coordenar e tudo desmoronou rapidamente.

Apesar das circunstâncias, o time de Yuki ainda assim lutou com todas as forças.

Mas esses jogos não ofereciam prêmio de consolação.

Não levou muito tempo para o time da entrada roubar as chaves escondidas no bosque e deixar o banho ao ar livre. O som de mais de quarenta pares de pés se afastando sumiu à distância, deixando para trás apenas as figuras abatidas do time do banho ao ar livre, parecendo que tinham acabado de ser assaltadas.

(26/41)

“...Está todo mundo aqui?” Foi Azuma quem chamou suas companheiras de equipe. A voz dela soava tensa, como se tivesse se ferido. “Respondam se estiverem.”

“Estou aqui”, respondeu Yuki. Ela estava deitada de barriga para cima, com braços e pernas esticados no meio do bosque.

Apesar de ser uma “fantasma”, Yuki estava ofegante. O cansaço vinha da tentativa de recuperar os blocos dourados da equipe da entrada. No entanto, nem mesmo ela conseguia ter sucesso contra uma força de mais de quarenta pessoas.

“Hiwada, aqui.”
“Karin também.”

Respostas vieram de todos os lados do banho ao ar livre.

“Onze, é?” Azuma disse, confirmando o número quando as vozes cessaram. “Onde está a Sugiyama?”

“Ali”, alguém respondeu. “...Ah… Ela bateu a cabeça numa pedra, então…”

A garota deixou a frase morrer. Nem uma única alma pediu que ela terminasse.

De um time de doze, onze jogadoras haviam sobrevivido. Aos olhos de Yuki, aquilo não era um resultado ruim. A força de ataque de antes provavelmente tinha sido instruída apenas a roubar as chaves dos armários de sapatos, já que doze jogadoras eram muitas para tentar matar. Embora onze não fosse um número ruim de sobreviventes, elas estavam em apuros.

“Foi mal, pessoal”, disse Azuma. “Eu não percebi que existiam duas áreas de banho…”

“Você não deve se desculpar”, Yuki interrompeu. Aquela era a regra prática dela — jogadoras que pediam desculpas em voz alta tinham mais chances de morrer. Por isso, mesmo que Yuki também sentisse culpa por não ter percebido a verdade, ela não ousou expressar isso em palavras. “Em vez disso, vamos olhar para frente. O que vamos fazer agora?”

Ninguém respondeu.

“A outra equipe provavelmente já tem chaves suficientes”, Yuki continuou. “Assim que aquela força de ataque chegar à entrada, acabou para nós. A equipe da entrada vai escapar com suas integrantes, e nós vamos ficar para trás. Não é hora de ficar deitadas.”

“...Você tem razão”, disse Azuma.

“No mínimo, temos três opções diferentes. A primeira — não fazer nada. A gente fica quieta enquanto a equipe da entrada escapa e depois procura por chaves extras que elas não usarem ou por chaves que ainda estejam escondidas nos banhos. Isso deve permitir que algumas de nós sobrevivam.”

“Algumas de nós…?” alguém questionou.

Exatamente — escolher essa opção significaria lutar entre si para garantir as vagas restantes de sobrevivência. Yuki queria que essa fosse a última alternativa, se fosse possível.

“A segunda — perseguimos o inimigo para tentar roubar de volta as nossas chaves”, Yuki continuou.

“Espera, não tem como…”
“É, nós acabamos de perder para elas. O que significa que há pouca chance de dar certo. Então essa opção também está descartada.”

Yuki se levantou antes de prosseguir.

“A terceira — avançamos até a entrada, tudo ou nada.”

De repente, o ar ficou tenso.

“Você tá sugerindo… um ataque suicida?” Azuma perguntou.

“Não existe motivo pra gente ficar apegada às nossas chaves originais. A equipe da entrada tem dezenas de outras, então podemos usar aquelas no lugar. Contanto que a gente chegue à entrada, elas serão nossas pra pegar. A defesa delas deve estar fraca agora, então existe alguma esperança de sucesso.”

“ ‘Fraca’…? Não tem mais ou menos vinte delas que ficaram para trás?”

No começo, elas tinham estimado que a equipe da entrada tinha trinta jogadoras. Mas, depois de descobrirem que existiam dois banhos, ajustaram isso para sessenta. Como a força de ataque tinha mais de quarenta jogadoras, isso deixava cerca de vinte inimigas de prontidão na entrada. Era uma conta extremamente simples.

Invadir território inimigo sem um plano deveria ser uma opção a ser evitada a qualquer custo. A equipe do banho ao ar livre tinha se preparado justamente para não precisar recorrer a isso. Mas, naquele estágio, Yuki não conseguia pensar em nenhuma outra saída.

“Eu não vou obrigar ninguém”, Yuki disse, olhando para as outras garotas, que pareciam hesitar com a ideia. “Só quem quiser vir, vem.”

Ela tinha plena consciência de que sua voz soava muito mais fria do que antes.

(27/41)

Cinco garotas levantaram a mão.

Incluindo Yuki, isso totalizava seis jogadoras. Como as chances de sucesso aumentariam com um grupo maior, Yuki queria persuadir as cinco restantes a se juntarem, mas elas foram bem teimosas. Parecia que estavam apostando na possibilidade de a missão suicida de Yuki ser recebida com um contra-ataque — com menos pessoas para disputar as chaves que sobrassem, isso significava maiores chances de sobrevivência.

Yuki não tinha tempo para tentar convencê-las. Assim que aquelas mais de quarenta jogadoras de antes retornassem à entrada, o esquadrão de Yuki realmente não teria chance alguma de sobreviver. Elas precisavam seguir com o plano, mesmo tendo apenas metade do número original.

Como a equipe da entrada tinha desaparecido pela parede de bambu, indo para o outro banho, o grupo de Yuki decidiu seguir pelo próprio banho em que estavam. Embora o vapor preenchesse a área, o terreno do jogo era extremamente simples. Contanto que ninguém ficasse no caminho delas, tudo o que precisariam fazer era correr em linha reta na direção da saída.

As seis correram sem trocar nenhuma palavra.

Pouco depois, chegaram à seção com vapor pesado.

“...Droga...”, Yuki murmurou.

Ela estava de mau humor. Seu coração tinha esfriado, mas, apesar disso, ela não conseguia pensar direito. Embora sentisse que estava entrando em modo de crise, os pensamentos não clareavam. Seu corpo parecia pesado. Uma sensação misteriosa de náusea se espalhou por cada centímetro, como se ela tivesse acordado com menos sono do que o normal, ou como se tivesse sofrido uma sequência de derrotas no mahjong ou no pôquer.

Ela não conseguia se livrar de uma dúvida específica que a incomodava. E resistia com todas as forças a não dizer aquilo em voz alta.

O grupo de Yuki avançou para dentro da nuvem densa de vapor. Embora ela sentisse sinais do inimigo ao redor, não deu atenção. Continuou correndo para afastar a náusea.

“Guh...”

O gemido veio de Azuma, que estava na retaguarda da fila.

Yuki não conseguiu evitar reagir à voz dela. Ao olhar para trás, viu que as cinco silhuetas que deveriam estar seguindo tinham sido reduzidas a quatro. Atrás delas, Yuki sentiu alguém se debatendo violentamente no piso de azulejo — Azuma. A garota resistia enquanto era contida por membros da equipe da entrada.

“Não parem!” Yuki gritou para as quatro companheiras restantes. “A gente não pode diminuir agora! Confundam o inimigo e atravessem!”

Embora achasse que não tinha feito um bom apelo, as outras quatro voltaram a mover as pernas, como se tivessem sido intimidadas à ação. E, claro, Yuki retomou sua corrida também.

Elas tinham acabado de chegar ao ponto crítico.

A mente de Yuki rugiu.

É o fim? É aqui que eu morro?

(28/41)

Mishiro olhou para baixo, para a jogadora que agora tinha virado um cadáver. A garota tinha um rosto de menino e, de acordo com a aparência, possuía uma vitalidade considerável; foram necessárias dez jogadoras inteiras para segurá-la e afogá-la numa banheira.

“Vamos em frente”, Mishiro instruiu suas companheiras antes de sair em perseguição às cinco jogadoras que tinham passado correndo por elas.

Ela alcançou imediatamente, graças às companheiras mais à frente que tinham reduzido a velocidade das fugitivas. Assim como fizera antes, Mishiro derrubou a jogadora da retaguarda e, junto de várias colegas, afogou a garota em uma banheira. Duas a menos.

A equipe matou a terceira e a quarta do exato mesmo jeito.

Enquanto a batalha unilateral continuava de forma quase mecânica, um pensamento surgiu na mente de Mishiro.

Que ridículo.

A situação não valia a pena ser levada a sério. Mishiro tinha achado que o inimigo ofereceria mais luta — mas era só isso que conseguiam? A jogadora que entrou na briga várias horas atrasada como uma heroína de verdade acabou não sendo nada demais. Quem quer que fosse tinha sido descuidada demais para perceber o fato de existirem dois banhos e estúpida o bastante para colocar todo o time em risco recorrendo a um ataque suicida. Mishiro se lembrou de sua própria performance vergonhosa num jogo de muito, muito tempo atrás e soltou um risinho.

Essa jogadora misteriosa não era páreo para ela — e não chegava nem perto daquela garota fantasma.

Permita-me admirar a expressão idiota no seu rosto, pensou Mishiro.

Depois de eliminar com sucesso a quinta jogadora, Mishiro se aproximou da última fugitiva.

Ela tentou derrubá-la da mesma forma, mas, sendo a sexta vez, sua inimiga pareceu perceber o perigo. Antes que Mishiro pudesse esticar a perna, a jogadora girou o corpo inteiro.

E então—

(29/41)

E então—

As duas garotas foram reunidas.

(30/41)

Elas não trocaram palavra alguma.

Ainda assim, tudo ficou claro. As duas compreendiam perfeitamente a posição uma da outra.

Yuki entendeu — que a princesa diante de quem ela estava cara a cara pela primeira vez em oito meses, Mishiro, era a líder da equipe da entrada. Que a garota tinha continuado a jogar death games apesar de ter perdido o braço. Que havia se tornado capaz o suficiente para liderar a equipe da entrada, para brincar com a equipe do banho ao ar livre durante todo o jogo e, agora, para ter as mãos a poucos centímetros da garganta de Yuki.

Mishiro entendeu — tinha sido essa desgraçada. A garota fantasma, aquela que no passado tinha derrubado Mishiro do pedestal, era a jogadora que havia se juntado tarde à equipe do banho ao ar livre. Ela era quem tinha eliminado o grupo de reconhecimento da equipe da entrada, quem tinha falhado em perceber o truque deste jogo e permitindo que as chaves de seu time fossem roubadas, e quem tinha comandado seu lado a lançar um ataque suicida desesperado. Só podia ser ela.

Yuki… não conseguia se mexer. O corpo inteiro estava congelado, como se pregos tivessem sido cravados em seus pontos vitais.

Uma névoa embaçava sua mente, e ela não fazia ideia do porquê. Talvez estivesse surpresa por encontrar uma oponente inesperada, talvez a maldição da Barreira dos Trinta que afetava sua forma tivesse atingido o auge naquele exato momento, ou talvez estivesse tendo uma súbita vertigem depois de girar com tanta força. Ou talvez as três coisas tivessem acontecido ao mesmo tempo, e o cérebro dela tivesse travado por não conseguir processar a informação.

Por vários segundos, apesar de encarar o último instante do seu último suspiro, Yuki permaneceu imóvel como um espantalho.

Mishiro… tinha uma faca de espelho na mão esquerda. Ela tinha pegado a arma da jogadora de rosto de menino. Mishiro não tinha como saber, mas a garota à sua frente havia caído num torpor e não seria capaz de se defender direito. Se Mishiro simplesmente abaixasse a lâmina, poderia ter tirado a vida de Yuki ali mesmo, com facilidade.

No entanto, Mishiro fez um movimento não com a esquerda, mas com a direita — a que ela havia recuperado depois de jurar se vingar da garota diante de seus olhos.

Depois de estender o braço direito reto à frente, Mishiro atingiu o rosto da garota fantasma — com um tapa na bochecha.

E então Mishiro gritou—

“—O que é essa palhaçada?!”

(31/41)

Foi um estalo bem alto, o que significava que a força do impacto tinha sido bem pequena. Um barulho alto indicava que a maior parte da energia cinética tinha se convertido em energia sonora. Portanto, o dano causado a Yuki deveria ser desprezível.

Porém, como Yuki estava em uma postura instável, ela perdeu o equilíbrio apesar do tapa fraco. Caiu de costas no piso de azulejo e então se sentou num movimento que parecia absurdamente lento para alguém no meio de um death game.

O que a esperava era um joelho no rosto.

“O que é essa palhaçada?! O que é essa palhaçada?! O que é essa palhaçada?! Hã?!”

Enquanto Yuki permanecia no chão, Mishiro continuou a despejar chutes nela, cada um acompanhado de uma provocação raivosa. Yuki lembrava de Mishiro como alguém com um vocabulário muito mais sofisticado, mas fazia bastante tempo desde que se viram; talvez Mishiro tivesse abandonado seus padrões refinados de fala.

Não — não era isso. Yuki tinha feito Mishiro abandoná-los. Yuki tinha enfurecido Mishiro tanto que a outra era incapaz de manter a compostura.

“Eu exijo que você se explique! Isso é a performance de uma sobrevivente de Candle Woods?!”

Talvez a raiva de Mishiro tivesse diminuído um pouco, porque ela voltou ao tom de princesa da última vez que tinham se encontrado. E como os chutes também tinham parado, Yuki escapou, se arrastando para longe.

Yuki esperou que Mishiro dissesse “Pare aí”, mas, na realidade, Mishiro gritou—

“Fiquem longe!”

Essas palavras não foram para Yuki, e sim para as numerosas integrantes da equipe da entrada ao redor delas.

“Não toquem nela! Essa desgraçada é minha! Se ousarem ficar no meu caminho, eu não hesitarei em espancar vocês até a morte!”

(32/41)

Yuki fugiu. Mishiro perseguiu.

Ver a garota fantasma fugir de modo tão patético só alimentou a raiva de Mishiro. Ela não tinha vindo até ali para presenciar aquele espetáculo miserável.

Uma única frase girava na cabeça dela.

Eu não suporto ela.

Eu não suporto ela. Eu não suporto ela.

Mishiro não suportava o fato de a garota estar fugindo com o rabo entre as pernas, não suportava ver uma manobra tão ridícula. Tudo o que Mishiro tinha feito até hoje era pelo bem de se vingar de Yuki, a garota fantasma que um dia a havia humilhado. E, ainda assim, que diabos era aquilo? Era inútil vencer contra uma fracote. O confronto final precisava ser muito mais dramático — uma Mishiro que rastejou para fora do inferno contra uma Yuki que teria se tornado ainda mais sobre-humana desde a última vez. Elas lutariam com unhas e dentes e, no fim, Mishiro sairia vitoriosa. Era assim que tinha que ser. Caso contrário, o desejo mais profundo de Mishiro permaneceria insatisfeito.

Enquanto corria atrás de Yuki, as memórias ressurgiram em sua mente.

Ela lembrou do seu nono jogo. Foi o primeiro jogo que jogou depois de mais ou menos se acostumar ao novo braço que recebera do artesão de próteses. Ela aprendeu da pior forma que sua confiança estava fora de lugar. Ao longo do jogo, não só perdeu o antebraço protético como também perdeu a parte superior do braço direito, sendo forçada a visitar o artesão novamente. Pelo que Mishiro se lembrava, aquela experiência tinha sido ainda mais humilhante do que o que ela viveu no oitavo jogo.

Ela lembrou do seu décimo sétimo jogo. Um escape game em uma escola abandonada, no qual as jogadoras seriam punidas por quebrar “regras escolares”. Com um bom número de jogos no currículo, Mishiro tinha se tornado arrogante sem perceber. Foi obrigada a reconhecer um princípio básico do erro humano — o maior perigo espreita quando alguém começa a se sentir acomodada. Como consequência, Mishiro perdeu mãos, pés e vários órgãos. Privada da maior parte das partes móveis do corpo, precisou rastejar até a linha de chegada como uma lagarta. Aquele jogo foi o em que ela sofreu as feridas mais severas.

Ela lembrou de quando enfrentou a Barreira dos Trinta. O cenário do jogo era uma vila inteira, e as jogadoras tinham a tarefa de derrotar uma fera devoradora de gente que descia sobre o assentamento noite após noite. Aquilo era um problema para Mishiro, porque o encontro com aquela fera no Prédio de Sucata tinha implantado nela o medo de animais selvagens. Até o latido de cães de rua fazia com que ela se encolhesse instintivamente. Quanto ao que aconteceu no jogo… bem, Mishiro estava literalmente espumando de medo na primeira noite. Na segunda e na terceira, tudo o que conseguiu fazer foi tremer de pavor. O que a trouxe de volta foi conhecer uma garota que teve o braço direito arrancado aos pedaços, assim como Mishiro havia vivido no passado — Riko. Se a garota não tivesse perdido o braço, Mishiro provavelmente não a teria tomado como protegida, nem estaria aqui agora.

O caminho dela tinha sido tudo menos direto.

Apesar de tudo, ela ainda seguia em frente pelo único motivo de derrubar aquela desgraçada.

E, no entanto…, pensou Mishiro. Enquanto eu estava me esforçando ao máximo, o que diabos ela tem feito?

“Morra!” Por fim, até o insulto mais direto saiu da boca de Mishiro. “Chega de brincar comigo! Pague com a sua vida!”

Foi então que Yuki mostrou os primeiros sinais de resistência, do outro lado do vapor.

“O-o que você tá falando?! Eu fiz alguma coisa pra você, Mishiro?”

“Você pretende bancar a idiota?! Sua desgraçada! Como você acha que eu me senti…?!”

Mishiro já não conseguia mais se controlar. Ela despejou tudo o que lhe vinha à mente.

“Qual é o seu problema com essa atuação patética?! Você não é diferente de como eu era! O que aconteceu com a deusa que apareceu diante de mim naquele dia, há tanto tempo?!”

As palavras devem ter atingido fundo, porque provocaram outra resposta de Yuki.

“Não me coloque num pedestal divino!” Yuki retrucou. “Eu sou humana! É perfeitamente normal eu estar fora de forma às vezes! Eu ainda tô dando tudo de mim!”

“Cale a boca!” Mishiro gritou, tornando difícil entender se ela queria ou não uma resposta. “ ‘Tudo de você’, é? Meus esforços foram muito mais desesperados do que os seus! Eu comecei recuperando minhas perdas e ainda rejeitei tudo sobre o meu eu do passado! Eu lutei através de experiências muito mais duras do que você! É por isso que chegamos a este resultado!”

“—Cala a boca! Eu já sei disso!”

Um objeto cortou o vapor e voou na direção de Mishiro. Era uma faca de espelho. Mas não havia necessidade de se esquivar daquele ataque frenético. A arma passou pelo lado direito do corpo dela e deslizou pelo chão com um estalo.

Mishiro alcançou a garota fantasma. Agarrou o cabelo molhado dela e puxou-a para perto. Ao mesmo tempo, Mishiro baixou a faca de espelho que segurava em pegada invertida.

“Você me decepciona!” Mishiro gritou enquanto atacava. “Eu não atravessei quarenta jogos para ser reunida com uma desgraçada tão patética!!”

(33/41)

Ao ouvir aquelas palavras…

…Yuki sentiu um grande tumulto em seu coração.

(34/41)

Nesse ponto, mesmo com o couro cabeludo sendo puxado para trás e a ponta de uma lâmina avançando, centímetro a centímetro, na direção dela, Yuki ainda se via incapaz de produzir um único pensamento. Com a mente completamente em branco, ela vinha movendo o corpo e sustentando o diálogo inteiramente graças aos nervos. E, dentro dessa mente vazia, algo começou a brotar.

Explodiu e preencheu a cabeça de Yuki por um breve instante, antes de gradualmente se recompor e formar duas frases.

Quarenta jogos?
Uma idiota como ela?

Comparado a todos os insultos que Mishiro tinha atirado nela, aquela verdade foi o que mais doeu.

Mishiro. Aquela jogadora nojenta que age como uma princesa metida. Eu achei que ela ficaria abaixo de mim pela eternidade. Mas essa idiota. Essa desgraçada… Ela superou a Barreira dos Trinta faz tempo, e agora subiu acima de mim. Ela está falando comigo de cima. Eu não suporto isso. Então—

Eu não vou aceitar morrer assim, pensou Yuki. Eu não vou. Eu não quero morrer desse jeito. Eu estou pronta para aceitar a morte a qualquer momento. Eu não ligo se eu perder a vida num acidente de trânsito inesperado. Eu até aceitaria morrer pela maldição da Barreira dos Trinta. Mas não tem como eu aceitar ser derrotada pelas mãos dessa merda. Essa é a única morte que eu me recuso a obedecer. Eu preferia morrer engasgada com uma pílula. Eu não suporto a ideia de ser morta por essa jogadora de segunda categoria.

Antes que a faca de Mishiro pudesse alcançar sua carne, Yuki sentiu outra agitação no coração. Ela recuperou a capacidade de respirar de forma subconsciente. A cabeça dela esfriou, baixando até a mesma temperatura do coração.

Certo — agora eu entendo.

Deve ter sido assim que ela se sentiu naquele prédio abandonado.

Por reflexo, Yuki segurou a faca de Mishiro.

(35/41)

Um segundo depois, a dor percorreu a mão de Yuki. Era o resultado natural, afinal ela havia agarrado o fio de uma faca. Como pegar um caco de espelho quebrado já era perigoso por si só, os riscos de agarrar um que tinha sido polido e transformado em arma eram óbvios.

Assim como um rato encurralado morderia um gato, as pessoas muitas vezes ofereciam uma resistência derradeira ao encarar a morte de frente. Isso era ainda mais verdadeiro nesses jogos.

Apesar disso, uma expressão de surpresa surgiu no rosto de Mishiro, como se ela achasse que o impossível estivesse acontecendo.

Yuki também se surpreendeu com o que tinha feito. Ela tinha se defendido por instinto. Aquilo teria sido impossível para a garota que ela era alguns instantes antes.

As duas se encararam, incrédulas, por um segundo ou dois.

A primeira a recuperar os sentidos foi Yuki. A poucos centímetros de Mishiro, ela deu uma cabeçada no rosto da garota.

“……!”

Mishiro cambaleou para trás.

Aproveitando a abertura, Yuki fugiu.

“Pare aí!” O grito veio imediatamente depois, acompanhado pelo som de passos.

Correndo pelo piso do banho interno, Yuki concentrou a atenção no entorno.

Ela sentiu a presença de inúmeras jogadoras ao redor. Eram subordinadas de Mishiro, membros da equipe da entrada. O número absurdo sugeria que as mais de quarenta jogadoras de antes já tinham retornado. Parecia que estavam paradas, obedecendo fielmente à ordem de Mishiro para manter distância de Yuki, mas se a líder delas morresse, estariam livres das correntes e quase certamente atacariam. A situação podia ser resumida em uma palavra: sem esperança.

Ainda assim, o coração de Yuki não vacilou. Uma única frase continuava se repetindo na mente dela.

Eu não vou morrer.
  Eu não vou morrer.
    Eu não vou morrer.

“Eu não vou morrer!”

No instante em que Yuki gritou aquilo em voz alta, uma dor atravessou o pé direito dela. Ela caiu no chão e deslizou pelos azulejos. Enquanto escorregava, Yuki olhou para o salto direito.

Cravado nele estava um acessório de cabelo em forma de laranja.

Ela tinha pisado na ponta da folhinha da laranja. Alguém tinha deixado cair? A sorte não estava do lado de Yuki — a maldição da Barreira dos Trinta ainda estava em pleno vigor.

Agora incapaz de sustentar o próprio peso com o pé direito, Yuki mudou de estratégia para evitar a dor — rastejando de quatro. Ela achou o método bem prático. Eliminava o risco de escorregar no piso molhado, e, mantendo-se baixa, ela podia usar o vapor como cobertura. Na verdade, Azuma tinha usado um truque parecido ao se agachar para pegar Yuki desprevenida no primeiro encontro delas. Rastejar talvez fosse o método de locomoção mais ideal neste jogo.

Assim que terminou esse pensamento, ela chegou ao destino.

Sem perder velocidade, ela pegou a faca de espelho no chão.

Ela tinha corrido em arco para recuperar a arma que havia arremessado em Mishiro. Agora, as duas estavam em condições iguais. Na verdade, Yuki teria vantagem.

Graças à cobertura do vapor e à determinação de Yuki de permanecer em silêncio, Mishiro provavelmente não tinha notado que ela havia apanhado a faca. Mishiro acharia que ela estava completamente desarmada.

Yuki se virou.

Uma silhueta escura no vapor se aproximava em velocidade imprudente. Instantes depois, Mishiro apareceu à queima-roupa, brandindo uma faca.

Com uma mão, Yuki aparou o ataque que vinha, e com a outra, ela golpeou com sua faca de espelho. Mishiro parecia realmente ter sido pega de surpresa, porque a expressão de espanto voltou a surgir no rosto dela—

Mas a faca de Yuki não conseguiu penetrar o corpo da garota. A lâmina ricocheteou na pele impecável e se estilhaçou com facilidade.

Desta vez, foi o rosto de Yuki que se tingiu de surpresa. De fato, o maior defeito da faca era ter sido feita de vidro de espelho, um material extremamente frágil. Apesar de não parecer danificada, ela deve ter rachado quando Yuki a jogou antes.

As mãos congeladas do tempo voltaram a se mover.

Yuki cruzou os braços e se encolheu para se proteger da faca de Mishiro. Como o Tratamento de Preservação estancaria qualquer sangramento imediatamente, uma faca não causaria muito dano — desde que não atingisse pontos vitais. E, na posição atual de Yuki, todos esses pontos estavam protegidos.

No entanto, o próximo ataque de Mishiro não foi com a faca.

Em vez disso, ela empurrou os braços cruzados de Yuki. O golpe não tinha tanta força, mas como o centro de gravidade de Yuki estava baixo, ela tombou facilmente para dentro da banheira atrás dela.

Era uma banheira medicinal. Por causa da água colorida, ela não conseguia ver nada, mesmo com os olhos abertos. Enquanto bolhas jorravam vigorosamente de sua boca e narinas, Yuki tentou levantar a cabeça acima d’água, mas antes que pudesse, Mishiro enfiou o braço dentro da banheira e pressionou a cabeça de Yuki contra o fundo.

Yuki ficou totalmente submersa. Seu suprimento de oxigênio foi cortado.

Ela parou de soltar bolhas e agarrou o braço de Mishiro. Aquilo não se parecia em nada com pele humana. Isso significava que não era o braço esquerdo dela — era o direito. Mishiro tinha perdido o braço direito em um jogo anterior, então aquele só podia ser uma prótese. Onde quer que tivesse conseguido, era feita de um material duro.

Percebendo a inutilidade de lutar contra o braço dela debaixo d’água, Yuki mudou de tática e começou a bater as pernas violentamente. Enquanto Mishiro se mantinha ali, Yuki conseguiu enlaçar as pernas da garota e puxá-la para perto.

Era muito mais difícil manter o equilíbrio dentro d’água do que em terra firme. Yuki tinha executado um tipo incomum de rasteira, mas as duas pernas de Mishiro cederam com facilidade. Debaixo d’água, Yuki ouviu o som da cabeça de Mishiro batendo na borda da banheira.

Livre do aperto de Mishiro, Yuki ergueu a cabeça acima da superfície.

Mishiro estava virada para o lado oposto. Ela segurava a cabeça com as mãos e tentava sair da banheira, mas Yuki avançou na direção dela. Assim que ficou a poucos centímetros da oponente, Mishiro se virou abruptamente.

Uma lembrança aflorou na mente de Yuki — de quando as duas se encontraram pela primeira vez. Depois que Yuki se aproximou de Mishiro, a garota tinha se virado num instante. Quando os cachos característicos de princesa bloquearam o campo de visão de Yuki, Mishiro então tinha arranhado a garganta dela com unhas afiadas. O que Yuki tinha caído naquela época provavelmente era o golpe característico de Mishiro.

Desta vez, porém—

“Eu já vi através dos seus truques!”

Ao gritar isso, Yuki ergueu o braço direito para fora d’água. Uma grande quantidade de água medicinal espirrou no rosto de Mishiro e ao redor dele.

Como o cabelo de Mishiro agora estava úmido, não era mais volumoso o suficiente para obstruir completamente a visão de Yuki. Isso permitiu que Yuki desviasse da faca que veio na direção de sua garganta.

Yuki acertou outra cabeçada, fazendo Mishiro estremecer e soltar a faca.

Antes que a arma caísse na banheira, Yuki a pegou.

Num único movimento suave, ela cravou a faca na garganta de Mishiro como pagamento.

“……!!…!!”

Mishiro estendeu os braços na direção de Yuki. Mas foi só isso. Instantes depois, os braços caíram dentro da água junto com o resto do corpo. Havia uma expressão de profunda paz no rosto dela — uma que nem o mais relaxante dos banhos poderia induzir.

Yuki saiu da água.

“Bom jogo”, ela sussurrou numa voz baixa demais para qualquer outra pessoa ouvir.

Ela não conferiu se Mishiro estava viva ou morta.

(36/41)

Yuki foi em direção à saída de quatro. Embora sentisse hostilidade vindo de incontáveis inimigas ao redor da saída, ela não tinha escolha a não ser ir. Avançar era a única opção disponível.

Ela havia derrubado Mishiro, a líder da equipe da entrada. Contudo, isso era tudo o que Yuki tinha conseguido; vencer a luta não significava que ela seria coroada a próxima líder. Ainda que parecesse estar ganhando notoriedade como jogadora ultimamente, as outras certamente não lhe dariam passe livre. Não havia como evitar uma batalha contra o restante da equipe.

Inúmeros passos começaram a se aproximar de Yuki.

Venham com a prorrogação, ela pensou. Eu também não vou perder para as suas seguidoras.

(37/41)

Riko estava sentada sobre a cadeira de massagem, mergulhada em pensamentos.

Ela estava relembrando o começo de seu relacionamento com sua mentora.

(38/41)

Riko não tinha um motivo admirável que pudesse contar aos outros para justificar jogar esses jogos. Sua razão para entrar era a mesma da esmagadora maioria das jogadoras — ela estava cansada de tudo sobre o mundo e já não se importava se viveria ou morreria. Foi por isso que Riko se tornou uma jogadora.

Em seu jogo de estreia — uma batalha contra uma besta devoradora de homens — Riko sofreu ferimentos graves. Ela foi mordida por todo o corpo e perdeu cerca de metade dele. O Tratamento de Preservação a manteve viva, mas ela jamais recuperaria as partes do corpo que a besta havia devorado. Enquanto a enorme perda física já era difícil o suficiente, o dano mental que ela sofreu trazia seus próprios problemas. O que vai acontecer comigo se eu sobreviver desse jeito? O que eu devo fazer? Eu preferia muito mais estar morta — esses pensamentos haviam tomado a cabeça dela.

Ainda assim, o motivo de Riko continuar viva era que alguém havia cuidado dela.

Mishiro. Ela era uma jogadora experiente que, aparentemente, estava em seu trigésimo jogo na época. Ela espumou pela boca e desmaiou assim que encontrou a besta devoradora de homens, o que fez Riko duvidar das capacidades dela no início. Porém, depois de passarem uma noite juntas, e então uma segunda, Mishiro foi demonstrando cada vez mais de sua perícia e, no fim, conduziu a maioria das jogadoras à vitória. Ela também foi quem salvou Riko das mandíbulas da besta. Se Mishiro não tivesse interferido, Riko teria sofrido um destino muito pior.

“Eu tenho uma missão”, Mishiro disse a Riko um dia.

Riko não se lembrava onde elas estavam quando Mishiro disse isso. Como o corpo de Riko ainda estava mutilado na época, provavelmente estavam num carro depois que o jogo terminou. Ou ela estava deitada numa cama de hospital? Talvez estivessem indo encontrar o artesão de próteses. De todo modo, não importava onde ou quando tinha sido: foi assim que a conversa começou.

“Uma jogadora chamada Yuki certa vez pisoteou meu orgulho. Eu continuo a jogar esses jogos para que eu possa me vingar dela da próxima vez que nos encontrarmos.”

Riko não tinha ouvido isso de Mishiro só uma vez. Na verdade, Mishiro mencionava a garota-fantasma tantas vezes que Riko perdeu a conta e até começou a se perguntar se Mishiro tinha ficado senil. Yuki — uma jogadora que se assemelhava a um fantasma. Aparentemente, ela e Mishiro compartilhavam uma conexão profunda que remontava a um jogo do passado.

“Isso é… tudo?”

Toda vez, o mesmo pensamento surgia na mente de Riko. Normalmente ela guardava para si, mas naquela ocasião, ela tinha feito a pergunta a Mishiro.

“Com certeza”, Mishiro respondeu. “Foi extremamente frustrante. Eu me recuso a permanecer inferior a ela. Humanos estão perfeitamente dispostos a arriscar suas vidas por um motivo tão simples quanto esse.”

Isso era mesmo verdade? Riko não sabia ao certo, porque ela sequer tinha “Um motivo tão simples quanto esse”.

“Parece que o que você mais carece, mais do que braços e pernas, é de uma missão”, disse Mishiro. “Que tal começarmos por consertar isso?”

Jogadoras que tivessem sofrido ferimentos graves que nem mesmo as tecnologias médicas dos organizadores podiam curar — ter seus membros explodidos por uma bomba ou devorados por uma besta, por exemplo — de forma alguma eram casos perdidos. Embora recuperar os membros originais fosse impossível, anexar novos estava dentro do reino do possível. Nos bastidores dos jogos, um artesão de próteses atendia jogadoras que haviam perdido partes do corpo e ainda assim desejavam continuar jogando. Mishiro fez os arranjos apropriados para Riko.

“Hum…” Ao saber disso, Riko fez uma pergunta a Mishiro. “Por que você está sendo tão legal comigo?”

Mishiro não só tinha resgatado Riko das garras da besta, como também estava apoiando sua reabilitação física e mental. Riko não tinha ideia do porquê Mishiro iria tão longe por uma estranha.

“Legal?” Mishiro deu um risinho. “Eu não sou uma mulher tão honrada assim.”

Riko ainda se lembrava do olhar no rosto de Mishiro naquela época. Ela vestia uma expressão sinistra — uma que não poderia ser igualada nem mesmo por uma bruxa mexendo um caldeirão borbulhante.

“Como eu colocaria isso…?” Mishiro continuou. “Riko, como você definiria o seu ‘eu’?”

“Meu eu?”

“Das coisas que existem neste mundo, quanto você consideraria fazer parte do ‘eu’ de alguém? Você incluiria roupas, óculos e piercings? Os fios de cabelo e os recortes de unha que se desprendem do corpo? E as mãos e pés protéticos que em breve serão anexados a você?”

Riko não conseguia entender a pergunta de Mishiro. Tudo o que Riko considerava seu “eu” era o próprio corpo, que agora tinha sido reduzido à metade da forma original. Ela respondeu dessa maneira.

“Eu proporia uma definição um pouco mais ampla”, Mishiro respondeu. “Embora eu não inclua os exemplos que citei, eu considero fortemente que minha missão, junto com os resultados que dela advêm, se encaixa dentro dos limites do ‘eu’. Se eu contratar um assassino para matar alguém, por exemplo, eu julgaria a mim mesma responsável pelo assassinato.”

Era um exemplo fácil de entender. Nesse caso, Riko chegaria à mesma conclusão.

“Agora, eis uma pergunta que surge.” Mishiro acariciou a bochecha de Riko. “Digamos que eu deixe alguém viver, guie essa pessoa e instile nela um objetivo. E se existisse alguém cuja existência inteira fosse o produto das minhas ações? E se existisse alguém totalmente subordinada a mim? Você não consideraria as conquistas dessa pessoa como sendo as mesmas que as minhas? Você não consideraria essa pessoa parte do meu ‘eu’?”

Naquele momento, um calor apareceu nos olhos de Mishiro.

Claro. Mishiro não estava planejando nada sinistro para Riko. Ela estava simplesmente acolhendo Riko como uma parte de si mesma.

“Por honestidade, direi que você não é a primeira pessoa com quem fiz isso — você é a quinta. Das quatro que vieram antes de você, duas pereceram, mas as outras duas estão prosperando. Se você viver tempo o bastante, com certeza eu as apresentarei a você em algum momento.”

Mishiro aproximou o rosto. “Agora, voltemos ao tema do seu propósito”, ela sussurrou no ouvido de Riko. “Eu lhe concederei uma missão para preencher sua alma vazia. Você será minha protegida, Riko. Até o seu último suspiro.”

Então é isso, pensou Riko.

Mishiro estava ampliando o alcance do próprio eu. Ela buscava alguém que servisse como sua mão direita — não, mais do que isso — alguém que desistisse do próprio corpo por ela. Era exatamente por isso que ela tinha salvado Riko e por isso que estava indo tão longe por ela. Riko, espiritualmente vazia, seria um receptáculo perfeito.

Mishiro de forma alguma era uma alma bondosa. Riko entendia, no fundo, que ela era assustadora.

Mas o que assustava Riko ainda mais era o fato de que ela aceitava a exigência de Mishiro. Era totalmente verdade que Riko não tinha uma missão — a única coisa de que ela mais precisava. As palavras de Mishiro fizeram arrepios percorrerem Riko.

Eu quero servir minha salvadora, pensou ela. Eu quero ser útil para ela. Eu quero que ela sussurre mais ordens no meu ouvido.

“Eu lhe darei sua primeira ordem.”

Cada célula do corpo de Riko se prendeu às palavras de Mishiro.

“Se eu cair para aquela desgraçada, você assumirá no meu lugar.”

(39/41)

Depois que Yuki passou o rodo em dez jogadoras, mais ninguém se adiantou para desafiá-la.

Talvez como resultado da liderança forte de Mishiro, as jogadoras da equipe da entrada se destacassem no trabalho em equipe, mas suas habilidades individuais não passavam de algo comum. Fora Mishiro, a equipe parecia ser composta apenas de novatas. Além disso, Yuki também começou a recuperar sua forma, então conseguiu atravessar facilmente a linha de defesa inimiga.

Yuki atravessou o vestiário e passou pelas cortinas até chegar à entrada.

A visão à sua frente não traiu suas expectativas. O que primeiro chamou sua atenção foram dois conjuntos de armários de calçados. Em seguida, Yuki virou para o lado e viu um segundo conjunto de cortinas. Nelas estava escrito prata, enquanto as cortinas por onde Yuki tinha vindo traziam a palavra ouro, sugerindo que as chaves de armário escondidas em ambos os banhos eram feitas de materiais diferentes. Além dos armários havia uma área para tirar os sapatos e, além dela, a saída — o objetivo final de todas as jogadoras. Vários cadáveres silenciosos espalhavam-se no espaço diante da saída, provavelmente resultado de tentativas de escapar sem calçados.

Além de Yuki, havia apenas uma pessoa viva por perto.

Uma menina estava sentada numa cadeira de massagem. Ela passava a impressão de um pequeno animal e, na verdade, era também bem baixa. Mesmo sem estar muito reclinada na cadeira, os pés não alcançavam o chão. Ao ver Yuki, o rosto dela se contorceu de surpresa, e ela imediatamente saltou da cadeira.

“Espera — você é a Yuki?”, ela perguntou.

“Você sabe sobre mim?”

“A Mishiro sempre falava de você…”

Essas palavras chamaram a atenção de Yuki — implicavam que aquela garota e Mishiro já se conheciam antes de hoje. Talvez fosse a protegida de Mishiro.

Parecendo reunir a voz mais ameaçadora que conseguia, a garota perguntou: “Como você chegou aqui? O que aconteceu com a Mishiro?”

“O que você acha que aconteceu?”

“Sou eu quem está fazendo as perguntas aqui!”

“Eu não sei”, Yuki respondeu, caminhando em direção aos armários. “Isto é um jogo de fuga. Eu não preciso checar se minhas oponentes estão mortas ou vivas.”

Ela parou diante dos armários e viu blocos prateados inseridos nos da direita. Cada conjunto de armários tinha trinta e cinco compartimentos individuais, totalizando setenta, e pelo menos sessenta deles já tinham chaves inseridas. Aquilo provavelmente era mais do que o número total de jogadoras na equipe da entrada.

Yuki se aproximou dos armários para pegar emprestado um par de sapatos, mas a garota veio e bloqueou o caminho.

“O que você quer?”, Yuki perguntou.

“A Mishiro me ordenou que eu não deixasse ninguém abrir os armários.”

“Certo.” Yuki ignorou a garota e continuou andando.

A garota não se mexeu. “A Mishiro me disse que eu podia ir com tudo se alguma coisa acontecesse com ela.”

“Então vá.”

A garota não respondeu. Em vez disso, ela disparou pelo piso de madeira direto na direção de Yuki.

Yuki achou que conseguiria desviar facilmente. Achou que tinha mantido distância suficiente para escapar de qualquer coisa que a menina tentasse, mesmo que uma metralhadora giratória surgisse do peito dela.

No entanto, foi um erro de cálculo. Yuki recebeu a carga da menina em cheio e foi arremessada contra a parede.

(40/41)

Por um segundo, Yuki não conseguiu processar o que tinha acontecido. Mas a confusão durou apenas um segundo, porque uma dor atravessou suas costas imediatamente depois, gritando para ela voltar a si. Yuki sacudiu a cabeça para clarear a mente e então ergueu o olhar.

A garota estava bem diante dela — e desferindo um soco. Yuki ergueu a guarda, mas, como ainda não tinha recuperado totalmente sua forma, no fundo da mente ela sabia que aquilo tinha sido a coisa errada a fazer. Defender era inútil — ela precisava evitar golpes a qualquer custo.

O punho da garota fez contato com os braços cruzados de Yuki —

—e atravessou.

Os dois braços de Yuki dobraram num ponto em que não havia juntas.

“Ah—”

Ela olhou para baixo. Depois de quebrar os dois braços de Yuki, o punho da menina não avançou mais. Yuki ergueu a cabeça de novo e viu que o golpe tinha alcançado seu limite físico. A garota aparentava estar longe demais para alcançar além dos braços de Yuki e perfurar seu peito.

No instante em que Yuki processou isso, a dor tão esperada finalmente a atingiu.

“GAAAAAAAAAAAAAH!! AAAAAAAAAAAAAAAAH!! AAAA—”

Os gritos de Yuki foram interrompidos por um soco no rosto.

Yuki levantou os braços — que agora pendiam pelas extremidades — numa tentativa de proteger o rosto, mas isso não impediu em nada a enxurrada de golpes. Veio um segundo soco. Depois um terceiro. E um quarto. E um quinto. Os socos continuaram num ritmo constante, e cada um deles acertou com um poder feroz que não combinava com o porte pequeno da garota. Parecia que ela estava sendo atingida por um haltere. Yuki tinha certeza de que nenhum punho humano conseguiria gerar aquele tipo de força.

Só podia vir de um braço protético — assim como o de Mishiro.

Enquanto o espancamento prosseguia, Yuki percebeu que as pernas da menina também eram artificiais. Como Mishiro já havia demonstrado, esses jogos permitem próteses, contanto que não tivessem função de taser, lâminas escondidas ou outras características “armamentistas”. Não só as jogadoras tinham permissão para embutir armadura no corpo do mesmo jeito que aquela psicopata de antigamente, como também podiam se equipar com braços protéticos feitos de material rígido capazes de desferir socos consecutivos e poderosos, ou pernas protéticas de alto desempenho que lhes davam uma agilidade muito além da capacidade de um corpo antes humano. Embora trazer armas externas fosse proibido, havia muita coisa que uma jogadora podia fazer ainda dentro das regras.

Yuki não sabia exatamente como a garota tinha modificado o corpo, mas, de qualquer forma, seu peso e força muscular certamente não eram os de uma menina pequena. Seria imprudente considerá-la humana. Yuki precisava vê-la como um robô assassino do tamanho de uma pessoa.

A garota continuou o ataque implacável. Enquanto os braços de Yuki ficavam cada vez mais deformados, ela esperou por uma oportunidade de contra-atacar. Diferente da garota à sua frente, Yuki não tinha se equipado com nenhum recurso “ciborgue” — seu corpo, da cabeça até as unhas dos pés, era exatamente como ela o tinha recebido dos pais. Mishiro, a mentora da garota, fora obrigada a usar uma prótese no braço direito, mas o resto dela parecia completamente humano. Até mesmo aquela psicopata, que considerava ingenuidade entrar em jogos mortais sem equipamento mais forte do que o das oponentes, não tinha ido além de proteger alguns órgãos vitais.

Por que todas elas eram tão obcecadas em preservar o corpo humano original?

A resposta era simples: todo mundo sabia que uma jogadora que descartasse a própria carne e sangue não viveria por muito tempo.

Yuki ergueu o joelho humano, acertando a menina no queixo. Mesmo presa contra a parede e recebendo socos sem parar, Yuki tinha aberto espaço suficiente para levantar o joelho. A cabeça da garota, ao que parecia, ainda era humana, e ela reagiu como um ser humano reagiria ao levar um golpe no queixo — perdeu o equilíbrio e ficou momentaneamente imobilizada.

Aproveitando a abertura, Yuki passou pela garota e disparou em direção aos armários. O impacto da investida de antes tinha feito algumas portas se abrirem, revelando sapatos pesados, como aqueles usados no boliche. Com os braços fora de combate, Yuki enfiou um pé dentro de um armário e puxou os sapatos, calçou-os de forma mal-educada usando apenas os pés e então pisou na entrada.

Nesse exato momento, uma gota de água caiu de seu cabelo molhado e vaporizou com um estalo ao tocar um azulejo. Yuki percebeu que havia uma corrente elétrica passando ali — daí a necessidade de sapatos com alta resistência elétrica. As cinco pessoas mortas no chão certamente tinham encontrado o fim por eletrocussão ao entrar em contato com os azulejos.

“Eu não vou deixar você escapar!”, uma voz gritou.

Yuki não se virou, mas ouviu o som de alguém calçando sapatos e entrando na área da entrada.

Tarde demais, pensou Yuki. Nessas condições, a garota não conseguiria alcançá-la. À primeira vista, ela era bem menor que Yuki, mas, considerando o material que compunha seus membros, provavelmente era mais pesada também. Assim, Yuki teria vantagem em agilidade. E como qualquer contato com o piso significava eletrocussão, seria perigoso demais para a garota tentar a mesma investida de antes.

Ou assim Yuki tinha pensado, mas…

“Gah…?!”

Uma força arremessou Yuki na diagonal para frente, fazendo-a bater contra a parede da entrada. Ela temeu o pior, mas, aparentemente, não havia corrente passando ali. Sem tempo para sentir alívio, Yuki se virou, com o corpo colado na parede.

A garota tinha apoiado as mãos no chão — usando sapatos nas mãos. Ela estava com quatro sapatos: dois nas mãos e dois nos pés.

“…Você pegou pesado!”, Yuki gritou sem perceber.

A garota saltou para frente, com uma velocidade inimaginável para alguém tão pequena.

Yuki olhou para o chão. Felizmente — incrivelmente felizmente, considerando sua forma atual — como se toda a sorte dela dos últimos meses tivesse se condensado naquele ponto, o caminho para a vitória estava bem aos pés dela. Era um caminho que também colocava Yuki em risco e muito bem podia ser a armadilha final trazida pela maldição da Barreira dos Trinta, mas ela não tinha outra opção. Após uma breve prece, Yuki ergueu o pé direito.

Ao fazer isso, ela chutou para cima um cadáver que estava deitado no chão.

Para ser mais exata, foi um chute sem força, pois ela não fez mais do que levantar o pé. O corpo não voou em direção à garota; tudo o que aconteceu foi que as pernas do cadáver se ergueram um pouco do chão.

Mas isso foi mais do que suficiente. As pernas do cadáver tocaram as pernas da menina. O rosto da garota empalideceu, como se a cabeça também tivesse sido substituída por uma prótese.

Era algo que não era incomum — alguém tentando salvar outra pessoa de ser eletrocutada tocaria nela diretamente e acabaria levando choque numa reação em cadeia, ao contrário da intenção. Esse fenômeno era especialmente provável neste jogo, já que as jogadoras não tinham um traje adequado e tinham bastante umidade na pele.

Então dá mesmo para ouvir o crepitar, né?, pensou Yuki.

Os efeitos foram imediatos. A garota — cujo nome ainda era desconhecido para Yuki — desabou de bruços no piso de azulejo, o que só intensificou ainda mais seu suplício por eletrocussão. Yuki não tinha certeza em que ponto exatamente a garota sucumbiu à corrente, mas ela não voltou a se pôr de pé nem uma vez. A área caiu num silêncio total, fazendo a batalha que tinha ocorrido parecer nada além de um sonho. Naquele momento, a única sensação que Yuki sentia era a dor nos braços.

“Haah…” Yuki soltou uma expiração audível. Não foi um suspiro de alívio — nem sequer foi um suspiro. Ela apenas exalou para liberar o ar em excesso dos pulmões.

Yuki seguiu para a saída. Havia o risco de água ter caído no sapato direito quando ela chutou o corpo, então ela avançou pulando sobre a perna esquerda. Sem tropeçar nem cometer erro algum, Yuki atravessou a porta com segurança.

Ao sair do prédio, ela chegou a um estacionamento. Esperando ali havia carros pretos, provavelmente em número igual ao de jogadoras — cem. A agente de Yuki estava por perto, como se tivesse assistido ao jogo se desenrolar junto do público.

“Bem-vinda de volta”, ela disse num tom despreocupado. “Embora eu queira levá-la para casa… acho que primeiro devemos ir ao hospital, não?”

Yuki olhou para si mesma. Seu corpo estava coberto apenas por uma toalha, e os dois braços estavam dobrados em ângulos anormais. Ela parecia um alienígena.

Sem energia para falar, Yuki abaixou a cabeça para indicar concordância.

(41/41)

 

 

 

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

 

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