Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 67: Prenúncio do inverno

Enquanto o grupo caminhava pelas ruas escuras da parte dos Quangras, o som abafado das botas no pavimento quebrava o silêncio noturno.

Da grade dos bueiros, o vapor subia em rajadas densas, misturando-se às respirações pesadas — menos a de Josh, que seguia à frente, descalço e com o torso nu, como se o clima não o tocasse. A terra suspensa sobre o deserto parecia sugar o calor do corpo a cada passo.

— Um dia ainda quero entender como esse maluco não congela — murmurou Cara de Prancha, puxando o casaco de pele para junto do pescoço.

Kilian ajeitou o capuz da capa, observando Josh sempre à frente, como se o frio fosse problema dos outros. Sem virar o rosto, lançou um olhar a Garrik.

— Vai ter que aprender aquela de clima extremo — disse Garrik, ajustando a gola da túnica, sem sinal de desconforto. — O Josh prefere só isso. Nem ao menos se veste como gente normal.

Kilian acenou com a cabeça, ainda seguindo Josh com os olhos.

— Já viu alguém agir como ele antes? — perguntou Kilian.

Garrik deu um leve sorriso.

— Mistérios, rapaz. Nem todos precisam ser resolvidos. Alguns só aceitos.

— Que conversa furada — resmungou Cara de Prancha, cuspindo no chão. — Aceitar o quê? Esse cara é biruta.

Nariz de Batata soltou um riso abafado, ajeitando o capacete sempre mal encaixado.

— Biruta? Olha quem fala.

— Cala a boca, Nariz de Batata, antes que eu te dê uma bifa! — gritou Cara de Prancha, a voz grave ricocheteando pelas paredes da viela.

Kilian sorriu de leve, limpando o sangue seco que ainda manchava os braços. O cheiro de ferro não parecia incomodar ninguém. Cara de Prancha, ao seu lado, estava ainda pior — coberto até os joelhos de vísceras e gordura negra.

— Só falta mais um, não é? — perguntou Kilian.

— Sim, finalmente o último — respondeu Cara de Prancha. — Depois disso, o Purgeno estará pronto. E a gente se livra da cara do Garrik.

A risada dele ecoou pelo vazio das vielas, meio zombaria, meio alívio, mas morreu antes de virar riso. Nariz de Batata apenas assentiu.

— Sim, já passou da hora de terminar isso.

Maya, que até então seguia calada, virou o rosto para Kilian. Os olhos permaneceram fixos nele tempo demais.

— Desde que ninguém mais estrague tudo nessa reta final.

Kilian respondeu com um sorriso leve, quase debochado.

— Isso não vai acontecer se a conjuradora fizer o trabalho dela.

— Eu estava justamente falando de você — retrucou Maya, cruzando os braços.

— Então não me faça perder tempo consertando suas burradas — disse ele, firme, sem virar o rosto.

Cara de Prancha soltou um riso abafado.

— Ihh, ela tá naqueles dias.

— Vai à merda — resmungou Maya.

Garrik ergueu uma das mãos, a palma virada para cima.

— Vamos, acalmem-se. Todos estamos exaustos. Duas semanas naquela planície têm seu peso.

Ele olhou para cada rosto, depois voltou os olhos para a frente.

— Agora vamos descansar, e nos preparar para o último passo.

O grupo seguiu em silêncio. O som das botas era engolido pelo vento que soprava entre os becos estreitos.

— Vocês repararam que não tem nenhuma mulher na rua? — comentou Kilian, olhando para os lados.

Garrik observou também. Portas fechadas e janelas escuras dominavam a paisagem.

— Deve ser por conta do surto... as grávidas explosivas. A coisa deve ter piorado.

Cara de Prancha resmungou, encolhendo os ombros.

— Mulheres explodindo... nunca pensei que ia viver pra ver isso.

— Nem mesmo na vila das grávidas elas sabem quem carrega o quê — disse Kilian, a voz baixa.

As construções de pedra ao redor pareciam sufocadas na escuridão; portas fechadas e janelas apagadas, só alguns lampiões mágicos espalhando círculos azulados sobre o pavimento. O frio cortava a pele como lâminas finas.

— Até que enfim — disse Cara de Prancha, apressando o passo. — Já tava na hora de sentir um pouco de calor.

No fim da rua, as chaminés da Taverna Brasa e Ferro soltavam fumaça densa, colunas negras contra o céu sem estrelas. Kilian puxou o capuz para trás; o cabelo grudado na testa denunciava o suor, apesar do vento cortante.

A porta rangeu e cedeu. O interior iluminado por velas tremeluzentes exalava vozes abafadas, cheiro de gordura e um calor que bateu no rosto deles como uma onda.

— Bem melhor que o vento lá fora — comentou Nariz de Batata, ajeitando a barba com as duas mãos.

***

As luas pairavam altas, derramando sua luz sobre o mármore branco, que a devolvia como um rio prateado entre estátuas e fontes caladas. Aeroplanos flutuavam imóveis, ancorados nas plataformas, enquanto mastros reluziam como lanças enfeitadas. Trapos finos e bandeiras longilíneas balançavam ao vento das alturas, espalhando estalos secos pelo ar gelado.

Gorbolg, Jessiah e Caelinus atravessavam a praça em silêncio. Os passos eram discretos, ritmados. Nenhum deles ostentava mais do que o necessário, cada gesto carregado de propósito.

— E você, Caelinus? Por que tá tão quieto? — perguntou Gorbolg, franzindo o nariz num sorriso largo demais para o rosto quadrado.

Jessiah tocou o ombro do colega, sem interromper o passo.

— Deixa, Gorbolg. Deve ser por causa disso tudo. Caelinus, não fica assim. Ninguém podia imaginar que o Doo ia tão longe.

— Ué, todos são inocentes até que se prove o contrário, certo? — Gorbolg piscou, tentando aliviar.

Caelinus passou os dedos pelo parapeito de pedra, sentindo o frio úmido do mármore. Não olhou para os dois.

— Não é por isso.

— Então fala — Gorbolg insistiu. — Vai me fazer implorar?

Caelinus manteve o olhar no chão, pesado.

— Nunca tinha vindo aqui antes. Na parte dos Letnicianos. Então eu me lembrei do Kilian, só isso.

O nome pesou no ar como uma cortina grossa. Jessiah e Gorbolg se entreolharam, mas não disseram nada.

— Já faz tempo, né? — disse Jessiah, por fim, em tom baixo. — Desde o enterro.

Caelinus apenas assentiu. O silêncio se estendeu por alguns passos. O brilho das luas colava nas botas dos três, como se grudasse no caminho.

— Nunca pensou em ir atrás dele? — perguntou Gorbolg.

Caelinus esfregou o rosto, demorando para responder.

— Pensei. Vi ele com uns aventureiros, naquela mesma tarde. Eu... tenho medo de saber se ele tá bem ou não. Você sabe como é esse tipo de vida.

— Ele era só um garoto — disse Jessiah, quase num sussurro. — E ficou com tudo nas costas quando a Melangie caiu.

Caelinus parou. Não olhou pra trás nem pra frente.

— Fui duro demais. Toda vez que penso nele, lembro dela.

Gorbolg encostou a mão pesada no ombro dele. Não disse nada. Jessiah apenas assentiu em silêncio.

O aeroplano militar já esperava na plataforma. Altivo, simples, com as velas se mexendo sob a brisa noturna. Passaram sob mastros e bandeiras; ao longe, as naves letnicianas subiam aos poucos, riscando o céu com ouro e madeira.

Caelinus parou de súbito.

— Mestre Gorbolg, achei que ia sair sem se despedir?

A voz veio do caminho das embarcações, cortando o vento.

Gorbolg virou-se sorrindo antes mesmo de ver o rosto. O general Vanlasnor se aproximava, com o mesmo andar rígido e a expressão endurecida de sempre.

— General Vanlasnor! — Gorbolg levantou a mão em saudação, apertando firme o braço do velho camarada. — Achei que já tinha ido mais cedo.

— E perder a chance de ver esses aeroplanos cheios de frescura? — disse Vanlasnor, com um meio sorriso. — Nunca.

Jessiah observava a comitiva do general. Um homem alto, espada mágica nas costas, encarava os três com olhos estreitos.

— Esse é o Danasa — disse Vanlasnor, vendo o olhar de Jessiah. — Nosso melhor braço. Não perde pra nenhum desses letnicianos de sapato brilhando. Aliás, você já o conhece, né, Gorbolg?

— E como... — respondeu o mestre da ordem.

Danasa cruzou os braços, inflado, o queixo erguido.

Vanlasnor abaixou o tom:

— E esse Doo? Vai deixar ele continuar solto?

— Não se preocupe — disse Gorbolg. — Ainda não pegamos o Doo, mas já sabemos quem tá por trás das grávidas. Não posso falar agora, mas haverá sinais. Eles vão ser julgados.

Vanlasnor assentiu. O alívio brilhou em seus olhos por um instante, logo substituído por rigidez. Ele deu um passo à frente, baixando um pouco a voz.

— Sabia que você ia dar um jeito. Se precisar de reforços...

O olhar dele foi direto para Danasa, que exibia um sorriso confiante demais.

Danasa não se conteve:

— Se esse Doo cruzar o meu caminho, não sobra nada dele.

O silêncio caiu como pedra. Gorbolg ergueu apenas uma sobrancelha. Caelinus e Jessiah trocaram olhares, mas ficaram calados.

— Ele sempre foi assim? — perguntou Gorbolg, com um meio sorriso.

Vanlasnor riu baixo e balançou a cabeça.

— Não muda nunca.

Ele apertou de novo a mão de Gorbolg. Depois olhou para o aeroplano militar.

— Boa sorte. E quando isso acabar, me cobre aquela cerveja — ou eu cobro.

— Combinado — disse Gorbolg, rindo.

O general se afastou com a comitiva. Os paladinos voltaram a andar. O vento soprava forte, fazendo as bandeiras tremerem no alto.

O aeroplano militar os esperava, simples e direto. Ao redor, as naves luxuosas já sumiam no céu.

***

Doo apoiava-se na mureta baixa do terraço. O frio seco cortava o ar como lâminas, mas seus ombros permaneciam relaxados, como se o clima fosse apenas um incômodo distante.

Os olhos varriam o céu pela luneta, seguindo os aeroplanos que desciam lentamente da camada dos Letnicianos. Acima, as luzes mágicas riscavam o firmamento com brilhos silenciosos, tão distantes quanto estrelas.

— Aquele lá deve ser o deles — murmurou, sem pressa.

Fixou a luneta em uma nave modesta, marcada pelas bandeiras dos paladinos. As velas oscilavam sob o empuxo mágico, teimosas contra o vento da altitude.

Ao lado, Jorno permanecia imóvel. A estilingue em mãos, o orc parecia uma estátua de músculos e fúria contida. Seus lobos farejavam o vento com inquietação, pelos arrepiados, olhos amarelados brilhando com reflexos da camada acima. Nenhum deles piscava.

Doo abaixou a luneta com um sorriso torto. Girou os ombros, estalando as juntas, ajeitou a jaqueta surrada.

— Tá pronto, Jorno? Hoje eles caem. Vamos ver se o druida não tava só enchendo o saco quando falou de você.

O orc apenas acenou com a cabeça. Nenhuma palavra. A estilingue parecia tosco, primitivo — até que se via o tamanho dos braços que o seguravam, duros como troncos.

— Essa tal semente de Xander... — Doo observava a esfera negra ser encaixada no couro da arma. — Tem certeza que não pode explodir o aeroplano inteiro?

Jorno apertou o projétil entre os dedos. A aura verde oscilava como um fogo enjaulado.

— Vai apertar o casco. Drenar o cristal. Eles caem, mas sem explosão.

— Ótimo — disse Doo, sem tirar os olhos do céu. — Mas se der ruim...

— Não vai dar ruim.

O silêncio entre os dois pesava. Doo ergueu a luneta de novo. A mão firme tremia, quase imperceptível. Ao lado, os lobos baixaram as orelhas, os focinhos apontados para o alto, rosnando baixo.

O aeroplano cruzou a camada dos Adhunas. As bandeiras ficaram visíveis, vibrando na escuridão.

— É agora!

Jorno puxou a corda do estilingue. O disparo cortou o ar como um assovio fúnebre. Doo acompanhou o projétil até o impacto seco contra o casco.

As velas continuaram acesas.

Por um instante.

Piscaram. Apagaram.

Raízes grossas começaram a se espalhar pela madeira, travando o casco como garras que buscavam o coração da nave. A queda começou lenta, como um afogamento no ar, depois acelerou sem retorno.

Doo jogou a luneta de lado, o sorriso se alargando.

— Vamos até lá.

O aeroplano mergulhava, perdendo as luzes vibrantes dos Adhunas acima. As estruturas sólidas dos Quangras surgiam rápido, imóveis, como presas esperando o impacto.

O baque ecoou seco. A madeira estalou, a magia se apagou.

Doo virou-se.

Jorno já preparava a descida. Os lobos circulavam em volta, farejando, inquietos, babas pingando dos dentes.

— Quando chegarmos, os lobos terminam com quem ainda respirar — disse Doo, firme. A voz baixou. — Mas Caelinus e Jessiah...

Ele fechou o punho, quase saboreando as palavras.

— Esses são meus.

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