Volume 2
Capítulo 67: Prenúncio do inverno
Enquanto o grupo caminhava pelas ruas escuras da parte dos Quangras, o som abafado das botas no pavimento quebrava o silêncio noturno.
Da grade dos bueiros, o vapor subia em rajadas densas, misturando-se às respirações pesadas — menos a de Josh, que seguia à frente, descalço e com o torso nu, como se o clima não o tocasse. A terra suspensa sobre o deserto parecia sugar o calor do corpo a cada passo.
— Um dia ainda quero entender como esse maluco não congela — murmurou Cara de Prancha, puxando o casaco de pele para junto do pescoço.
Kilian ajeitou o capuz da capa, observando Josh sempre à frente, como se o frio fosse problema dos outros. Sem virar o rosto, lançou um olhar a Garrik.
— Vai ter que aprender aquela de clima extremo — disse Garrik, ajustando a gola da túnica, sem sinal de desconforto. — O Josh prefere só isso. Nem ao menos se veste como gente normal.
Kilian acenou com a cabeça, ainda seguindo Josh com os olhos.
— Já viu alguém agir como ele antes? — perguntou Kilian.
Garrik deu um leve sorriso.
— Mistérios, rapaz. Nem todos precisam ser resolvidos. Alguns só aceitos.
— Que conversa furada — resmungou Cara de Prancha, cuspindo no chão. — Aceitar o quê? Esse cara é biruta.
Nariz de Batata soltou um riso abafado, ajeitando o capacete sempre mal encaixado.
— Biruta? Olha quem fala.
— Cala a boca, Nariz de Batata, antes que eu te dê uma bifa! — gritou Cara de Prancha, a voz grave ricocheteando pelas paredes da viela.
Kilian sorriu de leve, limpando o sangue seco que ainda manchava os braços. O cheiro de ferro não parecia incomodar ninguém. Cara de Prancha, ao seu lado, estava ainda pior — coberto até os joelhos de vísceras e gordura negra.
— Só falta mais um, não é? — perguntou Kilian.
— Sim, finalmente o último — respondeu Cara de Prancha. — Depois disso, o Purgeno estará pronto. E a gente se livra da cara do Garrik.
A risada dele ecoou pelo vazio das vielas, meio zombaria, meio alívio, mas morreu antes de virar riso. Nariz de Batata apenas assentiu.
— Sim, já passou da hora de terminar isso.
Maya, que até então seguia calada, virou o rosto para Kilian. Os olhos permaneceram fixos nele tempo demais.
— Desde que ninguém mais estrague tudo nessa reta final.
Kilian respondeu com um sorriso leve, quase debochado.
— Isso não vai acontecer se a conjuradora fizer o trabalho dela.
— Eu estava justamente falando de você — retrucou Maya, cruzando os braços.
— Então não me faça perder tempo consertando suas burradas — disse ele, firme, sem virar o rosto.
Cara de Prancha soltou um riso abafado.
— Ihh, ela tá naqueles dias.
— Vai à merda — resmungou Maya.
Garrik ergueu uma das mãos, a palma virada para cima.
— Vamos, acalmem-se. Todos estamos exaustos. Duas semanas naquela planície têm seu peso.
Ele olhou para cada rosto, depois voltou os olhos para a frente.
— Agora vamos descansar, e nos preparar para o último passo.
O grupo seguiu em silêncio. O som das botas era engolido pelo vento que soprava entre os becos estreitos.
— Vocês repararam que não tem nenhuma mulher na rua? — comentou Kilian, olhando para os lados.
Garrik observou também. Portas fechadas e janelas escuras dominavam a paisagem.
— Deve ser por conta do surto... as grávidas explosivas. A coisa deve ter piorado.
Cara de Prancha resmungou, encolhendo os ombros.
— Mulheres explodindo... nunca pensei que ia viver pra ver isso.
— Nem mesmo na vila das grávidas elas sabem quem carrega o quê — disse Kilian, a voz baixa.
As construções de pedra ao redor pareciam sufocadas na escuridão; portas fechadas e janelas apagadas, só alguns lampiões mágicos espalhando círculos azulados sobre o pavimento. O frio cortava a pele como lâminas finas.
— Até que enfim — disse Cara de Prancha, apressando o passo. — Já tava na hora de sentir um pouco de calor.
No fim da rua, as chaminés da Taverna Brasa e Ferro soltavam fumaça densa, colunas negras contra o céu sem estrelas. Kilian puxou o capuz para trás; o cabelo grudado na testa denunciava o suor, apesar do vento cortante.
A porta rangeu e cedeu. O interior iluminado por velas tremeluzentes exalava vozes abafadas, cheiro de gordura e um calor que bateu no rosto deles como uma onda.
— Bem melhor que o vento lá fora — comentou Nariz de Batata, ajeitando a barba com as duas mãos.
***
As luas pairavam altas, derramando sua luz sobre o mármore branco, que a devolvia como um rio prateado entre estátuas e fontes caladas. Aeroplanos flutuavam imóveis, ancorados nas plataformas, enquanto mastros reluziam como lanças enfeitadas. Trapos finos e bandeiras longilíneas balançavam ao vento das alturas, espalhando estalos secos pelo ar gelado.
Gorbolg, Jessiah e Caelinus atravessavam a praça em silêncio. Os passos eram discretos, ritmados. Nenhum deles ostentava mais do que o necessário, cada gesto carregado de propósito.
— E você, Caelinus? Por que tá tão quieto? — perguntou Gorbolg, franzindo o nariz num sorriso largo demais para o rosto quadrado.
Jessiah tocou o ombro do colega, sem interromper o passo.
— Deixa, Gorbolg. Deve ser por causa disso tudo. Caelinus, não fica assim. Ninguém podia imaginar que o Doo ia tão longe.
— Ué, todos são inocentes até que se prove o contrário, certo? — Gorbolg piscou, tentando aliviar.
Caelinus passou os dedos pelo parapeito de pedra, sentindo o frio úmido do mármore. Não olhou para os dois.
— Não é por isso.
— Então fala — Gorbolg insistiu. — Vai me fazer implorar?
Caelinus manteve o olhar no chão, pesado.
— Nunca tinha vindo aqui antes. Na parte dos Letnicianos. Então eu me lembrei do Kilian, só isso.
O nome pesou no ar como uma cortina grossa. Jessiah e Gorbolg se entreolharam, mas não disseram nada.
— Já faz tempo, né? — disse Jessiah, por fim, em tom baixo. — Desde o enterro.
Caelinus apenas assentiu. O silêncio se estendeu por alguns passos. O brilho das luas colava nas botas dos três, como se grudasse no caminho.
— Nunca pensou em ir atrás dele? — perguntou Gorbolg.
Caelinus esfregou o rosto, demorando para responder.
— Pensei. Vi ele com uns aventureiros, naquela mesma tarde. Eu... tenho medo de saber se ele tá bem ou não. Você sabe como é esse tipo de vida.
— Ele era só um garoto — disse Jessiah, quase num sussurro. — E ficou com tudo nas costas quando a Melangie caiu.
Caelinus parou. Não olhou pra trás nem pra frente.
— Fui duro demais. Toda vez que penso nele, lembro dela.
Gorbolg encostou a mão pesada no ombro dele. Não disse nada. Jessiah apenas assentiu em silêncio.
O aeroplano militar já esperava na plataforma. Altivo, simples, com as velas se mexendo sob a brisa noturna. Passaram sob mastros e bandeiras; ao longe, as naves letnicianas subiam aos poucos, riscando o céu com ouro e madeira.
Caelinus parou de súbito.
— Mestre Gorbolg, achei que ia sair sem se despedir?
A voz veio do caminho das embarcações, cortando o vento.
Gorbolg virou-se sorrindo antes mesmo de ver o rosto. O general Vanlasnor se aproximava, com o mesmo andar rígido e a expressão endurecida de sempre.
— General Vanlasnor! — Gorbolg levantou a mão em saudação, apertando firme o braço do velho camarada. — Achei que já tinha ido mais cedo.
— E perder a chance de ver esses aeroplanos cheios de frescura? — disse Vanlasnor, com um meio sorriso. — Nunca.
Jessiah observava a comitiva do general. Um homem alto, espada mágica nas costas, encarava os três com olhos estreitos.
— Esse é o Danasa — disse Vanlasnor, vendo o olhar de Jessiah. — Nosso melhor braço. Não perde pra nenhum desses letnicianos de sapato brilhando. Aliás, você já o conhece, né, Gorbolg?
— E como... — respondeu o mestre da ordem.
Danasa cruzou os braços, inflado, o queixo erguido.
Vanlasnor abaixou o tom:
— E esse Doo? Vai deixar ele continuar solto?
— Não se preocupe — disse Gorbolg. — Ainda não pegamos o Doo, mas já sabemos quem tá por trás das grávidas. Não posso falar agora, mas haverá sinais. Eles vão ser julgados.
Vanlasnor assentiu. O alívio brilhou em seus olhos por um instante, logo substituído por rigidez. Ele deu um passo à frente, baixando um pouco a voz.
— Sabia que você ia dar um jeito. Se precisar de reforços...
O olhar dele foi direto para Danasa, que exibia um sorriso confiante demais.
Danasa não se conteve:
— Se esse Doo cruzar o meu caminho, não sobra nada dele.
O silêncio caiu como pedra. Gorbolg ergueu apenas uma sobrancelha. Caelinus e Jessiah trocaram olhares, mas ficaram calados.
— Ele sempre foi assim? — perguntou Gorbolg, com um meio sorriso.
Vanlasnor riu baixo e balançou a cabeça.
— Não muda nunca.
Ele apertou de novo a mão de Gorbolg. Depois olhou para o aeroplano militar.
— Boa sorte. E quando isso acabar, me cobre aquela cerveja — ou eu cobro.
— Combinado — disse Gorbolg, rindo.
O general se afastou com a comitiva. Os paladinos voltaram a andar. O vento soprava forte, fazendo as bandeiras tremerem no alto.
O aeroplano militar os esperava, simples e direto. Ao redor, as naves luxuosas já sumiam no céu.
***
Doo apoiava-se na mureta baixa do terraço. O frio seco cortava o ar como lâminas, mas seus ombros permaneciam relaxados, como se o clima fosse apenas um incômodo distante.
Os olhos varriam o céu pela luneta, seguindo os aeroplanos que desciam lentamente da camada dos Letnicianos. Acima, as luzes mágicas riscavam o firmamento com brilhos silenciosos, tão distantes quanto estrelas.
— Aquele lá deve ser o deles — murmurou, sem pressa.
Fixou a luneta em uma nave modesta, marcada pelas bandeiras dos paladinos. As velas oscilavam sob o empuxo mágico, teimosas contra o vento da altitude.
Ao lado, Jorno permanecia imóvel. A estilingue em mãos, o orc parecia uma estátua de músculos e fúria contida. Seus lobos farejavam o vento com inquietação, pelos arrepiados, olhos amarelados brilhando com reflexos da camada acima. Nenhum deles piscava.
Doo abaixou a luneta com um sorriso torto. Girou os ombros, estalando as juntas, ajeitou a jaqueta surrada.
— Tá pronto, Jorno? Hoje eles caem. Vamos ver se o druida não tava só enchendo o saco quando falou de você.
O orc apenas acenou com a cabeça. Nenhuma palavra. A estilingue parecia tosco, primitivo — até que se via o tamanho dos braços que o seguravam, duros como troncos.
— Essa tal semente de Xander... — Doo observava a esfera negra ser encaixada no couro da arma. — Tem certeza que não pode explodir o aeroplano inteiro?
Jorno apertou o projétil entre os dedos. A aura verde oscilava como um fogo enjaulado.
— Vai apertar o casco. Drenar o cristal. Eles caem, mas sem explosão.
— Ótimo — disse Doo, sem tirar os olhos do céu. — Mas se der ruim...
— Não vai dar ruim.
O silêncio entre os dois pesava. Doo ergueu a luneta de novo. A mão firme tremia, quase imperceptível. Ao lado, os lobos baixaram as orelhas, os focinhos apontados para o alto, rosnando baixo.
O aeroplano cruzou a camada dos Adhunas. As bandeiras ficaram visíveis, vibrando na escuridão.
— É agora!
Jorno puxou a corda do estilingue. O disparo cortou o ar como um assovio fúnebre. Doo acompanhou o projétil até o impacto seco contra o casco.
As velas continuaram acesas.
Por um instante.
Piscaram. Apagaram.
Raízes grossas começaram a se espalhar pela madeira, travando o casco como garras que buscavam o coração da nave. A queda começou lenta, como um afogamento no ar, depois acelerou sem retorno.
Doo jogou a luneta de lado, o sorriso se alargando.
— Vamos até lá.
O aeroplano mergulhava, perdendo as luzes vibrantes dos Adhunas acima. As estruturas sólidas dos Quangras surgiam rápido, imóveis, como presas esperando o impacto.
O baque ecoou seco. A madeira estalou, a magia se apagou.
Doo virou-se.
Jorno já preparava a descida. Os lobos circulavam em volta, farejando, inquietos, babas pingando dos dentes.
— Quando chegarmos, os lobos terminam com quem ainda respirar — disse Doo, firme. A voz baixou. — Mas Caelinus e Jessiah...
Ele fechou o punho, quase saboreando as palavras.
— Esses são meus.
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