Volume 2
Capítulo 68: Raízes de sangue
Os destroços do aeroplano rangiam como se estivessem prestes a se desfazer. A cada instante, o som ficava mais agudo, mais urgente. As raízes grossas que antes apenas envolviam a estrutura agora a esmagavam, comprimindo o casco de madeira e metal.
— Isso vai ceder — murmurou Caelinus, puxando o braço preso entre duas tábuas quebradas.
Seu corpo respondeu com tanta dor que precisou apertar os olhos, mas ele não fez nenhum som. Os olhos varreram o cenário devastado.
— Droga... — disse alguém, ofegante, encostado a poucos metros. — Estão todos...
Vários paladinos jaziam imóveis, armaduras manchadas de sangue. Alguns feridos tentavam se levantar, apoiando-se onde podiam, suas forças em declínio.
— Preciso de uma cura aqui! Qualquer um que ainda consiga conjurar! — gritou um paladino, ajoelhado ao lado de um corpo convulsionando.
Gorbolg permaneceu em silêncio, expressão impassível. Levantou o escudo. A luz sagrada brilhou, iluminando o interior do barco — agora cheio de fissuras que deixavam passar os contornos das raízes, prestes a entrar.
O olhar dele recaiu sobre Jessiah, que tentava arrancar um estilhaço de madeira da perna. Apesar da gravidade do ferimento, seu sorriso sardônico ainda estava ali.
— Tsc... Isso não foi nada — Jessiah murmurou entre dentes. — Já vi piores.
— Não é o que o sangue sugere. — Caelinus respondeu, examinando o corpo de outro companheiro caído.
Jessiah soltou uma risada curta, mas logo seus olhos varreram o ambiente e se estreitaram.
— Eles estão lá fora, não é?
Apoiou-se com dificuldade numa parte remanescente do casco. Uma careta de dor apertou seu rosto ao se levantar.
— Não há dúvida. — Caelinus murmurou, tentando espiar algum movimento do lado de fora. — Foram os druidas.
Gorbolg ajoelhou-se ao lado de um paladino ferido. As mãos brilharam com energia divina. Ao terminar, ergueu-se com o escudo em punho e encarou os dois.
— Tem razão. A natureza do ataque é clara. — Sua voz soou pesada. — Apenas druidas poderiam manipular essas malditas raízes assim.
Caelinus fechou o punho, observando os corpos — alguns lutando pela vida, outros já sem volta.
— Isso é algo sem precedentes. Mestre Gorbolg... o que faremos agora?
Jessiah limpou o sangue da perna e sorriu amargamente.
— Vamos deixar os mortos. Agrupar com os que ainda podem lutar. — Olhou para os galhos apertando o casco. — Não vai demorar até esse lugar virar pó.
O som das raízes aumentou de forma ameaçadora. O metal começou a ceder, entortando-se sob a pressão.
— Estão acelerando — sussurrou um paladino ao fundo, a mão tateando a lateral.
A madeira estalava como ossos se quebrando. Cada momento ali dentro era mais arriscado.
— Vai ruir logo — disse outro. — Temos pouco tempo.
Gorbolg ergueu os olhos.
— Precisamos sair. — afirmou. — Já fomos encurralados. Não podemos ser destruídos aqui dentro.
Caelinus assentiu, ignorando a dor latejante no braço deslocado. Começou a mover-se pelos corpos, verificando quem ainda podia lutar.
— Organizem-se. — ordenou. — Feridos, apoiem-se nos que ainda têm força. Vamos sair.
— E para onde? — resmungou um paladino. — Os druidas devem estar lá fora, prontos para acabar com o serviço.
Um dos mais jovens engoliu em seco, os olhos fixos nas paredes que estalavam como costelas quebradas. Outro, de barba cerrada, apenas fez o sinal da luz com os dedos.
— Não importa. — Gorbolg rebateu, cortando um galho com um golpe firme da espada. — Se ficarmos aqui, morreremos esmagados como covardes.
A pressão aumentava de forma implacável. O casco emitia estalos alarmantes, como se tudo fosse desabar.
— Eles não vão parar. — disse Caelinus. — Estão nos encurralando como gado.
Ele ajudou os feridos a se organizarem, enquanto Gorbolg abria caminho pelas raízes que cresciam como serpentes apertando suas presas.
— Querem nos forçar a sair? — murmurou Caelinus. — Vão se arrepender disso.
— Homens, recomponham-se e entrem em formação — Jessiah retrucou, as mãos envoltas por uma aura dourada enquanto curava a perna. — Vamos dar trabalho pra esses druidas.
À frente, um feixe de raízes se entrelaçava em forma de espiral, tão espesso quanto um tronco. Gorbolg fincou os pés, respirou fundo e golpeou com força, fazendo lascas voarem como farpas vivas.
— Eu vou na frente. Sinalizem para os Quangras. — ordenou.
— Já estou com o bastão! — gritou alguém, erguendo um cilindro de prata, que começou a emitir pulsos azuis.
***
Kilian vestia a camisa no quarto da taverna. O calor das brasas subia pelas paredes de pedra.
Josh também estava ali, sentado no canto. Limpava com afinco suas facas de lâminas finas, feitas de um metal raro e opaco.
O silêncio da noite envolvia tudo.
Kilian ajeitava a gola sobre os ombros ainda úmidos.
Um estrondo ecoou, forte o bastante para fazer vibrar as janelas. Kilian congelou no meio do movimento, os olhos estreitando.
— O que foi isso...? — murmurou, virando-se para a janela.
Abriu a porta.
Passos apressados ecoavam no corredor.
Lá embaixo, cadeiras sendo arrastadas e murmúrios agitados tomavam a taverna.
Uma porta bateu, e Garrik saiu do quarto ao lado, logo seus olhos percorreram o ambiente e se estreitaram.
— Alguma coisa aconteceu — disse ele. — Isso veio de perto.
Outras portas se abriram quase ao mesmo tempo.
Cara de Prancha apareceu com uma camisa desbotada colada no peito e calças largas. Coçou a barba desgrenhada com irritação.
— Que barulho foi esse, um trovão? — perguntou, franzindo o nariz. — Não. Não chove aqui, nunca. Tem alguma coisa errada.
Bocejou alto.
— E justo na hora de dormir…
Nariz de Batata saiu do quarto seguinte, olhos semicerrados e cabelo desgrenhado como se tivesse sido atropelado por um carneiro.
— Pois bem — resmungou, coçando a barriga. — Se tiver explodido alguma coisa e for perto, espero que seja um armazém de cerveja.
Deu uma risada preguiçosa e se encostou na parede.
— Aí sim vale sair do quarto.
Maya surgiu por último, com os cabelos um pouco soltos e um livro entre os braços. Estava séria. Olhou ao redor, sem dizer nada por um instante.
Kilian correu até a janela do quarto. Abriu-a num gesto seco.
O vento da camada soprou com força, seco e cortante, carregando o gosto dos ventos altos do deserto. Lá fora, uma intensa luz subia ao céu, ofuscante e azulada.
— É um sinal de socorro… — murmurou. — É dos paladinos. Caelinus.
Calçou os sapatos. Ergueu uma das mãos. Um gesto simples. A magia respondeu.
Saltou pela janela, e aterrissou com suavidade no chão de pedra lá embaixo.
— Kilian! — gritou Garrik, correndo até a janela. — Espere!
Cara de Prancha bufou alto. Voltou para o quarto. Segundos depois, passou pelo corredor empunhando sua marreta. Segurava com força, os dedos ainda meio inchados pelo sono.
— Aquele garoto… Não posso deixá-lo sozinho.
— Espera aí, seu grande imbecil! — Nariz de Batata apareceu correndo, jogando uma armadura nas mãos do anão. — Veste isso, sua mula!
— Essa porcaria demora! Vai sentar numa tuna! — retrucou o anão, empurrando as tiras de volta.
Antes que pudessem discutir mais, Josh, que até então não tinha se mexido, saltou pela mesma janela. Desceu como um felino, as facas reluzindo sob a luz das duas luas. Aterrissou em silêncio. E correu atrás de Kilian.
— Que merda… — Cara de Prancha olhou para aquilo com os olhos arregalados. — Não podemos deixar esses dois sozinhos!
Desceu correndo pelas escadas, a marreta agora firme nas mãos.
Maya, que até então só observava, deu um passo à frente. Olhou para Garrik com um sorriso debochado.
— E aí, Garrik? Vamos atrás também, ou deixamos eles morrer?
Garrik soltou um suspiro longo, cruzando os braços.
— E temos opção? Vamos, mas com cuidado. Primeiro, esperamos o Nariz de Batata vestir a armadura.
Enquanto isso, o anão vestia a armadura às pressas, bufando a cada tira apertada.
— Isso não vai acabar bem… — murmurou.
***
Gorbolg saiu por uma brecha no casco do aeroplano.
As placas de madeira estavam retorcidas pelas raízes, que se contorciam em torno da fuselagem como serpentes famintas.
A rua pavimentada dos Quangras estava quase deserta, iluminada por luzes mágicas que lançavam sombras tremeluzentes sobre os destroços.
Assim que seus pés tocaram o chão, um vulto surgiu pelo flanco esquerdo.
— Não... — rosnou.
Ergueu o escudo a tempo de bloquear a mordida do lobo branco. As presas bateram no metal com um estalo surdo. O impacto o empurrou dois passos para trás, mas ainda assim se manteve firme. Sua lâmina já se movia.
— Sai da frente!
O corte atingiu o pescoço da fera. Sangue espirrou quente, escorrendo pelas pedras da rua. O lobo grunhiu, deu dois passos trôpegos e caiu.
Gorbolg girou para os prédios ao redor.
— Voltem pra dentro! Agora! — gritou. — Ninguém na rua, entenderam?
As janelas estavam cheias de rostos. Moradores espiavam com olhos arregalados. Quando ouviram o grito, sumiram como ratos assustados.
— Fechem as portas! Trancadas, todas!
Cortinas se fecharam. Portas bateram com pressa. Alguns tropeçaram nos próprios pés.
Um velho puxou duas crianças pelos ombros, quase caindo ao arrastá-las para dentro.
Um som agudo veio dos destroços.
— Droga... — murmurou Gorbolg.
O segundo lobo avançou num salto brutal. Cravou os dentes na base da nuca.
A dor explodiu. Ele caiu de joelhos. O gosto de sangue subiu à boca.
— Não... — arfou. — Quebra-luz!
A espada brilhou. Um corte limpo atravessou a fera de lado a lado.
O lobo se dividiu em duas metades, que caíram fumegantes.
Gorbolg cambaleou.
— Esses malditos não param...
Outro rosnado, mais próximo.
Um terceiro lobo.
Ergueu o escudo no último segundo. O impacto quase arrancou seu braço.
— Vai ter que fazer melhor que isso, miserável!
O lobo cambaleou, atordoado. Gorbolg aproveitou. A mão livre brilhou em verde.
A magia de cura percorreu a pele, selando parte do ferimento.
— Só preciso de mais alguns segundos...
Sombras começaram a se mover ao redor. Lobos. Muitos. Surgiam de becos, telhados, copas de árvores. Olhos brilhavam no escuro.
— Não pode ser...
Gorbolg girava devagar, vendo o cerco se formar.
— Cadê vocês, moleques...? — murmurou. — Já deviam ter chamado reforço.
O escudo subiu.
A espada também.
As luzes dos postes começaram a piscar.
— Não me apaguem isso agora... — disse, olhando para cima.
Porém um deles se apagou, como se provocasse o paladino.
No escuro, um uivo agudo atravessou o silêncio.
— Se for agora, que venha logo.
A resposta veio com um segundo uivo. E outro.
O som tomava a rua como um aviso: cercavam o campo.
Gorbolg firmou os pés.
O sangue escorria pela lateral da armadura. O rosto estava tenso. Mas os olhos — os olhos estavam calmos.
— Reforço dos Quangras... — disse, encarando o breu. — Se estiverem vindo, sejam breves. Porque eu não vou recuar.
E esperou o primeiro ataque.
O bando avançou de uma vez, porém dois lobos dispararam à frente, muito mais rápidos que os outros. Um ataque frontal, enquanto o restante cercava pelas laterais.
O primeiro colidiu com o escudo de Gorbolg, garras enormes cravando o metal e forçando-o para baixo. O segundo saltou logo em seguida, mandíbula escancarada, dentes buscando o crânio do meio orc.
Gorbolg girou a cabeça no último instante, oferecendo o ombro. As presas arrancaram sua ombreira. Caiu sobre um joelho, o cheiro de sangue e pelo molhado invadindo o ar.
O lobo pressionando o escudo atacou, mas Gorbolg cravou a espada no pescoço da fera antes que os dentes o alcançassem.
Rolou para o lado, empurrando o cadáver, quando o segundo lobo investiu de novo.
Ele ergueu o escudo, ainda ofegante, os olhos fixos nas sombras.
— Venham… — sussurrou.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios