Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 66: As Sementes do Rei

Doo chutou uma pedra e resmungou, o rosto contraído diante do cheiro azedo que subia da lama.

— Ainda fedendo do mesmo jeito, Ravina de Cractaal...

O som das botas era abafado pela umidade espessa. As árvores, com galhos retorcidos e folhas escuras, pareciam querer engolir a trilha. Ele olhava de um lado para o outro, a boca torcida num sorriso que não chegava aos olhos.

— Esse cara... quem diria que conseguiria matar as coisas desse jeito — murmurou, chutando outra pedra. — Que nojo de lugar.

O fedor de vegetação podre impregnava tudo. Doo ajeitou o casaco com um puxão no ombro, indiferente ao mormaço sufocante da floresta. Seus olhos estreitos não paravam, atentos ao movimento dos arbustos, às sombras grossas entre as raízes. A trilha parecia se fechar a cada passo, como se a mata tivesse dentes prontos para mordê-lo.

Ele parou de repente. Adiante, a neblina densa se erguia feito uma parede quase palpável. Doo deixou escapar um riso seco, e o brilho nos olhos não tinha nada de bom.

— Sempre vale a pena guardar as coisas certas... — disse, abrindo a bolsa de couro na cintura. — Nunca se sabe quando uma dessas porcarias salva tua pele.

Puxou um bracelete antigo, corroído nas bordas, mas com um brilho metálico no entalhe central. Prendeu-o ao pulso e pressionou o símbolo. Uma vibração percorreu seu braço como uma dormência quente, e segundos depois seus pés começaram a flutuar. Um sorriso estreito surgiu em seu rosto, os olhos fixos no caminho à frente.

— É, semente pútrida... tô chegando. E quero meu exército.

O castelo dos Amberridle se erguia à distância, com muralhas cobertas de musgo e deformadas pela umidade. Atravessando a névoa, Doo aterrissou no pátio interno, onde a escuridão parecia ainda mais espessa. O cheiro de mofo e coisa morta agora era insuportável. As pedras estavam esburacadas, e fungos brotavam das fendas como carne viva crescendo sobre ossos.

Ele caminhou devagar, sem abaixar a guarda.

— Esse lugar tá ainda mais caído do que da última vez... — murmurou, ajeitando o sobretudo nos ombros antes de avançar.

A grande sala do trono surgiu logo depois. Doo parou na entrada, em silêncio. No centro, a árvore seca e retorcida ainda dominava o espaço. Seus galhos perfuravam os esqueletos do rei e da rainha, como se a natureza tivesse vencido por cansaço.

Aproximou-se devagar até parar diante do esqueleto da rainha. Um saco de sementes pendia da boca escancarada, quase vazio.

— É sempre no da rainha, hein? — comentou, curvando uma sobrancelha e passando os dedos pelas poucas sementes restantes. — Mas o do rei...

Virou-se. O esqueleto do rei permanecia encostado no trono, e o saco pendurado entre as costelas estava cheio. Sementes cintilavam no escuro como pequenos olhos vivos, pulsando devagar.

Doo estalou a língua.

— O rei sim tá com o saquinho cheio... Do jeitinho que eu queria.

O sorriso torto voltou ao rosto dele, mas dessa vez sem ironia. Levantou a cabeça, inspirou fundo e gritou:

— Já fiz a minha parte!

A voz reverberou pelas paredes rachadas, fazendo o teto tremer sob os fungos.

— Agora eu quero o meu exército! Não tô aqui pra perder tempo, druida!

A calmaria do lugar o tornava espesso, imóvel. Doo cruzou os braços, firme, os olhos atentos. Nada. Até que o ar começou a vibrar. Fraco no início, como uma onda subterrânea. Depois mais intenso, mais claro. Um zunido rastejou pelas paredes, subiu pelos pilares e dominou o salão.

Insetos — o som cresceu até encher a sala. Uma nuvem de cascudos tomou forma no centro, girando sobre si como se tivesse um eixo, e os besouros batiam as asas com raiva, quase vibrando de antecipação. Doo não recuou; só observava.

— Aí vem... — murmurou, os lábios contorcendo-se num sorriso predador.

A nuvem engrossou e rodopiou como fumaça viva. Doo deu um passo atrás; as botas estalaram no chão úmido enquanto a massa pulsava. Então ela se abriu e, do seu meio, uma figura emergiu: o Arquidruida.

Não caminhava — existia ali, erguido como se tivesse brotado da própria umidade do castelo. A pele era pálida e enrugada, esticada como couro velho sobre os ossos, e os olhos opacos pareciam pedras enterradas há séculos; ele nada disse, apenas olhou, contando cada osso de Doo sem pressa. O bandido permaneceu imóvel, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e sorriu, sem hesitar.

Veio a voz, baixa, grossa, arrastada.

— Vejo que voltou, Doo...

Soou como raízes crescendo sob a terra.

— E ainda trazendo o cheiro da cidade. A podridão de Jillar se impregna em você como uma doença.

Doo inclinou a cabeça. Um gesto despreocupado.

— Não é a cidade que apodrece — respondeu firme — São aqueles que caminham sobre ela.

Xin-Car riu, um som grave e gutural que se chocou contra as paredes, e os lábios do druida se contorceram num sorriso seco, quase morto.

— A cidade, a floresta, o mundo... tudo apodrece, Doo — murmurou o Arquidruida, inclinando-se; os olhos brilharam num verde doentio. — E eu sou aquele que a faz desabrochar.

Doo recuou um passo, sem pressa. O ar ficou mais pesado e úmido, mas o sorriso dele não sumiu.

— Você sabe por que estou aqui, Xin-Car.

A voz cortou o ar.

— Já disse. Fiz a minha parte. Agora cumpra com a sua.

O Arquidruida começou a andar ao redor dele, com os cascos quase silenciosos sobre o tapete em farrapos; os cascudos moveram-se com ele, lentos, como carne viva costurada ao corpo.

Xin-Car estreitou os olhos:

— A oferta... um acordo com um bandido. Não teme o mesmo fim do seu amigo? — Acariciou uma das caudas escorpiônicas pendendo do ombro, como se lembrasse um aviso. — Fala de termos como se pudesse negociar com a própria natureza.

— E eu tô cagando pra sua natureza; eu quero ver Jillar queimar. Você quer apodrecê-la; temos o mesmo alvo. Me dê as ferramentas.

O silêncio caiu, denso, pesado; o cheiro doce das flores pútridas misturava-se à umidade das pedras. Xin-Car sussurrou então:

— E depois que Jillar cair? O que fará quando o último bastião for consumido?

Doo avançou um único passo, olhos fixos.

— Isso não importa. Jillar tem que cair. O resto... é depois. Você terá seu reino de decadência. Eu, minha vingança.

Xin-Car o fitou por um instante. O silêncio ganhou corpo.

Então ele suspirou. Longo. Envelhecido.

— Muito bem...

Mas a voz voltou mais sombria.

— Lembre-se, Doo. A podridão não poupa ninguém. Nem mesmo os que a servem.

Doo apertou o casaco; o tecido áspero roçou nos dedos. Abriu a boca e nada saiu — depois surgiu um sorriso lento e frio.

— Sabe, Xin-Car... eu esperava muito de você — disse num tom leve, quase despreocupado, embora os dedos ainda segurassem o tecido. — Só não esperava que fosse um tratante.

O Arquidruida inclinou a cabeça; os olhos brilharam de novo.

— E o que você entende sobre fidelidade, reles catador de lixo? — A voz era baixa, mas cortante.

A voz era baixa, mas cortante. Doo bufou com desprezo, seco, e avançou, estendendo a mão na direção das sementes.

— O que eu entendo é que eu fiz a minha parte. A questão é: você vai me dar o que eu quero... ou não?

Xin-Car não respondeu de imediato; seus olhos opacos piscaram devagar.

— Sempre apressado, Doo, sempre querendo pôr a mão naquilo que não lhe pertence. — Com um gesto, as sementes se transformaram em escorpiões que se agitaram no saco.

Doo desviou o olhar por um segundo, apenas um, antes de voltar a encarar o Arquidruida.

— Isso pertence a mim agora. Fiz o que você pediu — apontou para as sementes. — Sou um homem ocupado. Não tenho tempo para filosofar.

A nuvem de cascudos ao redor de Xin-Car pareceu se agitar enquanto o druida fitava Doo com seus olhos opacos. A sala ficou em silêncio até que ele soltou uma risada baixa e gutural.

— Você é direto, como sempre — disse, a voz carregando sarcasmo. — Deveria apenas ser mais reverente com as entidades.

Doo esboçou um leve sorriso de lado, cruzando os braços.

— Não sou muito bom com cerimônias, velho — respondeu com desdém. — Se quisesse me ajoelhar, teria virado um dos seus fanáticos com a cabeça cheia de lodo.

Os olhos de Xin-Car se estreitaram, mas ele apenas apertou os lábios finos.

— Você é... eficiente. E deve saber disso. Como conseguiu fazer tanto em tão pouco tempo? — perguntou, a voz forçadamente curiosa.

Doo deu de ombros, despreocupado.

— Sabe como é, só encontrar as pessoas certas pra fazer o trabalho certo. Os Bardos, por exemplo — soltou uma risada curta. — Um bando de vagabundos idiotas que acreditam nas baboseiras dos seus druidas.

A expressão de Xin-Car endureceu; os ombros ficaram tensos, mas Doo não desviou o olhar.

— Na verdade, todos os seus druidas são uns idiotas — disse ele, a voz mais incisiva.

Xin-Car avançou um passo; os cascos ecoaram pelo chão. Seus olhos estavam fixos, sem piscar.

— Cuidado com as palavras, humano. Você se esqueceu de quem está diante de você? — rosnou grave, como um trovão abafado.

Doo não recuou. Pelo contrário, aproximou-se, mantendo os olhos firmes no Arquidruida.

— Eu não esqueço nada. Mas você parece esquecer que não somos aliados, Xin-Car. Não somos amigos. Estamos aqui por um objetivo em comum e, se quiser que ele se concretize, precisa de mim vivo.

O Arquidruida ficou parado, maxilares cerrados, o olhar cravado no rosto de Doo. O bandido soltou uma última risada debochada.

— O que vocês levaram oitenta anos para fazer, eu vou resolver em poucos meses. E, acredite, Jillar vai queimar.

Xin-Car cerrou os dentes; suas caudas escorpiônicas sacudiram atrás do corpo. Após um longo suspiro, ele manteve a compostura.

— Pode pegar as sementes.

Doo estendeu a mão e retirou o saco da boca do rei — a tão esperada recompensa.

— São suas. Mas antes de ir... espere um momento — disse Xin-Car, os olhos semicerrados. Virando-se, chamou em voz baixa: — Jorno!

Das sombras surgiu uma figura imponente: um orc de pele esverdeada, cercado por lobos gigantes que rosnaram baixo ao redor dele. Os olhos do orc estavam arregalados, atentos, cada passo firme no chão gasto do salão.

— Este é Jorno, um dos meus druidas mais poderosos. Ele guardará suas costas — disse Xin-Car. — Quando os civilizados de Jillar perceberem o que você está fazendo, tentarão derrubá-lo. E você precisará de proteção.

Doo mediu Jorno de cima a baixo e soltou uma risada curta.

— Sempre bom ter um servo de qualidade — acenou com a cabeça, como se aprovasse um recruta. — Agradeço pela consideração.

Sem mais palavras, Doo se afastou, saindo da sala do trono. Enquanto cruzava os corredores em ruínas, lançou um olhar discreto para o anel em seu dedo; o brilho avermelhado pulsava, fraco, como uma brasa viva.

— Então... o que você achou? — murmurou com um tom reverente que não usava com Xin-Car.

A voz surgiu do anel, grave e distante, com um peso que empurrou o ar ao redor.

— Xin-Car é arrogante. E insignificante. Ele teme o que não controla..., mas você está lidando com algo muito maior.

Doo arqueou a sobrancelha, a boca entortando num meio sorriso.

— Sim, sim... aqueles Onze que você falou — disse com desdém. — Se cruzarem meu caminho, eu resolvo.

O silêncio durou pouco; a voz retornou, mais profunda e carregada.

— Você não entende, Doo. Os Onze não são problemas a serem “resolvidos”. Eles são o motivo pelo qual estou preso aqui. Por isso estou preso a você.

Doo parou de andar; a luz tênue das tochas refletiu em seus olhos fixos à frente.

— Preso... por causa deles?

— Sim. Mesmo sendo um deus, fui contido. Imagine o que fariam com você, um mortal — o anel pareceu vibrar. — Os Onze são implacáveis. Poderiam obliterar Xin-Car, ou até mesmo Haaloxx Tilfixx, com um só gesto. Um deles caminha por Jillar. Um paladino. Phong.

Doo apertou os punhos; a postura relaxada vacilou por um instante. Um sorriso fraco lhe escapou.

— Não tenho medo deles. Se for preciso, dou um jeito.

A voz respondeu sem piedade.

— Não! Se encontrar um deles, fuja. É sua única chance. Passar despercebido. Ou será o fim… de nós dois.

Doo manteve o silêncio; o peito subia devagar, como se estivesse freando algo por dentro. Por fim, assentiu com um movimento quase imperceptível.

— Então é melhor que fiquem longe do meu caminho.

A voz hesitou por um instante; depois, veio o sussurro final.

— Torça para que isso aconteça. Porque rezar... já não é mais possível. Eu mesmo arranquei a fé deste mundo.

— Rezar? — Doo deu de ombros. — Eu nem sei o que é isso...

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