Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 65: O que sobrou de tudo...

Os dois se encararam em silêncio.

A bolsa de carne pesava nos braços de Kilian, as veias saltando sob a pele suja. Ele abriu a boca, mas desistiu. O vento sacudia as folhas encharcadas.

— Então? — disse, a voz mais áspera do que queria. — Fala logo.

Maya suspirou, como se tirasse um peso do peito.

— Só toma cuidado. — O tom saiu baixo, mas a cabeça permaneceu erguida. — Tá todo mundo contando com você.

O sorriso dela surgiu pequeno, genuíno, e ficou. Um rubor leve coloriu as bochechas. Virou-se de volta para a trilha, passos firmes, sem pressa.

Kilian permaneceu parado, a mão apertando a bolsa ensanguentada. Só voltou a andar quando Maya já estava adiante, entre as folhas.

Mais à frente, o acampamento desmontado: mochilas alinhadas no chão seco. Cara de Prancha e Nariz de Batata estavam de pé, atentos à trilha.

— Já tão prontos? — perguntou Kilian, largando a bolsa junto às tralhas.

O anão ainda tinha lama na barba. Lançou um olhar malicioso para o companheiro:

— Se esse aí não luta, não cozinha e nem extrai condutor direito... pelo menos tem que servir pra alguma coisa.

Nariz de Batata ajustava a alça da mochila, sem olhar para ele:

— Pelo menos não virei um montinho de bosta no mato.

Kilian riu. Maya apenas arqueou a sobrancelha.

Josh, imóvel, encarava a trilha com o olhar vago de sempre.

— Vamos logo — disse Kilian, prendendo a mochila. — Qualquer dia vocês dois brigam de verdade.

A bolsa puxava seus ombros quando um uivo cortou o ar. Ele parou. O som se espalhou pelas árvores.

— Lobos — murmurou Nariz de Batata. — Sentiram o cheiro do wyrm.

— Ainda bem que saímos logo — disse Cara de Prancha. — Já vi os dentes deles. São grandes.

Os passos aceleraram. As árvores estalavam com a brisa. O uivo se repetiu, mais fraco.

Maya falou baixo, olhando de lado:

— Se o cheiro for forte, não seguem por muito tempo.

Nariz de Batata virou só a cabeça:

— Mais rápido. Antes que virem problema de verdade.

Seguiram em silêncio, os uivos dos lobos ainda rondando nas sombras.

Mais adiante, o portal surgiu entre a vegetação encharcada.

Atravessaram.

A sensação do portal passou, e estavam nas vielas mofadas do distrito inferior.

— Ele tá na mesma taverna de sempre? — perguntou Kilian, lançando um olhar de lado para Maya.

— Não. Dessa vez deixei ele na Brasa Velha. — O queixo erguido, sem encarar.
A resposta veio seca. Algo estava no ar.

Kilian cerrou os lábios, ajeitou a mochila com força desnecessária.

— Brasa Velha deve ser logo ali, né? Não imagino esses braços levando ele muito mais longe que alguns quarteirões. — O sorriso enviesado.

Maya o encarou. Irritação no olhar. Mas, por um instante, os olhos desceram até os lábios dele. Voltaram rápido.

— Ah, claro. O bonzão ia fazer diferente, né? — retrucou, sarcástica. O pé batendo no chão. — Talvez se não tivesse chegado atrasado na luta, teria feito melhor.

Kilian avançou um passo. Não percebeu que Cara de Prancha e Nariz de Batata já observavam.

— E depois eu é que ia arrumar briga... — murmurou o anão, cutucando o outro com o cotovelo.

— Talvez eu tivesse — rebateu Kilian, voz baixa, olhos cravados nos dela.

O rosto de Maya ficou sério. Nada se moveu por um instante. Então um sorriso curto surgiu no canto da boca — desafiador. Ela descruzou os braços devagar, como se medisse o próximo passo.

— Então é uma pena. Não é? — murmurou, virando-se de repente.

O cabelo balançou com o movimento, e ela o deixou para trás.

Kilian ficou parado um segundo. Ajustou a alça da mochila com força. Bufou antes de seguir.

Cara de Prancha lançou um olhar de lado para Nariz de Batata, que soltou um risinho, entretido com o espetáculo.

— Maya — disse Kilian. — Não vai dar pra fazer o que a gente precisa numa taverna. Aquilo mal cabe um anão. Temos coisa demais pra resolver.

— Dexa assim — cortou Nariz de Batata, erguendo a mão. — Eu mesmo procuro um lugar maior. Já tá resolvido.

O silêncio voltou. Depois de alguns passos, Cara de Prancha chamou:

— Fala pra mim, menina. O Garrik tá bem mesmo? Ou tão escondendo o jogo?

Maya baixou os olhos, ergueu a cabeça e encarou.

— Tá vivo. Consciente. Mas... perdeu um braço e uma perna.

O impacto foi imediato. Cara de Prancha parou seco, a mão cravada na alça da mochila.

— O quê? — Os olhos arregalados. — Um braço e uma perna... e ninguém me falou nada?

O silêncio pesou.

Kilian avançou um passo.

— Desculpa. Esqueci de te falar. Mas ele disse que dava pra recuperar. Por isso fiquei tranquilo.

— Pelo estrago que foi, um braço e uma perna ainda foi lucro — disse Nariz de Batata, coçando o bigode.

— Até você sabe disso, seu filho de uma salamandra peidona.

— Não precisa ficar nervoso — falou Maya. — Ele tá bem. Só não achou um curandeiro bom o bastante. Quando a gente chegar, você vê ele com seus próprios olhos.

— Eu também vou — disse Kilian, ajeitando a bolsa de carne do wyrm. — Ele vai querer saber da missão. E eu também quero ver como ele tá.

Cara de Prancha suspirou curto, passando a mão pela barba cheia de lama.

— Se tá acordado, já é boa notícia. Eu vou comprar o que a gente precisa. Ingredientes, ferramentas... e uma marreta nova.

Olhou para Josh, ainda alheio, com o olhar perdido.

— Só não vai gastar tudo em besteira, hein? — murmurou Nariz de Batata, já se afastando.

— Besteira é o que você come! — rebateu Cara de Prancha, virando-se. Antes de sair, lançou um olhar para Kilian e Maya. — Cuidem do Garrik. Ele é nossa mina de ouro.

Kilian assentiu, ajeitando a alça da bolsa.

— Vamos lá. Vamos ver o Garrik. Depois a gente espera vocês na taverna.

O grupo se separou. Cara de Prancha e Nariz de Batata tomaram caminhos opostos, enquanto Kilian, Maya e Josh seguiram rumo à Brasa Velha.

O silêncio pesava, cortado apenas pelos passos e pelos ruídos da rua. O cheiro de madeira encharcada se misturava ao aroma de comida.

Ao chegar, Maya hesitou. Ajustou a bolsa no ombro. O olhar de Kilian se demorou na curva do pescoço dela antes que ela empurrasse a porta.

O ranger da madeira soou alto no ambiente acolhedor, em contraste com o frio da rua.

Lá dentro, o movimento surpreendia. Algumas mesas ocupadas, vozes baixas, um anão servindo cerveja no balcão.

Garrik estava em um dos quartos, sentado numa cama improvisada. A aparência era desleixada, mas ele mantinha certa dignidade. Um pano sujo cobria os membros amputados. Mesmo assim, quando viu Kilian e Maya, o rosto se iluminou.

— Você tá bem melhor do que eu pensei — disse Kilian, tentando conter o sorriso.

— Esses monstros vão precisar de mais do que isso pra me derrubar — respondeu Garrik, com um sorriso forçado, apesar do desconforto. — E você? Como foi o resto da batalha depois que eu caí quase morto?

— Bem… nem eu sei direito. Mas a última coisa que lembro é o Josh acertando o wyrm. Que porrada! A marreta do Cara de Prancha explodiu.

Ele abriu as mãos, ainda sem acreditar.

— Não sobrou nem um pedacinho dela.

— Explodiu? Uma marreta mágica encantada com Albastrógeno? — Maya arqueou a sobrancelha, um sorriso irônico nos lábios. — Isso não soa esquisito? Sua história sempre tem um fim explosivo.

Kilian suspirou, incomodado.

— O quê? Tá dizendo que tô mentindo? Pergunta pro Nariz de Batata.

— Sei lá... — ela cruzou os braços. — Parece que você tá contando vantagem.

— Ei, eu não escolho o que acontece, tá? — ergueu a voz. — Só tô contando como foi!
Garrik riu, mas o riso virou tosse.

— Então foi graças a esse rapaz aí? — Apontou para Josh. — Como você encontrou essa raridade?

Kilian contou do Vale. Falou das fugas com paus de fogo, de Josh o perseguindo até os aeroplanos, atravessando naves no ar, e depois até a Vila das Grávidas. Acrescentou que ele não falava, mas por algum motivo não parava de segui-lo.

— Conveniente, não? — disse Maya, seca.

— É como eu disse ontem pro Nariz de Batata: descendentes dos féericos são seres misteriosos — comentou Garrik. — Esse rapaz mesmo... deve ter mais de cem anos.

Ele se voltou para Kilian.

— Mas e o wyrm?

— Deu certo. — Kilian apontou para um volume ao lado da entrada. — O Cara de Prancha me ensinou a extrair o Purgeno.

— E aquela bolsa de carne ali... é de onde vinha o sopro do wyrm. — A voz dele carregava um certo orgulho. — Achei que talvez você pudesse nos ajudar a descobrir o que fazer com isso.

Maya fez uma careta.

— Ele anda por aí com essa coisa podre, achando que presta pra algo — disse Maya, o desdém na voz.

— Foi o Cara de Prancha que sugeriu — Kilian respondeu, sem reagir. — Mas e você, Garrik? Quando volta? Eu queria continuar o treinamento.

— Ainda vai demorar. — Garrik afundou no travesseiro. — Estão mandando um emissário de Sabriz pra me levar até lá.

Respirou fundo. A voz saiu mais baixa:

— Os magos daqui não regeneram membros perdidos. Só os sacerdotes de Sabriz ainda têm esse poder divino.

O silêncio caiu no quarto.

— Mas não se preocupem. Vai ser mais rápido do que parece. — O sorriso dele voltou, frágil.

— Já até paguei por um novo gigante do gelo. Com esses purgenos, já temos sete.

— Sim, e agora com ele no grupo... — Kilian apontou para Josh. — Tudo fica mais fácil.

Garrik olhou para o garoto e depois para Kilian. Um sorriso discreto surgiu.

— E com você também. — O olhar fixou no amigo. — Você ficou muito mais forte desde a primeira vez que nos vimos. Tá começando a andar com as próprias pernas.

— Forte? — Maya bufou. — Vocês superestimam ele. Mal tem treinamento formal.

Garrik manteve o sorriso, mas os olhos se tornaram sérios.

— Treinamento ensina as bases. Mas é na prática que a gente aprende de verdade. É a batalha que muda as pessoas.

Kilian apenas assentiu. Seu olhar dividido entre o orgulho e a vergonha.

Nos dias seguintes, o grupo mergulhou no trabalho.

Cara de Prancha trouxe sangue fresco para extrair o Albastrógeno. Os outros cuidavam dos ossos, tentando isolar o Zig Resil. Fragmentos de Purgeno eram inspecionados um a um, com paciência tensa.

Cada movimento exigia precisão. Entre olhares cansados e conversas curtas, o progresso avançava — junto com o peso que crescia nos ombros de todos.

***

O calor sufocava a Superfície dos Beyaras; becos de poeira escondiam bardos que se moviam nas sombras. Dois deles encostaram uma mulher contra a parede. Sem falar, um deles cravou a semente no corpo dela. Ela apagou — o terror arrancado de sua mente como se alguém tivesse virado uma chave.

Nos salões disfarçados da camada dos Quangras o método era mais sutil. Entre taças de vinho e promessas, um bardo levou uma jovem a um canto escuro, sorriu, plantou a semente com mão precisa e a deixou adormecer, como se tivesse tido um sonho bom demais para lembrar.

No Recanto dos Adhunas o luxo não impedia o horror: uma moça riu, embriagada pela festa, sem perceber o toque do infiltrado. A semente foi depositada. Ela caiu num sono profundo. O homem partiu sem olhar para trás.

Aeroplanos rumavam à Vila das Grávidas. Nas docas, mulheres enfileiravam-se em silêncio — algumas choravam, outras encaravam o horizonte. Nenhuma sabia se daria à luz... ou se explodiria.

Doo observava tudo de longe, imóvel como uma sombra. Ao lado, um assecla o aguardava.

— Quanto mais rápido espalharmos essas sementes — disse ele, com um sorriso frio — mais depressa aquele velho me dá o que quero. Quando isso acontecer, os paladinos... e os Beyaras... vão pagar.

Um aeroplano decolou. O céu, já tingido de vermelho, engoliu a máquina.

— Jillar vai queimar.

 

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