Volume 2
Capítulo 64: Depois da Tempestade
— Devagar... Se rasgar, já era — disse Cara de Prancha, a voz baixa, firme. A água escorria pelo rosto imóvel, pingando sem parar.
Kilian puxou a glândula com cuidado. O troço pulsava num vermelho escuro, escorregando entre os dedos junto com a chuva. As mãos tremiam, o corpo inteiro pesava.
— Consegui — disse ele, ofegante. Os olhos fixos no que segurava.
Cara de Prancha soltou um ruído rouco. — Guarda logo isso. Cobre bem antes que reaja ao frio.
Nariz de Batata apareceu com um pano grosso e estendeu sem falar. Kilian enrolou a glândula e amarrou o estojo com pressa, sentindo os dedos ainda trêmulos.
— O Albastrógeno ainda tá no tronco? — perguntou Nariz de Batata, enquanto amarrava as tiras com força.
— Tá. E o Zig Resil também. — Cara de Prancha olhava para a carcaça, a mandíbula aberta e a água deslizando sem parar. — Mas não hoje.
Nariz de Batata suspirou, puxando o capuz sobre a cabeça. — Amanhã o Garrik volta. Aí conseguimos terminar tudo.
— Que venha. — A boca de Cara de Prancha crispou. — Já não aguento mais essa merda de casulo.
Kilian ficou parado, o pano ainda pingando nas mãos. A glândula latejava por dentro, quente demais pro frio ao redor. As mãos tremiam. O corpo inteiro parecia mais leve, mas não descansado.
Josh seguia deitado, coberto até o pescoço. Nem se mexia. Só a respiração leve indicava que ainda estava lá.
— Isso aqui serve pra quê, exatamente? — perguntou Kilian, sem tirar os olhos do embrulho.
— Sem isso, os corações não soltam o Purgeno — respondeu Cara de Prancha, a voz pastosa. — É o que liga tudo por dentro. Como se fosse um sangue que ainda vive.
Kilian assentiu. Apertou o pano contra o peito e se afastou. Procurou abrigo e encontrou um canto seco sob uma saliência de pedra, onde Josh ainda estava enrolado no manto que Nariz de Batata deixara.
Sentou devagar. O corpo inteiro relaxou de uma vez. A chuva caía em volta, pesada. O barulho escondia os próprios pensamentos.
Nariz de Batata surgiu sem dizer nada, com um punhado de tiras escuras numa das mãos e a outra já no fogareiro. A gordura estalou assim que tocou o metal quente, soltando um cheiro forte, entre carne seca e raiz amarga.
— Vai sair um ensopado meio nojento, mas vai esquentar — murmurou, mexendo com a colher de pau.
Um fio de fumaça serpenteava pro alto, levando o cheiro pelo abrigo inteiro. A água borbulhava com lentidão, engrossando o caldo. Ele jogou mais um punhado de raízes secas na panela.
— Isso é de dentro do bicho? — perguntou Kilian.
— Parte sim. Parte era sobra do jantar de ontem. — Nariz de Batata deu de ombros. — No fim tudo vira a mesma coisa no estômago.
Kilian olhava fixo pra escuridão.
— A extração do Zig Resil e do Albastrógeno do wyrm... é igual à do gigante?
Cara de Prancha grunhiu e moveu os olhos na direção dele.
— Não. O wyrm é diferente. Esses condutores são mais fáceis de tirar. — Uma pausa curta. — Têm mais poder que os dos gigantes. Então cooperam mais.
Kilian deu uma risada curta.
— E o seu livro... você tem tudo lá, né?
Nariz de Batata lançou um olhar pro anão, curioso.
Cara de Prancha suspirou.
— Tá tudo lá. O que aprendi sobre condutores. Já me salvou mais de uma vez. — Mediu Kilian com os olhos. — Tá querendo ler, é isso?
— Se você deixar...
— Já até sei a resposta — murmurou Nariz de Batata.
— Pode copiar, se quiser — disse Cara de Prancha, sem a rispidez de sempre. — A gente não vai ficar junto pra sempre. Isso pode te ajudar quando precisar.
Antes que Kilian dissesse qualquer coisa, Nariz de Batata interrompeu:
— Come logo, garoto. Tá com cara de quem vai cair duro.
Entregou o prato. Kilian agradeceu com a cabeça e começou a comer. O calor da comida subiu pro rosto e desceu pelos braços. A tensão soltava devagar.
Cara de Prancha observava os dois. Os olhos afundados. A boca imóvel, entre fechada e exausta.
— E o descendente dos féericos? — perguntou.
Kilian olhou pro lado. Josh continuava coberto, imóvel.
— Só conseguimos por causa dele.
— Verdade — disse Nariz de Batata. — Mas como foi que tu achou esse cara?
Kilian começou a contar. Nariz de Batata parou de mexer nas panelas e ficou ouvindo. O fogareiro estalava baixo. A chuva batia nas pedras como se marcasse o tempo da história.
Quando ele terminou, Cara de Prancha quebrou o silêncio:
— Esse negócio de grávida e berserker ainda vai dar merda.
— Nisso eu concordo — disse Nariz de Batata. — Ainda bem que tu saiu inteiro, garoto.
Cara de Prancha olhou pro companheiro e ergueu o queixo.
— E quem vai ficar de vigia?
Nariz de Batata arqueou a sobrancelha, o sorriso voltando.
— Você. Foi o que menos lutou.
Cara de Prancha resmungou, balançando a cabeça.
— Menos lutei? E você que ficou pra lá e pra cá com esses cotocos de perna, fugindo do bicho. Teve sorte desse frango ter salvo teu traseiro, seu anão mequetrefe.
A chuva engrossava. Batia nas pedras com força. Mas as provocações seguiram por mais um tempo, enquanto Kilian comia em silêncio.
— Eu fico de vigia, se quiserem — disse ele.
Cara de Prancha bufou, lançando um olhar irônico pro próprio corpo petrificado.
— Pode deixar. Vou passar a noite olhando pro céu... e cuidando das costas de vocês.
Choveu a noite inteira.
A terra virou lama.
Quando o sol apareceu, o chão seguia encharcado. Mas o céu estava limpo.
Kilian se levantou. Sacudiu uma peça de roupa molhada, que estava num varal improvisado. Olhou para Cara de Prancha, ainda preso.
— Agora que me recuperei... vamos te tirar daí.
Estendeu as mãos. Um brilho fraco passou pelos dedos. A lama começou a se dissolver.
Cara de Prancha grunhiu. Quebrou o restante da crosta com os braços.
— Já era hora.
Seguiram até o corpo do wyrm.
As escamas apagadas ainda refletiam a luz do sol. Kilian pegou as ferramentas. Cara de Prancha começou a separar os ossos.
Kilian olhava em silêncio, até falar:
— E o sopro dele? Nunca vi uma lama endurecer tão rápido.
Cara de Prancha cuspiu no chão.
— Deve ser mágica. Daquelas que condensa com o ar... Não entendo muito disso.
Kilian se inclinou, observando as asas.
— E de onde será que vem?
— Deve ter uma bolsa entre as asas, como os dragões. Bem ali. — Apontou com o queixo.
— A gente pode ver depois?
Cara de Prancha levantou uma sobrancelha.
— Claro. Mas vai ter que ajudar.
Enquanto voltavam ao trabalho, um movimento chamou atenção.
Kilian olhou. Josh se aproximava. O cabelo verde-oliva brilhava com a luz.
— Josh! — sorriu, aliviado.
Cara de Prancha deu uma olhada rápida.
— Parece que tem mais vida do que aparenta.
Logo atrás, Maya surgiu. Os olhos atentos.
Kilian travou a mandíbula, mas não falou nada.
— Como está o Garrik? — perguntou, direto.
— Não muito bem. Deixei ele na cidade e voltei só pra avisar — respondeu Maya, com a voz tensa.
Kilian e Cara de Prancha trocaram olhares.
Nada foi dito. Mas já sabiam o que aquilo significava.
— Vamos acabar isso e voltar pra Jillar — disse Kilian.
Cara de Prancha suspirou, coçando a barba suja de lama.
— Melhor guardar tudo e cair fora. — Lançou um olhar para Kilian. — Vai querer arrancar a bolsa de lama do wyrm?
Kilian apertou o cabo da faca, encarando o cadáver estirado à frente.
— E como eu faço isso?
O anão indicou com a lâmina.
— Se essa tal bolsa existe, deve tá entre os pulmões, embaixo das asas. Tenta abrir com a picareta. Se não der, entra por baixo. Vai ter que abrir a barriga até chegar nela.
Kilian pegou a picareta e torceu o nariz quando o cheiro bateu. A carniça começava a fermentar.
Cara de Prancha deu meia-volta e foi embora sem esperar resposta.
Josh estava num canto, brincando com um escorpião que caminhava entre os seus dedos.
Kilian subiu na carcaça, ferramentas em mãos. Maya vigiava de longe, braços cruzados, sem esconder o julgamento.
— Vai mesmo tentar sozinho? — disse ela.
— "Vai mesmo tentar sozinho?" — Kilian imitou, carregando no tom anasalado.
Maya franziu o cenho. Se aproximou.
— Eu não suporto essas suas piadinhas.
Ele riu. Fincou a picareta nas costas do bicho. O golpe soou seco. Tentou de novo, com mais força. Nem arranhou.
Soltou um suspiro. Largou a ferramenta.
— Nada feito. Vou por baixo.
Puxou a faca. Se abaixou perto do ventre. Rasgou a pele espessa. O fedor veio de uma vez, quente, podre.
Maya se aproximou em silêncio.
Ele abriu mais espaço. Afastou as vísceras. Jogou um pedaço de fígado longe. O sangue espirrou até nos pés dela.
— Gostando da vista? — disse, sem levantar os olhos.
— Nem todo mundo tem mania de brincar com coisa nojenta — respondeu Maya, torcendo o nariz.
Ele enfiou os braços até o cotovelo. Remexeu por dentro.
— Tem certeza? Você tá aí parada, só olhando.
Ela se agachou ao lado. Os joelhos quase se tocaram.
— Eu não sou uma porca do Vale do Suplício, igual você.
Kilian afastou os pulmões, abrindo caminho com cuidado.
— Tá parecendo ansiosa — murmurou lá de dentro.
Maya não respondeu. Ficou travada.
Um estalo molhado preencheu o silêncio. Kilian puxou a bolsa de lama. O líquido escorreu até os cotovelos.
Saiu de dentro do wyrm ofegando. As costas encharcadas. O rosto vermelho do esforço.
Virou-se pra ela com o peso nos braços.
— Tá aí. Mais um trabalho bem feito, né?
Maya olhou para a bolsa suja de sangue. Depois para ele. As mãos cruzadas. O rosto firme. Nenhum tremor nos olhos, mas eles demoravam demais pra desviar.
— Da próxima vez, tenta não se exibir tanto. Você não é tudo isso que pensa ser.
Kilian se aproximou devagar.
— Tá parecendo que você tá com inveja.
Ela ergueu uma sobrancelha, mas o sorriso não chegou inteiro.
— Inveja, de você? Vai sonhando.
Ficaram em silêncio. O chão encharcado soltava vapor sob o sol, como se a chuva ainda pairasse no ar.
Um estalo seco soou ao longe, como se a floresta soltasse um aviso.
Maya tirou a luva e passou a mão pela testa. O cabelo grudava no rosto. Ela não disse nada.
Kilian permaneceu em silêncio..
— Não vai me agradecer por ontem? — perguntou ele, sem ironia.
Maya olhou por cima do ombro, mas não recuou.
— Nem que fôssemos descendentes dos féericos e vivêssemos dez mil anos.
Ela se virou e seguiu pela trilha.
Kilian esperou um segundo antes de acompanhá-la.
Com a bolsa de lama ensanguentada nas mãos, Kilian olhou para Josh. O garoto soltou o escorpião, que escorregou pelos dedos e sumiu entre as folhas molhadas. Sem dizer nada, descendente dos féericos o seguiu com passos leves, as orelhas pontudas balançando a cada movimento.
A trilha estava encharcada. Cada passo afundava no lodo. A chuva da noite anterior deixara a encosta escorregadia, e o cheiro de terra molhada subia forte das raízes.
Acima, o sol recém-aparecido passava entre as copas, pintando o chão com luz dourada.
Kilian caminhava devagar, os ombros puxados pelo peso da bolsa. Mais à frente, Maya seguia firme, os olhos atentos à trilha, o cabelo colado na nuca.
De vez em quando ela olhava por cima do ombro.
De vez em quando ele também.
Josh ficou pra trás. Parou perto de um tronco coberto de limo. Mexia em algo.
Maya parou de repente, já perto da curva.
Ela se virou.
O olhar firme.
— Vou te falar uma coisa...
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