Volume 2
Capítulo 63: Coisas que se aprende no estômago de um Wyrm
Josh se mexeu.
Primeiro os dedos. Depois o braço, tremendo, tentando levantar o corpo.
Kilian prendeu a respiração. Nariz de Batata não piscava.
A chuva batia pesada na lona da tenda.
— Ele tá acordando... — murmurou Kilian.
Josh abriu os olhos.
— E agora? — Nariz de Batata deu um passo pra trás. — E se ele vier daquele jeito pra cima?
Kilian não respondeu. Só observava. As mãos ainda tremiam.
Josh piscou devagar. Depois girou os olhos pela tenda, sem foco.
— Kilian, se esse cara nos atacar daquele jeito... — Nariz de Batata rosnou. — Eu não sei se vamos ter chances.
Josh ficou imóvel. O peito subia e descia devagar. Os dedos batucaram o chão, no mesmo ritmo de sempre.
Kilian soltou o ar. — É ele.
— Tem certeza?
— Tá igual antes... tá calmo.
Josh virou o rosto. Encostou a bochecha no ombro. Continuava sem dizer nada.
Nariz de Batata esfregou a testa, nervoso. — Filho da mãe... achei que ia morrer agora.
Kilian riu, quase sem voz. — Nem parece que matou o wyrm sozinho.
— Tava com os olhos brilhando que nem uma besta dos inferno. Agora tá aí, parecendo que vai dormir de novo.
Josh fechou os olhos. O tamborilar dos dedos continuou.
— Tá... tá tudo certo — disse Kilian. — Ele voltou.
A chuva escorria pelas bordas da lona quando uma voz veio rouca, de trás.
— Acabaram a frescura?
Os dois se viraram. Cara de Prancha, imóvel como uma estátua, só mexia a boca. Os olhos fincados nos dois.
— Vão tirar esses coração ou vão deixar apodrecer e estragar tudo?
— Vai à merda — disse Nariz de Batata, enquanto Kilian se desculpava e voltava para o trabalho.
Kilian limpou as mãos numa tira de pano e voltou pro cadáver.
O silêncio entre os três era denso. Só a chuva quebrava o silencio.
Josh continuava deitado no canto, olhos fechados, dedos batucando o chão como se nada tivesse acontecido.
— Certo... — Kilian pegou a faca com mais firmeza. — Vamos terminar isso.
Cara de Prancha não respondeu. Só encarava os corações.
A lâmina brilhou de novo quando cortou o tecido grosso.
A tensão voltava, mas agora era conhecida. Controlável.
— Achei! — exclamou Kilian, limpando o suor da testa com o antebraço.
— Agora vai nas membranas, devagar. Não pode furar os corações — disse Cara de Prancha, sem tirar os olhos da mesa. — Cada um tá ligado no outro, vai seguir o fluxo.
Ele moveu o queixo na direção das facas.
— A menor. Aquela com a pontinha dourada. Encantada pra manter o fluxo mágico. Se usar outra, pode estourar tudo.
Kilian trocou de faca mais uma vez, pegando a lâmina encantada.
Ele a deslizou com cuidado pelas membranas, cortando as conexões entre os corações sem perder o controle.
Era como dissecar uma única entidade, onde cada parte estava profundamente entrelaçada.
Cada corte revelava mais dos corações, que agora pareciam pulsar quase em uníssono.
— Tá funcionando... mas, tem que ir mais fundo, né? — Kilian perguntou, com um tom de hesitação.
— Tá perfeito, garoto. Só vai com calma agora — disse Cara de Prancha, a voz cheia de incentivo. — Você já pegou o jeito da coisa.
A chuva continuava a bater firme sobre a tenda improvisada, abafando os sons das folhas sacudidas pelo vento.
Cada gota parecia se fundir ao ritmo lento e irregular das batidas dos corações do wyrm, quase inaudíveis, como se o próprio tempo estivesse se esvaindo com elas.
Cara de Prancha lançava olhares sérios para os corações conectados, pulsando de forma descompassada, ameaçando parar a qualquer instante.
— Tá bom, garoto. — A voz dele veio firme. — Daqui pra frente, qualquer erro... a gente perde o Purgeno.
Ele respirou curto.
— E tudo vai pra vala.
O olhar continuava em Kilian.
— Concentra. E escuta o que vou dizer.
Kilian apertou os lábios, respirando fundo para acalmar o aperto no estômago.
Seus ombros tensos denunciavam o peso da responsabilidade.
— Nariz de Batata, seu anão de merda! — Cara de Prancha gritou, cortando o silêncio com sua voz rouca.
Mas antes que pudesse continuar, o outro anão apareceu apressado, segurando uma grande panela de ferro entre os braços musculosos.
— Pensei que um verme da carniça tinha te devorado, seu desgraçado. — O olhar de Cara de Prancha era cínico, os dentes cerrados, mas seus olhos mostravam a urgência de quem sabia que o tempo estava se esgotando.
Nariz de Batata riu, colocando a panela sobre o fogareiro improvisado, onde as chamas começavam a aquecer o metal.
— Merda é você, Cara de Prancha. — Nariz de Batata ria enquanto mexia na panela. — Desse jeito, tá mais pra um cagalhão petrificado.
Esfregou a mão na calça, ainda rindo.
Cara de Prancha bufou.
— Taca o tórax de mariposa cauda de dragão primeiro. — Apontou com o queixo para os corações. — O ferrão estabiliza o calor.
— Tórax de mariposa cauda de dragão...? — Kilian ajeitou o peso dos corações. Baixou devagar dentro da panela.
O cheiro subiu de uma vez.
Nariz de Batata fuçou a caixa de couro.
— Aqui. — Jogou o ferrão.
O estalo foi alto. Um vapor esverdeado subiu, denso.
Kilian recuou meio passo.
Nariz de Batata sorriu.
— Igualzinho teu bafo, Cara de Prancha.
— Se torrar, vai feder igual tua cueca, seu bosta! — rosnou a estátua.
Kilian não riu. Só olhava a panela.
Os corações batiam devagar. Cada vez mais fracos.
— Agora escuta. — Cara de Prancha nem piscava. — Eles vão endurecer rápido. Se errar o tempo... o Purgeno vira pó.
Kilian assentiu.
O vapor ficava mais espesso.
— Excremento de Chuckre. Tá na bolsa verde. — A voz saiu quase rouca.
Nariz de Batata apontou com o queixo.
— Ali. Pegamos esses bichos perto da Maya. Tinha um portal... selva que engolia luz. Tinha bicho lá que parecia árvore.
Kilian abriu a bolsa.
Fez careta.
Despejou devagar.
O fedor se espalhou.
Nariz de Batata tentou recuar o rosto.
— Devagar, garoto. Devagar...
Kilian mexia com a mão firme, a colher de ferro girando sem parar. O líquido começou a espumar e logo escureceu, um cheiro acre subindo como fumaça de carvão queimado. Cada volta parecia mais pesada, como se a própria mistura resistisse ao movimento.
— Isso... — murmurou Cara de Prancha. — Quando brilhar igual ouro, joga as tripas. Só então.
— As de Raktaas, não é?
— É. — Nariz de Batata entregou o vidro.
Dentro, carne mole, gelatinosa.
— De onde vem isso?
— Do mar. — respondeu Cara de Prancha. — Me arrancaram duzentos e setenta moedas por essa merda.
Kilian segurava o frasco. Esperava.
O líquido quase preto.
Mais um segundo.
— Abaixa esse fogo, imbecil! — gritou Cara de Prancha.
Nariz de Batata mexia nos controles, rindo entre os dentes.
— Eu sei o que tô fazendo, seu cagalhão de gigante da montanha! — rosnou de volta.
Kilian seguia com os olhos grudados na mistura.
O brilho dourado se formava devagar.
Os corações batiam menos.
Quase parando.
O brilho apareceu.
Kilian jogou as tripas.
O som chiou. O fedor dobrou.
Ele aguentou.
— Beleza, garoto. Agora é a parte crítica. — Cara de Prancha não piscava. — Quando essa gororoba ficar pronta, você esmaga os patrulhinhos junto com os miolos de Shahuagim sambrehiano. Tem que ser rápido. Senão seca.
— Certo. — Kilian mexia a panela. — Me ajuda aí, Nariz?
O anão já ia pegar o resto.
Entregou dois saquinhos.
— Esses patrulhinhos são uma praga na nossa terra...
— Tá, tá! — grunhiu Cara de Prancha. — Cuida da panela, Kilian. Deixa esse anão falar sozinho.
Kilian respirou fundo.
Pegou os pedaços dos construtos.
Pegou os miolos viscosos.
Os corações... quase mortos.
— Tô quase lá, Cara de Prancha! — gritou.
A voz saiu tensa.
Suor escorrendo.
O tempo apertando.
— Calma! Ainda não! Espera o ponto certo!
O líquido precisa brilhar, mas não ferver.
— Vê isso? Quando ficar parecido com ouro derretido... é a hora! — Cara de Prancha indicou com o queixo.
Kilian não tirava os olhos.
O brilho metálico surgiu.
Fino. Instável.
— Agora! — berrou Cara de Prancha.
Kilian esmagou os patrulhinhos.
Jogou os miolos.
Mexeu com força.
A panela borbulhou.
Furiosa.
Nariz de Batata nem piscava.
— Vai logo, garoto! — gritou o anão.
O cheiro era sufocante.
O calor, insuportável.
O ar pesava.
Os corações do wyrm bateram uma última vez.
Longa.
Funda.
Depois, nada.
Kilian segurou o fôlego.
Soltou devagar.
Os olhos ainda presos na panela.
— Conseguimos? — sussurrou.
— Pega o livro na bolsa, rápido! — ordenou Cara de Prancha, com a voz carregada de urgência, os olhos fixos em Kilian.
Sem hesitar, Kilian correu até uma pequena bolsa de couro ao lado e, com as mãos trêmulas, retirou um grosso volume de páginas amareladas. Era pesado, e o couro que o cobria estava desgastado, como se tivesse passado por inúmeras mãos ao longo dos anos.
— Página cento e setenta e seis — disse o anão, os olhos praticamente saltando, a única parte do corpo que ainda conseguia mover, preso naquela lama calcificada. — Tem um encantamento. Recita logo antes que tudo vá pro saco!
Kilian folheava freneticamente o livro. As páginas passavam com um leve chiado até que seus olhos encontraram a página marcada. Cinco palavras, numa língua que ele mal conhecia, estavam escritas com letras retorcidas e sombrias.
Ele respirou fundo, sentindo o suor escorrer pela testa. Então recitou, em voz alta:
— Firzah... Dorim... Laskreth... Othran... Zethrú! — As palavras saíram hesitantes, mas logo preencheram o ar ao redor, como se tivessem vida própria.
A atmosfera ficou estranha, pesada. Um silêncio quase insuportável se espalhou pela tenda. As batidas dos corações do wyrm, antes fracas, agora soavam distantes e irregulares.
Cara de Prancha soltou um longo suspiro, os olhos cansados.
— Agora... só resta esperar, garoto…
Nariz de Batata se aproximou, carregando um punhado de pedras matrizes, e jogou tudo na panela sem cerimônia.
— Por que não deixou o garoto fazer isso, seu cabeça de bigorna?
Cara de Prancha grunhiu, franzindo a testa.
Nariz de Batata sorriu, provocativo:
— Bobagem! Era só umas pedra matriz. Não vai ser por isso que ele vai deixar de aprender.
— Bobagem? — bufou o anão, os olhos semicerrados. — Tu nem sabe a diferença entre uma pedra de Purgeno e o carvão que usas pra cozinhar! Deixa o garoto comigo e vai fazer tua sopa de tijolo.
— Pelo menos não fui eu que virei cocô de dragão...
Cara de Prancha soltou um resmungo, mas um leve sorriso surgiu no canto da boca.
— Esse foi o mais difícil até agora. Mas ainda tem outro — murmurou, com a voz carregada de cansaço. — Fica na cabeça. Pequeno, bem escondido... mais traiçoeiro que qualquer outra parte do bicho. Corta com calma e muita precisão.
Kilian escalou até a cabeça do wyrm. A faca escorregava sem resultado sobre as escamas espessas. Cada golpe parecia inútil.
Bufou, limpando o suor com o antebraço, os olhos varrendo a superfície sem encontrar nada.
— Não tô conseguindo quebrar o osso aqui, Cara de Prancha — resmungou, largando a faca ao lado.
— Vai por dentro então. Usa a talhadeira no céu da boca — disse o anão. — Mas cuidado. O osso aí também é denso. Vai precisar de força.
Enquanto Kilian se preparava, a chuva engrossou. O som das gotas pesadas batendo no corpo do wyrm ecoava por toda parte, transformando o solo em lama escorregadia.
Nariz de Batata, percebendo o aguaceiro, apressou-se em levar Josh para um lugar seco. Cobriu o garoto com um manto de pele grossa, protegendo-o da tempestade.
Kilian franziu o cenho diante da boca aberta do wyrm, uma caverna de dentes pontiagudos que ainda exalavam perigo. Pegou da bolsa um aparato mecânico e o posicionou entre os dentes da criatura. Empurrou com firmeza até ouvir um estalo surdo — a mandíbula deslocada.
Com a boca do wyrm completamente aberta, Kilian entrou na cavidade. O cheiro de podridão misturado ao ar úmido tornava a respiração pesada. As gotas de chuva que deslizavam pela garganta da criatura pingavam direto nele, encharcando tudo.
Pegou a talhadeira e o martelo. Sentiu o peso nas mãos cansadas e posicionou a ferramenta no céu da boca. A mandíbula imóvel parecia apertar o ar.
— Mais força, garoto! Esse osso é mais duro que pedra! — gritou Cara de Prancha, a voz competindo com a chuva.
Kilian bufou, levantou o martelo e golpeou com força. O osso cedeu um pouco. Uma fissura se abriu.
Suor e chuva escorriam por seu rosto. Os braços falhavam a cada novo golpe. Finalmente, o osso partiu, revelando uma abertura suficiente.
— Agora com calma. A próxima camada é mais fina — avisou Cara de Prancha, os olhos fixos, enquanto a água se acumulava perto da boca petrificada.
Kilian largou a talhadeira e enfiou os dedos na abertura. A carne estava quente, viva. A água que escorria por cima era fria, e os dois contrastes se misturavam na pele encharcada.
Tateou mais fundo, devagar. Sentiu algo macio, arredondado, pulsando sob a ponta dos dedos. Por um segundo, tudo ali pareceu se mover.
Recuou a mão de repente.
— Tem coisa viva aqui...
— O quê?
— Isso... tá se mexendo.
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