Volume 2
Capítulo 62: Onde batem os corações errados
Ele balançou a cabeça, mas havia algo mais em seus olhos, como se também já tivesse pensado nisso antes.
— Tá bom, vou te dizer. Na nossa terra... — Ele deu uma puxada forte no mecanismo. — A posição de um anão na sociedade é definida pela cor natural da barba.
O tronco da árvore estalou mais uma vez, mais alto, e Kilian instintivamente segurou a corrente com mais força, como se pudesse evitar o pior apenas com a vontade.
— Como assim, cor da barba? — Kilian perguntou, tentando manter o foco na conversa enquanto o wyrm subia lentamente.
— Vermelha, preta, dourada... isso define quem você vai ser. Os de barba vermelha são os mais respeitados. Os de barba negra... como o Cara de Prancha... são os mais desprezados.
Nariz de Batata continuava, o esforço visível no rosto.
— É uma merda, mas é assim que as coisas funcionam lá.
— E você? — Kilian olhou para o anão, curioso.
— Eu? Eu não ligo pra isso. É por isso que raspei minha barba. — Nariz de Batata soltou uma risada baixa. — Mas o Cara de Prancha, esse sim, liga. Quer provar que, mesmo com barba negra, pode ser mais do que a sociedade diz.
A árvore estalou novamente. Dessa vez os dois pararam por um segundo, encarando o tronco com preocupação.
— Tá quase! Não para agora! — disse Nariz de Batata, os olhos fixos no wyrm, que já estava quase no topo da encosta. Voltaram a puxar com força renovada.
— E o que isso tem a ver comigo? — Kilian perguntou, o suor se misturando com a chuva na testa.
— Não sei o que se passa naquela cabeça de merda... — Nariz de Batata grunhiu, puxando com mais força. — Mas acho que, quando ele te viu magricelo, com cara de quem tombava com um espirro de goblin... viu alguém como ele. Alguém querendo nadar contra a maré.
Kilian franziu o cenho, esforço e curiosidade misturados no olhar.
— Nadar contra a maré…
— Deve ser isso. Eu mesmo achei que você ia virar patê de gigante. Mas ele teve...
Nariz de Batata concluiu com um último puxão no mecanismo. O corpo do wyrm finalmente chegou ao topo, mas a árvore estalou com um som tão alto que os dois deram um passo para trás.
— Droga... será que vai aguentar? — Kilian perguntou, olhando para o tronco que balançava sob a pressão.
Nariz de Batata deu um sorriso torto, os olhos brilhando com satisfação quando a cabeça do wyrm, deslocada por conta do ferro atravessado no pescoço, tocou a árvore.
— Vai ter que aguentar, rapaz.
***
Camadriel saiu do beco. O som firme das botas cortou o murmúrio da multidão nas ruas poeirentas de Jillar. O vento seco roçava sua pele, trazendo o gosto metálico da poeira.
À frente, o aeroplano da Vila das Grávidas aguardava. Sob um lençol branco, repousava o corpo de Evelene. Ao lado, um homem de ombros tombados observava em silêncio.
Camadriel se aproximou. Seus olhos se cruzaram por um instante.
— Você é o pai de Evelene? — perguntou, a voz seca.
O homem ergueu os olhos, duros.
— Quem quer saber?
— Sou Camadriel. — A resposta saiu baixa. — Conheci sua filha.
O homem cerrou os punhos.
— Conheceu? — A voz soou amarga. — Você devia ter sido mais do que isso. Devia ter assumido a responsabilidade. Mas sumiu. Engravidou minha filha e deixou que ela fosse mandada pra aquela maldita vila!
Camadriel não respondeu. Ficou parado. o rosto tenso, o riso que escapou mais parecia um espasmo involuntário.
— Eu amava Evelene... — murmurou. Os dedos cerrados ao lado do corpo. — Mas eu não tava pronto pra ter um filho. E vocês? Estavam?
O tom mudou. Acusador.
— Vocês e essa ganância. Acham que podem sugar essa terra até o osso e ficar por isso mesmo? Não é à toa que os druidas se voltaram contra vocês. Isso é culpa de vocês. Do lucro sujo de vocês!
O pai de Evelene avançou, a raiva crescendo nos passos.
— Não estava pronto? — gritou. — Foi um covarde! Nem provar que é homem conseguiu!
Camadriel vacilou, mas não recuou. A multidão sussurrava. A tensão crescia. Sem aviso, o punho dele acertou o rosto do homem.
O burburinho cessou.
O pai de Evelene cambaleou. Tentou se levantar. Outro soco o derrubou de novo. A multidão recuou. Silêncio. Ninguém se mexeu.
Do meio das pessoas, uma silhueta metálica abriu caminho. Um Quangra. O corpo refletia as luzes do fim da tarde. Com um movimento seco, empurrou Camadriel para o lado. O bardo rolou no chão, engolido pela poeira.
— Iniciar violência viola as leis de Jillar. Insista e será levado aos paladinos. — A voz reverberou, seca.
Camadriel tentou se erguer, coberto de poeira e sangue. O olhar de fúria encontrou o metal frio.
— Não interfira! — rugiu Camadriel.
Sacou uma adaga. Correu em direção ao homem caído.
O braço do Quangra se abriu. No lugar da mão, surgiram pequenos tubos carregados com paus de fogo primo.
Camadriel avançou.
Os disparos vieram em sequência. A energia mágica perfurou sua carne e cauterizou cada ferida. O corpo caiu.
Os olhos, antes cheios de fúria, apagaram.
A multidão correu, dispersa em gritos. O corpo ficou ali, estendido.
No meio da confusão, um jovem se esgueirou pelas vielas de Jillar. Corria. Os pés batendo contra o chão até alcançar o pátio de uma mansão abandonada. Um teatro em ruínas o recebia. Uma placa pendia da entrada: “Refúgio para Artistas.”
Lá dentro, gente pintava. Uns riam, nus, jogados em cadeiras. Outros murmuravam em volta de velas.
O jovem entrou, o rosto pálido.
— Camadriel foi morto! — gritou.
As conversas cessaram.
— O quê? — Um homem desgrenhado se levantou. — Como assim, morto?
— Um Quangra. Matou ele na rua. Disseram que ele era um druida.
O burburinho voltou, mais alto.
— Malditos!
— Vamos pichar a cidade!
— Vamos destruir o prédio dos Quangras!
— Vamos fazer uma passeata! Vamos botar o povo contra eles!
A confusão crescia. Vozes se atropelavam.
Uma batida interrompeu tudo. A porta se fechou com estrondo.
Um homem alto entrou. Pele bronzeada. Os olhos escuros varreram o salão. Caminhou até a mesa com passos pesados. Fez uma reverência teatral.
— Meu nome é Doo. Ex-empreendedor do Vale do Suplício. Sabem por quê?
Olhares cruzaram o salão. Expressões desconfiadas.
Doo jogou um saco sobre a mesa. Sementes rolaram.
— Sementes para grávidas explosivas... — murmurou alguém.
Doo sorriu.
— Exato. — O sorriso se alargou. — Vamos usá-las contra quem nos explora. Contra os que cospem em nós com seus narizes brancos erguidos. Essas sementes já provaram do que são capazes. Agora imaginem... a gente enfiando dentro das filhas e esposas deles.
Silêncio.
O ódio encontrou um foco.
***
— Pronto! — Nariz de Batata ergueu as mãos sujas de lama como se tivesse vencido uma guerra.
— Era o mínimo que se podia esperar, seu incompetente! — Cara de Prancha resmungou, movendo os olhos na direção deles. — Escuta aqui, garoto: crava mais dois ferros. Mais pra trás. Vai conseguir virar ele e tirar os corações pra botar na panela.
Kilian manteve o olhar no colosso à frente. O corpo serpentino do wyrm estava parcialmente soterrado, coberto de lama. Respirou fundo. Os olhos varriam a criatura, procurando o ponto certo.
— Dois ferros... mais pra trás? — murmurou.
Cara de Prancha soltou um som entre o riso e o desprezo.
— Isso. Amarra as correntes, vira as escamas inferiores. Vai ser mais fácil tirar.
Kilian apertou o ferro cravado na mão. Hesitou.
— Você disse... os corações?
Nariz de Batata gargalhou, áspero.
— Sim, Kilian. Wyrms têm cinco corações. Um ligado no outro. — Ele se virou para Cara de Prancha com um sorriso atravessado. — Diferente de uns por aí, que mal têm um pra bombear aquela coisa.
Cara de Prancha bufou. Os olhos cravados no companheiro como se fosse possível matá-lo no olhar.
— Mais pra trás, entre as escamas maiores. — A voz dele cortava como lâmina. — Vai ter que afundar bem. Os corações estão sob a segunda camada de osso. E tem que ser rápido. Precisamos deles ainda batendo. Nem que seja só um pouquinho.
Kilian apenas concordou, conjurando as mãos etéreas com expressão cansada.
— Vamos logo, Nariz de Batata. Minha magia tá no limite. Melhor fazer tudo de uma vez e descansar depois.
Nariz de Batata se aproximou com o martelo.
— Aqui. Segura firme. Depois ainda tenho que armar o acampamento e preparar a comida.
Kilian respirou fundo. As mãos etéreas firmaram o ferro. Nariz de Batata levantou o martelo e grunhiu antes de bater.
O som metálico ricocheteou pela encosta. O ferro começou a ceder entre as escamas grossas. Kilian apertou as mãos mágicas, sustentando a haste. Nariz de Batata continuava, o suor escorrendo no rosto.
— Mais fundo! — disse, levantando o martelo outra vez.
Outro golpe certeiro.
Assim que o primeiro ferro ficou firme, Kilian pegou o segundo. Repetiram o processo. Logo, os dois estavam enfiados até o limite. Nariz de Batata largou o martelo e puxou as correntes grossas.
— Agora amarra isso nas árvores. — Entregou uma delas para Kilian.
Kilian assentiu. Caminhou até três árvores grandes e prendeu as correntes com cuidado. A lama cobria os tornozelos. Nariz de Batata testou as anilhas com puxões secos.
— Bora. — Pegou o aparato de correntes e roldanas que tinham usado antes.
Kilian começou a puxar. O peso monstruoso do wyrm oferecia resistência, mas as correntes estalavam, esticando centímetro por centímetro.
O corpo da criatura começou a virar. Escamas grossas se erguiam. O ventre se revelava — mais mole, mais vulnerável.
— Quase lá... — Nariz de Batata observava de perto. — Aí! Pronto!
Voltaram para perto do colosso. A lama sugava os passos. Por um momento, só o som da respiração.
Os olhos de Kilian caíram sobre Josh, ainda imóvel no chão.
Nenhum dos dois disse nada. O silêncio parecia pesar.
— Será que ele tá ainda daquele jeito?
— Não é hora pra isso. — Nariz de Batata cortou o silêncio, desviando o olhar. — Temos trabalho.
Cara de Prancha suspirou fundo, forçando os olhos e o nariz para se mover.
— Garoto, pega as facas pra escamas na minha bolsa.
Kilian se aproximou da bolsa. Revirou os itens sujos e pesados com dificuldade. Nariz de Batata, percebendo, se abaixou ao lado e puxou de uma bolsinha um caixote largo, de madeira escura. Tinha fechos de metal e um cheiro estranho, entre sangue seco e ferrugem.
— Aí estão as ferramentas. — Disse ele, abrindo o caixote com cuidado.
Dentro, facas e espadas de diferentes tamanhos e formatos. Todas afiadas, algumas com marcas de uso intenso. A umidade deixava o brilho das lâminas embaçado.
— A certa é essa aqui. — Nariz de Batata retirou uma faca longa e curva. A lâmina era espessa, com serrilhas finas próximas ao cabo.
Kilian pegou a faca com cautela.
— Vou começar a armar o acampamento. — Disse Nariz de Batata, já se afastando.
A chuva engrossava.
O barulho dos pingos contra as encostas se misturava ao cheiro úmido de barro e carne aberta. Nariz de Batata montava a tenda improvisada com mãos experientes. Amarrou as lonas entre duas pedras inclinadas, criando uma cobertura instável, mas seca.
— Não se preocupe, garoto. Vai fazer direitinho. — Disse, lançando um sorriso breve.
Kilian ajoelhou-se ao lado do wyrm. Segurava a faca com as duas mãos, o olhar preso nas escamas duras e enegrecidas.
— Vamos começar então. — Cara de Prancha o observava com atenção. — Enfia a faca com calma. Essas escamas são traiçoeiras. Com esse tamanho todo, ainda arrancam um dedo se não tomar cuidado. Mas vai dar certo.
Kilian assentiu. Posicionou a lâmina entre duas escamas maiores e empurrou devagar. Sentiu a resistência da carne firme, quase elástica.
— Tá certo assim? — murmurou, sem tirar os olhos do corte.
— Tá, tá bom sim. Mas... puxa pra esquerda. Devagar. Se rasgar músculo demais, vira uma bagunça lá dentro. — A voz de Cara de Prancha ficou quase gentil. — E troca essa faca. Só funciona a de corte fino agora.
Kilian recuou, limpando a mão na calça já encharcada. Voltou até o caixote e pegou outra faca. Menor. A lâmina era fina, curva, com reflexos azulados que pareciam pulsar na luz difusa da chuva.
— Essa aqui tem magia, né? — Kilian virou a lâmina de lado.
Cara de Prancha esboçou um sorriso.
— Exato. Encantada com gelo. Vai deslizar melhor. E cauteriza o que cortar. Usa ela pra separar as veias e membranas. Com cuidado.
Kilian assentiu e voltou ao cadáver. Enfiou a faca nova onde havia parado. Assim que a lâmina encostou na carne, a diferença foi imediata. O tecido cedia mais fácil. O sangue espesso escorria em fios escuros, misturando-se à lama.
— Certo, e agora? — perguntou sem desviar o foco.
— Agora procura os corações. Ficam ligados como elos de uma corrente. Acha o primeiro e vai seguindo.
Kilian avançou centímetro por centímetro. O cheiro piorava. As mãos etéreas firmavam a carne conforme ele cortava, até que a faca pareceu tocar algo diferente. Mais firme. Mais quente.
Então, ali estava. Um coração. Lento. Persistente.
Kilian prendeu a respiração. O silêncio do momento era quebrado apenas pela chuva.
Mas, antes que pudesse cortar os ligamentos, um som seco estalou atrás dele. Um estalo molhado, como algo puxando ar depois de muito tempo submerso.
Ele se virou, tenso.
Josh havia se movido.
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