Volume 2
Capítulo 61: Peso maior que o corpo
— Tá balançando mais hoje... — comentou o velho ao lado da mulher com o bebê, segurando no corrimão do aeroplano.
As velas de propulsão batiam suavemente no ar, impulsionando a estrutura de madeira pelo céu acima de Jillar. Abaixo, a tempestade de areia girava furiosa sobre a superfície de Beyara, mas, entre os Quangras, mal se sentia mais que uma brisa leve levantando pequenas nuvens de poeira.
— Só poeira fina. Amanhã deve ser pior — respondeu o carregador, se inclinando para espiar por cima da borda da aeronave.
O aeroplano desceu com calma, flutuando até tocar a plataforma de pouso. As portas se abriram com um rangido, e passageiros de diferentes cantos começaram a desembarcar. Alguns resmungavam, outros apenas apressavam o passo.
— Devagar com isso aí — murmurou o carregador, baixando um corpo enrolado em pano grosso com gestos meticulosos.
Com o rosto escondido pelo manto, ela manteve os olhos no chão.
De longe, entre as sombras dos becos, uma figura observava a cena atentamente. Os olhos escuros seguiam a mulher com precisão calculada.
— Sozinhas, como sempre... — murmurou.
Ela foi recebida por um casal de meia-idade que se aproximou hesitante. O homem tinha o rosto duro, as rugas fundas. A mulher, o olhar perdido, como quem flutua por dentro.
— É ela? — sussurrou o homem, a voz firme.
— É... é... — a mulher murmurou, antes de soltar um soluço abafado e cair nos braços do marido. — Eu disse que sentia...
— Vamos. Vai passar — tentou ele, abraçando-a com força.
A figura oculta não se moveu. Os olhos brilharam por um instante. Um leve estalo veio de seu bolso, onde os dedos apertavam um pequeno chocalho de metal.
Mais adiante, a mulher apertava o bebê contra o peito enquanto percorria os becos estreitos e silenciosos de Jillar. Seus passos eram rápidos, o olhar inquieto.
Atrás, um vulto avançava entre as sombras, silencioso e constante.
Acima das passarelas de madeira e metal que formavam a teia urbana, um jovem observava. Saltava com precisão, evitando os feixes de luz que escapavam por entre os prédios.
— Pra onde você vai levar isso, hein...? — murmurou para si, com um sorriso torto.
A mulher virou em um beco estreito, escuro. O jovem parou acima, agachado numa viga, os olhos cravados nela.
Lá embaixo, a mulher olhava para os lados, ofegante. O bebê choramingou.
— Desculpa... — sussurrou ela.
Aproximou-se de uma caixa de madeira encostada na parede, cheia de trapos e restos. Com mãos trêmulas, colocou o bebê dentro e puxou os panos por cima.
— Fica quietinho... — murmurou. — Não chora... não agora...
O choro abafado ecoou por um momento. Depois, silêncio.
***
— Segura firme, rapaz! — Nariz de Batata rosnou, passando a mão pelo bigode já suado.
Kilian, com as mãos etéreas conjuradas, apertou o ferro contra o pescoço escamoso do wyrm. As mãos mágicas seguravam o espeto grosso e reto, que se prolongava como um bastão afiado, terminando em um olhal na ponta. O ferro, sólido e robusto, parecia quase insignificante diante da imensidão da criatura.
— Assim tá bom? — Kilian perguntou, forçando mais um pouco para garantir que o espeto não escorregasse.
— Aí mesmo. Não vai soltar, ou isso vai ficar uma merda.
Nariz de Batata suspirou, cansado, e caminhou até a marreta. Era pesada, feita para serviços brutos — perfeita para esmagar com força e firmeza.
Ao lado deles, um mecanismo rudimentar jazia no chão. Correntes grossas, ganchos enferrujados e roldanas improvisadas compunham a estrutura robusta.
Nariz de Batata ergueu a marreta com esforço visível, o cansaço estampado no rosto.
— Segura firme, Kilian... uma... duas...
No terceiro balanço, a marreta estalou seco no espeto. O ferro rasgou escamas e carne densa, rangendo ao se abrir caminho. Kilian segurou firme; as mãos etéreas tremeram com o impacto.
Nariz de Batata golpeou mais algumas vezes até a ponta do espeto emergir do outro lado, afiada e reluzente. Cortava músculos com facilidade. Sangue grosso e escuro escorria pelo solo rochoso.
— Esse serviço é pesado demais — murmurou Kilian, limpando a testa com o braço. — Cansa só de olhar.
— Nem começamos o pior — respondeu Nariz de Batata, limpando o suor do rosto apesar do frio. — Ainda temos que içar essa coisa... e montar acampamento. Garrik não deve voltar hoje. Talvez nem tão cedo, depois do que aconteceu.
Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, espaçados. O frio, cada vez mais presente, parecia se infiltrar por debaixo das roupas.
Kilian soltou uma risada breve, cansada. Nariz de Batata golpeou o ferro mais uma vez, empurrando o restante do espeto através do pescoço do wyrm.
— Ainda não sei se estou pronto pra isso. O Purgeno... é muita responsabilidade.
— Para de falar bobagem. Estamos confiando em você — rosnou Nariz de Batata.
Ele desferiu outra pancada e curvou a ponta do espeto com precisão.
— É que parece... grande demais pra mim, só isso — Kilian respondeu, a voz abafada entre os pingos de chuva.
— Em mais de cinquenta anos, nunca vi aquele saco de merda ensinar ninguém a extrair Purgeno. Muito menos deixar essa tarefa pra outro.
Kilian respirou fundo, os ombros tensos. Observou o anão prender a corrente no ferro. Seus dedos apertavam com força as argolas, a pele ficando esbranquiçada.
— Não queria decepcionar ninguém... — murmurou.
— E não vai. — Nariz de Batata ajustou a corrente no outro lado, preparando o wyrm para ser içado. — Vamos, amarra essa talha naquela árvore ali.
Nariz de Batata e Kilian levantaram o mecanismo do chão com esforço. O peso da estrutura rudimentar parecia ainda maior depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Ambos seguiram em direção a uma das poucas árvores grossas restantes na encosta rochosa.
O tronco era velho, retorcido, mas largo o suficiente para aguentar a pressão… ou assim esperavam.
— Vira pra direita, rapaz. — Nariz de Batata apontou com a cabeça, usando todo o peso do corpo para arrastar o mecanismo.
Kilian assentiu e ajustou o aparato sobre os ombros. A chuva, fina e espaçada, não ajudava. O frio se intensificava.
Ambos trabalharam em silêncio por um momento, focados no esforço físico. Quando finalmente chegaram, Nariz de Batata soltou o mecanismo com um suspiro pesado.
— Amarra essa corrente ao redor do tronco. Vou engatar o gancho. — Ele começou a ajeitar o equipamento, testando a tensão dos ganchos com cuidado.
Kilian obedeceu de imediato, passando a corrente com uma anilha ao redor do tronco. Enquanto terminava de prender tudo, o anão parou um instante, olhando para o wyrm lá embaixo, como se calculasse mentalmente a resistência de tudo aquilo.
— O que aconteceu que vocês não usaram a Beth?
— Não deu.
— Não deu? Por quê?
— Porque o imbecil do seu amigo inventou de virar picolé de lama no começo da briga. A Beth só funciona com nós dois. Se um não puder usar…
— Isso é mal… Muito mal…
— Faz parte do encantamento dela. Um artefato poderoso como aquele só funciona em troca de uma condição complicada.
— Ah, entendi…
— Tá bom... vamos ver se essa belezura aguenta. — Nariz de Batata murmurou, mais para si mesmo do que para Kilian.
Ambos começaram a operar o mecanismo, puxando a corrente e ativando as roldanas. O metal rangia sob a tensão.
Lentamente, o corpo massivo do wyrm começou a se mover, arrastando-se pelo solo pedregoso.
O som era áspero, como se pedras estivessem sendo empurradas por um gigante. Mas a criatura morta, pouco a pouco, começou a subir a encosta.
Enquanto puxavam, o tronco da árvore começou a ranger. Primeiro, apenas um som baixo, mas logo ficou mais intenso, as fissuras se espalhando pela madeira como se o tronco estivesse sob uma pressão imensa.
— Tá ouvindo isso? — Kilian perguntou, os olhos arregalados enquanto olhava para a árvore.
— Continua puxando, rapaz. Não dá pra parar agora. — disse Nariz de Batata, os olhos fixos no mecanismo. Ele apertou o cabo com mais força, puxando junto de Kilian, mas o som da madeira se tornando mais grave e contínuo deixava a tensão mais evidente.
Kilian focou no esforço em silêncio — mais do que o habitual.
— Por que será que ele me escolheu? — perguntou de repente, sem tirar os olhos da árvore.
Nariz de Batata fez uma pausa, ainda puxando a corda.
— "Ele" quem? — o anão rosnou, voltando à sua tarefa.
— O Cara de Prancha. — Kilian continuou, enquanto ajeitava a corrente para que não se enredasse. Em alguns momentos olhava de relance para Nariz de Batata. — Você mesmo disse que ele me trata diferente de todo mundo.
Nariz de Batata soltou um suspiro pesado, puxando o mecanismo com mais força antes de responder.
— Isso agora? No meio disso tudo?
***
— Não posso... Eu não consigo. — murmurou a mulher, mais para si do que para o bebê. — Me perdoe... mas eu também não pedi para vir ao mundo. — Ela ajeitou o bebê na caixa com um gesto rápido, puxando os panos para cobri-lo.
Começou a se afastar depressa, o corpo tenso, os passos ligeiros na tentativa de se fundir às sombras. Mas antes que pudesse sair do beco, uma figura caiu à sua frente com um salto silencioso.
Ela parou de imediato, o corpo rígido. Seus olhos se estreitaram ao encarar o jovem à sua frente, tentando esconder o desconforto que invadia seus músculos. Não recuou, mas os dedos começaram a mexer nervosamente na barra do vestido, como se quisessem agarrar algo que não estava ali.
— Jogando crianças no lixo, hein? — disse ele, num tom baixo, mas suficientemente cortante para romper o silêncio do beco. A provocação era clara, sem necessidade de acusação direta.
A mulher mordeu o lábio, lutando para manter a expressão inalterada. Em vez de responder, tentou dar um passo para trás, os calcanhares raspando levemente no chão poeirento.
— Eu... eu não tive escolha! — sussurrou, a voz trêmula. — Ninguém entende... eu ainda não estou pronta para criar uma criança!
O jovem suspirou, balançando levemente a cabeça, como quem já ouvira aquilo antes.
— Não estou aqui pra te julgar por causa do bebê. — Ele gesticulou com desdém. — Sou Camadriel. Um bardo. Mas não vim cantar histórias. Quero respostas. — Seus olhos se afiaram. — Você veio da vila das grávidas, certo?
A mulher hesitou por um instante, o olhar vacilante. Em seguida, assentiu com a cabeça, o pescoço ficando rígido.
— Sim... eu vim de lá.
Camadriel estreitou ainda mais os olhos, dando um passo à frente. Parecia pesar cada palavra antes de soltá-la e, quando o nome escapou de seus lábios, veio carregado de uma tensão contida.
— Evelene... — disse, com voz firme. — Ela deveria ter voltado com você. Também estava grávida. Onde ela está?
A mulher engoliu em seco, cruzando os braços e desviando o olhar, enquanto uma mão trêmula passava pela testa suada.
— Evelene... ela... também voltou — a voz da mulher falhou, carregada de pesar. — Ela é quem estava no lençol. Ela... explodiu.
Camadriel piscou, tentando processar as palavras. O chocalho que segurava escorregou de seus dedos e caiu no chão, ecoando fracamente no beco. Ele recuou um passo, como se o chão tivesse sumido sob seus pés.
— Mas... como? Ela estava realmente grávida. Isso não deveria ter acontecido.
A mulher abraçou os próprios ombros, como se tentasse se proteger do que estava por vir.
— Não foi a semente... Outra grávida explodiu perto dela. Evelene estava muito perto — sua voz soava como um eco distante, uma lembrança dolorosa. — Ela... e o bebê... morreram juntos.
O silêncio se arrastou, pesado. Camadriel permaneceu imóvel, os olhos fixos no chão, enquanto a raiva crescia dentro dele. Seu corpo tremia levemente, consumido pela sombra da perda e da frustração.
Então, ergueu a cabeça devagar.
— Quem fez isso... vai pagar.
E desapareceu na escuridão antes que a mulher pudesse responder.
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