Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 60: O silêncio entre a poeira, antes da tempestade

A lama endurecida cobria o corpo de Cara de Prancha, exceto o rosto. A claridade que o cegara sumira, restando só um buraco nas nuvens carregadas e cheiro de queimado no ar.

— Merda! Que raio de feitiço foi esse? Nenhum wyrm faz isso... — Cuspiu, ofegante.

Travado sob a pedra, o anão se debatia de frustração. Seus ossos estalaram fraco, arrancando-lhe uma risada amarga.

— Garrik? — murmurou. O nome pesava. — Não... Se já tava mal antes, agora...

Suspirou, forçando os olhos na direção da floresta destruída.

— E o Kilian? — perguntou, a voz baixa, carregada. — Evoluiu bastante, mas temo que isso...

A fumaça densa o fez cerrar os dentes. Gotas de chuva espaçadas começaram a cair. Ele lançou um olhar duro ao horizonte.

— Aquele descendente dos féericos... Esquisito, saído de algum plano inferior, portal bem na bunda de Jillar... Será que era aquele demônio? — Bufou, rangendo os dentes, tentando em vão se mexer.

— Droga, preso logo no começo... — resmungou, entre suspiros. — Sem lutar, sem ajudar, e o pior: pego de calças na mão! Ah, Nariz de Batata, se eu te pego...

***

A luz intensa sumira, e o mundo voltava ao normal, embora uma cortina de poeira ainda pairasse no ar. Kilian piscou várias vezes, os olhos lacrimejando pelo clarão. Ao lado, Nariz de Batata limpava o rosto com a mão, removendo suor e sujeira.

Kilian olhou para o anão. Os dois ficaram parados por um instante, apenas ouvindo o silêncio absurdo após o estampido.

Nariz de Batata apontou com o queixo o epicentro da explosão. A poeira ainda subia em redemoinhos, bloqueando a visão. Kilian mordeu o lábio, os punhos fechados ao lado do corpo. Seus olhos encontraram os do anão.

— E agora? — perguntou Kilian.

Nariz de Batata hesitou, franziu a testa e gesticulou com os olhos na direção da destruição. Sem dizer nada, apertou o machado e deu o primeiro passo.

— Será que o wyrm sobreviveu?

— Só vendo. A gente precisa saber.

A terra estava devastada: árvores arrancadas exibiam raízes torcidas — muitas partidas, outras ainda fumegando. Rochas antes soterradas jaziam empilhadas, como se arremessadas por força descomunal.

Crateras e rachaduras cortavam o solo. Tudo parecia dilacerado à unha.

Nariz de Batata avançava firme, chutando galhos e pedras.

Kilian o seguia de perto, mordendo a lateral da boca, olhos atentos, corpo tenso.

O ar ainda carregava poeira e cheiro ácido de queimado.

Até o silêncio parecia denso.

— Que bagunça... — murmurou o anão, varrendo os destroços com os olhos. Parou de repente e se abaixou ao lado de uma rocha maior. — Aqui.

Kilian se aproximou. Entre pedras e galhos, o corpo de Josh jazia imóvel, roupas rasgadas e ferimentos visíveis.

— Droga... Josh? — Kilian se ajoelhou ao lado dele, pressionando o peito. Nenhuma reação. O silêncio do corpo era pesado, quase errado. Olhou para o anão, testa franzida, lábios apertados, sem dizer palavra.

A tensão era palpável.

Nariz de Batata limpou o bigode sujo, olhos fixos no corpo inerte.

— Só Maya ou Garrik saberiam... A gente não vê nada aqui.

Kilian apertou os punhos, olhando ao redor. A poeira ainda se movia. Levantou-se, sacudindo a cabeça; o suor do cabelo formava crostas.

O anão também se ergueu, machado firme, e apontou com o queixo à frente.

— O wyrm. — Apertou os lábios. — Se fugiu, pegamos seu amigo e saímos. Mas se ainda estiver vivo...

As palavras ficaram no ar.

Kilian respirou fundo, olhos fixos no caos.

— Vamos acabar logo com isso.

Sem dizer nada, Nariz de Batata tomou a dianteira.

Chutou uma pedra e seguiu em frente.

Kilian lançou um último olhar para Josh antes de acompanhá-lo. A poeira começava a assentar atrás deles.

Conforme avançavam, o solo se tornava irregular.

Troncos partidos formavam um labirinto de madeira e raízes expostas. Rochas cravadas no chão pareciam ter despencado do céu.

Marcas de queimadura cobriam tudo. O cheiro de carne queimada arranhava as narinas.

A cada passo, os dois trocavam olhares rápidos.

A poeira rodopiava em redemoinhos, sem revelar nada. Só o silêncio os acompanhava.
O vento sacudia galhos mortos. Nenhum outro som.

Kilian tropeçou. Ao olhar para baixo, viu a superfície áspera de uma asa do wyrm.

Estava semienterrada, o couro rasgado e retorcido.

Parou, cenho franzido.

Nariz de Batata notou a hesitação e seguiu seu olhar.

— Acha que... — começou, mas a voz morreu na garganta.

A criatura surgia aos poucos, jazia como uma montanha caída.

O corpo serpentino enrolado no centro da clareira, cercado por crateras e fendas.

As escamas amareladas, agora opacas, refletiam a luz fraca entre a poeira suspensa.

Quatro pares de asas cravadas no solo; outras rasgadas, espalhadas ao redor.

A longa cauda estendia-se entre os destroços, imóvel, coberta de fuligem.

Nariz de Batata deu um passo à frente, olhos semicerrados.

— Morto.

Kilian parou ao seu lado, ainda ofegante. Inclinou-se, buscando qualquer sinal de movimento no corpo massivo. Nada. Só o peso opressor do ar e o cheiro de morte.

O anão rodeou a criatura com cautela. As escamas rachadas, o peito imóvel e as presas colossais da boca entreaberta não deixavam dúvidas.

— É... parece que a luta acabou — disse Kilian, a voz ainda carregada de incredulidade. Seu olhar pousou no anão, franzindo o cenho diante da destruição. — Ele matou mesmo essa coisa.

Nariz de Batata soltou uma risada seca, mais alívio que humor.

— Seu amigo fez um belo de um trabalho, isso sim. — Chutou uma pedra, observando o wyrm como se procurasse respostas. — Mas me diz uma coisa... como é que ele explodiu tudo isso? É feiticeiro, por acaso?

Kilian franziu a testa, varrendo a área com o olhar. Árvores destruídas, rochas espalhadas, o imenso wyrm caído.

— Será que o Josh sabia usar magia? — Hesitou. — Olha... eu não sei.

O anão deu de ombros e seguiu em volta do corpo.

— Sei lá. Mas tem uma coisa... — Parou, coçando o queixo. — Aquela marreta. A do Cara de Prancha. Foi comprada há pouco tempo. Nem aquele imbecil sabia direito o que ela fazia.

Kilian piscou. Os olhos vasculhavam o chão.

— A marreta…

O anão assentiu, olhando ao redor, como se esperasse encontrá-la entre os escombros.

— E por falar nisso... onde ela foi parar?

Se entreolharam.

Começaram a procurar. Os olhos de Kilian saltavam entre rochas e destroços, enquanto Nariz de Batata chutava galhos e revirava pilhas de madeira quebrada.

Nenhuma marreta. Só entulho e destruição.

— Não tô vendo nada — disse Kilian, após algum tempo de busca frustrada. Olhou para o wyrm uma última vez. — Será que a explosão lançou ela pra longe? Ou será que foi destruída?

Nariz de Batata parou de procurar, cruzou os braços e bufou.

— Destruída? Impossível. Era mágica. Custou os olhos da cara. Ou tá aqui, bem escondida, ou caiu longe. Mas, pelo jeito da explosão… É a única coisa que explica o que seu amigo fez.

Kilian assentiu devagar, processando a ideia.

— Vamos levar o Josh pro Cara de Prancha — disse, erguendo os olhos pro céu. — Daqui a pouco começa a nevar.

— Nevar? — Nariz de Batata arqueou uma sobrancelha.

— Sim. Quando matamos aquele gigante de gelo, o céu tava assim antes da neve.

— Verdade — o anão confirmou com uma risada curta. — Você viveu a vida inteira sem sair de Jillar, não é? Nunca viu chuva antes.

Ele lançou um último olhar ao corpo caído, como se quisesse garantir que não haveria mais surpresas.

— Melhor assim — murmurou.

Enquanto voltavam pelo caminho destruído, as nuvens se fechavam lentamente, escurecendo o céu. O buraco da explosão sumia aos poucos, engolido pelas massas cinzentas. Um vento úmido começou a soprar — mais denso, mais frio.

A poeira ainda dançava entre os destroços, mas o cheiro de chuva já dominava o ar. Cada passo era mais silencioso que o anterior.

Até chegaram de volta em Josh.

O jovem ainda estava desacordado, encostado numa pedra chamuscada. A fuligem marcava o ponto onde a explosão o lançara.

Nariz de Batata se aproximou com cautela, inclinando-se para examinar o garoto de cabelos oliva.

— Kilian, não sei se ele ainda tá respirando — disse o anão, enquanto o erguia com esforço. — Mas tá pesado como uma bigorna!

Kilian observou em silêncio, enquanto o anão ajeitava Josh nos ombros. Apesar da força, o cansaço era evidente.

— Vamos logo, antes que o tempo feche de vez — disse Kilian, olhando pro céu escurecido.

— Sim, garoto — respondeu o anão. — E sem o Garrik por perto, vamos ter que montar um acampamento normal.

Carregando Josh, os dois seguiram pelo terreno acidentado, subindo em direção à encosta onde Cara de Prancha os aguardava. As pedras rangiam sob os pés, e o relevo irregular exigia atenção a cada passo.

Quando finalmente alcançaram a encosta, Cara de Prancha estava lá, coberto pela lama calcificada, com apenas o rosto à mostra — exatamente como Kilian o deixara.

Ao vê-los, o anão soltou um suspiro, mas seus olhos logo buscaram os que faltavam. Tentou se mexer, ainda preso na lama endurecida, mas parou, confuso.

— Kilian! Nariz de Batata! — Sua voz soou rouca, os olhos varrendo o entorno. — Onde estão... o Garrik e a Maya?

Nariz de Batata, com Josh nos ombros, ergueu as sobrancelhas como se fosse responder, mas permaneceu em silêncio. Apenas ajustou o peso do descendente dos féericos e continuou andando.

Cara de Prancha estreitou os olhos. Engoliu seco, cerrando o queixo.

Kilian se agachou. Os braços pesados como chumbo, dedos trêmulos ao desatar a tampa do cantil. Bebeu em grandes goles, deixando a água escorrer pelos cantos da boca.

Respirou fundo, tentando acalmar o corpo exausto. Ainda assim, não disse nada — como se as palavras se recusassem a sair.

— Ah, não... — murmurou Cara de Prancha, a voz embargada por pensamentos sombrios. Apertou os olhos com força, como quem tenta afastar uma visão horrível.

Nariz de Batata, enfim cedendo à tensão, soltou uma risada. Com cuidado, baixou Josh no chão e suspirou, abrindo um sorriso malicioso:

— Garrik só perdeu um braço e uma perna. Fora isso, tá bem. Maya já o levou pra cidade e amanhã devem estar de volta.

Cara de Prancha arregalou os olhos. Ficou imóvel, piscando como se precisasse de segundos para processar a informação. A tensão em seu rosto se dissolveu num misto de alívio e irritação.

Soltou um longo suspiro.

— Seu desgraçado... — murmurou, franzindo a testa, sem real raiva. — Quase me matou do coração.

Nariz de Batata riu baixo. Massageou o pescoço antes de se sentar numa pedra. Ajeitou o corpo cansado e limpou a lama seca do rosto.

Kilian olhou para as próprias mãos, cobertas de cortes e sangue seco. O braço latejava. Rasgou um pedaço da roupa e improvisou uma atadura.

— Foi por pouco, Cara de Prancha — disse, em voz baixa. Inclinou a cabeça para trás, fitando o céu, cada vez mais escuro. — Depois que o wyrm pegou o Garrik, o Josh e eu tentamos afastar ele pra longe. Até consegui por um tempo... mas tivemos que lutar de novo.

Nariz de Batata balançou a cabeça, molhando os cabelos com o resto de água do cantil. Limpou a fuligem do rosto e remexeu na bolsa com pressa.

— Josh... — começou ele, virando-se para Cara de Prancha, que ergueu uma sobrancelha.

— Quem? — perguntou.

— Esse descendente dos féericos aí — Nariz de Batata fez um gesto vago com a cabeça. — Você tinha que ver. Ele matou o wyrm. Praticamente sozinho.

— Fala pra ele da marreta — interrompeu Kilian.

— Marreta? — repetiu Cara de Prancha.

— Ah, sim — disse Nariz de Batata, saboreando o momento. — Sabe aquela marreta que você economizou meses pra comprar? Sumiu.

Seguiu-se um silêncio pesado. Cara de Prancha franziu o cenho, apertando os lábios por um instante. Logo balançou o que podia da cabeça. O corpo relaxou. Soltou um longo suspiro.

— Dentre tudo o que podíamos perder... uma marreta é o de menos — disse, num tom que soava quase aliviado, como se tentasse convencer a si mesmo.

Enquanto conversavam, Kilian ajustava a atadura na perna. O corte profundo latejava, e o sangue manchando sua calça não ajudava.

Ele pressionou com cuidado, cerrando os dentes a cada movimento.

— Acho melhor a Maya voltar logo. Essa perna tá ficando complicada — murmurou, mais para si.

Cara de Prancha observava o horizonte, os olhos fixos na direção de onde haviam vindo.

— Então... o wyrm tá morto? — perguntou, sem desviar o olhar.

Kilian assentiu levemente, puxando o tecido sujo de sangue que cobria a perna.

— Morto. Agora é só esperar você ficar livre e pegamos o Purgeno — disse, inclinando a cabeça para observar o monstro caído entre as árvores.

Cara de Prancha soltou um som baixo, entre cansaço e raciocínio.

— Não é tão simples. O Purgeno precisa ser extraído enquanto o corpo ainda tá quente.

Kilian se ajeitou. Os músculos protestaram, mas forçou-se a levantar.

— Mas se você tá assim, e Garrik e Maya só voltam amanhã... vamos perder o Purgeno? Caramba... quase morremos nessa luta…

Cara de Prancha olhou para ele, avaliando-o por um instante. Apesar de preso e exausto, sorriu de lado.

— Eu não disse que vamos perder o Purgeno, garoto. Tá vendo aquela bolsa? Pega a corrente com o gancho e leva esse anão imbecil sem barba pra puxarem aquela coisa até aqui. O trabalho é seu dessa vez.

Kilian piscou, como se tivesse ouvido errado. Ao fundo, Nariz de Batata ria baixo.

— Eu vou... extrair o Purgeno? — perguntou, hesitante.

— Isso mesmo — disse Cara de Prancha, erguendo uma sobrancelha. — Melhor começar agora, antes que o corpo esfrie de vez.

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