Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 59: O wyrm: Parte 4

Nariz de Batata tropeçou, mas manteve Garrik firme sobre os ombros. O mago respirava com dificuldade.

Quase sem tocar o chão, o anão seguia Maya pela floresta. O rugido do wyrm os empurrava adiante. A criatura se agitava e rompeu mais um tentáculo negro com um estalo seco — como madeira partida.

— Mais rápido! — arfou Maya.

O suor escorria por sua testa enquanto lançava olhares para trás. As mãos trêmulas pousavam sobre Garrik, enquanto Maya tentava manter o foco.

Outro tentáculo se partiu.

O anão rosnou algo entre os dentes e forçou as pernas curtas a subir o terreno. Garrik balançava imóvel. Não havia tempo para ajeitá-lo melhor.

O wyrm rugiu outra vez. O chão vibrou. Mais um tentáculo se rompeu.

— Ele tá se soltando — disse Maya, com a voz falhando.

Com o rosto pálido e suado, Garrik ergueu a única mão. As sombras ao redor do monstro se avolumaram e apertaram a criatura mais uma vez. Ondulavam, instáveis. A energia escura pulsava ao redor.

O wyrm se contorcia. A cada espasmo, a prisão vacilava.

— Só... mais um pouco... — murmurou Garrik.

Outro estalo brutal. Mais um tentáculo rasgado. Garrik mantinha os olhos semicerrados, fixos na criatura, o corpo rígido, mesmo com a força quase esgotada.

— Cadê aquela droga de portal? — grunhiu Nariz de Batata, depois de vasculhar à frente.

— Esses tentáculos não vão durar — rosnou Maya.

O wyrm quebrou mais um deles com um puxão feroz. O rugido soou como trovão.

Nariz de Batata estacou. O olhar cruzou com o de Maya. Sem hesitar, ele agarrou Garrik e o jogou no ombro da garota. As pernas fraquejaram com o peso. Quase caiu, mas apertou os braços ao redor dele com firmeza.

— Vai! — gritou o anão, enquanto se postava diante do wyrm, machado em punho. — Eu cuido disso!

Maya engoliu em seco e correu em direção ao portal. Cada passo afundava na lama. Garrik oscilava sobre seus ombros. A cabeça tombava para o lado; o corpo, mole, como se já não tivesse forças para se manter ereto.

Com os pés fincados no chão, o guerreiro encarou o monstro. Girou o machado com fluidez — como se executasse um antigo rito de combate.

As escamas do wyrm cintilavam sob os relâmpagos que cruzavam o céu escuro. O suor escorria pela testa do anão, mas ele não se mexeu.

— Vamos lá, sua cobra inútil! — rosnou. — Vou te mostrar o que acontece quando mexe com um anão de verdade!

Então ele avançou com um rugido.

Mesmo com asas quebradas e uma das caudas esmagadas, o wyrm se moveu com agilidade. Nariz de Batata mirou entre as escamas e girou o machado.

— Toma essa! — gritou.

O machado atingiu o olho do wyrm em cheio. Um jorro escuro explodiu do ferimento, escorrendo pelo rosto da criatura. O monstro urrou e se contraiu, depois recuou.

— Ainda não terminei! — bradou o anão.

Mas mesmo ferido, o wyrm retaliou. Uma cabeçada acertou o anão em cheio. O corpo dele foi lançado contra o solo com força.

A armadura rangia. O impacto arrancou o ar dos pulmões. O machado escorregou de suas mãos. Nariz de Batata tentou se erguer, mas gemeu. O ombro latejava.

Mais adiante, Maya tropeçou na encosta e arfou. Garrik pesava nos ombros como se fosse feito de pedra. O bramido do wyrm rasgava a floresta, cada vez mais alto.

— Aguenta só mais um pouco... — murmurou ela, quase como uma súplica.

Cada passo era uma luta contra o barro escorregadio.

Nariz de Batata girou de lado, o rosto sujo de lama e sangue. Os olhos ainda abertos; a visão, trêmula. A criatura se erguia.

E Maya ainda não tinha alcançado o portal.

— Ah! Desgraçado! — gemeu Nariz de Batata entre os dentes, enquanto o sangue quente escorria pelo braço e manchava suas roupas. Mesmo assim, fincou a arma no chão e se forçou a levantar. O machado ainda vibrava entre os dedos, e os olhos se cravaram na criatura à sua frente.

— Isso é tudo que tem?

O wyrm disparou como uma serpente faminta, olhos fixos no anão. A boca escancarada vinha direto, pronta para engolir tudo.

— Droga! Ele vai me matar... aqui e agora — rosnou Nariz de Batata.

— Não! — o grito de Maya explodiu no instante em que a bocarra do wyrm mergulhava sobre o anão.

A clareira silenciou por um instante antes que o estrondo surgisse — um baque metálico e abrupto, como se o próprio céu desabasse sobre a terra.

Josh apareceu, e sua marreta encontrou a lateral da cabeça do wyrm com precisão brutal.

A cabeça do wyrm girou de lado com o impacto. Entre guinchos guturais, a criatura se arrastava para longe, desorientada. O solo tremeu sob seu peso cambaleante, o sangue escuro escorreu entre jorros da lateral dilacerada do crânio.

Nariz de Batata apertou os punhos. A dor irradiava de seus músculos, cada movimento uma nova pontada.

— Ah, é você de novo — resmungou, numa tentativa de ignorar o peso da dor enquanto se levantava com esforço.

Josh permanecia imóvel, os punhos relaxados, como se nada tivesse acontecido. O silêncio, um contraste com a força brutal de seus golpes anteriores.

Kilian aterrissou ao lado do anão, que sorria ofegante, com o corpo coberto de lama e sangue.

— Chegaram na hora certa — disse Nariz de Batata, depois de limpar o sangue da boca com as costas da mão. — Vamos acabar com essa coisa de uma vez!

Kilian conjurou suas mãos etéreas, as formas violetas se transformaram em punhos ao seu lado. Diante dele, a criatura enfurecida se agitava freneticamente, suas asas retorcidas e rasgadas, balançavam pesadas, sem conseguir levantar voo.

— Protege a Maya — ordenou Kilian, a voz firme, apesar da tensão no ar. — Nós cobrimos a fuga de vocês.

Nariz de Batata franziu as sobrancelhas.

— Fugir? Enquanto essa coisa ainda respira? — rugiu, grave e determinado.

Kilian soltou uma risada curta, exausta.

— Não se preocupe. Só vamos distrair ele até vocês fugirem... depois a gente também corre.

Nariz de Batata não respondeu. Mirou o wyrm cambaleante. Lançou um olhar para Josh, depois para Kilian. Cerrou os punhos. Abaixou a cabeça e grunhiu.

— Então vamos lutar e correr juntos.

Kilian esboçou um leve sorriso e assentiu.

Nariz de Batata hasteou seu machado, enquanto voltava à posição de combate. O wyrm, furioso, começava a se erguer novamente, pronto para mais um ataque.

— Tá na hora de cair de vez, seu verme voador! — rosnou o anão, enquanto apertava o cabo do machado.

Kilian olhou mais uma vez para Nariz de Batata. Suas mãos etéreas flutuavam como extensões de seu corpo.

— Se formos nós dois, precisamos de um plano.

Nariz de Batata deslizou a mão pelo bigode; os músculos estavam rígidos sob a pele, como se a próxima provocação já estivesse na ponta da língua.

— Já aprendeu a bolar planos, garoto? Fala aí o que tá pensando. — O anão o encarou com um meio sorriso, enquanto apertava ainda mais o machado contra o chão.

Kilian também esboçou um sorriso discreto, enquanto fitava o anão com o canto dos olhos.

— Tava pensando naquela estratégia... a do gigante. Lembra? — Kilian fez uma pausa. Os olhos atentos varreram o terreno enquanto o wyrm avançava feroz.

Josh se moveu com precisão. Saltou para um galho grosso de uma árvore próxima, depois para outro, bem diante do único olho sadio da criatura.

— Mas o que esse esquisito tá fazendo? — rosnou Nariz de Batata, com a testa franzida ao ver Josh sobre o galho.

— Acho que... ele quer atrair o wyrm. Do jeito dele. — disse Kilian, sem muita certeza, os olhos ainda fixos na criatura.

— Isso eu entendi! Gostei. — Nariz de Batata estreitou os olhos. Um brilho surgiu no olhar, no instante em que o wyrm abocanhou a árvore onde o jovem de cabelos oliva se equilibrava.

Mas antes que qualquer um se movesse, um estrondo rasgou o ar.

O wyrm puxou a árvore com violência. O tronco saiu inteiro do chão.

— Ele arrancou... — murmurou Nariz de Batata, a voz presa na garganta.

A fera sacudiu a árvore com fúria. Josh voou.

O corpo riscou o céu por um instante. Alto demais. Lento demais.

— Ele não vai conseguir se esquivar. — Kilian apertou os olhos, o peito travado.

O wyrm abriu a boca. Esperava. As presas brilharam sob a luz turva.

O monstro o pegou pelo torso. Os dentes rasgaram sua pele. Depois o jogou contra uma árvore. O impacto partiu o tronco. Josh caiu, imóvel.

Kilian congelou. O wyrm se preparava.

— Lama. Se pegar, já era. — disse Nariz de Batata, enquanto corria na direção do corpo de Josh.

— Vamos, Nariz de Batata! Josh é resistente. — disse Kilian com firmeza, apesar da respiração entrecortada e o suor frio escorrendo pelo rosto. — Temos que agir agora!

Nariz de Batata olhou rapidamente para o corpo do descendente dos féericos. Seus cabelos verde-oliva cobriam-lhe o rosto. As mãos tremiam, mas por fim assentiu.

No instante seguinte, o wyrm virou-se num movimento brusco. Um rugido gutural reverberou, e um jato de lama densa e calcificante disparou em direção à dupla, como uma grande onda cobrindo o espaço onde eles estavam.

— Cuidado!

Kilian empurrou o anão com uma mão etérea, enquanto a outra se esticava como um elástico na direção do tronco de uma árvore.

— O quê...? — Nariz de Batata protestou, enquanto seu corpo rolava pela vegetação com o empurrão.

O jato de lama atingiu não só o solo, como também as árvores e a vegetação ao redor. Um ambiente hostil se formava onde estiveram segundos antes.

— Da próxima vez, avisa antes de me jogar pelos ares, garoto! — resmungou o anão, com os olhos no monstro, quando algo os chamou a atenção.

Entre os destroços, Josh se mexia. Os dedos apertavam o chão enquanto ele se erguia — agora, desprovido da expressão serena e inocente de antes. Suas feições se distorciam, inumanas. Não havia serenidade, só um ódio primal que parecia vir de outra coisa dentro dele — algo à beira de romper.

Nariz de Batata franziu a testa.

— Kilian... isso é normal?

Kilian se aproximou com cautela. A respiração irregular de Josh era audível. Os ombros subiam e desciam de forma descontrolada. Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, enquanto um rugido primal ecoava de sua garganta.

— Não sei...

Kilian deu um passo atrás, os olhos fixos na expressão de Josh, como se o descendente dos féericos estivesse prestes a explodir.

— Isso... tá longe de ser bom — murmurou o anão, os lábios apertados em tensão.

Nariz de Batata girou o corpo. O machado ainda estava em mãos. O wyrm se preparava para outro avanço.

O chão tremeu.

Kilian não hesitou. Esticou o braço na direção da lama endurecida ao redor.

Ele já havia tocado terra e água antes — mas agora, algo diferente brotava dali.

Pequenas esferas se formaram. Sólidas. Compactas. Pairaram por um instante.

— Ei, verme! — gritou Kilian, antes de lançar a primeira.

A esfera atingiu o focinho do wyrm. Um rugido explodiu das entranhas da criatura. As narinas se alargaram — fúria pura.

Kilian atirou outra. Depois mais uma. Rápidas. Mira firme. O som seco dos impactos se misturava ao rosnado da besta.

Josh irrompeu pelo campo. As pernas ganhavam força a cada passada. Agarrava a marreta no meio da corrida.

Metal contra carne. Um clarão percorreu o cabo. A pancada empurrou o wyrm para trás.

Por um instante, a criatura retrocedeu.

— Agora! — gritou Nariz de Batata, enquanto avançava.

O machado cortou o ar. Acertou o flanco da fera. Rasgou fundo.

— Fica na cola, garoto! — berrou o anão, sem olhar para trás.

Josh golpeava com fúria.

A marreta acertou o pescoço da criatura. O wyrm tombou contra uma árvore. Ela estalou sob o impacto e desabou junto com ele.

Josh não parava. Gritava como um animal em frenesi. Seus uivos se misturavam aos rugidos do monstro. A arma girava nas mãos — veloz, certeira. Cada pancada fazia o chão vibrar.

O wyrm hesitou. Por um segundo. Talvez percebesse: aquilo não era natural.

Então, investiu.

A abalroada lançou Josh longe. Ele bateu contra uma árvore. A madeira rachou com o impacto.

E, mesmo assim, ele se levantou.

O sangue descia da testa. O olhar queimava — cego, primal, assustador.

— Josh! — Kilian gritou.

Nada.

Nariz de Batata arfava. O machado preso às mãos. Mas parou. Algo em Josh o congelou.

Josh voltou a caminhar. Cada passo afundava na lama — silencioso, determinado.

O wyrm cuspiu uma nova onda de lodo. Josh saltou — ágil, esquivou-se.

Os dentes da criatura rasgaram-lhe o ombro. O corpo foi lançado pelos ares.

E se ergueu de novo.

O corte aberto. O sangue escorrendo. Músculos trêmulos. Mas ele não parou.

Girou a marreta. Atingiu a mandíbula do wyrm com um estalo seco. Ossos se partiram.

— Kilian! O que é esse cara?! — perguntou Nariz de Batata, boquiaberto.

— Eu não sei! — Kilian não piscava. — Encontrei ele no Vale do Suplício. Dois dias atrás.

O wyrm rugiu. Recuou. A cauda cortou o ar. Acertou o peito de Josh e o lançou contra um arbusto.

Mais uma vez, ele se ergueu.

A marreta tremia nas mãos. As rachaduras por toda a superfície brilhavam. Algo tentava escapar dali — luz viva.

Josh ergueu a arma. Um último golpe.

O impacto explodiu.

Luz. Uma muralha branca, cortante, que apagou a floresta e calou o mundo. O chão tremeu, as árvores se curvaram, e o rugido do wyrm se dissolveu no estrondo. Depois, apenas silêncio.

O céu se abriu.

Raios de sol cortaram as nuvens, iluminando o que restava.

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