Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 58: O wyrm: Parte 3

Kilian mirou Maya, indeciso. Então conjurou mãos mágicas — grandes, translúcidas — que surgiram numa tonalidade violeta, como parte viva do próprio corpo.

— Está com medo? — provocou, num sorriso forçado. — Vem comigo.

— Tô, sim... mas a gente não pode só assistir.

Ele agarrou o braço dela e puxou. Num salto, a magia o lançou no ar. Maya gritou agudo.

— Seu idiota! — resmungou, a respiração presa. — Podia avisar antes!

— Segura firme! — retrucou, já perto de Nariz de Batata.

Quando a soltou e se virou para o wyrm, a criatura já havia notado. Girou a cabeça com um estalo violento, as mandíbulas ainda presas em Garrik, dentes cobertos de sangue.

Mas antes que mordesse de novo, Nariz de Batata surgiu por trás. Com um grito de guerra, cravou o machado na lateral da fera. O rugido sacudiu a clareira. As presas se abriram.

Garrik despencou no chão. No impacto, um braço e uma perna — arrancados pela criatura — tombaram pela clareira, espalhando-se entre pedras e folhas. O sangue encharcou o solo.

Maya correu, ajoelhou-se ao lado do mago e, com os dedos trêmulos, deixou a luz intensa fluir enquanto pressionava os ferimentos.

— Cuida dele! — gritou Kilian, o olhar preso no wyrm.

— Eu sei o que fazer! — respondeu Maya, sem desviar dos ferimentos. A voz frágil, mas firme. — Não preciso das suas ordens!

Kilian não respondeu. Virou-se para a fera e ergueu os braços. Duas esferas de água nasceram ao redor das mãos, giraram e dispararam contra a cabeça do monstro.

O impacto mal feriu, mas bastou: o wyrm hesitou — e se virou para ele.

— Vem...

A serpente rugiu outra vez, as presas brilhando enquanto avançava com as mandíbulas escancaradas. Kilian ativou a magia de salto e escapou por um triz, desviando pela clareira com velocidade.

A criatura veio atrás, derrubando árvores e esmagando pedras com o corpo imenso. Kilian a levou para longe de Garrik.

Maya ainda travava sua luta ao lado do mago ferido.

— Vai... para de sangrar... — disse ela, os olhos presos em Garrik, mas sem conseguir deixar de acompanhar a dança de Kilian com o wyrm.

Kilian saltava entre galhos, quase sem tocar o chão. O desespero o tornava mais ágil. O wyrm vinha logo atrás e forçava passagem. As asas descoordenadas batiam como se tentassem voar, mas falhavam, e a fera desabava logo em seguida, pesada como um pássaro mutilado.

— Tenho que levar essa coisa pra longe! — murmurou Kilian, erguendo as mãos etéreas para se lançar a um platô acima. — Nilego, o tigre... Josh... Droga! Por que eu sempre tô fugindo de alguma coisa?

Olhou por cima do ombro. O wyrm já estava perto. Mesmo com as asas arruinadas, avançava rápido demais.

A boca colossal se fechou onde ele estivera um segundo antes. Kilian se jogou para o lado, quase caiu, e as pedras rasparam sua pele quando rolou no chão.

— Droga! — arfou, erguendo-se, antes de conjurar de novo as mãos etéreas e puxar o corpo adiante para abrir mais distância.

O wyrm investiu, a bocarra escancarada. Kilian saltou para o lado, e uma onda de lama negra quase o atingiu. Ele se jogou para trás, rolou, sentiu o calor úmido da terra recém-virada contra a pele. O solo endurecia em rocha sólida diante de seus olhos.

— Droga, sai da frente! — Kilian gritou, transmutando as mãos etéreas em garras de tigre. Ele as lançou contra a cabeça do monstro que avançava implacável.

Com um impulso, uma das mãos gigantes deu um soco cruzado, bateu com força na lateral do crânio. O impacto fez a criatura retroceder, mas as mãos mágicas se desfizeram no choque.

— Não acredito!

Ele mal teve tempo de se mover antes que o monstro avançasse de novo. A cauda varreu o espaço, rasgando o ar. Kilian se jogou para frente e escapou por pouco.

— Não vou durar muito mais assim... — murmurou, ofegante.

O wyrm arqueou o corpo e se lançou como um projétil. Kilian rolou atrás de uma rocha. Sentiu o chão tremer ao redor. Quando levantou o olhar, a fera já estava ali, pupilas fendidas cravadas nele.

— Só tenho uma chance! — Kilian gritou, conjurando mais uma vez as mãos etéreas em direção a uma formação rochosa ao lado.

Com um gesto desesperado, puxou as pedras acima do monstro. Elas despencaram, caíram como uma avalanche sobre o corpo da serpente.

O estrondo abafou tudo. Poeira subiu, encobrindo a clareira. Por um instante, silêncio.

— Consegui... — Kilian sussurrou, ofegante, os ombros relaxaram.

Mas então, pedras começaram a rolar. Um som de fragmentos em movimento ecoou. A cabeça do wyrm surgiu por entre os destroços, sacudindo o pó de pedra.

O monstro estava intacto.

— Não... pode ser... — Kilian gaguejou, o suor escorrendo de seu rosto enquanto tentava se recompor.

O wyrm avançou. Kilian mal teve chance de reagir. Foi arremessado contra uma pilha de arbustos e pedras. O impacto esmagou seus pulmões; um estalo seco percorreu seu corpo. Por um instante, tudo ficou embaçado, a visão turva, o gosto de ferro na boca.

— Preciso... levantar... — tentou falar, cuspindo sangue. Mas o wyrm já estava perto demais.

A criatura ergueu o pescoço, mandíbula aberta, pronta para devorá-lo. Então um som pesado cortou o ar. O golpe não era da fera — mas de uma marreta.

Josh estava ali.

O descendente dos féericos ergueu a arma com uma força brutal. O primeiro impacto caiu como um trovão, acertou o topo da cabeça da serpente e a forçou a recuar. O segundo veio de lado, ainda mais devastador, atingindo a lateral ferida e jogando o wyrm ao chão.

A fera ficou imóvel por um instante.

— Josh! — Kilian tentou gritar, mas a voz saiu rouca, abafada pela dor.

Ele viu o jovem avançar em direção à criatura, marreta erguida, olhar fixo como se nada mais existisse além do próximo golpe. Algo dentro de Kilian se agitou.

— A gente precisa sair daqui! — gritou, arrastando-se até ele. — Ele vai voltar! Não adianta só bater!

Josh não respondeu. O olhar vazio permanecia cravado no monstro. Kilian, desesperado, agarrou a manga do companheiro e puxou com toda a força que ainda restava.

Relutante, Josh recuou.

Os dois dispararam pela mata. Kilian arfava, usando as mãos etéreas e a magia de salto para se lançar de galho em galho. Josh vinha logo atrás, a força bruta o guiando, saltando sobre rochas e raízes como uma besta em perseguição.

Correram até alcançar a beira de um rio. Exaustos, pararam. Kilian caiu de joelhos, mergulhou as mãos trêmulas na água e a levou ao rosto. A corrente gelada o fez ofegar, mas trouxe algum alívio.

O silêncio pesava. Ele ergueu os olhos para Josh. O jovem de cabelos de oliva não disse nada. Continuava calado, imóvel, o olhar perdido em algum ponto que Kilian não compreendia.

— Isso não faz sentido... — murmurou Kilian, fitando a floresta adiante. — Por que ele desistiu assim?

O silêncio se prolongou. O peito dele apertou. Os punhos cerraram sozinhos. De repente, os olhos se arregalaram.

— Não! Garrik... Maya... Nariz de Batata! — O grito escapou, quase sem controle. Num salto, ele já corria. — Vamos, Josh. Espero que não seja tarde demais.

Josh seguiu logo atrás, calado como sempre. A urgência tomava conta dos dois.

***

— Fica comigo, Garrik... — murmurou Maya, ajoelhada ao lado dele. O suor escorria pelo rosto, os dedos trêmulos brilhando de luz. — Me escuta... eu tô aqui.

— Droga... aguenta só mais um pouco. — Mordeu o lábio, os braços tensos. — Não posso deixar essa magia apagar agora...

A cada instante, parecia que a energia lhe escapava pelas mãos. O rosto contraído revelava a luta.

— Vamos lá... fica comigo... — insistiu, a voz embargada. — A aura tá falhando, mas ainda sinto você... eu tô aqui.

O sangue no braço e na perna mutilados já não jorrava, mas a pele pulsava em carne viva.

— Não... não se preocupe com o braço... — A voz de Garrik saiu entrecortada, o rosto pálido. O sorriso forçado não alcançou os olhos. — Posso... pagar por uma regeneração... depois.

— Ficar sem um braço e uma perna não parece tão simples assim... — Maya murmurou, mordendo o lábio. O suor escorria pela têmpora.

Cada palavra exigia de Garrik uma força quase sobre-humana. Mesmo com sangue nos dentes, insistiu no sorriso.

— Se você tiver dinheiro... sempre há alguém que possa... fazer. — A voz sumiu, e os olhos se fecharam. Lutar contra a dor exigia tudo.

Nariz de Batata, que observava de longe, se aproximou com passos pesados.

— Maya... e o Cara de Prancha? — perguntou, o bigode pingando suor. — Aquele desgraçado ainda respira?

Maya ergueu os olhos cansados.

— Tá sim. Kilian desenterrou o rosto dele... conseguiu de novo. Surpreendeu a gente.

O anão soltou uma risada curta, quase incrédula.

— Hah! Quem diria. O moleque magrelo que mal sabia atirar com pau de fogo... e agora faz isso. É, Garrik, parece que o bem que você fez em treinar ele tá voltando pra você.

Maya pressionou as mãos nas feridas com mais força, o olhar endurecendo. Garrik gemeu, mas acenou.

— Ele... usa o que tem... com criatividade incomum. Eu só mostrei o caminho... mas ele aprende rápido. Muito rápido.

Nariz de Batata desviou o olhar para o horizonte. Mudou de assunto, agora com desconfiança no tom.

— E aquele descendente dos féericos? — perguntou, a testa franzida. — Que cara forte... De onde será que ele veio?

Garrik tentou abrir os olhos. Ainda ofegava.

— Eles podem ter... séculos... milênios. — A dor marcava cada sílaba. — Esses seres... são poderosos... sempre. — Virou um pouco a cabeça, na direção de Maya. — Veio com Kilian... não foi?

Maya hesitou. A voz saiu fria.

— Sim. Kilian o chamou de Josh.

— Já vi outros dessa raça. Mas tem alguma coisa nele que não me agrada... — Nariz de Batata murmurou. Balançou a cabeça. — Parece... esquisito.

Garrik soltou um suspiro pesado. Fechou os olhos por um instante.

— Peculiar... — A dor marcava suas feições.

O silêncio caiu sobre os três. O ar estava pesado.

— Mesmo que o Kilian tenha afastado o wyrm... — Maya rompeu o silêncio. — Não podemos deixar o corpo dele para trás. Vale muito.

Nariz de Batata soltou um resmungo.

— O Cara de Prancha... ainda tá apagado. É um merda mesmo. Agora não serve pra nada.

Garrik soltou outro suspiro. A voz mal passava de um sussurro.

— Não adianta... ficar aqui... desse jeito. Só para morrer. Precisamos sair... nos recuperar...

Fez uma pausa, ofegante.

— Talvez... se voltarmos mais preparados... a cidadezinha de Alariz... vai nos agradecer por matar esse wyrm.

Um som pesado rompeu a mata. Arrastar de algo imenso. Os três se entreolharam.

— O que foi isso...? — Maya murmurou. A voz tremia.

— Kilian...? — Nariz de Batata perguntou. Os olhos arregalados. A frase ficou pela metade.

O ruído aumentava. Maya engoliu seco, o coração acelerado.

— Não pode ser...

A vegetação explodiu. O wyrm surgiu, inteiro, monstruoso, as escamas amareladas faiscando sob a luz.

— Não temos escolha! — Nariz de Batata berrou, puxando o machado. Maya já erguia as mãos, preparando magia, mesmo sem fôlego.

— Não... — A voz de Garrik saiu fraca, mas firme. — Eu... posso... segurar ele... por um tempo. Depois... precisamos ir...

Mesmo com o olhar turvo de dor, os olhos dele ainda carregavam uma força final.

O wyrm rugiu com fúria.

Garrik, respirando com dificuldade e visivelmente fraco, ergueu a única mão. Os olhos brilharam com um poder sombrio. Um círculo de energia negra surgiu sob a criatura.

A magia veio como um estrondo. Das profundezas, brotaram tentáculos espectrais, grotescos, sinuosos. Avançaram em turbilhão. As garras escuras cravaram-se nas escamas do wyrm. A prisão de sombras fechou ao redor da criatura.

Ela lutava. Mas a magia parecia sugar sua força. Os tentáculos apertaram com violência.

— Agora... vamos! — A voz de Garrik cortou como um comando final. O suor escorria por seu rosto. As sombras responderam com ainda mais fúria.

Elas se contorceram, esmagaram, imobilizaram o monstro sob a força avassaladora da magia.

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