Volume 2
Capítulo 57: O wyrm: Parte 2
Cara de Prancha, com parte do rosto finalmente livre, tossiu com força, expelindo a lama que havia se infiltrado em seus pulmões. A barba negra estava coberta de barro, e os olhos piscavam rápido, semicerrados contra a luz depois do tempo preso.
— Kilian... — tentou falar, mas outra tosse seca o interrompeu, o corpo ainda pesado e preso pela lama ao redor.
— Fica calmo, meu velho amigo — disse Kilian, sem parar de libertá-lo. — Daqui a pouco você vai ser um homem livre de novo.
— Anão livre... — corrigiu com uma risada sem ar, o peito subindo e descendo devagar.
Enquanto isso, as caudas do wyrm castigavam o outro anão com fúria. Lama e pedras voavam a cada golpe. Uma delas passou rente a ele, enquanto outra tentou atingir Josh.
O jovem de feições inexpressivas arrastava a enorme marreta pelo chão, como um prenúncio de destruição. Não mostrou reação, não acelerou os passos — apenas avançava na direção do monstro com a mesma calma constante.
— Eu não tô acreditando no que tô vendo... Se mexe, garoto! Desse jeito ele vai te matar! — grunhiu Nariz de Batata, desviando de uma pedra lançada pelo agito da cauda do monstro.
O anão suava. O bigode pingava em gotas grossas, a barba já emaranhada de barro. Lançou um olhar rápido para Josh, mas voltou depressa a focar na cauda prestes a cair sobre ele.
— Anda, desgraça, mostra o que tem! — rosnou, a voz embargada pelo esforço.
O chão se abria em crateras com cada impacto, e as árvores ao redor já eram só lascas de madeira. Com um salto lateral, evitou o golpe e girou o machado em um arco poderoso. A lâmina acertou em cheio as escamas do wyrm.
— Agora sim — disse ele. — Me dê atenção!
A cabeça se virou em espasmos, as pupilas fendidas cravaram-se nos dois. Com um rosnado rouco, lançou outra cauda contra Nariz de Batata. O anão ergueu o cabo do machado para aparar, mas o impacto o atirou de costas pela folhagem úmida.
Logo em seguida, a bocarra do wyrm avançou numa mordida traiçoeira contra Josh.
O jovem apenas inclinou o corpo de lado, num gesto mínimo e sem pressa, destoando da violência do ataque.
— Por todos os barris de cerveja do norte... — resmungou Nariz de Batata ao se erguer. — Ele desvia como se isso fosse brincadeira.
O wyrm se enroscou entre os troncos ainda de pé. A barriga arrastava raízes e folhas. As asas abertas batiam contra as árvores próximas, enquanto buscava espaço. O pescoço se esticava, e os olhos varriam a clareira, atentos.
Nariz de Batata cravou os pés na terra. As pernas tremiam. A respiração saía curta, abafada pelo bigode úmido. Ele agarrou o cabo do machado com ambas as mãos e puxou com força. A lâmina se soltou do barro com um estalo surdo.
O anão cambaleou, mas firmou o passo. Avançou devagar. Cada músculo pesava, mas ainda erguia o machado com firmeza.
— Anda, maldito! — rosnou, a voz abafada pelo bigode. — Me dá uma chance…
As caudas não davam trégua. Estalavam perto, obrigando-o a rolar pelo barro e a se erguer de novo. Tentava golpear, mas o aço resvalava sem efeito contra as placas do monstro. O som seco ecoava pela clareira, cada golpe arrancando dele mais suor e mais fôlego.
— Isso aqui não é pra anão velho… — resmungou entre dentes, baixo, mas audível. — Se eu cair, que seja com o machado no alto.
No alto, Garrik sobrevoava a clareira, o manto açoitado pelo vento. Lá embaixo, o wyrm arrastava o corpo ferido, asas abertas em esforço desesperado para se erguer. O couro rasgado pendia ao vento.
— Já vai embora, tão cedo? — murmurou, os olhos semicerrados.
As mãos cortaram o ar. Traços translúcidos riscaram o espaço, o frio condensava em volta dos dedos. Cristais surgiram como se o céu congelasse. O ar se partia em linhas brilhantes, e até os galhos mais próximos ficaram brancos, cobertos de gelo repentino.
— Vamos ver o que você vai fazer agora.
A rajada azulada rasgou as copas e atingiu a base da asa. O gelo cresceu com estalos secos, travando o movimento. O wyrm urrou, o bater da asa partiu o bloco em fragmentos que caíram como cacos de vidro. O voo vacilou. A criatura tombou contra as árvores, galhos e folhas desabaram ao redor.
Um novo rugido sacudiu o ar quando a segunda asa se rompeu em estilhaços. Restaram duas, incapazes de sustentar o voo. O corpo escamoso caiu entre as árvores, caudas girando em golpes descontrolados que rasgavam o ar.
— Consegui! — gritou Garrik, enquanto descia devagar. — Mas ele ainda pode voar. Se isso acontecer…
No chão, Nariz de Batata ainda enfrentava o redemoinho de caudas. Rolava de um lado, mergulhava do outro, cada golpe quase o acertando em cheio. Saltou, o machado atingiu de novo as escamas e soltou faíscas no impacto. As caudas chicotearam de volta, obrigando-o a recuar.
— Maldição! Isso nunca vai acabar? — rugiu, arquejante, o corpo inteiro em tensão, olhos fixos em busca de uma brecha.
Enquanto isso, Kilian movia os braços com foco, os dedos brilhando à medida que a lama endurecida ao redor de Cara de Prancha começava a se dissolver. O suor escorria por seu rosto, mas ele não desviava os olhos da magia.
— Anda, só mais um pouco...
— Cuidado com o que você tá fazendo! — Maya cruzou os braços com força, a mandíbula rígida. — Se alguma coisa acontecer com ele, a culpa vai ser sua.
— Eu sei, Maya. Relaxa... — Kilian respondeu sem levantar o rosto, a voz tensa.
Maya apertou os braços contra o corpo, os pés inquietos no barro.
— Só tô avisando... Senão você vai acabar criando outro problema... — disse, antes de se virar de costas.
Cara de Prancha tossiu novamente. O rosto sujo de lama se ergueu um pouco, o ar entrando em puxadas curtas e ásperas.
— Quase lá, amigo. — Kilian sorriu, o suor pingando da testa.
Nariz de Batata surgiu por trás, o machado às costas. Com um grito seco, saltou contra o flanco da criatura e cravou a lâmina na base da asa. O impacto arrancou faíscas e o arremessou para cima.
— Vai me derrubar? Vai ter que suar! — berrou, os dentes cerrados.
Escalou os músculos tensos do wyrm, os pés firmes entre as placas escamosas. A criatura se sacudiu em espasmos. Um tranco mais forte lançou o anão longe. Ele atravessou raízes e folhas, caiu de ombro com um estalo surdo.
— Aí, tá de brincadeira! Essa coisa não cansa nunca? — rosnou, curvado, a mão apertando o próprio ombro. Os olhos, ainda assim, não largavam o monstro.
Ele lançou um olhar para Josh, parado, a marreta encostada no solo.
— E aí, qual é tua, cabelo de merda fluorescente? — resmungou. — Vai ajudar ou quer que eu desenhe?
Josh permaneceu imóvel. O olhar atravessava a batalha sem se fixar em nada.
— Que estranho... — murmurou Garrik, desviando de uma mordida no ar. — O que será que esse descendente dos féericos pretende fazer?
Sem aviso, Josh deu um passo à frente. Os movimentos, antes pesados, tornaram-se precisos. Os olhos percorriam as escamas irregulares, seguiam o ritmo das asas e rastreavam as sombras no chão. A marreta subiu com naturalidade em suas mãos.
Ele avançou.
Uma cauda veio em sua direção com um silvo cortante. Josh deslizou o pé no barro e o golpe passou sem tocá-lo. Num giro firme, a marreta desceu.
O impacto ecoou pela clareira. A cabeça em forma de dragão cuspiu uma labareda. Com um estalo seco, a cauda se partiu. O membro caiu inerte, enquanto as chamas corriam pelas escamas rasgadas.
— Eu não acredito... isso foi de verdade? — Nariz de Batata ofegou, a voz falhando.
Por um instante, o silêncio caiu sobre os que assistiam. A devastação parecia ter parado o tempo. Nariz de Batata arfava, o espanto escancarou seu rosto; até as asas do wyrm hesitaram no ar, como se a fera também tivesse sentido o golpe além da carne.
— Que um bulette me engula e depois cuspa só o meu bigode! — Nariz de Batata arregalou os olhos.
Do alto, Garrik parou no ar, a boca entreaberta, as mãos suspensas no meio do gesto.
— Ele acertou... — murmurou, com um sorriso breve.
Lá embaixo, o wyrm soltou um guincho grave. As caudas chicotearam em desespero enquanto o corpo se arrastava, curvado e descompassado. Os músculos restantes das asas se contraíam, empurrando a criatura em fuga. Ela abria caminho entre os escombros com velocidade inesperada.
— Acha que vai escapar depois disso? — rosnou Garrik, os olhos faiscando. — Vamos ver até onde consegue rastejar!
Ele avançou ao lado da fera, o olhar preso nas escamas rachadas. Os dedos se ergueram, a magia brilhou entre eles.
O monstro virou a cabeça de repente e lançou um jorro de lama escura. A substância cobriu os braços de Garrik até os cotovelos. A pele enrijeceu, oculta sob uma crosta opaca.
— Mas que...?! — Ele recuou, os dentes cerrados. — Isso aqui não vai me parar!
Girou no ar, afastou-se e murmurou uma magia. A crosta tremeu, quebrou em fragmentos de pedra. Os braços voltaram ao normal — mas Garrik agora flutuava de costas para o wyrm.
Foi o bastante.
A criatura projetou o pescoço como uma flecha. As mandíbulas se fecharam sobre ele com um estrondo abafado.
— Garrik! — O grito de Nariz de Batata explodiu logo depois, um rugido de fúria e pavor.
O wyrm balançava Garrik de um lado para o outro, o sangue escorrendo pelo torso perfurado e tingindo folhas e troncos. A cada sacudida, o corpo se dobrava com estalos secos, misturados ao rugido da fera.
— Não... não pode ser... — Maya murmurou atrás das mãos, a voz embargada. — Ele vai morrer desse jeito!
Nariz de Batata apertou o cabo do machado, os dentes cerrados de raiva. O silêncio sufocante que seguiu o estalo dos ossos fez o rugido parecer ainda mais terrível.
— Eu tô chegando! Aguenta firme, garoto! — disse o anão disparando na direção de Garrik, o machado firme nas mãos.
Do outro lado, Kilian, ajoelhado, mantinha as mãos sobre a lama que prendia Cara de Prancha. Os dedos tremiam, a transmutação avançava pouco. Maya cobria a boca, os olhos grudados no corpo suspenso nos dentes do monstro.
— Kilian, precisamos fazer alguma coisa! — A voz dela saiu engasgada.
— Só mais um pouco... o Josh está com eles. — Ele não desviava o olhar da lama.
— Kilian... — veio a voz rouca de Cara de Prancha. — Talvez a Maya tenha razão... olha pro Garrik.
O olhar de Kilian subiu. Garrik pendia inerte nas presas da criatura, coberto de sangue.
— Ele... ele morreu... — sussurrou Maya, as mãos ainda sobre a boca.
As palavras o atingiram como uma lâmina. Seus punhos se fecharam. A lama ainda o prendia ao anão.
— Não fala bobagem. — Kilian apertou os dentes. — Ele ainda tá vivo. Tem que estar...
Um rugido sacudiu o ar. Kilian se ergueu de súbito.
— Não posso esperar mais. Vamos, Maya!
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