Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 56: O wyrm

— Maya! — gritou Kilian. O nome escapou antes que pudesse pensar duas vezes. Seus olhos fixaram-se na figura no alto da encosta.

Ela gesticulava, frenética. O pânico dominava seus movimentos. Sua urgência era impossível de ignorar. Mesmo à distância, os gestos frenéticos dela deixavam clara a gravidade da situação.

O chão tremeu sob seus pés. Um estrondo distante ecoou pela floresta, seguido por uma explosão que sacudiu as árvores. Um rugido profundo e ameaçador ergueu-se logo em seguida, como se a terra inteira se contorcesse com o som.

Kilian olhou para Josh. Ele continuava imóvel, seus olhos agora presos na origem dos estrondos. Outro rugido reverberou, mais perto agora. O chão pulsava como se algo gigantesco se aproximasse.

— Vamos! — Kilian ordenou, enquanto corria em direção à encosta.

Eles subiram depressa. Os pés de Kilian afundavam na terra molhada. Mais explosões ecoavam ao longe, seguidas pelo rugido cada vez mais próximo. Quando chegou no topo, parou por um instante.

— Maya! — chamou, sem hesitar.

Maya cavava com as mãos num pequeno monte de lama. Seu rosto estava imundo, os olhos arregalados.

Ao lado, um enorme martelo de guerra jazia caído. O cabo, esculpido em forma de uma serpente-dragão enrolada até a cabeça, parecia de um metal pesado e brilhante. Marcas de impacto se espalhavam pelo monte, mas nada que ameaçasse destruí-lo.

— Me ajuda aqui! — gritou a garota, a voz trêmula. Ela apontava para o monte de terra como se implorasse.

— Calma, o que houve? — perguntou Kilian, mas foi interrompido por um grito.

— O... o Cara de Prancha... o wyrm apareceu do nada! O sopro dele... eu não sei, tudo foi rápido demais! Ele tava lutando e agora tá ali... ou... ou não!

Os gestos dela eram exaltados, as mãos agitadas como se quisesse espantar o próprio medo.

Kilian se aproximou, mas ela já havia se levantado. Com força, ergueu aquele martelo e golpeou o monte de lama calcificada. Apenas uma lasca se soltou. Uma chama breve saiu da boca metálica do dragão esculpido no topo do cabo da marreta.

Maya recuou um passo, os olhos fixos no monte.

— Não tá funcionando! Droga! — Ela atirou a marreta no chão, suas mãos tremiam de frustração.

— Maya, espera... quem tá onde? — Kilian se adiantou, confuso.

Ela se virou bruscamente, o rosto contorcido em raiva e pânico.

— Você é idiota, por acaso?! — gritou. — O Cara de Prancha! Ele tá soterrado nessa droga de lama dura, e eu...

Ela chutou o monte, depois puxou os próprios cabelos com as mãos sujas de lama.

— Eu não consigo tirar ele!

Ela voltou a se ajoelhar e cavar com as mãos. Cada respiração era um misto de desespero e cansaço.

Outro rugido sacudiu o ar, seguido por mais explosões que fizeram o solo vibrar.

— Você já tentou usar transmutação para amolecer a lama? — A pergunta veio direta.

Maya parou. Os dedos cobertos de sangue e terra ficaram suspensos no ar, um leve tremor percorreu seu corpo como uma corrente elétrica. Ela olhou para o monte de lama endurecida, depois voltou a cavar ainda mais rápido.

— Tentei. Não dá — respondeu enquanto continuava sua tarefa, sem encarar Kilian, a voz tensa.

Ele observou por um momento antes de se abaixar ao lado dela, suas mãos prontas para tocar a lama.

— Deixa comigo. Talvez eu consiga.

Maya parou de repente. Jogou a terra de lado, como se empurrasse um peso invisível. Balançou a cabeça, ao mesmo tempo em que desviou o olhar.

— Não! Só cava. Desenterra a cabeça pra ele respirar. O Garrik resolve o resto depois!

As palavras saíram apressadamente. Ela evitava Kilian, como se a proximidade dele a irritasse ainda mais.

— Não, eu vou soltar ele.

Ela recuou um passo, os ombros rígidos, os olhos faiscantes. Ela apertou os punhos de tal maneira que as unhas quebradas restantes se cravaram na pele.

— Eu tentei e falhei. Você também vai! — A voz saiu cortante, entre raiva e desespero.

Kilian a ignorou. Ele abaixou-se e depois tocou com os dedos a superfície áspera da lama endurecida.

— Não faz mal. Eu vou tentar, de qualquer jeito.

Kilian moveu as mãos, mas Maya agarrou seu ombro e apertou com força.

— Para! Você não sabe o que tá fazendo! Vai acabar transmutando o corpo dele junto com o lodo! — disse ela com a voz presa entre os dentes cerrados. Seus olhos arregalados e a voz trêmula denunciavam o desespero.

Ele ergueu uma sobrancelha e soltou um riso curto, debochado.

— E você sabe por acaso? Porque até agora só vi você dando socos nessa lama.

O rosto dela se contraiu em indignação. Os dedos apertaram ainda mais o ombro dele antes de soltá-lo com um movimento brusco.

— Ah, claro, porque o grande gênio, que já sabe usar magia há tanto tempo, vai resolver, né? Há quanto tempo mesmo? Ah, lembrei: dois meses. Mal saiu das fraldas e já tá se achando.

Kilian inclinou a cabeça para o lado. Naquele momento, seus olhos estreitaram-se num brilho cortante.

— Se você soubesse tanto assim, já tinha resolvido sozinha. Mas olha só... quem foi mesmo que precisou que eu lembrasse do óbvio?

A mandíbula dela travou por um instante, mas nenhuma resposta veio. O silêncio que se seguiu fez o ar parecer denso, como se ninguém ousasse quebrá-lo.

Josh até então calado abaixou-se e pegou a marreta jogada no chão. Os dedos passaram lentamente pelos entalhes no cabo. Ele contemplava o horizonte como se nada ao redor lhe dissesse respeito.

— Vamos... só mais um pouco. — resmungou Kilian enquanto transmutava a lama.

A terra começou a ceder. Pequenas rachaduras se espalhavam, e a lama escorria pelos veios abertos. Entre os grãos escuros, cabelos negros começaram a surgir.

Kilian manteve os olhos fixos no solo, as mãos ainda firmes na magia. Maya se abaixou ao lado dele, seus dedos tocaram a testa de Cara de Prancha, em busca de algum sinal.

— Ele ainda tá vivo! — disse, aliviada. — Vai! Precisamos tirar ele daí, rápido!

Josh permanecia imóvel, marreta em mãos, o olhar preso no horizonte. Os rugidos distantes reverberavam pelo campo, mas ele não reagia.

Maya estreitou os olhos para ele.

— Ei, você aí! — Levantou-se de súbito, enquanto avançou um passo na direção dele. — Solta essa marreta! Quem você acha que é pra pegar uma arma dessas como se fosse sua?!

Nenhuma resposta. Nenhuma mudança em seu rosto. Só o olhar vidrado na direção dos rugidos.

— Não adianta... — murmurou Kilian, sem desviar os olhos da lama. — Ele não vai te ouvir.

Maya se virou bruscamente.

— Como assim, não vai ouvir? — O tom dela afiado. — Esse cara tem problema de cabeça? O que ele tá pensando, só chega e pega as coisas dos outros?!

Kilian deu de ombros, concentrado na magia.

— Ele é assim mesmo. Ainda não entendi como lidar com ele.

Outro rugido sacudiu o ar. Do alto, Garrik surgiu, enquanto disparava feixes de luz verde contra escamas amareladas que reluziam feito bronze. Nariz de Batata corria encosta abaixo, machado erguido, quando desviou de um golpe de cauda.

— Nariz! Vou puxá-lo pra esquerda! — gritou Garrik. — Tenta acertar as caudas!

— Tô tentando! — rosnou o anão, os dentes cerrados. — Mas essa porcaria não para de se mexer!

O wyrm se retorceu, suas quatro asas agitavam o vento a ponto de dobrar as árvores. O movimento das caudas fendeu o solo, pedras e lama foram lançados no ar. Quando abriu a bocarra, um brilho escuro e mágico se acumulou no fundo da garganta.

— Kilian, rápido! — Maya olhou nervosa para a criatura. — Ele já tá quase fora, só dá um espaço pra ele respirar e corre!

— Ele vai usar o sopro de novo! — gritou Garrik, o tom de urgência da sua voz cortou o caos. — Saiam daí!

Os braços de Kilian tremiam com o esforço, mas ele não parou.

— Só mais um pouco... — sussurrou, a voz rouca.

Maya se ajoelhou e começou a cavar a lama amolecida com as mãos. O bater das asas levantou poeira e folhas, enquanto inclinava a cabeça para disparar.

Josh deu um passo à frente.

— Rápido, Kilian! — A voz de Maya vacilava.

No instante seguinte, Josh saltou. Aterrissou direto sobre Cara de Prancha, como se usasse o corpo do anão soterrado como impulso para outro salto.

— O quê...?! — Kilian ficou imóvel, encarando-o em choque.

Maya ficou boquiaberta, depois cerrou os punhos.

— Seu idiota! — gritou, furiosa. — Vai esmagar ele!

Mas Josh já não estava mais ali.

A marreta cortou o ar em um arco certeiro e atingiu a cabeça do wyrm. O impacto gerou uma onda de choque que sacudiu a floresta. Quase ao mesmo tempo, chamas irromperam da escultura de dragão na arma. O calor da labareda foi tão intenso que fez o metal da arma brilhar ao rubro.

A criatura foi arremessada com violência e rolou descontrolada pelo solo. Suas caudas se enroscaram ao redor do próprio corpo à medida que varria a mata. Árvores foram arrancadas, esmagadas sob seu peso.

O wyrm atingiu o chão. Por um instante, o silêncio engoliu a floresta — então veio o estrondo, fazendo a terra tremer. Quando a poeira baixou, onde antes havia apenas mata densa, surgiu uma clareira de devastação.

A criatura se contorcia sobre os destroços. Uma de suas asas, retorcida e coberta de sangue, tremulava debilmente.

Mesmo assim, ainda tentava se erguer.

Nariz de Batata e Garrik observavam, imóveis. Logo em seguida, o descendente dos féericos pousou no chão com a marreta em mãos.

— Quem diabos, nas costas de um troll podre, é esse sujeito? — murmurou Nariz de Batata, os olhos arregalados.

Garrik piscou várias vezes. A boca se abriu como se fosse falar algo, mas nenhuma palavra saiu. Seus olhos saltavam entre o wyrm e Josh, sem parar, como se não conseguissem fixar-se em nenhum dos dois.

Maya bufou e cruzou os braços.

— Claro, porque é isso que a gente precisa agora. Outro maluco esquisito.

Seu olhar encontrou Kilian por um instante. Josh já estava em movimento.

— Maya, vai ajudar eles. Eu cuido das coisas aqui.

Ela parou por um instante, os músculos tensos, antes de dar o próximo passo.

A fera soltou um bramido profundo. O som reverberou pela floresta, o chão vibrou como se fosse desmoronar. As asas batiam contra o solo, e suas caudas chicoteavam furiosas, lançando lama e folhas secas.

Nariz de Batata segurou firme o machado. Cada golpe da cauda cortava o ar com um silvo ameaçador.

— Garrik! Esse bicho tá furioso! Não podemos deixar ele levantar de novo!

O mago voou, movia as mãos com precisão.

— Cuidado com as caudas! Vou focar nas asas!

A energia púrpura brilhou ao redor dele. Uma explosão atingiu o flanco do wyrm. As escamas, antes impenetráveis, escureceram sob as chamas.

— Toma, seu desgraçado! — rosnou Nariz de Batata, enquanto descia o barranco com pressa.

O wyrm rugiu de dor. Sua cabeça se ergueu, mandíbulas abertas. Um jato de lama espessa disparou direto no mago.

Garrik reagiu no último segundo. Conjurou uma barreira translúcida. O impacto fez a barreira tremer, mas a lama escorreu inofensiva pelo ar. O mago sorriu, enquanto flutuava acima.

Nariz de Batata grunhiu ao desviar de outra cauda. Rolou pelo chão, respiração acelerada, mas os olhos atentos não deixavam o monstro. Seus olhos fixaram-se na criatura, acompanhando cada movimento em silêncio, o corpo pronto para reagir.

Enquanto o combate rugia, Kilian permanecia ajoelhado ao lado de Cara de Prancha. Suas mãos sujas de lama e suor manipulavam o solo ao redor do anão, a terra agora mole como argila.

— Kilian, como estão as coisas aí? — A voz de Garrik cortou o caos.

— Quase lá! — gritou Kilian. — Vou tentar deixar o rosto dele livre!

O wyrm soltou um rosnado baixo. Sua respiração era pesada, e os olhos arregalados brilhavam sob a poeira, fixos no grupo.

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