Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 55: O portal da tempestade

A figura de cabelos prateados ajeitou-se.

— A história dele é interessante — disse em um tom pensativo. — Há alguns séculos, no sul, havia uma família aparentemente perfeita. O pai, um nobre de baixa importância, e a mãe, uma linda camponesa. A filha mais velha, um exemplo de comportamento na sociedade.

Ele fez uma pausa, enquanto contemplava Josh se afastar ao lado de Kilian.

— Tudo era difícil. Classes sociais diferentes. Então veio o segundo filho. Era um descendente dos féericos.

Phong manteve-se em silêncio, sua atenção fixa em Josh.

— No início, julgaram ser uma bênção. Cabelos verde-oliva, como as cores da casa do pai. Mas a mãe notou algo estranho desde o início... — disse ele em voz baixa.

Um breve silêncio caiu entre eles. Phong continuava impassível, enquanto o outro descendente dos féericos prosseguia.

— Depois disso, tudo acabou. O pai os deixou, casou-se com uma jovem nobre. A mãe ficou com o fardo de criar o garoto. Pouco tempo depois ela morreu... e ele sequer percebeu.

Phong desviou o olhar por um momento, como se algo nas palavras lhe chamasse a atenção.

— A irmã também se afastou. Nunca encontrou um par. No fim, fugiu da vergonha. Ele? Simplesmente vagou. Pacífico... desde que ninguém o provocasse. Até a época do Levante.

Um silêncio pairou entre os dois.

— Dizem que ele matou mil druidas com apenas uma espada quebrada.

— É, o garoto virou uma lenda — Phong murmurou. 

— Foi uma pena ele ter recusado ser um dos Onze.

O silêncio se instalou entre eles quando Josh e Kilian desapareceram na multidão.

— Provavelmente foram os druidas que o trouxeram para cá. A questão é: por que?

— Eles têm planos. A presença dele pode mudar tudo. Esse equilíbrio frágil entre os druidas e a civilização... ele pode ser o fator desestabilizante.

Outro silêncio. Phong apertou os lábios, ainda pensativo.

— Eles vão agir em breve — concluiu, com a voz firme. — A Rainha do Massacre está quase livre. Junte isso à certeza de uma guerra... é o momento perfeito para agirem.

— Com certeza. Depois de tanto tempo, até o Shaykor apareceu. Em breve, os outros também virão para preparar o caminho do seu deus. E aqui vai ser o campo de batalha.

Phong assentiu levemente, enquanto os dois continuavam a observar o horizonte, onde Kilian e Josh haviam desaparecido na agitação dos Quangras.

***

— Acho que é por aqui — disse Kilian, enquanto caminhava com a carta em mãos, embrenhado em ruas onde pessoas suspeitas se aglomeravam.

Josh seguia em silêncio, seus passos firmes e constantes. Kilian já estava acostumado à falta de resposta.

— Estamos quase lá, Josh. — Ele acelerou o passo. — Garrik falou desse lugar na carta. Ele avisou que coisas podem ficar mais sombrias daqui em diante.

As ruas largas e iluminadas deram lugar a becos estreitos, onde as construções eram desgastadas e as sombras se alongavam.

— Dizem que aqui é perigoso — comentou Kilian, depois de lançar um olhar rápido para o companheiro. — Mas, segundo Garrik, não é tão ruim quanto parece...

Ele apontou para um construto Quangra que patrulhava uma viela.

— Caramba, olha isso.

A armadura metálica riscada refletia a luz fraca do sol entre os prédios.

— Os Quangras podem até fingir que protegem esse lugar — continuou Kilian, depois de acenar para o guardião —, mas deve ser só pra agradar os comerciantes dos distritos ricos. No fundo, não muda nada.

Josh permaneceu impassível, enquanto Kilian desviava o olhar para um pôster chamativo colado na parede. O cartaz colorido e desgastado destoava do cenário decadente.

— Olha isso... — Kilian se aproximou, intrigado. — Um pôster da Academia Letniciana. Estão recrutando aventureiros para um torneio... — Ele leu atentamente. — Se for bom o bastante, pode acabar estudando lá.

Kilian encarou o cartaz por um instante.

— Uma vez, Josh, vi seis deles no telhado de uma casa. Eu acho que eles tavam numa missão no distrito evacuado. Foi no mesmo dia em que eu e Caelinus fomos atacados por um tigre que saiu de um portal. Pareciam incríveis...

Ele ficou quieto por um momento, enquanto apertava os lábios.

— Será que eu teria chance?

Josh raspava a unha contra a parede, indiferente. Kilian suspirou e balançou a cabeça.

— Melhor esquecer... Nunca vou estar nesse nível.

Ele lançou um último olhar ao pôster e seguiu em frente. As ruas se tornavam cada vez mais estreitas e escuras num formato labiríntico.

— Vamos, Josh. — Ele acelerou o passo. — Já que vamos enfrentar uma criatura poderosa, melhor ver se consigo comprar um equipamento pra você.

Kilian abriu a porta de uma loja de equipamentos, uma das poucas fixas na área, onde a maioria dos mercadores era ambulante. O sino na entrada soou levemente.

Josh o seguiu.

Kilian observou as prateleiras repletas de armaduras leves, roupas de couro e tecidos reforçados.

— Vamos ver se encontramos algo pra você — disse Kilian, antes de caminhar até o balcão.

O vendedor, um homem robusto, levantou os olhos de uma peça de metal que polia.

— Procurando algo específico?

— Sim, alguma coisa leve e confortável — respondeu Kilian. — Ele precisa de uma roupa de combate, mas nada sofisticado demais.

O vendedor apontou para uma seção com roupas reforçadas.

— Temos algumas opções.

Kilian pegou uma calça de couro escuro e a estendeu para Josh.

— Experimenta essa.

Josh lançou um olhar rápido para a calça antes de desviar os olhos. Kilian suspirou e pegou uma camisa de linho desgastada, mas de boa qualidade.

— E essa? Parece confortável.

Josh não respondeu de imediato. Seus olhos caíram sobre um escudo encostado em um canto da loja. A borda metálica estava amassada, e um pequeno brasão quase apagado indicava que já tivera dono.

— Parece que já viu batalhas, hein? — comentou Kilian, com um olhar analítico sobre a peça.

O vendedor ajeitou algumas armaduras e, logo depois, ergueu a cabeça.

— Tudo aqui é de qualidade. Foi bem cuidado. — Ele sorriu. — O preço é bom também. Algumas têm história, porém, a gente deixa de fora.

Kilian ergueu uma sobrancelha. Josh pegou a calça de couro e, sem hesitação, soltou a corda que mantinha sua própria calça no lugar. Ela caiu no chão. Nu, virou-se e começou a caminhar em direção à porta.

— Ei, Josh! — gritou Kilian, enquanto corria atrás dele. — Você não pode sair por aí assim!

Josh seguiu pela rua sem se importar com os olhares atônitos dos passantes. Kilian apressou-se, na tentativa de cobri-lo com a roupa.

— Josh, por favor, volta aqui! — implorou Kilian, quando o alcançou. — Você tá me matando de vergonha. Vamos, vou achar algo que você goste.

Após várias tentativas, Kilian já esfregava a testa, exausto.

— Que tal essa? — ofereceu uma camisa de tecido fino, esperançoso.

Josh passou os dedos pelo tecido macio e sua expressão, por um instante, se suavizou. Pegou também uma calça de couro e vestiu as peças sem protesto.

Kilian suspirou, aliviado.

— Até que enfim...

O vendedor os observava com uma expressão entre surpresa e diversão.

— E sapatos, nem pensar, né?

Josh lançou um breve olhar para um par de botas, mas logo ignorou.

— Acho melhor não arriscar mais. Vamos deixar assim, senhor.

Depois de pagar pelas roupas, Kilian agradeceu ao vendedor e saiu com Josh.

— Certo, agora vamos para o portal — disse Kilian, enquanto ajustava a mochila. — Acho que estamos prontos... ou quase isso.

Saindo da loja, eles avançavam pelas ruas estreitas, onde as construções cediam ao tempo e ao abandono. O ruído da cidade ficava para trás, substituído por um silêncio inquietante e pelo farfalhar do vento entre vielas escuras.

Kilian puxou a carta da bolsa.

— As coordenadas estão certas, e os pontos de referência também. É isso! Estamos no caminho. O portal deve estar perto. — disse ele antes de dobrar o papel e o guardar.

Josh seguia em silêncio, os passos ritmados. Apenas observava, indiferente.

Ao virarem a esquina, encontraram o portal, oculto entre prédios em ruínas. Tremeluzia instável, como se pudesse sumir a qualquer instante. No chão, uma placa improvisada balançava ao vento:

“PERIGO - NÃO SE APROXIME.”

Pequenos detritos flutuavam ao redor.

Kilian se aproximou, sentiu a vibração no ar. Josh fitava a passagem, imóvel.

— Então é isso. — Kilian roçou os dedos na superfície fria. — Vamos.

Respirou fundo e atravessou. O portal os engoliu.

Assim que pisaram do outro lado, a aridez sufocante se dissipou.

Kilian passou a mão no rosto enquanto sentia a umidade pegajosa que colava as roupas à pele.

— Esse lugar é pior do que parecia. O cheiro também não ajuda.

O chão inclinava abruptamente. Ao pisar em um musgo escorregadio sobre pedras irregulares, ele deslizou, mas logo recuperou o equilíbrio.

— O terreno também não facilita.

As árvores, torcidas como garras, se enroscavam no céu. Raízes grossas emergiam do solo inclinado, como se formassem armadilhas traiçoeiras. O céu, carregado de nuvens escuras, parecia prestes a desabar.

Um trovão retumbou à distância.

Kilian olhou para trás. Onde antes havia o portal, restava apenas uma sombra entre as árvores. Jillar já parecia um mundo distante.

— Agora não tem mais volta.

Ao avançar, afundou os pés na lama.

— Vamos ter problemas para nos mover.

Josh inclinou-se para observar o chão. Vermes pálidos emitiam um brilho fraco ao mesmo tempo que se enroscavam na vegetação podre. Vinhas pingavam uma seiva viscosa e reluziam sob a luz difusa.

Uma criatura emergiu da névoa. Escamas molhadas em um verde profundo refletiam a pouca luz, enquanto serpentes d’água deslizavam ao redor, indiferentes à presença dos dois.

Kilian observou o movimento.

— Não baixe a guarda.

Outro trovão cortou o céu. A umidade carregada tornava o ar pesado. Ele limpou o rosto com o antebraço.

— Que céu mais estranho. Parece que vai ter nevasca, mas com esse calor... É, pelo menos a lama não te atrapalha.

Josh seguiu em silêncio, os passos firmes apesar do terreno traiçoeiro. Um trovão ribombou mais perto. Ele hesitou por um instante, mas logo retomou o ritmo.

— Melhor apressarmos o passo. Se esse tal Wyrm estiver por aqui, como o Garrik falou, logo vamos topar com ele.

Avançavam pela mata quando um rugido profundo cortou o ar. Kilian parou. Os músculos travaram.

Ele se virou para Josh. O outro estava imóvel, olhos fixos no horizonte, atento a cada detalhe.

— Você ouviu?

Josh não respondeu, mas suas narinas se abriram levemente, como se captassem algo.

O silêncio se fechou ao redor deles. Nem o vento ousava se mover. Apenas o farfalhar de suas botas contra a lama quebrava a quietude sufocante.

A vegetação cedeu, revelando uma clareira devastada. Árvores partidas ao meio, troncos espalhados como brinquedos quebrados. Cinzas e símbolos mágicos queimavam no chão entre destroços de um acampamento destruído.

Kilian se aproximou, os lábios apertados. Agachou-se ao lado da terra escura.

— Era aqui. As árvores... magia do Garrik. Mas isso...

Tocou o solo e recuou no mesmo instante. Pegou um punhado de terra e espalhou-o pelos dedos.

— Ainda quente. Algo recente.

Josh varria o cenário com os olhos, como se absorvesse cada detalhe em silêncio.

Kilian se ergueu, os ombros tensos.

— Foram pegos de surpresa.

Sem perder tempo, seguiram em frente. A clareira se fechava atrás deles quando um grito rasgou o ar:

— Kilian!

Ele ergueu a cabeça. No alto da encosta, uma figura familiar os chamava, a voz marcada pelo pânico, enquanto suas mãos gesticulavam freneticamente.

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