Volume 2
Capítulo 55: O portal da tempestade
A figura de cabelos prateados ajeitou-se.
— A história dele é interessante — disse em um tom pensativo. — Há alguns séculos, no sul, havia uma família aparentemente perfeita. O pai, um nobre de baixa importância, e a mãe, uma linda camponesa. A filha mais velha, um exemplo de comportamento na sociedade.
Ele fez uma pausa, enquanto contemplava Josh se afastar ao lado de Kilian.
— Tudo era difícil. Classes sociais diferentes. Então veio o segundo filho. Era um descendente dos féericos.
Phong manteve-se em silêncio, sua atenção fixa em Josh.
— No início, julgaram ser uma bênção. Cabelos verde-oliva, como as cores da casa do pai. Mas a mãe notou algo estranho desde o início... — disse ele em voz baixa.
Um breve silêncio caiu entre eles. Phong continuava impassível, enquanto o outro descendente dos féericos prosseguia.
— Depois disso, tudo acabou. O pai os deixou, casou-se com uma jovem nobre. A mãe ficou com o fardo de criar o garoto. Pouco tempo depois ela morreu... e ele sequer percebeu.
Phong desviou o olhar por um momento, como se algo nas palavras lhe chamasse a atenção.
— A irmã também se afastou. Nunca encontrou um par. No fim, fugiu da vergonha. Ele? Simplesmente vagou. Pacífico... desde que ninguém o provocasse. Até a época do Levante.
Um silêncio pairou entre os dois.
— Dizem que ele matou mil druidas com apenas uma espada quebrada.
— É, o garoto virou uma lenda — Phong murmurou.
— Foi uma pena ele ter recusado ser um dos Onze.
O silêncio se instalou entre eles quando Josh e Kilian desapareceram na multidão.
— Provavelmente foram os druidas que o trouxeram para cá. A questão é: por que?
— Eles têm planos. A presença dele pode mudar tudo. Esse equilíbrio frágil entre os druidas e a civilização... ele pode ser o fator desestabilizante.
Outro silêncio. Phong apertou os lábios, ainda pensativo.
— Eles vão agir em breve — concluiu, com a voz firme. — A Rainha do Massacre está quase livre. Junte isso à certeza de uma guerra... é o momento perfeito para agirem.
— Com certeza. Depois de tanto tempo, até o Shaykor apareceu. Em breve, os outros também virão para preparar o caminho do seu deus. E aqui vai ser o campo de batalha.
Phong assentiu levemente, enquanto os dois continuavam a observar o horizonte, onde Kilian e Josh haviam desaparecido na agitação dos Quangras.
***
— Acho que é por aqui — disse Kilian, enquanto caminhava com a carta em mãos, embrenhado em ruas onde pessoas suspeitas se aglomeravam.
Josh seguia em silêncio, seus passos firmes e constantes. Kilian já estava acostumado à falta de resposta.
— Estamos quase lá, Josh. — Ele acelerou o passo. — Garrik falou desse lugar na carta. Ele avisou que coisas podem ficar mais sombrias daqui em diante.
As ruas largas e iluminadas deram lugar a becos estreitos, onde as construções eram desgastadas e as sombras se alongavam.
— Dizem que aqui é perigoso — comentou Kilian, depois de lançar um olhar rápido para o companheiro. — Mas, segundo Garrik, não é tão ruim quanto parece...
Ele apontou para um construto Quangra que patrulhava uma viela.
— Caramba, olha isso.
A armadura metálica riscada refletia a luz fraca do sol entre os prédios.
— Os Quangras podem até fingir que protegem esse lugar — continuou Kilian, depois de acenar para o guardião —, mas deve ser só pra agradar os comerciantes dos distritos ricos. No fundo, não muda nada.
Josh permaneceu impassível, enquanto Kilian desviava o olhar para um pôster chamativo colado na parede. O cartaz colorido e desgastado destoava do cenário decadente.
— Olha isso... — Kilian se aproximou, intrigado. — Um pôster da Academia Letniciana. Estão recrutando aventureiros para um torneio... — Ele leu atentamente. — Se for bom o bastante, pode acabar estudando lá.
Kilian encarou o cartaz por um instante.
— Uma vez, Josh, vi seis deles no telhado de uma casa. Eu acho que eles tavam numa missão no distrito evacuado. Foi no mesmo dia em que eu e Caelinus fomos atacados por um tigre que saiu de um portal. Pareciam incríveis...
Ele ficou quieto por um momento, enquanto apertava os lábios.
— Será que eu teria chance?
Josh raspava a unha contra a parede, indiferente. Kilian suspirou e balançou a cabeça.
— Melhor esquecer... Nunca vou estar nesse nível.
Ele lançou um último olhar ao pôster e seguiu em frente. As ruas se tornavam cada vez mais estreitas e escuras num formato labiríntico.
— Vamos, Josh. — Ele acelerou o passo. — Já que vamos enfrentar uma criatura poderosa, melhor ver se consigo comprar um equipamento pra você.
Kilian abriu a porta de uma loja de equipamentos, uma das poucas fixas na área, onde a maioria dos mercadores era ambulante. O sino na entrada soou levemente.
Josh o seguiu.
Kilian observou as prateleiras repletas de armaduras leves, roupas de couro e tecidos reforçados.
— Vamos ver se encontramos algo pra você — disse Kilian, antes de caminhar até o balcão.
O vendedor, um homem robusto, levantou os olhos de uma peça de metal que polia.
— Procurando algo específico?
— Sim, alguma coisa leve e confortável — respondeu Kilian. — Ele precisa de uma roupa de combate, mas nada sofisticado demais.
O vendedor apontou para uma seção com roupas reforçadas.
— Temos algumas opções.
Kilian pegou uma calça de couro escuro e a estendeu para Josh.
— Experimenta essa.
Josh lançou um olhar rápido para a calça antes de desviar os olhos. Kilian suspirou e pegou uma camisa de linho desgastada, mas de boa qualidade.
— E essa? Parece confortável.
Josh não respondeu de imediato. Seus olhos caíram sobre um escudo encostado em um canto da loja. A borda metálica estava amassada, e um pequeno brasão quase apagado indicava que já tivera dono.
— Parece que já viu batalhas, hein? — comentou Kilian, com um olhar analítico sobre a peça.
O vendedor ajeitou algumas armaduras e, logo depois, ergueu a cabeça.
— Tudo aqui é de qualidade. Foi bem cuidado. — Ele sorriu. — O preço é bom também. Algumas têm história, porém, a gente deixa de fora.
Kilian ergueu uma sobrancelha. Josh pegou a calça de couro e, sem hesitação, soltou a corda que mantinha sua própria calça no lugar. Ela caiu no chão. Nu, virou-se e começou a caminhar em direção à porta.
— Ei, Josh! — gritou Kilian, enquanto corria atrás dele. — Você não pode sair por aí assim!
Josh seguiu pela rua sem se importar com os olhares atônitos dos passantes. Kilian apressou-se, na tentativa de cobri-lo com a roupa.
— Josh, por favor, volta aqui! — implorou Kilian, quando o alcançou. — Você tá me matando de vergonha. Vamos, vou achar algo que você goste.
Após várias tentativas, Kilian já esfregava a testa, exausto.
— Que tal essa? — ofereceu uma camisa de tecido fino, esperançoso.
Josh passou os dedos pelo tecido macio e sua expressão, por um instante, se suavizou. Pegou também uma calça de couro e vestiu as peças sem protesto.
Kilian suspirou, aliviado.
— Até que enfim...
O vendedor os observava com uma expressão entre surpresa e diversão.
— E sapatos, nem pensar, né?
Josh lançou um breve olhar para um par de botas, mas logo ignorou.
— Acho melhor não arriscar mais. Vamos deixar assim, senhor.
Depois de pagar pelas roupas, Kilian agradeceu ao vendedor e saiu com Josh.
— Certo, agora vamos para o portal — disse Kilian, enquanto ajustava a mochila. — Acho que estamos prontos... ou quase isso.
Saindo da loja, eles avançavam pelas ruas estreitas, onde as construções cediam ao tempo e ao abandono. O ruído da cidade ficava para trás, substituído por um silêncio inquietante e pelo farfalhar do vento entre vielas escuras.
Kilian puxou a carta da bolsa.
— As coordenadas estão certas, e os pontos de referência também. É isso! Estamos no caminho. O portal deve estar perto. — disse ele antes de dobrar o papel e o guardar.
Josh seguia em silêncio, os passos ritmados. Apenas observava, indiferente.
Ao virarem a esquina, encontraram o portal, oculto entre prédios em ruínas. Tremeluzia instável, como se pudesse sumir a qualquer instante. No chão, uma placa improvisada balançava ao vento:
“PERIGO - NÃO SE APROXIME.”
Pequenos detritos flutuavam ao redor.
Kilian se aproximou, sentiu a vibração no ar. Josh fitava a passagem, imóvel.
— Então é isso. — Kilian roçou os dedos na superfície fria. — Vamos.
Respirou fundo e atravessou. O portal os engoliu.
Assim que pisaram do outro lado, a aridez sufocante se dissipou.
Kilian passou a mão no rosto enquanto sentia a umidade pegajosa que colava as roupas à pele.
— Esse lugar é pior do que parecia. O cheiro também não ajuda.
O chão inclinava abruptamente. Ao pisar em um musgo escorregadio sobre pedras irregulares, ele deslizou, mas logo recuperou o equilíbrio.
— O terreno também não facilita.
As árvores, torcidas como garras, se enroscavam no céu. Raízes grossas emergiam do solo inclinado, como se formassem armadilhas traiçoeiras. O céu, carregado de nuvens escuras, parecia prestes a desabar.
Um trovão retumbou à distância.
Kilian olhou para trás. Onde antes havia o portal, restava apenas uma sombra entre as árvores. Jillar já parecia um mundo distante.
— Agora não tem mais volta.
Ao avançar, afundou os pés na lama.
— Vamos ter problemas para nos mover.
Josh inclinou-se para observar o chão. Vermes pálidos emitiam um brilho fraco ao mesmo tempo que se enroscavam na vegetação podre. Vinhas pingavam uma seiva viscosa e reluziam sob a luz difusa.
Uma criatura emergiu da névoa. Escamas molhadas em um verde profundo refletiam a pouca luz, enquanto serpentes d’água deslizavam ao redor, indiferentes à presença dos dois.
Kilian observou o movimento.
— Não baixe a guarda.
Outro trovão cortou o céu. A umidade carregada tornava o ar pesado. Ele limpou o rosto com o antebraço.
— Que céu mais estranho. Parece que vai ter nevasca, mas com esse calor... É, pelo menos a lama não te atrapalha.
Josh seguiu em silêncio, os passos firmes apesar do terreno traiçoeiro. Um trovão ribombou mais perto. Ele hesitou por um instante, mas logo retomou o ritmo.
— Melhor apressarmos o passo. Se esse tal Wyrm estiver por aqui, como o Garrik falou, logo vamos topar com ele.
Avançavam pela mata quando um rugido profundo cortou o ar. Kilian parou. Os músculos travaram.
Ele se virou para Josh. O outro estava imóvel, olhos fixos no horizonte, atento a cada detalhe.
— Você ouviu?
Josh não respondeu, mas suas narinas se abriram levemente, como se captassem algo.
O silêncio se fechou ao redor deles. Nem o vento ousava se mover. Apenas o farfalhar de suas botas contra a lama quebrava a quietude sufocante.
A vegetação cedeu, revelando uma clareira devastada. Árvores partidas ao meio, troncos espalhados como brinquedos quebrados. Cinzas e símbolos mágicos queimavam no chão entre destroços de um acampamento destruído.
Kilian se aproximou, os lábios apertados. Agachou-se ao lado da terra escura.
— Era aqui. As árvores... magia do Garrik. Mas isso...
Tocou o solo e recuou no mesmo instante. Pegou um punhado de terra e espalhou-o pelos dedos.
— Ainda quente. Algo recente.
Josh varria o cenário com os olhos, como se absorvesse cada detalhe em silêncio.
Kilian se ergueu, os ombros tensos.
— Foram pegos de surpresa.
Sem perder tempo, seguiram em frente. A clareira se fechava atrás deles quando um grito rasgou o ar:
— Kilian!
Ele ergueu a cabeça. No alto da encosta, uma figura familiar os chamava, a voz marcada pelo pânico, enquanto suas mãos gesticulavam freneticamente.
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