Volume 2
Capítulo 54: A Ferida que Não Sangra
— Josh?
O descendente dos féericos não respondeu. Enquanto puxava Kilian para um tronco firme, o corte profundo no seu abdômen era notável.
— Como... você ainda está em pé?
Josh permaneceu em silêncio, os olhos fixos em um ponto perdido no horizonte. Ele respirava fundo, mas não parecia demonstrar qualquer sinal de dor. Apenas estava ali, firme, como se o sangue e a terra na ferida estivessem incrustados em sua pele.
— O que... como você chegou aqui? — Kilian perguntou, sem esconder a surpresa.
Josh continuou imóvel, seus olhos vagavam pelas árvores como se buscasse alguma coisa. Suas mãos sujas de sangue e terra tremiam levemente, mas ele não tocava na ferida nem reagia. Seu rosto, como sempre, permanecia impassível.
Kilian deu alguns passos incertos na sua direção, os olhos fixos naquela postura que beirava o desconforto. Sem dizer uma palavra, Josh pressionou os dedos sobre a própria ferida, quase como se fizesse uma espécie de reconhecimento. O gesto era mecânico, sem pressa, mas ainda assim um leve gemido escapou, baixo demais para parecer dor real.
— Como você conseguiu uma ferida dessas, Josh? — murmurou Kilian, enquanto segurava a calma na voz. — Agora só a Maya pode te ajudar...
Josh não respondeu. Em vez disso, virou a cabeça devagar e apontou com o queixo para as massas vegetais que se erguiam acima deles.
Kilian franziu a testa; olhou para Josh, depois para a subida.
— Isso não faz sentido. Com um corte desses qualquer um morreria. E você nem aí, né? Então tá, vamos... subir — disse Kilian, enquanto tentava soar firme. — Se você chegou até aqui, acho que conseguimos terminar isso.
Josh inclinou o corpo para frente e, sem hesitar, começou a escalar as massas vegetais. Seus movimentos eram fluidos, rápidos como os de um primata. Cada salto e puxada pareciam fáceis, mesmo com o ferimento profundo no abdômen, nada era capaz de deter sua agilidade.
— Ei, espera aí! — Kilian gritou, mas Josh continuou, indiferente à sua voz.
Kilian praguejou baixinho e concentrou-se. Sentiu a energia fluir sob suas botas enquanto conjurava palavras mágicas. Ele deu o primeiro impulso quando alcançou uma raiz grossa que se estendia por metros. A gravidade parecia ceder, e o impacto dos saltos era suavizado pela magia.
— Como você ainda consegue se mover assim? — murmurou, mais para si do que para Josh. — Com essa ferida... já devia ter desmaiado ou coisa pior.
Josh manteve o ritmo, sem responder. Seus movimentos eram firmes e certeiros, olhos fixos no próximo ponto de apoio. As raízes e galhos serviam de plataforma, enquanto suas mãos encontravam, sem hesitar, o caminho exato. Não havia pausas; sua concentração era total.
— Eu estou bem atrás de você! — gritou Kilian. Apesar da magia, seus músculos começavam a pesar, mas ele forçava o corpo a seguir.
Josh se movia como um caçador nas árvores, rápido e preciso.
Kilian saltava de raiz em raiz. A adrenalina o empurrava, mas os músculos já pesavam, cada movimento mais custoso que o anterior.
— Droga... espera aí! — gritou, sem obter resposta.
Cada salto o levava mais alto, e a magia suavizava os impactos. Mesmo assim, o corpo protestava.
Josh, por outro lado, seguia firme, indiferente à ferida, como se nada mais pudesse detê-lo.
Com um último impulso mágico, Kilian se lançou das árvores até o pavimento flutuante da massa de terra dos Quangras. Aterrissou suavemente ao lado de Josh, que chegara ao topo com agilidade surpreendente.
Kilian respirou fundo enquanto o suor escorria pelo rosto. — Eu... não sei como você conseguiu — disse, ofegante. — Mas... estamos aqui.
Josh ficou em silêncio; seus olhos vagavam pelo ambiente. Não demonstrava cansaço ou dor. Observava a imensidão das torres e construções de Jillar à frente. O brilho das estruturas flutuantes contrastava com o solo estéril abaixo.
Kilian franziu o cenho e limpou o suor da testa.
— Vamos rápido — disse, com determinação. — Não vou deixar você continuar com essa ferida.
Sem dizer uma palavra, Josh deu o primeiro passo à frente. Suas ações falavam mais alto que qualquer resposta.
A borda da cidade dos Quangras permanecia tranquila. Kilian apertou os lábios e manteve os ombros rígidos, como se aguardasse algo a qualquer momento.
Ele lançou um olhar para o descendente dos féericos, imóvel como uma estátua, a ferida ignorada. Os punhos de Kilian se cerraram.
— Como você ainda consegue? — perguntou, a voz carregada de tensão.
Seu pescoço se esticou para vasculhar o entorno. O rosto endureceu. De repente, girou a cabeça com brusquidão diante de um movimento na beira de sua visão. Os olhos se estreitaram.
— Tem alguma coisa estranha aqui... — murmurou.
***
— Alvo avistado. Movimentação detectada.
Uma voz ecoou pela interface mágica. O tom era discreto, frio e implacável.
O ar carregou um sussurro abafado, como se a vigilância estivesse sempre presente. Nas conexões ocultas, articulações metálicas brilharam com intensidade breve.
Nenhum som escapava para os demais, apenas um fluxo invisível de informações corria em silêncio.
— Interceptar. Missão em andamento.
Um deles se moveu quando recebeu a ordem, sem necessidade de palavras.
Seus movimentos eram calculados, fluidos, enquanto se aproximavam com uma precisão discreta. Sem pressa ou barulho, apenas a eficiência silenciosa de algo que avançava, uma sombra persistente que seguia seu alvo sem chamar atenção.
***
Ainda na borda da cidade flutuante dos Quangras, Kilian ergueu a cabeça, os sentidos à flor da pele. Uma sensação incômoda rastejava sob sua pele, uma intuição que ele não conseguia ignorar.
Ele franziu o cenho, a tensão se acumulou em seus ombros.
— Alguma coisa não tá certa... — murmurou, quando lançou um olhar inquieto para Josh.
Enquanto tentava controlar a respiração após a escalada, Kilian observava a cidade familiar à sua frente. Os edifícios e as passarelas elevadas pareciam tranquilamente imutáveis, no entanto, sombras curtas se estendiam entre as construções, como se algo estivesse escondido nas entrelinhas.
— Precisamos encontrar a Maya — disse ele, assim que começou a caminhar com passos decididos. Josh o seguia de perto, sempre em silêncio, como uma sombra viva. — Aliás, ontem você estava com a Evelene...
Nenhuma resposta.
Josh continuava a caminhar, o corte no abdômen e o olhar vazio como suas únicas marcas visíveis. Kilian mordeu o lábio, sua mente rodopiava com perguntas que ele não sabia como responder.
Ele parou abruptamente ao se aproximarem de uma esquina, seus olhos vagavam pela cidade flutuante enquanto sua mente viajava.
— O que aconteceu com ela, Josh? — perguntou, sua voz saiu mais rouca do que esperava. — Ela... explodiu?
Nada. O mesmo silêncio ensurdecedor. Kilian cerrou os punhos, enquanto sentia algo aumentar no peito, e então fechou os olhos por um breve momento para se acalmar.
— Se aconteceu alguma coisa com ela... — murmurou, as palavras escaparam sem que ele se desse conta. — Eu sabia que algo estava errado desde o início.
Ao reabrir os olhos, ele notou a distância que ainda tinham que percorrer até a taverna. Lançou um rápido olhar para Josh, frustrado.
— A taverna está longe demais, e você não vai durar desse jeito... — Ele balançou a cabeça, enquanto tentava pensar em uma solução. — Onde podemos conseguir ajuda agora?
Foi quando algo brilhou em sua mente. Uma lembrança, uma solução. Ele ergueu o rosto, seus olhos fixos numa direção.
— O posto dos paladinos! Tem um perto daqui. Talvez consigam ajudar.
Sem perder tempo, Kilian acelerou, Josh o seguiu. A construção sólida e imponente do posto dos paladinos logo apareceu à vista. As paredes de pedra branca, o símbolo da Ordem na entrada... aquilo parecia uma luz no fim do túnel.
Ele se aproximou, e viu que a porta estava entreaberta. Lá dentro, paladinos discutiam mapas sobre uma mesa, concentrados em seus afazeres. Mas, antes que pudesse entrar, uma voz familiar o fez parar no meio do caminho.
— Kilian!
— Phong? — Kilian chamou, reconhecendo a figura à sua frente.
O descendente dos féericos virou-se lentamente, seus cabelos vermelhos metálicos reluziam à luz do sol como uma juba leonina. Seus olhos negros e profundos mantinham o mesmo brilho inexpressivo, mas carregavam uma intensidade sutil. Ele vestia a familiar armadura dos paladinos de baixa patente, a mesma que Caelinus usava.
— Kilian — repetiu com um leve aceno, a voz firme e tranquila.
Kilian o observou por um momento. Seus olhos percorreram o corpo do paladino em busca de marcas da última batalha. Nenhum arranhão. Nenhum hematoma. A pele e a postura de Phong estavam intactas.
— Pensei que estivesse mal... da última vez... — Kilian hesitou, enquanto se aproximou. Olhou de soslaio, como se esperasse ver outra figura ao lado de Phong, mas o espaço estava vazio.
Phong seguiu seu olhar por um instante, mas sua expressão permaneceu impassível.
— Tinha alguém com você? — Kilian perguntou, ainda examinando os arredores, sem esconder a desconfiança.
— Tinha? — Phong desviou a conversa. — O que está fazendo tão longe de casa, Kilian?
Kilian piscou, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ele gesticulou em direção a Josh, que permanecia em silêncio, como de costume.
— Estou tentando encontrar alguém que possa curá-lo. — Ele indicou Josh com um movimento de cabeça. — Olha essa ferida... ele não vai sobreviver por muito tempo.
Phong observou Josh com atenção, como se a figura fosse familiar. Abaixou-se com precisão e tocou suavemente o abdômen ferido do jovem de cabelos de oliva.
— Josh, é?
Com um simples toque, o ferimento começou a se fechar. Josh, sem qualquer expressão de dor, permaneceu impassível, como sempre. Em segundos, a cicatriz desapareceu.
Kilian abriu a boca para agradecer, mas antes que pudesse dizer algo, Phong se levantou rapidamente, os sentidos alertas. Ele olhou ao redor, seus movimentos tensos.
— Preciso ir — disse, com a voz baixa e urgente.
— Mas... — Kilian começou, confuso.
Quando desviou o olhar por um breve momento, Phong desapareceu. Kilian olhou ao redor, mas não havia sinal dele.
O som de metal contra a pedra atraiu sua atenção. Um pequeno golem, com patas finas e articuladas, lembrando uma aranha, ele entregou um papel na mão de Kilian.
— Alvo encontrado — disse o golem com sua voz metálica. Depois, desapareceu na multidão.
— Uma carta! Do Garrik. — disse Kilian, abrindo o envelope que o golem deixara em sua mão. Ele rasgou o selo de cera com pressa. Seus olhos correram rapidamente pelas palavras e um sorriso surgiu em seu rosto.
— Josh! Garrik e os outros encontraram um Wyrm. Eles já foram atrás dele!
Josh manteve a expressão neutra, como sempre, mas Kilian estava empolgado demais para se importar.
— E tem um mapa com endereço do portal aqui também — continuou agitando a carta com entusiasmo. — Vamos! Precisamos nos apressar.
Com a carta dobrada em uma das mãos, Kilian começou a caminhar rapidamente, enquanto acenava para que Josh o seguisse. A figura de Josh, silenciosa e distante, o acompanhava enquanto se misturavam à multidão que passava pelas ruas movimentadas.
***
Do alto de um telhado, Phong observava a cena com atenção. Ao seu lado, uma figura esguia, envolta em trapos pretos, se destacava na sombra. Seus cabelos prateados, espetados e com pontas esverdeadas, refletiam suavemente a luz.
Seus olhos negros, idênticos aos de Phong, seguiam o garoto e o descendente dos féericos.
— Então... é ele — murmurou o recém-chegado, com um leve tom de dúvida.
— Sim — respondeu Phong, sem desviar o olhar. — Agora o chamam de Josh.
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