Volume 2
Capítulo 53: O Limiar do Crepúsculo
O crepúsculo envolvia a Vila das Grávidas com uma tranquilidade incomum. Evelene caminhava ao lado de Josh pelas ruas mal iluminadas, as sombras das velas pelas frestas das choupanas se esticavam de maneira sinistra ao redor deles.
Ela olhou de relance para Josh, que parecia mais inquieto do que de costume, seus passos hesitantes e leves como se quisesse desaparecer na noite.
— Tem alguma coisa errada — murmurou Evelene com um tom de alerta. — Não gosto dessa quietude.
O jovem de cabelos de oliva, sempre calado, se aproximou ainda mais de Evelene, os olhos fixos no chão e os dedos dos pés descalços se mexiam repetidamente, como se buscassem firmeza.
Ao se aproximarem do casebre, os murmúrios abafados de mulheres lá dentro começaram a se fazer ouvir. Evelene parou por um instante à porta, hesitante. Ela apertou os lábios e murmurou para si mesma:
— Essa bruxa vai pagar caro por isso…
Dentro do casebre, Evelene prendeu a respiração ao ver Tilda deitada na cama improvisada. O rosto da mulher estava pálido e inexpressivo, como uma máscara de cera. A barriga inflada parecia pulsar com algo indevido, que subia e descia de forma irregular.
As mãos de Aradia brilhavam com uma luz esverdeada, lançando sombras perturbadoras nas paredes do pequeno recinto.
Ao lado de Tilda, uma mulher de cabelos grisalhos presos em um coque desajeitado observava a cena, o rosto marcado por rugas profundas e os olhos arregalados de medo. Sua barriga arredondada parecia pesar sobre o corpo pequeno, e suas mãos trêmulas estavam apertadas uma contra a outra.
Perto da porta, outra mulher, mais alta e robusta, mantinha os braços cruzados firmemente sobre o peito. Os cabelos curtos e desgrenhados caíam sobre os olhos e o vestido gasto, a barriga pesada deixava evidente seu estado. Ela parecia se forçar a permanecer ali.
Evelene lançou um olhar rápido para a mulher ao lado de Tilda e sussurrou, como se as palavras fossem pesadas demais para serem ditas em voz alta:
— Hestia, você vai deixar isso acontecer?
A mulher mais alta, próxima à porta, deu um passo à frente e, em tom grave, mas resignado, murmurou:
— Não, Evelene, nós já decidimos.
Evelene arregalou os olhos quando reconheceu a voz.
— Marjorie?
Aradia, ao notar sua presença, ergueu o olhar e, com um sorriso cínico, comentou:
— Não pensei que você viesse, Evelene. Ficou curiosa, é? — A voz de Aradia tinha um tom brincalhão, mas os olhos faiscavam, refletindo desafio.
Evelene estreitou os olhos, mas manteve-se em silêncio, os braços cruzados sobre o peito, enquanto observava Aradia continuar com o ritual.
A descendente dos féericos de cabelos rosa metálico se voltou para Tilda, quando abriu uma pequena bolsa de couro e tirou uma erva escura.
— Mastigue isso, vai ajudar a expulsar — Aradia disse, enquanto forçava a grávida deitada a engolir a erva. — E não tenha medo, Tilda, você logo estará livre dessa... coisa.
— Não... eu... — a voz de Tilda vacilou.
Hestia, ao lado dela, apertou sua mão com firmeza.
— Vai ficar tudo bem.
Aradia se concentrou, e suas mãos começaram a brilhar mais intensamente. Com um movimento gracioso, elas deslizaram pela barriga de Tilda e penetraram na pele sem precisar cortá-la, como se a carne simplesmente cedesse ao toque da magia.
A sala ficou em um silêncio sepulcral, enquanto Aradia, com movimentos precisos, retirava algo do ventre de Tilda. Quando finalmente ergueu o objeto, uma semente do tamanho de uma abóbora que pulsava com uma luz verde intensa, todos os olhares estavam fixos nela.
— Eis aqui o futuro... — começou Aradia, mas antes que pudesse terminar, a semente emitiu um brilho ofuscante e explodiu.
Josh puxou Evelene levemente para trás, uma fração de segundo antes da explosão. Ela mal teve tempo de reagir quando o impacto os jogou no chão poeirento.
A explosão destruiu o casebre. Tábuas voaram como projéteis. Aradia foi arremessada contra uma parede distante, enquanto os gritos se espalhavam pelo ar.
Tilda foi reduzida a carne destroçada. Marjorie e Hestia foram arremessadas como bonecas de pano. A semente, agora exposta no ventre de Hestia, explodiu logo em seguida, despedaçando-a e a Marjorie. Uma nova explosão encharcou a rua com sangue e vísceras.
Atordoado, Josh abriu os olhos. O zumbido em seus ouvidos abafava tudo. Ele viu uma estaca de madeira atravessada em seu abdômen. Seu rosto crispava de dor, mas o olhar parecia perdido, sem foco.
Evelene jazia ao seu lado, o corpo destroçado, os olhos sem vida. Perto dela, uma pequena mão trêmula se movia. Era uma criança, ainda ligada a Evelene por uma frágil corda de carne. Os pequenos dedos se mexiam, como se tentassem entender o que aconteceu, mas a vida logo se esvaía de seus olhos.
A respiração de Josh acelerou. Ele não conseguia se mover. Cada detalhe da cena – a mão trêmula, a corda, o sangue – o deixou fora de si.
— Josh! — A voz de Aradia era fraca. Ela estava soterrada nos escombros, mutilada. — Espera... por favor...
Josh não esperou. Com dificuldade, se levantou, puxou a estaca do abdômen e começou a correr, deixando tudo aquilo para trás.
***
Kilian observava a escuridão pela janela do aeroplano. As luzes de Jillar mal brilhavam à distância, ele pousou a mão no estômago e contraiu o rosto, inquieto.
Sem desviar o olhar, respirou fundo e se afastou da janela, decidido. Caminhou até a cabine de Harken, que olhava um mapa à luz fraca de uma lamparina.
— Já estamos quase lá, Kilian. Vou pousar o aeroplano em breve — disse Harken, franzindo a testa.
— Não precisa. Só abra a porta.
O velho piscou, confuso.
— Mas ainda estamos a uma boa altura...
— Eu sei usar magia. Abra a porta.
Após uma breve hesitação, Harken acenou para os tripulantes. Eles obedeceram, destravando a porta de madeira. O vento gelado invadiu a cabine.
Kilian fechou os olhos, murmurou palavras rápidas, e uma leve brisa envolveu seu corpo. De repente, deu um passo à frente e saltou do aeroplano, sumindo na noite.
Os tripulantes ficaram boquiabertos por um instante, antes de fecharem a porta.
Harken voltou a se debruçar sobre o mapa, mas não sem murmurar para si mesmo:
— Esse garoto…
Kilian aterrissou suavemente no distrito da extremidade de Jillar. O toque de seus pés contra a terra foi leve, como se uma brisa o tivesse guiado. Ele observou as fortificações ao redor, com ruas estreitas serpenteando pelos platôs elevados. A luz fraca das tochas criava sombras sobre os muros altos, um reforço para a atmosfera tensa do lugar.
Ele caminhou, enquanto sentia o olhar atento das sentinelas Beyaras nas entradas das vielas. As marcas nas muralhas imponentes pareciam contar histórias de tempos difíceis. Ao passar por um grupo de soldados, murmurou:
— Ainda protegendo as bordas dos mortos-vivos... mesmo depois de tantos anos.
Sem esperar por respostas, seguiu em frente. A cidade revelava diferentes faces conforme ele avançava, dos muros fortificados até as áreas internas mais tranquilas. As construções eram mais baixas e familiares à medida que se aproximava de casa.
Ao chegar, viu Galdor sentado na varanda. O velho levantou a cabeça ao ouvir seus passos.
— De volta tão cedo? — disse Galdor. — Achei que demoraria mais.
Kilian pegou a chave que Galdor guardara para ele.
— Tive uns problemas. Amanhã já vou embora de novo.
— Problemas? — Galdor perguntou, mas Kilian apenas sacudiu a cabeça.
Ele destrancou a porta e entrou. O ambiente estava frio e escuro, como se a casa o aguardasse. Mesmo com fome, ignorou o ronco de seu estômago e acendeu o braseiro, enquanto deixou o calor se espalhar.
Sentado, observou as chamas dançarem, numa tentativa de afastar a inquietação.
— O que será que aconteceu...? — murmurou.
Com o calor da chama, Kilian adormeceu ali.
O amanhecer trouxe o ar seco e frio de Jillar. Kilian levantou-se e reuniu suas coisas rapidamente. Ao sair, encontrou Galdor mais uma vez na varanda.
— Estou indo. — disse ele quando entregou a chave ao vizinho.
— Tem certeza de que não quer ficar mais um pouco? Você recém chegou.
— Não, já estou atrasado. — Kilian respondeu, sem se alongar.
Com um aceno breve, partiu pelas ruas ainda vazias, onde os primeiros raios de sol iluminavam as construções. Poucos comerciantes começavam a abrir suas lojas enquanto a cidade acordava lentamente.
Ao chegar ao distrito evacuado, ele parou, enquanto fitou a paisagem diante de si. — Que diferença... essas árvores enormes, os Quangras flutuando lá em cima... — Ele apertou os olhos. — Isso aqui era tudo deserto. Como é que essas coisas ainda conseguem ficar aí?
Ele caminhou mais à frente, seus passos ecoaram no solo irregular até que algo inesperado chamou sua atenção.
— Um novo distrito? Desde quando construíram isso aqui?
Ele observou as simples construções de madeira e pedra espalhadas pelo terreno. — São casas novas. Isso não tava aqui antes. — Pequenas hortas e até animais pastando indicavam que o solo havia se tornado fértil. — Parece que essas plantas trouxeram tudo isso para cá também... incrível.
Kilian franziu a testa, enquanto reconheceu alguns rostos familiares. — Eu já vi essas pessoas antes, são do Vale do Suplício! O que será que eles estão fazendo aqui?
Enquanto ele continuava observando, uma voz familiar rompeu o silêncio.
— Kilian!
Kilian parou e se virou, em busca da origem da voz. Uma figura conhecida se aproximava, depois de acenar com entusiasmo enquanto atravessava o pátio de uma das casas.
— Jorim? — Kilian franziu o cenho, sem acreditar.
O homem robusto, de pele morena e cabelos curtos, caminhava em sua direção com um sorriso no rosto.
— Kilian! Nunca imaginei que encontraria você aqui. — disse Jorim quando estendeu a mão.
— Caramba, é você mesmo! — Kilian apertou a mão dele. Era um aperto firme. — Como conseguiu sair do Vale?
— Você não soube? — Jorim gesticulou em direção à casa. — Entra aí, vou te contar tudo.
— Ouvi falar dos paladinos e dos Beyaras, mas ainda não sei os detalhes. — Kilian acompanhou o amigo, curioso.
— Vamos comer um Pão de Essência Solar e tomar um Chá de Névoa Matinal. — Jorim sorriu. — Te conto tudo enquanto comemos.
A casa era simples, mas acolhedora. Kilian sentiu o calor da lareira e o aroma doce do pão recém-assado. Ele se sentou à mesa de madeira já posta e pegou a caneca fumegante.
— Então, me conta. O que aconteceu no Vale? — Kilian perguntou, antes de levar um pedaço de pão à boca.
— Foi uma loucura. — Jorim começou a relatar. — Os paladinos e Beyaras chegaram lá com tudo. Eles executaram traficantes, homens do Doo... foi brutal. E depois evacuaram os inocentes para cá.
Kilian assentiu, pensativo.
— E o pessoal? — perguntou, após tomar um gole do chá.
— Alguns conseguiram se reerguer. É como eu disse, os Beyaras pagaram tudo para os inocentes. — Jorim sorriu, quando lançou um olhar para sua esposa, que trazia mais pão à mesa. — Eu aproveitei. Nunca imaginei ter uma família.
Kilian observou Jorim erguer a mão calejada.
— Agora sou ferreiro. — Jorim riu. — Antes, eu era só um catador de lixo. Agora faço ferramentas, conserto carroças, pregos... nem imaginava que isso um dia fosse possível pra mim.
Kilian se levantou, satisfeito.
— Fico feliz por você, Jorim. — Ele ajeitou as vestes, pronto para partir. — Eu agradeço pela comida. Mas preciso ir. Tenho que chegar na parte dos Quangras.
— Nos Quangras? Lá em cima? — Jorim o encarou, incrédulo.
— É isso mesmo. Vou escalar pelas árvores. — Kilian sorriu, confiante.
— Tá de brincadeira, né?
— Não tem outro jeito. E não é só você que melhorou de vida. Agora eu consigo usar magia. — Ele piscou para o amigo. — Fico feliz de te ver bem, mas preciso seguir.
Kilian apertou a mão de Jorim uma última vez.
— Boa sorte, Kilian. — Jorim respondeu, sua voz carregada de preocupação.
Kilian saiu da casa e se aproximou das imensas raízes que subiam em direção ao céu. — Vamos ver do que eu sou capaz agora. — Respirou fundo, quando sentiu a magia percorrer seu corpo.
Com um salto ágil, pousou na primeira raiz, como uma ponte natural. — Beleza, só manter o ritmo.
Ele pulava de uma parte da vegetação para outra, enquanto usava a magia para amortecer os impactos.
O vento chicoteava seu rosto, enquanto ele ganhava altura rapidamente. — Estou quase lá... só mais alguns saltos.
Mas, ao saltar para o próximo galho, escorregou no musgo traiçoeiro.
— Droga! — gritou, quando seu corpo começou a despencar. O impacto nos galhos abaixo foi brutal. — Não! Tenho que conjurar...!
Mas seus braços se debatiam, sem controle. — Vai, magia, me ajuda!
Cada tentativa de agarrar-se resultava em dor, enquanto ele sentia o sangue escorrer pelas feridas abertas.
A queda parecia interminável. Desesperado, estendeu o braço, enquanto procurava qualquer apoio. Quando seus olhos se fecharam, exaustos, como se desistissem, uma mão firme agarrou seu braço, interrompendo a queda.
Ofegante, ele olhou para cima, tentando focar a visão através da dor. A figura acima era apenas uma sombra contra a luz filtrada, mas o toque era inconfundível.
— Você?
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