Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 52: Todas as mulheres que gostam de mim

— Eu entendo que você tá preocupado, Kilian, mas não posso. — Ela fez uma pausa, numa tentativa de achar as palavras certas. — A vila por enquanto é meu lugar, mesmo que seja difícil.

Kilian apertou os lábios e desviou o olhar. Era inútil persistir.

— Certo, eu entendo... — disse ele, resignado. — Mas se mudar de ideia…

Evelene assentiu, antes de colocar a tampa de volta na caixa e a esconder sob a cama.

— Obrigada, Kilian. Sei que tá tentando ajudar.

Josh, que até então permanecia imóvel, deu um passo em direção à porta. Ficou parado por um instante, o olhar distante, e depois se agachou devagar até se sentar no chão de terra batida.

— Parece que ele quer sair de novo — comentou Evelene suavemente.

Kilian franziu o cenho enquanto observava Josh se sentado no chão de terra batida com atenção.

— Sabe, Evelene, eu conheci outros descendentes dos féericos. Outros paladinos, colegas do Caelinus, uma das pessoas que me criaram. Tinha o Phong, que era bem legal. Mas eles são diferentes do Josh. — Ele hesitou por um momento. — Esse comportamento dele... não é normal, não acha?

Evelene olhou de relance para Josh, que ainda fitava a porta com um ar distante.

— Talvez seja só o jeito dele. — Ela ajeitou o vestido, pensativa. — Ou pode ser coisa dos descendentes dos féericos. Você sabe que eles são... peculiares. Só o conheço há dois dias, então é difícil entender.

Kilian assentiu, ainda intrigado.

— É, eles são meio... diferentes. Às vezes eu olho e, por fora, até dá para notar as orelhas pontudas e os cabelos chamativos, mas... — Ele parou e observou Josh, que agora riscava o chão com um graveto. — Parece que o tempo não tem o mesmo efeito neles.

Evelene suspirou e deu um sorriso breve, mas seu olhar parecia distante.

— Quem sabe? — Ela sacudiu a cabeça. — Mas como vamos perguntar isso a ele? Não dá. Ele nunca fala.

Kilian soltou um suspiro e olhou mais uma vez para Josh.

— Cuide dele, Evelene. Ele confia em você.

Evelene fez um sinal com a cabeça enquanto observava Josh seguir com cautela em direção à porta.

— Eu cuido, Kilian. Faz parte.

Quando o sol começou a se pôr no horizonte, o céu se tingia de tons alaranjados e rosados, um grande contraste com o terreno árido da Vila das Grávidas. Uma brisa fresca suavizou o calor do dia, trazendo alívio momentâneo às habitantes cansadas.

Kilian caminhava ao lado de Evelene pelas estreitas ruelas empoeiradas, com a mochila nas costas. O som distante de vozes e movimentação indicava que o aeroplano já estava prestes a partir.

— Parece que chegou a hora — comentou Kilian, depois de lançar um olhar para o aeroplano ancorado mais à frente.

Evelene assentiu, enquanto mantinha um sorriso suave nos lábios, apesar da sombra de melancolia em seus olhos.

— Espero que a viagem seja tranquila. O senhor Harken é um bom navegador, mas nunca se sabe o que pode acontecer por esses céus.

Ao se aproximarem da embarcação, o som das velas ajustadas e das cordas puxadas preenchia o ar. O aeroplano, embora marcado pelo tempo, exibia uma imponência inegável. Suas tábuas de madeira escurecidas reluziam sob a luz do crepúsculo, enquanto as velas remendadas balançavam graciosamente com o vento.

O senhor Harken estava próximo à rampa de embarque, dando instruções a alguns ajudantes que carregavam caixas e mantimentos para dentro do navio aéreo. Ele ergueu o olhar ao notar a aproximação dos dois e enxugou o suor da testa com as costas da mão calejada.

— Vejo que está pronto para partir, garoto — disse Harken, com a voz rouca, mas amistosa.

— Pronto e agradecido pela carona, senhor — respondeu Kilian, enquanto estendia a mão em cumprimento.

Harken apertou a mão de Kilian com firmeza, seus olhos experientes avaliaram o jovem à sua frente.

— Só não vá esperar luxo nem conforto. Esse velho pássaro ainda voa bem, mas não é nenhum palácio — brincou o velho, antes de soltar uma risada breve.

Kilian sorriu, antes de ajustar a mochila nos ombros.

— Contanto que me leve de volta pra Jillar, estou satisfeito.

Harken coçou a barba grisalha, depois olhou de soslaio para o horizonte, onde o sol já quase desaparecia.

— Pois é. Sobre isso, melhor esclarecer. Não vou entrar na cidade propriamente dita. É como eu te disse mais cedo. Vai ter que descer um pouco antes.

A expressão de Kilian se contraiu levemente, mas ele manteve o tom calmo.

— Na verdade, pensei que o senhor fosse até me deixar na parte dos Quangras.

O velho capitão balançou a cabeça lentamente, depois apontou para o céu que escurecia.

— Gostaria de ajudar, mas estou atrasado. Se fizer esse desvio, perco a janela de vento favorável e aí complico todo o meu trajeto. Vou te deixar o mais próximo possível, mas o resto do caminho terá que fazer por conta própria.

Kilian suspirou, mas logo deu de ombros.

— Tudo bem, eu me viro. Agradeço mesmo assim.

Harken deu uma batidinha amigável no ombro do garoto antes de voltar sua atenção para Evelene.

— Cuide-se, menina. Espero ainda um dia vir te levar de volta para casa.

Evelene sorriu gentilmente, sua cabeça inclinada em agradecimento.

— Faço o que posso, senhor Harken. Boa viagem pra vocês.

O capitão acenou e voltou ao trabalho. Kilian e Evelene ficaram a sós, próximos à rampa de embarque. Um silêncio confortável se instalou entre eles por alguns instantes. Apenas o som do vento e das velas preenchia o espaço.

Evelene deu um passo à frente e envolveu Kilian em um abraço apertado. Seus olhos se fecharam por um momento enquanto o segurava. Kilian retribuiu o gesto com igual intensidade, enquanto sentia a barriga enorme o pressionar.

— Obrigado por tudo, Evelene. De verdade — disse ele, com a voz baixa e sincera.

Ela se afastou ligeiramente, suas mãos sobre os ombros dele enquanto o observava com um olhar profundo.

— Cuide-se, Kilian. Espero que encontre aquilo que procura lá nos Quangras. E... boa sorte com tudo.

Kilian deu um sorriso, embora uma certa tristeza brilhasse em seus olhos.

— E você, se cuide também. Espero que... bom, que seu parto seja real e que tudo dê certo.

Uma sombra passou pelo rosto de Evelene, mas ela manteve o sorriso.

— Vamos ver o que o destino reserva. — Ela soltou os ombros de Kilian, seus braços cruzados enquanto lançava um olhar rápido para o chão antes de voltar a encará-lo. — Quando você partir, vou com a Aradia... naquela coisa que ela está fazendo. Ainda acho terrível, mas quem sabe eu entenda melhor vendo de perto.

Kilian assentiu, compreensivo.

— Espero que isso traga alguma coisa de boa pra vocês. E, quem sabe, uma solução melhor no futuro.

Evelene apenas acenou com a cabeça, seus olhos brilhavam sob a luz suave do entardecer.

— É, quem sabe.

Harken chamou o resto do pessoal para embarcar. Kilian deu uma última olhada em volta e respirou fundo.

— Acho que essa é minha deixa.

— Parece que sim — Evelene deu um passo para trás. — Boa viagem, Kilian.

— Obrigado. Até algum dia.

Com um último aceno, Kilian subiu a rampa de embarque. Um dos tripulantes o guiou até uma pequena cabine próxima a uma das janelas laterais, onde ficava a tripulação. Ele colocou a mochila no chão e se sentou, enquanto observava pela janela os preparativos finais.

Lá fora, Harken dava as ordens e as velas começaram a se agitar com o vento. Evelene permanecia onde haviam se despedido. Ela observava o aeroplano com uma expressão serena.

O chão sob os pés de Kilian tremeu levemente. A embarcação começou a se erguer do solo enquanto suas velas captavam o vento. A vila abaixo diminuía enquanto subiam, as luzes do pôr do sol tingiam a paisagem de cores quentes.

Kilian manteve o olhar fixo na janela, seus olhos acompanhavam Evelene à distância. Antes de perder a visão dela, viu Josh se aproximar. Ele parou ao lado da jovem grávida, que colocou a mão suavemente no ombro dele. Juntos, observaram o aeroplano desaparecer no horizonte.

***

O portão de madeira rangeu quando os paladinos se aproximaram. O alambrado protegia a borda do Vale do Suplício, onde montanhas de lixo se empilhavam até parecer colinas. Ferro retorcido, ossos amarelados, pedaços de madeira quebrada e velas rasgadas formavam um horizonte irregular. O cheiro ácido enchia o ar, misturado ao zumbido das moscas.

Dois soldados Beyaras mantinham-se firmes, lanças apoiadas no ombro. Um deles ergueu o braço em saudação.

— Senhores paladinos. — A voz grave tremia de convicção. — Há dois dias ouvimos sons estranhos. Não era nenhuma criatura selvagem. Era... outra coisa.

O mais velho dos paladinos parou diante dele, a mão descansando sobre a empunhadura da espada.

— Muito bem, vamos entrar e investigar. — disse, com firmeza. — Enquanto isso, nos descrevam como eram esses sons.

— Pesados. Profundos. — respondeu o segundo soldado, enquanto abria os portões selados. — Sei que ninguém vive nesse lixão, mas os gnolls sempre aparecem... não sei se de portal ou de outro lugar. Ainda assim, aquilo era diferente. Por isso viemos avisar.

Os paladinos trocaram olhares enquanto acompanhavam os soldados vale adentro.

— Há dois dias, alguns aeroplanos lixeiros caíram sem explicação. — murmurou um deles. — Talvez não seja coincidência.

O grupo desceu a encosta estreita de uma montanha desmoronada. As botas afundavam na mistura de poeira e detritos. Ossos quebrados e vidro estalavam sob os pés.

— Abutres! — disse um dos guardas, apontando. — Deve ter alguma coisa lá.

— Então vamos. — respondeu um dos paladinos. — Fica atrás daquela montanha.

Chegaram a uma clareira de sucata. Os soldados recuaram de súbito, o horror estampado nos rostos. No chão, juncados entre restos de ferro e trapos, estavam dois corpos. O paladino mais velho se ajoelhou, olhos endurecendo.

— Olhem esses ossos... — disse, tocando de leve a pele rasgada. — Estão saltando para fora, como se o corpo tivesse sido forçado a crescer.

Um dos soldados cobriu a boca com a mão.

— São garotos... mas não deveriam ser assim. Braços muito grossos, mandíbulas grandes demais, dentes... dentes pontudos.

O outro soldado assentiu, tenso.

— Muitos meninos vinham coletar lixo por aqui. Mas nenhum deles... nenhum tinha essa aparência.

— Pois é. — disse o paladino, erguendo-se devagar. — Em breve isso aqui vai ser um problema de Jillar.

***

A noite começava a cair. As estrelas surgiam tímidas no céu. Kilian sentou num banco de madeira, depois soltou um suspiro profundo. A cabeça encostada na parede, observou as estrelas através de uma pequena fresta. Outro suspiro longo escapou, abafado pelo barulho das velas ao seu redor.

Passos pesados ecoaram. Era o senhor Harken, com uma expressão cansada, mas curiosa.

— E aí, garoto, como está? O bagageiro está confortável? — Ele se encostou à porta com os braços cruzados.

Com os olhos perdidos na escuridão lá fora, Kilian demorou a responder. Finalmente, virou-se para o capitão e esboçou um leve sorriso.

— Para falar a verdade, é a melhor viagem de aeroplano que já fiz na vida — disse, com a voz calma, mas carregada de um peso subjacente.

— Entendo. Parece inquieto. — Harken arqueou uma sobrancelha.

O sorriso de Kilian diminuía, como se algo o corroesse por dentro. Porém ele não respondeu.

— E você, não vai sentir falta dela?

Kilian desviou o olhar e apertou os lábios. Ele se mexeu no banco, os braços cruzados, como uma tentativa de se proteger.

— Toda mulher que gosta de mim... sempre acaba tendo o mesmo destino. — As palavras saíram arrastadas, quase um sussurro. — Minha mãe... Melangie... e agora Evelene. Não sei, mas eu tô com a sensação de que essa será a última vez que eu a vejo.

O silêncio pesou entre eles. Harken permaneceu imóvel.

— A vida é cheia de despedidas, garoto — murmurou o capitão.

Kilian não respondeu. Apenas acenou lentamente, como se reconhecesse a verdade amarga. O silêncio voltou a dominar. Harken acenou uma última vez e se afastou, deixando Kilian sozinho.

Pouco depois, o aeroplano seguia seu curso pelo céu noturno. O compartimento mergulhou em silêncio profundo.

Kilian fechou os olhos e recostou a cabeça contra a parede. O peito subia em ritmo irregular, os dedos se crisparam sobre o banco de madeira. O silêncio do compartimento parecia mais pesado a cada instante.

Entretanto, um som distante quebrou a quietude: um estrondo abafado, como trovão. Kilian abriu os olhos, o corpo tenso. Levantou-se de repente e foi até a janela. As estrelas brilhavam, mas nada além da escuridão.

— Alguma coisa tá errada. Espero que fique bem...

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