Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 51: Despedida

O som familiar das velas cortando o vento ecoou pela Vila das Grávidas. As poucas mulheres que ainda vagavam pelas ruas nem mais olhavam para o céu para reconhecer a embarcação que se aproximava.

— Harken tá chegando — comentou uma delas, enquanto puxava com esforço um saco de grãos para fora de casa. — Vamos ver se conseguimos trocar isso por tecidos.

— Pena que ninguém vai pra Jillar desta vez... todas elas explodiram — respondeu a outra, depois que bateu a poeira do avental, lançando um olhar breve para o aeroplano que descia suavemente.

A sombra da embarcação passou rápido sobre os barracos, até tocar levemente o solo com o ranger da madeira velha. A aparência desgastada do aeroplano já não causava mais espanto.

As velas direcionais se ajustaram sozinhas, enquanto as velas de propulsão bombeavam o Etherdoorium em um ritmo constante, até pousar de vez.

Kilian se levantou de sua cama improvisada quando ouviu o barulho distinto. Ele correu até a porta do barraco. Evelene o seguiu com os olhos conforme o aeroplano descia lentamente em direção à vila.

— Deve ser ele — murmurou Kilian, depois de observar o pouso suave.

Evelene confirmou com um aceno. A brisa leve agitou seus cabelos opacos enquanto olhava para o aeroplano ao longe.

— É o senhor Harken — disse ela, com certeza na voz. — Sua carona chegou.

Quando o aeroplano pousou, um tripulante estendeu uma tábua em forma de rampa para fora.

Kilian respirou fundo e entrou no barraco para arrumar suas coisas. Guardou tudo na mochila rapidamente, seus gestos pesados pela despedida. Ao terminar, encarou Evelene, que o observava em silêncio.

— Vou até lá — disse ele, depois de ajustar a mochila nos ombros. Evelene assentiu, com um sorriso suave.

— Tudo bem. Vou com você.

Ele saiu do barraco, com Evelene ao seu lado.

— Vai ficar tudo bem? — perguntou enquanto caminhavam em direção ao local do pouso, tentando esconder a inquietação na voz.

Evelene apertou os lábios, seu olhar fixo no caminho à frente.

— Minha hora está chegando, Kilian. Não vai demorar muito... — A voz dela tremeu um pouco. — E, para ser honesta, eu estou com medo. Medo de morrer sozinha... medo de explodir como as outras.

Kilian parou por um momento, quando se virou para ela.

— Você não quer vir comigo para Jillar? Pode ficar na minha casa. Não vai ter ninguém por perto, ninguém vai se machucar se... se algo acontecer.

Evelene balançou a cabeça lentamente, um sorriso triste surgiu em seus lábios.

— Agradeço, Kilian, mas não. Eu decidi que vou ficar aqui. Haja o que houver.

Eles continuaram a caminhar em silêncio, o som das velas do aeroplano ecoava ao longe, até que avistaram uma figura familiar pela rua: Aradia. A descendente dos féericos vinha saltitando em direção a eles, com um sorriso largo no rosto.

— Kilian! Evelene! — chamou ela, sua mão levantada em saudação. — Que sorte a minha encontrar vocês!

Evelene respondeu com um aceno cansado, enquanto Kilian apenas observava.

— Estamos indo até o aeroplano, Kilian vai embora — explicou Evelene.

Aradia deu uma risada animada.

— Então hoje é meu dia de sorte mesmo! A Tilda estava morrendo de medo pelo que poderia acontecer e me pediu para... você sabe, dar um jeito.

Evelene suspirou, ao mesmo tempo que balançou a cabeça com um olhar resignado.

— Tenho que me preparar, vou fazer isso no fim da tarde — disse Aradia, dando um breve abraço em Evelene e um tapinha no ombro de Kilian antes de seguir seu caminho.

Enquanto continuavam a andar, Kilian olhou de soslaio para Evelene.

— Por que isso te incomoda tanto? Ela mesmo disse que a chance de serem... bombas é muito maior do que a de serem bebês, certo?

Evelene suspirou profundamente, e depois desviou o olhar para o horizonte.

— Kilian, você nunca vai entender... — disse ela, num tom suave, quase resignado.

O silêncio entre eles se instalou até chegarem no aeroplano. Harken já desembarcava as novas moradoras da vila.

— Elas parecem desesperadas... eu também estava assim quando cheguei aqui — Evelene murmurou, enquanto observava as mulheres com olhares que oscilavam entre a resignação e o desespero.

Uma sombra de tristeza passou por seus olhos antes de se voltar para Kilian. Harken movia-se devagar, mas com precisão.

Kilian se aproximou do casco do aeroplano.

— Esse velho aeroplano ainda está de pé? — disse ele ao passar a mão pelas tábuas marcadas. — Parece que vai cair a qualquer momento.

— Senhor Harken cuida bem dele — Evelene respondeu, os olhos fixos nas velas remendadas que tremulavam suavemente. — Está surrado, mas ainda funciona.

Kilian se aproximou do velho, enquanto esperava o mesmo terminar de instruir um tripulante.

— Bom dia, senhor. Quanto você cobra para me levar até Jillar? — perguntou Kilian, numa tentativa de soar casual, mas com uma ponta de urgência em sua voz.

O velho olhou para ele de soslaio, a expressão cansada se intensificou.

— Esquece, garoto — respondeu ele, com uma voz rouca. — Hoje estou indo pra outra cidade, não pra Jillar.

Kilian hesitou por um momento, antes de alcançar sua bolsa. Tirou duas peças de ouro e estendeu para o homem.

— Esse valor, serve?

O velho olhou para as moedas, seu rosto suavizou por um momento.

— Bom… — Ele coçou a barba rala, como um gesto de ponderação. — Podemos conversar sobre isso. Mas só depois que eu terminar meus negócios por aqui.

Kilian assentiu, antes de dar um longo suspiro.

— Fechado.

Evelene, que estava ao lado, sugeriu com um leve sorriso:

— Já que o senhor Harken só costuma partir no fim da tarde, que tal voltar comigo pra casa? Pode descansar um pouco antes da viagem.

Kilian ouviu em silêncio a proposta e, com um aceno de cabeça, concordou.

— Tudo bem. É uma boa ideia.

Enquanto voltavam para o barraco, avistaram um grupo de mulheres sentadas à sombra de um paredão rochoso. Josh estava entre elas, no chão, os joelhos abraçados e o olhar perdido, alheio a qualquer conversa.

Evelene parou para cumprimentá-las, inclinando a cabeça em um gesto amigável.

— Bom dia, meninas! — disse ela, com um sorriso suave, que logo desfez. — Já souberam do plano da Aradia?

Uma das mulheres, de cabelos encaracolados e rosto redondo, foi a primeira a responder.

— Ouvi falar, sim. Dizem que se funcionar, ninguém mais vai precisar vir pra cá — comentou, ao mesmo tempo que deu de ombros, como se a ideia ainda fosse difícil de acreditar.

Outra mulher, mais jovem, com olhos grandes e cabelos loiros, balançou a cabeça com força.

— Isso se der certo, né? Porque se não... — ela deixou a frase no ar, os lábios comprimidos.

Evelene cruzou os braços, seu tom cada vez mais sério.

— Mesmo se der certo, bem... eu não sei. Prefiro morrer tentando ter um filho do que viver o resto da minha vida sabendo que nunca mais vou ter essa chance. — Sua voz era firme, apesar do toque de tristeza.

Uma terceira mulher, de pele escura e olhar distante, finalmente se pronunciou. Sua voz era mais calma, quase resignada.

— Eu entendo você, Evelene. Mas a verdade é que muitas já perderam essa esperança. Se isso funcionar... — ela hesitou, quando olhou para o chão pedregoso. — Pode ser um alívio pra quem já não tem mais nada a perder.

— Alívio? — questionou Evelene, sua sobrancelha arqueada. — Talvez sim, mas igual. Não me sinto bem com isso. Parece uma coisa tão cruel.

A mulher de cabelos encaracolados suspirou, enquanto mexia nos cachos distraidamente.

— Todo mundo tem medo, Evelene — respondeu, a voz carregada de uma exaustão que parecia pesar mais que o calor do sol.

Josh continuava o seu balanço levemente, riscando o chão com um graveto seco, alheio ao que acontecia ao redor.

— Eu preciso ir agora — disse Evelene, antes de lançar um olhar breve para Kilian. — Nos vemos mais tarde.

Josh se ergueu de forma estranha, sem levantar o olhar, assim que Evelene se moveu, e começou a acompanhá-los em silêncio, com passos leves e hesitantes. A jovem gestante o viu por cima do ombro, mas não disse nada, como se respeitasse o silêncio do rapaz.

À medida que eles caminhavam, as vozes das mulheres ficavam cada vez mais distantes, e o silêncio se instalou entre o trio. Evelene lançou outro olhar de soslaio para Josh, que ainda parecia perdido em seus próprios pensamentos, e depois para Kilian, que mantinha o olhar fixo no chão à sua frente.

— Esse lugar... — murmurou Kilian, sem completar a frase.

Evelene suspirou, e depois apenas acenou com a cabeça enquanto continuavam.

No barraco, a luz fraca que entrava pelas frestas das paredes de madeira iluminava os poucos pertences de Evelene. Kilian caminhou até uma pequena mesa de madeira no canto do cômodo, onde colocou sua pequena mochila. Com um gesto cuidadoso, ele retirou uma pequena bolsa de couro de dentro dela e começou a contar moedas de ouro.

— Caramba, como esse lugar é quente, né? — comentou Kilian, enquanto guardava as coisas de volta na mochila. Evelene deu de ombros, com um sorriso resignado.

— É o que temos. De dia, é sufocante, e de noite, parece que o frio entra por todas as frestas. Mas já me acostumei.

— Evelene — chamou ele, antes de se virar para ela com as três moedas na mão. — Quero que fique com isso aqui.

Evelene olhou para as moedas, seus olhos arregalados ao ver aquela quantia.

— Kilian, isso é muito dinheiro... — começou ela, mas o garoto balançou a cabeça, insistente.

— Eu sei. Mas é por tudo que você fez por mim. — Ele estendeu a mão. — E quero que pense de novo sobre o que eu falei. Acho que você deve vir comigo pra Jillar. Vai ser mais seguro.

Evelene olhou para as moedas e depois para Kilian. Ela hesitou por um momento antes de pegá-las. Porém, em vez de guardá-las no bolso do vestido, soltou um suspiro e se dirigiu até uma pequena caixa de madeira ao lado da cama.

Com cuidado, tirou a tampa e colocou as moedas dentro.

— Dessas três, vou guardar duas pra comprar comida. A gente até tenta cultivar uma hortinha, mas essa terra maldita não ajuda em nada. Tudo é escasso por aqui.

Ela fechou a caixa com um gesto decidido, mas manteve uma das moedas entre os dedos, antes de colocá-la contra a luz vinda da fresta do barraco por um instante.

— E essa última... vou guardar pra comprar uma roupa nova. Se eu sobreviver, quem sabe eu precise.

— Evelene, você não precisa fazer isso sozinha. Não me sinto bem em deixar você aqui, assim... — Kilian disse, a preocupação evidente em sua voz.

— Eu agradeço, Kilian, mas... — Ela suspirou, e depois fechou a mão em torno das moedas. — Acho melhor ficar. E também tem o Josh, eu não quero deixar ele sozinho.

Kilian olhou para Josh, o descendente dos féericos estava encostado na parede. Ele se balançava levemente para frente e para trás, alheio à conversa.

— Então por que não levamos o Josh também? — sugeriu ele. — Na cidade, a gente pode comprar roupas melhores pra ele. E tenho certeza de que ele ia ficar bem por lá.

Evelene deu um sorriso, dessa vez seu olhar parecia diferente.

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