Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 50: Cractaal

— Esse lugar fede — murmurou Drak, ao olhar para os troncos enormes ao redor. O ar estava pesado, úmido, e o musgo cobria cada superfície disponível.

Doo ficou em silêncio, os olhos atentos à floresta que se tornava cada vez mais antiga, quase primordial.

— Tudo muito... quieto — continuou Drak, desconfiado.

— Quieto demais — respondeu Doo. Seus pés afundavam na terra encharcada enquanto avançavam. As árvores ao redor pareciam enraizadas em um passado esquecido, envoltas por uma umidade sufocante.

Drak soltou uma risada curta.

— Você nunca gosta de nada, Doo. É só uma floresta velha.

— Velha e cheia de truques — respondeu Doo. As folhas acima bloqueavam a luz do sol, deixando apenas pequenos feixes passarem pelo enorme dossel, enquanto criavam sombras inquietantes.

— Ei, druida! É essa a famosa Ravina de Cractaal? — perguntou Drak, quando notou fungos estranhos por todo canto, com formas e cores que exalavam um odor adocicado.

O druida à frente, com o semblante tranquilo e olhar fixo, respondeu sem se virar:

— Sim, vocês estão na Ravina de Cractaal. Cada arquidruida que já existiu ou existirá possui algum tipo de domínio sobre a natureza. Este lugar está sob a influência do atual. Os fungos, os enxames, as sementes… tudo aqui está conectado a ele.

Doo apertou os lábios, seu olhar desconfiado. Passou a língua pelos dentes, um velho hábito sempre que algo o incomodava. Soltou um murmúrio, endurecendo a expressão:

— Esse lugar... tá esquisito. Parece que a floresta tá viva, mas não do jeito que devia.

— Porque está — replicou o druida, com um sorriso enigmático que apenas Doo percebeu. — A Ravina de Cractaal não pertence ao mundo lá fora. É um domínio à parte, uma extensão do poder do Arquidruida.

Drak riu, curto e seco, sem humor nos olhos:

— Então é isso. Você tem uma floresta inteira como seu quintal. Impressionante.

— Meu não, nosso! — corrigiu o druida, sua voz ecoando pela floresta, como se fosse um com ela. — Eu sou apenas um guia, mas somos o tudo deste organismo. A Ravina pertence a todos, e o Arquidruida é o coração que a faz pulsar.

Depois que o druida respondeu, os bandidos seguiram em silêncio. As botas afundavam no chão úmido enquanto avançavam para a parte mais profunda da Ravina de Cractaal. As árvores eram como gigantes, e suas copas entrelaçadas bloqueavam quase toda a luz do sol.

— Tá escuro pra caramba — resmungou Drak, o cenho franzido ao olhar para cima.

A umidade era sufocante, e Doo limpava o suor que escorria pela testa. O cheiro de musgo e fungos impregnava o ar e tornava cada respiração um obstáculo.

— Vamos por aqui — disse o druida, sem se dar ao trabalho de olhar para trás. — O Arquidruida não gosta de esperar.

Logo, as muralhas de um castelo gigantesco começaram a aparecer, cobertas por trepadeiras que se enroscavam nas pedras como mãos famintas. O castelo, agora em ruínas, mal se destacava entre as raízes e as plantas rasteiras que cresciam por toda parte.

— Caraca... isso aqui é grande — Doo murmurou, quando parou por um momento, de olhos arregalados.

À frente, o lago lamacento que outrora fora um fosso agora sustentava uma árvore enorme. As raízes retorcidas tocavam a água estagnada de um jeito esquisito, como se tivessem vida própria.

Drak soltou um assobio baixo, tentando esconder a admiração.

— E esse lugar? — Doo perguntou, como se não compreendesse o que seus olhos contemplavam.

O druida finalmente se virou, enquanto seus olhos refletiam a luz fraca que conseguia passar pelas árvores.

— Além de Jillar, essa era a maior cidade do reino. A cidade dos Amberridle — respondeu, com um sorriso orgulhoso. — Quase um século atrás, esse castelo era o tesouro de uma dinastia. Uma das famílias mais poderosas da Segunda Era. Mas, como tudo, eles também caíram.

— Caíram como? — perguntou Drak, enquanto coçava a barba rala, repleta de falhas, sem entender direito.

— Xander, o Voraz — disse o druida, sem pressa. — O Primeiro Arquidruida. Ele trouxe a natureza contra a civilização. Tomamos o que era nosso por direito. E os Amberridle? Foram enterrados junto com suas ruínas.

Doo olhou ao redor enquanto ouvia as palavras do druida. Suas mãos se apertaram no cabo da arma, como se algo invisível se aproximasse.

Eles continuaram a caminhar, agora com mais cautela. O terreno tornara-se traiçoeiro, enquanto pedras afiadas surgiam a cada passo.

Desviaram o curso constantemente, enquanto o chão coberto de musgos oferecia uma falsa sensação de segurança. Doo quase escorregou ao pisar em uma pedra encoberta, porém se segurou a tempo.

— Cuidado por onde andam — disse o druida, sem se virar, a voz cortante no ar pesado. — Uma pisada errada, e os esporos podem ser liberados. Acreditem, não querem inalar isso.

Drak olhou para o musgo sob seus pés com renovada desconfiança. Moveu-se com ainda mais cuidado.

A sensação de serem observados cresceu, não apenas pelas árvores, mas pelas ruínas que os cercavam. Era como se os antigos habitantes pairassem ali, fundidos à vegetação que dominava o lugar.

O grupo parou diante da entrada principal do castelo, uma imensa porta de madeira apodrecida. Trepadeiras entrelaçadas formavam padrões intrincados em sua superfície, enquanto pulsavam com uma energia sombria.

O druida estendeu a mão e tocou a madeira com uma reverência silenciosa. Virou-se para os outros, o olhar grave.

— Estamos perto. Posso sentir o poder dele — sussurrou, a voz quase engolida pelo silêncio opressor da Ravina de Cractaal.

Doo, ainda inquieto, aproveitou a pausa.

— Se Xander era tão poderoso… o que foi que o deteve? — perguntou ele, os olhos fixos no druida.

O druida ficou em silêncio por um momento.

Seus olhos se voltaram para as ruínas ao redor, como se a resposta estivesse gravada nas pedras.

— Xander era, de fato, poderoso — começou ele, o tom melancólico cortou o ar. — Mas a Terra dos Portais é estéril, um lugar onde a vida e o poder da natureza enfrentam seus percalços. E Jillar… — Ele hesitou, cada palavra era um fardo. — A cidade era imensa, e a obstinação daquela gente influenciou a balança. Nem mesmo o Primeiro e mais destrutivo dos arquidruidas conseguiu colocá-la de joelhos. Por isso estamos buscando outro método além da força bruta.

Em silêncio, o grupo adentrou o castelo Amberridle. O ar pesado e úmido parecia agarrar suas peles, enquanto avançavam pelos corredores escuros e em ruínas.

A arquitetura, outrora majestosa, agora sucumbia ao mofo e aos fungos que devoravam tudo. As paredes gemiam sob o peso de um passado corrompido, e o cheiro de podridão pairava no ar.

Ao atravessarem a entrada da sala do regente, o sangue deles gelou. No centro, o trono imponente contrastava com a árvore seca e retorcida que emergia de sua fundação, os galhos cobertos de sangue.

Atrelados ao caule mirrado, dois esqueletos pendiam, ossos brancos e fraturados perfurados pelos ramos tortuosos. Uma aura macabra pulsava no ar, como se fosse sufocar o grupo.

Doo prendeu a respiração, seus olhos arregalados e o lábios trêmulos. Drak desviou o olhar, quando colocou a mão sobre a boca e o nariz.

O druida permaneceu imóvel, os olhos fixos nos esqueletos, uma expressão mista entre respeito e melancolia.

— O último rei e a última rainha dos Amberridle — sussurrou o druida, a voz baixa, contudo carregada de orgulho. — Seus corpos fundiram-se à natureza, presos a um destino cruel. Xander era implacável.

Eles ficaram em silêncio, o peso daquele horror os pressionou ainda mais.

— Vamos — a voz do druida cortou o silêncio opressivo. — Ainda há mais a ver.

Eles seguiram por uma escada estreita e íngreme, rumo às muralhas. Árvores da floresta mesclaram-se às paredes de pedra, numa tentativa de engolir o castelo. Mesmo acima das copas, o cheiro de mofo era cada vez mais intenso.

O vento soprou com força ao subirem. Ele trazia consigo o fedor de vegetação apodrecida. Ao chegarem ao topo, a vista era impressionante e perturbadora: acima da floresta, um mar verde e turbulento se agitava.

Na torre em ruínas, aberta ao céu, estava ele.

O Arquidruida.

A figura era uma grotesca manifestação de poder corrompido. O velho, de pele enrugada e pálida, destacava-se contra as ruínas, como se a morte o consumisse.

Sua cabeça calva, com poucos fios de cabelo branco agitados pelo vento, parecia desprovida de vida A bocarra desproporcional, semelhante a um bagre, tremulou com cada respiração, como se sussurrasse segredos obscuros ao vento.

O manto e a coroa, outrora insígnias dos Amberridle, tornaram-se uma paródia cruel. Desfigurados e corrompidos, eram o retrato da decadência que ele encarnava.

O druida parou ao lado de seu mestre, sua cabeça inclinada em uma reverência silenciosa. Doo e Drak trocaram olhares tensos, as mãos cerradas, o ar denso os sufocava.

— Seja lá o que for isso… — murmurou Doo, a voz trêmula. — Não dá mais pra voltar.

Drak assentiu, incapaz de desviar os olhos da figura à frente. O Arquidruida ergueu a cabeça lentamente, seus olhos vazios pareciam ver através de suas almas.

Então, ele sorriu. Um sorriso que prometia desespero, enquanto esticava suas rugas em formas grotescas.

O vento frio soprou mais uma vez. O velho deu um passo à frente, seu manto decadente farfalhou, enquanto seus cascos batiam contra a pedra.

— Sou Xin-Car, o Semente Pútrida — disse ele, sua voz gutural reverberou em um eco ancestral. — Observo a decadência e a transformo em força. Esta cidade foi um jardim de podridão, fertilizado pelo sangue dos Amberridle.

Ele fez uma pausa, e o silêncio pesado impregnou o ar. Doo e Drak trocaram olhares, o peso daquela presença era, no mínimo, opressor.

— Xander, o Voraz, trouxe a fúria da natureza sobre Jillar — continuou Xin-Car. Os cascos bateram mais uma vez naquela pedra fria enquanto ele se aproximava do parapeito. — Uma tempestade viva que quase a consumiu. Mas ele foi extinto cedo demais.

— Dovooli, o companheiro de nosso pai, tentou continuar o sonho de Xander. — Sua voz aprofundou-se, o tom quase poético. — Os Letnicianos o esmagaram, profanaram seu sagrado corpo, submergindo-o no gelo eterno.

— E Molva, a Carne Pútrida, usou os mortos para reanimar a guerra. Vocês lembram do Dia dos Mortos, não?

Doo engoliu em seco, uma tentativa de manter a voz firme. — Lembramos, sim — disse ele. — Ela quase conseguiu, foi por pouco que Jillar não caiu.

Xin-Car sorriu, o gesto perturbador esticou suas rugas. — Molva foi imprudente, ela foi admoestada a não abandonar o caminho dos vivos. Eu não cometerei os mesmos erros. Jillar apodrecerá, infestada por musgos, suas raízes corroídas até desmoronar sob o próprio peso.

— E onde nós entramos nisso? — perguntou Doo, num tom reverente.

— Vocês serão meus instrumentos para trazer o fim àquela cidade corrompida. Aceitam esse destino?

Doo e Drak entreolharam-se, o temor evidente nos rostos.

— Aceitamos — disseram em uníssono, as vozes vacilantes, mas determinadas.

Xin-Car fez um gesto sutil com a cabeça. Os bandidos seguiram-no de volta em direção ao lugar de onde vieram.

Raízes contorcidas nas paredes sussurravam histórias de desgraças, como se um som abafado ecoasse pelo ar úmido. De volta à sala do trono, Xin-Car caminhou até a árvore macabra de arquitetura retorcida.

Seus dedos ossudos tocaram suavemente as raízes, como se acariciasse os esqueletos. A luz do sol, filtrada pela janela de vitral quebrada, iluminou o horror, enquanto revelava o sangue seco nos galhos.

O Arquidruida agachou-se e pegou um saco de pano sujo ao pé do trono. Com gestos delicados, recolheu sementes da boca do esqueleto da rainha.

Doo reconheceu as sementes imediatamente. Eram sementes para grávidas explosivas, em número impressionante, muito maior do que tudo o que já tinha visto.

— Primeiro, agimos nas sombras — murmurou Xin-Car, a voz baixa, mais para si. — Envenenaremos Jillar, corrompendo suas raízes. Quando a árvore apodrecer, cairá com um chute.

Drak, até então quieto, deixou escapar:

— Um momento, druida. Viemos aqui para conseguir um exército de berserkers, não de parideiras explosivas!

Xin-Car virou-se lentamente, em seu rosto brotava uma fúria silenciosa.

— Tudo virá a seu tempo — disse ele, a voz carregada de um presságio sombrio.

Antes que Drak reagisse, uma cauda de escorpião negra emergiu das costas do ser ancestral, antes escondida pelo manto real. Em uma estocada, perfurou o peito de Drak. O bandido deu dois passos para trás, enquanto seu corpo se retorcia em espasmos violentos até parar de se mover.

Doo deu um passo atrás, o horror estampado no rosto. Forçou-se a ficar em silêncio, o coração disparado.

Xin-Car aproximou-se do bandido, os olhos vazios fixos nele, como se ponderasse algo. Doo virou o rosto, como se esperasse o fim, mas o Arquidruida hesitou. A cauda recuou lentamente para debaixo do manto.

— Você, humano, será meu emissário da desgraça em Jillar — declarou Xin-Car, a voz cortante, quase uma ordem.

Doo tremia, mas balançou a cabeça afirmativamente.

— Sim… eu vou. Quero ver Jillar cair — disse ele, as palavras saíram engasgadas.

— Então vá. Plante as sementes. Quanto mais grávidas, mais soldados nascerão — disse ele, sua voz enigmática, antes de entregar o saco nas mãos do bandido.

Doo virou-se rapidamente, enquanto suas mãos apertavam com força a boca do pequeno saco e partiu em silêncio.

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