Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 49: Josh

— E aí, tudo bem com você? — Kilian perguntou, depois de dar um passo para trás, sem desviar os olhos de Josh.

Josh não respondeu. Seus movimentos rígidos, lentos, quase automáticos. Kilian apertou os lábios enquanto seus ombros tensos mostravam que algo estava fora do normal.

— Está tudo bem? — uma das mulheres que trançava o cabelo de Josh perguntou, ainda distraída, sentada à sombra da casa.

— Acho que ele não... — Kilian murmurou, depois de olhar em volta, inquieto.

Josh parou, frente a frente com Kilian. O silêncio entre eles foi cortante, e Kilian recuou mais um passo, sua respiração cada vez mais ofegante.

— Josh! — A voz de Aradia soou firme, chamando sua atenção de imediato. — O que você está fazendo?

Josh piscou lentamente, como se acordasse de um sonho. Seus ombros relaxaram e ele voltou os olhos para o chão, enquanto Aradia se aproximava com um olhar severo.

— É estranho, né? — disse Evelene, sua voz suave, depois de observar a expressão de Kilian. — Ver ele assim, calmo, depois de tudo.

— Muito... — Kilian respondeu em um sussurro, ainda com o olhar fixo em Josh, a boca entreaberta.

Josh, apesar da tensão visível, se aproximou de Kilian, hesitante, como um animal cauteloso. As mulheres, ao perceberem a relutância de Josh, começaram a encorajá-lo.

— Vai, Josh, não precisa ter medo — disse uma delas, com um sorriso caloroso. — Dá pra ele.

Josh deu mais um passo; evitava olhar Kilian nos olhos.

Ele estendeu um objeto em sua direção: um brinquedo de madeira, um pequeno dragão esculpido com detalhes cuidadosos, as escamas entalhadas uma a uma, com olhos feitos de pedras coloridas. Parecia algo criado com muito carinho e tempo.

Kilian hesitou antes de olhar para Evelene, que assentiu com um sorriso encorajador.

— Aceite, Kilian. Ele quer te dar isso.

Com as mãos trêmulas, Kilian pegou o presente e o segurou com cuidado.

— Obrigado, Josh... — Sua voz saiu baixa, ainda envolta pelo medo.

Josh ficou em silêncio, com os olhos fixos no chão, suas mãos agora vazias. Embora não dissesse nada, suas mãos estavam tremulas, a respiração curta e o corpo curvado, sem encarar ninguém.

— É como eu disse antes: ele se dá bem com as meninas — comentou Aradia. Sua voz quebrou o silêncio enquanto observava Josh com um olhar afetuoso. — Parece que encontrou seu lugar aqui.

— É estranho, mas é bom também… Ele parece outra pessoa. — Kilian respondeu, depois de guardar o brinquedo, como se depois de tudo o que aconteceu ele tentasse relaxar.

— Estranho? Olha quem fala. Vamos, ainda precisamos esticar essas suas pernas. — disse Aradia, enquanto guiava Kilian pela rua.

Josh ficou para trás, enquanto os observava se afastar, com a cabeça baixa. Evelene lançou um último olhar para ele antes de se juntar a Kilian e Aradia.

Kilian caminhou ao lado delas pela vila. Seguiram o caminho sombrio das casas para fugir do calor escaldante daquela tarde. Seus passos vacilaram.

Mas a exaustão física e mental começou a ceder aos poucos. Depois de algum tempo, eles retornaram à casa de Evelene.

— Senta aqui, Kilian. — disse Evelene, quando apontou uma cadeira surrada próxima a uma mesa de madeira precária. — Vou preparar algo para você comer.

Aradia parou na porta, enquanto Evelene começava a mexer em um caldeirão sobre o fogo.

— É, acho que isso já foi o suficiente. — Aradia comentou, ainda recostada na porta da entrada. — Amanhã ele deve partir.

— Obrigado pela ajuda. — disse Kilian.

— Não precisa nem agradecer. Só vá embora quando puder. — Aradia deu um leve aceno e, sem mais palavras, se despediu e foi embora. Kilian e Evelene ficaram sozinhos.

Kilian olhou melhor o pequeno cômodo. — Deve ser difícil, acomodar tudo nesse pequeno espaço.

O aroma dos vegetais cozidos preenchia o ambiente. Embora fosse um cheiro simples, havia algo reconfortante naquele momento de paz.

— Não é muito, mas é o que temos. — disse Evelene, enquanto servia uma tigela de sopa para Kilian. — Aproveite, porque não sabemos quando teremos mais.

Kilian pegou a tigela e começou a comer. — Há pouco tempo comi banquetes nas tavernas dos Quangras, mas essa comida, agora, parece a melhor do mundo.

Por um tempo, o silêncio era quebrado apenas pelo som de Kilian comer. Evelene o observava, perdida em seus pensamentos.

— Sabe, eu não cresci aqui. — começou Evelene, sua voz calma, mas com um toque de melancolia. — Eu tinha uma vida boa em Jillar.

Kilian ergueu os olhos para ela, atento.

— Meu pai era padeiro. Um homem bom. — Ela continuou, enquanto seus olhos vagavam como visitassem o passado.

— De que parte de Jillar?

— Parte dos Quangras. Nós vivíamos bem, sem grandes preocupações. Até que, em um daqueles festivais, conheci um bardo. Ele era lindo... Tudo aconteceu muito rápido, e depois disso, eu nunca mais o vi.

Kilian parou de comer por um instante, como se precisasse digerir as palavras dela.

— E como você veio parar aqui?

Evelene suspirou, como se ponderasse antes de responder.

— Não posso contar mais do que isso. — Ela disse, com um certo pesar.

— Não pode ou não quer?

— Aqui, existe um acordo. — disse Evelene, sua voz baixa, enquanto seus dedos tamborilavam na mesa. — Não falamos sobre os detalhes que nos trouxeram até aqui, senão, pode ter divisão.

Ela fez uma pausa, o olhar fixo em Kilian, os lábios apertados.

— Se eu não lembrar de tudo, podem me julgar como uma grávida bomba. Se eu contar tudo, as outras podem ser pressionadas a fazer o mesmo. Isso ia mostrar quem é e quem não é uma grávida de verdade.

Kilian assentiu, diante da explicação.

— Faz sentido... Mas quem inventou essa regra? — perguntou ele, antes de voltar a comer.

— Não sei, sempre foi assim, e é melhor que seja. — Evelene concluiu com um sorriso suave. — Nós nos apoiamos, e isso é o que importa.

Kilian ouvia tudo calado, enquanto terminava sua refeição.

— A conjuradora disse que eu tenho que ir embora. Como eu faço isso? — perguntou ele, enquanto sua voz rompia o silêncio.

— Amanhã, um senhor com um aeroplano passa por aqui. — disse Evelene, sua voz baixa, enquanto pegava a tigela vazia.

— E será que ele dá carona?

— Sim! Ele vem uma vez por semana, leva as grávidas que já tiveram filhos e vende mercadorias. — disse ela enquanto limpava aquela cozinha precária.

— Isso é bom. Eu preciso voltar. Mas e você? Não quer voltar para casa? — Kilian perguntou, sua curiosidade cada vez mais aparente.

Evelene hesitou, enquanto olhava para a cama improvisada ao lado.

— É complicado. Enquanto eu estiver grávida, minha família não me quer de volta.

— E se tivesse outro lugar para você ficar? — Kilian sugeriu, como se buscasse oferecer uma solução.

Ela ponderou por um momento, seus lábios comprimidos, o olhar perdido.

— Não sei. — Evelene finalmente respondeu, com um olhar distante. — Talvez. Mas, por agora, você deve descansar. Vamos ver como você estará amanhã.

Kilian assentiu, a exaustão pesou em seus ombros. Ele então retirou de sua mochila um saco de dormir e o estendeu ao lado da cama de Evelene. Em poucos minutos, ele se deitou e adormeceu.

***

As sombras das árvores altas cobriam o caminho tortuoso com um véu de escuridão. Dois homens avançaram com passos calculados, o silêncio quebrado apenas pelo som abafado de folhas secas sob seus pés.

Eles desviaram das raízes retorcidas e da vegetação densa, que parecia se fechar ao redor deles. A conversa em voz baixa ecoou entre os troncos imponentes, um sussurro cortante no ar pesado da floresta.

— É aqui mesmo? — A voz grave do homem à frente quebrou o silêncio da floresta, carregada de desconfiança. Seus olhos estreitos examinavam cada detalhe ao redor.

— Sim, pelo que disseram, é aqui: A Ravina de Cractaal. — Respondeu o segundo, enquanto se mantinha alguns passos atrás. — O Arquidruida deve estar por perto. Não faria sentido ele nos fazer vir tão longe se não estivesse.

O homem da frente parou por um instante, seus olhos perscrutavam os arredores com uma mistura de impaciência e apreensão.

— Espero que sim, Drak. — Disse ele, sem se virar. — Não gosto de perder tempo longe dos meus afazeres no Vale.

— Claro, Doo. — Drak sorriu, despreocupado, apesar do tom severo do homem. Havia uma familiaridade em sua postura, como se estivesse acostumado a lidar com aquela irritabilidade.

— E os Berserkers? Estão fazendo o trabalho? — Perguntou Doo, enquanto afastava um galho do caminho com um movimento brusco.

— Estão. — Respondeu Drak. — Mandei quatro para matar o paladino Caelinus e aquele tal de Kilian, o parente dele. Demos sorte; o garoto voltou ao Vale, foi uma oportunidade perfeita para acabar com ele sem deixar vestígios.

Doo franziu o cenho. Seus passos desaceleraram ao ouvir as palavras de Drak. — Então esses dois já era?

— Sim, mas tem um problema. — disse Drak, enquanto olhava para cima e coçava o queixo. — Desde ontem, quando dei a ordem, não vi mais nenhum daqueles berserkers. Acho impossível que um fedelho como aquele tenha escapado, mas nem o Cabelos de Oliva voltou.

Doo parou abruptamente, ele encarou Drak com olhos afiados como lâminas.

— Isso é estranho — murmurou ele, mais para si mesmo do que para Drak. — O Cabelos de Oliva não costuma demorar. Você acha que ele pode ter falhado?

Drak soltou uma risada curta, como se a ideia fosse absurda.

— Impossível. — Respondeu com confiança. — Aquela coisa é um monstro assassino. Nem dez paladinos juntos seriam páreo para ele.

Doo suspirou, impaciente com a despreocupação de Drak.

— E se todos morreram? O Cabelos de Oliva tava sempre com você, que nem uma sombra. — Disse Doo, seu tom carregado de preocupação mal disfarçada. — Esse garoto, Kilian... há algo nele que não me cheira bem.

Após aquelas palavras, o silêncio voltou a reinar entre eles. O som abafado dos passos misturou-se ao canto distante dos pássaros, o único som capaz de cortar o ar pesado da floresta.

A floresta, antes densa, tornara-se mais opressiva, suas sombras se fechando ao redor. Doo seguiu à frente com uma confiança inabalável, o olhar fixo no caminho.

Ele acariciou um anel em sua mão, seus dedos traçaram o metal como se sentisse um pulso vindo dele. Um brilho fraco pulsou no anel, quase imperceptível na penumbra.

— Estamos sendo observados. — Sussurrou Doo, sem diminuir o passo, seu ritmo, firme.

— Como você sabe? — perguntou Drak, enquanto olhava ao redor, sem conseguir detectar nada.

— Não te interessa! Eu só sei. — Respondeu Doo, enquanto virou a pedra do anel para dentro da mão. De repente, ele parou, seus olhos fixos à frente. — Finalmente…

Depois daquele caminho tortuoso de mata fechada, surgiu uma clareira. Estava banhada por uma luz suave, filtrada pelas folhas. O brilho amarelado dançava no chão, uma quebra abrupta na escuridão da floresta.

No centro, um homem de idade indefinida os aguardava. Seus longos cabelos prateados caíram sobre os ombros, e vestes simples feitas de folhas e galhos o envolviam.

Seus olhos verdes pareciam brilhar com uma sabedoria ancestral; mas um alerta neles pulsou, uma força oculta pronta para ser liberada a qualquer momento.

— Então é você? — Perguntou Doo, antes de cruzar os braços. — O Arquidruida?

— Eu estava esperando por vocês. — Disse o homem, sua voz calma, mas carregada de um poder que fazia a natureza ao redor vibrar levemente. — Mas não sou o Arquidruida. Fui escolhido para levá-los até ele.

Doo inclinou a cabeça ligeiramente, um gesto de reconhecimento, mas seus olhos permaneciam fixos, determinados.

— Espero que a nossa visita tenha sido bem recebida. — Disse ele, sua voz firme, mas com um tom sutil de ameaça. — Estamos longe de casa, e não gostamos de perder tempo.

— Ah, com certeza. — Respondeu o druida, um sorriso enigmático brincou em seus lábios. — O Arquidruida os aguarda. Ansiosamente.

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