Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 48: O Peso das escolhas

Kilian fixou o olhar na esfera de água flutuante, o rosto tenso. Com um movimento firme, lançou-a na direção do descendente dos féericos, que congelou no lugar, os olhos arregalados.

— Vamos ver se você consegue escapar dessa — murmurou Kilian, a voz carregada de urgência.

A água envolveu a cabeça do jovem de cabelos de oliva como uma prisão líquida. Ele recuou, sacudiu a cabeça, mas a esfera permaneceu imóvel. Desesperado, agitou os braços, puxou os próprios cabelos e bateu contra a própria cabeça.

— Não adianta... — Kilian apertou os punhos. — Você não vai escapar.

Ele girou freneticamente, tropeçou nas pedras, enquanto os gritos das mulheres aumentavam ao redor. Tentou fugir, mas seus movimentos ficaram desordenados.

— Ele está indo para o poço! — uma das mulheres gritou, o rosto contorcido, os olhos arregalados.

O descendente dos féericos atirou-se no chão, rolou de um lado para o outro até cair dentro do poço. Lá dentro, seus movimentos desesperados continuaram em forma de espasmos violentos.

— Para! Ele vai morrer! — A voz de uma jovem cortou o caos, cheia de desespero.

Kilian virou-se abruptamente. Perto do poço, a mesma garota grávida da última vez, quando Cara de Sapo jogou o lixo no poço, o observava com os olhos arregalados.

Kilian hesitou, os músculos ficaram tensos.

— Eu... eu não posso deixar ele vivo...

— Por favor. — Ela insistiu. — Eu lembro de você naquele dia. Sei que não é capaz de fazer isso.

Kilian respirou fundo, os ombros tremendo.

— Droga… não consigo ter coragem de te matar… — murmurou. A mão vacilou, e a esfera de água se desfez em respingos.

O jovem de cabelos de oliva ainda se debatia no poço, o olhar arregalado de puro terror.

— Por que ele não para...? — Kilian murmurou, confuso, ao observar o jovem se contorcer de medo.

Kilian aproximou-se lentamente, estendeu a mão.

— Vem... sobe.

O descendente dos féericos agarrou a mão de Kilian com força e, desajeitadamente, saiu do poço, ainda ofegante e apavorado. Kilian, por sua vez, caiu sentado, e o corpo finalmente cedeu ao cansaço.

— Eu... eu consegui...? — sussurrou Kilian, seus olhos fechando devagar.

Os lamentos das mulheres ecoavam ao fundo, sendo a última coisa que ele ouviu antes de apagar.

***

— O que foi isso?

Kilian despertou com um sobressalto. Ele respirava com dificuldade. Uma explosão distante sacudiu a casa, e ele piscou várias vezes, enquanto tentava se recompor.

As paredes de barro estavam rachadas, e o teto, sustentado por vigas de madeira desgastadas, parecia frágil. O cheiro de poeira e fumaça impregnava o ar.

Ele se sentou na cama feita no chão com esforço. Esfregava a testa enquanto tentava se situar.

— Onde... onde estou? — sussurrou, enquanto seus olhos percorriam o ambiente simples, com chão de terra batida e a luz do sol filtrada pelas frestas da janela coberta de tecido encardido.

— Está acordado, finalmente... — A jovem, que o havia impedido de matar o descendente dos féericos, estava sentada num banquinho ao lado. Ela o observava com lábios comprimidos.

— O que... aconteceu? — Kilian perguntou, sem entender a situação.

Ela hesitou, antes da sua voz falhar.

— Larsine... ela estava dando à luz e... explodiu. — A moça limpou o rosto com a manga da blusa. — Mais uma vítima dessas malditas sementes.

Ela fez uma pausa, enquanto respirava fundo.

— E a Roseline também... Aconteceu o mesmo com ela... pouco antes de você aparecer. — Abaixou a cabeça, como se escondesse o rosto com as mãos.

Kilian engoliu em seco, os punhos cerrados ao lado do corpo. Seu olhar percorreu o recinto, seus punhos cerrados ao lado do corpo.

— Cadê... ele?

A jovem tentou sorrir, apesar do choro que ainda marcava seu rosto.

— Não se preocupe, está tudo bem. Ele até trouxe água do poço para você — respondeu ela, a voz trêmula.

Kilian respirou fundo, como se toda aquela tensão no ar se dissipasse.

— Por que essas coisas acontecem? Vocês não têm família? Amigos?

— Já tivemos, mas... como engravidamos sem marido, nossas famílias nos abandonaram. O destino é esse: ou voltamos com nossos filhos, ou... explodimos.

— Só as grávidas sem marido que explodem, não é?

Ela baixou a cabeça, o olhar endurecido.

— É o mais comum. As casadas têm os maridos que assumem o risco, mas tem muitas delas aqui também... as suspeitas de adultério.

Kilian franziu o cenho.

— E se uma grávida souber que vai... — Ele hesitou, como se buscasse as melhores palavras. — Que isso vai acontecer... tem como evitar?

Ela assentiu lentamente, com o olhar sombrio.

— Tem... mas o preço é alto. Elas podem... se livrar disso. Mas nunca mais serão mães. — Ela o encarou, os olhos úmidos e fixos nele, sem piscar. — Eu prefiro arriscar e morrer do que perder a chance de ser mãe.

O silêncio caiu entre eles. Kilian endireitou-se quando sentiu o peso das palavras.

— E... ninguém lembra de nada? Antes de... — Ele parou, ao notar a expressão séria dela.

— Não se fala disso. — A jovem estreitou os olhos, como se o assunto fosse um tabu. — Quem não lembra tem grandes chances de ser uma das que explodem. Se alguém admite que não lembra, é discriminada. Ninguém quer isso...

Ela fez uma pausa, enquanto olhava para o chão.

— Já tive muitas amigas que passaram por aqui. A maioria... explodiu. Algumas poucas conseguiram ter seus filhos e voltaram para a cidade. São vencedoras. — Ela ergueu a cabeça e sorriu, com melancolia. — Mês que vem vai ser a minha vez. Também quero vencer.

O silêncio se instalou de novo, pesado. Kilian procurava palavras, mas a jovem continuou.

— E pensar que ela jurava que era uma menina — disse, olhando para a parede na direção da explosão, enquanto acariciava a barriga. — Ia se chamar Kemplie... mas agora tudo se foi.

— E você acha que consegue? — Kilian perguntou, enquanto a encarava com atenção.

— Não posso responder. Faz parte das regras daqui... Aliás, meu nome é Evelene. — Ela estendeu a mão levemente, ainda hesitante.

Kilian a observou por um momento antes de apertar sua mão com rigidez.

— Obrigada por ter feito o que pedi mais cedo... por ter poupado a vida dele. E também pela outra vez, com o lixo. — Evelene tentou sorrir, mas a seriedade permanecia em sua voz.

Kilian balançou a cabeça devagar.

— Não precisa agradecer. Eu fui um idiota. Na verdade... eu teria jogado o lixo, se não fosse... — Ele hesitou. — Se não fosse alguma coisa no seu olhar.

Evelene assentiu, porém, antes que pudessem continuar, uma garota da idade de Kilian entrou na casa.

— Aradia... — Evelene começou tentando conter a emoção na voz. — Larsine... ela explodiu.

Aradia, com seus cabelos rosa metálicos, franziu a testa, claramente confusa.

— Sim, aconteceu de novo. E daí? — Aradia balançou a cabeça, frustrada. — Não entendo por que vocês ainda insistem nisso. Estou aqui justamente para evitar essas explosões! Poderíamos salvar tantas vidas...

Evelene levantou-se de repente, sua expressão endurecida.

— Você não entende, Aradia — a jovem gestante retrucou com firmeza. — Ser mãe é o sonho de toda mulher. Ninguém vai abrir mão disso.

— Mas a maioria delas morre, Evelene! — Aradia a interrompeu, com o tom de voz mais elevado. — E não só elas. Quantos outros inocentes já morreram por causa dessas explosões? Só por estarem por perto. Se elas sabem que há um jeito de evitar isso, por que não escolhem viver?

— Você não entende! A vida de um filho é muito mais importante do que a nossa! — Evelene respondeu sem hesitar, com os olhos fixos nos de Aradia.

— Filho? Que filho? A maioria delas carrega bombas na barriga! — Aradia cruzou os braços, irritada. — Eu entendo o sentimento, mas isso é irracional! Se todas aceitassem o meu método, alguns bebês morreriam, sim, mas ainda seriam menos mortes do que as das mulheres que explodem.

— Irracional? — Evelene riu amargamente. — Você não sabe o que fala, garota. Para nós, a esperança de ter um filho, mesmo que pequena, é mais importante que qualquer segurança. Pode perguntar lá fora. A maioria prefere morrer!

— Vocês falam isso porque são egoístas! Arriscam tudo por um sonho, por uma esperança vaga... Isso não faz sentido.

— Para você, talvez não faça mesmo. — Evelene respondeu, com a voz mais baixa, mas ainda firme. — Mas para nós... — Evelene fez uma pausa, enquanto acariciava sua barriga. — Eu já amo essa criança que está aqui, desde o dia que eu soube estar esperando.

— Eu só... — Aradia começou a falar, mas Evelene a interrompeu.

— Eu sei, minha amiga. — Evelene disse suavemente, mas com firmeza. — Mas algumas coisas não se resolvem assim.

Aradia abaixou a cabeça, seus olhos distantes.

Evelene voltou o seu olhar para Kilian, que observava tudo em silêncio. Aradia notou a presença dele e, com um sorriso levemente provocador, se aproximou.

— Tudo bem, então. Vamos deixar isso pra lá. Você é o carinha do poço, né? — perguntou Aradia, com curiosidade fria. — Não sei se te avisaram, mas homens não são bem-vindos aqui. Mesmo assim, vou cuidar da sua saúde. Depois disso, você some. Entendeu? Some da mesma forma que os pais dessas crianças que "supostamente" vão nascer aí.

Sem esperar resposta, Aradia estendeu a mão sobre o braço quebrado de Kilian. Uma luz suave emanou de seus dedos e, em poucos instantes, o braço estava curado. Kilian flexionou o braço, surpreso com a rapidez da cura.

— Então, o que aconteceu com você? — Aradia perguntou num tom mais casual, mas ainda autoritário. — Como quebrou o braço?

Kilian hesitou antes de responder.

— Foi aquele descendente dos féericos de cabelos verdes — disse ele, sua voz firme. — Tive que usar muita magia para sobreviver contra aquele monstro... e... bom, ele me quebrou.

Evelene e Aradia se entreolharam. Evelene levou a mão à boca, enquanto Aradia soltava uma gargalhada.

— Monstro? — Aradia repetiu, em meio a uma gargalhada. — Você está falando do Joshizinho?

Kilian franziu a testa, confuso.

— Joshizinho? — ele perguntou, sem entender a piada.

— Sim, o descendente dos féericos que você afogou. — disse Aradia, com um sorriso disfarçado. — Talvez devêssemos reconsiderar quem é o monstro por aqui.

— Também não é pra tanto, Aradia. — disse Evelene.

Kilian abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Aradia, ao perceber sua hesitação, continuou:

— Mas, mudando de assunto... — disse Aradia, enquanto olhava para Kilian com um ar clínico. — Como se sente? Consegue caminhar?

Kilian assentiu e se esforçou para se levantar com a ajuda de Aradia. Os primeiros passos foram lentos, mas ele conseguiu se equilibrar.

— Acho que sim. — disse ele, ainda incerto.

— Você até que não está mal. Você é daquele tipo de mago que, quando esgota o poder mágico, começa a consumir energia física — comentou Aradia, com a sobrancelha arqueada. — Vai ser daqueles que morrem cedo. Melhor, um homem a menos no mundo.

Kilian não disse nada. Apenas engoliu em seco.

Aradia o apoiou enquanto saíam da casa. Do lado de fora, a luz suave do sol iluminava a rua de terra batida. Algumas mulheres grávidas descansavam à sombra de uma casa, ao redor de Josh. Ele estava relaxado, de olhos fechados, enquanto uma delas penteava seus cabelos e outra trançava mechas soltas.

Kilian parou, surpreso ao ver a cena. Aradia, percebendo sua reação, deu um leve sorriso.

— Viu como ele se dá bem com elas? — Aradia comentou, enquanto Evelene observava com um olhar terno.

Josh avistou Kilian, e sua tranquilidade ao lado das mulheres grávidas desapareceu. Seus olhos se arregalaram, e ele começou a se mover inquieto, como se a presença de Kilian o deixasse nervoso.

— O que foi, Josh? — perguntou uma das mulheres, ao notar a mudança repentina.

Kilian estremeceu, com os músculos tensionados ao ver Josh se aproximar. Mesmo que ele parecesse mais dócil agora, havia algo fora do lugar.

— O que foi, Josh? — perguntou uma delas, distraída, enquanto continuava a trançar os cabelos dele.

Josh não respondeu, apenas se levantou e, com passos lentos, avançou na direção de Kilian, seus olhos fixos nele, cheios de algo que Kilian não conseguia decifrar. Ao redor, as mulheres grávidas pareciam tranquilas, como se a tensão no ar fosse invisível para elas.

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