Volume 1
Capítulo 9: O legado de meu mestre.
O trio atacou com empenho, mas o druida antecipou tudo, ele bloqueou e desviou de cada movimento com uma precisão mortal, como se previsse os ataques antes mesmo que qualquer um pudesse executá-los.
Yodama, com o rosto contorcido, desferiu um golpe horizontal. O druida rolou pelo chão com elegância. Com um movimento rápido, ele invocou uma vinha do solo que se agarrou à perna do guerreiro e o colocou de joelhos à força.
— Yodama! — disse Sybel, o desespero evidente em sua voz.
Mesmo de joelhos, Yodama forçou-se a ficar de pé. Ele desferia golpes amplos, numa tentativa de limitar as esquivas do oponente e manter o druida à distância. Entretanto o inimigo sorria, ele desviava com precisão, bloqueava quando necessário e aguardava o momento certo para atacar.
Entre um golpe e outro, o druida abriu a guarda de Yodama com um chute certeiro em sua perna ferida pelas vinhas, ele caiu no chão com um baque pesado.
Fenik tentou atacar por trás, mas o druida nem se virou para o enfrentar. Ele conjurou mais vinhas que imobilizaram o semi-humano. Os espinhos laceraram sua pele, ao mesmo tempo que tingiam o chão de sangue.
— Maldito! — Sybel, com a perna já curada, conjurou uma rajada de energia em resposta.
O druida ergueu a mão, e o ataque de Sybel se desfez em uma explosão de luz que se espalhou pelo ar, como uma chuva de faíscas. Ele avançou em um piscar de olhos e a golpeou com o punho da adaga, acertando sua boca com força. Sybel caiu no chão.
— Vocês são fracos... — o druida riu com desdém, enquanto os observava com prazer cruel. — Acham mesmo que podem me parar?
Fenik, coberto de sangue e com as pernas trêmulas, forçou-se a ficar de pé. Ele apertou os olhos por conta do esforço, mas seu corpo parecia estar no limite.
Sem hesitar, o druida avançou. Ele fintou com as adagas, mas acertou o rosto de Fenik com um chute, derrubando-o no chão. Fenik caiu de costas e bateu a nuca no pavimento destruído. A dor percorreu seu corpo, dificultando sua respiração.
Sybel forçou a visão para enxergar o inimigo enquanto se levantava com dificuldade. Ela conjurou sua magia, e a luz divina envolveu a si e seus colegas, cicatrizando alguns de seus ferimentos.
— Agora é nossa chance... — murmurou Fenik, já recuperado.
Os três se levantaram, lado a lado, prontos para a batalha.
O druida sorriu, satisfeito com o desafio renovado. — Vamos ver quanto tempo mais conseguem durar.
A batalha continuou feroz, mas a diferença de poder era evidente. Pouco a pouco, os três começaram a ceder, seus movimentos se tornaram lentos e descoordenados. Em breve, um a um caíram no chão. A dor os consumia, enquanto a escuridão ameaçava engolir suas consciências.
Fenik tentou se levantar, mas seus ferimentos eram profundos demais.
Sybel, apesar de tantas vezes curar a si e aos outros, estava à beira da inconsciência.
Yodama permanecia imóvel.
O druida se aproximou sem pressa, com o mesmo sorriso cruel nos lábios. Do chão, plantas brotaram, ao mesmo tempo que rompiam o calçamento de paralelepípedos. Vinhas fortes ergueram os três no ar, estavam pendurados feito marionetes, indefesos, à mercê do druida.
— Nunca foi minha intenção matar letnicianos. Mas vocês foram muito insistentes. É uma pena vocês terem o infortúnio de cruzar meu caminho — murmurou.
— Que pena…
Ele ergueu a adaga para o golpe final, mas algo voou em sua direção — um escudo redondo de metal. Sem desviar o olhar, o druida o agarrou com uma única mão. Murmurou algo, e vinhas e heras começaram a brotar do metal. No entanto, o escudo brilhou em luz intensa. A explosão que se seguiu desintegrou as vinhas que sustentavam os letnicianos, estavam livres no chão.
Fenik e Sybel se levantaram, eles tocaram seus corpos completamente curados. No entanto, Yodama continuava imóvel no chão.
— Yodama? — chamou Fenik, sua voz carregada de incredulidade. Ele se ajoelhou ao lado do amigo, e o sacudiu suavemente. — Yodama, acorda!
Sybel também se ajoelhou, seus olhos em lágrimas. Ela apertou a mão de Yodama, os dedos tremiam levemente enquanto balbuciava — Não pode ser... Ele não pode estar…
O druida recuou.
— Quem ousa? — murmurou, enquanto olhava ao redor.
Uma figura avançou em sua direção, com uma lança singela em mãos. A arma cortou o ar em uma estocada rápida, mas o druida saltou para trás, em uma esquiva graciosa.
Contudo, a ponta da lança brilhou. Uma rajada de luz explodiu dali. O ar foi rasgado como uma flecha. A força era devastadora.
O druida mal teve tempo de reagir.
— O quê...? — Ele murmurou, enquanto era atingido.
A explosão o lançou para trás com violência. O cabo da lança quebrou em mil pedaços, estilhaçado como uma vara seca. O corpo do druida foi arremessado contra a porta de uma casa, atravessando-a com um estrondo. Ele continuou a voar, enquanto colidiu contra uma janela, que se partiu em cacos ao seu redor.
Mas não parou por aí.
Seu corpo foi arremessado através da parede de uma construção precária. O impacto fez a estrutura ruir em cima dele, enquanto uma nuvem de poeira e destroços se ergueu.
A figura, com a lança destruída, se aproximou. Cabelos vermelhos metálicos brilhavam sob a luz da lua. Apesar do peito despido, coberto de cicatrizes, sangue seco e alguns ferimentos, ele calçava grevas icônicas dos paladinos. Ele fitou o grupo com seriedade.
Fenik piscou, seus olhos percorreram a figura em confusão, as sobrancelhas se estreitaram enquanto tentava processar aquilo. Sybel, ainda com o rosto molhado de lágrimas, franziu o cenho, antes de dar um pequeno passo para trás, como se a presença inesperada do estranho a fizesse hesitar.
— Acho melhor vocês irem embora — disse o paladino, sua voz calma, mas carregada de autoridade.
— Quem é você? Por que está nos ajudando? — perguntou Fenik enquanto se levantava com o rosto distorcido pela dor.
A figura respondeu calmamente, antes de voltar seu rosto para os escombros onde jazia o inimigo. — Meu nome é Phong. Vocês estão cometendo um engano. Esse homem não é um druida. Fujam enquanto é tempo.
As luzes das luas revelaram mais do rosto do estranho. Fenik apertou os punhos instintivamente, depois olhou para Sybel, que trocou um rápido olhar com ele. Ela piscou algumas vezes, seus lábios se entreabriram, como se quisesse dizer algo, mas sem encontrar as palavras certas.
— Um paladino de rua? — Sybel murmurou, sua voz vacilou enquanto seus olhos arregalaram.
Phong deu um passo à frente, posicionado entre o grupo e o druida que começava a se levantar dos escombros.
— Eu cuido daqui. Vão!
Um rugido gutural ecoou pela rua, como um eco entre as paredes. Dos destroços, o corpo do druida se mexeu.
O som de ossos estalando encheu o ar. Seu corpo se contorcia de maneira antinatural.
— Ele está... mudando? — Sybel murmurou, a voz trêmula.
Diante de seus olhos, o druida se transformava. Seus membros alongavam-se, músculos inchavam e rasgavam a pele. Em poucos instantes, uma criatura gigantesca emergiu. Um leão de presas enormes.
— Um paladino de rua não pode ser páreo para isso — disse Fenik, antes de recuar um passo. — Precisamos enfrentá-lo juntos!
— Vocês não entendem — respondeu Phong, a voz tensa, sem desviar o olhar do leão-druida. — Saiam daqui. Agora!
— Somos letnicianos, a elite das companhias! — insistiu Sybel, o medo e a determinação relutantes em sua voz. — Deixe-nos ajudar. Você não poderia estar melhor acompanhado!
Phong virou-se, sua expressão grave. — Mesmo que vinte dos melhores de vocês estivessem aqui, o resultado seria o mesmo. Esse homem é muito mais poderoso do que um arquidruida. Vocês não têm ideia do que estão enfrentando!
Enquanto Phong falava, o leão começou a mudar de forma, seus músculos e ossos, se contorceram até reassumir sua forma humana. Com um sorriso sinistro, começou a avançar.
— Não vamos deixá-lo aqui sozinho! — insistiu Fenik, com um salto para a vanguarda do combate. — Você é só um paladino de rua, todo machucado.
Phong estendeu o braço enquanto colocava a lança destruída na frente de Fenik, como uma forma de bloquear sua passagem. — Ele só estava brincando com vocês, como um gato brinca com sua presa antes de devorá-la. Se não fugirem agora, estarão condenados.
Antes que Fenik pudesse responder, o druida voou baixo em direção a Phong. O paladino apenas esperou, pronto para enfrentar o impacto iminente.
— Vão! — gritou Phong, sem tirar os olhos do inimigo. — Eu cuido disso!
Algo no olhar de Phong fez Fenik e Sybel recuarem.
Sybel e Fenik tomaram Yodama inerte nos braços, ofegantes, movidos pela dor e o medo. Após algum tempo, Fenik avistou um beco estreito e os guiou para lá. Eles deitaram Yodama no chão com cuidado, ainda com o som da batalha ecoando ao fundo.
— Você precisa ir, Sybel — disse Fenik, a voz tensa.
— E você? — perguntou Sybel, a incredulidade nos olhos.
— Eu vou voltar. Estou com um péssimo pressentimento. Preciso ajudar aquele paladino. Vá e encontre ajuda. Se algo acontecer comigo, conte aos outros o que vimos.
Sybel hesitou, mas a determinação de Fenik era clara. Ela então assentiu, uma lágrima solitária em sua face. — Tenha cuidado, Fenik. Quero sair daqui hoje com pelo menos um amigo vivo.
— Eu prometo.
Sybel se afastou apressada, enquanto carregava Yodama com dificuldade, Fenik se esgueirava pelos telhados, quando procurava um ponto de observação seguro. Encontrou o terraço de um prédio parcialmente destruído, de onde tinha uma visão clara da batalha.
Após trocarem alguns golpes, Phong largou os frangalhos da lança no chão, os olhos fixos no druida, enquanto ele, com um sorriso no rosto também guardou suas adagas de osso, e se aproximou com ímpeto assassino.
— Já que insiste. Vamos lutar sem armas então. — disse o druida, antes de golpear Phong. Seus punhos envoltos em uma energia verde.
Phong esquivou com precisão quando o golpe veio. Sua velocidade era rápida demais para o druida acompanhar. Com um movimento ágil, ele revidou com um soco direto no rosto do adversário, que cambaleou para trás alguns passos.
O druida limpou o sangue dos lábios, o olhar cheio de fúria. — Não me subestime!
Assim que se recuperou, ele avançou de novo, ele desferiu uma sequência frenética de socos e chutes.
Phong, inabalável, observava os movimentos com calma. Ele bloqueou cada ataque com uma precisão impecável.
O druida rugiu de frustração e aumentou a intensidade dos golpes. Seus punhos brilharam com uma luz intensa, como se canalizassem a fúria de um trovão.
Os olhos do druida se arregalaram ao ver a calma de Phong. — Como você consegue...?
Phong não respondeu. Em vez disso, agarrou o braço do druida em um movimento rápido o girou. Com um golpe seco, jogou o adversário ao chão com força, espalhando poeira.
O peito do druida colidiu com o pavimento, ficou sem fôlego por um momento.
De seu ponto de observação, Fenik assistia, o coração batendo forte. — Incrível… ele tá conseguindo acompanhar esse monstro — murmurou, sem acreditar.
— Nada mal pequeno Peco. Por um momento temi que você não fosse mais o mesmo de antes — disse o druida, seu sorriso provocador insinuava uma proximidade com o paladino.
— Shaykor, o traidor — respondeu Phong, a voz firme. — É muita coragem sua aparecer diante dos meus olhos depois do que aconteceu com o seu mestre. Por acaso perdeu o gosto pela vida?
Shaykor riu, um som áspero e cheio de escárnio. — Ah, Pequinho, você sempre foi tão ingênuo. Acha mesmo que você e sua corja vão estar para sempre no controle de tudo?
— O que está tramando? — perguntou Phong, os músculos tensos, pronto para qualquer movimento.
— Se isso é pergunta a se fazer? — respondeu Shaykor, com um sorriso malicioso. — Vamos continuar de onde paramos, desde o velho Brenan.
Phong fechou os olhos por um instante, depois de soltar um suspiro. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios feridos.
— A única coisa que você vai fazer... é se juntar ao seu mestre. Mas eu vou ser generoso. Prometo que serei rápido.
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