Volume 1
Capítulo 10: Toque da Omissão.
Antes que Phong pudesse reagir, Shaykor ergueu as mãos, e o ar ao redor vibrou com uma intensidade brutal. Raízes gigantes irromperam do chão, o pavimento se rachou como se fosse papel. Fragmentos de pedra voaram em todas as direções, e postes de luz foram arrancados como gravetos.
Shaykor olhou ao redor, com um sorriso malicioso nos lábios.
— Está vendo, Peco? — disse, enquanto admirava as árvores colossais que agora cresciam ao redor. — Isso deve acabar com você de uma vez por todas.
Phong permaneceu imóvel. Seu olhar calmo e calculista contrastava com a cena de destruição ao seu redor. As raízes se contorciam, prédios, muros e fachadas desabavam, enquanto galhos rasgavam o ar como lanças. Vidros das janelas explodiam, transformados em uma chuva de cacos sobre a rua.
Ele desviou de uma raiz que avançava, apenas o necessário para evitar o ataque.
— Você realmente acha que isso vai me parar? — murmurou, sem tirar os olhos de Shaykor. — Parece que não aprendeu nada ao longo dos anos.
Nos distritos vizinhos, pessoas saíam de suas casas, atônitas diante da massa vegetal que crescia sem parar, quase tocando a massa de terra flutuante dos Quangra.
Fenik observava de longe, enquanto processava o que via. Ele se esquivou de uma formação vegetal que quase o atingiu, depois rolou pelo chão enquanto um galho passava de raspão. Ofegante, se escondeu atrás de um muro parcialmente destruído, com os olhos arregalados de incredulidade.
— Como... isso é possível? — murmurou, atordoado com a força e a velocidade da luta. — Nem os maiores campeões Letnicianos conseguem uma loucura dessas. Quem são esses caras, afinal?
Enquanto se recuperava, outros galhos se formavam abaixo dele. Fenik saltou entre eles como um mico assustado.
— Esse cara está brincando com vocês como o gato brinca com sua comida... — Ele repetiu as palavras de Phong em voz baixa. — O paladino estava certo.
Shaykor gargalhou.
— Ora, pequeno Peco. Está com medo? — Seus braços ergueram-se ainda mais, e a vegetação ao redor cresceu com mais fúria, soldados que se aproximavam na tentativa de conter a ameaça foram engolidos. Seus gritos logo se perderam, abafados pela selva mortal.
— Medo? — Phong olhou ao redor, enquanto assistia a cidade desmoronar à mercê das raízes. — Não de você. — Seus olhos seguiram um edifício que ruía sob as raízes colossais. — Achei que você tivesse se aprimorado um pouco mais com o tempo.
Shaykor apenas sorriu mais largo.
— É mesmo? Então vamos descobrir, pequeno Peco — disse ele, dando um passo à frente, enquanto sua explosão de vida vegetal se intensificava.
Um estrondo metálico ecoou quando um poste de luz desabou atrás de Phong. As raízes avançaram, retorcidas como serpentes famintas, tentavam enlaçar suas pernas. Ele saltou com agilidade, e invocou sua naginata. A lâmina surgiu de suas mãos, com o brilho de sua aura esverdeada.
— Maldito! Se quer destruir alguém, destrua a mim! — gritou Phong, enquanto encarava a destruição causada pela magia do druida. — Não as pessoas!
Shaykor ergueu as sobrancelhas, seu sorriso ainda mais arrogante.
— Não seja tolo, Peco — disse ele, com desdém. — Estou apenas mandando eles na frente. Para o mesmo lugar que vou mandar você.
O aço da naginata cortou o primeiro emaranhado de raízes que tentava cercá-lo. O estalo seco das plantas quebradas ecoou no ar, enquanto os fragmentos se espalhavam pelo chão.
Outros galhos vieram em seguida, grossos e vigorosos, mas Phong manteve a postura. Seus pés se moviam com precisão, e o próximo galho, que descia com fúria, foi cortado antes de tocá-lo. A vegetação parecia viva, ela reagia ao comando de Shaykor, mas a lâmina reluzente da naginata rasgava cada investida como se fossem simples folhas ao vento.
— Eu tenho pena de você, pobre Peco — provocou Shaykor, recuando alguns passos. — Está lutando por uma causa perdida. Vocês não podem vencer para sempre.
— Isso pode até ser verdade, mas hoje ainda não será meu dia — respondeu Phong, antes de avançar com um golpe circular da naginata. A lâmina cortou o ar com um silvo mortal, forçando Shaykor a se esquivar.
Shaykor retaliou com uma nova magia, ele convocou uma tempestade de espinhos venenosos. Eles voaram em direção a Phong como dardos, antes de perfurar o chão e as paredes ao redor.
Phong estendeu a mão em direção ao inimigo, e uma barreira protetora desviou a maioria dos espinhos. Alguns ainda o atingiram de raspão, mas ele ignorou a dor e manteve o foco no druida.
— Está vendo, pequeno Peco? — zombou Shaykor enquanto se elevava sobre os galhos de sua selva em expansão. — Você está péssimo, não tem mais aquele esplendor de antigamente.
Phong não disse uma palavra quando avançou, suas pernas dispararam como molas. A naginata cortava o ar com silvos agudos. As raízes e galhos que tentavam barrá-lo se partiam ao toque da lâmina.
Shaykor recuou. Seus passos eram rápidos e precisos. Magias cintilavam ao seu redor, em forma de barreiras temporárias que desviavam os golpes mais perigosos.
— Diga-me, Peco Peco, — gritou Shaykor, do alto, com um sorriso arrogante. — Como é lutar sabendo que vai perder?
Silêncio.
Phong fixou o olhar nele. Cada passo encurtava a distância. Seus pés se moviam com a graça de um dançarino de batalha.
Então, ele viu a abertura.
Com um salto feroz, lançou-se no ar. A naginata descreveu um arco mortal, pronta para dividir Shaykor ao meio.
A naginata de Phong atravessou a barreira de energia de Shaykor como vidro, e então mergulhou fundo no seu peito. O som do metal rasgado carne e osso ecoou, enquanto o sangue escorria pela lâmina.
Por um breve momento, os olhos de Shaykor se arregalaram.
Phong recuou a arma, pronto para o golpe final. Mas, antes que pudesse se mover, os buracos no corpo de Shaykor começaram a fechar, como se a carne estivesse sendo costurada por mãos invisíveis. As feridas desapareceram tão rápido quanto surgiram, e o sorriso malicioso retornou ao rosto do druida.
— Você pagará por isso! — gritou Shaykor, enquanto suas mãos brilhavam com uma energia verde pulsante. — Eu vou desfazer tudo o que aquele velho fez, e você não poderá nos impedir!
Shaykor ergueu a mão com um brilho feroz nos olhos. Num instante, uma explosão colossal de energia irrompeu de sua palma, como se o próprio ar tivesse sido incendiado. A onda de destruição avançou como um rugido furioso, pronta para devorar tudo à frente.
— E será seu fim, Peco! — bradou Shaykor, sua voz misturada ao rugido da devastação.
O chão rachou em fissuras profundas, prédios inteiros desmoronaram em cascatas de pedra e poeira. As ruas, antes vazias, foram rasgadas ao meio, e as árvores mágicas, que haviam crescido em segundos, agora se tornavam cinzas em um clarão. Cada esquina sucumbia à força implacável da explosão.
O som fora ensurdecedor.
A explosão sacudiu o distrito com tanta violência que até as massas de terra flutuantes estremeceram. Uma cortina de detritos e fumaça se ergueu, tudo foi engolido em questão de segundos, o cenário agora era um inferno desolado.
— Que pena, Peco. No fim, você morreu sozinho... — Shaykor sorriu com desdém. — Não se preocupe. Seus amigos logo farão companhia a você.
A nuvem de poeira pairava densa no ar, enquanto obscurecia tudo à vista, até que, como um espectro, Phong pousou diante dele com uma leveza desconcertante.
— Não enquanto eu respirar — disse Phong, a voz carregada de uma calma ameaçadora. — Agora, morra.
Phong tocou com a palma de sua mão no rosto de Shaykor. Sem chances de reação, ele arregalou os olhos.
— O quê? — Shaykor recuou um passo, seus olhos arregalados de descrença e medo. — Toque da Omissão! — exclamou, a voz trêmula. — É uma habilidade perdida! Quando você aprendeu isso, Peco?
Phong sorriu de maneira irônica. — E desde quando eu não sabia antes?
O efeito da magia se manifestou de imediato, uma onda de choque destruiu tudo em um pequeno raio ao redor deles. A palma da mão de Phong ficou marcada no rosto de Shaykor, e apenas isso.
Desesperado, Shaykor se transformou numa revoada de morcegos. Os pequenos corpos alados emergiram de sua forma humana, e se espalharam por todas as direções. A revoada escapou pela selva caótica criada por ele, e por fim desapareceu na noite.
Phong ficou ali, parado, enquanto os morcegos se afastaram. O distrito evacuado estava em ruínas, a selva mágica de Shaykor espalhada por toda parte.
De seu esconderijo, Fenik observava a cena, os olhos arregalados e a respiração entrecortada. Protegeu-se como pôde das árvores e raízes, mas agora, com o coração ainda disparado, a batalha teve seu desfecho, pelo menos por enquanto.
— Ele conseguiu... — murmurou Fenik, impressionado.
Phong se virou, pronto para partir, sua naginata ainda em mãos. Porém, Fenik correu numa tentativa de alcançá-lo.
— Ei, paladino! Espere!
Phong parou e se virou para encarar Fenik. O jovem raposa, parou diante dele, os olhos arregalados de espanto.
— Quem é você? — perguntou Fenik, a voz cheia de curiosidade. — Como você fez tudo isso? E aquela magia... nunca vi nada igual!
Phong permaneceu calado, sua voz controlada. — Sou apenas um paladino, cumprindo seu dever.
— Apenas um paladino? — Fenik riu incrédulo. — Não tem nada de "apenas" em você! De onde você veio? Quem te treinou?
Phong desviou o olhar, enquanto observava a destruição ao redor. — Minha história não é relevante. O que importa é que a ameaça se foi, por enquanto.
Fenik olhou em volta, boquiaberto com a destruição ao seu redor. — Há quanto tempo você enfrenta esses caras?
— Tempo suficiente — respondeu Phong. — Mais perguntas?
— E aquela lança que você estava usando? — perguntou Fenik. — Vi que você lutava com ela na mão direita, mas essa naginata está na mão esquerda. Como é que você faz isso?
— Isso? — Phong olhou para a naginata em sua mão esquerda e sorriu levemente. — Eu treino com a lança na mão direita para me acostumar, caso um dia perca um braço.
— Perder um braço, é?
— Sim, por que não?
Fenik ficou imóvel por um momento. Seu olhar carregava curiosidade, mas ao ver a expressão reservada de Phong, suas perguntas ficaram presas na garganta.
— Você vai ficar por aqui?
— Tenho outros lugares para ir — respondeu Phong. — Certifique-se de cuidar dos seus amigos e se manter seguro.
Fenik assentiu, ainda em choque. — Obrigado, paladino. Você salvou nossas vidas hoje.
Phong fez um leve aceno com a cabeça, então se virou e começou a caminhar para longe, antes de desaparecer nas sombras da noite.
Fenik saiu do local da batalha e começou a procurar Sybel. Ele a encontrou um pouco mais adiante, na borda do distrito evacuado, onde ela alinhou os corpos de Yodama, Rogard, Ian e Camilina. Sybel estava ajoelhada ao lado deles, seus olhos vermelhos por conta do choro.
— Sybel... — chamou Fenik, ao mesmo tempo que se aproximou devagar.
Ela levantou a cabeça, os olhos cheios de tristeza. — Conseguiu? O paladino venceu?
Fenik assentiu. — Sim, ele conseguiu. Você tinha que ver. Que luta! Aquele druida, ou sei lá o que, era poderoso demais.
Sybel suspirou, enquanto olhava para os corpos dos amigos. — De todos só sobraram nós, Fenik. Rogard, Ian, Camilina... até Yodama. Não posso acreditar que estão mortos.
Fenik se ajoelhou ao lado dela, ele colocou a mão em sinal de consolo no seu ombro. — Eu sei. É difícil de aceitar. Mas todos sabiam dos riscos.
Sybel ficou em silêncio por um momento, as lágrimas escorriam pelo rosto. — E pensar que... eu gostava do Rogard. Ele era mais do que um líder para mim. Ele sempre foi gentil e protetor.
Fenik olhou para os corpos dos amigos, depois para Sybel. — E o que aconteceu? Não gosta mais?
Sybel olhou para Fenik, surpresa. — O que você acha?
— Eu acho que eu não tenho que achar nada.
Sybel sorriu tristemente. — Você tem razão.
— É triste pensar que até o Yodama nos deixou — disse Fenik. — Precisamos dar o sinal e nos preparar. O teleporte vai levar um tempo para funcionar, e temos que ficar fora de combate até lá.
Sybel limpou as lágrimas, ativou o dispositivo, e o feixe azul subiu ao céu. Eles aguardaram em silêncio até que o portal prateado se formou.
— Vamos. — disse Fenik, antes de pegar a mão de Sybel.
Eles desapareceram junto com os corpos, enquanto deixavam o campo de batalha vazio.
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