Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 1

Capítulo 11: Sucessor

Um bando de morcegos cruzava os céus daquela noite fria. O som de suas asas era um ruído constante, quase inaudível contra o fundo da cidade em ruínas.

De repente, um aeroplano passou perto da revoada. Suas velas batiam como um gigantesco fole, ruidosas. Os morcegos desviaram com um esforço débil, numa tentativa desesperada de evitar o impacto.

Mais abaixo, um aeroplano que parecia uma caçamba flutuante voava lentamente, enquanto recolhia o lixo da superfície da cidade.

Os morcegos miraram aquela caçamba e desceram em um voo caótico, até se chocarem contra o lixo. Alguns deles sangravam enquanto outros se debatiam em meio aos detritos, até que Shaykor transformou-se de volta em sua forma humanoide.

Ele deu alguns passos vacilantes, seu corpo tremia por conta da dor e da exaustão, até se recostar entre o lixo. No rosto, a marca negra no formato da palma da mão de Phong queimava sua pele. Shaykor olhou para sua mão esquerda, seus olhos arregalaram-se enquanto ela lentamente se desfazia em pó.

— Maldito Phong... — murmurou, a voz rouca e fraca.

A pedra vermelha no anel de seu dedo começou a brilhar intensamente, e uma voz profunda e reconfortante ecoou em sua mente.

— Shaykor, meu servo fiel. O que aconteceu? — perguntou a voz vinda de dentro do anel.

— Mestre... — respondeu Shaykor, com esforço. — Não consegui ir além. Um deles me encontrou.

— Quem? Quem ousou enfrentá-lo? — A voz do mestre tremia de raiva e preocupação.

— Phong. Ele usou o Toque da Omissão... — a voz de Shaykor tremia ao pronunciar as palavras.

O anel ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse a gravidade da situação.

— O Toque da Omissão... uma habilidade lendária. Mesmo nos dias de hoje, é difícil imaginar alguém que seja capaz de usá-la.

— Difícil, é? — Shaykor riu de forma melancólica. — Então eu fui o mais infortunado de todos os seus servos. — disse ele enquanto ainda observava os efeitos daquela habilidade. — E o que vai acontecer comigo?

— O Toque da Omissão é uma magia tão poderosa quanto perigosa. Ela põe na balança os poderes de ambos. O mais fraco deteriorará até sobrar apenas cinzas. Quanto maior a diferença, mais rápido são seus efeitos. — disse a voz do anel.

— Então é o meu fim, mestre. Já perdi até os meus pés... — Shaykor admitiu, a voz tingida de desespero.

— Shaykor, você foi um servo leal e poderoso. Venha para perto de mim. Nos seus últimos momentos de vida, eu cuidarei de você. E enquanto isso, você ajudará a escolher um sucessor para sua missão.

A pedra do anel parou de brilhar. Shaykor fechou os olhos por um momento, antes de respirar fundo. A dor intensa e a exaustão transpareciam em seu rosto. Mesmo assim ele sorriu. Como se aceitasse a derrota.

***

A luz fraca do amanhecer atravessava as frestas do casco velho de um aeroplano, enquanto revelava a silhueta de uma figura solitária.

O ar ali dentro era pesado, saturado com o odor pungente do lixo em decomposição. A figura estava deitada, quase imóvel, sua pele ressecada e pálida, como se estivesse sendo corroída por algum mal invisível.

De súbito, passos cautelosos se aproximaram e uma sombra cruzou uma falha no casco, usada como entrada, uma voz hesitante se fez ouvir.

— Quem tá aí? — perguntou o novo chegado, com um tom de curiosidade e desconfiança.

A figura no chão tentou se mover, mas apenas conseguiu produzir um fraco murmúrio.

— Não tenha medo... — disse a figura moribunda, sua voz rasgou o silêncio com dificuldade. — Aproxime-se... Eu não tenho muito tempo.

A pessoa hesitou, mas obedeceu. Ele se inclinou sobre a figura desvanecida. Os olhos se arregalaram ao ver o estado lamentável do homem diante de si.

— O que aconteceu com você? — perguntou, como se tentasse entender a gravidade da situação.

— A vida... a desigualdade... — murmurou o homem, com um sorriso triste. — Mas não importa agora. Eu tenho algo para você... Um presente. — Ele ergueu a sua única mão, trêmula, havia um anel. — Se souber usá-lo com sabedoria, poderá ter a chance de vencer na vida. De sair deste lugar. De fazer a diferença.

A pessoa olhou para o anel, indecisa.

— Mas por que eu? — perguntou, a dúvida refletida em sua voz.

— Porque vejo em você... uma chama. Uma força que pode transformar o destino. — O homem tossiu, um som seco e agonizante. — Aceite este presente. Use-o para seu próprio bem e tome cuidado com os outros.

A pessoa pegou o anel, quando sentiu o peso e a energia emanar dele. A figura no chão fechou os olhos, exausta.

— Vai... Agora é sua vez... — sussurrou, antes de o silêncio voltar a dominar o interior do casco do aeroplano.

A nova figura se levantou, o anel apertado na mão, e fechou os olhos por um momento.

Porém, antes de partir, olhou uma última vez, na esperança de ver o homem caído. No entanto, tudo o que encontrou foram cinzas, espalhadas onde antes havia aquele ser. Com o anel em sua posse, a pessoa se virou e seguiu em frente.

 

***

A luz suave da manhã invadiu a casa de Kilian. O aroma do Pão recém-assado se espalhava pelo ar. Caelinus estava ao lado de Melangie, enquanto a observava preparar o desjejum com movimentos lentos e cuidadosos.

— Eu sempre quis saber como você consegue fazer esse Pão de Essência Solar tão perfeito — comentou Caelinus, seus olhos brilhavam por algo que parecia ir além da curiosidade. — Ninguém lá na Ordem sabe replicar a sua receita.

Melangie sorriu, uma expressão de cansaço suavizou seus traços enquanto misturava uma farinha de aspecto brilhante com um toque de mel do deserto e especiarias.

— Ah, Caelinus, é tudo uma questão de paciência, um pouco de amor e... saber encontrar os ingredientes certos — respondeu ela, a voz suave, quase frágil. — Primeiro, você precisa dos grãos de Solara. Eles são especiais, sabe? Crescem apenas nas áreas mais ensolaradas do deserto. Eu sempre mando o Kilian comprar eles na barraca de um senhorzinho no distrito do lado. Depois, você os mói bem fininho para fazer a farinha.

Caelinus observava atento, enquanto tentava memorizar cada passo daquele processo.

— E então você mistura com esse mel do deserto, e um pouco de especiarias, como cardamomo e canela, certo? — perguntou ele, com um sorriso.

— Exatamente — confirmou Melangie. Porém, ela parou e respirou fundo antes de continuar. — Aí você deixa a massa fermentar sob o sol por algumas horas antes de assá-la. O segredo está no tempo de fermentação e na temperatura do sol. Este mesmo eu já deixei ontem. Se eu fosse colocar hoje, nesse sol, não serviria.

Kilian, ainda com os olhos sonolentos, entrou na cozinha, onde se fez notar com um bocejo.

— Bom dia, Kilian — disse Melangie, quando se virou para ele com um sorriso cansado. — Por acaso vocês não ouviram um barulho estranho ontem à noite?

— Barulho? — Caelinus olhou para cima, na tentativa de recordar algo. —Acho que não. Eu estava tão cansado que nem ouvi nada.

Kilian balançou a cabeça em concordância.

— Eu também não ouvi nada. Dormi como uma pedra.

Melangie suspirou, depois colocou as mãos na cintura, mas logo segurou o balcão para se apoiar.

— Vocês dois, sempre tão desatentos. Bom, o leite já deve estar na porta. Kilian, pode pegar, por favor?

Kilian levantou-se e foi até a porta, seus olhos ainda inchados por conta do sono.

Ao abrir a porta para pegar a garrafa de leite, algo ao longe chamou sua atenção. Com a garrafa em mãos, ele olhou em direção ao horizonte, seus olhos arregalaram.

— Ei, vocês já viram isso? — gritou ele da rua.

Caelinus e Melangie trocaram olhares curiosos e seguiram até a porta.

Ao saírem, a visão que se apresentava diante deles os deixou boquiabertos. No horizonte, uma vasta quantidade de árvores gigantes e emaranhadas se erguiam, suas copas quase tocavam a enorme ilha flutuante dos Quangras, em um contraste gritante com o ambiente desértico ao redor.

— Como é possível? Não ouvimos nada ontem. — comentou Kilian, ainda incrédulo.

Caelinus, com uma expressão de preocupação crescente, ainda observava aquela massa vegetal.

— Isso... não é normal. Algo grande deve ter acontecido para essas árvores surgirem tão de repente.

Melangie olhou para Caelinus, quando notou a seriedade em seus olhos.

— O que você acha que pode ter causado isso?

— Não sei, preciso descobrir. — Caelinus virou-se de forma abrupta e entrou de volta na casa. — Preciso voltar para a Ordem imediatamente. Eles devem estar precisando de mim, e eu também preciso saber o que aconteceu.

Ele começou a vestir suas roupas apressadamente, os gestos rápidos e determinados. Melangie caminhou com dificuldade até a mesa velha da cozinha, onde jazia uma chaleira fumegante sobre a mesa.

— Tudo bem, só não esqueça do Chá de Névoa Matinal, Caelinus — disse Melangie, com um sorriso na tentativa de esconder o seu cansaço. — As folhas dão um toque especial, você sabe.

— Sim, mas não posso perder tempo. — Caelinus pegou a chaleira e serviu-se, tomou apenas um gole antes de sair. — Realmente, ninguém faz um chá como o seu. Vou ter que aprender essa também.

Sem ao menos tomar o desjejum completo, Caelinus pegou suas coisas e, em um último olhar para Kilian e Melangie, saiu apressado pela porta com urgência.

Melangie permaneceu na porta. Seus olhos seguiam cada passo dele, seus ombros caídos enquanto uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto. Ela apertou a gola do seu vestido de segunda mão, enquanto vislumbrava o paladino partir.

— Fique bem, Caelinus.

Caelinus caminhava pelas ruas de terra batida, suas botas levantavam pequenas nuvens de poeira. Colocou a mão sobre a testa para observar melhor a formação vegetal à frente.

— Está ficando quente cedo hoje — murmurou para si, enquanto sentia o sol matinal já trazer calor, apesar de ainda estar baixo no horizonte.

As casas de pedra e barro alinhavam-se ao longo das ruas. Vendedores ambulantes começavam a montar suas barracas.

— Frutas secas e especiarias, hoje vai vender bem — ele pensou, enquanto observava as crianças correrem e brincarem ao redor da rua.

Caelinus acelerou o passo, seu foco eram o distrito evacuado. O mercado começava a se encher de vida, pessoas carregavam cestas e negociavam preços. Ele passou por uma fonte de pedra onde alguns moradores enchiam seus cântaros de água. Seu olhar se deteve por um momento.

— É o melhor poço da região. Não é à toa que as pessoas vêm de longe pegar água daqui.

Assim que Kilian terminou de falar, Caelinus deu um salto assustado e virou o rosto para trás, mesmo assim manteve o passo firme e constante.

— O que está fazendo aqui? — Sua voz tinha um tom de surpresa, mas também de cansaço. — Eu te disse para ficar com Melangie.

Caelinus continuou caminhando.

Kilian acelerou o ritmo, se forçando a acompanhar o paladino. Seus olhos, cheios de determinação, permaneciam cravados em Caelinus, como se recusassem a aceitar a ordem.

— Não, você não me pediu. Mas mesmo que tivesse, eu quero ir com você! — O garoto falava mais alto do que o normal, com a respiração acelerada. — Ontem, eu ajudei a matar o tigre gigante, não foi? Agora que eu já provei o meu valor, eu quero ajudar.

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