Hyouka Japonesa

Tradução: slag


Volume 5

Capítulo 2: A Mesa de Recepção Fica Bem Aqui

 

1. PRESENTE: 1,4 KM; 18,6 KM RESTANTES

 

Embora toda a largura da estrada estivesse coberta por asfalto novinho em folha, quase não havia carros passando. Por todos os lados, alunos do Colégio Kamiyama vestiam roupas de ginástica. Era quase como se as estradas que atravessavam a área montanhosa atrás da escola tivessem sido construídas especificamente para a Copa Hoshigaya.

Ibara provavelmente apareceria em breve, vindo de trás. Antes que isso acontecesse, eu queria garantir que me lembrava claramente de todos os acontecimentos da semana de recrutamento dos novos alunos.

O intervalo entre o início da corrida de uma turma e o início da turma seguinte era geralmente de cerca de três minutos. Eu estava na Turma A, e Ibara na Turma C, o que significava que eu tinha começado aproximadamente seis minutos antes dela.

No primeiro quilômetro, mantive meu ritmo igual ao dos outros ao meu redor. Quando cheguei à subida, Satoshi me alcançou e desacelerei um pouco. Em média, eu deveria estar correndo no ritmo de uma caminhada leve.

Uma vez ouvi dizer que a velocidade média de caminhada de uma pessoa era cerca de 4 km/h. Correr normalmente dobraria esse valor e assim por diante. Em um livro que li certa vez, se você andasse a menos de 4 mph, seria punido. Infelizmente, a conversão exata de quilômetros para milhas era meio nebulosa na minha cabeça, então não podia usar isso como referência. De qualquer forma, vamos supor que fosse algo entre um passeio tranquilo e uma corrida rápida: 6 km/h.

Ibara provavelmente estava correndo com mais determinação do que a média, então estimei que ela estivesse a 7 km/h. A partir disso, precisava calcular quantos quilômetros nos separavam, considerando que ela começou seis minutos depois de mim. Isso significava que a resposta era...

A resposta era...

Multiplicações e divisões rodopiavam na minha cabeça. Não é como se minhas notas em matemática fossem excepcionalmente ruins, e os cálculos dessa vez nem eram tão complexos. Mas fazer contas de cabeça era bem diferente de fazê-las no papel. Além disso, eu estava correndo, e minha mente não funcionava como de costume. Perder tempo tentando chegar à resposta era inevitável.

Enquanto arrumava desculpas uma atrás da outra, reorganizava mentalmente todas as distâncias, tempos e velocidades na fórmula que havia formado em minha cabeça.

Vamos ver... Em um minuto, alguém provavelmente percorreria cerca de 17 metros. Então, ela me alcançaria por volta dos 4,1 km de percurso. Isso significava que a distância entre nós era...

Bom, de qualquer forma, ela provavelmente não estava tão longe.

Mesmo sem ter tempo ou distância suficientes para começar, acabei gastando mais de ambos ao tentar calcular quanto ainda restava. Falta de planejamento total. Eu tinha duas opções para recuperar o tempo e a distância perdidos.

A primeira era levar a corrida mais a sério.

A segunda era tentar me lembrar mais rápido do que aconteceu naquele dia.

Se bem me lembro, aquele dia foi bem parecido com hoje. Tenho quase certeza de que o céu estava limpo.

Mas, com certeza, fazia mais frio.

2. PASSADO: 42 DIAS ATRÁS

 

A sexta-feira que coincidia com o último dia da semana de recrutamento dos novos alunos era frequentemente chamada de "Festival dos Novatos". Aparentemente, esse nome não surgiu porque alguém o batizou assim, mas simplesmente porque era mais conveniente chamá-lo desse jeito.

O recrutamento em si, no entanto, durava a semana inteira.

A partir de segunda-feira, os novos alunos se reuniam no ginásio após a escola para assistirem a diversas apresentações. Na segunda-feira, era a vez do conselho estudantil. Depois vinham os comitês escolares mais importantes. De terça-feira em diante, os diversos clubes se revezavam no palco para mostrar aos calouros o quão fantásticos eram. Como havia um número considerável de grupos, as apresentações se estendiam por quatro dias.

O mesmo aconteceu no ano passado, mas eu não estava interessado em ser recrutado, então fui embora mais cedo. Agora que estava do outro lado da equação, achei que deveria ao menos fazer um pouco de reconhecimento do inimigo. Na terça-feira, Chitanda me arrastou para o ginásio para fazermos uma pequena espionagem.

Cada grupo tinha cinco minutos para se apresentar. Nesse tempo, o Clube de Teatro encenou uma pequena peça, a Sociedade de Pesquisa de Moda realizou um desfile, os clubes de Coral e Acapella demonstraram as diferenças musicais entre eles, e o Clube de Atletismo trouxe um colchão para demonstrar saltos em altura.

Havia também clubes claramente em desvantagem. O Clube de Pesquisa de Adivinhação, por exemplo, tinha apenas um membro, que não gostava de se exibir. Com uma voz baixa, ela deu uma breve explicação sobre a história da Cabala e, rapidamente, largou o microfone e saiu do palco. O Clube de Pesquisa Culinária enfrentava um problema similar. Não dava para começar a cozinhar instantaneamente no palco, então tudo o que puderam fazer foi convidar os calouros para visitá-los no Festival dos Novatos no final da semana, onde serviriam pratos à base de ervas da montanha.

O Clube de Go tentou fazer uma partida de demonstração para a plateia, mas foi um fracasso total. Eles não tinham um tabuleiro de exibição grande, então o público nem conseguia ver onde estavam colocando as peças. Teria sido melhor se tivessem alguém narrando os movimentos, mas aparentemente o clube tinha apenas dois membros. Era como se o tempo tivesse congelado, implorando para escapar daquela situação.

Mas aquele não era o momento nem o lugar para sentir pena do Clube de Go. Cinco minutos eram um tempo surpreendentemente longo.

O Clube de Clássicos estava programado para se apresentar na quinta-feira. Como ainda estavam se organizando após a mudança para o segundo ano, Satoshi e Ibara estavam ocupados e mal apareciam na sala do clube. Na quarta-feira, no entanto, todos acabaram se reunindo.

— O que vamos fazer? — perguntei.

Minha dúvida não era apenas sobre como preencher nosso espaço de cinco minutos, mas também se seríamos sequer capazes de fazer algo assim.

— Por enquanto, vamos apenas dar o nosso melhor — respondeu Ibara, com um tom que claramente indicava que ela não pretendia se esforçar.

— Concordo, vamos dar o nosso melhor — retruquei, no mesmo tom.

Assim que disse isso, ela rebateu.

— Dar o nosso melhor em quê?

Como eu iria saber? Foi ela quem sugeriu primeiro.

— Bem, acontece que sou a presidente do clube, então, tecnicamente falando, eu deveria fazer um discurso explicando o que torna o Clube de Clássicos atraente, mas...

Chitanda também estava hesitante. Pelo jeito que falou, ficou claro que não conseguia pensar em nenhum ponto atrativo. E isso não era tudo.

— Chitanda, mesmo que você suba no palco para promover o clube, acho que ninguém virá.

— Você está falando sério? Tente se olhar no espelho antes de dizer algo assim — resmungou Ibara, hostil.

— Não, tudo bem — disse Chitanda, com um sorriso forçado. — Sei que não sou boa em pedir favores.

Chitanda tinha uma vontade forte e sinceridade ilimitada, mas, por outro lado, sua obstinação era tão unilateral que ela não sabia usar truques ou manipulações. Se tivéssemos material convincente, seu jeito poderia funcionar, mas, infelizmente, não tínhamos nada.

Ibara estava certa sobre eu precisar me olhar no espelho. Se eu fosse ao palco, provavelmente diria algo como: "Não fazemos muita coisa, mas temos uma sala de clube, então, se puderem dar uma passada, seria ótimo."

Mas também hesitava em deixar Ibara fazer isso.

— Chi-chan, nunca achei que você fosse ruim nisso. Se fosse eu, acabaria dizendo algo desnecessário.

A própria Ibara parecia ciente disso. Assim, restava apenas uma pessoa. Satoshi fez uma expressão preocupada, mas seus olhos claramente sorriam.

— Me pergunto se sou a pessoa certa para o trabalho. Mas, se não houver outras sugestões e precisarem muito de mim, posso fazer isso para passar o tempo.

E assim, a responsabilidade ficou com Satoshi. Na quinta-feira, após a aula, Satoshi subiu ao palco do ginásio como o único representante do Clube de Clássicos e soltou várias piadas inteligentes e bem colocadas, como:

— No caminho até aqui, ouvi muitos sons de serra vindos do Clube de Construção, mas, por mais que olhasse, não vi nada. Clube de Clássicos, pessoal.

Suas boas observações arrancaram boas risadas dos calouros, e seu discurso bem ritmado terminou em quatro minutos e trinta segundos. Recebeu um aplauso modesto e saiu do palco, dando espaço para o Clube de Cálculo com Ábaco.

Ainda hoje, admiro o talento notável do meu velho amigo. Afinal, o discurso de Satoshi quase não teve nada a ver com o Clube de Clássicos, mas ele preencheu o tempo com perfeição — um dom que eu jamais poderia imitar.

E então, a sexta-feira chegou. O céu estava completamente limpo.

Em frente ao prédio da Escola Kamiyama, no jardim ou rotatória (ou seja lá como chamavam aquilo), havia vários espaços salpicados de arbustos. Durante o intervalo do almoço, cada um dos clubes e comitês havia montado mesas ali. Por causa dos arbustos espalhados, as mesas não puderam ser organizadas em linha reta e, como resultado, acabaram formando curvas e ramificações em todas as direções.

Fui ajudar a montar a mesa do Clube de Clássicos. Satoshi estava ocupado com os trabalhos do Comitê Geral e, por mais que eu acreditasse no meu lema de "se não preciso fazer algo, não faço", não queria jogar todo o trabalho manual nas costas da Ibara e da Chitanda. Levei a mesa e as cadeiras dobráveis para fora e, então, o intervalo do almoço terminou. Durante as aulas da tarde, consegui ver o espaço que montei pela janela, mas as dezenas de mesas enfileiradas fizeram os jardins da frente parecerem um labirinto misterioso.

Antes que o sinal indicando o fim das aulas tocasse, minha turma, a 2-A, começou a ficar inquieta. Vários sussurros vinham de todos os lados.

— Como estão indo os preparativos? 

— Antes de qualquer coisa, temos que começar por isso.

E outras coisas desse tipo. Um aluno particularmente apressado colocou uma braçadeira com os dizeres "Vitória Certa!" ainda dentro da sala. Outro colocou um ursinho de pelúcia sobre a mesa. Eu não fazia ideia de quais clubes essas pessoas pertenciam, mas entendia a correria. Se não fossem rápidos o suficiente para chamar os alunos do primeiro ano antes que saíssem, todo o esforço teria sido em vão. Um começo veloz era essencial.

O sinal tocou e as aulas terminaram. Meus colegas de classe dispararam porta afora como uma avalanche descontrolada. Provavelmente, a mesma cena se repetia em todas as salas do segundo e terceiro anos. Embora um pouco relutante, acabei me juntando ao fim da avalanche.

O jardim, que antes estava ocupado apenas por uma fileira de mesas vazias, agora estava coberto por pôsteres, placas e panfletos de todos os tipos. Mesmo com um olhar rápido, vi mensagens como:

"Visite o Clube de Química! Que nossas futuras relações entrem em combustão!"

"Quer apostar sua juventude? Claro que sim! O Clube de Basquete é pra você!"

"Divirta-se criando e depois se divertindo ao usar! Sociedade de Pesquisa em Vestuário."

"A Dinastia Han caiu, e o Clube de Pesquisa Histórica será reunido!"

"Só falta mais um para termos onze! Junte-se ao Clube de Futebol."

O Clube de Torcida ergueu uma grande bandeira, o Clube de Cheerleading formou um enorme círculo, o cheiro de chá preto começou a se espalhar pelo estande da Sociedade de Confeitaria, o Clube de Cerimônia do Chá estendeu meticulosamente um tapete ao ar livre, e um grupo de pessoas usando faixas na cabeça — se eu lembrava bem, eram do Clube de Radiodifusão — se reuniram. Nem dez minutos haviam se passado desde o fim das aulas, e o caos já havia se instalado completamente.

Tudo isso começou às 15h30 e estava programado para ser desmontado às 18h. Esse frenesi de aproximadamente duas horas era conhecido como o Festival de Novos Recrutas. O fato de que "recrutas", no nome do evento, não significava "convidar calorosamente", mas sim "convencer por qualquer meio necessário", era algo bem típico desta escola.

A maioria dos clubes tinha apenas uma mesa-padrão, mas dependendo do número de membros, da popularidade e de algum elemento político invisível, alguns clubes conseguiam uma das mesas maiores. Obviamente, isso já havia sido decidido com antecedência. O Clube de Clássicos recebeu a mesa de número 17, então, enquanto eu vagava procurando por ela, ouvi Chitanda me chamar.

— Oreki-san, por aqui.

Eu não estava particularmente empolgado com isso, mas, como esperado, nossa mesa ficava num cantinho discreto do local. Sobre ela, havia um pequeno cartaz de papelão com os dizeres "Clube de Clássicos". A caligrafia era elegante, mas transmitia uma sensação de calor e simplicidade. Sem o cartaz, ninguém saberia que tipo de clube estávamos tentando promover, mas não havíamos combinado de preparar algo assim. Talvez lendo minha expressão, Chitanda riu de leve, um pouco sem jeito.

— Fiz isso durante o intervalo do almoço. Acho que deveria ter feito algo mais bonitinho, mas não pensei nisso na hora.

Isso significava que aquela era a caligrafia da Chitanda. Imaginei que ela escreveria de uma forma mais formal, mas seu traço era surpreendentemente descontraído. Como ela mesma disse, no entanto, o cartaz não tinha nada de fofo. Teria sido uma boa ideia se Ibara tivesse desenhado alguma figura nele, mas agora era tarde demais para pensar nisso.

Chitanda vestia um casaco preto enquanto se sentava na cadeira dobrável. A frente do casaco estava aberta, revelando seu suéter branco e a gravata. Eu também vestia um sobretudo branco. O Festival de Novos Recrutas estava repleto de entusiasmo, mas, mesmo assim, fazia um frio anormal para abril. Olhando ao redor, quase todos os recrutadores e os alunos recrutados vestiam roupas grossas.

Ao lado do Clube de Clássicos estavam os clubes de Pintura a Nanquim e Karuta. Cada um deles tinha apenas uma pessoa de plantão. Fiz uma saudação vaga e passei entre eles. Depois, sentei-me ao lado de Chitanda, bem no centro do cartaz "Clube de Clássicos".

Satoshi não viria dessa vez. Estava ocupado com os trabalhos do Comitê Geral, então não havia como evitar. Chitanda então comentou.

— Parece que Mayaka-san não vai vir mesmo.

— Está no Clube de Mangá?

— Acho que sim, mas não significa que ela vá ficar no estande deles o tempo todo.

Fiquei em silêncio e apenas assenti. Ouvi dizer que a posição de Ibara no Clube de Pesquisa em Mangá estava ficando delicada. Provavelmente, estava cada vez mais difícil para ela encarar os outros membros. De qualquer forma, teríamos um problema se Ibara aparecesse agora.

Embora tivesse parecido grande quando o carreguei antes, agora percebia que a nossa mesa era minúscula comparada às outras. Para falar a verdade, era absurdamente pequena.

Só nós dois sentados lado a lado já fazia parecer que o espaço estava apertado. Se Chitanda tivesse um pouco mais de noção e se movesse para me dar mais espaço, eu ficaria confortável. Mas, infelizmente, sua noção de espaço pessoal era um tanto peculiar, então o fato de nossos ombros estarem se tocando não a incomodava nem um pouco.

Respirei fundo. Melhor manter a calma. Eu não era o único que achava o espaço apertado. No meu campo de visão, por exemplo, o Clube de Fotografia e o Clube de Ação Global estavam praticamente espremidos um contra o outro. Mesmo assim, todos nós tínhamos que começar a divulgar nossos clubes naquele caos.

De qualquer forma, eu precisava fazer algo para chamar a atenção dos alunos do primeiro ano que passavam. Com expressões curiosas, mas ainda claramente intimidadas pela presença dos senpais, os novatos iam chegando aos poucos. Naquele momento, juro que pude ouvir o som de pessoas lambendo os lábios, como predadores à espera de suas presas. Sorrisos falsos e sedutores preencheram o ambiente do Festival de Novos Recrutas.

O Clube de Clássicos também não podia ficar para trás.

Agora, agora, venham, senhoras e senhores! Aproximem-se, qualquer um que tenha um tempinho de sobra. Se estiverem interessados em se juntar ao fantástico Clube de Clássicos, a mesa de inscrição está bem aqui!

Depois de cinco minutos, fiquei entediado. Ninguém sequer parava em nossa mesa.

— Eu disse que ia conseguir alguns alunos do primeiro ano para nós, mas como eu deveria fazer isso, afinal? — resmunguei, observando os novos estudantes passando.

Chitanda sentou-se ereta, com as mãos apoiadas nas coxas, e respondeu sem sequer olhar para mim.

— Se ao menos tivéssemos visgo, isso seria simples.

Eu sabia mais ou menos o que era visgo, mas nunca tinha visto antes. No máximo, era algo parecido com uma rede para insetos, certo?

— Uma rede para pássaros não seria mais eficiente?

— Possivelmente, mas é ilegal.

— Não acho que alguém vá descobrir.

— Oreki-san, você é do tipo que ignora um sinal vermelho no meio da noite?

— Sou do tipo que simplesmente não sai para caminhar no meio da noite.

A conversa era tão improdutiva que até eu comecei a me sentir mal-humorado.

— Você me parece o tipo que pararia no sinal vermelho.

— Nos lugares onde faço caminhadas noturnas, não há semáforos.

Era incrivelmente improdutivo. Prevendo algo assim, tirei o livro que estava escondido no bolso do casaco. Comecei a ler a coletânea de contos e então falei com Chitanda, que continuava encarando em frente, exatamente como uma recepcionista.

— Não temos nada para fazer, então vou ler.

Assim que disse isso, Chitanda finalmente se virou para mim e, com um sorriso suave, respondeu.

— Isso não vai dar certo.

— Mas ninguém está vindo.

— Isso não vai dar certo. Por favor, apenas fique sentado aqui em silêncio.

Entendido. Guardei o livro de volta no bolso. Pensando bem, se eu estivesse lendo como se não tivesse o menor interesse no festival, os novos alunos provavelmente teriam dificuldade em se aproximar da mesa. Por outro lado, se eu continuasse sentado ali até o anoitecer, só ficaria cada vez mais frio. Cruzei as mãos atrás da cabeça.

Chitanda também parecia ter tempo de sobra. Por mais forte que fosse seu senso de responsabilidade, ela não era um objeto inanimado, então deveríamos ir embora se nada acontecesse. Ela virou a cabeça para o lado e parecia observar com interesse um aluno animado de outro clube.

As pessoas continuavam a passar. Por algum motivo, enquanto observava esse fluxo, comentei.

— Lugares amaldiçoados realmente existem.

— Sim, existem.

Ela respondeu imediatamente. Não soube o que dizer depois disso. Pouco depois, Chitanda se virou para mim e inclinou a cabeça.

— Não era sobre isso que você estava falando?

O que exatamente era esse "isso" a que ela se referia? Decidi não pensar muito sobre o assunto e me recostei na cadeira dobrável.

— Sabe, um daqueles lugares. Em algo como um distrito comercial ou à beira da estrada, onde, mesmo que a localização não pareça ruim comparada às outras lojas, há sempre um estabelecimento que é destruído e substituído por outro. Antes que você perceba, surge uma nova loja ali, e não importa o tipo de negócio, nunca tem movimento. Estava apenas pensando que lugares assim realmente existem.

— Ah, entendo. Um lugar que está sempre trocando de dono. É misterioso, mas quando trocam a placa, nunca consigo lembrar que tipo de loja era antes.

— É verdade, não é? Quando vira um terreno vazio, acabamos até esquecendo se havia uma loja ali antes.

Chitanda assentiu, e sua expressão me incentivava a continuar. Para evitar seu olhar, virei o rosto levemente. Como para desviar a atenção, bati de leve na mesa com as costas da mão.

— Estou tendo a mesma sensação aqui.

— Por "aqui", você quer dizer essa área?

— Sim.

Uma seção da fileira de mesas estava posicionada em uma área cercada por um anel de sebes. Segundo a declaração oficial do Comitê Geral, o Clube de Clássicos deveria ser um dos clubes posicionados naquele espaço. No entanto, eu vinha observando o caminho que os alunos estavam tomando desde cedo, e as coisas não pareciam boas.

Quando os alunos do primeiro ano entravam no círculo, davam as costas para nós. Se não estivessem interessados no que estava acontecendo e decidissem seguir direto para os portões da escola, nem nos veriam. No entanto, se estivessem curiosos, mesmo que só um pouco, e resolvessem dar uma olhada ao redor, acabariam naturalmente bem na frente da nossa mesa. Apenas analisando o fluxo do tráfego de alunos, esse lugar não deveria causar uma impressão ruim.

E, no entanto, por alguma razão, nenhum dos alunos do primeiro ano sequer parava em frente ao nosso estande. Eles nem mesmo olhavam para a placa escrita à mão por Chitanda do Clube de Clássicos.

— Não parece que as pessoas estão tendo dificuldade para parar de andar por aqui por algum motivo? — Enquanto observava o grupo passando à nossa frente, Chitanda respondeu lentamente.

— Acho que o maior problema é que não estamos chamando a atenção delas.

Vozes altas de todos os clubes se misturavam no ar por todo o jardim frontal.

— Ei, você tem cara de quem gosta de quizzes! Aposto que está procurando um quiz neste exato momento. Eu entendo você. Bom, aqui vai a primeira pergunta!

— Também promovemos debates em inglês. Suas notas certamente vão subir; normalmente sobem.

— Não, não, vou começar pelas regras. É fácil se você memorizá-las. Se prestar atenção em onde estão "ouro" e "prata", vai dar tudo certo!

(N/SLAG: "Ouro" e "prata" aqui se referem a peças do Shogi, a versão japonesa do xadrez.)

— Você é ruim na cozinha? Tudo bem, porque só vai melhorar no Clube de Culinária. Venha para nossa sala agora e vamos preparar algo para você!

— Clube de Astronomia, Clube de Astronomia aqui! Você gosta de estrelas? Ama planetas? Embora, tecnicamente, não possamos vê-los agora.

Só então percebi que até os clubes com apenas um membro, como o Clube de Pintura com Nanquim e o Clube de Karuta, estavam chamando os alunos que passavam.

De fato, ficar em silêncio e depois reclamar que "ninguém está parando" parecia bem irracional.

Ao mesmo tempo, no entanto, Chitanda disse algo inesperado.

— Embora, com "aquilo" bem na nossa frente, parece um pouco injusto.

Enquanto dizia isso, ela indicou com os olhos sobre o que estava falando.

"Aquilo" estava fazendo uma enorme exibição para os alunos que passavam. Uma grande faixa dizia: "Prontos para a Hora do Chá". Era uma faixa requintada, com mascotes de gato e panda bordados com miçangas. Um aroma de chá preto pairava no ar. Sobre a mesa havia uma garrafa térmica, duas pilhas de copos de papel, uma ficha de inscrição para o clube e uma caneta. Em uma das extremidades da mesa, havia também um fogão a gás portátil e uma chaleira dourada, do tipo que um time esportivo usaria para se hidratar durante um jogo. Aquela chaleira brilhante parecia capaz de carregar impressionantes 10 litros. No momento, o fogão não estava ligado.

E o que mais chamava a atenção era a abóbora no lado oposto ao fogão. Aquela coisa enorme tinha olhos e boca esculpidos nela, transformando-a em uma decoração de Halloween.

Halloween é em abril, por acaso?

No centro, atrás da mesa, estavam duas garotas. Ambas usavam apenas aventais por cima do uniforme escolar. Mesmo assim, pareciam tão entusiasmadas que o frio nem parecia afetá-las. Espremidas entre a abóbora e o fogão, elas agitavam os braços energicamente.

— Venham provar! Cookies que vocês vão adorar! Isso, aqui está!

— Acontece que colocamos uma poção misteriosa nesses cookies. Agora vocês caíram na nossa armadilha. Querem se inscrever no clube. Vejam só, vocês querem muito se inscrever. Querem tanto que não conseguem mais resistir. A ficha de inscrição está bem aqui.

— Sim, esse é exatamente o tipo de cookie que faz isso acontecer. Seria ruim se ficasse preso na sua garganta, então beba um pouco deste chá preto.

Enquanto falava, uma delas pegou a garrafa térmica e serviu chá em um copo de papel.

— Ei, você aí! Você parece do tipo que ama cookies!

— Ah, verdade! Ele tem o rosto perfeito para comer cookies. Agora coma. Não importa o motivo, apenas coma!

De alguma forma, senti que já tinha visto aquelas duas antes. Mas de onde? Não me lembrava de seus rostos.

Parecia que elas tinham preparado muitos cookies, distribuindo um atrás do outro. Não sabia dizer se o plano delas estava realmente conseguindo fazer os alunos se inscreverem, mas sem dúvida estavam conseguindo que muitos parassem.

— Clube de Pesquisa de Confeitaria, né?

— Sim, não tem como não olhar para lá e acabar esquecendo do Clube de Clássicos.

Usar comida para atrair os novos alunos... que dupla esperta. De qualquer forma, aqueles que deixavam seus corações serem roubados por algo tão trivial quanto um cookie provavelmente eram pessoas frívolas. Não fariam boas adições ao Clube de Clássicos.

Enquanto brincava mentalmente com essas acusações infundadas e meu discurso de "somos os poucos escolhidos", notei que Chitanda parecia um pouco estranha ao meu lado. Ela estava encarando intensamente a movimentada mesa do Clube de Pesquisa de Confeitaria, sem nem piscar.

Não pode ser... Chamei por ela com um pouco de receio na voz.

— Chitanda?

— Hã? Oh, o que foi?

A surpresa fez Chitanda se virar para mim, e eu perguntei.

— É possível que...

— Sim?

— Você queira um cookie?

Chitanda pensou um pouco e então respondeu com uma expressão sincera.

— Se eu dissesse que não, estaria mentindo.

— Se quiser, pode ir pegar um.

— Muito obrigada, mas não posso. Temos outras prioridades.

Mais uma vez, ela voltou a olhar fixamente para o Clube de Pesquisa de Confeitaria.

— Não há algo estranho acontecendo ali?

Preso na armadilha dela, acabei olhando novamente. A dupla energética. A garrafa térmica, os copos de papel e a ficha de inscrição. O fogão portátil, a abóbora e os cookies.

…Bem, não dava para negar que havia algumas escolhas peculiares naquela apresentação. O mais estranho ali provavelmente era o quão animadas as duas estavam.

Fora isso, talvez houvesse mais uma ou duas coisas estranhas.

— Acho que você tem razão. Isso é estranho.

Fui descuidado ao deixar escapar isso. Chitanda de repente se virou para mim. Como a mesa era tão pequena, quando ela fez isso, pude sentir sua proximidade e, sem pensar, pulei para trás.

— Sério? Quais partes são estranhas?

— O que você quer dizer com "quais partes"? Você que disse isso primeiro, não foi? Simplesmente é.

Ou talvez ela estivesse jogando algum tipo de jogo mental avançado comigo, dizendo que "era estranho de uma maneira que apenas o Clube de Pesquisa de Confeitaria poderia entender."

Chitanda lançou um olhar de relance para a agitação em torno da distribuição de biscoitos e então sussurrou algo em resposta.

— Eu sei, mas a questão é que, já faz um tempo, não consigo evitar a sensação de que algo estranho está acontecendo. Eu tenho esses pensamentos, e isso é tão frustrante.

— Ah, isso provavelmente é só...

— Espere um momento!

Parei de falar e engoli as palavras antes que saíssem.

— Por favor, não me diga ainda. Ainda estou tentando descobrir a resposta. Sim, sinto que estou começando a entender.

Já me pediram inúmeras vezes para dar uma resposta, mas nunca para não dar uma. Enquanto considerava o quão raro isso era, encarei o rosto próximo de Chitanda, que por sua vez observava atentamente o Clube de Confeitaria.

Por fim, ela pareceu decidida.

— É a abóbora. Tenho a sensação de que há algo errado com a abóbora.

A abóbora laranja tinha dois olhos triangulares e uma boca recortada em zigue-zague. Não importa como se olhasse, era uma típica Jack O’Lantern, mas eu conseguia entender por que poderia ter chamado tanta atenção.

Chitanda, no entanto, seguiu uma linha de raciocínio diferente.

— Produtos desse tipo não são autorizados no Japão... Não, isso está errado. Essa é apenas uma variedade comum de semente de abóbora.

— É mesmo?

— As abóboras crescem no outono, mas acho que, se forem armazenadas corretamente, não seria estranho que não tenham apodrecido.

— Entendo.

— Elas ainda não são amplamente vendidas como uma cultura comercial. Acho que não há famílias de agricultores cultivando esse tipo em Kamiyama.

— Estou surpreso.

— Mas você pode comprá-las normalmente no supermercado. Será que são produzidas domesticamente? Ou talvez seja uma variedade importada.

— Por que você está analisando isso do ponto de vista agrícola!?

Essa não era a questão. À medida que ela continuava errando espetacularmente o ponto, comecei a sentir que permanecer em silêncio era, de certa forma, um ato maligno.

Chitanda sussurrou mais algumas coisas para si mesma, mas, por fim, soltou um pequeno suspiro.

— Acho que tudo até agora estava errado. Não faço ideia. Desisto. Por que estou tão curiosa sobre essa abóbora?

Ela ficou envergonhada, como se estivesse se desculpando por sua teimosia anterior.

— Estou curiosa.

Normalmente, eu acharia esse tipo de coisa um incômodo.

Afinal, a curiosidade sem limites de Chitanda trouxe um número igualmente infinito de problemas não apenas para o Clube de Literatura Clássica, mas também para este defensor da economia de energia bem aqui. Pensando racionalmente, mesmo que eu não tivesse resolvido a grande maioria desses mistérios, não é como se minha situação fosse pior do que agora. Ainda assim, nem eu entendia bem por que acabava acompanhando tudo até o fim na maioria dos casos. Acho que os olhos grandes de Chitanda eram os culpados.

No entanto, hoje, quando Chitanda disse que estava curiosa, naquele momento e naquele lugar, não achei isso tão irritante. Afinal, sentado atrás daquela mesa, eu não podia ler um livro nem me levantar e sair. Se eu já tivesse que ficar ali de qualquer forma, pensei que ter uma conversa não seria tão ruim.

Ao mesmo tempo, eu já havia entendido, em sua maior parte, a verdadeira causa da sensação de estranheza que Chitanda teve. Não parecia que essa conversa iria durar muito. Comecei a falar.

— Essa abóbora é bem grande, não é?

Chitanda inclinou a cabeça.

— Bem, é uma variedade Cucurbita pepo, então, na verdade, não é tão grande em compar...

De repente, seu tom mudou.

— Você provavelmente conseguiria envolvê-la com os braços, certo? Pelo menos, é consideravelmente maior do que o papelão que usamos para fazer o cartaz do Clube de Literatura Clássica.

Ela olhou para o cartaz e, por fim, assentiu.

— Está certo. É muito maior.

— Essa abóbora foi colocada de um lado da mesa, e do outro lado está o fogareiro portátil. E, entre eles, há dois membros do Clube de Confeitaria pulando e distribuindo biscoitos. Já na nossa mesa, estamos apenas nós dois sentados lado a lado, e mesmo assim já está apertado.

— Sério? Está tão apertado assim?

Como imaginei, ela não percebeu isso nem um pouco.

Vamos deixar isso de lado por enquanto. Como estávamos observando a mesa através de um vão entre os alunos que passavam e sua orientação era um pouco diagonal em relação à nossa, provavelmente era difícil para ela perceber a diferença de tamanho. A resposta para a dúvida de Chitanda era, na verdade, muito simples.

— A mesa do Clube de Confeitaria é maior do que a nossa. Quando eu estava organizando nossa mesa mais cedo, percebi que vários clubes estavam usando mesas extragrandes. Você não sabia que havia mesas de tamanhos diferentes. Não é por isso que sentiu essa estranheza?

— Ah...

A voz de Chitanda escapou suavemente.

No entanto, seu rosto não estava radiante.

— A mesa deles é grande. Dá para perceber pela distância entre a abóbora e o fogareiro a gás. Entendi. Assim como você mencionou, eu não tinha notado isso. Mas tenho a sensação de que é algo mais. …Nesse caso, por que eles têm uma abóbora ali?

Agora chegamos ao "por quê". Era uma pergunta difícil.

— Precisa haver um motivo para usar decorações? Distribuir biscoitos com um tema de Halloween faz um certo sentido, não faz?

Mesmo estando completamente fora de época. Chitanda voltou a olhar para a Sociedade de Confeitaria.

— Vou reformular um pouco minha pergunta. Se eles não tivessem a abóbora ali, o que aconteceria?

Ao ouvir isso, tentei imaginar a cena. O que aconteceria se tirássemos a abóbora e a mesa tivesse apenas um fogareiro a gás e uma chaleira?

— A mesa pareceria bem aberta e espaçosa.

— Concordo.

Então, ela se virou para mim e começou a falar devagar, como se quisesse enfatizar seu ponto.

— Se essa abóbora não estivesse ali, você não acha que a Sociedade de Confeitaria poderia fazer muito mais com todo esse espaço?

Senti que entendia aonde ela queria chegar.

Considerando que a abóbora era usada apenas como decoração, a Sociedade de Confeitaria estava limitando a quantidade de espaço que tinha. E, ainda assim, mesmo com essa limitação, não pareciam apertados.

Isso significava que eles tinham espaço de sobra na mesa. E pensar que ainda assim receberam uma mesa extra grande desde o início.

— Então você está dizendo que ter essa mesa extra grande é um desperdício?

Chitanda balançou a cabeça levemente.

— Não é isso que estou dizendo. É só que eles parecem estar usando a mesma quantidade de espaço que a gente. Nesse caso, por que eles receberam uma mesa grande?

O Comitê Geral era responsável por dividir os espaços. Naturalmente, também decidiam quais clubes usariam mesas grandes. Por exemplo, se um clube que ocupa muito espaço, como o Clube de Banda Marcial, recebesse uma mesa dessas, ninguém questionaria. No entanto, a Sociedade de Confeitaria não ocupava tanto espaço. Mesmo agora, havia apenas duas pessoas lá promovendo o clube.

Consegui pensar em alguns motivos que poderiam explicar isso.

— Possibilidade um: Havia muitas mesas grandes e todos os clubes que realmente precisavam delas conseguiram uma, então sobraram algumas. Como resultado, até a Sociedade de Confeitaria recebeu uma.

— Você realmente acha isso?

O tom sincero com que ela respondeu à minha teoria meia-boca quase me fez engasgar com minhas palavras.

— Na verdade, não…

— Eu também não acho. Se esse fosse o caso, seria injusto para o Clube de Fotografia e o Clube de Arranjos Florais, que claramente estão tendo dificuldades.

O Clube de Fotografia estava completamente afogado em suas fotos, sem espaço suficiente para expô-las. Já o Clube de Arranjos Florais, que Chitanda apontou, estava em uma situação ainda pior. Como haviam disposto uma fileira de arranjos chamativos sobre a mesa, o resultado final parecia mais uma selva densa do que uma coleção de peças florais. Além disso, nem dava para ver os rostos dos membros do clube. Provavelmente trouxeram um arranjo por pessoa sem pensar no espaço e logo ficaram sem lugar para colocá-los. Além disso, eu basicamente já sabia que não havia mesas sobrando.

As mesas grandes eram distribuídas para clubes que tinham muitas peças para exibir, enquanto a Sociedade de Confeitaria deveria se contentar com uma mesa normal. Isso era o que deveria ter acontecido normalmente. Então, por que não aconteceu?

— Possibilidade dois: A Sociedade de Confeitaria tem influência no Comitê Geral e usou seus contatos para conseguir uma mesa grande.

Recrutar novos alunos era uma questão de sobrevivência do mais apto; era aceito que aqueles que se aproximavam do evento sem um plano eram tolos.

Por um momento, Chitanda ficou com um olhar triste. Será que estava desanimada com a frieza desse cálculo? No final, no entanto, ela finalmente respondeu.

— Então, depois de fazer tudo isso para conseguir uma mesa grande, aqueles dois…

— Colocaram uma grande abóbora nela.

Não, isso estava errado. Havia uma contradição fundamental aí. Se eles não tinham uma maneira de usar efetivamente aquele espaço extra, não faria sentido mover tantos pauzinhos para consegui-lo.

Se eu assumisse que buscaram uma mesa maior de propósito, então era possível que a Sociedade de Confeitaria estivesse usando a mesa extra grande não porque precisassem dela, mas para prejudicar os clubes que realmente precisavam. Por essa hipótese, a Sociedade de Confeitaria garantiu a mesa apenas para atrapalhar os outros clubes. Isso não era impossível, mas o que é possível nem sempre condiz com a realidade. Não acreditava que chegariam a esse ponto, e não achava que Chitanda acreditava também.

— Vamos deixar essa de lado por enquanto. Hora da possibilidade três.

Bem no fundo, eu achava que essa era a resposta certa. Listar as outras duas antes foi… bem… só um jeito de ganhar tempo. Demorei um pouco para encontrar as palavras.

— A Sociedade de Confeitaria preencheu um pedido para usar um determinado equipamento, e receberam uma mesa grande porque precisavam do espaço extra por questões de segurança.

— Que equipamento seria esse?

Havia algo que exigia permissão especial.

— Fogo. O fogareiro a gás.

Ao ouvir isso, Chitanda virou a cabeça e mais uma vez olhou na direção da Sociedade de Confeitaria.

— A Sociedade de Confeitaria recebeu uma mesa extra longa para poder usar isso. Afinal, é perigoso usar fogo em um espaço apertado. No entanto, a mesa era grande demais apenas com o fogareiro em uma das pontas. Como resultado, eles colocaram a abóbora na outra extremidade para criar um equilíbrio visual agradável. Isso não parece correto para você?

Com isso, eu tinha certeza de que havia resolvido o mistério da abóbora. Demorou um pouco mais do que eu imaginava, mas Chitanda com certeza ficaria satisfeita com essa explicação.

Quanta ingenuidade da minha parte. Chitanda continuou a encarar atentamente a mesa da Sociedade de Confeitaria, bem como seus sempre animados membros que distribuíam biscoitos e chá preto.

Após um período de silêncio que me deixou ansioso, Chitanda se virou lentamente para mim.

— Entendo. Eu gostaria de chamar isso de uma dedução fantástica, no entanto…

Eu também comecei a olhar para o que Chitanda estava observando em particular.

Uma garrafa térmica. Copos de papel. Um fogareiro a gás e uma chaleira.

— O fogão a gás não está sendo usado.

De fato, o fogo não estava aceso naquele momento. Isso era algo que se podia perceber apenas olhando. Mas, mesmo assim, o argumento de Chitanda não fazia sentido.

— O que você está dizendo? Só porque não estão usando agora não significa que não vão usá-lo depois.

Atualmente, eles estavam servindo chá do garrafão térmico. No entanto, se continuassem distribuindo, eventualmente acabariam com o chá. Quando isso acontecesse, certamente usariam o fogão a gás para esquentar mais água. Até mesmo uma criança do jardim de infância poderia deduzir isso. 

Chitanda, de repente, aproximou o rosto do meu. Olhei para cima e nossos olhos se encontraram. Era como se suas pupilas penetrassem até os recantos mais profundos do meu coração.

— Oreki-san, você acabou de pensar que eu sou burra, não foi?

— Eu não diria...

— Então, estava pensando que sou uma idiota?

Eu estava pensando que era uma lógica que até uma criança do jardim de infância entenderia. Chitanda recostou-se na cadeira e começou a falar em um tom levemente irritado.

— Não digo coisas sem pensar. Descobri isso enquanto observava atentamente a mesa.

Chitanda tinha um senso aguçado de visão, audição e olfato. Seu paladar provavelmente também era apurado. Talvez ela tivesse notado algo que eu não percebi graças a esses sentidos aguçados.

— O que você viu?

— Nada que você não possa ver.

Provavelmente, ela não estava chateada. Era um desafio. Maldição, pensei, e então forcei os olhos para procurar alguma pista. Acho que não podia dizer que não havia nada suspeito.

— Aquela chaleira parece novinha em folha. Não parece ter sido usada no fogo nem uma vez sequer.

Porém, dizer isso não era suficiente para provar que ela nunca tinha sido usada antes. Lancei um olhar rápido para Chitanda e vi que ela esboçava um pequeno sorriso, sem dar nenhuma pista de que iria falar algo tão cedo. O que provavelmente significava que essa não era a resposta certa.

— O Clube de Confeitaria está servindo chá preto. Eles estão despejando o chá do garrafão térmico nos copos de papel. Quando acabar, obviamente precisarão ferver mais água.

Espere um segundo, isso está errado. Você não ferve chá preto.

Ah, então era isso. Mesmo que o Clube de Confeitaria realmente estivesse fervendo água ali, será que havia algo que poderiam fazer apenas com isso?

— Agora entendi. Você estava falando sobre o chá preto, certo?

— Exatamente — respondeu ela, parecendo inflar o peito com orgulho. — O Clube de Confeitaria está distribuindo biscoitos e chá preto. Mesmo que decidissem ferver água, não faria sentido se não tivessem as folhas de chá, e ainda assim, eu não vi nenhuma folha de chá na mesa deles. Eles devem ter preparado o chá em outro lugar antes e depois colocado no garrafão térmico.

Embora eu sempre reconhecesse seus sentidos aguçados, eram raros os momentos em que achava sua percepção igualmente extraordinária. Eu não estava exatamente abatido por ter sido superado por ela, mas retruquei com uma resposta teimosa mesmo assim.

— Talvez a base do chá preto já esteja no garrafão térmico. Tudo o que precisam fazer é adicionar a água fervente diretamente, e ele se tornaria chá preto. Ou talvez as folhas estejam dentro da chaleira...

Assim que terminei de falar, os olhos de Chitanda se arregalaram.

— Oreki-san... não me diga que você nunca preparou chá preto antes?

Fiquei em silêncio.

Era exatamente isso. Eu preferia muito mais café, mas, mesmo quando bebia chá preto, era sempre de uma lata comprada em uma máquina de vendas. Como resultado, nunca tive necessidade de prepará-lo por conta própria. No entanto, admitir isso parecia revelar um aspecto patético da minha vida, então preferi não dizer nada em voz alta.

— Se você fizesse isso, o chá ficaria cada vez mais amargo. É por isso que se usa bules com infusores removíveis e por que os pacotes de chá vêm com quantidades recomendadas para uso único. Por exemplo, mesmo que você use um saquinho de chá, normalmente o retira depois de um certo tempo.

— É mesmo?

— Sim, é.

Então era assim que funcionava. Eu não sabia muito sobre isso, mas ao menos conseguia entender que havia algo errado no fato de não haver folhas de chá nem um bule para preparar a infusão.

Isso significava que o chá preto que eles já tinham preparado no garrafão térmico era tudo o que tinham, e que o fogão a gás não estava ali para fazer mais chá.

As coisas estavam ficando cada vez mais estranhas.

— Isso significa que o Clube de Confeitaria nunca planejou usar o fogão a gás desde o começo. Nesse caso, é igual àquela abóbora; neste momento, é apenas uma decoração.

Parei para pensar um pouco.

— Mesmo que não estejam usando, ainda acho que minha hipótese de que receberam uma mesa extra grande após solicitarem permissão para usar o fogão a gás está correta. A parte estranha é que eles não parecem ter nenhuma utilidade para ele. O que isso significa, então?

— O que, de fato.

Inesperadamente, isso estava começando a se tornar um incômodo. No início, entrei na conversa apenas para passar o tempo, mas quem diria que se arrastaria tanto assim? Aliás, enquanto eu era perseguido por essa sensação de inquietação, desviei o olhar de Chitanda. No mesmo instante, ela também desviou o olhar.

Foi então que ambos notamos uma pessoa parada à nossa frente.

Pele bronzeada sob o céu nublado que persistia mesmo na primavera. Cabelos curtos. Um rosto e uma postura que transmitiam energia e determinação. Um casaco grosso que teria ocultado o gênero da pessoa, se não estivesse aberto, revelando um suéter e uma gravata por baixo. Praticamente ao mesmo tempo, Chitanda e eu vimos uma garota parada diante de nós.

Não era como se eu tivesse esquecido que estávamos no meio do Festival de Recrutamento, mas não achei que alguém realmente viria até a nossa mesa. Há quanto tempo ela estava ali?

Enquanto nós dois permanecíamos sentados, perplexos e sem palavras, a garota enfiou as mãos nos bolsos do casaco e inclinou ligeiramente a cabeça.

— Olá.

Em seguida, abriu um sorriso radiante.

Chitanda foi a primeira a recobrar os sentidos.

— O… oh, hum, você estaria interessada em entrar? Meu nome é Chitanda. Sou a presidente do clube.

A garota de jaqueta continuou sorrindo ao responder.

— Não necessariamente, mas eu estava andando por aí olhando os clubes e, finalmente, vi vocês parecendo conversar sobre algo interessante. Meu nome é Ōhinata. Sou do primeiro ano.

Era a primeira vez que ouvia esse nome. Não era tão raro quanto "Chitanda", mas ainda assim era peculiar o suficiente para que eu achasse que não iria esquecê-lo. Isso já era algo incomum para mim. Afinal, eu normalmente não era bom em lembrar nomes e rostos.

E, no entanto, parecia que eu já tinha visto o rosto dela em algum lugar antes. Havia apenas uma razão para eu conhecer o rosto de uma aluna do primeiro ano.

— Escola Fundamental Kaburaya?

Ōhinata olhou para mim e sorriu como se estivesse extremamente feliz.

— Sim — assentiu. Ela era uma pessoa bastante direta.

— Entendi.

Como eu suspeitava, ela era uma ex-colega de escola. Pensei em dizer algo sobre a Kaburaya, mas não havia nada que eu quisesse perguntar ou comentar, então permaneci em silêncio. Chitanda começou a falar ao meu lado.

— Bem, estamos recrutando no momento, então, que tal? No Clube de Clássicos, fazemos… várias coisas.

Bem colocado.

— Não sei… parece meio complicado. Vocês leem coisas como literatura clássica chinesa, certo? Quer dizer, eu até gosto de estudos japoneses e tudo mais…

— Não, não fazemos esse tipo de coisa. Claro, se você quiser, podemos.

— É mesmo? Ainda assim…

Não sei se Ōhinata ouviu algo vindo do céu ou de outro lugar, mas, de repente, ela se inclinou para frente, aproximando o rosto de Chitanda.

— Isso é só algo que uma amiga me disse, mas as pessoas devem terminar o que começam. Então? Qual é a história da abóbora, afinal?

— O quê…?

Entendi. Então ela estava nos espionando, hm?

— De que parte você começou a ouvir?

— Humm… — Ela franziu os lábios, pensativa. — Da parte em que você disse a ela que podia pegar alguns biscoitos, se quisesse.

— Isso é praticamente desde o começo!

Chitanda soltou algo parecido com um grito. Suas bochechas ficaram visivelmente coradas.

— Você ouviu tudo? Isso é tão constrangedor.

Era possível chamar uma conversa como essa de constrangedora? Foi uma reação tão inesperada que até Ōhinata ficou desconcertada.

— Hã… Me desculpe. Eu realmente não queria ouvir tudo. É só que… fiquei muito curiosa sobre a abóbora quando ouvi vocês falando sobre ela, então meio que parei de andar e, a partir daí, não consegui evitar. Fiquei me perguntando o quanto vocês pensariam sobre a abóbora, só isso.

Ela abaixou a cabeça rapidamente.

— Me desculpem de verdade.

— Não… Tudo bem.

Enquanto Chitanda dizia isso, levou a mão à boca, como se fosse tossir. Ōhinata também ficou com uma expressão envergonhada por um momento, mas logo voltou ao seu jeito normal.

— Então? Qual é a história da abóbora?

Deixando Chitanda de lado, por que a curiosidade dessa aluna do primeiro ano também estava tão acesa em relação a isso? Enquanto pensava nisso, resolvi simplesmente continuar, ignorando esse novo elemento. Tentei lembrar onde havíamos parado.

— Se me lembro bem, estávamos falando sobre o fogão a gás não estar sendo usado.

— O motivo pelo qual eles têm espaço para usar uma abóbora como decoração é porque têm uma mesa extra grande.

— O motivo pelo qual lhes foi atribuída uma mesa extra grande foi porque preencheram um formulário solicitando o uso de um fogão a gás.

— No entanto, na realidade, eles não estão usando o fogão a gás. Tem algo estranho aí. Paramos bem nessa parte.

Olhei para Chitanda enquanto dizia isso, mas ela apenas abaixou o olhar, sem responder. Parecia realmente envergonhada. Desde que entrou para o clube, Chitanda sempre trouxe problemas atrás de problemas, e ainda assim essa era a primeira vez que a via assim.

Do que ela estava tão consciente?

— E que tal isso então? — Ōhinata perguntou com uma voz que parecia competir com o barulho ao redor. — Talvez eles tenham planejado usar o fogão a gás para algo que não estava relacionado a fazer chá preto, mas depois mudaram os planos e acabaram não precisando mais dele. Porém, mais importante do que seu uso, era o fato de que sentiram que tinham que colocar o fogão a gás na mesa, mesmo sem usá-lo.

— Interessante.

Ela deve ter prestado muita atenção à nossa conversa para já conseguir fazer esse tipo de dedução. No entanto, isso não significa que ela estivesse certa.

— No entanto, já deveria ter sido decidido há muito tempo que eles distribuiriam chá preto e confeitos. De qualquer forma, não é como se tivessem decidido isso de repente hoje. É um pouco inconsistente assumir que já haviam decidido distribuir chá e confeitos há tempos, enquanto também planejavam usar um fogareiro para um propósito diferente.

— Não necessariamente sabemos que esse é o caso, não é? Se eles já tinham os ingredientes e o chá à disposição, não poderiam prepará-los a tempo, mesmo que tivessem decidido hoje? Se tivessem começado de manhã, não conseguiriam terminar até a tarde?

Era verdade que a Sociedade de Confeitaria provavelmente teria os ingredientes dos biscoitos prontos, caso precisassem. Mas esse não era o problema. Levantei o braço e apontei para o item em questão.

— Isso pode valer para os biscoitos, mas a faixa não é algo que você poderia fazer no mesmo período de tempo.

A grande faixa com os dizeres "Prontos para a Hora do Chá" estava bordada com uma tonelada de miçangas. Seria extremamente difícil costurar tudo aquilo entre as aulas.

— Eles já haviam decidido há algum tempo o tema "hora do chá", e, como resultado, puderam gastar tempo confeccionando isso.

— Ooooh…

Ōhinata parecia insatisfeita.

— É, acho que se você colocar dessa forma, tenho que concordar. Isso é realmente difícil.

Olhando para ela, não pude evitar a sensação de que havia cometido um erro. Eu não tinha nenhuma obrigação de esclarecer a verdade para Ōhinata, então teria sido muito mais fácil simplesmente dizer algo como "talvez você esteja certa". Como defensor da economia de energia, fiz a escolha errada.

— Nesse caso, vejamos…

Ela voltou a pensar. Considerando que Ōhinata nem sequer foi a primeira a achar estranho o caso da abóbora, parecia estar bastante entusiasmada com a questão. Ela mencionou algo sobre sempre terminar o que começa, talvez esse fosse seu próprio lema.

Aparentemente incapaz de pensar em mais nada, Ōhinata começou a encarar a Sociedade de Confeitaria com um olhar ameaçador e resmungou.

— De qualquer forma, está praticamente decidido que eles são pessoas ruins.

— Isso foi bem cruel da sua parte. Mesmo que diga isso, eu já comi vários biscoitos deles.

— Eles vieram até aqui para distribuir?

— Vieram vendê-los para mim durante o festival cultural. Mas, enfim, por que você acha que eles são pessoas ruins?

Ōhinata lançou outro olhar rápido e irritado para a Sociedade de Confeitaria e, então, estufou o peito ao falar.

— Isso é só algo que uma amiga me disse, mas, aparentemente, pessoas que não usam crachá sempre são suspeitas.

Será? Eu, por exemplo, preferiria não andar por aí com um crachá pendurado no peito escrito "Houtarou Oreki". Ou talvez fosse algum tipo de metáfora. Enquanto eu tentava pensar em uma resposta, Chitanda de repente ergueu a cabeça.

— É isso!

— O q-quê?

— Ōhinata-san disse exatamente! Que maravilhoso, esse é o problema!

A assustada Ōhinata deu um passo para trás. Chitanda, tente não assustar a caloura inocente.

— Do que você está falando?

Ao ouvir isso, Chitanda quase começou a furar um buraco na minha cabeça com seu olhar intenso.

— É estranho que a abóbora tenha sido colocada ali.

— Mas não foi exatamente por isso que começamos essa conversa?

— Não, não é isso. Estou falando sobre isso.

Enquanto dizia isso, apontou para a única coisa sobre a nossa mesa: a placa que dizia "Clube de Clássicos".

— Eu sabia que tinha algo estranho. O problema é que a Sociedade de Confeitaria está sem algo.

Ao lado da entusiasmada Chitanda, Ōhinata perguntou, um pouco hesitante.

— Hã… há um tempo vocês dois estão falando sobre essa tal de Sociedade de Confeitaria, mas o que exatamente isso significa?

— Está vendo!?

Ao dizer isso, finalmente me dei conta. A Sociedade de Confeitaria estava sem algo que deveria ter, algo óbvio.

Inacreditável. Eu estava tão acostumado ao Colégio Kamiyama que passei direto por um detalhe tão importante. Só de ver aquelas duas circulando por aí, soube que eram do Clube de Pesquisa de Confeitaria. No entanto…

— Então era isso. Elas não têm uma placa. "Clube de Pesquisa de Confeitaria" não está escrito em lugar nenhum, nem na mesa, nem na faixa.

— Exatamente. Mesmo recrutando novos membros, não colocaram o nome do clube em lugar algum, algo que deveria ser o mais importante. Em vez disso, colocaram algo como uma abóbora, o que me deixou curiosa.

Ignorando Ōhinata, que agora acenava com a cabeça ao entender a abreviação do Clube de Pesquisa de Confeitaria, comecei a pensar.

Foi um descuido da parte deles? Não, impossível. Para um clube que colocou tanto esforço no Festival de Novos Recrutas com uma faixa tão extravagante, um erro desses não fazia sentido.

Então, seria como Ōhinata mencionou antes? Será que a Sociedade de Confeitaria fez algo tão suspeito que os impediu de colocar o próprio nome? Mas o que poderia ser algo assim? E, em primeiro lugar, quem seria o alvo dessa atitude suspeita?

Isso tinha algo a ver com o fogareiro a gás, que receberam permissão para usar, mas acabaram não utilizando?

Um grande barulho de vozes chegou aos meus ouvidos. O Clube de Quiz, o Clube de Debate, o Clube de Fotografia, o Clube de Arranjos Florais, a Sociedade de Culinária, o Clube de Astronomia e, agora, o Clube de Pesquisa de Confeitaria.

— Oreki-san?

Virei-me para Chitanda.

Tinha a sensação de que, em grande parte, já sabia o que havia acontecido.

— É porque o lugar onde aquela abóbora está agora não pertence ao Clube de Confeitaria.

Acabei afirmando a conclusão diretamente, sem nenhuma introdução. Naturalmente, muitos passos foram omitidos até chegar a esse ponto, então Chitanda me encarou sem entender.

— O que você quer dizer com "não é deles"?

— Bem… Acho melhor eu explicar na ordem certa.

Fiquei em silêncio por um momento para organizar a explicação em minha cabeça.

— Basicamente, é o seguinte. Se houvesse um clube que solicitasse permissão para usar um fogão a gás de mesa, esse clube receberia uma mesa extra-grande. No entanto, no dia do evento, o clube que ficou com essa mesa, o Clube de Confeitaria, não precisava do fogão a gás. Por quê?

— Porque o clube que fez a solicitação para usar o fogão a gás não era o Clube de Confeitaria.

— O que significa que… — Chitanda cobriu a boca com as mãos. — Eles roubaram a mesa?

Aquela dupla despreocupada do Clube de Confeitaria? Não, não era isso.

— O que estou dizendo é que eles trocaram de mesa com o clube que realmente solicitou o fogão a gás. Isso explica por que eles pareceriam ter solicitado o fogão sem realmente precisar dele. Como não planejavam ter uma mesa extra-grande, trouxeram uma abóbora para preencher o espaço. Também explica por que não têm uma placa identificando o clube. Provavelmente, eles esconderam a placa para enganar o Comitê Geral, que perceberia que estavam ignorando a distribuição das mesas.

— Mas…

Provavelmente incapaz de aceitar a ideia de imediato, Chitanda balançou a cabeça.

— Se fosse esse o caso, o clube originalmente designado para essa mesa sairia prejudicado. Por que eles fariam isso?

Sem responder diretamente, apontei para o grande número de clubes alinhados lado a lado pelos jardins ao nosso redor.

— Em algum lugar deste pátio, há um clube que deveria estar usando um fogão a gás, mas não está.

— Você não precisa ficar enrolando tanto — interrompeu Ōhinata do lado. — Se estamos falando de um clube que usa fogo, não devem ser muitos, não importa como se olhe.

Ah, doce e ingênua caloura… Você subestima a quantidade e a variedade de clubes no Colégio Kamiyama. Não sei debaixo de que pedra você esteve vivendo, mas um pequeno erro e o Clube de Clássicos poderia ter sido forçado a servir um almoço de tempurá e sopa de porco. Esse era o tipo de escola em que estávamos. Ainda assim, devo admitir que esse evento me drenou completamente. Chitanda começou a murmurar.

— Ah, é mesmo. Como pude esquecer?

Ela também assistiu às apresentações no ginásio. Sua memória era muito melhor que a minha, então não era estranho que tivesse lembrado.

— O Clube de Culinária, não foi? Eles disseram que fariam uma demonstração de culinária com ervas silvestres na mesa deles durante o Festival de Novos Recrutas.

Assenti.

Será que o Clube de Culinária estava distribuindo comida para os novos alunos? Não, não estavam. Até agora, eles estavam apenas dizendo aos alunos para irem à sala do clube se quisessem experimentar alguma coisa.

— Será que os ingredientes não chegaram a tempo?

— As ervas? Se estivessem tão desesperados a ponto de ceder a mesa extra-grande para o Clube de Confeitaria, poderiam simplesmente ter mentido e preparado um prato falso.

— Um prato falso… Você poderia, pelo menos, dizer que eles poderiam ter usado os ingredientes disponíveis para fazer outra coisa?

— Eles poderiam ter usado os ingredientes disponíveis para fazer outra coisa.

Chitanda me lançou um olhar fulminante. Eu só disse porque ela pediu…

— Não foi isso. Foi um erro muito maior. Algo aconteceu que os impediu de distribuir a comida para os novos alunos.

— Talvez eles não tenham conseguido tirar o gosto amargo das ervas. Ninguém ia querer comer se fosse esse o caso.

— Isso seria a mesma coisa. Tudo o que precisariam fazer era recomeçar com os ingredientes restantes, e tudo ficaria bem. Para ceder a mesa extra-grande assim, algo muito mais grave deve ter acontecido. Com essa mesa, eles poderiam alinhar todos os utensílios de cozinha e ainda ter espaço de sobra, exatamente como o Clube de Confeitaria está aproveitando agora.

— O fato de que o Clube de Culinária trocou de mesa com o Clube de Confeitaria e teve que manter isso em segredo significa que cometeram um erro que não podiam relatar. Foi um problema tão grave que nem podiam deixar ninguém questionar por que tinham uma mesa extra-grande com um fogão a gás, mas não estavam cozinhando nada. Estou disposto a apostar nisso: o Clube de Culinária não terá seu nome exposto em lugar nenhum.

Assim como Ōhinata havia dito, aqueles que não tinham placas de identificação eram suspeitos.

Em algum momento, minha voz ficou mais baixa. Talvez porque fosse difícil me ouvir no meio de toda a agitação, Chitanda aproximou o rosto do meu. Coincidentemente, Ōhinata também se inclinou, aproximando seu rosto bronzeado. Ela foi a primeira a sussurrar sua pergunta.

— Um erro tão grave assim pode acontecer? Sem querer ofender, mas o que um clube de culinária poderia fazer de tão errado? Não importa o quanto baguncem as coisas, que tipo de erro os forçaria a ficar em silêncio?

Se ela realmente pensava assim, então era verdadeiramente ingênua.

— Está relacionado ao manuseio de alimentos. Até uma loja seria forçada a fechar temporariamente se cometesse esse erro.

— Espere… Você quer dizer…

Assenti e abaixei ainda mais a voz.

— Intoxicação alimentar.

3. PRESENTE: 4,1 KM; 15,9 KM RESTANTES

 

No fim do dia, descobri que eu estava certo sobre a intoxicação alimentar, mas a hipótese de Chitanda sobre eles não terem recebido suas ervas montanhesas a tempo também tinha um fundo de verdade.

A Sociedade de Culinária havia falhado na preparação das ervas. Aparentemente, eles pretendiam cozinhar uma sopa de missô feita com samambaia, mas quando alguns membros do clube a provaram durante o almoço, começaram a reclamar que seus estômagos estavam doendo.

Se eles realmente quisessem esconder o erro, havia uma grande possibilidade de que os afetados nem sequer fossem à enfermaria em busca de ajuda. Assim que eu disse isso, Chitanda saiu correndo imediatamente. Suponho que ela não levasse casos de intoxicação por ervas montanhesas na brincadeira.

— Eles podem precisar de ajuda! — disse ela enquanto corria.

Eu não tinha tanta certeza sobre deixar uma mesa vazia durante o Festival de Novos Recrutas. Ōhinata, aflita, respondeu.

— Ah, então eu também vou ajudar!

Ela saiu correndo atrás de Chitanda. Depois, foi Ōhinata quem me contou o que aconteceu.

— Chitanda-senpai invadiu a Sala de Prática Culinária sem pensar duas vezes. No começo, os membros da Sociedade de Culinária tentaram disfarçar, mas quando perceberam que ela sabia de tudo, trouxeram os membros que estavam com dor de estômago. Pelo jeito, ela conhecia algumas pessoas do clube, então as coisas foram mais rápidas do que o esperado.

— Chitanda tem conhecidos em todo lugar. E como estavam os membros intoxicados?

— Nada bem. Parecia que queriam muito ir para casa descansar, mas sabiam que não podiam. Assim que os viu, Chitanda-senpai saiu correndo da sala e voltou com uma estudante que parecia aspirante a médica. Pelo que entendi, a família dela tem um hospital. Ela parecia muito legal e tudo mais, mas dava para ver que estava irritada com a situação.

Provavelmente era a Irisu-senpai. Ōhinata disse que ela parecia incomodada, mas, na verdade, devia estar como sempre.

— Ela fez com que eles vomitassem usando água com sal e disse para os outros levarem os alunos para a casa dela caso piorassem. Levá-los para o hospital só complicaria as coisas.

— Imagino que, se fosse intoxicação alimentar, os médicos teriam que relatar à enfermaria da escola.

— Será que teriam mesmo? Não existe aquele sigilo entre médico e paciente?

— Não faço ideia.

— De qualquer forma, os membros se recuperaram depois de vomitar.

Que alívio.

A Sociedade de Culinária conseguiu esconder seu fracasso. Segundo Ōhinata, Chitanda deu uma bronca séria no clube inteiro sobre como lidar corretamente com ervas montanhesas, como condição para deixar passar essa irresponsabilidade.

Naquele momento, eu estava convencido de que ninguém apareceria na nossa mesa do Clube de Literatura Clássica, então peguei meu livro e continuei lendo.

No entanto, mal consegui terminar um parágrafo quando Ōhinata falou novamente, exibindo um sorriso brilhante, semelhante ao que me mostrou quando a notei pela primeira vez hoje.

— Vou entrar neste clube. Como ele se chama mesmo?

Chitanda respondeu prontamente.

— Tem certeza? Ainda não explicamos o que fazemos.

— Tenho certeza.

Ela olhou para mim e depois para Chitanda, sorrindo mais uma vez.

— Aqui parece ser um lugar muito acolhedor. Ver pessoas se divertindo com os amigos é a minha coisa favorita no mundo.

Não lembro o que respondi.

A inclinação da subida finalmente começava a ficar mais intensa, e o número de alunos que passavam por mim, ofegantes, só aumentava. Inicialmente, não era essa minha intenção, mas, sem perceber, reduzi o ritmo até começar a andar. Acho que estava tão imerso em meus pensamentos que não notei minha velocidade diminuindo.

De repente, um garoto que foi da minha turma no ano passado passou por mim. Se bem me lembrava, ele agora estava na 2-C. A Turma C estava alcançando. Eu nem havia notado até aquele momento, então talvez estivessem mais próximos do que eu imaginava.

Virei-me para procurar Ibara e vi uma longa fila de estudantes subindo a ladeira como uma procissão de formigas trabalhadoras. Se eu continuasse andando devagar como um gafanhoto, poderia acabar morrendo como um cão abandonado quando o final da fila me alcançasse.

Ao voltar o olhar para a frente, vi que o topo da colina estava finalmente à vista. No fim das contas, acabei subindo quase tudo caminhando. Eu já previa que isso pudesse acontecer, mas meus cálculos para medir a distância entre mim e Ibara falharam completamente.

Tentando compensar esse deslize, acelerei e corri o pequeno trecho de inclinação suave que restava antes do topo. Minha visão se abriu e senti uma brisa fresca tão leve que poderia ser apenas fruto da minha imaginação.

Achei que a descida começaria imediatamente assim que chegasse ao topo, mas, pelo visto, lembrava errado. A rua continuava reta por cerca de 100 metros antes de declinar. Ao lado do caminho, havia um pequeno santuário. Não sabia que Deus era venerado ali, mas, por via das dúvidas, fiz uma prece silenciosa. Afinal, ainda havia muitas perguntas sem resposta diante de mim. Minha fé geralmente surgia em situações problemáticas como essa.

Os dois lados da rua se abriram, revelando várias casas antigas espalhadas. No meio delas, uma única e reluzente máquina de venda automática se destacava, parecendo completamente deslocada naquele cenário.

Continuei caminhando devagar pela rua plana. Como era uma espécie de refúgio após a exaustiva subida, havia muitos outros alunos andando também. Um cara enorme chegou correndo como se tivesse subido a colina inteira em uma corrida. Ele parou bruscamente, curvando-se para frente enquanto segurava os joelhos e exalava forte. 

Será que decidiu gastar toda a energia apenas nessa subida ou pretendia manter esse ritmo até o fim?

Eu não tinha certeza, mas decidi assumir que Ibara estava logo atrás de mim. Se ela fosse me ultrapassar, seria melhor que fizesse isso nesse trecho plano. Conversar enquanto alguém passa correndo numa descida parecia ser complicado.

Para evitar isso, comecei a andar ainda mais devagar.

Ibara, hm?

Quando Ibara ouviu pela primeira vez que Ōhinata estava se juntando, fico me perguntando como ela reagiu.  

Lembro-me da reação de Satoshi. Ele havia comemorado de forma exagerada, como sempre, pelo simples fato de um novo aluno ter entrado.

— Pensar que Houtarou realmente conseguiu recrutar alguém... Para ser sincero, nunca nem imaginei que isso fosse possível. Isso é verdadeiramente um milagre.  

…entre outras coisas desse tipo. Em seguida, começou a fazer várias perguntas a Ōhinata sobre o Colegio Kaburaya, como se algo havia mudado ou se alguém havia se transferido.

Por outro lado, não tive a impressão de que Ibara sentiu o mesmo. Antes que eu percebesse, elas já tinham se tornado melhores amigas. Quando Ibara conheceu Chitanda pela primeira vez, elas também se deram bem rapidamente. Talvez fosse porque, embora parecesse uma pessoa rígida para os outros, ela não era nada tímida. Mesmo que Ōhinata fosse claramente mais alta, era curioso como era fácil perceber quem era a senpai quando as duas conversavam.

Quando isso aconteceu, eu me pergunto.

— Hina-chan, você parece ser bem atlética. Digo, você até tem um bronzeado. 

Ao ouvir isso de Ibara, Ōhinata ficou um pouco envergonhada.

— Parte disso ainda é do tempo em que fui esquiar, mas minha pele já é naturalmente escura também.

— Entendi, então você esquia, hm? Perto daqui?

— Às vezes, mas este ano fui para Iwate.

— Não faz snowboard?

— Não, só esquio. Você faz snowboard?

— Eu não sei fazer nenhum dos dois.

Lembrei-me dessa conversa absurda.

Na minha memória, conseguia ver as duas sorrindo alegremente.

Olhei para trás inúmeras vezes enquanto continuava a caminhar para frente.

Minha previsão estava correta. Quando estava mais ou menos na metade do trecho plano, o rosto de Ibara apareceu por trás da inclinação do terreno.

Ela mantinha os braços colados ao corpo e olhava fixamente para os próprios pés. Como estava com a cabeça abaixada, não conseguia ver seus olhos por trás da franja. Provavelmente, ela estava levando a subida da ladeira a sério, pois sua respiração estava ofegante. Seus passos eram curtos, mas, à medida que o caminho nivelava, seus braços começaram a se mover mais livremente. Ela corria em um ritmo constante.

Também levantei os braços e, de repente, comecei a correr em sua direção. Ajustei meu ritmo ao de Ibara e me movi ao seu lado, deixando um espaço equivalente a uma pessoa entre nós.

— Ibara.

Quando a chamei, apenas seus olhos se moveram para me encarar.

Como esperado, ela permaneceu em silêncio e começou a acelerar o passo. Já prevendo que isso aconteceria, fui direto ao ponto sem hesitar.

— Só preciso perguntar uma coisa, Ibara. Apenas uma. É sobre Ōhinata.

Mesmo assim, Ibara não moveu o rosto para me olhar, mas consegui ouvir uma única palavra misturada com sua respiração ofegante.

— O quê.

Já havia decidido o que perguntar.

— Ontem, você disse que encontrou Ōhinata no corredor. Ouviu que ela estava pensando em sair do Clube de Literatura Clássica.

Ibara fez um pequeno aceno com a cabeça.

— Naquele momento, Ōhinata disse algo sobre Chitanda. Satoshi me contou que ela mencionou que Chitanda era "como um Buda". Foi exatamente isso que ela disse?

Pela primeira vez, Ibara virou o rosto para me encarar. Por um instante, achei que havia um leve traço de confusão em sua expressão aflita.

Ela logo voltou a olhar para os próprios pés enquanto corria. Como se quisesse recuperar o fôlego naquele trecho plano, respirou profundamente. Achando que minha proximidade apenas a irritaria, propositalmente mantive uma certa distância enquanto corríamos. No entanto, de repente, ela encurtou essa distância.

Nos poucos metros em que realmente corremos lado a lado, ela disse uma única frase, sem espaço para interrupções. Diminui o ritmo. Ibara continuou correndo no mesmo passo até desaparecer ao descer a ladeira. Suas palavras continuaram ecoando em meus ouvidos. Ibara havia dito.

— Está errado. O que Hina-chan disse foi: "Chitanda realmente parece uma bodisatva, não parece?"

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