Hyouka Japonesa

Tradução: slag


Volume 5

Capítulo 1: Tempo Demais Apenas Correndo

 

1. PRESENTE: 0 KM

 

NO FIM, NÃO CHOVEU. E pensar que eu tinha rezado tanto para isso.

Minha prece também não foi atendida no ano passado. Isso só podia significar que rezar por chuva era completamente inútil. Agora que eu entendia isso, suponho que poderei aceitar o inevitável de forma mais tranquila no ano que vem, quando isso acontecer de novo. Se não preciso fazer algo, não faço. Se for absolutamente necessário, faço rapidamente. Hoje, eu, Houtarou Oreki, aprendi que rezar por chuva era algo desnecessário.

Dos cerca de mil alunos do Colégio Kamiyama espalhados pelo terreno da escola, um terço já havia desaparecido. Eles haviam partido em uma jornada rumo aos confins do horizonte distante. Eu sabia que o que estavam fazendo não passava de um esforço inútil, mas não sentia pena. Afinal, logo eu também estaria seguindo o mesmo caminho de sofrimento.

Com um ruído estridente, o megafone foi ligado novamente e, dele, veio um comando.

— Isso conclui os alunos do terceiro ano. Turma 2-A, à frente.

Os colegas de classe se posicionaram como se estivessem sendo arrastados por alguma força invisível. Entre eles, havia rostos cheios de paixão e determinação, mas a maioria ostentava uma expressão de resignação tão serena que chegava a ser quase santa. Provavelmente, meu rosto carregava a mesma expressão.

Uma linha de giz estava desenhada no chão. Ao lado dela, um membro do Comitê Geral segurava uma pistola de partida. Ele não transmitia a severidade implacável que normalmente se espera de um executor frio de julgamentos cruéis como aquele. Pelo seu rosto notavelmente juvenil, devia ser um aluno do primeiro ano. Ele olhava fixamente para o cronômetro em sua mão, como se não tolerasse desordem nem por um segundo. No fim das contas, ele só estava cumprindo ordens. Provavelmente, nem pensava no peso que suas ações tinham sobre nós. E mesmo que pensasse, no máximo seria algo como.

— Eu não tomei essa decisão. Meus superiores mandaram fazer isso, e eu tenho que cumprir minhas tarefas. Não é como se eu quisesse fazer isso, então não tenho responsabilidade nenhuma.

Era exatamente esse tipo de mentalidade que o permitia ser cruel sem sequer mudar sua expressão. Lentamente, ele ergueu a pistola.

Talvez, nesse exato momento, uma chuva torrencial e inesperada pudesse cair, alterando para sempre os estudos meteorológicos. No entanto, o céu de julho permanecia tão limpo e refrescante que me irritava. Nem mesmo uma "chuva de raposas" aconteceria num dia como este.

(N/SLAG: Chuva com sol.)

— Preparar!

Ah, é mesmo. Não percebi isso há pouco? O céu não atende nossas preces. Eu não tinha outra escolha senão encontrar uma solução do meu jeito. Até o último instante, o membro do comitê não desviou o olhar do cronômetro. Com um dedo fino, puxou o gatilho.

Um estrondo ecoou, e uma fumaça branca subiu do cano da pistola.

Assim começava a Copa Hoshigaya do Colégio Kamiyama. Finalmente, a Turma 2-A foi ordenada a correr.

*

O Colégio Kamiyama era conhecido pelo entusiasmo extremo com que tratava as atividades extracurriculares, a ponto de que até contar o número de clubes era uma tarefa exaustiva. Se bem me lembro, havia mais de cinquenta deles naquele ano. O festival cultural de outono durava três dias e era cercado por uma paixão tão intensa que qualquer um com um mínimo de bom senso diria que estavam exagerando.

Por outro lado, isso significava que havia também uma abundância de eventos esportivos. Embora nossa escola não tivesse atletas que pudessem competir nos torneios nacionais do ano passado, ouvi dizer que os clubes de artes marciais tinham um histórico impressionante. Após o festival cultural, as coisas começaram a se acalmar, mas logo vinha o festival esportivo, seguido por uma série de torneios importantes no início do ano letivo.

Dito isso, eu não achava tudo isso tão exaustivo. Não que eu tivesse um grande desejo de participar, mas conseguia aceitar algo como atuar como receptor em um jogo de vôlei ou correr um revezamento de 200 metros. Se fosse absolutamente necessário, eu poderia suar um pouco e até forçar um sorriso.

Mas quando me mandavam correr distâncias maiores...

...Especificamente, quando me mandavam correr 20.000 metros, aí sim eu não conseguia nem forçar um sorriso.

O torneio de corrida de longa distância do Colégio Kamiyama acontecia todo ano no final de maio. Seu nome oficial era Copa Hoshigaya. Supostamente, o evento foi batizado em homenagem a um ex-aluno que se tornou um corredor de longa distância renomado no Japão, mas ninguém o chamava assim. Enquanto o festival cultural recebia o nome enigmático de Festival Kanya, mesmo sem um título oficial, a Copa Hoshigaya era geralmente chamada apenas de Evento da Maratona. No meu caso, no entanto, por causa do meu amigo Satoshi Fukube, que sempre se referia ao evento pelo nome oficial, acabei me acostumando com ele.

Talvez eu devesse me sentir grato pelo fato de que o Evento da Maratona era mais curto que uma maratona de verdade, mas, no fim das contas, eu só queria que tivesse chovido hoje. De acordo com Satoshi, a notificação sobre o uso das vias públicas afirmava que, em caso de chuva, a maratona seria imediatamente cancelada e não retomada pelo resto do dia.

No entanto, ele também acrescentou.

— Mas é estranho, não acha? Pelo que pude ver nos registros, a Copa Hoshigaya nunca foi cancelada por causa da chuva.

Deve haver um deus por aí cuidando dos atletas na Copa Hoshigaya. Esse deus, no entanto, é inegavelmente podre até a raiz.

Eu vestia uma camisa branca de mangas curtas e shorts em um tom intermediário entre vermelho e roxo, algo parecido com carmesim. As meninas usavam shorts justos da mesma cor. O emblema da escola estava bordado na região do peito da camisa e, logo abaixo, havia um número de identificação de papel costurado, exibindo a turma e o nome do aluno. O cordão segurando meu crachá "Turma 2-A / Oreki" já começava a se desgastar. Costurá-lo foi um incômodo, e acabei fazendo um trabalho malfeito. Nada bom.

Estávamos no final de maio, então não chovia tanto quanto na estação chuvosa que viria depois. Considerando que não poderiam realizar o evento no dia seguinte, pois seria fim de semana, se precisassem cancelá-lo na sexta-feira, parecia que deram o mínimo de consideração para isso. Como a largada seria às 9h da manhã, ainda fazia um frio desagradável. Mas, conforme o sol subisse, certamente começaria a suar.

No terreno da escola, havia outra saída além do portão principal, e toda a Turma 2-A saiu por ela para começar a correr. Adeus, Colégio Kamiyama. Que nos encontremos novamente em 20 quilômetros.

O percurso da Copa Hoshigaya não era muito bem definido, já que a única instrução específica era basicamente: "Dê uma volta pela parte de trás da escola." No entanto, a área montanhosa atrás da escola se estendia até a distante e nevada cordilheira de Kamikakiuchi, então, na realidade, a "corrida de longa distância" se assemelhava mais a uma trilha de montanha de longa distância.

Eu conhecia o percurso exato.

Primeiro, corríamos um pouco ao lado do rio que fluía em frente à escola, depois subíamos uma estrada íngreme à direita no primeiro cruzamento. A inclinação começava suave, mas rapidamente se tornava mais acentuada. Ao chegar ao topo, o declive era tão cruel que destruía o corpo de qualquer um.

Depois de subir, a estrada imediatamente despencava. Assim como a subida, a descida era muito mais longa e violenta do que se imaginava, e os joelhos sobrecarregados gritavam de dor.

O fim da descida abria caminho para uma grande área rural. Aqui e ali, era possível ver algumas casas. Embora a estrada fosse plana nesse trecho, ela seguia em linha reta por uma eternidade, o que causava um enorme desgaste mental.

No final do trecho plano, havia mais uma colina a vencer. Diferente da primeira, essa subida não era tão violenta, mas a estrada se tornava extremamente sinuosa, com curvas fechadas que destruíam qualquer ritmo.

Depois disso, chegávamos a uma área no nordeste da cidade de Kamiyama chamada Jinde, onde ficava a casa de Chitanda. Nesse ponto, seguíamos um pequeno rio morro abaixo. Continuando pelo vale, eventualmente retornaríamos à cidade. Porém, não podíamos correr no meio das ruas movimentadas por carros, então usávamos uma estrada secundária. Ao passar pelo Santuário Arekusa e olhar além do estereotipado Hospital Rengō, finalmente avistávamos o Colégio Kamiyama.

Como eu sabia de tudo isso? Bem, porque corri esse percurso no ano passado também. Conhecia cada trecho do trajeto, do início ao fim. Mas esse conhecimento não encurtaria a distância nem um pouco. Embora eu soubesse exatamente para onde íamos, sentia que o mais sensato seria ignorar o processo para chegar lá. Mesmo que fosse impossível, parecia ser a estratégia mais lógica. Ou seja, ao percorrer 20 km, deveríamos pelo menos ter a opção de usar um ônibus ou uma bicicleta. Infelizmente, minha linha de raciocínio extremamente racional não parecia ser levada em consideração.

A primeira parte do percurso passava pelo rio em frente ao colégio, e os problemas já começavam a aparecer. A maior parte do trajeto ocorria em áreas com pouco tráfego, mas essa seção conectava-se a um desvio da cidade, onde passavam muitos carros. Além disso, não havia calçadas separando a via dos pedestres — apenas uma única linha branca. O único motivo pelo qual tínhamos que começar a correr tão cedo era para não causar congestionamento nas ruas.

Os alunos da Turma 2-A corriam em fila única dentro da área demarcada pela linha branca. Esse era o único momento em todo o percurso de 20 km em que os corredores rápidos e lentos precisavam manter o mesmo ritmo. Se não o fizessem, acabariam invadindo a pista dos carros. No ano passado, podíamos nos espalhar um pouco, mas este ano, isso foi estritamente proibido. A escola tomou essa medida para evitar acidentes, já que, no dia anterior, um aluno do terceiro ano havia sido atropelado nessa área. Graças a isso, tínhamos o imenso prazer de correr apertados em uma fila difícil de manter.

Então, acho que não poderia andar nesse primeiro quilômetro. A fila avançava em um ritmo leve e fácil. A estrada à minha frente era longa. Se eu imaginasse que estava apenas dando um passo acelerado em vez de correr, talvez conseguisse tolerar.

Terminamos o primeiro quilômetro antes que percebêssemos, e o percurso fez uma ampla curva à direita. Saímos da estrada principal que levava à cidade e nos aproximamos da parte de trás da escola. Assim começou a subida.

A fila única se desfez. Como se fossem impulsionados pela frustração acumulada por não poderem correr no próprio ritmo, os alunos mais atléticos imediatamente se separaram do grupo. Algumas garotas, provavelmente motivadas pela promessa de correrem juntas, também avançaram.

E eu? Bem, eu diminuí o ritmo.

...E diminuiu ainda mais o ritmo.

Eu basicamente estava andando naquele ponto, mas continuei fazendo parecer que ainda estava correndo.

Desculpem, atletas de Hoshigaya, mas não posso me dar ao luxo de ser despreocupado como vocês. Durante esses 20 km, havia algo que eu absolutamente precisava descobrir, e agora só restavam 19 km para isso.

Cerca de 100 metros na subida, ouvi uma voz chamar atrás de mim.

— Ah, aí está ele.

Não me virei. O dono da voz apareceu na minha frente de qualquer forma. Ele, Satoshi Fukube, desceu da bicicleta em que estava.

De longe, parecia um cavalheiro andrógino, mas de perto, seu rosto era tão diferente do que se esperaria ao olhar seu antigo anuário do ensino fundamental que até eu fiquei surpreso. Claro, o problema não era que seu rosto tivesse mudado tanto, mas sim que, ao longo do último ano, ele havia aprendido a trancar todas as suas emoções atrás daquela fachada. Eu não tinha percebido isso antes porque não o via cara a cara há quase três dias.

Este ano, Satoshi se tornou o vice-presidente do Comitê Geral. Como o Comitê Geral estava organizando a Copa Hoshigaya, seus membros não precisavam correr. Afinal, eles eram responsáveis pela montagem antes da corrida começar e deviam estar distribuídos ao longo do percurso. Ele usava um capacete amarelo e empurrava sua bicicleta montanhesa de sempre. Olhei para ele de soslaio e comentei.

— Tem certeza de que pode ficar vadiando assim?

— Tá tudo certo, tá tudo certo. Já garanti que a corrida começasse sem problemas, e não vou voltar até que o último corredor cruze a linha de chegada.

— Deve ser difícil.

Eu entendia que o Comitê Geral não precisava correr como uma forma de agradecimento pelos seus esforços em supervisionar cada aspecto da Copa Hoshigaya, mas agora esse cara teria que percorrer todo o percurso de 20 km de bicicleta para relatar qualquer situação imprevista. Satoshi abaixou os ombros.

— Bem, não é como se eu odiasse andar de bicicleta, então não é tão ruim assim, mas eu não precisaria fazer isso se pudesse usar meu celular.

— Por que não fala isso para eles?

— Nenhum aluno no campus pode carregar celular tecnicamente, mas, na realidade, se alguém se machucasse, usariam um celular para pedir ajuda, certo? Eles precisam reavaliar essas regras, sério.

Ele lamentou a estrutura inflexível do Comitê Geral, mas então, de repente, ficou sério.

— De qualquer forma, já tem alguma ideia?

Enquanto caminhava vagarosamente, respondi com cautela.

— Ainda não.

— A Mayaka… — Ele começou a falar, mas hesitou. Eu já tinha uma ideia do que ele queria dizer, então falei primeiro.

— É claro que ela suspeita de mim.

— Não, acho que não é isso. Na verdade, parece que ela acha que não pode ter sido você. Ouvi dizer que ela comentou: "Não acho que Houtrou fez nada. Afinal, ele literalmente não faz nada."

Um sorriso amargo surgiu no meu rosto. Não apenas isso soava exatamente como algo que a Ibara diria, mas também era a pura realidade. Eu realmente não fiz nada ontem.

Se era isso que ela realmente pensava, então as coisas ficaram bastante problemáticas.

— Se não fui eu...

— Exatamente — respondeu Satoshi com um suspiro profundo.

Se não fosse eu, só poderia ser uma outra pessoa.

Lembrei-me do que aconteceu ontem.

2. PASSADO: 1 DIA ATRÁS

 

Eu estava lendo um livro de bolso na sala do clube depois da escola. Era um romance de época que narrava os primeiros dias de um homem que mais tarde se tornaria um mestre espião, e era tão absurdamente interessante que eu havia me envolvido com ele de uma maneira pouco característica para mim.

No Colégio Kamiyama, um lugar repleto de vários clubes, muitos dos quais se dissolviam e eram substituídos por novos a cada ano, era bastante comum que as salas dos clubes fossem trocadas no início de um novo ano letivo. Dito isso, o Clube de Clássicos permaneceu na mesma sala de aula de Geografia. Não é como se eu tivesse um apego especial a ela, mas, por ter frequentado essa sala tão regularmente no ano anterior, acabei sentando no meu "lugar de sempre". Era a cadeira localizada, como sempre, na terceira fileira a partir do fundo e três lugares afastada da janela que dava vista para o pátio da escola.

Quando terminei um dos capítulos e levantei a cabeça para soltar um suspiro de empolgação, a porta deslizante da sala se abriu repentinamente. Ibara entrou, as sobrancelhas franzidas e uma expressão preocupada no rosto.

Mayaka Ibara agora estava no segundo ano e havia mudado um pouco. Ela deixou o Clube de Pesquisa de Mangá, do qual fazia parte junto com o Clube de Clássicos. Ela mesma disse que foi porque "simplesmente se cansou daquilo". Pelo rosto conflituoso de Satoshi, parecia haver outras circunstâncias envolvidas, mas eu não perguntei.

Não era como se sua aparência tivesse mudado drasticamente. Se você colocasse Ibara no meio de um grupo de calouros e pedisse para cem pessoas apontarem quem era a veterana, duvido que alguém a escolhesse. Ela começou a usar presilhas no cabelo recentemente, mas, se Satoshi e os outros não tivessem mencionado, eu provavelmente nem teria notado.

Havia apenas eu e mais uma pessoa na sala do clube. Até pouco tempo atrás, éramos três. 

Ibara falou.

— Ei, aconteceu alguma coisa?

— Não... — quem murmurou isso foi Chitanda.

Eru Chitanda era a presidente recorrente do Clube de Clássicos. Ela não cortava o cabelo há algum tempo, então ele havia crescido um pouco. Ibara olhou de volta para o corredor e então falou em um tom levemente contido.

— Acabei de passar pela Hina-chan lá fora. Ela disse que não vai entrar no clube.

— O quê?

— Os olhos dela estavam meio vermelhos. Será que ela estava chorando?

Chitanda ficou sem palavras. Sem responder à pergunta, apenas murmurou para si mesma.

— Entendo...

Eu não sabia o que tinha acontecido. 

Um ano se passou e, assim como nos tornamos alunos do segundo ano, naturalmente houve novos calouros. Abrimos o Clube de Clássicos para novos membros e, apesar de muitas complicações ao longo do caminho, finalmente conseguimos recrutar uma pessoa.

Tomoko Ōhinata havia entregue um formulário provisório de inscrição no clube, e tudo o que faltava era ela enviar o formulário definitivo. Ela não apenas se apegou extremamente à Ibara, mas também parecia gostar muito das conversas com Chitanda. Ela podia ser um pouco irritante às vezes, mas não era como se eu a tratasse friamente por isso. Todos pensavam que ela entraria no clube sem problemas; na verdade, me pergunto se simplesmente esquecemos que era necessário entregar o formulário definitivo após o provisório.

E agora, estavam nos dizendo que ela não se juntaria ao clube. Tudo isso havia desmoronado no curto tempo em que estive lendo meu livro? Chitanda olhou para Ibara e falou novamente, com os lábios trêmulos.

— Entendo... — repetiu o melhor que pôde.

Mesmo sem saber o que tinha acontecido, Ibara escutou atentamente e perguntou.

— Você está bem, Chi-chan?

— Eu sabia... Foi por minha causa...

— O que você quer dizer com "foi por minha causa"? Se está falando da Hina-chan, está errada. Ela até disse que não foi culpa sua.

— Não... Me desculpe. Eu preciso ir.

Chitanda encerrou a conversa de repente e saiu correndo da sala de Geografia com sua bolsa.

Tudo o que pude fazer foi olhar. Ibara observou Chitanda ir embora e então se virou para mim. Com uma expressão neutra e uma voz monótona, disse.

— Então, o que aconteceu?

Tudo o que consegui fazer foi balançar a cabeça, de boca aberta.

3. PRESENTE: 1,2 KM

 

Embora houvesse diversos clubes, o número de estudantes novos era limitado. A corrida para recrutar esses novos alunos atingia seu auge de ferocidade todo mês de abril. No ano passado, eu realmente não tinha motivo para me juntar a nenhum outro clube, então ignorei tudo isso, mas desta vez acabei no centro do furacão. Ao fazer parte disso, experimentei algo pela primeira vez; foi meu primeiro verdadeiro banho de sangue. 

Novos alunos que eu nunca tinha visto antes estavam sendo capturados para a recruta em todos os cantos, e logo surgiram alguns problemas. Embora fosse provavelmente verdade que os novos alunos que não conseguiam recusar a solicitação incessante de um clube pelo qual não tinham interesse eram em grande parte culpados, havia aparentemente certos clubes que haviam reunido uma grande quantidade de membros para pressionar os calouros a entrarem. No entanto, usar táticas autoritárias assim era algo que simplesmente não funcionava. A razão por trás do processo em duas etapas, que exigia que os alunos entregassem tanto o formulário de entrada provisória quanto o formulário de entrada real no clube, era garantir que os alunos entrassem por vontade própria. Se o aluno não entregasse o formulário de entrada real mais tarde, ele seria automaticamente descartado. 

O prazo para entregá-lo era neste final de semana, então, essencialmente, o prazo era hoje. Antes de mais nada, havia algo que eu queria confirmar.  

— Só porque você não entrega o formulário de entrada real, não significa que não possa se juntar mais tarde, certo?  

— Claro. Você pode entrar ou sair de qualquer clube de Kamiyama a qualquer momento. A decisão é completamente sua.  

Depois de dizer isso, no entanto, Satoshi continuou com uma leve careta.  

— O problema é que o orçamento de um clube é baseado no número de membros no final do período de inscrição provisória, então qualquer alteração de membro depois disso é muito mal vista. Enfim, mais importante...  

— Eu sei.  

O problema não era a burocracia.  

Na realidade, no momento em que soubemos que havia algum tipo de problema ontem, deveríamos ter tentado resolvê-lo, embora eu suponha que não houvesse muito o que pudéssemos ter feito, já que tanto Ōhinata quanto Chitanda já tinham saído nesse momento. Só havia se passado um dia, mas já parecia que era tarde demais. Se isso permanecesse sem solução antes de todos se separarem no fim de semana, a renúncia de Ōhinata quase certamente seria irrevogável, e mudar de ideia seria impossível.  

Hoje não haveria aulas após o término da Copa Hoshigaya. Era necessário comparecer à sala de aula por um curto período, mas depois disso todos poderiam se reunir com seus clubes.  

Em outras palavras, embora hoje fosse o único dia em que poderíamos puxar Ōhinata para conversar, mal tínhamos tempo ou oportunidade de entrar em contato com ela.  

— Dito isso, eu não sei exatamente o que aconteceu, — disse Satoshi com voz baixa. — Parece que ontem, depois da escola, algo a deixou extremamente irritada ou deprimida, mas não fazemos ideia do que causou isso, certo?  

— Sim, eu estava lendo o tempo todo.  

— Se for o caso, então Chitanda deve ter sido a causa. Mas agora, isso contradiz com o que Mayaka ouviu.  

A subida ainda não havia se tornado fisicamente extenuante. Casas alinhavam-se nos dois lados da estrada, e a colina continuava suavemente. Alguém, ágil, conseguiu alcançar-me enquanto eu mantinha meu ritmo lento. Provavelmente era um estudante de 2-B, a turma que começava depois da nossa, que confiava em suas pernas para chegar até o fim assim.  

Sussurrei minha pergunta.  

— O que a Ibara disse?  

Satoshi parecia desapontado comigo com um olhar rápido.  

— Ah, você não ouviu?  

— Ela não me disse nada.  

— Será que ela não teve tempo? Eu também não estava lá, então os detalhes estão um pouco confusos.  

Os olhos de Satoshi procuraram em volta, então ele acrescentou de forma meio desajeitada.  

— Se eu me lembro bem, Ōhinata disse que Chitanda era "como um Buda", ou algo assim. Só lembro que não era de um jeito ruim.  

Eu não tinha ouvido nada sobre isso. Não sabia de nada, além do fato de que Ōhinata disse que não iria se juntar ao clube.  

— Isso foi realmente ontem?  

— A formulação pode ter sido errada, mas sem dúvida aconteceu ontem.  

Então Ōhinata disse tanto "não vou entrar" quanto "Chitanda é como o Buda"? Se for o caso, isso, honestamente, me faria assumir que ela estava basicamente dizendo: "Não vou entrar, mas não é culpa da Chitanda".  

Isso significaria, portanto, que eu fui a razão pela qual Ōhinata decidiu desistir. No entanto, eu realmente não fiz nada ontem. Claro, eu estaria mentindo se dissesse que não ouvi nada. Eu conversei um pouco antes de entrar na sala do clube e ouvi uma coisa ou outra enquanto estava lendo, mas foi só isso.  

— Acho que isso não vai ser simples, afinal.  

No entanto, Satoshi murmurou para si mesmo.

— Será que é o caso? Eu acho simples, — continuou. — Uma nova recruta entrou. Ela mudou de ideia. Ela decidiu desistir. Isso foi tudo o que aconteceu.  

Mesmo enquanto eu continuava mais ou menos correndo, Satoshi conseguiu me acompanhar enquanto empurrava sua bicicleta de montanha. Como esperado de um entusiasta do ciclismo, sua caminhada era impecável.  

Satoshi suspirou e finalmente começou a falar.  

— Ei, Houtarou. Isso pode ser um pouco cruel, mas se Ōhinata desistir, acho que devemos apenas desistir dela. Quero dizer, ela certamente é uma pessoa interessante, e Mayaka realmente parece gostar dela, mas se ela mesma tomou essa decisão, não acho que tenhamos o direito de contestar isso.  

Ele olhou para mim e acrescentou.

— Embora eu pensasse que seria você a dizer isso em vez de mim.  

Isso não era uma suposição irreal. Na realidade, quando Mayaka chegou ontem visivelmente angustiada, eu não achava que o que havia acontecido fosse tão importante.

Eu tenho certeza de que Ōhinata tinha suas próprias circunstâncias. No Colégio Kamiyama, você podia participar de até dois clubes ao mesmo tempo, então, se houvesse três clubes que você quisesse entrar, seria completamente compreensível se você abandonasse o Clube de Clássicos. De qualquer forma, as intenções dela eram vagas. Talvez ela tenha encontrado um esporte que queria praticar, ou talvez tenha decidido começar a participar das atividades do Comitê Geral. Talvez ela tenha decidido que precisava se concentrar mais nos estudos. 

Havia várias razões pelas quais ela poderia ter decidido sair, e o Clube de Clássicos não tinha nenhuma razão para contestar isso. Era uma pena, mas talvez não fosse para ser. Esses pensamentos certamente passaram pela minha cabeça em algum momento.

No entanto, eu havia mudado de ideia sobre o assunto por alguns motivos, mas não estava a fim de explicar um por um para o Satoshi enquanto corria. Depois disso, ele podia andar de bicicleta pelo resto do caminho, mas eu ficaria com as minhas pernas. Eu só ia me cansar mais se tentasse conversar enquanto corria, então queria limitar o quanto falava o máximo possível.

Provavelmente percebendo que eu não ia responder, Satoshi continuou falando casualmente.

— Mas você sabe como é. Se você decidiu tentar dissuadi-la, não tenho razão para te impedir. Então, você vai procurar ela e implorar para não sair?

Eu me senti pego de surpresa imediatamente.

— Implorar para ela?

— Sim, abaixa a cabeça assim e diz: "Eu sei que você deve ter experimentado muitos desgostos por nossa causa, mas imploro, aguente só mais uma vez."

Satoshi disse isso enquanto fazia um gesto com as mãos, e depois continuou com um rosto confuso.

— Você não ia fazer isso?

Eu nem tinha pensado nisso. Eu suponho que fosse uma opção, mas no final...

— Ōhinata disse que tinha um motivo para estar saindo, certo? Eu me pergunto se podemos realmente resolver isso sem saber o motivo primeiro.

Ele respondeu com um suspiro.

— Você vai realmente tentar resolver o problema, né? Eu suponho que implorar não é algo que você faria, mas se desculpar rapidamente e implorar de todas as formas possíveis é, sem dúvida, a maneira mais rápida de lidar com isso. Pode até funcionar melhor do que o esperado.

Eu me perguntei se era assim que realmente ia acontecer. Eu tinha dificuldade de acreditar nisso. Pelo menos, eu não achava que me prostrar na frente dela resolveria completamente o problema.

Na verdade, não era que eu estava fazendo isso porque queria dissuadi-la de sair. Não tenho certeza se colocar tudo de lado só para implorar para ela assinar o formulário de entrada definitivo e depois seguir como se eu não a conhecesse seria algo que eu conseguiria fazer. Isso só adiaria a dor de cabeça para depois. Agora, eu gosto de evitar trabalho, e adoro ainda mais poder omiti-lo, mas o que eu não gosto é adiar algo para depois. Se você vê algo que parece ser uma dor de cabeça, mas finge que não está lá, ter que lidar com isso depois se torna ainda mais complicado.

— Acho que provavelmente não vou implorar para ela.

— E persuadi-la de forma direta?

— Também é um saco. Além disso, você achou que eu sou um bom falador, né?

— Não. Em vez de convencer alguém de forma gentil, você é mais o tipo que resolve uma conversa com uma única palavra de sabedoria.

Ele disse isso e ficou quieto. Ele olhou meu rosto cuidadosamente.

— Mais cedo você disse que resolver isso não ia ser simples. Você está realmente tentando descobrir o motivo exato de Ōhinata querer sair?

Chamar isso de "descobrir" era exagero.

— Eu só estou tentando lembrar tudo o que aconteceu até agora. Desde que eu faça isso, posso evitar o esforço.

Satoshi ficou pensando por um momento.

— Lembrar, né? Entendi. Ou seja, você não acha que o que fez Ōhinata ficar brava ou triste foi necessariamente algo que aconteceu só ontem, depois da escola. A causa, ou melhor, o problema original e subjacente, foi algo que aconteceu em outro momento.

Ele era bem perspicaz. Eu sabia com certeza que não fiz nada ontem, e quando se tratava de Chitanda, mesmo que não levássemos em conta o relato de Ibara de que "Chitanda é como um Buda", a ideia de que Ōhinata ficou tão magoada e irritada depois de conversar com Chitanda me fazia pensar que Ibara talvez tivesse exagerado um pouco. 

Me senti mal em dizer isso, mas, considerando que era Ibara, eu poderia entender isso. Ela parecia ser o tipo de pessoa que te faria um corte se você mencionasse algo que a irritasse, não importando o quão pequeno fosse. Já Chitanda, por outro lado, simplesmente inclinaria a cabeça em confusão.

Se eu pensasse nisso dessa forma, a causa poderia estar relacionada, em parte, com algo que aconteceu antes de ontem. Talvez, em algum momento, desde que Ōhinata entrou no clube como membro provisório, pensamentos insuportáveis começaram a se acumular na cabeça dela. Talvez ontem ela tivesse atingido o seu limite.

— Eu disse que não ia te impedir, mas... isso está bem complicado, né?  

— Não me diga.  

— Não importa o quanto você tente lembrar, Houtarou, não há garantia de que você terá todas as informações necessárias para resolver isso.

— Acho que é verdade.

Não é como se os membros do Clube de Clássicos estivessem sempre juntos; nem eu ia para a sala do clube todos os dias. Provavelmente, havia muitas coisas que eu nem vi nem ouvi. Se tudo isso começou e terminou enquanto eu não percebia que estava acontecendo, pensar nisso seria inútil.

Dito isso, e eu não poderia contar nada disso para o Satoshi ainda, eu tinha algumas ideias aqui e ali. Desde que Ōhinata entrou como membro provisório, havia algumas coisas que me pareceram estranhas. Talvez se eu focasse minha atenção nessas partes, algo se tornaria claro. Eu poderia estar completamente errado, mas pelo menos seria um começo. Além disso, eu tinha 20 quilômetros. Esse percurso estava demorando demais só correndo.

Eu falei.

— Se houver algo que eu precise saber, vou tentar te perguntar. 

Satoshi franziu as sobrancelhas, desconfiado.

— Perguntar para mim? Só para te avisar, vou seguir na frente de você agora.

— Sei, mas vamos acabar nos encontrando de novo em algum momento, certo? Nos vemos então. 

Eu sorri para ele e continuei.

— Afinal, Ibara e Chitanda estarão vindo de trás. 

Por um momento, Satoshi me olhou atônito.

— Você é terrível! Então é isso que você estava planejando. Como pôde? Pense em todo o sangue e suor que o Comitê Geral gastou para organizar a Copa Hoshigaya.

— Não é o Evento da Maratona?

Sem dúvida, eu precisava conversar com Ibara e Chitanda. Por outro lado, também tinha que entrar em contato com Ōhinata até o final do dia. Só havia uma maneira de conseguir fazer as duas coisas.

Para evitar congestionamento nas ruas, os horários de início das aulas eram escalonados. Eu estava na turma 2-A. Se eu me lembrasse corretamente, Ibara estava na 2-C e Chitanda na última, 2-H. Se eu corresse devagar, eventualmente Ibara alcançaria, e se eu fosse ainda mais devagar do que isso, Chitanda também.

— Em qual turma Ōhinata estava?  

— Turma 1-B. Não é à toa que você estava indo tão devagar. Não, agora estou aliviado. Na verdade, estou bem aliviado. Isso mesmo, não tem como você realmente tentar correr até o fim.  

Satoshi riu ao dizer isso. Que rude. Eu completei o percurso ano passado, mesmo que tenha parado pela metade e acabado caminhando por uns 10 km.

— Agora que sei do seu plano maligno, acho que está na hora de eu me mover. Até ficar de preguiça tem limite. 

Ele subiu na sua bicicleta. Achei que ele fosse pedalar e sair, mas de repente hesitou por um segundo. Virou-se de volta para mim.

— Vou te dizer isso só porque somos amigos. Não carregue isso tudo sozinho, Houtarou. Você é o tipo de pessoa que normalmente não se importa com as circunstâncias dos outros, então não se esqueça de que você não é responsável por nada, não importa o que aconteça com Ōhinata. 

Foi uma maneira cruel de falar, mas eu entendi o que ele queria dizer. Ele queria me avisar que, não importa o que eu pensasse ou descobrisse, no final, a decisão seria de Ōhinata. Você pode levar um cavalo até a água, mas não pode forçá-lo a beber. Acho que seria uma boa ideia manter isso em mente.

— Agora vou indo. Nos vemos em algum lugar no percurso.  

— É.  

Satoshi finalmente começou a pedalar. Mesmo com a ladeira ficando cada vez mais íngreme, sua bicicleta de montanha foi ganhando velocidade sem vacilar. Ele nem precisou se levantar para pedalar. Com o traseiro firmemente plantado no selim e o corpo inclinado para frente, ele pedalou cada vez mais distante.

Com meus pequenos passos e corrida lenta, despedi-me dele.

Embora eu tivesse dito que iria falar com Ibara e Chitanda, não era tão simples quanto parecia.

Mesmo quando cada uma delas me alcançasse, eu não teria muito tempo para conversar. Especialmente Ibara — ela não parecia do tipo que diminuiria o ritmo por minha causa. No tempo que levaria para ela me alcançar e depois me ultrapassar, eu provavelmente só conseguiria fazer duas perguntas.

Eu não tinha tempo suficiente para perguntar tudo o que queria. Se eu não decidisse antes o que perguntar, acabaria desperdiçando minha chance.

Para fazer as perguntas certas, eu precisava entender corretamente a situação. Mais especificamente, eu precisava compreender exatamente que tipo de pessoa era Tomoko Ōhinata, aluna do primeiro ano do Colégio Kamiyama.

…Então, tentei me lembrar.

*

Depois que Chitanda foi embora ontem, Ibara fez uma pergunta para a única pessoa que ainda restava ali: eu.

— Então, o que aconteceu?

Como eu não respondi, ela disse outra coisa.

— Você não sabe? Já era de se esperar. Afinal, você não é do tipo que presta atenção nos outros.

Foi um comentário simples, dito de forma despreocupada. Ainda assim, parecia que ela estava um pouco surpresa.

Eu não deixei de perceber o que aconteceu porque estava lendo meu livro depois da aula ontem. Na verdade, eu simplesmente não estava interessado em nada do que Ōhinata dizia. Talvez fosse por coisas assim que Satoshi sempre gostava de me chamar de "alguém que odeia pessoas". Não era exatamente isso, mas também não estava muito longe da verdade. Talvez, para alguém de fora, parecesse que eu estava me distanciando cada vez mais de Ōhinata.

Na maior parte do tempo, eu não me importava com sua vida pessoal, com o que a fazia feliz ou com o que a machucava. Eu simplesmente a ignorava.

Me perguntei se agora eu conseguiria reverter completamente essa apatia. Será que conseguiria durante esses 20 km? O percurso era longo demais apenas para correr, mas será que seria suficiente para tentar entender alguém?

Eu precisava pensar sobre isso, custasse o que custar.

A inclinação da estrada ficava cada vez mais íngreme, e em algum momento a paisagem à esquerda e à direita mudou para uma floresta de cedros.

Mais uma pessoa me ultrapassou enquanto eu seguia lentamente.

Eu a conheci pela primeira vez em abril. Foi durante a semana de recrutamento dos novos alunos.

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