Volume 5
Capítulo 3: Amigos Precisam Ser Celebrados
PRESENTE: 5,2 KM; 14,8 KM RESTANTES
EU NÃO CONSEGUIA ORGANIZAR MEUS PENSAMENTOS ENQUANTO DESCIA A LADEIRA.
Mesmo tendo me esforçado tanto na subida, toda a altitude que conquistei foi apagada num instante assim que comecei a correr ladeira abaixo. Se isso era algo que eu mesmo havia feito, e eu teria que descer em algum momento de qualquer forma, por que diabos eu havia subido em primeiro lugar? Refleti seriamente sobre essa minha ação.
Embora o início da subida tivesse sido suave, a descida se tornou imediatamente uma queda íngreme, lembrando até mesmo a de Hiyodorigoe. Os dois lados da estrada estavam novamente densamente cobertos por cedros, bloqueando meu campo de visão. Se eu fosse descuidado na descida, acabaria inclinado como alguém caindo de um penhasco, então descartei essa ideia. Se eu começasse a correr sem pensar, o som dos meus pés batendo no asfalto seria ensurdecedor. Além disso, correr assim só serviria para destruir os joelhos.
(N/SLAG: Hiyodorigoe era uma passagem montanhosa perto do castelo de Ichi-no-Tani, uma fortaleza do clã Taira.)
Levando tudo isso em consideração, decidi adotar um estilo de corrida enérgico, porém com passadas naturalmente curtas. Mesmo que meus pés normalmente doessem se eu corresse rápido demais, era inevitável que correr ladeira abaixo facilitasse a aceleração. Se eu não levasse a sério pelo menos uma parte do percurso de 20 km, acabaria não voltando antes do pôr do sol.
Como resultado, concentrei-me apenas em descer a ladeira.
E, ao mesmo tempo, as palavras de Ibara — aquela simples frase que ela havia ouvido de Ōhinata — continuavam ecoando em minha mente.
Como um Bodhisattva... Como um Bodhisattva...
Por algum motivo, não pude deixar de sentir um leve calafrio ao ouvir essa palavra supostamente auspiciosa, mas descia rápido demais para refletir sobre seu verdadeiro significado.
A ladeira tinha uma grande curva no meio do caminho. Os alunos que haviam passado por mim com facilidade antes estavam correndo com tanta empolgação que acabaram ultrapassando o limite da curva. Pareciam estar pisando em foles de forja. Quando perceberam a situação, ouvi os estudantes à frente batendo os pés no asfalto desesperadamente.
(N/SLAG: Os alunos estavam correndo tão rápido e com tanta força que pareciam bombear ar como um fole de forja, acelerando sem controle e ultrapassando a curva antes de perceberem o erro.)
Quanto a mim, abracei levemente a curva interna ao fazer a virada e, finalmente, meu campo de visão se abriu novamente. Consegui enxergar, ao longe, as montanhas da cordilheira de Kamikakiuchi, ainda com resquícios de neve. Não havia como afirmar com certeza se uma brisa de inverno soprava daquela direção, mas, de repente, comecei a sentir frio.
Satoshi já havia seguido em frente com sua bicicleta, e Ibara também já tinha partido. Antes que Chitanda me alcançasse, havia algumas coisas que eu queria refletir primeiro.
Assim que a ladeira terminou e a rua voltou a ser plana, imediatamente comecei a relaxar as pernas.
Eu não me lembrava de ter tido uma conversa longa e adequada cara a cara com Ōhinata. Provavelmente porque ela entrou para o clube, no entanto, havia algo que eu nunca tinha pensado muito a fundo até agora. Além disso, se houvesse algum problema entre Chitanda e Ōhinata, esse detalhe poderia ser crucial para entender a situação.
Eu não gostava da ideia de pensar sobre o que aconteceu naquele dia. Como posso dizer... Não era algo que fazia suor frio escorrer pelas minhas costas, mas eu sentia que a inquietação daquele momento ainda permanecia até hoje.
Eu me lembrava claramente da data e do dia da semana. Aconteceu em um domingo.
PASSADO: 27 DIAS ATRÁS
Era uma manhã preguiçosa.
Eu tinha ficado acordado até tarde na noite anterior. Não era como se estivesse fazendo algo em particular, mas, como no dia seguinte não haveria aula, acabei lendo sem rumo e assistindo TV por um longo tempo.
Acordei tarde e preguiçosamente naquela manhã e percebi que não havia ninguém na sala de estar. Eu sabia que meu pai estava fora a trabalho, mas não fazia ideia do que minha irmã estava fazendo. Ela poderia estar em algum lugar da casa ou talvez fora do Japão. Soltei um longo bocejo sem cerimônia e me joguei no sofá.
O controle remoto estava sobre a mesa baixa à minha frente. Pensei em ligá-lo para ver o que estava passando, mas, mesmo mudando de canal algumas vezes, não encontrei nada de interessante. Ainda estava sonolento, então a televisão acabou sendo um incômodo. Eu tinha trazido o livro de bolso que estava lendo do meu quarto, então me afundei no sofá e abri suas páginas.
Antes de ler sequer uma linha, olhei para cima e murmurei para mim mesmo.
— Está meio escuro.
As cortinas estavam fechadas. Naturalmente, eu preferia que estivessem abertas, mas estava tão confortavelmente afundado no sofá que levantar era trabalhoso demais. Coloquei o livro de lado e alcancei o controle remoto novamente. Sobre a mesa havia um cinzeiro e uma estatueta de gato da sorte.
Aquele gato da sorte era uma coisa estranha. Eu não conseguia dizer se era malfeito ou se havia sido projetado assim de propósito, mas parecia estar me encarando com um sorriso enigmático. Ele segurava uma grande moeda, como qualquer outro gato da sorte, mas, em vez das frases ousadas habituais como "grande felicidade", "fortuna fantástica" ou "riqueza abundante", nela estava escrito apenas uma palavra: "sortudo". Obviamente, a única pessoa que compraria algo tão sem graça era minha irmã, mas, mesmo assim, eu me perguntava onde ela tinha conseguido aquilo.
O interior era oco, e o braço tinha uma mola que permitia um movimento de vai e vem. Minha irmã fez algumas modificações para aprimorar essa função. Ela tentou fazer com que o gato disparasse um feixe infravermelho. Embora o feixe fosse invisível, ela propositalmente fez com que saísse dos olhos da estatueta.
— Se um gato vai atirar lasers, tem que ser pelos olhos.
Quando ela me disse isso, fiquei sem palavras. Mas, pensando racionalmente, não era tão absurdo assim. Afinal, o controle remoto também usava feixes infravermelhos. Essencialmente, ela apenas colocou um controle remoto dentro do gato da sorte.
O receptor estava conectado à luz fluorescente do teto. Quando se movia o braço para atrair boa fortuna, um feixe infravermelho era disparado dos olhos e acendia ou apagava a luz do cômodo. Como resultado, a cordinha da lâmpada podia ser removida, deixando o espaço mais livre. Mas, como era preciso manter o gato da sorte ali o tempo todo, ele acabava atrapalhando de qualquer forma. Pelo menos ela poderia ter usado um gato que fosse realmente fofo.
Atualmente, o gato da sorte estava na outra extremidade da mesa, então tentei alcançá-lo. Foi por isso que peguei o controle remoto em primeiro lugar. Em vez de um graveto, usei o controle para tentar mover o braço do gato. Parecia que eu conseguiria alcançar, mas, por mais que tentasse, não conseguia. Se eu me inclinasse um pouco, provavelmente conseguiria pegá-lo, mas, nesse ponto, eu já estaria praticamente de pé. Enquanto me esforçava ao máximo para usar apenas os braços, evitando mover o resto do corpo a todo custo, uma voz chamou atrás de mim.
— Você está tentando dominar completamente a arte da preguiça ou algo assim?
O caminho para a maestria na preservação de energia era interminável; eu ainda não havia nem vislumbrado o auge de sua perfeição. Virei-me e vi minha irmã. Parecia que ela tinha tomado um banho à tarde, pois uma toalha estava firmemente enrolada em sua cabeça. Ela caminhou até a cozinha e perguntou.
— Quer um café?
— Quero.
— Então, já que vai fazer, prepara um para mim também.
Ela não ia fazer para si mesma? Então por que foi até a cozinha em primeiro lugar?
Como eu já estava no clima para café, toda a determinação e esforço que tinha colocado em evitar me levantar desapareceram instantaneamente. Bati nos joelhos para reunir energia e fui até a cozinha ferver água. Minha irmã estava de costas para mim, olhando dentro da geladeira, até que encontrou um sanduíche para comer. Eu nem sabia por que havia um sanduíche ali. Ao longo dos anos, já tinha visto de tudo sendo guardado na geladeira, desde larvas de abelha em conserva até hambúrgueres de carne de canguru. Comparado a isso, pelo menos um sanduíche não era tão absurdo.
— Ou você seca o cabelo ou come sua comida. Não faça os dois ao mesmo tempo.
Falei, irritado, ao ver que ela ainda estava com a toalha enrolada na cabeça, mas ela me ignorou. Pegou um ovo e o girou na pia como um pião. O ovo logo perdeu o equilíbrio e tombou.
— Ah, fala sério, é cru?
Ao ouvir seu suspiro, percebi que ela deve ter confundido o ovo cru com um cozido. De fato, eu havia feito alguns ovos cozidos na noite anterior, mas acabei comendo todos antes de dormir. Achei estranho ela sequer saber que eu tinha cozinhado ovos, mas quem sabe? Talvez tenha visto os pratos sujos depois que terminei.
Nada mais na geladeira devia ter chamado atenção. Ela fechou a porta empurrando-a com as costas e então fez uma pergunta por trás de mim, enquanto eu preparava algumas xícaras de café.
— Ah, é verdade, seu resfriado já passou, não foi?
— Meu resfriado?
— Não estava bem ruim?
Pensei um pouco antes de responder.
— Quando foi isso?
Era verdade; eu realmente tinha pegado um resfriado naquele mês.
Certo dia, Chitanda entrou em contato comigo pedindo ajuda, pois o festival de primavera estava com poucos funcionários. Muita coisa aconteceu, mas, resumindo, fui ajudá-los e acabei tendo um dia bem estranho. Era difícil até para mim acreditar que tudo aquilo havia acontecido em um único dia. Ainda conseguia lembrar vividamente daquela bela cena, cercado por todas as partes pelas cerejeiras que floresciam antes da hora.
Naquele dia, fez um frio particularmente intenso, principalmente depois do pôr do sol. Mesmo dizendo que estava frio, Chitanda insistia que não, pois já era primavera. Não digo que peguei o resfriado por causa disso, mas, no dia seguinte, fiquei o tempo todo de cama. Até minha irmã voltar naquela noite, estive sozinho em casa, então todo o frio, febre e fome se acumularam, tornando-me uma visão miserável.
Provavelmente era disso que minha irmã estava falando, mas isso aconteceu durante as férias de primavera. Eu me recuperei completamente em cerca de dois dias, então, quando fui à cerimônia de abertura, já estava normal.
— Isso foi há um mês.
— Sério? Mal posso acreditar que já passou um mês. Eles crescem tão rápido...
Fingindo ignorância, ela deu um leve tapa na minha cabeça. Começou a bagunçar meu cabelo e então comentou.
— Arrume esse cabelo desgrenhado.
Vou fazer isso depois. Alguém teve a gentileza de preparar café para ela e, ainda assim, nem sequer provou. De repente, disse — Ah, está na hora — e voltou para o quarto.
Peguei o livro que havia deixado no sofá e comecei a ler. Depois de trinta minutos, ela saiu do quarto novamente.
— Ei, você também não vai sair hoje, né?
Eu não tinha planos, mas não gostei da maneira como ela disse "também". Respondi sem tirar os olhos do livro.
— Não estou pensando em fazer nada.
— Fico imaginando qual distância você já percorreu na vida inteira.
— Irmãos precisam se equilibrar.
Após dizer isso, ela respondeu com um tom condescendente.
— Então está dizendo que tem descansado por mim? Que gentil da sua parte.
O fato de eu não sair de casa compensava o uso extravagante que ela fazia de gasolina, combustível de avião e outros custos de viagem. Como defensor da economia de energia, essa era minha forma de pedir desculpas à civilização humana pelas ações da minha irmã idiota.
— Que criança lamentável.
Ela disse algo tão cruel.
— De qualquer forma, continue sem fazer nada até às 14h30.
— Quer que eu tome conta da casa?
— Sim. Se ninguém aparecer, pode fazer o que quiser.
Eu já não pretendia sair de qualquer forma, mas ser avisado disso me fez sentir desconfortavelmente restringido. Enquanto continuava lendo o livro, falei.
— Me traz alguma coisa.
Pelo som, parecia que ela já estava calçando os sapatos. Sua voz veio da entrada da casa.
— Vou comprar algumas velas. Você gosta delas, né?
Desde quando? Mas, pelo fato de ter mencionado velas, percebi que ela não tinha esquecido do que era hoje. Só não parecia que estava planejando comemorar… De fato, quando criança, eu adorava apagar as velas do bolo. Hoje era meu aniversário.
O que ela quis dizer ao me pedir para cuidar da casa até às 14h30? Coloquei o livro de lado e me joguei no sofá, de bruços, para pensar. Era minha irmã. Provavelmente estava planejando algo desnecessário. Disse para eu esperar porque algo estava para acontecer, mas o quê?
Se fosse algo comemorativo, seria uma consideração maravilhosa da parte dela. Justamente por isso, eu sabia que não era esse o caso. Tomoe Oreki não era do tipo que fazia esse tipo de coisa e, mesmo se estivesse enganado, marcar a entrega para às 14h30 da tarde era um planejamento muito relaxado para ela.
Ela havia dito: "Se ninguém aparecer, pode fazer o que quiser". Isso significava que, provavelmente, alguém apareceria. Alguém que viria no meu aniversário... Na verdade, poderia ser um erro assumir que meu aniversário estava envolvido nisso. Poderia ser simplesmente um cobrador ou alguém entregando panfletos do bairro. Talvez fosse errado suspeitar que minha irmã estivesse armando algo. Talvez eu estivesse sendo paranoico demais.
Mesmo tentando me convencer disso, não conseguia afastar a sensação ruim que pairava sobre mim. Por estar consciente demais do horário, era natural que o ponteiro dos segundos parecesse se mover devagar demais.
Perdi a vontade de comer, então continuei esperando sem almoçar. Finalmente terminei o livro que estava lendo, mas não tinha tempo suficiente para começar outro. Liguei a televisão e coloquei em um programa de viagens. Foi assim que passei o tempo, assistindo completos estranhos saboreando comidas deliciosas em uma pousada de primeira classe.
Pensando bem, a maneira como minha irmã disse "Se ninguém aparecer" não indicava necessariamente que viriam exatamente às 14h30. Ela não mencionou um horário fixo de chegada, mas sim um período. Por exemplo, se eu dissesse a Satoshi a mesma coisa — "Se eu não chegar até as 14h30, faça o que quiser" —, estaria sugerindo algo como: "Deveria chegar antes disso, mas há uma chance de atraso. Se eu não aparecer até esse horário, assuma que não virei".
Foi por isso que, ao ouvir a campainha tocar por volta das 13h55, presumi que não era quem minha irmã estava me fazendo esperar. "Será um demônio? Talvez uma cobra?" Por algum motivo, essa sensação começou a crescer dentro de mim. Calcei os chinelos e desci até a entrada, espiando pelo olho mágico da porta.
Não era um demônio, nem uma cobra. Também não era um cobrador ou alguém distribuindo panfletos.
— Ah, droga. Então era isso.
Escapou da minha boca antes que eu percebesse.
Quatro pessoas estavam do lado de fora: Satoshi, Chitanda, Ibara e Ōhinata.
Como se tivesse sentido minha presença, Satoshi retribuiu meu olhar através do olho mágico. Ele me mostrou um sorriso revoltante e então ergueu a mão. Por todos os diversos problemas que minha irmã já me causou, havia uma coisa pela qual eu era grato a ela.
Ela havia me dito para arrumar meu cabelo bagunçado com antecedência. Não havia como evitar. Não era como se eu pudesse mandá-los embora. De qualquer forma, levei-os até a sala de estar e os fiz sentar ao redor da mesa baixa. Chitanda e Ōhinata se sentaram no sofá, enquanto Satoshi e Ibara se acomodaram em almofadas no chão.
Satoshi vestia uma camisa polo e calças cargo. Ibara usava um moletom cinza e shorts. Chitanda estava com um suéter de tricô cor pêssego e uma saia que ia abaixo dos joelhos. Ōhinata vestia uma camiseta gráfica e jeans. Olhando para esse grupo vestido de maneira tão incomum, comecei a resmungar.
— Senhores, que diabo é esse ganso diante de mim?
— Que diabos você tá falando? — Mesmo sentada de maneira tão educada, a fala de Ibara continuava surpreendentemente rude. Ignorando Ōhinata, que respondeu com um "Ah, esse é o Sakutarō", Satoshi começou a rir.
— Você talvez esteja se perguntando que vento impuro poderia ter nos trazido até aqui?
Assenti sem dizer uma palavra.
Não havia dúvidas de que tinham vindo celebrar meu aniversário. Afinal, Ōhinata carregava uma caixa amarrada com um laço e com o logotipo de uma confeitaria que até eu conhecia, então eu não podia exatamente perguntar por que haviam vindo.
O problema, no entanto, era que Satoshi e eu nos conhecíamos há três anos e nunca havíamos celebrado o aniversário um do outro. Mesmo que ele tivesse decidido fazer isso como uma espécie de piada, não havia chance de ele pensar em trazer o resto do Clube de Literatura Clássica. Simplesmente não éramos esse tipo de grupo.
Claro, nos reunimos uma vez, puramente por um capricho coletivo, para escrever a antologia. Mas não éramos tão próximos a ponto de simplesmente nos reunirmos na casa de alguém para passar o tempo. Era isso que eu pensava, e tinha quase certeza de que os outros membros sentiam o mesmo. Como se para encurtar essa distância de repente, algo intrigante acabou acontecendo.
— Achei que incomodaríamos se viéssemos tão de repente, mas...
As palavras de Chitanda estavam cheias de consideração. Eu não estava realmente incomodado, mas sim...
— Fiquei surpreso.
— Imaginei que ficaria.
Satoshi deu de ombros.
— Eu também estou surpreso. Falar sobre isso é uma coisa, mas nunca imaginei que realmente aconteceria.
Havia duas coisas que eu queria perguntar.
— Como vocês souberam do dia de hoje e de quem foi a ideia de virem aqui?
— Bem, é uma longa história...
Chitanda inclinou a cabeça, como se tentasse decidir por onde começar.
— Quando Ōhinata perguntou se já havíamos feito algo como uma festa com todo o clube, eu contei para ela sobre a festa pós-festival cultural, mas então ela perguntou se havíamos feito algo além disso, e eu disse que não conseguia pensar em mais nada, então ela...
Parecia que ia ser uma história longa. Naquele momento, porém, Ibara interrompeu e disse rapidamente.
— Quando mencionei que seu aniversário estava chegando, Ōhinata disse que deveríamos te dar uma festa.
— Você sabia quando era meu aniversário?
— Apenas que era em abril. Esse tipo de coisa você normalmente lembra sobre alguém da sua turma.
— Eu não lembraria.
— Isso porque você é um ser humano insensível.
Pensando bem, Ibara teve muitas oportunidades de saber meu aniversário até agora. Estudamos juntos durante todo o ensino fundamental e médio, e especialmente no fundamental, sempre havia aqueles cartazes de "Quem faz aniversário este mês?". Se ela lembrava que meu aniversário era em abril, seria fácil para ela verificar nas antigas antologias da turma para descobrir o dia exato.
Sem o motivo, no entanto, ela não teria feito isso. Em outras palavras, a culpada era Ōhinata.
— Então foi você quem teve essa ideia, é?
Encarei Ōhinata fixamente. Seus olhos percorriam a sala, mas quando finalmente encontraram os meus, ela sorriu sem um pingo de hesitação.
— Amigos precisam ser celebrados.
Independentemente da veracidade desse lema, havia maneiras de celebrar que envolviam estar sozinho e sem ser perturbado.
— E ninguém pode ficar de mau humor depois de ganhar uma festa de aniversário.
Não havia um traço de dúvida nela. E, tendo dito isso, ela planejava me tornar uma dessas pessoas felizes. Viva. Infelizmente para ela, porém, ninguém havia me dito "Feliz Aniversário" ainda.
— Deixando isso de lado, estou surpreso que todos realmente tenham vindo.
Não importava o quanto Ōhinata tivesse tentado insistir na ideia de uma festa, era quase inacreditável que todos tivessem concordado. Chitanda poderia simplesmente querer deixar a nova recruta feliz, mas eu não conseguia imaginar um cenário em que Ibara aceitasse. Como se tivesse ouvido meus pensamentos, a própria garota falou de maneira direta.
— Vou assistir a um filme à noite, então isso é só para matar tempo até lá. Vou dedicar duas horas para sua celebração.
Você lê mentes?
— Compramos bebidas, então vá buscar alguns copos.
Você deveria ter comprado copos de papel também então… Vi que Satoshi havia trazido um saco de papel cheio de petiscos. Em vez de comê-los direto do saco, provavelmente seria melhor se eu trouxesse uma bandeja para colocá-los. Se me lembrava bem, a bandeja de madeira estava no armário. Além disso, se houvesse um bolo na caixa da Ōhinata, então eu deveria pegar uma faca e alguns pratos para mais tarde. Será que tínhamos pratos suficientes para todos? Claro que também precisaríamos de colheres. Ter garfos talvez também não fosse uma má ideia.
Enquanto me levantava da cadeira e ia até a cozinha para procurar isso e aquilo, uma dúvida de repente passou pela minha cabeça.
Se isso era uma comemoração de aniversário, então eu deveria ser o protagonista. E, no entanto, por que só eu estava de pé, me movimentando?
Quando trouxe os utensílios e pratos de volta para a sala de estar, notei que o cinzeiro, o livro que eu havia terminado de ler e o controle remoto da televisão tinham sido arrumados e colocados sobre o aparador. Apenas o gato da sorte permanecia no mesmo lugar, ainda entronizado em seu canto da mesa, continuando a exibir seu sorriso nada adorável.
Os petiscos que Satoshi comprou acabaram sendo biscoitos bem sofisticados. Chitanda comentou.
— Eles parecem combinar bem com geleia.
Então, além do prato maior para os petiscos, também preparei um prato menor e trouxe uma geleia de tangerina do verão da geladeira.
Ao ver o pote, Ōhinata exclamou com alegria.
— Oh! Essa é a geleia MilleFleur, não é?
Olhando para o rótulo, pude ver as palavras MilleFleur escritas ali. Se eu não tivesse ouvido a pronúncia correta, provavelmente teria dito algo como "Mile Flew". Para não revelar esse pensamento, respondi.
— É, sim.
Empinei o peito, tentando parecer confiante.
— Pensar que você simplesmente pegaria algo como "MilleFleur" assim, tão casualmente… Que senpai refinado você é, nossa.
Essa Ōhinata sorridente era uma garota honesta e gentil, mas também havia uma garota não tão honesta por perto. Ibara, claramente desconfiada, começou a me interrogar.
— Você sabe o que é isso?
— Nem um pouco.
— Então por que agiu como se soubesse?!
— Quis parecer legal. Minha culpa.
Pedi desculpas e perguntei para Ōhinata desde o início.
— O que é?
Depois de descobrir a verdade sobre minha infantil vaidade, Ōhinata me olhou com um olhar incrivelmente frio, mas se recuperou rapidamente e pegou o pote de geleia.
— É de uma loja especializada em geleias. É bem famosa. Comprei uma uma vez e, como esperado, o sabor faz jus ao preço alto.
— Então é cara, é?
Murmurei sem pensar, enquanto olhava para o pote.
— Bem, nem tanto. Cara para um padrão de geleias, pelo menos.
Eu não conseguia imaginar essa Ōhinata, bronzeada e vestindo roupas leves, indo até uma loja especializada só para comprar geleia. Sabia que era errado julgar alguém pela aparência, mas mesmo assim…
— Será que não é um desperdício comer uma geleia tão boa com biscoitos simples?
No entanto, quando Satoshi expressou sua preocupação, Chitanda respondeu com um pequeno sorriso.
— Deve ficar bom, não?
E com isso, ficou decidido que estava tudo bem. Ōhinata mencionou que havia trazido um isqueiro, então só podia presumir que seria para acender as velas de aniversário do bolo. As preparações estavam prontas, mas o bolo provavelmente ficaria para depois.
A bebida que Ibara havia preparado era um suco gaseificado de pêssego branco, que não apenas lembrava champanhe, como também vinha em uma garrafa semelhante.
— Agora, vamos lá, Houtarou. Certamente você tem algo mais sofisticado do que esses copos.
Impulsionado de volta à cozinha pelo comentário de Satoshi, peguei vários copos novos para convidados, que nem sequer tinham sido retirados da caixa original. Eram copos baixos, sem haste, e o design entalhado brilhava como se fosse cristal.
— Como era o nome desses copos mesmo?
Ibara perguntou, inclinando a cabeça em dúvida.
— É um copo — respondi, mas, como de costume, ela não me escutou.
— Não é um copo de uísque, nem uma taça…
— É um copo Kiriko?
Ōhinata sugeriu, mas parecia que não era isso.
— Isso é só um estilo decorativo. Não, não é isso… Qual era o nome desse formato de copo mesmo?
— Na caixa estava escrito copo de uísque.
O rosto de Ibara demonstrou uma leve frustração.
Eu pessoalmente achava que copos com haste longa combinariam mais, mas não tinha o que fazer, pois não havia nenhum assim na casa. Talvez houvesse alguns guardados em algum lugar, mas, se fosse o caso, eu não fazia ideia de onde estariam. Para piorar, só consegui encontrar quatro copos de uísque, o que significava que…
— Espera, o Oreki-san é o único com um copo normal?
… algo assim acabou acontecendo. De qualquer ângulo que se olhasse, essa era uma maneira terrível de tratar o aniversariante do dia.
Enquanto o suco era servido, Ōhinata falou.
— Bem, alguém deveria fazer um brinde.
Satoshi e Ibara trocaram olhares e, então, olharam para Chitanda, quase como se já tivessem planejado isso com antecedência. Talvez ciente de que seria escolhida, Chitanda pegou o copo sem demonstrar intenção de recusar.
Com um sorriso ambíguo que sugeria que ela não fazia ideia de como proceder, Chitanda começou seu discurso.
— Humm, hoje é o aniversário do Oreki-san, então vamos celebrá-lo. Eu gostaria de ter te dado um presente, mas como foi tudo em cima da hora, preciso me desculpar por não ter conseguido trazer um.
— Sua presença já é um presente suficiente.
Quem interveio com essa declaração não fui eu. Foi Satoshi. Ouvir ele inventar os sentimentos das pessoas por elas era algo perturbador.
— Ouvir isso me deixa mais aliviada.
E ouvir que ela se sentia melhor depois de ouvir essa invenção também era perturbador.
— De todos nós, você foi o primeiro a completar 17 anos. Então, humm... parabéns. Saúde.
Levantamos os quatro copos de uísque e um copo comum e os tocamos levemente uns nos outros. Embora a festa de aniversário fosse supostamente para mim, Ōhinata parecia ser quem estava excepcionalmente feliz.
Foi nesse momento que uma das minhas preocupações desapareceu. Não era como se eu fizesse questão de ouvir parabéns ou algo assim, mas eu estava ansioso com a possibilidade de eles apenas comerem, beberem e irem para casa logo depois. Agora que haviam feito um brinde, meu aniversário havia sido devidamente celebrado.
Havia outra coisa que não podia dizer que não me incomodava: o gato da sorte.
Por que ele ainda estava sobre a mesa? Enquanto eu pegava os pratos e talheres, eles tinham arrumado a mesa para mim. Colocaram tudo o que estava nela sobre o aparador próximo e, ainda assim, apenas o gato da sorte permaneceu.
Será que foi coincidência? Não, de tudo que estava na mesa, aquilo era claramente o que mais atrapalhava. Mesmo planejando espalhar a comida pela mesa, tiveram que fazer isso agora evitando especificamente o gato da sorte. Talvez alguém estivesse mexendo nele para tentar entender por que ainda estava ali?
Eu já tinha cometido um erro. Pensar que trouxe tão displicentemente essa incrível geleia de tangerina de verão sem saber o quão realmente impressionante ela era. Felizmente, a conversa ao menos desviou desse assunto. Eu teria que ser mais cuidadoso daqui para frente.
Os biscoitos do Satoshi estavam ligeiramente salgados e, como resultado, a geleia combinava muito bem com eles. Sempre pensei que preferia coisas doces, mas a acidez da geleia de tangerina de verão provou ser bastante refrescante; era — como eu poderia dizer — como comparar a espada com a rapiera.
— Fukube-senpai, você já veio aqui antes, certo? — perguntou Ōhinata, enquanto Satoshi se virava para mim.
— Acho que não.
— Não.
— Eu já estive por perto antes, mas foi só para nos encontrarmos em um parque da região. Acho que estava pegando algo emprestado dele.
Inclinei a cabeça. Assim como ele disse, fiz Satoshi me esperar em um parque próximo há algum tempo, enquanto eu ia de casa até lá. No entanto...
— Tem certeza? Tenho uma vaga lembrança de que você estava, na verdade, devolvendo algo.
Já fazia apenas uns dois anos e, ainda assim, eu não conseguia me lembrar muito bem. Claro, essa memória vaga não era muito confiável, mas não podia ficar quieto enquanto nossas versões divergiam. Concordando com isso, Ōhinata então disse.
— Talvez você tenha ido duas vezes, uma para pegar algo emprestado e outra para devolver.
Claro, que ideia razoável.
— Mas você nunca chegou a ir até a casa dele, certo?
— Não acho que ir até a casa dele faria diferença para conseguirmos fazer o que precisávamos — respondeu Satoshi.
Ōhinata fez um som duvidoso e levou o copo de uísque aos lábios.
— Isso foi bem direto. Se fosse eu, diria algo como "Só estaria atrapalhando", mas acho que é porque vocês são garotos.
Satoshi inclinou a cabeça em resposta.
— Será? Sou do tipo que mantém conhecidos de forma superficial e fico satisfeito com isso, então essas concepções gerais podem não se aplicar a mim.
— Que tipos de concepções?
— Todos.
Eu podia concordar com isso.
— Entendo, acho que pessoas assim existem.
Ōhinata parecia pensativa. Como um cara, eu pessoalmente não achava que Satoshi e eu preferíamos "conhecidos superficiais" de forma exagerada. Provavelmente era algo normal. Se tivesse que nomear algo, embora Ōhinata fosse particularmente moleca, era possível que realmente não houvesse muitos caras que falassem sobre essas coisas com facilidade.
Ōhinata jogou um biscoito na boca e então levantou a cabeça para fazer outra pergunta.
— Posso perguntar algo? Que tipo de quarto você tem?
Meu quarto, é? Comecei a me preparar.
— É bem normal. Tem uma cama, uma escrivaninha e uma estante de livros.
— Não tem nenhuma decoração?
Não acho que tenha mencionado algo assim, mas certamente devia ter pelo menos alguma coisa presa na parede. Enquanto tentava lembrar silenciosamente se havia algo, Ibara de repente começou a dizer coisas desnecessárias enquanto acariciava a cabeça do gato da sorte.
— Melhor parar por aí, Hina-chan. Até esse cara tem direito à privacidade.
Ela então se virou para mim e exibiu um sorriso frio.
— Além disso, é um quarto de garoto, então tenho certeza de que já dá para imaginar o tipo de coisa que tem por lá.
Eu não fazia ideia do que Ibara estava imaginando, mas nada ali justificava o sorriso cheio de desprezo que ela me dirigiu.
... Bem, não havia muita coisa, pelo menos.
— Não consigo imaginar nada — murmurou Ōhinata, ao que Satoshi respondeu com um sorriso.
— Coisas como livros didáticos.
Eu também contribuí.
— Livros de referência também.
— E dicionários, certo?
— Claro.
Ibara tinha uma expressão de espanto.
— Vocês são burros ou o quê?
O número de biscoitos no prato de petiscos à nossa frente foi diminuindo progressivamente. Eu realmente não achei que todos seriam comidos, mas, se fossem, o bolo naturalmente viria em seguida. Ao pegar mais um, de repente me dei conta de que não tinha almoçado. Então tive um pensamento.
— A propósito, vocês almoçaram?
As respostas foram variadas.
Chitanda respondeu.
— Algo leve.
Ōhinata respondeu.
— Eu sim.
Ibara respondeu.
— Tomei café tarde, então ainda não.
Satoshi respondeu.
— Eu não.
Como eu era ao mesmo tempo o anfitrião e o personagem principal do dia, provavelmente era meu dever sugerir algo.
— Nesse caso, podemos pedir uma pizza.
— Eh?! Mas eu me sentiria mal se você pagasse pra gente.
Chitanda tentava ser educada, mas não havia a menor chance de eu pagar tudo.
— Obviamente, dividiríamos a conta.
— O… oh, faz sentido.
Nesse momento, Satoshi também interveio.
— Concordo, no início também pensei que seria uma boa ideia pedir pizza. Afinal, seria perfeito se tivéssemos muitas pessoas para comer. Mas esqueci de algo.
— A pizzaria está fechada?
— Se a pizzaria fechasse no sábado, será que teria algum lucro? Não, é que…
Ele lançou um olhar para Ibara. Comparado ao hesitante Satoshi, Ibara falou com a franqueza de sempre.
— Eu não como queijo. Desculpa.
— Ah, entendi. Eu não sabia.
— Eu ficaria mais surpresa se você soubesse dos meus gostos.
O almoço da escola ocasionalmente tinha queijo, então não seria estranho se eu soubesse, e ainda assim, não sabia. Ela já havia mencionado isso antes, mas acho que fui bem insensível.
— Você também não gosta de queijo?
Enquanto Ōhinata despejava uma quantidade absurda de geleia no biscoito e o colocava na boca com a mesma extravagância, de repente se inclinou curiosa.
— Sim, um pouco. Não é que eu seja alérgica, mas simplesmente não consigo comer.
— É o gosto?
— Provavelmente o cheiro. Se for queijo gelado e fatiado bem fino, não tem cheiro forte, então consigo comer, mas se estiver derretido, não consigo nem chegar perto. Você também não gosta, Hina-chan?
Ao ouvir isso, Ōhinata abriu um enorme sorriso.
— Uma amiga minha disse que as pessoas deveriam simplesmente jogar fora laranjas podres e leite estragado.
Será que Ōhinata tinha o hábito de arrastar os amigos para a conversa quando não sabia como formular algo? Como esperado, Ibara esboçou um sorriso forçado.
— Seria bom ter esse tipo de determinação, mas ainda me incomoda o fato de isso ser uma fraqueza minha. Vou ter que me acostumar até virar adulta.
Se Ibara se tornasse uma eremita nas montanhas dos Pireneus e se forçasse a comer queijo três vezes ao dia, tenho certeza de que superaria isso de alguma forma. Talvez até tivesse uma epifania relacionada a queijo ao descer a montanha. As lendas sobre a Ibara Dairy Manufacturers e como revolucionaram o mundo da produção de queijos começariam ali. Talvez.
Se fosse apenas o gosto, tudo bem, bastaria não comer. Mas como o problema era o cheiro, até pedir pizza seria problemático. Pelo número de panfletos de pizzaria que eram jogados na nossa caixa de correio, era possível que houvesse pizzas sem queijo, mas eu não queria tanto pizza a ponto de implorar por essa opção. Além disso, os biscoitos estavam surpreendentemente satisfatórios.
— De qualquer forma, Oreki-senpai, você realmente não sabe nada sobre a Ibara-senpai, né? Mesmo tendo estudado juntos no primário?
— Basicamente.
— Por que tá se gabando disso? — cortou Ibara. Não era essa minha intenção.
Ōhinata, que vinha pegando os petiscos rapidamente, de repente parou. Ela começou a encarar Ibara com uma expressão duvidosa.
— Isso significa o que eu estou pensando? Você nunca veio nesta casa antes, Ibara-senpai?
— Nem uma vez. Só porque estudamos na mesma escola não significa que nossas casas eram perto.
— Sério? Espera, mas…
Ōhinata olhou para Chitanda, sentada ao lado dela no sofá, depois para Satoshi e Ibara. Inclinou a cabeça, intrigada.
— Todos nós chegamos aqui sem nos perder nem um pouco. Achei que um de nós já tivesse vindo antes.
Parecia que o tempo havia parado por um instante.
Então, havia chegado a isso. A conversa começou sobre o meu quarto e nem sequer passou perto de ser uma discussão sobre o significado do gato da sorte. Pensar que acabaria indo nessa direção depois de eu ter mencionado algo trivial como pedir pizza... era completamente inesperado.
O fato de eu não saber algo tão simples como as preferências alimentares da Ibara significava que não tínhamos um vínculo muito forte. Consequentemente, ela provavelmente nunca tinha ido à minha casa antes, certo? Fazia sentido. Mas isso também significava que eu mesmo tinha cavado minha própria cova.
Ainda era possível mudar de assunto? Não, provavelmente já era tarde demais. A conversa tinha chegado a um ponto sem retorno. Se eu tentasse desesperadamente interromper o fluxo do diálogo, eles só ficariam mais curiosos, se perguntando por que eu queria mudar de assunto tão repentinamente. A pergunta de Ōhinata estava perigosamente próxima de revelar o segredo que o gato da sorte insinuava. Ainda assim, não era um acerto direto... ainda não.
Era doloroso, mas tudo o que eu podia fazer era recuar da conversa e torcer para que, por conta própria, eles mudassem de assunto rapidamente. Se ao menos ela entendesse isso também...
Ibara olhou para Satoshi.
— Isso, bem... você sabe. Fuku-chan nos mostrou o caminho, não foi?
Satoshi fez uma expressão confusa e respondeu.
— Eu só estava lembrando do mapa. Esse bairro é um pouco complicado, mas sou bem habilidoso em memorizar coisas. Agora, sobre onde consegui o mapa...
— Fui eu quem preparou — interveio Chitanda.
— Isso mesmo. Eu consegui com a Chitanda.
Ele tirou o mapa do bolso para mostrar a todos. Não era um daqueles mapas extremamente detalhados, que mostravam informações sobre todos os moradores, mas sim um simples mapa distrital fornecido pela prefeitura. O local da minha casa estava marcado com uma caneta vermelha.
— Ah, é verdade. Isso porque a Chi-chan já esteve aqui antes.
Ao ouvir isso, Chitanda ficou visivelmente tensa.
— Lembra? Aquela coisa do ano passado. Quando a Irisu-senpai veio até nós nas férias de verão pedindo nossas opiniões sobre o vídeo dela, a Chitanda veio aqui buscar o Oreki, não foi?
— Ah, não, isso foi...
Ela tinha uma boa memória. De fato, Chitanda veio me buscar depois de ouvir do Satoshi que eu estava planejando faltar. No entanto, naquela vez...
— Eu cheguei perto graças às direções do Fukube-san, mas nunca cheguei a encontrar a casa.
Naquele dia, recebi uma ligação: "Vim te buscar, mas parece que me perdi, então por favor, venha me encontrar." Eu a encontrei rapidamente, mas ela nem sequer viu a frente da casa.
— Eu sabia o endereço, então, com um mapa, eu poderia encontrar o caminho.
— Então era só isso — disse Ōhinata, sorrindo novamente, parecendo satisfeita com a explicação.
— Dá para descobrir o endereço se você souber o nome da pessoa, não é? Por exemplo... vejamos... algo assim.
Enquanto dizia isso, sua expressão começou a escurecer.
— Algo? O que seria esse algo, exatamente?
Parecia que essa aluna do primeiro ano estava presa em um pensamento estranho. Não havia qualquer semelhança entre as duas, mas ver Ōhinata e Chitanda sentadas no sofá lado a lado me lembrava de um emaranhado de raízes.
— Ah! Cartões de Ano Novo!
Assim que Ōhinata disse isso, seu rosto se iluminou instantaneamente. Satoshi, por sua vez, fez um comentário desnecessário.
— Mesmo assim, Houtarou não faz coisas cansativas como essa.
Isso estava errado. Eu até tentei enviar alguns no passado, mas acabei enfrentando o mesmo problema: eu não sabia o endereço de ninguém.
— Sério?
Esquecendo momentaneamente sua tentativa de ser educada, ela me olhou com uma expressão de desconfiança.
— É óbvio que as pessoas deveriam mandar cartões de Ano Novo para seus amigos, pelo menos.
— Não tem problema. Nos encontramos pessoalmente no final do ano de qualquer jeito. Os cartões de Ano Novo são apenas um substituto para as pessoas que você não poderá ver.
— Isso pode até ser verdade, mas a única razão pela qual conseguimos cumprimentar Oreki-san foi porque eu mesma liguei para ele — disse Chitanda sem perceber.
Satoshi, que estava mordiscando um biscoito, o colocou de volta no prato e sorriu.
— Ah, esse Ano Novo foi bem interessante, não foi? Afinal, até a Mayaka...
Satoshi parou de falar assim que sentiu o olhar fulminante de Ibara. Mesmo que ela não tivesse sido forçada a isso, seu trabalho de meio período como miko no santuário a envergonhava profundamente. Claro, Ōhinata não fazia ideia do que estavam falando.
— O que aconteceu com a Ibara-senpai?
— Esqueça isso. Estávamos falando sobre o endereço do Oreki, certo?
Ela mudou de assunto de repente. Talvez, se eu continuasse falando sobre o que aconteceu no Ano Novo, conseguiria enterrar de vez essa conversa, mas se fizesse isso, Ibara certamente me odiaria. Esse também não parecia um desfecho muito agradável.
Enquanto eu pensava nisso, Ibara de repente fez uma expressão vazia, como se estivesse se perguntando por que não tinha percebido algo tão óbvio antes.
— E quanto à antologia dos formandos? Se bem me lembro, está escrito lá.
— Ah, faz sentido — assentiu Ōhinata, antes de inclinar a cabeça novamente. — Mas Chitanda-senpai não estudou na Escola Kaburaya.
— Não, o que ela disse está certo — finalmente disse Chitanda.
— Oreki-san tinha um amigo no ensino fundamental chamado Sōda-san. Já estive na casa dele várias vezes, então perguntei se poderia ver a antologia dos formandos.
Com isso, Ibara e Satoshi exclamaram ao mesmo tempo.
— Então era isso! Você deveria ter nos contado!
— É mesmo! Você deveria ter dito!
Repreendida pelos dois, Chitanda encolheu-se de forma incomum para ela, parecendo envergonhada.
— Pensei em perguntar para vocês, mas sempre acabava passando por vocês sem lembrar... E então, de repente, tive um motivo para ir à casa do Sōda-san.
— Agora que penso nisso, o Sōda estava na nossa turma, não estava? Mas ele não me parece o tipo de pessoa que se daria bem com Oreki.
De fato, não era bem assim. Apesar de ser alguém que vivia no mundo da lua, ele era muito bom no futebol. Entre nós dois, havia um longo histórico de empréstimos e trocas de livros.
— Os pais dele não são meio famosos?
— Eles fazem parte do conselho municipal. Mas não são arrogantes nem nada.
Estufando as bochechas teatralmente, Satoshi balançou a cabeça de forma exagerada.
— Isso é tão típico da Chitanda-san. Eu já sabia que você era incrível, mas saber até sobre os amigos de infância do Houtarou? Você realmente me impressiona.
— Não, foi apenas uma coincidência...
— Talvez você já tenha ouvido os rumores sobre meu passado obscuro e misterioso também.
Como se quisesse se vingar de Satoshi por ignorá-la, Chitanda colocou graciosamente as palmas das mãos sobre as coxas e sorriu.
— Entendo. Por exemplo, algo como um boato sobre você ter começado a cantar uma música depois de esquecer de desligar o microfone na sala de transmissão? Não, nunca ouvi nada disso.
Depois de alguns segundos, Ibara soltou uma risada.
— Hahaha, é verdade! Algo assim aconteceu.
Isso aconteceu no outono do nosso terceiro ano do ensino fundamental. Era uma história tanto divertida quanto melancólica.
— Chi-chan, estou surpresa que você saiba tanto sobre esse tipo de coisa. Eu nem lembrava disso até você mencionar.
Satoshi, que havia cutucado repetidamente o ninho para ser saudado por uma cobra, sentou-se sem dizer uma palavra, seu rosto ainda congelado no sorriso zombeteiro de antes. Satoshi conseguia tolerar a maioria das piadas feitas sobre ele, mas, como esperado, parecia que esse incidente permanecia sendo seu único ponto fraco.
Pedi desculpas a Satoshi mentalmente. Afinal, quem contou essa história para Chitanda fui eu.
Dito isso, nem mesmo eu teria um coração tão impiedoso a ponto de acabar com ele revelando para Chitanda que o que ele realmente cantou naquele momento foi uma péssima tentativa de hip-hop.
No entanto, enquanto Chitanda humildemente continuava a negar os elogios de Ibara, achei estranho que Ōhnata, por outro lado, estivesse sentada ali com os olhos arregalados de choque, a boca entreaberta.
*
Com a hora do bolo se aproximando rapidamente, comecei a limpar a bandeja de lanches e os pratos menores que continham geleia. Depois de completar minha ida e volta entre a sala de estar e a cozinha, apenas o gato da sorte permaneceu sobre a mesa. Era natural que um pouco de geleia fosse derramado, não importa o quão cuidadosamente todos comessem, então trouxe um pano de cozinha. Enquanto limpava, murmurei casualmente.
— Isso está no caminho, não está?
E então movi o gato da sorte para o aparador.
Senti vontade de suspirar de alívio. Desde que pudesse remover aquilo da mesa, poderia descansar tranquilo. O perigo finalmente havia passado.
Trouxe um prato para o bolo, assim como uma faca e garfos. O suco de uva provavelmente não combinaria bem com o bolo. Me disseram que algo como café ou café com leite funcionaria melhor, então fui para a cozinha novamente e esperei a água ferver.
Ninguém consegue ver as expressões que naturalmente faz, então, como resultado, eu não tinha como saber se meu rosto era bom para disfarces. Não achava que o meu fosse fácil de ler. Quando Satoshi, Ibara e, especialmente, Ōhnata estavam falando sobre meu endereço, me perguntei se haviam notado que eu me sentia caminhando sobre gelo fino.
Eu já havia preparado as xícaras de café. Café instantâneo não era exatamente a forma mais apropriada de tratar um ilustre convidado de honra, mas como a culpa era deles por terem vindo de surpresa, eu não me importava. Continuei observando a chaleira silenciosa, esperando que apitasse. Pela minha experiência, o olhar humano inibía inegavelmente o aquecimento da água. Enquanto eu continuasse a olhar para a chaleira, a água dentro dela nunca ferveria. Se eu desviasse os olhos por um segundo sequer, aquele seria o instante, sem falta, em que a chaleira começaria a apitar. Claro, do ponto de vista da conservação de energia, seria melhor simplesmente olhar para outro lado, mas não havia mais nada para olhar.
— Oreki-san, o pano de limpeza.
Ao me virar, vi Chitanda segurando o pano de cozinha.
— Ah, pode colocá-lo ali na beirada da pia para mim?
Voltei a observar a chaleira. Presumi que Chitanda ainda estivesse ali, então comecei a falar.
— Você acabou escondendo, então?
Depois de um curto silêncio, ouvi uma resposta que parecia se perder no barulho do exaustor.
— Sim... Suponho que a chance tenha passado.
Anteriormente, Chitanda disse que descobriu meu endereço consultando a antologia de formandos da minha escola fundamental. Que um amigo meu, Sōda, havia contado a ela. Era verdade que eu tinha um colega de classe chamado Sōda. Eu não fazia ideia de que escola ele tinha frequentado depois, mas certamente não era o Colégio Kamiyama. Provavelmente era verdade que Chitanda conseguiu que Sōda lhe mostrasse a antologia. Afinal, o que ela disse parecia bem preciso, e Chitanda não era muito boa em improvisação.
No entanto, isso não era toda a verdade. Satoshi nunca tinha ido à minha casa antes. Obviamente, Ibara também não. O fato de Chitanda ter conseguido se aproximar da minha casa no último verão, mas não ter chegado até lá, também não era uma mentira.
Porém, ninguém disse que ela veio apenas uma vez. Chitanda já havia estado nesta casa antes. Chitanda entregou um mapa a Satoshi, mas mesmo que não tivesse feito isso, ela teria conseguido encontrar o caminho por essas ruas sozinha. Ouvi uma voz levemente insatisfeita.
— Mas você também acabou não dizendo nada.
— Suponho que a chance tenha passado.
Isso aconteceu neste mês.
O festival em que Chitanda participou estava com poucos integrantes, e como a roupa me servia, fui convocado para ajudar. O festival transcorreu sem problemas, mas aquele dia estava frio. Acabei pegando um resfriado.
Obviamente, Chitanda, sendo a pessoa que pediu minha ajuda, não conseguiu ficar parada ao ouvir que eu estava de cama. Quando ligou para minha casa de manhã e soube da minha situação pela minha irmã, veio imediatamente me visitar. Seu presente de melhoras foi geleia de tangerina de verão. Ela me disse que misturar um pouco no chá preto era bom para resfriados. Como eu não bebia muito chá preto, acabei pegando uma pequena tigela e lambendo a geleia pura.
Era desconfortável ter Chitanda no meu quarto, então, suportando o frio, a encontrei na sala de estar. Quando se está doente, realmente não é fácil receber visitas. Chitanda entendeu isso e foi embora poucos minutos depois de me entregar a geleia.
— Isso é difícil... Sinto muito por Mayaka-san e os outros, mas eles não saberão se não dissermos nada.
Eu não respondi, pois continuei observando a chaleira. Não era nada disso que estava acontecendo, então fiquei nervoso.
Ela disse que eles não saberiam, desde que não contássemos, mas, na verdade, Chitanda simplesmente usaria suas ações, e não suas palavras, para declarar que já havia vindo a esta sala antes.
A festa estava começando a se aproximar de seu clímax. Logo seria a vez do bolo fazer sua grande entrada. Naquele momento, algumas velas seriam colocadas nele e acesas. Ōhinata havia trazido o isqueiro.
Chitanda provavelmente já tinha pensado nas disposições até aquele ponto. Seria mais atmosférico se todas as luzes fossem apagadas enquanto as velas fossem acesas. Esse era o plano dela, certo?
Por isso, o gato da sorte continuava na mesa.
Embora o cinzeiro, o livro de bolso e o controle remoto da televisão tivessem sido movidos para o aparador, só o gato da sorte permanecia. Isso era algo que apenas alguém que soubesse da capacidade dele de apagar a luz do teto faria. Em outras palavras, isso apontaria a única pessoa entre os quatro que havia vindo a essa casa antes.
Na realidade, quando Chitanda veio a essa sala pela primeira vez, estava escuro lá dentro, então eu apertei o braço do gato da sorte para acender a luz. Chitanda não teria esquecido disso.
O que aconteceria, de fato, se Chitanda usasse o braço do gato da sorte para apagar as luzes? Ibara, ou talvez Ōhinata, provavelmente diria algo assim.
— Ah, então o gato da sorte funciona como um controle remoto, é? Não é à toa que ficou na mesa. Mas espera aí, como você sabia que isso era um controle remoto? Ora, ora, Eru Chitanda, você não só veio a essa casa, a essa sala, mas também viu o gato da sorte sendo usado como interruptor de luz, não viu?!
Se Chitanda tivesse ficado em silêncio sobre isso quando veio com os outros à minha casa, certamente ela teria movido o gato da sorte para o aparador também.
No entanto, naquele momento, eu não podia dizer nada disso. As velas logo seriam acesas, o que significava que o gato da sorte também seria. Se eu apontasse o erro dela e ela começasse a agir de maneira suspeita por causa disso, as coisas poderiam ficar complicadas. …Enquanto pensava nisso, percebi que o motivo de eu ficar quieto sobre a visita de recuperação não era porque "Perdi a chance." Não era como se o que fizemos fosse realmente tão suspeito, afinal… Era tudo tão absurdo.
Enquanto pensava nisso, não pude evitar soltar um pequeno sorriso. Como se tivesse notado, Chitanda me perguntou:
— O que foi?
— Bem…
Enquanto pensava em dizer a ela que não era nada, mencionei algo que de repente me veio à cabeça.
— É possível que Ōhinata não tenha acreditado na sua história de antes.
— O quê…
Eu me virei e tentei mostrar a ela o sorriso mais maldoso que eu podia fazer, mas não conseguia ver meu rosto, então não sabia o quanto ele tinha ficado bom.
— Não soa como se, ao dizer "eu perguntei ao Sōda", você estivesse tentando inventar uma mentira?
Chitanda tentou forçar um sorriso, apesar da expressão preocupada no rosto dela. O apito da chaleira começou a gritar seu grito agudo.
PRESENTE: 6,9 KM; 13,1 KM RESTANTES
A estrada continuava de forma reta e sem praticamente nenhuma inclinação à vista. Eu vi uma pequena montanha à distância, mas como conhecia o trajeto, sabia que teria que escalá-la eventualmente. Como se podia ver toda a distância enquanto percorria a longa estrada plana, acabava ficando bastante cansativo.
Não pensei em nada enquanto descia a ladeira. Tinha a intenção de voltar aos meus pensamentos depois de completar o trecho da subida e começar a andar novamente, no entanto, um problema inesperado ocorreu. Eu conseguia ver o caminho reto à minha frente de forma muito clara. Mesmo com os alunos da escola Kamiyama correndo à minha frente e atrás de mim, era evidente que eu era o único andando de forma despreocupada. Acabou ficando um pouco constrangedor, então comecei a fingir uma corrida, mas a uma velocidade que ainda me permitia pensar com calma.
No entanto, também percebi algo mais devido à estrada ser tão aberta e fácil de ver. À frente, estava visível uma bicicleta de montanha familiar. Fiquei me perguntando se houve algum problema, afinal. O vice-presidente do Comitê Geral, Satoshi Fukube, estava parado ali, um pouco à frente de mim.
Apertei os braços. Chamei sua atenção à distância e então aumentei o passo.
Satoshi parecia que já tinha resolvido seus assuntos, pois estava parado à beira da estrada, aparentemente conversando animadamente com outro membro do Comitê Geral. Ainda havia dezenas de metros entre nós dois quando notei que ele começou a subir na bicicleta novamente. Justo quando pensei que não conseguiria alcançá-lo, ele se virou para olhar para mim. Parecia que ele não tinha pressa, já que ficou ali esperando por mim.
— Ei, Houtarou. Você me avisou antes, então acho que não deveria me surpreender, mas, cara, você é bem lento.
Parei de andar ao seu lado e então respirei fundo duas ou três vezes. Enquanto começávamos a andar lado a lado, Satoshi se separou do outro membro do Comitê Geral e comecei a falar.
— Achei que você já estaria mais à frente por agora.
Satoshi deu de ombros enquanto empurrava sua bicicleta de montanha.
— Se eu estivesse pedalando sério, já estaria na linha de chegada agora.
— Você é tão rápido assim?
— Não, foi mal. Eu estava só me exibindo. Eu provavelmente estaria em algum lugar em Jinde.
Eu senti que até isso estava sendo exagero da parte dele, mas deixei passar sem comentar nada. Satoshi deu uma rápida olhada para trás e então soltou um pequeno suspiro.
— Não é como se eu achasse que o dia ia terminar sem nada acontecer, mas ainda assim…
— Houve um acidente?
— No sentido mais amplo da palavra. Alguém se machucou na perna e não conseguia se mover por causa disso. Chamei um professor e eles pegaram o aluno.
Ele então se aproximou um pouco e continuou em um sussurro.
— Não dava para saber só de olhar, mas não tenho muita certeza de que ele realmente machucou a perna.
Isso era algo até esperado.
— Sério? Você esperava que toda a base de alunos percorresse o trajeto inteiro de forma honesta e sem enganar?
Disse isso em tom de zombaria e, de forma pouco usual, Satoshi levantou as sobrancelhas.
— Não tem como eu pensar algo assim.
— Não precisava responder de forma tão enfática.
— Se houvesse um aluno capaz de escapar dos olhos atentos do Comitê Geral e encontrar um atalho, eu realmente daria os meus aplausos, mas esses caras… mesmo não fazendo nada de habilidoso, acabam sorrindo como se fossem tudo isso. Se fizerem algo assim, os professores têm que vir de carro e pegá-los. Alguns podem realmente estar machucados, mas para aqueles que estão só fazendo encenação, eu não poderia aplaudir algo tão sem classe. Eu gostaria que escolhessem um método mais sofisticado.
Havia mil estudantes da escola Kamiyama. O problema provavelmente não se resolveria com aquele único incidente. Só restava esperar com ansiedade pelo próximo.
Satoshi olhou para o relógio.
— Falando sério, estou bem atrasado no meu cronograma. Quero seguir logo, então tem algo que você queria me perguntar, Houtarou?
Eu tinha me ocupado preparando algumas perguntas, presumindo que encontraria Chitanda primeiro, mas encontrar Satoshi antes acabou sendo uma grande sorte. O conhecimento de Satoshi cobria uma ampla gama de gêneros, muito além do meu, e mesmo que não fosse o caso, eu ainda estava agradecido por ter uma perspectiva diferente da minha sobre essas questões.
Havia duas coisas que eu queria dizer, ou melhor, perguntar.
— Vamos ver. Quero que ouça uma história puramente hipotética.
— Até tem um preâmbulo, hm? Tudo bem para mim. Pode falar.
Reuni meus pensamentos enquanto continuava a andar. Isso soa bem, algo desse tipo.
— Vamos supor que eu dissesse algo como: "Isso é só algo que um amigo me contou, mas, não importa como você pense, é bem injusto que o Comitê Geral não precise correr", o que você acharia?
Satoshi me observou por um bom tempo e, finalmente, respondeu com um tom incomum de seriedade.
— Então, é isso que você realmente pensa, né? Eu acharia que algo assim me deixaria bem irritado.
— Apenas faça seu trabalho direito. Não consegui pensar em nenhuma outra coisa.
— Naturalmente, foi exatamente isso que eu fiz, te dizendo o que penso. Hipoteticamente, é claro.
Como fiquei em silêncio, Satoshi assumiu que eu não tinha mais perguntas e subiu na sua bicicleta de montanha. Ele ajustou o ritmo da pedalada ao meu passo e então começou a falar novamente.
— Estou dizendo isso só para você saber, Houtarou, mas eu realmente gosto de garotas como a Ōhinata. Claro, não desse jeito se a Mayaka acabar ouvindo eu dizer isso.
— Eu sei.
Como se eu tivesse dito essas palavras de forma totalmente satisfatória para ele, Satoshi começou a ganhar velocidade. Chamei-o de trás.
— Satoshi.
— O quê?
Satoshi apertou os freios e se virou.
— Tem mais alguma coisa?
— Não...
Eu hesitei em dizer qualquer coisa. Havia algo que eu queria confirmar com Satoshi, mas não conseguia reunir coragem para perguntar. Dito isso, não era como se eu pudesse continuar interrompendo Satoshi enquanto ele estava ocupado assim. Soltei um suspiro nervoso e então perguntei.
— Essa é uma pergunta sobre a língua japonesa. Se alguém se assemelhasse a um bodhisattva por fora, como seria por dentro?
Quando ouviu isso, ele murmurou algo baixo. Eu não consegui ouvir direito, mas provavelmente era algo como: "A Mayaka não me contou nada disso, no entanto." Ele não estava necessariamente criticando a Ibara. Provavelmente, ela simplesmente não viu motivo para lhe contar palavra por palavra o que a Ōhinata havia dito.
Como eu imaginava, Satoshi conhecia a palavra. Ele a conhecia muito mais precisamente do que alguém como eu, que só tinha uma lembrança vaga dela.
— Há um ditado que sugere que, se alguém se parece com um bodhisattva por fora, então quem a pessoa é por dentro já está determinado. Ela teria um coração como o de um yakṣa.
(N/SLAG: Yakṣa: Espíritos encontrados no hinduísmo e no budismo. Embora haja uma grande variedade de tipos diferentes, o uso aqui se refere a algo como um demônio maligno.)
E então, para aliviar o clima com uma piada, ele acrescentou.
— Pelo que eu sei, no entanto, a Chitanda não tem nada contra romãs.
(N/SLAG: Uma referência ao mito de Hariti, uma história em que uma mulher sequestra os filhos de outras mulheres para alimentar seus centenas de filhos. Após ser abordada e enganada pelo Buda, ela jura comer apenas romãs ao invés de carne de crianças.)
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