Volume 1 – Arco 1
Capítulo 6: Canção do oráculo
— Sua família inteira foi morta pelos marcados!
Ele, que buscou acolhimento na igreja da santa Luchiena, foi expulso por motivos que, para ele, uma pequena criança de oito anos, não fazia sentido.
Pelos marcados ele perdeu tudo, pelos marcados ele foi salvo~
Um dia, quando brincava na floresta, encontrou um livro de canto.
Se ele viu o mau nos marcados, na mesma proporção viu nos humanos, o que o fez pensar se, em sua essência, um dia não foram os mesmos.
O destino foi o mesmo. Mas dessa vez a igreja o acolheu por seu talento, descoberto pelo livro.
Viveu lá, passou anos estudando, se tornou um padre.
Praticou o bem, fez votos de pobreza, castidade, se absteve de tomar qualquer bebida fermentada.
Jejuava constantemente, ajudava aos pobres, não comia carne, nem cortava os cabelos.
Sua fama se espalhou para muito além de sua vila.
Pelos marcados ele perdeu tudo, agora só isso ele lembrava~
Um dia, porém, ele recebeu a ordem clara e direta, em plena luz do dia para correr até a floresta.
De quem vinha essa voz?
Um marcado ousou tocar nas roupas do novo santo, ousou pedir ajuda aos seus piores inimigos.
Os moradores da vila olharam para o marcado com desdém, mas ele o ouviu e correu até a vila.
Lá ele encontrou soldados de um reino maior saqueando, pilhando e cometendo todos os tipos de atrocidades contra os marcados.
Pelos marcados ele perdeu tudo, pelos marcados ele foi salvo~
Ele não podia deixar se repetir pela terceira vez.
Com o que aprendeu do livro, ele conjurou o menor dos cantos como aviso, mas contra a sua vontade, o pequeno canto se fortaleceu em mil vezes, em um sopro, o corpo do soldado se dividiu em mil pedaços.
Foi acusado, julgado e injustamente exilado para fora de sua terra natal.
Pelos marcados ele foi salvo, agora ele vive para retribuir esse favor~
Assim surgiu o advogado dos marcados, o santo peregrino mais forte do mundo, que bravamente guia os heróis! — E todos do parque aplaudiram a canção do Poeta. — Obrigado! Obrigado! Amo todos vocês! E aí, conseguiu lembrar de alguém parecido com ele? Realmente nunca ouviu dele, herói?
Enquanto o Poeta recebia os pagamentos, por meio dos cartões, como um músico de rua, eu resgatei todas as memórias que tive nesse mundo.
— Santo, marcados... Sua canção realmente supera muito suas poesias... Mas não, tenho quase certeza de que eu me lembraria se conhecesse alguém assim.
As tradições, os votos, isso parece muito com o meu tio que desapareceu faz um tempo, será que... Não, impossível ser ele. Mas tudo isso se alinha com a religião que ele seguia. Será que um deles veio para esse mundo e instituiu a ética desse mundo?
— Canta mais uma aí Poeta!
Mas o sino tocou, terminando o horário de jantar.
— Infelizmente, por hoje é só, mas amanhã à noite tem mais, no mesmo horário de sempre! Conto com todos vocês!
A pequena plateia de prisioneiros que estavam sentados em um semicírculo em volta do Poeta, se levantaram. Alguns foram o cumprimentar e outros voltaram direto para seus dormitórios com expressões satisfeitas. Esperei aqueles que ficaram saírem, então fui falar com ele.
— Poeta... O que são aqueles marcados que você repetiu tanto nessa música? — perguntei.
— É o jeito que chamavam os demônios, porque antigamente eles realmente tinham uma marca que parecia uma cicatriz na testa ou no pulso. Dizem que ainda existem aos montes por aí, mas eu nunca vi um pessoalmente.
— E esses são quem o herói, no caso eu... Tenho que derrotar? Não é mesmo?
— Nem sempre. — E o Corvo entrou na conversa. — Tem reinos que usam os heróis só para fins políticos como guardiões em guerras, ou como o Ducado usa, como guardas e instrutores. Mas também mesmo aqueles com o papel mais tradicional eventualmente vão precisar matar os colossos do mar vivo para terminarem o trabalho.
— Pelo nome, espero que não me encarreguem disso.
— Relaxa, a não ser que surja um herói igual Modros, é impossível avançarmos tanto em só uma geração.
— Vamos embora, estamos quase atrasados — disse o Brutamonte. — Até amanhã herói.
— Até... Vê se não me abandonam de novo! Da próxima vez eu vou levar para o pessoal!
— Sim, sim, vamos lembrar disso — respondeu o Poeta.
Quando estava voltando, vi que o Vibogo estava seguindo o mesmo caminho que eu.
— Em qual dormitório você está? — perguntei.
— No oito. Por acaso é o mesmo que o seu?
— Isso mesmo, mas e o andar?
— Terceiro andar, cela um.
— Então somos vizinhos.
— Legal.
— Falando nisso, quando vocês disseram que nós provavelmente não estaríamos no mesmo dormitório, era só para me distrair ou tem algum critério em específico para dividir os prisioneiros?
— Um pouco dos dois. Quanto menor o número, maior a força física ou limite de mana. A gente chutou que como você é um herói você iria estar nos três primeiros. Mas pelo jeito seu forte não é combate.
— Se você visse o que eu fiz naquela ilha quando cheguei não estaria falando essas baboseiras.
— Ilha?
— Hm... Estou escondendo isso até agora, mas acho que se eu cortar algumas partes não tem tanto problema contar para você mais tarde. Só que o que eu ganho em troca?
— Já sei. — Ele tirou um dado do seu bolso e mostrou para mim. — Vamos fazer uma aposta. Você escolhe três números, para garantir que não é um dado viciado, e eu fico com os outros três. Quem perder conta uma história importante para quem ganhar!
— Posso testar esse dado primeiro?
— Pode.
Eu o joguei vinte vezes e nenhum número pareceu cair mais.
— Eu jogo duas vezes e você uma, aí eu concordo.
— Fechado.
Então eu escolhi o dois, quatro e cinco e ele ficou com o um, três e seis.
— Eu começo. — Joguei o dado no chão e ele caiu no quatro. — Boa!
O Vibogo pegou do chão com o dedo polegar e indicador da mão direita e girou o dado como um peão. Depois de rodar por cinco segundos, ele caiu no um.
— Sabia que você tinha algum truque, mas como sou eu que jogo você perdeu. — Eu segurei o dado com o dois virado para cima, chacoalhei e soltei no chão, mas ele caiu no seis.
— Vai cumprir sua palavra?
— Eu não tenho nem como reclamar depois dessa. Mas me conta, como fez isso?
— Só sou sortudo, nada mais.
— Para de mentir... Você deve ter usado alguma magia de vento ou colocado um inseto treinado ali dentro.
— Escutou eu falar alguma coisa enquanto jogamos o dado ou viu eu usar algum círculo pronto? E sobre colocar um inseto treinado, de onde que você tirou isso?
— Tudo bem, eu vou contar o que aconteceu. Mas vai ter revanche!
Lucca Massaro Monti, ilha dos faróis gêmeos
Ao abrir a porta, um clarão branco o cegou por alguns segundos. A luz se amenizou, mas uma forte dor de cabeça e um incômodo no seu olho direito, ocuparam o seu lugar.
Estranhamente, por trás daquela porta não havia nada tão brilhante, pelo contrário, era um ambiente projetado para ser mais escuro que o normal. As únicas fontes de luz relevantes eram uma pequena faixa de vidro que usava o Sol para iluminar o chão e um holofote distante.
A dor de cabeça se esvaiu, mas ao começar a analisar seus arredores, ele percebeu que não havia entrado pela entrada, mas sim por um dos banheiros do bar. Quando tentou relembrar o motivo disso, a dor de cabeça retornou, então ele parou de pensar muito a fundo nisso.
No primeiro andar, estavam as mesas, garçons e bartenders, barris de bebida e uma banda em cima de um palco de madeira velha e no segundo, muito menor que o primeiro, várias adegas de bebidas engarrafadas em embalagens caras e alguns mordomos chiques servindo os clientes do espaço VIP.
Uma coisa era comum em ambos os andares: jarros de sapos, canecas em formatos de sapos, petiscos de insetos, instrumentos em formatos de sapos, sapos e mais sapos em todo lugar.
“Esse é o tema do bar?”
Enquanto pensava sobre isso, um extremo senso de desconforto começou a crescer. Algo estava errado, mas ele não sabia dizer o que.
Desconfiado, apalpou seus bolsos buscando seu celular, mas não encontrou. A sensação persistiu, ainda faltava mais algo.
“Será que esqueci o fogo ligado? Ou a porta destrancada? Espera. Onde eu moro tem um fogão? Que pergunta idiota, claro que tem, toda casa tem. Eu moro em uma casa? Como é minha casa? Por que diabos estou pensando em terceira pessoa?”
Então, ele olhou para suas mãos. Na esquerda segurava uma sacola plástica e na direita uma maleta vazia. Finalmente se deu conta.
“Quem sou eu?... Droga, bati a cabeça ou algo assim?”
— Se acalma, respira fundo...
Isso geralmente o ajudava a retomar a racionalidade — nesse caso esperançosamente a memória — mas a cada ciclo de respiração era como se estivesse acumulando areia na sua garganta e pulmão.
Ele cobriu seu nariz com a roupa, mas isso não o ajudou. Em pouco tempo ele começou a tossir, mas a tosse não aliviava nada.
Era como se estivesse afogando em pleno ar, não fazia sentido algum.
“É um daqueles casos de asfixia por dióxido de carbono? Mas todos os outros estão bem e a janela está aberta... Talvez o ar desse planeta e diferente? Eu fui abduzido então? Droga... Eu vou morrer, eu vou morrer...”, a falta de ar tomou conta de todos seus pensamentos e cessou com suas teorias.
Ele tentou gritar por ajuda, mas sua voz não saiu e os outros bêbados, ocupados festejando junto da banda de música, só atrapalhavam. Apenas quando caiu no chão, é que três homens finalmente perceberam e foram o ajudar.
— Acho que esse cara se engasgou, bate nas costas dele.
— Eu não, e se ele piorar por minha culpa?
Enquanto os três discutiam, mais pessoas foram atraídas na direção dele.
— Eu sou médico, abram caminho! — Finalmente um homem tomou atitude e colocou seu ouvido no peito dele, analisou seu pulso e colocou um pedaço de papel em sua barriga. — Afogamento por mana... Mas nessa idade? Droga, aqui não tem os equipamentos. Alguém aqui tem um filho pequeno!?
— Eu tenho! — Um homem de meia-idade levantou a mão e se esgueirou para fora do tumulto.
— Quanto tempo demora até chegar na sua casa?
— Uns cinco minutos a pé.
— Me ajude a carregar ele. Abram caminho! Esse homem precisa de primeiros socorros emergenciais! Abram caminho!
E essa foi a última frase que ouvi antes de desmaiar.
...
Quando abri meus olhos, percebi que estava deitado em uma cama mais confortável que o comum. Diferente da minha, cheia de materiais sintéticos, o travesseiro parecia ser preenchido por penas reais e a cama tinha uma sensação completamente... Natural?
Olhei para o lado e vi o resto dessa casa: espaçosa, mas simples, cheia de móveis de madeira e paredes de pedra, muito melhor iluminada que o bar. Com exceção dos banheiros, não havia divisórias ou paredes, então, ainda deitado, consegui ver algumas pessoas conversando na sala.
Um estava preocupado, falando sem parar e o outro totalmente exausto, respondendo dentro do possível.
Sobre o meu nariz e boca havia uma espécie de inalador, que segurei cuidadosamente enquanto me levantei para sentar na beira da cama. Já que julgando pela situação anterior, isso provavelmente estava prevenindo de eu me “afogar” novamente.
— Ufa, ele está vivo. Médico! Ele acordou. — Abaixei meu olhar, em direção à voz: uma garota que só conseguia alcançar o topo da cama na ponta dos pés.
O médico veio, mandou eu voltar a me deitar, fez alguns testes e começou a falar:
— Pode tirar isso agora, a cirurgia de emergência deu certo e você está quase curado. Só ficar em repouso por um tempo e você vai melhorar por completo.
Eu desamarrei o fio que prendia a máscara e coloquei ao lado da máquina que estava conectada a ela, em um banquinho improvisado para servir como mesa.
— Lembra seu nome? — perguntou o médico.
— É Lucca.
— Onde você mora?
Eu olhei pela janela e vi que estava em um lugar estranho: com um céu azul, coberto de vegetação e com estradas de terra, algo que só podia ser visto há dezenas de quilômetros de onde estava anteriormente.
— Não lembro. — Cheguei à conclusão que seria mais fácil dizer assim.
— Pelas roupas, será que ele é um daqueles comerciantes? — perguntou o morador da casa, que me carregou do bar até aqui.
— Pode ser... Depois que você melhorar te levo para um dos postos dos guardas. — Vendo que minha condição estava estável, o médico arrumou suas coisas às pressas e caminhou apressadamente para a entrada.
— Está com fome?
— Um pouco — respondi.
— Não quer ficar mais um pouco também, doutor?
— Obrigado pelo convite, mas já está na hora de eu voltar para o serviço. Em umas quatro horas eu volto para checar se está tudo bem com ele.
— Então só um prato extra...
Ele limpou e colocou os pratos e talheres na mesa e uma mulher adulta trouxe o que parecia uma torta, rusticamente arredondada. Após chamar os outros, duas crianças vieram correndo e o homem serviu a torta para todos.
— Consegue se levantar sozinho? — perguntou ele.
— Acho que sim — respondi.
Me levantei e comecei lentamente a andar em direção à mesa. Meu corpo estava bem, minhas memórias pareciam ter retornado, a casa não estava cheia de coisas de sapo... No momento que pensei nisso, me deparei com uma pintura emoldurada em um quadro dourado, de um sapo com a pele listrada em preto e laranja com um corpo humanoide bombado, dividindo um homem em dois com as próprias mãos, em um cenário sangrento de guerra contra humanos de faces distorcidas, relembrando expressões de demônios.
— O que foi?
— Que quadro assustador é esse?...
— Esse? Ah, é um dos retratos dos tempos de ouro do meu bisavô... Humhum... — Ele encheu seu peito e sorriu assustadoramente. — Quando ele lutou na grande guerra contra aquela maldita, ele ganhou uma medalha de honra do próprio general... Sei que deve parecer terrível para alguém como você, mas não precisa se preocupar, essa rivalidade boba já são só águas passadas, os que poderiam te olhar torto nas ruas já estão enterrados faz anos.
Realmente, todos pareciam bastante amigáveis com um desconhecido como eu.
— Acho que está cedo para uma bebida alcoólica, quer um pouco de água?
— Por favor.
Então eu tomei um gole da água, aparentemente normal, cortei um pequeno pedaço da fatia da torta no meu prato e inspecionei com o garfo. O cheiro e textura da massa lembrava a de uma batata e mordendo um pedaço com o recheio, uma carne desfiada que parecia bovina, fiquei tentado a comer mais. Tinha um bom gosto.
— Que horas eu vou para o posto dos guardas? — perguntei.
— Se estiver se sentindo bem, logo quando o médico voltar.
Estava em dúvida sobre qual seria um bom assunto para falar com um desconhecido de outro mundo, então passei o resto da refeição em silêncio.
— O preço dos vegetais aumentou de novo...
— Eles não vão admitir, mas é provavelmente pela expedição que falhou.
— Ouvi outra coisa na fábrica, parece que os Fortuna exigiram mais uma condição nas negociações de trocas, mas o rei se recusou, já que envolvia alguma coisa sobre os pedágios. Aí eles seguraram parte dos suprimentos essenciais para nos pressionar a aceitar o contrato.
— Por mais quanto tempo que ele vai conseguir se manter de igual contra o Ducado? Sei que o pedágio é um dos negócios mais lucrativos, mas de que adianta se eles declararem guerra?
“Eu cheguei nesse lugar em um mau momento?”, pensei, olhando de relance para o quadro.
— Você sabe muito bem que é impossível eles ganharem uma guerra enquanto tivermos a barreira, vai ficar tudo bem.
— Nossos antepassados acreditavam na mesma coisa até aquela...
— Vamos evitar esse assunto na hora do almoço.
[Sistema estabilizado]
— Ouviram isso? — perguntei.
— Hm... Não sei do que está falando.
[Autorização do usuário não é necessária no período de testes, pulando etapa 1...
Certas funções foram limitadas pela condição do tutorial, a primeira missão será ativada]
— Essa voz robótica, não estão ouvindo também?
— Sabia que o afogamento por mana deixaria algum efeito colateral... Coitadinho.
[Tutorial: Sobreviva por 999 dias ou extermine todos.]
Dessa vez, uma tela azul seguida das mesmas palavras ditadas na minha cabeça surgiu na minha frente. E logo em seguida, uma luz invadiu pela janela, cegando a todos por um momento.
— O que diabos foi isso?
“Exterminar ou sobreviver? Eles realmente estão fingindo tudo isso para me esquartejarem depois? Não... Eles fariam isso antes enquanto eu estava desmaiado, será que vão surgir sapos iguais aquele?”
[Alerta, as condições estão extremamente desfavoráveis, iniciando balanceamento...]
— E-essa auréola... Esconda as crianças!
[Medidas de balanceamento foram efetuadas:
Habilidade inata melhorada;
Todos os atributos de combate aumentados em 50% (Temporariamente);
Todos os outros atributos aumentados em 100% (Temporariamente);
Item: bolsa dimensional (temporária) oferecida como compensação pela impossibilidade de ???;
Item: espada ancestral, adicionada a bolsa dimensional;
Item: escudo, adicionado a bolsa dimensional;
Item: mantimentos gerais (3 dias), adicionados a bolsa dimensional;
Item: barraca, adicionada a bolsa dimensional;
Item: caderno e caneta, adicionados a bolsa dimensional
Extra: foi detectado uma condição anormal (envenenamento)
Desintoxicando... (Falha).
Sua resistência a venenos e “???” é muito baixa.]
— Auréola? Do que está falando?
— Maldito espião, filho da Luchiena!
— Se acalme! O que quer dizer com espião? Abaixa isso... Não precisa partir para agressão!
A mulher e as crianças fugiram para fora da casa gritando por ajuda e o homem começou a arremessar os talheres, copos e pratos em mim.
Por reflexo, me abaixei antes de ser acertado e agarrei a cadeira para me defender. Fui caminhando para longe, usando-a como escudo, até que ele arremessou um móvel, que me obrigou a largá-la e fugir pela casa, enquanto desviava dos diversos objetos voadores.
“Auréola?”, peguei um dos pratos de ferro que ele arremessou e enquanto corria, olhei para o meu reflexo.
Da mesma cor do raio de luz, agora havia uma rosquinha azul brilhante seguindo e sobrevoando o topo da minha cabeça.
“Eu morri?”, após ser acertado por um copo de vidro diretamente na cabeça por parar de correr e sangrar consideravelmente, rapidamente tirei essa dúvida.
Tentei segurar a auréola e a arrancar, mas como um holograma, minha mão só passava direto por ela.
— Essa é a minha habilidade que foi maximizada? Sistema... O que essa habilidade faz!?
[A habilidade em questão é uma réplica decorativa da habilidade inata da Santa Luchiena, a nêmesis dos demônios.]
— Desativar... Desativar!
[Falha. Essa habilidade não pode ser desativada durante o período da missão de introdução.]
— Espera! Eu também não entendo o que é essa coisa na minha cabeça e não tenho nada a ver com essa tal de Luchiena! Eu ajudo você a tirar esse negócio se você souber como. Só me diz o motivo de agir assim! Isso é radioativo? É uma bomba? Eu vou morrer?
— Não vou cair em seus truques, maldito seguidor da Santa!
“Droga, conversar não vai adiantar”
Corri em direção à janela dos fundos, peguei um móvel de brinquedo feito de madeira e arremessei com toda a minha força.
Surpreendentemente a cadeira de madeira voou com facilidade e estilhaçou todo vidro de uma só vez. Eu pulei pela janela e vi três caminhos: a direita, um bairro residencial, a esquerda uma floresta e a frente uma praça enorme com uma estátua de sapo e uma fonte.
Seguir reto estava fora de questão, na floresta poderia haver algum daqueles monstros humanoides da pintura...
— Aqui guarda! É aquele homem! — Mas a mulher estava de volta com três homens de uniforme preto, com um brasão enorme nas costas, cada um carregando uma espada, bloqueando justamente o caminho da direita, que iria escolher, me obrigando a seguir reto.
Enquanto corria, o número de perseguidores só foi aumentando. Até os pequenos comerciantes no caminho colocavam o pé para eu tropeçar ou arremessavam frutas em minha direção, sem nem saber quem eu era.
De alguma forma consegui escapar deles e pulei no meio de uma multidão que esperava ansiosamente a inauguração de uma grande loja para tentar me disfarçar, mas a maldita auréola sobrevoava acima de todos, servindo como uma seta indicando onde eu estava. Eles me encontraram em poucos segundos.
Me espremendo no meio das pessoas incomodadas por pensarem que eu estava tentando furar fila, acabei em um beco estreito sem saída. Procurei uma rota de fuga, então puxei uma lata de lixo para perto da parede e pulei para dentro do segundo andar de uma construção de três andares, ao lado da loja movimentada.
— Outro banheiro?
— Socorro! Tem um tarado aqui!
E para o meu azar era o feminino.
Um salto alto quase acertou meu olho e o grito chamou a atenção dos guardas que também escalaram a janela.
Uma confusão começou e até os guardas foram pegos no meio disso.
— Me desculpe, me desculpe...
Corri para fora do banheiro e alguns guardas e homens comuns já estavam me procuravam do lado de fora, enquanto ainda mais subiam as escadas.
Como esse andar era uma loja de fantasias esquisitas em formato de sapo, não demorou muito para eu encontrar um chapéu ridiculamente alto que nunca seria vendido em uma loja comum.
Ele escondia completamente a auréola e me servia bem, portanto vesti imediatamente. Fui andando pelo meio dos estandes de roupas até as escadas de emergência, então consegui subir para o último andar, um terraço que dava de encontro com o teto das outras lojas.
Respirei fundo e desci pelas escadas dos funcionários e corri em direção ao caminho que queria seguir originalmente.
“De jeito nenhum que eu ia sair pulando pelas lojas...”
Pensei que finalmente tinha despistado os guardas, mas alguém percebeu que o chapéu ainda estava com uma etiqueta que eles tiram logo após comprar, puxou ele e vendo a auréola, chamou todos.
“Essa coisa chama atenção demais!”
Eu não tinha escolha, o único lugar que eu teria uma chance de fugir era na floresta suspeita. E para lá eu fui.
Andando em zigue-zague pelas árvores, pulando por cima de troncos e passando por rios, me escondendo dentro de arbustos... A esse ponto eu comecei a perceber que eu não me cansava de jeito nenhum.
“Será que é a adrenalina ou aquelas recompensas de antes?”
Depois de mais uma hora de fuga, eles finalmente desistiram, mas por segurança, decidi seguir para mais fundo na floresta.
— Sistema, você disse antes que eu estava envenenado, mas até agora não senti nada de diferente.
[Nenhuma condição anormal foi encontrada]
— Que estranho... Será que foi um bug?
Felizmente não encontrei nenhum sapo bombado no caminho, mas quase pisei em alguns insetos gigantes e cobras com cores vibrantes que pareciam venenosas.
Até consegui desviar dos primeiros animais perigosos, mas conforme a densidade das plantas foi aumentando, eventualmente me encontrei encurralado.
“Como que eu pego os objetos novos que o sistema mencionou...”
— Sistema, como que eu acesso a bolsa dimensional?
[Use a maleta]
Eu destravei a maleta e olhei dentro dela, procurando pelos itens novos, mas estranhamente estava vazia.
— Tem algum tipo de palavra mágica para eu usar isso?
[Só pense no objeto e ele aparecerá]
“Aquela espada ancestral tem um nome forte...”, eu fechei e abri a maleta e a espada apareceu.
— É ancestral mesmo... — Estava enferrujada e cheia de rachaduras. — Deve ser uma espada mágica!
Eu estendi meu braço e agarrei o cabo da espada, mas quando fui puxar, se despedaçou em mil pedaços.
Imediatamente fechei a maleta e pensei no escudo.
“Tediosamente normal, mas até que bem resistente.”
— Tem que servir.
Usei o escudo para esmagar os insetos no caminho, o que trouxe um resultado extremamente nojento, mas consegui avançar.
Depois de mais alguns minutos de caminhada, cheguei ao fim da floresta e da ilha. Dando dez passos para frente da última árvore, me deparei com um pequeno precipício que levava ao mar.
Olhando para baixo consegui checar o estado do meu corpo no reflexo das águas cristalinas. Tirando os pequenos cortes e alguns hematomas, eu fiquei impressionado com o quão pouco eu tinha me ferido pela quantidade de pessoas que estavam atrás de mim.
E para longe, além da barreira, era possível avistar mais algumas pequenas ilhas, tão habitadas quanto os aglomerados de rochas no meio do nada.
Subindo em uma árvore alta, uma habilidade que adquiri na época em que meu pai ainda não tinha perdido o sítio, tive uma visão melhor da ilha.
O número de cidadãos comuns que decidiram se juntar enganava, mas eu já suspeitava a falta de guardas. Essa ilha era bem pequena, o que dificultaria na hora de me esconder, mas que compensaria no número de pessoas me procurando.
De cima, a ilha parecia um retângulo perfeito, dividido em cinco setores: a floresta, os bairros, residencial e comercial, uma zona industrial, um imenso cemitério e por cima de tudo, uma barreira enorme em formato de domo, fechando e isolando todos os cantos, menos um pequeno porto ao lado do castelo com os dois faróis, que identifiquei terem duas funções diferentes.
Toda vez que o segundo farol completava uma volta, a barreira brilhava e era reforçada, diferente do segundo, que só iluminava uma luz comum para guiar os navios.
Como a missão dizia sobreviver, tentei fugir enquanto a barreira estava no fim de seu ciclo, mas mesmo nesse estágio ela ainda era mais rígida que ferro maciço.
Olhando novamente para o castelo, tentador ao ponto de ser suspeito, mas a única rota de fuga óbvia; pensei em alguns planos para passar por lá, mas decidi esperar até que estivesse melhor preparado.
Logo depois pensei em explorar as partes menos povoadas, mas vendo o Sol se pôr, desci da árvore e comecei a procurar por um abrigo.
Vagando sem rumo, acabei encontrando uma cabana abandonada e decidi usá-la como uma base provisória, que se tornou habitável com poucas modificações.
Finalmente eu pude descansar em paz, então usei esse tempo para abrir e checar o restante dos itens da bolsa dimensional.
Os mantimentos eram as compras que eu carregava na sacola. O sistema foi bem generoso com esses três dias...
A barraca não vinha com instruções, então decidi deixá-la guardada por enquanto, já que tinha montado uma cama na cabana.
E o caderno e caneta eram descentes, mas tinha quase certeza de que eram originalmente meus.
Terminando de ver tudo e tentar acessar o sistema mais uma vez...
[Você não tem permissão.]
Eu criei uma mesa provisória feita de galhos, pedras e algumas tábuas que estavam dentro da cabana e comecei a anotar ideias e informações que poderiam ser úteis no caderno.
Como estava quente, ignorei os filmes de sobrevivência e não montei uma fogueira.
Comi uma das barrinhas de cereal da sacola e então eu me deitei e dormi.
Depois de dormir igual uma pedra, acordei ao som de alguns passos, então guardei tudo na maleta e fugi para o lado contrário.
Escutando a conversa, percebi que eram um grupo de crianças.
— Sabia que era tudo mentira! Como um discípulo da Santa passaria pela barreira?
— Os comerciantes não passam todo mês? Ele também pode passar! Meu pai que trabalha na guarda disse que realmente aconteceu.
— Parem de brigar. Podemos checar isso outro dia, já estamos atrasados para a aula...
Eles foram embora e eu voltei a cabana, mas um deles estava me esperando lá.
— Pegamos você! — E os outros tinham que fingiram que não me viram para que eu baixasse minha guarda, vieram logo em seguida, fechando a minha saída.
Eu estava encurralado, mas como eram só crianças, eu passei pelo meio deles fugi facilmente para o mais longe que consegui.
— Quão grande é essa floresta? Ou eu estou andando em círculos?
Olhei para todos os lados e vi que não estava mais sendo seguido então comecei a montar a barraca que o sistema me entregou.
Por dias, toda vez que eu ia dormir, acordava com eles por perto e toda vez eu conseguia escapar por pouco, tinha que remontar a barraca do zero em um novo lugar.
Mas isso só durou até os meus suprimentos básicos acabarem.
Sem escolha, tive que beber água de um rio próximo. Então montei e acendi uma fogueira, fervi a água e tomei ela.
Seguindo a fumaça, o grupo de crianças novamente me encontrou, só que quando eu fui correr, uma dor de barriga insuportável me fez eu cair, me fazendo contorcer no chão e vomitar muito.
“Eu consegui fugir de guardas para morrer pelas crianças?”
— Ele está morrendo! Alguém ajuda ele!
— Vamos levar para minha casa, minha irmã é médica!
Inesperadamente eles me ajudaram com remédios, me trouxeram comida e água potável e até esconderam esse segredo de onde eu estava de seus pais.
— Vocês não têm medo de mim? — perguntei com a voz fraca de alguém doente.
— Essa história de que os humanos e a Santa são pessoas más é conto para criança dormir! Descobrimos que nada disso é verdade e agora queremos aprender mais do mundo exterior com você!
— Quem contou para vocês que aquelas histórias eram mentira?
— O irmão dele! — disse apontando para o garoto que parecia o mais tímido. — Depois de voltar de uma expedição militar, ele contou a verdade de que os humanos de Fortuna têm um monte de coisas legais e são supersimpáticos. Ele até trouxe algumas lembranças escondidas que nunca vimos na vida!
— Entendi. Podem me deixar um pouco sozinho para dormir?
— De jeito nenhum! E se alguém aparecer enquanto estivermos longe? Vamos ficar revezando a vigia do lado de fora.
— Só não gritem muito, por favor.
[Resistência a venenos aumentou.]
Depois de quatro dias de cama, eu melhorei por completo.
Nesse meio tempo eu contei histórias sobre o meu mundo e eles as tradições da ilha deles.
Por algum motivo, só depois de tudo ser tratado por um longo processo de uma indústria que fica do outro lado da floresta, em um equipamento importado de Fortuna é que a comida e bebida se tornam aptos para o consumo, por isso não adiantou de nada ferver a água.
O tempo passou e certo dia as crianças me contaram que em breve os comerciantes passariam pelo centro da cidade e que esse seria o melhor momento para fugir, então eu me disfarcei com roupas que eles pegaram do guarda-roupa dos pais deles e fiquei esperando, olhando pela janela de dentro da casa de uma das crianças.
Eles elaboraram um plano para chamar a atenção dos comerciantes, que conversaram comigo e escutaram a minha explicação.
— Que azar que você teve... — disse um dos dois gêmeos que lideravam as várias carroças cheias de mercadorias exóticas.
— É arriscado, mas podemos tentar te esconder dentro de um dos barris de comida — disse o outro gêmeo.
— Estão dispostos a me ajudar de graça? — perguntei.
— Primeiramente, você é um herói e é nossa obrigação moral e legal te ajudarmos.
— Segundamente, os Fortuna sempre pagam generosamente aqueles que trazem um herói para eles.
De noite eles esvaziaram uma pequena parte de um barril de peixes e eu entrei lá, quase sufocando pelo mau cheiro.
De madrugada eles passaram pelo portão do castelo, para terem suas mercadorias investigadas.
Os guardas exaustos por terem que trabalharem hora extra por culpa dos comerciantes só olharam por cima de tudo e deixaram ir.
“O plano deu certo!”
Mas é claro que não seria tão fácil.
Mesmo eles conseguindo sair da ilha, a barreira ativou justamente na carroça em que eu estava escondido.
[Você não pode sair enquanto a missão estiver ativa]
— Deu algum problema na barreira? Vou ir lá checar — disse o guarda que estava vigiando os comerciantes.
Os gêmeos entraram em desespero e eu tive que fugir às pressas, mas antes disso, eles me entregaram uma pedra com uma nota musical extravagante desenhada nela e disseram:
— Se você de alguma maneira conseguir desativar a barreira desses faróis, quebre essa pedra que os soldados escondidos em outra ilha irão ser notificados e vão vir te ajudar.
— Tudo bem, mesmo que não tenha dado certo, obrigado por me ajudarem.
No caminho de volta eu acabei esbarrando com alguns soldados mais bem treinados, que deram um trabalho gigante para despistar.
Mas os gêmeos soltaram fogos de artifício no céu noturno que deram a brecha para que eu conseguisse fugir.
— Se um dia eu conseguir sair daqui, definitivamente vou devolver o favor para eles.
Eu consegui retornar a uma floresta, mas aquela não era a mesma.
Para piorar tudo, os soldados de alta patente retornaram das negociações com Fortuna e aumentaram muito a intensidade das buscas por mim, impossibilitando com que eu passasse pela cidade.
Eu sobrevivi por um mês nessa outra floresta, comendo frutas e vegetais, então quando as buscas afrouxaram, eu consegui me infiltrar no castelo e matei o rei.
Assim eu quebrei o cristal que criava a barreira e chamei os guardas de Fortuna com o artefato que os gêmeos me entregaram, fim.
— Conforme você foi chegando no final parece que os detalhes ficaram mais simples.
— É porque já está quase na hora de dormir e eu estou com sono.
— Eu estou preso por um motivo, não vou ficar assustado se me contar o que aconteceu com os moradores até os guardas de Fortuna chegarem.
— Vai ter que ganhar outra aposta se quiser que eu conte.
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