Light Novel

Capítulo 40: Gato, Gato, Gato (1)

Clara, uma estudante do segundo ano do curso de magia e uma das melhores amigas de Yennekar, estava parada do lado de fora do meio destruído Salão Ophelis desde a manhã.

Isso porque havia alguém com quem ela queria se encontrar.

— Olá, Srta. Bell.

Já havia se passado um dia desde que a grande destruição causada pela ocupação do Salão Ophelis chegou ao fim. Embora a investigação detalhada ainda não tivesse sido concluída, entre os estudantes já circulavam rumores de que as criadas estavam, de alguma forma, envolvidas no incidente.

Clara acreditava que esses rumores não passavam disso: apenas rumores. O departamento de inspeção da escola acabaria chegando a uma conclusão após descobrir mais detalhes.

— Gasp.

O local de reconstrução do meio destruído Salão Ophelis.

Como haviam se passado apenas dois dias desde o incidente, nenhum tipo de reparo significativo havia começado. Os professores e as criadas estavam ocupados tentando avaliar a extensão dos danos.

Na entrada do jardim de rosas, Clara encontrou Bell Maya, que estava ocupada tomando notas. Clara soltou um leve suspiro.

Diferente do usual, Bell Maya vestia um uniforme de criada vermelho-escuro, coberto por belos detalhes decorativos. Olhando para o broche de rosa azul preso em seu peito e para os babados azuis na bainha de sua saia, não havia dúvida, era o uniforme reservado exclusivamente à chefe das criadas.

— Você não é uma das amigas próximas da Lady Yennekar? O que a traz ao Salão Ophelis?

— Oh! Olá, Srta. Bell. Você foi promovida recentemente?

— Devido às circunstâncias pessoais da Srta. Elris, ela não pôde mais cumprir suas funções como chefe das criadas. Assim, fui promovida de Criada Sênior para Chefe das Criadas.

— E-Eu entendo. De alguma forma, parece que sua posição se tornou muito mais elevada…

— Não há razão para se sentir desconfortável. Nosso dever principal é ajudar os outros. Se precisar de qualquer coisa, por favor, não hesite em me chamar.

— Não, está tudo bem. É só que… eu queria falar com você sobre um assunto pessoal… Como posso dizer isso? Deixa pra lá, você parece bem ocupada agora.

— Hm… Estou um pouco ocupada, mas…

Bell olhou para sua lista de tarefas, depois lançou um olhar para o meio destruído Salão Ophelis antes de balançar a cabeça.

— A maioria do trabalho já foi feita, e acho que não precisarei dar mais ordens. De qualquer forma, eu já estava planejando fazer uma pausa.

— Oh, é mesmo?

— Então, sobre o que você queria falar?

— Não se assuste. Isso é um segredo de Estado. Você não pode contar para ninguém, e também não pode reagir de forma muito exagerada.

O rosto de Clara ficou sério enquanto ela se inclinava na direção de Bell, falando em um tom grave.

Bell se perguntou que tipo de segredo chocante ela estava prestes a ouvir e prestou atenção.

— É sobre Yennekar… Acho que ela gosta do Ed… Ed Rothstaylor.

Tendo conhecimento desse fato surpreendentemente bem, Bell se perguntou se deveria, ao menos, fingir estar surpresa.

— Eu simplesmente não entendo por que alguém como a Yennekar cairia tão perdidamente de amores por aquele brutamontes… E, como amiga dela, meus sentimentos são confusos.

Elas se moveram até um banco no jardim de rosas. Clara, que continuava olhando ao redor para garantir que ninguém passava por perto, logo confessou todas as preocupações que mantinha enterradas em seu coração para Bell.

— Já faz três dias e três noites que estou pensando nisso, mas… Ultimamente, a reputação do Ed melhorou um pouco. Tenho certeza de que a Yennekar também tem algo em mente, então cheguei à decisão de apoiá-los. Mas ainda me sinto muito, muito insegura quanto a isso.

Enquanto ouvia cada palavra dos lamentos de Clara, Bell pensou que Yennekar realmente tinha uma grande amiga.

Isso porque, neste mundo, são poucas as pessoas que realmente se importam tanto com os relacionamentos de um amigo.

Mesmo que pudesse facilmente acabar se intrometendo em algo que não era da sua conta, Clara fez questão de não cruzar essa linha e apenas se preocupou com a vida amorosa de Yennekar.

— Antes de tudo, se a Yennekar realmente pensa nele dessa forma… Então, como amiga dela, eu realmente espero que ela e Ed fiquem juntos.

— Entendo. Você deve estar muito preocupada com ela, Lady Clara.

— Mas… esse não é o ponto!

Bell inclinou a cabeça.

Assim que ia responder, Clara a interrompeu, cuspindo outro nome de garota.

— Lortel Kehelland! Você conhece esse nome, certo? Deve conhecer, afinal, você era uma criada sênior no Salão Ophelis!

— … Sim, é claro que conheço.

— Ultimamente, Yennekar tem mencionado muito esse nome. Mesmo sendo apenas uma estudante do primeiro ano, desde o treinamento de combate conjunto ela tem se envolvido bastante com eles. Embora… não pareça que algo tenha acontecido ainda.

Clara olhou em volta mais uma vez antes de abaixar a voz e sussurrar para Bell.

— Então, eu mesma fiz uma investigação, e não tenho certeza, mas… Ambos estiveram ausentes no dia da cerimônia de abertura. Além disso, estavam juntos ontem, na primeira aula que compartilham. Pensando na Yennekar… parece que ela está em uma situação complicada.

Para uma garota, a existência de uma rival era como um desastre…

A princípio, ela pensou que poderia ser apenas um mal-entendido.

— Srta. Bell, ouvi muito sobre você pela Yennekar. Ela disse que confiava bastante em você e que você sempre lhe dava bons conselhos… Ouvi dizer que você é uma pessoa bastante perspicaz.

— Você está me elogiando.

— E como conhece bem tanto a Yennekar quanto a Lortel… vim aqui porque queria perguntar sua opinião.

— Lady Lortel é uma pessoa bastante famosa. Imagino que você também saiba sobre ela, não?

Os rumores sobre a Filha Dourada, Lortel, se espalhavam por toda a escola, independentemente do ano letivo.

— Sei quem ela é. Mas, apenas observando um pouco… Não consigo imaginar a Yennekar vencendo…

— Eu acho que a Lady Yennekar também é uma pessoa muito atraente.

— Claro que também acho isso. Mas Lortel é tipo…

As palavras de Clara não saíram, mas Bell assentiu.

De fato, Lortel Kehelland era uma garota astuta como uma raposa. Sempre bem-comportada, suas ações transbordavam elegância. Mas quando surgia uma oportunidade, ela se tornava um pequeno demônio incapaz de esconder seus verdadeiros e sombrios sentimentos.

Clara sabia muito bem disso.

Sua vida como comerciante não foi em vão, então era natural que tivesse um entendimento muito melhor sobre como desenvolver relacionamentos e conquistar o interesse dos outros.

— Eu não tenho muita experiência com relacionamentos, mas… No fim das contas, relações entre homens e mulheres são um jogo de empurrar e puxar…

Bell não teve escolha senão acenar com a cabeça enquanto ouvia os lamentos de Clara.

Yennekar Palerover era inocente e naturalmente otimista, então ela só sabia puxar, mas não empurrar.

Lortel, por outro lado… Como comerciante, não havia a menor chance de que ela não soubesse controlar completamente a velocidade com que um relacionamento progredia.

Por mais encantadora e adorável que Yennekar fosse, diante do jogo de empurra e puxa de Lortel, ela não teria chance alguma… Era como um peixe preso ao anzol.

Clara cerrou os punhos.

— Isso não pode acontecer! É por isso que… acho que a Yennekar deveria aprender a jogar difícil!

— ……

— De qualquer forma, eu preciso que a Yennekar aprenda a fazer isso. Seria doloroso demais para ela perder um relacionamento por causa do charme adulto de uma garota um ano mais nova que ela! Se ela fosse rejeitada por aquele cara horrível, ao menos teria aprendido uma lição… Mas ser roubada de um relacionamento desse jeito só vai machucá-la ainda mais!

Bell quase aplaudiu Clara, que expressava sua frustração com tanta paixão, mas se conteve.

Preocupar-se tanto com a vida amorosa de uma amiga…

— O que você acha, Srta. Bell? Ouvi dizer que você sempre diz a coisa certa!

Aqueles olhos ardentes se voltaram para Bell.

Honestamente, era uma situação um tanto embaraçosa.

— Q-Qui-quero dizer… Quem pode dizer? Não tenho certeza…

De qualquer forma, Bell já era familiarizada com Ed, Yennekar e Lortel.

Comparada a Clara, que era claramente tendenciosa, Bell conseguia avaliar a situação com um pouco mais de objetividade.

— Hmm… Não acho que a Lady Yennekar precise dizer ou fazer algo que não combine com ela.

— … Você acha?

— E talvez sua visão sobre isso seja um pouco parcial, não? Acho que há a possibilidade de que Lady Yennekar seja muito mais capaz do que você imagina… E que Lady Lortel também tenha menos experiência em relacionamentos do que aparenta.

— … Não sei… É difícil concordar com essa parte…

De qualquer forma, não era uma boa ideia se intrometer desnecessariamente nos assuntos amorosos dos outros.

Essa era a conclusão de Bell, então ela não tinha intenção alguma de apoiar o plano desesperado de Clara.

— Para começo de conversa, eu nem conheço tão bem esse Ed Rothstaylor! Ele é apenas uma pessoa ridiculamente teimosa, ou será que nasceu sendo um idiota desagradável?!

No fim, toda a hostilidade de Clara acabou sendo direcionada para Ed Rothstaylor.

— Na verdade, é absurdo que ela continue olhando para ele daquele jeito, e ele nem perceba!

— … Bem, no caso do jovem mestre Ed… Em vez de ser teimoso ou um idiota completo… Acho que ele apenas está numa situação em que é difícil ter interesse em um relacionamento…

Ed Rothstaylor era alguém que montou um acampamento na floresta do norte, cuidando sozinho de comida, abrigo e vestuário.

Às vezes, Bell passava por lá para deixar alguns ingredientes, ervas e suprimentos médicos, mas… No geral, Ed sempre cuidava dos fundamentos básicos da sobrevivência inteiramente por conta própria.

Além disso, ele ainda estudava o currículo da academia.

Levava uma vida onde precisava dividir estrategicamente cada hora do dia entre diferentes tarefas.

Ele estava numa posição onde se distrair com uma mulher por alguns dias poderia significar ficar sem comida.

Já era quase outono, e o inverno se aproximava rapidamente. Havia muitas outras preocupações para as quais ele precisava se preparar.

— Isso não pode ser verdade. Bem, ele simplesmente nasceu sortudo. Ter tanta sorte com garotas… Aposto que ele está por aí, com um sorriso bobo no rosto, se embriagando com a própria popularidade. Só de imaginar isso já me dá arrepios!

— ……

Bell não respondeu, apenas fechou os punhos, deixando Clara continuar seu desabafo.

Bem, às vezes, só o ato de falar sobre os próprios problemas e preocupações já era um alívio.

Bell fechou os olhos e refletiu sobre a situação de Ed.

Ele claramente estava lutando para sobreviver.

Seria mesmo possível que ele estivesse aproveitando sua "sorte" com as garotas?

Pensando em tudo isso, Bell fez uma prece silenciosa por ele.

No fim das contas, quando ela analisava todas as garotas ao redor daquele rapaz… só conseguia compará-las a gatos e outros animais.

Lortel Kehelland era como um gato de rua astuto, empoleirado em frente a uma peixaria.

Yennekar Palerover era como um gatinho inocente, tremendo de medo diante de um tigre.

E Lucy… bem, Lucy era apenas um gato.

De qualquer forma, Bell conseguia visualizar Ed lutando para sobreviver em meio a todas essas garotas, enquanto tentava, em vão, lhe enviar alguma forma de incentivo.

Parecia que era um bom momento para fazer uma visita ao acampamento de Ed.

Ela queria conferir a situação, já que Clara estava preocupada a esse ponto.

Mas… também havia uma mensagem que precisava ser entregue da Chefe das Criadas, Elris.

Embora não fosse uma boa notícia.

 

◇ ◇ ◇

 

O clima estava excepcionalmente bom naquele dia.

Fui até o riacho ao lado do acampamento para lavar o rosto e aproveitei para checar minhas Habilidades de Vida.


[Habilidades de Vida]

Grau: Artesão Intermediário

Campo de Especialização: Marcenaria

  • Artesanato - Nível 13
  • Design - Nível 8
  • Coleta - Nível 11
  • Marcenaria - Nível 12
  • Caça - Nível 8
  • Pesca - Nível 6
  • Culinária - Nível 6
  • Reparação - Nível 5

《 Espaço para Técnica de Produção Avançada: Vazio 》

《 Espaço para Técnica de Produção Avançada: Vazio 》


Como os slots de técnicas de produção avançadas ainda estavam vazios, adquirir uma nova técnica utilizável era minha maior prioridade.

Eu já havia decidido quais habilidades iria aprender.

Eu planejava começar a aprender Infusão Espiritual, que tinha uma ótima compatibilidade com Elementalistas, e Engenharia Mágica, que seria excelente para fabricar utensílios do dia a dia e diversos tipos de equipamentos de combate.

A Infusão Espiritual era adquirida automaticamente assim que você firmava um contrato com um espírito e criava um item contendo Elementalismo. Já a Engenharia Mágica era desbloqueada quando você conseguia desmontar e montar um item engenhado magicamente de um determinado nível.

Comparadas às habilidades do tipo Combate e Magia, as habilidades de Produção eram muito mais fáceis e rápidas de adquirir. Esse era um dos grandes benefícios desse tipo de habilidade.

Eu não queria desperdiçar um slot de espírito desnecessariamente, mas se eu quisesse começar a treinar Infusão Espiritual antecipadamente, seria melhor firmar um contrato com um espírito de nível baixo imediatamente.

Nesse caso, pensei que o ideal seria escolher um espírito de um atributo diferente do meu. Talvez um espírito da terra ou da água.

Se eu começasse a lidar corretamente com os espíritos, minhas habilidades do tipo Espiritual aumentariam rapidamente. Então, quando meus atributos mágicos se tornassem mais sólidos, o dia em que eu poderia formar um contrato com um espírito de alto nível chegaria mais rápido do que o esperado.

Pensando nisso, talvez fosse uma boa ideia pedir ajuda para Yennekar.

Minha condição física não era das melhores. Eu não podia forçar meu corpo fazendo tarefas muito pesadas. Em outras palavras, por conta do incidente da Ocupação do Salão Ophelis, eu havia me esforçado além do limite. Por isso, agora não conseguia lidar bem com trabalhos intensivos.

Bem, não havia muito o que fazer… Foi um sacrifício necessário.

De qualquer forma, consegui impedir Lortel, uma das personagens principais da história, de fugir.

O plano parecia ter funcionado até certo ponto, já que Elte ainda não havia tomado nenhuma ação significativa.

O restante do embate agora se desenrolava na sede da Companhia Elte. O que podíamos fazer era esperar o desenrolar da situação e aguardar boas notícias do pombo-correio, que eventualmente voltaria.

— Oi, Ed! Agora que a chuva parou, o tempo ficou um pouco mais frio!

— Oh. Oi, Yennekar.

Yennekar ainda visitava o acampamento todos os dias.

Era ótimo, já que ela sempre trazia ingredientes para cozinhar.

— A Lortel está bem?

— Sim. Ela só está descansando na cabana.

Eu contei toda a história para Yennekar.

Depois de explicar a situação de Lortel e o motivo de ela precisar ficar escondida por um tempo, Yennekar aceitou a realidade sem questionar. Desde então, passou a vir todos os dias para verificar como Lortel estava.

No entanto, o segundo semestre já havia começado, e as aulas estavam a todo vapor.

Lortel não tinha intenção de ir para a escola até que sua segurança estivesse garantida.

E quanto a mim… meu uniforme estava em frangalhos, então acabei pegando um emprestado de Ziggs. Mas eu precisava ajustá-lo para servir em mim, e até conseguir terminá-lo, seria muito difícil frequentar as aulas.

Ou seja, Lortel e eu estávamos sem ir às aulas por enquanto.

Yennekar, por outro lado, não tinha nenhum motivo para faltar.

E, ainda assim, todos os dias ela aparecia no acampamento, sentava-se e ficava lendo seus livros de magia.

— Yennekar, você não vai para a aula?

— Hm? Minha cabeça dói um pouco e não estou me sentindo muito bem, então resolvi descansar aqui na floresta do norte e aproveitar a brisa. Já avisei os professores, e eles apenas me disseram para me cuidar.

— Sério? Você não se machucou enquanto tentava me ajudar, né?

— De jeito nenhum. Definitivamente não. Você devia apenas continuar com o que precisa fazer. Vou só ficar sentada aqui aproveitando a natureza e depois volto quando for hora.

Embora Yennekar dissesse isso, ela não parecia estar com dor alguma.

Ficou o dia inteiro sentada num banquinho de madeira próximo à fogueira, lendo seu livro.

De vez em quando, lançava olhares para a cabana, como se estivesse vigiando-a.

Pelo visto, Yennekar ainda não confiava completamente em Lortel.

O que era compreensível. Afinal, o passado de Lortel era algo bem complicado.

— Entendo, Ed. Bem, é uma pena que você não possa me contar os detalhes da situação… Mas, pelo menos, consegui pagar minha dívida.

Já ao entardecer, enquanto eu cortava lenha, Ziggs apareceu para perguntar sobre o que aconteceu na noite anterior e acabou me ajudando no processo.

Contei um resumo da história e respondi suas perguntas.

— Bem, parece que eles não conseguem dizer com certeza que fomos nós que destruímos parte do Salão Ophelis. O prédio já estava semi-destruído antes, então não ficou óbvio que causamos mais danos.

— E as punições disciplinares contra os estudantes?

— A maior parte da culpa caiu sobre aquele veterano, Willain, e alguns outros alunos receberam punições menores. A chefe das criadas ainda está sendo interrogada, mas parece que não está falando nada.

Como não havia nenhuma menção sobre Lortel, isso significava que Elris estava mantendo silêncio.

Ela não podia confessar nada precipitadamente, sem saber se Lortel ou Elte sairiam vitoriosos.

Assim que estivesse segura, provavelmente tentaria fazer contato em segredo o mais rápido possível.

— Certo. De qualquer forma, desta vez eu te devo uma.

— O que você está dizendo? Se precisar de algo da próxima vez, me avise. Vou indo agora.

Ziggs acenou para mim enquanto se afastava.

Soltei um suspiro profundo e larguei o machado ao meu lado.

Provavelmente era melhor que Lortel continuasse escondida na cabana.

Eu poderia simplesmente continuar dividindo a comida com ela, e assim que recebéssemos notícias da nossa vitória, poderíamos voltar à vida normal.

Esperava apenas não haver nenhum incidente grave até lá.

Sentei-me no meio da floresta para descansar, sentindo a brisa do outono se aproximando e desejando um momento de paz.

A maioria dos meus ferimentos já havia cicatrizado, então não estavam mais me incomodando tanto.

O silêncio dentro da cabana era reconfortante.

Lortel estava sentada, apoiada contra a parede áspera, esperando o tempo passar em silêncio.

Embora o incidente da Ocupação do Salão Ophelis tivesse chegado ao fim, ainda restava muito trabalho para ser feito.

A primeira coisa a ser feita era reconquistar a ex-criada Elris.

Os rumores diziam que a chefe das criadas, Elris, estava mantendo silêncio diante dos investigadores.

Como não conseguia prever quem venceria, Lortel ou Elte, decidiu ficar quieta até ter certeza de qual lado apoiar.

A segunda coisa era preparar o terreno para as negociações da compra do Selo do Sábio.

A queda de Elte aconteceu antes do esperado, mas ainda havia uma oportunidade para adquirir o Selo do Sábio, e Lortel não podia desperdiçá-la.

Uma vez que o plano fosse concretizado, sua posição dentro da Companhia Elte se tornaria uma das mais influentes.

Até mesmo o novo chefe da empresa não poderia tocá-la facilmente.

Mesmo estando cheia de tarefas urgentes, não poderia fazer nada até garantir sua segurança e retornar às aulas em Silvenia.

Por mais que viver na floresta do norte fosse um atraso, era uma medida necessária antes de voltar a atuar como estudante e empresária.

Deveria estar frustrada por ter que pausar sua vida como comerciante e ficar escondida numa cabana por três dias, mas…

Seu coração se aquecia sempre que Ed vinha checar como ela estava, garantindo que não lhe faltasse nada.

Pensando bem, não era uma troca tão ruim assim.

Havia vivido uma vida de luxo e extravagância, e agora estava em uma cabana no meio do nada…

Mas, no fim das contas, a presença daquele garoto ao seu lado fazia tudo parecer mais suportável.

Sentada ao lado de Ed Rothstaylor, seu coração batia acelerado.

Sua bondade incondicional e sua confiança sem esperar nada em troca faziam com que Lortel se sentisse como se estivesse aninhada em uma cama macia e quente.

Para alguns, isso era algo comum…

Mas para Lortel, que viveu toda a vida seguindo um caminho frio e solitário, essa sensação valia mais do que ouro.

Não precisava nem ser dito, mas… não queria entregá-lo para ninguém.

Especialmente para ela.

Yennekar Palerover.

Uma garota que viveu como a protagonista de um conto de fadas.

Para Yennekar, um relacionamento baseado em bondade e confiança incondicional era algo natural.

Amigos e família sempre a apoiavam.

Para Lortel, no entanto, Ed era um verdadeiro luxo.

Um relacionamento caloroso, onde sabia que nunca seria traída.

Para Yennekar, ele não era nada além de mais uma pedra no caminho.

Se ela tinha tantas opções, poderia ao menos abrir mão desse.

Lortel achava essa situação cruel e não conseguia entendê-la de jeito nenhum.

Se fosse assim…

A única saída era lutar sujo.

E, infelizmente para Yennekar, esse era o ponto forte de Lortel.

Além disso, passar três dias ao lado dele era uma vantagem massiva e perfeita para ela.

— Hmm…

No entanto, como o relacionamento entre um homem e uma mulher deveria progredir?

Ela já havia tomado a iniciativa em incontáveis relações humanas antes, mas seria o mesmo em um relacionamento mais afetivo?

Esse era o problema.

Lortel sempre viveu no brutal mundo dos negócios, onde as pessoas eram medidas apenas por interesses.

Por isso, nunca teve conhecimento sobre como um relacionamento romântico se desenvolvia.

‘Inesperadamente, essa é uma área na qual sou péssima…’

O pensamento cruzou sua mente enquanto tentava se enxergar de forma objetiva.

Era estranho para alguém como ela.

— Vou apenas fazer do meu jeito.

Repetiu essas palavras para si mesma, decidindo agir da maneira que sempre fez.

Afinal, a maneira mais fácil de ganhar o favor de alguém era com dinheiro.

Se ela enterrasse a cabana miserável de Ed sob uma pilha de moedas de ouro, ele não a olharia com olhos brilhantes e cheios de gratidão?

— Mas estou sem dinheiro…

Ainda estava no meio de negociações com diversas empresas, o que afetava seus próprios ativos pessoais.

Mas se vendesse uma vila na Região das Minas ou um certificado de terra nos arredores, poderia conseguir um resultado semelhante.

No entanto, ao imaginar Ed Rothstaylor olhando para ela com olhos infantis, cheios de ganância, Lortel sacudiu a cabeça.

No fim das contas, um relacionamento baseado apenas em dinheiro não teria nenhuma afeição real.

A simples ideia de vê-lo sorrindo apenas por interesse, sem nenhuma sinceridade, partia seu coração.

Mas, mesmo assim… não era certo simplesmente ficar parada e não fazer nada.

Só de observar Ed ao longo do dia, já conseguia ver que ele levava uma vida infernal.

Sem desperdiçar um único minuto ou segundo, ele cerrava os dentes e lutava para sobreviver.

Antes mesmo de seu desejo egoísta de ser favorecida e amada, havia também um sentimento genuíno de querer ajudá-lo.

Mas, por outro lado, tinha medo de que isso fosse interpretado como piedade e que, no fim, o relacionamento se transformasse em algo apenas movido por dinheiro.

Sentada com as pernas cruzadas, Lortel mexia os dedos dos pés, imersa nesses pensamentos.

— Ha… Será que não seria justo pagar a mensalidade dele?

Se desse dinheiro apenas para isso, não pareceria tanto com piedade, certo?

Sendo alguém que nunca fez um favor sem um preço, não sabia como sequer oferecer o dinheiro a ele.

Enquanto pensava, começou a tentar formular algumas frases…

‘N-Não tire conclusões erradas! N-Não estou fazendo isso porque me importo com você!’

Lortel tremeu de vergonha ao imaginar a cena.

Ela cerrou os punhos, chutou a parede da cabana e se recolheu toda, sentindo-se estranha.

Aquelas palavras eram ridículas, mas, por algum motivo, pareciam naturais para ela.

Ela sempre viveu escondida atrás de uma máscara, com um sorriso astuto de raposa, ocultando seus verdadeiros sentimentos e intenções sombrias.

Agora, mesmo numa situação tão absurda, não conseguia tirar essa máscara.

Respirando fundo, tentou se recompor.

Precisava organizar suas ideias e pensar em uma abordagem mais sedutora e encantadora.

— ……

No fim das contas, se queria entender como um relacionamento entre um homem e uma mulher se desenvolvia, bastava esperar e observar.

De qualquer forma, naquele momento, Ed não via Lortel como uma mulher nem por um segundo.

O desenvolvimento de um relacionamento sempre começava com uma mudança na percepção.

O primeiro passo seria fazer com que Ed a enxergasse de outra forma.

Lortel formulou esse "plano" em sua mente e acenou para si mesma, convencida de sua decisão.

Ela não fazia ideia, naquele momento, do quão ridículo esse "plano" realmente era.

Como já foi dito, Lortel era excepcional em manipular ou perturbar a mente das pessoas.

Mas quando o assunto era um relacionamento simples e afetuoso, no qual era péssima, até mesmo Yennekar estava anos à frente dela.

— Então… Especificamente, eu precisarei…

No entanto, elaborar um plano de ação detalhado levaria tempo.

Como ficaria escondida na cabana pelos próximos três dias, teria bastante tempo para pensar nisso.

Se planejasse cuidadosamente, seria apenas uma questão de tempo até superar Yennekar.

Com um sorriso astuto, Lortel abraçou os joelhos.

— Pode sair daí? Esse é o meu lugar…

No entanto, um evento inesperado aconteceu.

Uma nova garota havia chegado.

— … Hm?

— Yawn…

Ela usava um enorme chapéu de bruxa, o uniforme da escola de mangas compridas, e tinha trancinhas que chegavam até o quadril.

Alguém que ela frequentemente via nas aulas do Professor Glast.

Uma das três estudantes da Classe A.

Quando foi que ela entrou na cabana?

Como subiu pelo telhado?

Desde quando sabia usar magia espacial?

A garota sempre imprevisível, que deixava todos ao seu redor confusos…

— Lucy…? O que você está fazendo aqui…?

— Este é o melhor lugar. É onde o sol bate melhor.

Então, sem cerimônias, empurrou Lortel para o lado, jogou uma pele de Marta no chão, pressionou-a contra a madeira e deitou-se em cima dela…

E logo depois adormeceu pacificamente, abraçando a si mesma.

— ……

Completamente confusa, Lortel passou a mão no rosto.

— Mas o que há de errado com essa garota…?

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