Light Novel

Capítulo 41: Gato, Gato, Gato (2)

Mesmo para alguém como Lortel, que cresceu encontrando todo tipo de pessoa, Lucy Mayreel era uma garota praticamente impossível de entender.

Ao caminhar pelo campus, às vezes era possível vê-la dormindo pacificamente em algum canto ensolarado. Era o tipo de pessoa que se consideraria uma esquisita ao passar por ela.

No entanto, ela também era alguém que já havia sido vista destruindo um espírito de alto escalão no topo de uma montanha ao noroeste da ilha. Houve também a vez em que eliminou um bando de monstros parecidos com tubarões com um único movimento da mão...

Lortel frequentemente ouvia histórias sobre pessoas que a viam por aí, exibindo uma força transcendental absurda.

Mas, durante o incidente de Glasskan ou o caso do Ophelis Hall, ela podia ser encontrada dormindo em um canto, nem sequer cogitando ajudar com seus poderes. Havia um limite para o quão ridícula uma pessoa podia ser, mesmo que vivesse no próprio ritmo.

Para começo de conversa, os recursos de Lortel não tinham uma única informação sobre a identidade ou a vida de Lucy Mayreel.

Ela sequer conseguia imaginar de onde Lucy vinha ou o que fazia antes de entrar em Silvenia.

Além disso, não fazia sentido que ela estivesse estudando na academia quando já possuía força suficiente para destruir uma cidade inteira.

Frequentava as aulas regularmente, mas, na maioria das vezes, estava cochilando. Mesmo assim, o professor responsável, Glast, nunca se atreveu a repreendê-la.

Na verdade, nem parecia que ele estava tentando ensinar algo para Lucy. Uma vez, Ziggs, que não conseguia mais suportar aquilo, foi até o Professor Glast para reclamar de seu comportamento.

— Essa estudante está em um nível onde não faz diferença se eu ensino ou não. Você não precisa se preocupar com ela. Ela é do tipo que, quando precisar alcançar algo, irá perceber por conta própria e crescerá sozinha.

Era uma estudante de um nível tão absurdo que até mesmo um professor, cuja função era guiar e educar alunos, dizia algo assim. No fim, Ziggs e Lortel não tiveram escolha a não ser deixar Lucy seguir com suas excentricidades.

Embora a situação a incomodasse um pouco, Lucy nunca chegou a atrapalhar Lortel. Na verdade, elas nunca nem haviam conversado.

Sempre vagando pelo campus com uma expressão vazia, comendo quando sentia fome e dormindo quando estava cansada... Não era exatamente como um gato de rua?

Houve um tempo em que Lortel desejou que Lucy se tornasse uma aliada pessoal, para que pudesse aproveitar sua força transcendental. No entanto, quanto mais a observava, mais desistia da ideia de poder usá-la para algo.

Pensando desse jeito, acabou se acostumando bastante com Lucy.

— Mughaaaaak!

Humph.

Ed ergueu Lucy nos ombros e a carregou para o abrigo de madeira do lado de fora. Em seguida, abriu a porta novamente e entrou na cabana.

— Oh. Desculpa. Te acordei, Lortel. Parece que a Lucy veio se esconder na cabana. Já dei um jeito nela, então pode relaxar como se fosse sua casa.

Ed limpou o suor da testa, como se tivesse acabado de terminar toda a faxina atrasada.

A Segunda Manhã da Vida de Lortel na Cabana.

O primeiro dia passou absurdamente rápido.

Pela primeira vez em sua vida, tomou banho em um riacho. Como suas roupas estavam secando, vestiu trajes extremamente surrados enquanto se sentava desconfortavelmente em um canto da cabana. Ed seguiu fazendo suas tarefas e preparou um peixe grelhado, entregando-o a ela. Ao comê-lo, sentiu uma estranha sensação de calor e conforto.

Olhando para o céu estrelado, começou a absorver a atmosfera romântica... Houve todo tipo de experiência emocionante e de tirar o fôlego que aconteceu com ela, tantas que era difícil resumir em apenas uma frase.

Como alguém que estava sendo perseguida, finalmente sair ao ar livre era divertido. Depois de passar tanto tempo presa dentro da cabana, simplesmente sentar-se do lado de fora no acampamento lhe dava uma estranha sensação de satisfação... Mesmo que o chão de madeira fosse duro e áspero, conseguiu dormir bem sobre ele.

No entanto, chamar sua vida escondida no acampamento de uma experiência de cura romântica... era um pouco difícil. Estar fugindo de alguém também tinha seu papel nisso, mas o mais inconveniente para ela era seu inimigo natural.

— Ouvi dizer que Yennekar passou por aqui de manhã. Acho que ela veio para ler alguns livros perto da fogueira e depois fazer um pouco de treinamento espiritual. Se precisar de algo, também pode falar com ela.

Na noite anterior, Yennekar ficou até o último momento possível, até o toque de recolher, quando teve que voltar para o Dex Hall.

Ela retornou à floresta ao norte logo pela manhã. Parecia estar passando todo o seu tempo ali, durante os três dias completos em que Lortel ficou no acampamento.

Ocasionalmente, quando seus olhares se cruzavam do lado de fora da porta, Yennekar sorria com a expressão mais brilhante e positiva do mundo. Não ficando para trás, Lortel respondia com seu próprio sorriso radiante e enérgico. Parecia que estavam começando a se cansar de lidar uma com a outra.

De qualquer forma, nos três dias em que desistiu de sua vida como mercadora, o único inimigo de Lortel foi Yennekar.

...Ou pelo menos, era o que pensava.

— Lucy vem muito ao acampamento?

— E como vem. Já a considero um desastre natural.

— ……

Lortel sentiu seu instinto único começar a alertá-la.

Pensando no fato de que viu Lucy tanto naquele dia quanto no anterior, começou a se perguntar se ela não estava passando tempo demais no acampamento.

Sempre que tinha a chance, sentava-se ao lado de Ed, pegava um pedaço de carne seca do varal, dormia em algum lugar como o telhado da cabana ou ia até as pedras próximas a Ed enquanto ele cortava lenha para contar-lhe histórias aleatórias.

Para começo de conversa, não havia razão para suspeitar de Lucy, considerando sua personalidade. Mas isso era apenas na situação atual.

Até mesmo Ed começou a enxergar suas visitas ao acampamento como algo natural, como parte da paisagem. Sempre que voltava a si, ela já estava sentada ao seu lado. Isso não era um pouco perigoso?

Como foi dito antes, a oportunidade para que um relacionamento entre um homem e uma mulher avançasse vinha de uma mudança na percepção. Se Lucy mudasse seu comportamento e começasse a sentir algum tipo de amor ou desejo por Ed... haveria outro desastre além de Yennekar. Na verdade, poderia ser ainda mais problemático.

Foi uma das muitas lições que aprendeu no mundo dos negócios. Se encontrasse a semente de um desastre, o melhor era arrancá-la imediatamente.

No entanto, a maneira de fazer isso era complicada. Se alguém perguntasse "Como?", ela só poderia responder com uma resposta vaga.

— Pode ficar um pouco barulhento, mas estou muito ocupado, então tente entender.

Ed trouxe um monte de tijolos que surgiram sabe-se lá de onde e começou a empilhá-los.

Lortel assentiu timidamente enquanto lançava um olhar para o abrigo de madeira, mal conseguindo enxergar através da fresta da porta entreaberta.

Vestindo roupas completamente desalinhadas e amassadas, Lucy, que estava deitada enquanto enchia a boca de carne seca, acabou adormecendo… Sua aparência definitivamente sugeria que ela não tinha o menor interesse no amor, ou no desejo de manter Ed só para si.

Para começo de conversa, era evidente que ela havia construído algum tipo de barreira contra esses sentimentos… Lortel começou a se perguntar se não estava apenas exagerando.

De qualquer forma, Lucy era difícil de entender sob a perspectiva de uma pessoa comum, devido às suas ações imprevisíveis.

Não havia mal em ser cuidadosa, mas também não precisava se preocupar tanto a ponto de se cansar sem motivo.

O relacionamento entre Ed e Lucy era algo entre os dois, não cabia a Lortel intervir. Mesmo que ainda não estivessem em um relacionamento romântico, tentar restringir as ações de seu possível parceiro parecia ser um jogo cansativo.

Após um breve momento de autorreflexão, Lortel assentiu para si mesma enquanto se recostava contra a parede da cabana.

Talvez tivesse ficado excessivamente sensível a esses sentimentos desconhecidos. Aos poucos, começou a se acostumar com essa nova faceta sua, tão diferente da sua postura habitual.

Abraçando os joelhos, apoiou o queixo sobre eles, brincando com o próprio cabelo enquanto lançava olhares discretos para as costas de Ed, que carregava os tijolos.

Não conseguiu evitar soltar uma risada boba, embora não quisesse manchar sua imagem de mercadora experiente e impiedosa deixando esse lado transparecer. Então, abaixou a cabeça.

Por ora, sua máscara era sua arma mais poderosa.

De qualquer forma, acreditava que não precisava se preocupar demais com os outros relacionamentos de Ed.

Tinha mais do que tempo suficiente pela frente.


[Novo Produto Concluído]

Tijolo Feito à Mão

Um tijolo formado ao despejar barro em um molde para manter sua forma.

Após ser completamente seco, é aplicado o feitiço Ignite para queimá-lo até virar um tijolo sólido.

Nível de Dificuldade da Produção: ⬤〇

《 Produção concluída. As habilidades de produção aumentaram. 》



[Novo Produto Concluído]

Lareira de Tijolos

Uma lareira feita empilhando tijolos feitos à mão.

Como as juntas foram tratadas apenas com barro, sua estrutura não é muito resistente.

No entanto, parece cumprir bem seu papel como fogão.

Se for utilizada em ambientes fechados, será necessário anexar um tubo de ventilação.

Nível de Dificuldade da Produção: ⬤◐

《 Produção concluída. As habilidades de produção aumentaram. 》


Crackle, crackle.

Passei a manhã inteira trabalhando nisso, mas ainda não tive tempo para construir uma chaminé. Não tive escolha senão usar a tarde para isso ou trabalhar até tarde da noite.

Ainda assim, fiquei satisfeito com o nível do produto final. Era uma sensação agradável, algo que não sentia fazia um bom tempo. Mais um pouco, e não demoraria muito até o dia em que pudesse me mudar definitivamente para a cabana.

Ter um ambiente seguro para viver… Que pensamento dos sonhos.

— Oh… O cheiro é bem único. Você colocou manjericão?

— Bell me deu um pouco da última vez. Você percebeu só pelo cheiro?

— Tenho bastante confiança no meu olfato.

Lortel, que cantarolava uma música. Yennekar, que a encarava com uma expressão fechada. E, por fim, eu.

Os três estávamos reunidos em volta do fogo, enquanto eu terminava de preparar o almoço.

O prato era feito de peixe cru, cortado em filés e grelhado em uma grelha com diversas especiarias como tempero.

À medida que minha proficiência em culinária aumentava com o tempo, e considerando que eu estava em um ambiente onde podia reunir e utilizar uma variedade de ingredientes, parecia que os tipos de comida que eu podia comer haviam se expandido bastante.

Bem, ainda era tudo comida vinda da natureza... Mas, de qualquer forma, o sabor vinha melhorando a cada dia, o que era positivo. Quando terminasse de construir a cabana, talvez não fosse uma má ideia tentar cultivar alguns vegetais pequenos por conta própria.

Dando uma mordida com um espeto, percebi o quanto estava suculento. O caldo se espalhou na minha boca, me fazendo salivar.

— Não vi nenhum movimento significativo esta manhã. Acho que as coisas estão indo conforme o planejado.

Lortel cobriu a boca com um gesto discreto enquanto mastigava sua comida e continuou falando. Yennekar parecia estar chateada, pois fazia bico sem dizer nada.

— Depois de chegar até aqui, tudo o que resta é esperar pelos resultados.

— Certo. Isso é bom, mas não baixe a guarda.

— Claro, Ed.

Lortel sorriu animadamente ao responder com uma voz alegre, o que era incomum.

— Bem, há muito trabalho a ser feito agora. Há várias coisas para limpar depois do que aconteceu, e também preciso te pagar de volta.

— Vinte moedas de ouro não são grande coisa para o seu bolso, certo?

— Não importa o quão pequena seja a quantia, deve ser paga corretamente. Afinal, sou uma mercadora. Tem algo mais que você queira, além do dinheiro? Ainda tenho alguns estoques sobrando no depósito da filial que posso deixar para você.

— Não sei... Sinto que você tentaria me passar a perna dando mercadorias em vez do dinheiro.

— Oh, meu Deus.

Lortel torceu uma mecha de seu cabelo avermelhado enquanto soltava uma risada leve.

— Eu não jogaria um jogo para tentar te enganar. Por que está tentando me deixar triste?

— Hmm... Algo que me vem à mente agora... Talvez materiais de construção? … Não, já sei o que quero. Que tal produtos de engenharia mágica que sobraram?

— Produtos de engenharia mágica?

Eu já tinha decidido qual seria meu próximo foco na habilidade de produção. Engenharia Mágica e Infusão Espiritual.

Entre as duas, a habilidade relacionada à Engenharia Mágica exigia que se tivesse contato com o maior número possível de produtos do tipo para aumentar a proficiência. Por isso, era muito mais fácil se você conhecesse alguém que pudesse fornecê-los.

— Não precisa ser nada útil. Apenas qualquer item barato que tenha sobrado.

— Hmm…

Lortel levou a mão ao queixo, parecendo pensativa.

— Pode me avisar depois que verificar seu estoque.

— Não, vou pensar nisso agora. Já memorizei praticamente tudo.

— Você memorizou tudo isso?

— Como eu checo os estoques todos os dias, consigo memorizar certos itens que não têm muita movimentação.

Não tinha certeza, pois não era algo que estava considerando seriamente no momento, mas Lortel parecia levar meu pedido mais a sério e com mais determinação do que eu esperava.

— Mas há algum motivo para você estar pedindo itens baratos e sem muita demanda?

— Bem… Não vai ser algo tão útil assim, e seria ridículo pedir algo caro, criando outra dívida ou um fardo.

— Ahh. Se for isso, então… Me dê um momento enquanto tento encontrar algo...

Lortel sorriu enquanto se afastava um pouco, mergulhando em pensamentos.

Esperei um ou dois minutos... Mas, como ela ficou um tempo sentada pensando, aproveitei para pegar mais um pouco de comida.

— Pensando bem, Yennekar, gostaria de te pedir um favor.

— Hhmng?

Yennekar, que estava comendo um pedaço de peixe, estremeceu. Talvez tivesse se assustado por eu ter chamado seu nome de repente, ou talvez estivesse se engasgando. Rapidamente, entreguei-lhe um pouco de água.

— Puhaaaaa!

— ……

— Você tem um favor para me pedir?

Eu hesitei um pouco antes de falar, mas, depois de pensar melhor, percebi que não havia motivo para tanta preocupação.

— Ultimamente, estou tentando aprender mais sobre magia espiritual. Também quero tentar fazer um contrato com um espírito de baixo escalão. Estava me perguntando se poderia me ajudar com isso.

— Sim.

Yennekar torceu uma mecha do cabelo trançado enquanto cantarolava pensativa. De repente, soltou um “aha!” e assentiu.

— Pensando bem, Takan tem falado muito sobre você, Ed. O pescoço dele ainda está meio rígido depois do que você fez.

— ……

— Não precisa fazer essa cara, Ed. Takan pode ser um pouco ranzinza, mas eu já deixei bem claro para ele. Você não tinha escolha por causa das circunstâncias. Disse para ele parar de agir emocionalmente, ou então eu ficaria brava!

Ao imaginá-la irritada, a única cena que me vinha à mente era Yennekar batendo os pés no chão e estufando as bochechas. Para ser sincero, não era algo muito convincente.

Não havia nada de bom em estar em maus termos com um espírito de alto escalão, mas… Ele provavelmente não descontaria sua raiva em mim, certo?

— Takan ainda não recuperou totalmente sua força. Mesmo assim, sei que foi você quem conseguiu contê-lo enquanto ele estava sob o efeito do Berserk... Ele ainda reclama um pouco, mas acho que não guarda rancor. De qualquer forma, Ed, sua Ressonância Espiritual deve ser bem alta.

— Acho que sim.

Esse foi o resultado de derrotar não apenas Takan, mas também todos os outros espíritos sob o controle de Yennekar.

Eu tinha certeza de que Yennekar entendia muito bem que foi uma situação em que eu não tive outra escolha.

Para começo de conversa, ela ainda parecia carregar uma grande culpa pelo que aconteceu e não queria continuar falando sobre o assunto.

— Então… Você consegue ver…?

Yennekar falou repentinamente, abrindo os braços.

— …Hã?

— Hmm… Parece que sua sensibilidade para enxergar espíritos que ainda não se manifestaram é muito baixa... Quer tentar segurar minha mão, Ed?

— Sua mão? Do nada?

— Não... não! Não é isso que eu quis dizer! É que tem algo que quero te mostrar, só isso!

Eu não tinha nenhuma suspeita para começo de conversa, então apenas segurei sua mão.

— O-oh. Ed, s-sua mão é maior do que eu imaginava.

— Sua mão é que é pequena.

Dizendo isso, fechei os olhos por um momento antes de abri-los novamente… E não pude evitar me surpreender.

— Cinquenta e três… Isso é um pouco menos do que o normal...

Coelho, falcão, cervo, tigre, águia, filhote de cachorro, pardal… inúmeros animais, em uma quantidade difícil de listar, estavam ao nosso redor. Cada um deles possuía tamanhos e elementos diferentes que compunham seus corpos. Era uma visão incrivelmente rara de se ver.

Um pardal feito de vento estava pousado no ombro de Yennekar. Enrolado em seu braço direito, havia uma jovem jiboia. Um filhote de cachorro, com terra caindo das patas, perambulava aos seus pés. Um cervo feito de fogo esfregava o rosto contra a bochecha de Yennekar.

— É sempre assim...?

— Normalmente, eles ficam mais espalhados, mas sempre que venho para a floresta do norte, acabam se reunindo assim. Essa cobra, você consegue vê-la claramente, certo? Faz pouco tempo que ela se transformou de um espírito fluido para um espírito de baixo escalão.

— Quantos espíritos você contratou para começo de conversa?

— Hm? Não sei… Não fiz contrato com todos esses aqui... Hm… Tem um espírito de alto escalão, seis de nível médio e, quanto aos de baixo escalão... Nunca contei um por um. Mas acho que já passou da casa dos três dígitos.

Ao alcançar o nível mais baixo das habilidades Ressonância Espiritual e Compreensão Espiritual, normalmente se consegue, no máximo, dois slots para espíritos.

Na realidade, ela era apenas uma garota que nasceu sendo amada pelos espíritos.

Havia cerca de quinze espíritos que eu conseguia ver, mas, considerando aqueles que ainda não conseguia detectar, quantos será que existiam ao todo?

— De qualquer forma, se você está interessado em estudos espirituais, posso te ensinar algumas coisas. Mas sinto que sou muito melhor nos aspectos sensoriais do que na parte teórica... Se for apenas teoria mágica básica, a Ayla entende muito mais do que eu… Mas, mesmo assim, o mais importante é você desenvolver sua percepção prática sobre o Elementalismo...

Ayla, a companheira de Taylee, não era exatamente forte em combate, mas possuía um conhecimento profundo sobre magia.

Assim como existe uma diferença entre ciência e percepção sensorial, Yennekar era um tipo de Elementalista extremamente desenvolvida no sentido sensorial.

Se alguém quisesse aprender estudos espirituais, que possuíam uma barreira de entrada bastante rígida, o ideal era obter ajuda de outro Elementalista.

No que se tratava de espiritualismo, ninguém dentro de Silvenia possuía um nível de sensibilidade mais apurado que Yennekar.

— De qualquer forma, pelo fato de você já estar pensando em seu primeiro contrato, sua Ressonância Espiritual deve ser bem alta. Quando te conheci, você era completamente alheio a isso. Cresceu tão rápido, Ed. Parece que tem bastante talento.

Tenho certeza de que Yennekar sabia exatamente por que eu consegui crescer tão rápido... Mais do que qualquer outra coisa, o maior motivo foi o fato de eu ter cortado a cabeça de Takan.

— Além disso, também gostaria de receber sua ajuda com minha sensibilidade. Há um limite para o que posso aprender em uma simples aula acadêmica sobre estudos espirituais.

— Claro! Não se preocupe com isso!

Yennekar Palerover era alguém difícil de se aproximar de propósito. Ter uma colega tão confiável ao meu lado era algo do qual eu precisava tirar proveito.

Onde mais eu conseguiria um treinamento particular com uma Elementalista desse nível? Se eu pudesse aproveitar essa oportunidade, precisava fazer o máximo possível… Mas não achei certo dizer isso dessa forma.

De qualquer maneira, Yennekar estava me ajudando por pura boa vontade.

— Então, serei a mestra do Ed!

Yennekar riu antes de pigarrear.

Para parecer mais digna, colocou as mãos na cintura e inflou o peito, enquanto tentava manter uma postura confiante. No entanto, mais do que imponente, sua expressão e postura pareciam apenas adoráveis.

Ainda assim, não queria provocar Yennekar, que parecia estar se sentindo melhor, desnecessariamente, então bati palmas e exclamei:

— Ohhhh!

— Não se preocupe! No que diz respeito à magia espiritual, vou me responsabilizar por desenvolver sua sensibilidade! Farei com que consiga firmar um contrato com um espírito de nível médio em pouco tempo!

Ao vê-la sorrir enquanto pigarreava, inclinei a cabeça em sinal de gratidão.

— Então… Parece que você tem dificuldades para se comunicar diretamente com os espíritos?

— Às vezes, minha voz parece alcançar os espíritos de nível baixo que consigo ver, mas não consigo entender direito o que dizem para mim.

— Sério? Hmm… Considerando o nível de magia com que você lida, isso não deveria acontecer. Sua Ressonância Espiritual e Ressonância de Mana já aumentaram para um nível bem decente, não?

— Sim, aumentaram…

— Então… Tem certeza de que o problema não é simplesmente os espíritos não estarem falando com você? Mesmo que não consiga ouvi-los claramente, deveria pelo menos ser capaz de captar suas vozes de forma vaga…

Yennekar disse isso enquanto apontava o dedo indicador para o pardal pousado em seu ombro.

O pequeno pardal rapidamente pulou para a ponta de seu dedo.

— Charis! Pode tentar falar com o Ed?

[Lady Yennekar! Esse cara… porque… não consegue!]

'Oh…! Eu realmente consegui ouvir algo, ainda que de forma vaga…!'

Conforme comecei a focar meus sentidos usando poder mágico, a voz começou a se tornar mais nítida.

[Para começar, para que ele consiga nos entender completamente, precisa elevar sua ressonância para um nível mais alto!]

— É mesmo? Mas acho que o crescimento do Ed já está bem rápido.

[Pense na rotina desse homem! Quanto tempo ele tem para treinar magia! Você sabe disso! No nosso encontro semanal de relatórios, na janela do seu quarto no Dex Hall, número 203, foi relatado que ele estava ficando sem comida no estoque e que precisava focar imediatamente na construção da cabana. Então, ele não teve tempo de se concentrar em mais nada, AUGHKA...]

O fluxo do poder mágico começou a se distorcer, e o espírito em forma de pardal, que estava pousado na palma de sua mão, desapareceu em um instante.

— Você ouviu isso...?

— Vagamente...?

Silêncio absoluto.

— Mas o que é essa reunião semanal de relatórios?

— Bem, como você sabe, a floresta do norte é um lugar onde muitos espíritos vivem. Então, fazemos esse tipo de reunião para relatar qualquer mudança importante que aconteça ou algo que queiram me avisar, para que eu possa ficar de olho no lugar. Também servem para que relatem se há algo que os incomoda. Às vezes, só um pouco, algumas notícias sobre você podem surgir. Mas não é muita coisa. Como posso explicar…? Eles só mencionam você de forma breve, por educação…? Como quando você cumprimenta um vizinho ao passar por ele?

— É mesmo...?

Ela estava falando de um jeito estranho e evasivo. Mas, no fim, o que realmente importava agora era meu método de treinamento para magia espiritual.

— De qualquer forma, vou monitorar regularmente sua Ressonância Espiritual. Quando se trata de percepção sensorial, sou provavelmente a melhor da academia. Para começar, não há muitas pessoas que desenvolveram um verdadeiro sentido espiritual.

— Certo. Obrigado por isso.

Com a ajuda de uma Elementalista habilidosa, minha magia espiritual melhoraria rapidamente em um curto período de tempo. Ter me aproximado dela foi, sem dúvida, uma ótima decisão.

Ainda assim, minha mente continuava a pensar bastante sobre Engenharia Mágica.

— Oh, já terminaram a conversa?

Ainda exibindo seu sorriso característico, Lortel entrou na conversa.

— Sim.

— Então, vamos terminar de discutir os produtos de engenharia mágica. Parece que temos muito mais sobras do que eu imaginava, então posso te fornecer uma quantidade mais do que suficiente.

Ótimas notícias desse lado também.

— A maioria dos produtos está sendo tratada como ativos sem valor, já que ou já passaram da validade ou não foram vendidos dentro de um certo período de tempo.

— Oh. Nesse caso, pode me vender pelo menor preço possível? Podemos descontar do valor das vinte moedas de ouro que me prometeu.

— Vender por um preço menor? Fico bem chateada ouvindo essas palavras vindo de você. De qualquer forma, não é uma quantia tão grande de dinheiro, e esses produtos são praticamente ativos mortos… Então, até mesmo de graça…

Após dizer isso, Lortel balançou a cabeça por um momento, olhando de um lado para o outro entre Yennekar e eu.

Lortel me olhou com uma expressão intrigada antes de voltar a sorrir com aquele sorriso astuto de sempre.

— De graça… Sendo eu uma mercadora, talvez isso seja um pouco demais para mim, hm?

— Tudo bem. Eu já entendi completamente sua posição, de qualquer forma.

— Ainda assim, vou vender para você pelo menor preço possível. Sempre que houver um estoque inútil, podemos continuar fazendo negócios. No entanto, como envolve troca de dinheiro, precisamos redigir um contrato… Além disso, toda vez que eu vender algo para você, precisarei emitir um certificado de venda.

— Você costuma ir tão longe assim só por um contrato de venda?

— Bem, é porque temos um compromisso especial, não acha? Porque estou te vendendo barato? Hahaha. É só que…

Lortel sorriu alegremente enquanto continuava.

— Já que você terá que renovar o contrato toda vez, deveria visitar a filial da Companhia Elte no distrito comercial de tempos em tempos. Bem, já que estará indo mesmo, seria ótimo para tomarmos um chá e trocarmos algumas histórias. Considerando a rotatividade dos produtos, quanto mais frequente o contrato, melhor. Então, que tal uma vez por semana… Não, que tal uma vez a cada três dias?

— Bem, sendo um contrato, não tem como evitar que seja um pouco trabalhoso. Mas nem pense em tentar se aproveitar de mim.

— Oh, meu Deus. Como eu já disse da última vez… O segredo da longevidade da Companhia Elte é ter consciência.

Ter um local onde eu pudesse obter itens de engenharia mágica de maneira segura era realmente importante.

Eu só precisava ajustar os detalhes quando fosse lá mais tarde. Não era como se eu não soubesse avaliar itens de engenharia mágica.

— Mas… Tem certeza de que está tudo bem em me dar tanto de graça…?

De repente, Yennekar entrou na conversa.

— Ed te ajudou tanto desta vez. Se for uma quantia que não causará muito impacto nos livros contábeis, então não há necessidade de ser tão rigorosa com o contrato.

Yennekar falou com um tom estranhamente rígido, e Lortel respondeu em um tom firme.

— Ainda sou uma mercadora. Mesmo que ele seja meu salvador, não posso simplesmente dar itens de graça. Isso vai contra minha ética profissional.

— Mentira! Você só está inventando desculpas!

— Desculpas? Que desculpas?

Piscando os olhos com uma expressão inocente, Lortel olhou para Yennekar como se estivesse diante de uma garota que não entendia nada do mundo.

Claro, não havia como Lortel ser tão ingênua assim.

Na verdade, parecia haver espaço para uma negociação mais vantajosa no preço.

Havia uma grande chance de que, se Lortel fosse pressionada sobre seu envolvimento na ocupação do Ophelis Hall, eu teria uma posição mais favorável no contrato.

Era um ponto bastante perspicaz que Yennekar havia percebido. Não se podia ignorar o coração de Lortel, que faria qualquer coisa de questionável moralidade apenas para lucrar uma única moeda a mais.

Fiquei um momento em silêncio, pensando em como encerrar aquela conversa.

— Oh, meu… Não esperava ver Lady Lortel aqui.

Virando a cabeça em direção à floresta, vi o rosto de uma visitante familiar.

— Senhorita Bell?

— Hm…

— O que foi?

Ao nos ver, Lortel, Yennekar e eu sentados ao redor da fogueira, Bell pressionou as têmporas com os dedos e fechou os olhos suavemente.

— Não, me desculpem. Mas só de ver todos vocês aqui juntos, sinto que minha cabeça já está girando.

— O quê…?

— Essa situação não parece muito pacífica. Peço desculpas por aparecer aqui tão de repente.

Lortel foi a primeira a ter um olhar frio.

Ela não queria ver ninguém relacionado ao Ophelis Hall. Não queria que descobrissem sua localização.

Embora, na verdade, naquele momento, sua vitória já estivesse praticamente garantida. A venda dos equipamentos já deveria ter sido concluída. Se Elte estivesse tentando derrotá-la, ele deveria ter chegado à cabana na noite anterior.

Mesmo assim, só por precaução, ela estava esperando um pouco mais antes de sair. Queria garantir que aproveitaria os fogos de artifício, apenas aguardando uma confirmação concreta de sua vitória.

Ainda assim, o uniforme de Bell parecia incomodá-la.

Comparado ao seu traje habitual de empregada sênior, este era mais sofisticado. Era a vestimenta de uma governanta-chefe.

O fato de Bell já ter assumido essa posição após Elris significava que o incidente do Ophelis Hall havia se resolvido bem, pelo menos de acordo com a linha do tempo original.

Bell chegou com a mesma elegância e serenidade de sempre, sentando-se cuidadosamente diante do grupo.

— Sinto muito por trazer notícias desagradáveis, mas…

Com os olhos fechados, ela continuou a falar lentamente.

Eu já imaginava o que Bell iria dizer, então desviei o olhar silenciosamente.

Observando a fogueira crepitante, joguei mais alguns pedaços de lenha no fogo.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora