Volume 7
Capítulo 6: 17 de Fevereiro (Quarta-Feira) - Saki Ayase
17 DE FEVEREIRO (QUARTA-FEIRA) – DIA 1 DA VIAGEM DE CAMPO – SAKI AYASE
Na noite anterior à partida, eu estava um pouco preocupada se conseguiria dormir o suficiente. No entanto, no momento em que fechei os olhos, minha consciência afundou imediatamente em um abismo profundo. Senti um conforto quase embriagante na minha cama macia e quente, flutuando entre o sonho e o sono. Pensando agora, nem sei se cheguei a sonhar ou não. Ainda assim, em algum momento, abri os olhos para a escuridão do meu quarto — antes mesmo do despertador tocar.
No lugar dele, ouvi apenas o leve zumbido do ar-condicionado. Parece que o temporizador funcionou exatamente como eu planejei, e eu não senti frio nem mesmo ao colocar braços e pernas para fora do cobertor. Isso já era suficiente, então me levantei da cama. Logo em seguida, lembrei do que aconteceu na noite anterior e, instintivamente, toquei de leve meus lábios, deixando escapar um pequeno riso. Eu devia estar sorrindo sozinha.
Mas não era hora de ficar presa a lembranças. Precisava me arrumar logo.
Depois de terminar a maquiagem, acabei encontrando o Asamura assim que ele entrou no banheiro. Pelo visto, ele tinha acabado de acordar. Ainda parecia meio sonolento, o que me deixou um pouco preocupada — talvez estivéssemos com o tempo meio apertado.
Depois, tomamos café com os onigiris e a sopa de missô que a mamãe preparou. Estava delicioso como sempre, mas fiquei com receio de a alga ter ficado presa nos meus dentes. Decidi não abrir muito a boca na frente do Asamura antes de me conferir no espelho.
Com bastante tempo de sobra, saímos de casa. Pegamos a linha Yamanote na estação Shibuya e fizemos baldeação em Nippori rumo a Narita. A partir dali, era só esperar até chegar — então deveríamos conseguir chegar a tempo.
Sentada no trem, dei uma olhada no rosto do Asamura ao meu lado. Ele bocejava o tempo todo, então devia estar com muito sono. Era visível o esforço dele para não cochilar. Nossos ombros acabaram se encostando algumas vezes, e ele imediatamente se endireitava. Toda vez que isso acontecia, ele pedia desculpa, mas… eu não teria me importado se ele simplesmente se apoiasse em mim e dormisse um pouco.
A essa hora, o trem estava praticamente vazio, e não vi nenhum uniforme conhecido.
Eventualmente, chegamos ao segundo terminal do Aeroporto de Narita, como planejado. Corremos até o ponto de encontro, e ao avistar um grupo de alunos com nosso uniforme, o Asamura parou.
“Então… vamos nos separar aqui.”
“Tome cuidado durante a viagem, tá?”
“Você também.”
Deixei o Asamura para trás e fui até a minha turma.
Mas, de forma estranha… quanto mais eu me afastava dele, mais meus passos desaceleravam. Porque, quando me juntasse à turma, passaríamos a viagem inteira separados. O tempo todo.
“Saki! Anda logo! Aqui!” Maaya acenava para mim com tanta energia que parecia até cortar o ar.
Acabei sorrindo. Já dava pra nos ver perfeitamente, então não entendi essa pressa toda.
A terceira integrante do nosso grupo era a Satou Ryouko, e também tínhamos três garotos — um pouco barulhentos, diga-se de passagem. Antes de me juntar a eles, olhei para trás uma última vez tentando encontrar o Asamura… mas já não consegui mais vê-lo.
Falando nisso, minha amiga Narasaka Maaya tem habilidades sociais absurdas. Ela é praticamente uma rainha da comunicação. Não deve haver muitas garotas no mundo que consigam fazer cem amigos com tanta facilidade. E não importa se são meninos ou meninas — ela se dá bem com qualquer pessoa.
Ainda assim, surpreendentemente, naquele momento ela estava espantando os garotos que se aproximavam.
“Ei, vocês! Nada de invadir o grupo das garotas! Vão se divertir com os seus amigos!”
Ela abriu os braços na nossa frente, como se estivesse nos protegendo, e depois alertou as outras garotas:
“Cuidado com esses caras que ficam animadinhos só porque é viagem escolar!”
As garotas riram, e os meninos só puderam responder com sorrisos sem graça.
Depois, ela se virou para nós.
“Escuta, Satou. Se esses caras chegarem muito perto, me avisa, tá? Eu dou uma bronca neles!”
“Tá bom… obrigada, Narasaka.”
“E você também, Saki!”
“Acho que comigo vai ficar tudo bem.”
Eu sei como as pessoas me veem. Tenho melhorado na integração com a turma, mas ainda parece que muitos ficam um pouco intimidados comigo. Também, com essa aparência…
“Não baixa a guarda.”
“Tá bom…”
Ela fez uma expressão séria de repente, o que me pegou desprevenida.
“Você vai ser uma esposa um dia, então cuide bem do seu corpo. A não ser que eu seja o sortudo. Aposto que você ficaria linda de hakama.”
[Ayko: Hakama é uma roupa tradicional japonesa, muito vista em templos sendo utilizada por mulheres, pode parecer uma saia plissada ou uma calça beeeem larga que é utilizada por cima dos quimonos. É uma das minhas roupas favoritas por sinal, a combinação branca e vermelha]
“Isso não vai acontecer, tá?”
Por que ela sempre precisa levar as piadas um passo além?
Até a Satou estava rindo. Mas, pelo menos, isso pareceu ajudá-la a relaxar um pouco. Ela parou de parecer um gatinho assustado. Provavelmente era esse o objetivo da Maaya desde o início.
Ela realmente pensou bem na formação do grupo.
“Desculpa por esses dois, Narasaka. Vamos lá, a fila dos meninos é pra lá, lembram?”
Um dos garotos puxou os outros dois de volta. Com ele por perto, acho que tudo ficaria sob controle.
Logo depois, os professores começaram a nos organizar. Alguns alunos vibravam de empolgação, mas a maioria seguia em silêncio. Muitos nunca tinham saído do país — então estavam mais nervosos do que animados.
Eu também.
Fiquei bem nervosa enquanto esperávamos para embarcar. Mas, depois de entrar no avião, não parecia muito diferente de pegar um ônibus. Os avisos eram feitos em inglês, chinês e japonês — o que foi interessante — mas logo pensei que o shinkansen fazia algo parecido.
E então foi como qualquer viagem escolar: conversar, comer, rir… e às vezes levar bronca.
Bom, eu não sou muito boa com conversas triviais. A Satou parecia ser igual, então fiquei ainda mais grata pela presença da Maaya. Sem ela, provavelmente passaríamos sete horas em completo silêncio.
Fiquei feliz por ter conseguido um assento na janela. Se a conversa ficasse demais, eu poderia simplesmente olhar para fora. Ver a paisagem se transformar em algo parecido com imagens de satélite me fez perceber, finalmente, que estávamos indo para o exterior.
Meu coração batia mais rápido.
Ajustei o fuso horário do celular e comecei a ler o guia turístico, quando a Maaya sugeriu assistirmos a um filme. Provavelmente foi mais uma forma dela nos poupar do esforço de conversar.
No fim, assistimos ao mais novo filme de um anime de mistério famoso. Um garoto do ensino fundamental resolvia um caso de assassinato. Era meio absurdo, mas divertido.
Perto do meio-dia, começamos a comer. A comissária passou com o carrinho e disse a frase clássica que eu sempre quis ouvir:
“Beef or chicken?”
Não foi nem uma conversa de verdade, mas mesmo assim… me fez perceber que estávamos mesmo indo para outro país.
Claro, escolhi frango.
Eventualmente, chegamos ao Aeroporto de Changi, em Singapura. Depois do check-in no hotel, fomos ao museu. No início e no fim ficamos em grupo, mas lá dentro nos dividimos em trios — sem os meninos.
A Satou pareceu aliviada. Eu também gostei da ideia de andar com calma.
Contei isso para a Maaya, e ela respondeu:
“A gentileza gera gentileza, Saki.”
“…Você só queria dizer isso uma vez, né?”
Mas isso é bem a cara dela.
Infelizmente, o guia do museu falava japonês fluentemente. Todo o meu esforço aprendendo inglês pareceu inútil naquele momento. Será que essa viagem inteira vai ser assim?
E se o meu “chicken” tiver sido o auge do meu inglês…?
Voltamos ao hotel, jantamos e fomos tomar banho. Fiquei no mesmo quarto que a Maaya e a Satou Ryouko. Apesar de estarmos na mesma turma há quase um ano, nunca tinha ouvido a Satou falar tanto.
“Desculpa… eu achava que você era meio assustadora, Ayase.”
“Relaxa! Ela pode parecer, mas na verdade é uma irmãzinha adorável que encanta todos os irmãos mais velhos do mundo! Incrível, né?”
“Por que você está dizendo isso, Maaya?”
“Ayase, você tem um irmão mais velho?”
Meu coração quase parou.
“Ah, é que…”
“Não! Mas ela adora agir como irmã mais nova! É o ‘atributo irmãzinha’!”
“…Entendi?” Satou parecia confusa.
Nem eu entendi.
“Existem dois tipos de garotas no mundo: as que são irmãs mais novas e as que não são!”
“Mas isso vale pra qualquer coisa…”
“Ter irmãos pode ser cansativo. Eles são barulhentos.”
“Mas você não fica sozinha, né?”
“…É verdade. Mas hoje foi tão tranquilo!”
As duas riram.
Fui até a janela olhar a vista. O dia foi divertido. Aprendi muita coisa nova.
Mas, quando tudo ficou silencioso assim… comecei a pensar como teria sido viver tudo isso com o Asamura.
Desde que nos despedimos de manhã, não nos vimos mais.
Talvez… eu pudesse encontrá-lo.
Podia mandar mensagem. Tínhamos wi-fi.
Quero vê-lo.
Quero ouvir sua voz.
Ou pelo menos falar um pouco.
Mas então…
“Sakiii! Para de ficar aí parada e vem pra cá! Uma vista dessas só se aprecia com um homem bonito e uma taça de vinho!”
“Maaya… desde quando você virou um tio de meia-idade?”
Ela levou a mão ao peito e caiu dramaticamente na cama.
“N-Narasaka, você tá bem?”
“Estou acabada… fui derrotada pela Saki… vou escrever minha última mensagem com esses palitinhos…”
“Hã? Hã?”
“Para de assustar a Satou,” eu disse, sorrindo de leve.
Talvez o Asamura estivesse se divertindo com os amigos… não seria justo interromper só porque eu estava me sentindo sozinha.
…É.
E assim, o primeiro dia da viagem chegou ao fim.
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