Volume 6
Capítulo 12: 31 de Dezembro (Quinta-Feira) - Saki Ayase
31 DE DEZEMBRO (QUINTA-FEIRA) — SAKI AYASE
“Eles têm um tataki…”
Soltei aquilo sem perceber.
A casa do pai do Asamura era grande, uma kominka, provavelmente construída nas décadas de 1920 ou 30. Tinha telhado de telhas e, logo na entrada, um piso de terra batida chamado tataki.
Ao atravessarmos o agari-gamachi, a parte elevada de madeira que marca a entrada da casa, vi o corredor revestido de madeira. Brilhava como ébano polido — dava para perceber que era muito bem cuidado.
Eu sempre gostei de construções e móveis antigos, especialmente daqueles que foram preservados com carinho. Eles parecem carregar consigo tudo o que já viveram.
Um corredor contornava a casa. As portas externas estavam abertas, revelando o jardim banhado pela luz inclinada do sol de inverno.
Tudo isso era incrível, mas eu estava começando a ficar um pouco… não, muito nervosa.
Para falar a verdade, eu estava apavorada.
Comecei a me perguntar por que tinha aceitado vir. Minhas habilidades sociais eram tão ruins que dava vontade de chorar. Eu não era como a Maaya, que conseguia se abrir com qualquer pessoa em três minutos.
A mãe do pai do Asamura parecia gentil. Ela ouviu com um sorriso suave enquanto eu e minha mãe nos apresentávamos. Ainda assim, eu não conseguia relaxar.
Do outro lado das portas de papel, dava para ouvir vozes e risadas.
“Ah, parece que estão se divertindo bastante”, disse minha madrasta-avó, enquanto abria a porta.
Havia várias pessoas sentadas em círculo em um grande cômodo japonês. Uma pressão invisível me atingiu, e dei um passo para trás sem perceber.
“Taichi chegou.”
“Ah! Finalmente. Tóquio é longe demais”, disse um homem idoso de cabelos grisalhos, levantando-se. Devia ser o pai dele. Ou seja, meu padrasto-avô. “Akiko, faz tempo. Como você está?”
“Estou bem, obrigada.”
Todos os olhares estavam voltados para minha mãe enquanto ela se curvava. Em seguida, vieram para mim.
Não eram olhares totalmente acolhedores — isso pesou no meu peito. Não era hostilidade exatamente. Era mais hesitação… como se não soubessem como lidar comigo.
“Certo, certo, depois conversamos. Akiko e Taichi devem estar exaustos da viagem. Vou levá-los até o quarto.”
Minha madrasta-avó acabou nos salvando.
Assim que a porta se fechou, consegui finalmente respirar. Soltei as mãos que nem percebi que estavam tensas.
Ah, não… Já estou com vontade de vomitar.
Será que era assim mesmo para a segunda esposa e sua filha nesse tipo de reunião?
Talvez minhas roupas — completamente normais para mim — fossem chamativas demais para aquele lugar. Suspirei, pensando se deveria ter pintado o cabelo de preto. Será que eu estava exagerando?
Ser adolescente era difícil. Você ficava preso entre dois mundos.
Se eu fosse da idade da minha mãe, ou ao menos universitária, ninguém estranharia meu cabelo, maquiagem ou acessórios. Na minha escola, isso era normal. Mesmo assim, ali… eu me sentia esmagada pelos olhares.
Respirei fundo. Eu precisava me acalmar. Não vim aqui para brigar.
Nós quatro iríamos dormir em um quarto japonês de cerca de treze metros quadrados.
Quando vi os futons no canto, tudo pareceu mais real.
Eu e o Asamura dormiríamos no mesmo quarto.
Claro, nossos pais também estariam ali… mas ainda assim. Eles me veriam dormindo… e ao acordar.
…Era o único quarto disponível?
“Sinto muito. Este ano não conseguimos preparar um quarto separado para as crianças…”
Antes que ela terminasse, alguém chamou do outro lado da porta. Um homem, por volta dos vinte e cinco ou vinte e seis anos, entrou acompanhado de uma mulher da mesma idade.
Dava para perceber de imediato que eram um casal. A mulher olhava constantemente para ele.
Asamura o chamou de Kousuke.
Ele disse que era seu primo, oito anos mais velho — então, devia ter uns vinte e cinco. Exatamente como imaginei. Em seguida, contou ao pai que a mulher ao lado dele era sua esposa.
“Sério?! Parabéns!”, disse o pai do Asamura, abrindo um sorriso enorme.
A boca do Asamura ficou entreaberta. Ele claramente não esperava por isso.
Depois das apresentações, os adultos voltaram para a sala.
Nós que ficamos trocamos algumas palavras.
Kousuke contou que conheceu Nagisa na faculdade, em um clube. Eles já se conheciam há bastante tempo. Também explicou por que decidiram oficializar o casamento antes da cerimônia.
Ele seria enviado para o exterior — e Nagisa decidiu ir com ele.
A cerimônia teria que esperar. Era impossível organizar tudo a tempo.
Casamento parecia complicado demais.
…Na verdade, eu nunca nem tinha pensado se queria me casar.
O casal à minha frente não estava tão distante de mim em termos de idade. Era próximo o suficiente para que eu conseguisse imaginar meu próprio futuro.
Eu queria perguntar muitas coisas… mas, nesse momento, duas crianças entraram correndo no quarto.
Um irmão mais velho e sua irmã. Ambos do ensino fundamental. Tinham cabelos claros e feições delicadas — eram tão fofos que parecia que o ambiente se iluminava quando sorriam.
Eles claramente gostavam do Asamura e começaram a se jogar nele, pedindo para brincar.
Resignado, ele cedeu.
Fomos para outro cômodo jogar videogame.
Kousuke e Nagisa voltaram para os adultos, e eu fiquei com o Asamura e as crianças.
Tenho que admitir… o Asamura era incrível com elas.
Ele parecia… um jovem pai.
…Será que ele seria assim no futuro?
O que estou pensando?!
Que vergonha…
Para começo de conversa, ninguém vira pai sozinho. Precisa de alguém ao lado…
Ah, não. Para com isso.
[Ayko: Sabemos bem o caminho que seus pensamentos estão seguindo senhorita Ayase hehe]
As crianças eram boas no jogo.
Eu só jogava com a Maaya, então não tinha muita prática.
No jogo, você controlava um pequeno chef e precisava cozinhar, cortar ingredientes e lavar pratos. Eu fazia tudo isso na vida real… mas com o controle, simplesmente não funcionava.
Queimei a carne.
E ainda coloquei fogo na cozinha inteira.
“Aaaahhh!”
“Aya, você é ruim de cozinhar?”, perguntou Mika.
Aquilo foi como uma facada.
Eu quase chorei.
Se uma simples frase de uma criança já doía tanto… como eu lidaria com isso?
“Asamura, por outro lado, lidava com naturalidade.
“Não, Mika. A Ayase cozinha muito bem. Isso é só um jogo. Vai dar certo da próxima vez.”
“Ficar tentando me defender assim só me faz me sentir pior”, respondi.
Eu estava frustrada.
Ele era tão melhor com crianças…
E eu não sabia o que fazer.
Com adultos já era difícil… com crianças era pior ainda.
Até discutir com a professora Kudou parecia fácil comparado a isso.
Quando eu era pequena, via quase todos os adultos — exceto minha mãe — como inimigos.
Pensar nisso agora era assustador.
Será que essas crianças me viam da mesma forma?
Será que me odiavam?
Quando o jantar ficou pronto, eu já estava exausta.
Mas aquilo era só o começo.
Depois, fomos todos para o jantar e apresentações.
Havia muitas pessoas.
Não consegui decorar todos os nomes.
Mais tarde, quando eu já estava cheia e com sono, disseram que iríamos ao santuário para o Ninen-Mairi.
Asamura disse que eu podia ficar e dormir…
Mas eu não queria ficar sozinha naquela casa enorme.
“…Eu vou.”
E fui com ele.
Fiquei aliviada por ele estar ali.
Sem ele… eu não saberia o que fazer.
Ainda bem.
Fomos a um santuário no topo da montanha.
Tínhamos que caminhar dois quilômetros.
Aquilo me deixou apreensiva… mas, surpreendentemente, acabou sendo divertido.
Eu sempre gostei de observar construções antigas.
E conversar com ele enquanto caminhávamos melhorou meu humor.
“Você gosta de pensar em como os edifícios antigos chegaram a ser o que são hoje, não é?”
Quando ele disse isso, percebi algo.
Eu nunca tinha olhado para mim mesma dessa forma.
É difícil se analisar.
Talvez eu nem soubesse quem eu realmente era.
Será que eu estava apenas me protegendo… como um porco-espinho, afastando os outros?
Eu só não queria me machucar.
Não queria machucar ninguém.
Levamos cerca de quarenta minutos até o santuário.
Em algum momento, o ano virou.
Quando cheguei ao altar, fiz minha oração.
Fechei os olhos… e comecei a pensar no último ano.
Principalmente nos últimos seis meses.
Foi em junho que me mudei.
Conhecer o Asamura mudou tudo.
Eu tinha uma visão ruim dos homens.
Mas ele…
Foi diferente.
Aos poucos, fui percebendo meus sentimentos.
E comecei a chamá-lo de irmão para me controlar.
Agora entendo.
Eu achava que estava tomando minhas próprias decisões…
Mas, na verdade, ele sempre influenciou tudo.
Depois, ele confessou seus sentimentos.
E nós… fizemos um acordo.
Continuar como irmãos.
Mesmo assim…
Eu ainda queria mais.
Depois de rezar, ele perguntou:
“O que você pediu?”
“Eu estava ocupada demais pensando no ano passado… não tive tempo de pedir nada.”
Ele riu.
Disse que fez o mesmo.
E naquele momento…
Eu vi algo nos olhos dele.
Foi aí que pensei:
É por isso que me apaixonei por ele.
Mais cedo, ele falou como se houvesse uma próxima vez.
E então, em silêncio, fiz outro pedido.
Espero poder voltar aqui com o Asamura no próximo ano.
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