Volume 6
Capítulo 11: 31 de Dezembro (Quinta-Feira) - Yuuta Asamura
31 DE DEZEMBRO (QUINTA-FEIRA) — YUUTA ASAMURA
Minha respiração saía branca sob o céu cinzento, e o ar frio ardia nas minhas bochechas.
Eram pouco mais de seis da manhã. O céu a leste começava a clarear aos poucos, mas ainda estava escuro.
O fato de termos que sair tão cedo me lembrava de que Nagano ficava bem longe do nosso apartamento em Tóquio. O trem-bala te levava até Karuizawa, a famosa cidade turística, mas a cidade natal do meu pai ficava escondida nas montanhas.
Ficaríamos apenas duas noites, mas tudo tinha ficado corrido pouco antes da partida. A família inteira andava de um lado para o outro no apartamento, dizendo que tinha esquecido isso ou que faltava aquilo.
Fazia tempo que eu não via tanta confusão em casa. A última vez provavelmente tinha sido quando Ayase e Akiko se mudaram. Naquela época, também revisamos o apartamento inteiro, conferindo várias coisas.
Na verdade, aquilo tinha sido bem mais caótico do que agora, mas era a primeira vez que viajaríamos todos juntos, e aquela agitação tinha algo de novo e revigorante.
Akiko era quem estava mais tensa. Ela e meu pai não tinham feito uma cerimônia de casamento, então aquela seria a primeira vez que conheceria a maioria dos parentes dele. Claro, ela já tinha conhecido os pais dele (meus avós), mas só em um único jantar.
Um casamento entre um homem e uma mulher adultos exigia apenas o consentimento de ambos. Nem os pais podiam se opor. Então, mesmo que a família do meu pai decidisse não aprová-la agora, ela não precisaria se importar.
Mas, na prática, essas coisas importavam. Era mais difícil cortar laços com parentes do que com simples conhecidos. Se eles não gostassem de você, isso se tornaria uma fonte de estresse. E isso valia para avós, primos, pais… ou até mesmo uma meia-irmã. Eles poderiam te odiar, mas era difícil evitá-los completamente.
Akiko estava deixando seu território conhecido para entrar em terreno desconhecido, então havia se preparado cuidadosamente para a viagem. Ela não queria perder antes mesmo da luta começar. A batalha, por assim dizer, já havia começado, e ela estava indo para território inimigo iniciar o cerco.
Levávamos todos os itens essenciais de viagem—carteiras, lanches e bebidas para o trajeto, roupas extras e produtos de higiene. Mas mais importante eram os presentes que preparamos para os parentes do meu pai. Tínhamos três caixas de doces—o suficiente para três famílias—guardadas em uma mala grande para não esquecermos.
Akiko encarava uma lista enquanto conferia a bagagem. Dei uma espiada e vi anotações sobre o dinheiro de Ano-Novo para as crianças, com nomes e valores que ela e meu pai dariam.
Akiko trabalhava com atendimento há muito tempo, então era profissional nessas coisas. Provavelmente tinha pedido ao meu pai os nomes de todos os filhos dos parentes que poderíamos encontrar. Aquilo me fez lembrar que atenção aos outros e planejamento eram habilidades sociais importantes para adultos.
Se você mantivesse as pessoas ao seu redor satisfeitas, ganharia mais liberdade depois. Era preciso “engraxar as engrenagens”, por assim dizer.
Eu não conseguia me imaginar tendo que fazer esse tipo de coisa depois de me casar. Só de pensar nisso, já sentia o corpo doer. Eu gostava dos meus primos, mas isso não tornava a situação menos cansativa. Queria que alguém criasse um programa que enviasse automaticamente um avatar no meu lugar para eventos formais como casamentos e funerais.
Enquanto pensava nessas bobagens, continuei arrumando minhas coisas.
Eu não levava muita coisa. Apenas uma bolsa esportiva. Não precisava de muitas roupas, e a única coisa que não podia esquecer era a lição de casa.
Quando era mais novo, ficava inquieto se não levasse pelo menos quatro livros. Mas hoje em dia eu podia ler o que quisesse no celular. Viva o progresso.
"Ok, pessoal, vamos indo."
Ao ouvir meu pai, fomos até o estacionamento do prédio.
Assim que saímos, ele continuou:
"É a primeira vez que nós quatro vamos viajar juntos."
Akiko assentiu.
"É mesmo, agora que você falou."
Como morávamos em Tóquio, raramente viajávamos de carro. Aquela seria nossa primeira viagem em família dirigindo.
"Vai ser a primeira vez que vou experimentar a direção do pai", disse Ayase.
"Não se preocupe, ele dirige com segurança", garantiu Akiko.
Pelo visto, ele já tinha levado ela para passear de carro antes.
Quando partimos, o céu estava entre o escuro e o claro. Resistindo à vontade de voltar a dormir, me acomodei no banco. Colocamos pneus de neve, já que iríamos para Nagano no inverno.
A viagem pelas rodovias Kan-Etsu e Joshin-Etsu levava quatro horas sem considerar neve e trânsito—e, naquela época do ano, certamente teríamos ambos.
Mesmo saindo cedo, chegaríamos apenas à tarde. Não dava para dormir demais.
"No ano que vem, imagino que só eu e a Akiko faremos essa viagem. Vocês dois estarão ocupados estudando. E quando entrarem na faculdade, terão outras coisas para fazer. Talvez seja difícil viajarmos todos juntos assim de novo."
Akiko concordou, com um tom nostálgico:
"Não acredito que já está quase na época dos exames de entrada na faculdade. O tempo voa mesmo."
As palavras do meu pai me pegaram desprevenido. Será que aquela poderia ser nossa última viagem em família?
Enquanto colocava o cinto de segurança, pensei nisso.
Nossa última viagem em família.
Olhei de lado para minha meia-irmã. Ela estava com fones de ouvido, olhando pela janela o cenário que clareava. Talvez percebendo meu olhar, tirou um dos fones e me encarou.
"O que foi?"
Meu coração deu um pulo.
"Ah, é que… tivemos que acordar bem cedo. Você está bem? Não está com sono?"
"Hum… talvez um pouco."
Meu pai ouviu e disse do banco do motorista:
"Pode dormir se quiser, Saki."
"Obrigada. Mas acho que estou bem."
Ela colocou o fone de volta e mergulhou no mar de música. Continuava olhando pela janela, não para mim.
Nossos cotovelos quase se tocavam, e ainda assim parecia que ela estava fora do meu alcance.
Aquilo me deixou um pouco triste.
Vamos, se acalma. É assim que devemos agir.
Ayase e eu éramos irmãos do ensino médio vivendo com nossos pais. Não podíamos fazer nada que ultrapassasse os limites de irmãos… nem mesmo agir como se quiséssemos.
Com as portas fechadas, o som dos pneus na estrada era suave, quase imperceptível. O balanço do banco era como um ruído branco, me embalando.
Minhas pálpebras ficaram pesadas, e comecei a cochilar.
De vez em quando, conversava com Akiko ou com meu pai para me manter acordado.
Pegamos alguns congestionamentos no caminho, mas eventualmente chegamos ao entroncamento de Oizumi e entramos na Kan-Etsu Expressway, seguindo ao norte por Saitama.
Meu pai e Akiko conversavam mais. Nada especial—coisas do dia a dia, como a comida da Akiko. Ele comentava os pratos que achava deliciosos, e ela prometia fazê-los novamente.
Era igual às conversas em casa.
Eu acrescentava algo de vez em quando, mas não participava de verdade.
Mesmo assim, dava para perceber que Akiko ainda estava nervosa. Meu pai provavelmente também tinha notado.
Preocupada com os parentes, né?
Se eu e Ayase tornássemos nosso relacionamento público… qual seria a forma menos constrangedora de contar aos nossos pais?
Ainda teríamos que viver com eles até terminar o ensino médio. Isso significava encará-los todas as manhãs…
Ter uma relação desconfortável com pessoas que você vê todos os dias parecia terrível.
Mesmo assim, eu também não queria cortar laços com a Ayase.
Será que dá para desistir de alguém tão facilmente quando se está apaixonado?
A não ser que ela passasse a me odiar…
Nesse momento, uma possibilidade que eu nunca tinha considerado me ocorreu.
E se meu relacionamento com Ayase acabasse?
Ainda seríamos irmãos…
Esse vínculo continuaria, mesmo que nos casássemos com outras pessoas no futuro.
Eu era o irmão mais velho dela, e ela era minha irmã mais nova.
Esse fato não mudaria… a menos que meu pai e Akiko se separassem.
O que eu estou pensando?
Não quero que isso aconteça.
Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos.
"O que foi, Yuuta?" perguntou meu pai. "Está enjoado?"
"Não, só lembrei de algo desagradável."
"Esqueceu a lição de casa?"
"…Não, eu trouxe."
Ele acha que a pior coisa que eu poderia esquecer é a lição de casa…?
Bem, não tem como ele imaginar que é sobre amor.
E ainda por cima… entre o filho dele e a enteada.
Suspirei novamente, sabendo que ele provavelmente interpretaria errado.
Ayase continuava olhando a paisagem. Agora já estava totalmente claro, e o cenário tinha mudado de prédios altos para campos abertos.
Árvores secas e plantações de arroz se estendiam pelos dois lados da estrada.
No verão, tudo seria verde vibrante.
Mas agora era preto e marrom.
Montanhas cobertas de neve apareciam ao longe.
Depois de duas horas de viagem, fizemos uma pausa em um posto.
Seguindo ao norte, o cenário começou a ganhar manchas brancas.
"Tem neve no chão", disse meu pai.
"Não só no chão. Está acumulando mesmo!", respondeu Akiko.
"Bom, estamos em Nagano."
"Akiko, é sua primeira vez em Nagano no inverno?" perguntei.
"Já vim esquiar uma vez quando era mais jovem."
"Então você sabe esquiar?"
"Só se contar rolar até o fim da montanha."
Acho que isso não conta…
"E você, Taichi? Sabe esquiar?"
"Eu? Claro. Eu era daqui antes de ir para a faculdade."
"Eu não sabia disso, pai…"
Que surpresa.
Seguimos atravessando túnel após túnel. Cada vez que saíamos de um, o cenário parecia mais silencioso e isolado.
[Ayko: Só para constar, Nagano tem algumas das minhas paisagens favoritas, como Kamikochi, o Santuário Togakushi e Tenryu-kyo.]
As vilas nas montanhas tinham poucas casas, bem espaçadas. A maioria era térrea.
Depois de mais um longo túnel, meu pai anunciou:
"Depois de Saku, chegamos em Komoro."
Olhei para Ayase.
Ela estava sentada ereta, olhando pela janela com ainda mais atenção.
"Viu algo interessante?"
Ela virou como se só então tivesse notado minha presença.
"Ah… não exatamente. Mas… olha ali."
Ela apontou para a direita.
Olhei na direção indicada.
Uma casa térrea com telhado de telhas se destacava no meio de um campo branco de arroz coberto de neve.
"Essa casa antiga?"
"Sim. Parece bem velha. É o que chamam de kominka?"
"É."
"Provavelmente é bem antiga até para os padrões de kominka", comentei.
[Ayko: 古民家 ou Komika, é um padrão antigo de casas do Japão, datado de antes da Segunda Guerra Mundial, mais comuns em áreas mais rurais, mantendo o padrão arquitetônico e características típicas da região e época.]
Momentos depois, o cenário mudou novamente, mas ainda havia algumas casas semelhantes.
"Olha aquela. Acho que é ainda mais antiga."
"Mas tem uma antena parabólica."
"Você é bem observador."
"Talvez a gente só preste atenção em coisas diferentes."
Meu pai entrou na conversa:
"Essa região é cercada por montanhas. Às vezes o telefone nem funciona. E, para assistir TV, só com cabo ou satélite."
Faz sentido.
"Você gosta dessas casas antigas?" perguntei.
Ayase assentiu.
"Gosto de ver construções antigas no estado original. Casas históricas, templos…"
"Castelos também?"
"Sim. E muros de pedra."
"Muros de pedra?"
Ela assentiu, um pouco animada.
"Às vezes, de castelos antigos só restam partes—muros, fossos, pilares…"
"Isso é interessante?"
"É. Dá para identificar a época pela forma como as pedras foram empilhadas. Pessoas que entendem conseguem aprender muito só olhando para os muros."
"Eu não sabia disso."
"Eu vi em livros e vídeos."
"Tem vídeos sobre isso?"
"Sim. Procura sobre castelos japoneses."
"Então você gosta de história japonesa?"
Ela assentiu.
Agora fazia sentido ela ter tirado nota máxima na prova.
"É por isso que gosto dessas casas. Construções antigas guardam muitas memórias."
Ela olhou pela janela novamente.
Eu conseguia entender.
Em Shibuya, não víamos coisas assim.
Mas ali… era diferente.
Continuamos dirigindo até chegar, enfim, à casa.
Uma grande casa térrea apareceu diante de nós, com um amplo terreno coberto de neve ao redor.
"Chegamos."
Saímos do carro, e o frio me fez tremer.
"O terreno é enorme", disse Ayase.
"Nem sei se dá para chamar de jardim", respondeu meu pai.
"É uma bela casa", ela comentou, olhando a construção tradicional.
"É bem antiga. Meu avô construiu."
Ayase parecia encantada.
Entramos.
"Cheguei!"
A voz do meu pai ecoou pela casa.
Logo ouvimos passos.
Era minha avó.
"Bem-vindo de volta, Taichi."
Ela sorriu calorosamente.
Akiko se apresentou.
Depois, apresentou Ayase.
"Esta é minha filha, Saki."
"Prazer em conhecê-la", disse Ayase, curvando-se profundamente.
"Eu queria muito te conhecer."
Fomos levados para dentro.
Ao entrar, Ayase murmurou:
"Eles têm um tataki…"
Ela parecia impressionada.
[Ayko: たたき ou Tataki é um tipo de piso tradicional Japonês, podendo ser feito com terra, cal, e em alguns casos cimento.]
Seguimos pelo corredor de madeira, iluminado pela luz da tarde.
"É enorme…", ela disse.
Minha avó abriu uma porta de correr.
Dentro, vários parentes já estavam reunidos.
Risadas, comida, vozes altas.
Meu avô se levantou animado.
"Finalmente! Tóquio é longe!"
Akiko cumprimentou todos sob muitos olhares.
Pressão total.
Depois de uma breve apresentação, fomos levados ao quarto.
Havia quatro futons.
Quatro.
Vamos dormir todos aqui?
Meu coração disparou.
Eu… vou dividir o quarto com a Ayase?
Antes que eu pudesse processar isso, a porta se abriu novamente.
Era meu primo Kousuke… acompanhado de uma mulher.
Ele a apresentou:
"Esta é a Nagisa… nós nos casamos."
"O quê?! Parabéns!"
Fiquei em choque.
Eles conversavam com naturalidade, em perfeita sintonia.
Pareciam… felizes. Muito felizes.
Ayase observava em silêncio.
"Por um momento, achei que você também tivesse se casado", brincou Kousuke, olhando para mim e para Ayase.
Meu cérebro travou.
Casado… com a Ayase?
"Claro que não", respondi, tentando parecer calmo.
Mas meu coração não desacelerou.
Nem um pouco.
E, de alguma forma… aquela ideia ficou ecoando na minha mente.
"Está tentando jogar a culpa em mim?"
"Desculpa, não quis dizer assim. De qualquer forma, é impossível saber quanto tempo vou ficar no exterior. Pode passar de dois anos."
"E eu não queria esperar."
Nagisa parecia uma pessoa tranquila, mas dava para ver que era do tipo que expressa seus sentimentos com clareza. Fiquei pensando se isso combinava com Kousuke. Ele não era muito bom em perceber o que os outros sentiam.
"Então decidimos pelo menos oficializar o casamento no papel. Ela disse que queria ir comigo para o exterior, e minha empresa não exigiu que eu deixasse minha esposa para trás."
"Então vocês dois vão para fora do país?", perguntei. "…Quando vocês registraram o casamento?"
"No dia vinte e quatro."
"O quê? Vinte e quatro de dezembro?"
"Exatamente."
Agora fazia sentido não termos ouvido nada.
"Já estávamos morando juntos há seis meses", disse Kousuke, "então basicamente só fizemos o procedimento. Mas é importante lembrar dessas datas, então escolhemos um dia especial."
"O Kou esquece as coisas com facilidade", explicou Nagisa. "Ele até esquece meu aniversário se eu não lembrar."
"Ah, qual é, eu não esqueceria seu aniversário."
"Ah, não?"
"Confia mais em mim, vai."
Dava para ver que os dois se davam muito bem.
"Enfim, Yuuta", disse Kousuke, voltando-se para mim. "Acho que vamos voltar para a sala."
"Ah, certo. A gente também já—"
Nesse momento, ouvimos passos correndo, e a porta de correr se abriu com força. Duas crianças entraram no quarto.
"Yuu! Vamos brincar!"
As duas puxaram a porta com tanta energia que ela bateu ao fechar. Sem hesitar, correram até mim.
"Yuu! Yuu! Vamos brincar!"
"Vamos brincar!"
De repente, o quarto ficou barulhento.
"Ei, Takumi. Ei, Mika. Quanto tempo", falei, levantando os dois no colo. Não os via há um ano, e eles tinham crescido. Takumi, o menino, era dois anos mais velho que Mika, a menina. Eram filhos da irmã mais nova do meu pai, ou seja, meus primos.
"Olha, Yuu!", disse Takumi. "Viu isso? Eu consegui esse monstro!"
"Eu consegui um monstrooo!"
"Não conseguiu nada. Isso é um anel. O monstro é meu!"
Takumi levantou orgulhoso um boneco de vinil.
Mika olhou para o brinquedo do irmão e tentou imitá-lo, levantando um anel na altura da cabeça. Não era um anel comum—era de plástico e do tamanho de uma bola de beisebol. Onde deveria haver uma pedra, havia algo parecido com um círculo mágico.
"Então isso é um monstro-anel!", disse Mika, animada.
"O que é isso?!", retrucou Takumi. "Ah, tanto faz. Vamos, Yuu, vamos brincar!"
"Vamos!"
"Calma aí", falei. Crianças realmente têm energia de sobra.
"Quem é a moça bonita?", perguntou Mika.
"Essa é a Ayase."
Assim que falei, percebi o erro. Chamá-la de Ayase não explicava nada e provavelmente só confundiria. Ela ainda usava o antigo sobrenome por conveniência, mas havia sido apresentada como Saki Asamura.
"Mika", disse Takumi, "não lembra? A mamãe disse que o tio Taichi se casou."
"Casar vem com uma irmã?"
Não consegui evitar rir. Como explicar isso?
Desisti de tentar e mudei de assunto.
"Então, Takumi, Mika. O que vocês querem fazer?"
"Jogar!"
"Um jogo, é?"
Não estavam falando de jogos tradicionais de Ano-Novo. Era videogame mesmo.
"Vou pegar com a mamãe!", disse Takumi, saindo correndo.
Mika tentou seguir, quase caiu, mas eu a segurei e a levei pela mão.
Voltamos todos para a sala e depois fomos para outro cômodo montar o videogame.
"Yuuta", disse Kousuke, "pode cuidar deles?"
Assenti, e ele voltou com Nagisa para a sala.
Ficamos eu, Ayase e as crianças.
"Vamos, Yuu!"
"T-tá… o que vamos jogar?"
Liguei o console e procurei algo que todos pudessem jogar.
"Aqui, esse parece bom. Tudo bem pra vocês?"
Eles assentiram animados.
"Vamos, Ayase."
"Hã?! Eu não conheço esse."
"Não tem problema. É fácil. É cooperativo."
Quatro cozinheiros apareceram na tela. Cada um controlava um, e tínhamos que preparar pratos conforme os pedidos.
Parecia simples, mas não era. Havia limite de tempo, o cenário mudava… era preciso cooperação.
Os pedidos chegavam, panelas batiam, clientes reclamavam.
[Ayko: Gameplay de Overcooked, vai vendo.]
Takumi e Mika eram muito bons. Davam instruções um ao outro.
Eu e Ayase mal conseguíamos acompanhar.
"Aya! Aya!", chamou Mika.
"O-o quê?"
"A carne vai queimar!"
"Hã?!"
Uma chama surgiu.
"Aaah!"
Ayase entrou em pânico total.
"Calma, Ayase!"
"O que eu façooo?!"
O tempo acabou antes de conseguirmos completar a fase.
"Desculpa…", disse ela, abatida.
"Aya, você é ruim na cozinha?"
"Não, Mika", expliquei. "A Ayase cozinha muito bem. Isso é só um jogo."
"Eu não vou perder da próxima vez!"
Ela parecia realmente irritada.
"Aya! Aya!", Mika puxou a manga dela. "Irmãos têm que ser gentis, né?"
Takumi assentiu.
"Você não gosta do Yuu?"
"Claro que gosto!"
"Então vocês têm que fazer as pazes. Quer que eu mostre?"
"Ah… pode ser."
Mika puxou Takumi.
"Vamos fazer as pazes."
"Tá bom. Desculpa."
"Eu te perdoo."
Eles encostaram as bochechas e se abraçaram.
Pareciam dois anjinhos.
Então, de repente…
Mika beijou a bochecha de Takumi.
"Assim. Agora vocês."
Eu e Ayase congelamos.
Eles olharam para nós como se dissessem: "E aí?"
"Sério…?"
"Não vão fazer as pazes?", perguntou Mika.
"A-ah… não precisa. A gente se dá bem."
Ayase assentiu.
"Uh-hum…"
"Ayase?"
Ela parecia estranha.
"Ei, crianças! Hora do jantar!"
A voz do corredor nos salvou.
Suspirei.
Takumi e Mika saíram correndo.
"Jantar!"
"Vamos?", disse Ayase.
"Vamos."
Caminhamos em silêncio.
Meu coração ainda batia forte.
Quando chegamos, todos já estavam reunidos.
Mesas cheias.
Sukiyaki.
Comida de Ano-Novo.
Tudo feito à mão.
[Ayko: Nota culinária mais uma vez caros leitores!
すき焼き ou Sukiyaki é um prato feito em nabemono, bastante comum no Japão em especial em dias mais frios e no inverno.
Seus ingredientes vão desde carne em fatias finas, a cogumelos e cebolinha, cada pessoa pega da panela o que quer comer. É cozido em um molho chamado warishita. Alguns restaurantes do Brasil oferecem este prato. Eu pessoalmente, gosto de comer depois de mergulhar a carne em ovo cru batido, o gosto fica mais suave!]
Sentamos, brindamos e começamos a comer.
Depois de um tempo, meu pai apresentou Akiko e Ayase.
Ayase respondeu várias perguntas.
Só conseguiu sentar de novo quando minha avó interveio.
"Já chega. Deixem a menina comer."
Suspirei de alívio por ela.
Depois foi a vez de Kousuke apresentar Nagisa.
Sussurrei para Ayase:
"Mandou bem."
"Obrigada."
"Quer osechi? Pego pra você."
"Quero omelete doce. Parece bom."
Sorri.
"Também é meu favorito."
Coloquei um no prato dela.
Ela provou.
"Então esse é o sabor da família do seu pai… entendi."
Não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas ela parecia satisfeita.
Comemos em silêncio por um tempo.
Conversas iam e vinham.
Casamento.
Relacionamentos.
Distância.
Vida real.
Nada como nos livros.
Era tudo… mais simples. Mais prático.
E, ao mesmo tempo, mais complicado.
Olhei para Ayase.
Ela murmurou:
"Ela é muito madura."
Nagisa sorria com naturalidade.
Akiko também.
Ambas escondendo o que sentiam?
Talvez.
Mais tarde, comemos soba de fim de ano.
As crianças dormiram.
A conversa continuou.
Até que meu avô disse:
"Vamos?"
Ayase parecia confusa.
"Para onde vamos?"
"Para o santuário. É o Ninen-Mairi."
Ela parecia cansada.
"Você pode ficar se quiser."
"…Eu vou."
Saímos.
O frio era intenso.
Entramos no carro.
Seguimos até o santuário.
Quando chegamos, coloquei meu casaco.
Ayase também estava bem agasalhada.
Akiko nos deu aquecedores de bolso.
"Coloquem no bolso."
Seguimos até o torii.
"Estamos bem no meio das montanhas", disse Ayase.
"Sim. Esse é o santuário superior."
"Superior?"
Expliquei brevemente.
Ela já conhecia a história.
"Claro. A deusa Amaterasu se esconde na caverna…"
[Ayko: As histórias das divindades e mitos japoneses são muito interessantes, Kaguya, Amaterasu, Tsukuyomi, Inari… E por curiosidade, Ninen-Mari é uma tradição, não um santuário.]
Assenti.
"Mas são dois quilômetros de caminhada."
"O quê?!"
"Tem muitas escadas."
"Podia ter avisado antes…"
"Você pode ficar no carro."
"Não. Eu vou."
"Então tenta. Se for difícil, na próxima você espera."
"Na próxima…?"
"Fazemos isso todo ano."
"…Entendi. Então eu vou tentar."
Seguimos.
Ao passar pelo torii, Ayase tirou o celular.
A câmera brilhou.
O portal iluminado contra a neve parecia saltar da escuridão.

"Não fiquem para trás", chamou meu pai, e aceleramos o passo, tomando cuidado para não escorregar.
Fomos para o lado do caminho e atravessamos o torii. Tradicionalmente, o centro é reservado aos deuses.
O caminho além do portal se estendia à nossa frente, tão longo que não dava para ver onde terminava. A neve havia sido removida, mas ainda havia pedaços misturados ao cascalho sob nossos pés, e tivemos que caminhar devagar para não cair.
Ayase não estava acostumada com neve e quase escorregou algumas vezes, então mostrei um truque: era preciso pisar como se estivesse “agarrando” a neve com a sola do pé.
Depois do torii, o terreno era praticamente plano e, após cerca de quinze minutos, chegamos à metade do percurso. O local era marcado por um grande portal pintado de vermelho vivo, com telhado de palha. Se não fosse inverno, o chão estaria coberto de grama, mas agora estava tomado pela neve. Cordas grossas de cânhamo usadas para purificação, chamadas shimenawa, pendiam no topo do portal, afastando as impurezas do mundo. Ayase pegou o celular novamente e tirou mais fotos.
Ela realmente gostava de construções antigas.
Observei o portal mais uma vez.
"Quando algo é tão antigo assim, dá pra sentir a história", comentei.
"Hum. Não é só isso."
"Como assim?"
"As pessoas dizem que sentem história ao olhar algo antigo, mas acho que não é exatamente isso. Não acha que estamos falando, na verdade, de como aquilo foi cuidado?"
"Como foi cuidado?"
"Por exemplo, imagina que você encontra um daruma antigo — aqueles bonecos em que você pinta os olhos quando faz um pedido. Se ele não tiver olhos, significa que ninguém nunca o usou. Ele ainda é antigo, mas só te deixaria triste."
"Ah…"
"Construções de madeira expostas à chuva apodrecem e desaparecem sem manutenção. Dizem que casas abandonadas se deterioram mais rápido."
As palavras de Ayase me lembraram do que ela tinha dito no carro.
"Construções antigas guardam muitas memórias."
Parecia que o que ela queria dizer era isso: o portal envelhecido diante de nós não era apenas antigo — ele havia sido cuidado, valorizado por alguém ao longo dos anos. O fato de ainda estar ali era a prova disso.
Falei isso em voz alta, e ela assentiu.
"Exatamente."
Era isso que ela queria dizer com “memórias” de um lugar?
"Você gosta de análise de perfil?", perguntei.
"Hã?"
"Aparece bastante em romances de mistério. Usam estatísticas para descrever o tipo de pessoa que comete um crime."
"Isso não é dedução?"
"Não exatamente. Não é só descobrir quem foi, mas traçar um perfil provável com base em padrões. Claro, sempre existem exceções."
"…Asamura, você sabe bastante sobre mistério."
"Está exagerando…"
Na verdade, eu conhecia alguém muito mais interessado nisso. Por um instante, a imagem de uma mulher japonesa de cabelos longos passou pela minha mente.
"Enfim", continuei, "você gosta de pensar em como essas construções chegaram ao que são hoje, né?"
"É… talvez."
"É como aquela música, ‘O Relógio do Meu Avô’."
Era sobre um relógio que funcionava desde o nascimento do avô até sua morte. Existia até uma história real por trás da música.
Você podia olhar para algo e perceber como foi tratado ao longo do tempo. Na música, o relógio parar simboliza a morte do avô.
"Não canta isso, por favor", disse Ayase imediatamente.
"Por quê?"
"Eu não consigo ouvir sem chorar."
"Você não gosta?"
"É triste demais."
Velas iluminavam o caminho na escuridão. Eu mal conseguia ver o rosto dela, mas aquela resposta me surpreendeu.
"Ah… entendi."
Subimos as escadas, passamos pelas estátuas de komainu e entramos no santuário. A água da fonte de purificação estava congelada, então não pude lavar as mãos.
Fomos até a frente do altar. Joguei a moeda de cinco ienes na caixa de oferendas e toquei o sino. O som ecoou na noite.
Fiz duas reverências e bati palmas duas vezes.
Era o ritual simples que eu sempre seguia.
Quando juntei as mãos pela segunda vez, naturalmente comecei a refletir sobre o ano que havia passado.
Minha mente foi se acalmando.
Os pensamentos, se organizando.
A tradição de visitar santuários no início do ano vem do período Heian, quando o chefe da família passava a noite no santuário do deus protetor, rezando pela segurança e prosperidade.
Hoje em dia, porém, parecia mais um momento de reflexão… e de se preparar para o que estava por vir.
Com esses pensamentos, fechei os olhos diante do santuário.

Muita coisa tinha acontecido naquele ano.
Fazia apenas seis meses, em junho, que meu pai havia se casado com a Akiko e que ela e a Ayase tinham passado a morar conosco.
De repente, eu tinha uma meia-irmã da mesma idade que eu.
No começo, fiquei surpreso com as roupas chamativas dela, tão diferentes das minhas.
Ajudei ela a estudar para a prova de Japonês Moderno, depois fui à piscina com ela e outros colegas da escola durante o verão. Aquilo foi algo raro para mim, já que eu costumava ficar em casa.
Foi nessa época que percebi que estava apaixonado por ela.
E isso foi doloroso.
Nossos pais tinham passado por divórcios difíceis e estavam se esforçando para que a nova família desse certo. Eu sabia que eles ainda esperavam que nos déssemos bem como irmãos.
Tivemos muitos mal-entendidos, mas no começo do outono finalmente fomos sinceros um com o outro sobre o que sentíamos.
Decidimos passar tempo juntos, fazendo apenas o que considerávamos aceitável para irmãos… muito próximos.
Mas então, na noite de Halloween, nós nos beijamos…
Os acontecimentos do último ano passaram pela minha mente, um após o outro.
Quando terminei de rezar, abri os olhos. Havia pessoas esperando atrás de nós — não era hora de ficar preso em lembranças.
Fiz uma última reverência e me afastei do altar.
Nossos pais estavam esperando. Enquanto caminhávamos de volta até eles, perguntei à Ayase pelo que ela tinha rezado.
Ela deu uma risadinha.
"Eu estava tão ocupada pensando no último ano que nem tive tempo de fazer um pedido."
Eu ri e disse que tinha acontecido o mesmo comigo.
Nós quatro refizemos o caminho e voltamos para o estacionamento.
"Ei", disse Ayase. "Você não quer tirar sua sorte?"
"Ah, é. Eu tiro todo ano."
Meu pai ouviu e disse:
"Então vamos fazer isso antes de irmos embora."
Entramos no carro e fomos até um santuário no meio da montanha. No inverno, o santuário lá de cima não distribuía omikuji.
[Ayko: Os おみくじ ou omikuji são os papéis que te dizem sua sorte!]
Chegando lá, pegamos nossas sortes.
Mas quando Ayase abriu o papel, ela congelou.
"Deu azar…"
"Nem sabia que davam azar logo no Ano-Novo", comentei.
"E você, Asamura?"
"Sorte moderada."
Ela me lançou um olhar irritado.
Ei, não é culpa minha.
"Se for ruim, você pode deixar aqui", sugeriu meu pai. "Olha, pode amarrar ali."
Segui o olhar dele e vi vários papéis brancos presos a uma corda.
Ayase dobrou o dela com cuidado e amarrou firmemente.
Ela estava sorrindo quando fomos embora, mas tive a impressão de que ainda estava um pouco abalada.
Deixando o som do sino ecoando para trás, saímos do santuário…
e demos as boas-vindas ao novo ano.
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