Volume 5
Capítulo 5: 21 de Outubro (Quarta-Feira) - Yuuta Asamura
21 DE OUTUBRO (QUARTA-FEIRA)—YUUTA ASAMURA
O ar frio da manhã se infiltrava por baixo do meu cobertor, e esfreguei as solas dos pés uma na outra ao acordar. Com a aproximação do inverno e a queda da temperatura, ficaria cada vez mais difícil sair da cama.
Eu queria continuar debaixo do cobertor, onde ainda estava quente, mas o afastei com um chute e me forcei a levantar.
Assim que fiz isso, o despertador tocou. Bati a mão sobre ele, e o som parou.
"Eu venci."
Não havia motivo para competir com um despertador, mas pequenas vitórias como essa podiam definir o rumo do dia de uma pessoa…
Tá, talvez isso fosse um exagero.
Hoje era a festa de aniversário da Narasaka.
Comecei a sentir certa pressão enquanto me preparava para a escola. Estava ansioso, pensando se conseguiria me dar bem com os outros convidados.
Quando terminei, fui até a sala de jantar.
A Ayase já tinha terminado o café da manhã e estava prestes a sair. Ela havia lavado a louça e a colocado no escorredor.
"Ei. Você acordou cedo hoje", eu disse.
"Vou passar na estação de trem", respondeu Ayase, pegando a bolsa.
Ah, é mesmo. Ela vai comprar um presente de aniversário para a Narasaka.
"Estou indo, pai. Tchau."
"Tchau, Saki. Tenha um bom dia."
"Tchau, irmão."
"Até mais, Ayase", eu disse, assentindo.
"Mm." Ela retribuiu o gesto e saiu pela porta.
"Pai", eu disse, virando-me para ele. "Você ainda está tranquilo quanto ao tempo?"
"Sim, hoje posso ir com calma."
Fiquei me perguntando se o trabalho dele estava ficando menos corrido.
Abri a panela de arroz e encontrei arroz branco soltando vapor, com pequenos pedaços amarelos espalhados. Um leve aroma adocicado subiu até meu nariz.
"O que é isso?", perguntei.
"Arroz com castanhas. Está perfeitamente cozido. A Saki manda bem com arroz."
Se a Ayase estivesse aqui, provavelmente diria humildemente que só misturou os ingredientes e apertou o botão, mas…
"Parece ótimo."
Enchi minha tigela e a levei até a mesa. Também tínhamos nabo em conserva, rabanete em conserva e ameixas salgadas. E, claro, a onipresente sopa de missô. Hoje, ela tinha pedaços grandes de cebolinha.
Na minha frente, as tigelas do pai já estavam vazias.
"Quer mais?", perguntei.
"Ah, não, obrigado. Já estou satisfeito. É melhor eu ir."
"Certo."
As castanhas no arroz estavam cortadas em pedaços pequenos, mais ou menos do tamanho da ponta do meu polegar. Peguei uma com os hashis e levei à boca.
"Quente!"
Ao mordê-la, ela se desfez, liberando um sabor doce. Tinha gosto de outono.
"Você tem razão", eu disse. "Está delicioso."
"Não é?"
"Melhor tomar cuidado para não comer demais."
Ah, então é por isso que temos menos acompanhamentos hoje.
O pai saiu para o trabalho, e eu terminei o café da manhã, lavei a louça e a coloquei no escorredor. Acabei devorando mais duas tigelas de arroz com castanhas. Demorei mais do que esperava.
Saí de casa bem depois da Ayase, mas achei que ainda chegaria a tempo, já que iria de bicicleta. O guidão estava gelado quando o segurei, e puxei as mãos de volta instintivamente.
Ainda não estava frio o suficiente para o vapor da respiração aparecer, mas o vento gelava minhas bochechas enquanto eu pedalava.
Logo o inverno chegaria de verdade, e faria muito mais frio.
Entrei correndo na sala de aula três minutos antes do sinal de aviso.
O último sinal tocou, e fomos dispensados.
Maru se levantou e foi para o treino de beisebol. "Até mais, Asamura."
Finalmente era hora de ir para a festa de aniversário da Narasaka.
Por volta do meio-dia, Ayase me mandou uma mensagem: Não me espere. Vou separadamente.
Então… ela vai para casa se trocar.
O antigo eu estaria nervoso e tenso, mas agora eu era um homem novo. Não precisava ficar constrangido. Eu tinha confiança.
Enquanto trocava de sapatos na entrada da escola, vi um garoto de agasalho correr para fora do prédio. Ele não estava com a mochila, então provavelmente não estava indo para casa. Devia estar treinando para o clube.
Ele parecia familiar—era o Shinjou?
Ele não ia à festa da Narasaka? Eu achei que fosse. Talvez fosse depois do treino. Não sabia que ele levava o tênis tão a sério.
Voltei para casa de bicicleta. Ayase não estava lá quando cheguei. Será que já tinha se trocado e saído, ou eu cheguei antes dela? Bom, não importava, já que íamos nos encontrar no apartamento da Narasaka.
Eu não precisava mais me preocupar com o que vestir; bastava confiar no julgamento da Ayase.
Vesti a jaqueta que comprei no dia anterior e abri o aplicativo de mensagens no celular. Pedi o endereço para a Narasaka, e ela me enviou um mapa.
"É por ali, hein?"
Eu já tinha visto a Ayase perto do meu cursinho enquanto ela comprava lanches e bebidas para uma sessão de estudos na casa da Narasaka, então tinha uma boa ideia de onde ficava. Havia estacionamento para bicicletas, então fui direto para lá pedalando.
Quando cheguei ao bairro da Narasaka, abri o mapa e dei zoom. Olhando ao redor, vi uma placa verde grande com o nome de uma empresa que aparecia no mapa.
Agora eu sabia que estava no lugar certo.
A partir dali, segui a pé empurrando a bicicleta ao meu lado. As calçadas eram estreitas, e a bicicleta balançava.
Alguns minutos depois, cheguei ao destino sem problemas. Deixei a bicicleta no local indicado e fui até a entrada do prédio.
Antes de apertar o interfone, mandei uma mensagem. Se fosse a Narasaka, tudo bem, mas não sabia o que fazer se outra pessoa da família atendesse.
Felizmente, isso não aconteceu. Antes mesmo de receber resposta, vi Ayase e Narasaka atravessando a rua.
A porta automática se abriu, e as duas vieram até mim.
Ayase usava uma saia jeans e um cardigan cor mostarda suave. O suéter de um ombro só era bem a cara dela, mas olhando, fiquei pensando se ela não estava com frio.
Quando me viu, Ayase assentiu, enquanto Narasaka acenou e correu até mim. Como sempre, seus gestos lembravam os de um animalzinho.
"Você esperou muito?", perguntou.
"Não. Acabei de chegar", respondi, balançando a cabeça e olhando ao redor. Estranhamente, não havia mais ninguém da escola.
"Então vamos festejar!", exclamou Narasaka. "O elevador é por aqui!"
Hã? O que está acontecendo?
"E os outros?", perguntei.
"O quê?" Ela inclinou a cabeça, como se não entendesse nada.
"Você convidou mais alguém?"
"Não. Só vocês dois."
"Vocês dois… quer dizer eu e a Ayase? Por quê?"
"Hmm, porque eu quis?"
[Ayko: TOP 10 Respostas]
Isso não explica nada. Foi só um capricho?
"Vamos logo. Está frio aqui."
"Ah, certo."
Olhei para Ayase em busca de respostas, mas ela desviou o olhar.
Hm? Será que… ela sabia?
Narasaka murmurou algo, mas eu estava distraído demais com a expressão de Ayase para ouvir.
Saímos do elevador e caminhamos até a porta do apartamento dela, onde havia uma placa de madeira com a palavra WELCOME. Ela tirou uma chave da bolsa e abriu a porta.
"Entrem. Fiquem à vontade."
"Posso usar esses chinelos, Maaya?", perguntou Ayase.
"Claro. Asamura, você pode usar estes."
Calcei o par que ela me ofereceu. Eles tinham estampa de ursinho.
Um corredor estreito levava à sala de estar, sala de jantar e cozinha. De cara, dava para perceber que era um apartamento grande. A disposição era bem comum, parecida com a minha. Devia ter três quartos.
"Por aqui! É onde vamos fazer a festa!", disse Narasaka, abrindo uma das portas à esquerda.
"Não vai ser na sala?", perguntou Ayase.
"Bom, somos só nós três."
Espera… isso quer dizer que vamos ficar no quarto dela?
Não sabia como reagir. As poucas lembranças que eu tinha de quartos de garotas passaram pela minha cabeça, e comecei a suar frio.
Desde um certo incidente logo depois que eu e Ayase nos tornamos irmãos, eu vinha me esforçando para não pensar no quarto dela e desviar o olhar sempre que via a porta aberta. Melhor não provocar o destino.
Mas Narasaka nos levou direto para o quarto dela, sem se preocupar com nada.
Quando estava prestes a entrar, Ayase puxou sua blusa, a interrompeu e fechou a porta com força.
"Maaya. Você tem certeza de que isso é uma boa ideia?"
"Hã? O que?"
"Tipo… eu até entenderia se fosse só eu, mas o Asamura está aqui. Tem certeza de que é okay deixar ele entrar no seu quarto?"
"Bom…" Narasaka olhou para cima, pensativa, com um dedo no queixo.
"Eu escondi todos os livros impróprios e joguei as roupas íntimas limpas e o uniforme no armário. Tomei todas as precauções necessárias."
Esvaziei completamente a mente enquanto ela falava. Nada. Não ouvi absolutamente nada.
…Essas são mesmo "precauções necessárias"? pensei vagamente.
"A-ah, qual é!", exclamou Ayase.
"Não fala essas coisas em voz alta!"
"Relaxa. Eu nunca diria isso na frente dos meus irmãos mais novos."
"Claro que não!"
"Então qual é o problema?"
"…Esse é mesmo o seu único problema?"
"Você se preocupa demais. Vamos logo, está tudo bem. Não precisa ter medo!"
"Essa resposta é justamente o que mais me assusta."
Suspirando, Ayase tirou a mão da porta, e Narasaka a abriu novamente e entrou.
"Com licença", disse Ayase, enquanto a seguíamos.
O quarto tinha cerca de dez metros quadrados. Havia uma cama perto da janela no fundo e uma escrivaninha à esquerda. Isso eu consegui perceber sem nem olhar direito.
Por segurança, fiz um esforço consciente para não encarar muito. Kuwabara, kuwabara, pensei, invocando o velho mantra contra relâmpagos. Só que, nesse caso, a fonte do "raio" era a Ayase — e eu não tinha certeza se isso funcionaria contra a ira de uma mulher.
[Ayko: Sim, o mantra Kuwabara kuwabara existe, e é realmente dito para afastar raios e também má sorte.]
"Uau", disse Ayase, impressionada. "Seu quarto é bem organizado."
"Eu tenho que dar exemplo pros meus irmãos. Se eu não mantiver tudo arrumado, eles ficam ainda mais relaxados."
Admirável. Ela realmente pensa como uma irmã mais velha.
"Aqui, sentem-se." Ela apontou para três almofadas ao redor de uma mesa baixa e redonda.
Ofereceu os dois lugares mais afastados da porta e se jogou no restante. Quando nos sentamos, percebi algo: Narasaka tinha ficado no lugar mais próximo da saída.
Logo em seguida, disse: "Vou pegar algo pra gente beber", e se levantou — confirmando minha suspeita.
Ela estava agindo como anfitriã e tinha escolhido o lugar mais conveniente para cuidar de nós — os convidados. Se continuasse assim, acabaríamos sendo servidos pela aniversariante.
"Essa não é a festa de aniversário da Maaya?", disse Ayase quando ficamos sozinhos.
"Eu sei, mas não dá pra sair mexendo nas coisas da casa dela…"
"É… verdade…"
Enquanto pensávamos no que fazer, Narasaka voltou com uma garrafa grande de chá e vários copos.
"Pronto, vamos começar!"
"Maaya, para de cuidar da gente e senta", disse Ayase, segurando-a pelos ombros e forçando-a a sentar.
"Mas uma anfitriã deve cuidar dos convidados."
"Hoje é o seu dia. É a sua festa!"
Narasaka inflou as bochechas, insatisfeita, mas Ayase estava certa. Hoje era nossa responsabilidade entretê-la. Ainda assim, eu não achava que era meu lugar insistir — melhor deixar isso com Ayase.
"Acho que você tem razão", disse Narasaka, "mas ainda assim…"
"Tem razão sim! Enfim, aqui!" Ayase entregou uma sacola.
"Hmm? O que é isso…? Não é meu presente?"
"A gente ainda não jantou, então é algo pequeno."
Dentro havia uma caixa branca com três bolinhos.
Ayase disse que comprou numa confeitaria perto da estação. Não pretendia comprar bolo, mas decidiu de última hora que seria triste não ter nenhum. Então foi por isso que quis ir separada. Decidi pagar minha parte depois.
Tinha um shortcake, um Mont Blanc e um cheesecake — clássicos.
"Ooh! Parece delicioso!", disse Narasaka.
"É. Mas não tem velas", respondeu Ayase.
"Vou pegar pratos e garfos."
"Não precisa, tá tudo bem."
"Grr." Narasaka sentou de novo, e a festa começou.
Ainda não acredito que somos só nós três…
Antes de comermos, eu e Ayase entregamos nossos presentes.
Eu dei uma caneca de um anime que ela gostava. Não tinha imagens chamativas dos personagens, então achei que não seria constrangedor.
Narasaka levantou a caneca e sorriu, depois me agradeceu educadamente. Fiquei aliviado por ela ter gostado.
Ayase escolheu um conjunto de colheres de chá e garfinhos de bolo.
Eram elegantes, com um padrão de vinhas e um detalhe de coroa na ponta.
"Uau!", exclamou Narasaka. "São tão fofos!"
"Não são de prata nem nada", disse Ayase.
"São ótimos! Obrigada, Saki. Ah, podemos usar pra comer o bolo!"
"Ah… não pensei nisso. Só comprei dois conjuntos."
"Eu não preciso. Uso o garfo que veio com o bolo", eu disse, apontando para o talher de plástico.
"Eu quero usar meu presente", disse Narasaka.
"Não devia lavar antes?", perguntou Ayase.
"Sim. Já volto."
Ela saiu, lavou e voltou com um conjunto extra — um garfo e colher para mim, da cozinha dela.
Pelo visto, ela não conseguia evitar cuidar dos outros.
Servimos o chá nos copos e brindamos.
Enquanto comíamos, a mãe da Narasaka apareceu com doces. Ela parecia gentil e muito parecida com a filha.
Comemos também, e comecei a me preocupar se teria espaço para o jantar.
Pensando bem, o pai tinha dito que jantaria com colegas hoje. Akiko também só chegaria tarde do trabalho, então não precisaríamos nos preocupar com o jantar. Tomara que isso significasse que o trabalho dele estava mais tranquilo.
Ayase e Narasaka terminaram de comer e começaram a conversar sobre o passeio à piscina nas férias de verão. Já que estava me sentindo um pouco mais relaxado, estiquei os braços para trás.
Mas, ao fazer isso, bati as costas em alguma coisa e me afastei rapidamente.
O quarto tinha só uns dez metros quadrados, e Narasaka tinha uma cama, uma escrivaninha, uma mesa e duas estantes encostadas na parede. Claro que não havia espaço para se espreguiçar.
Olhei com cuidado para o móvel em que tinha batido e vi que era uma vitrine de colecionáveis. Felizmente, parecia que não tinha quebrado nada.
Quando fomos comprar o presente, Ayase comentou que Narasaka gostava de anime. E, de fato, vi uma figura de um personagem familiar. Não era humano — era um robô.
Reconheci na hora. Era o mesmo item de edição limitada que Maru comprou nas férias como presente para um amigo online.
Hm. Então era bem popular mesmo.
"Ei, Saki, seu aniversário está chegando, né? É em dezembro?", disse Narasaka, me trazendo de volta ao presente.
Nem tinha percebido que o assunto tinha mudado.
"E o seu, Asamura?", ela perguntou. "Quando é? Deve ser logo, já que você é o irmão mais velho."
"É em dezembro."
"Sério? No mesmo mês que a Saki?"
"Uma semana antes do meu", disse Ayase.
"Ah. Então você só é o irmão mais velho por uma semana."
Agora que ela falou, era verdade. Depois de uma semana, teríamos a mesma idade de novo. Não que isso importasse — não éramos mais crianças.
"Somos praticamente da mesma idade", eu disse. "Não é grande coisa."
"Deve ser legal ter uma garota fofa como a Saki te chamando de ‘Onii-chan’."
"Maaya, para com isso", disse Ayase, séria.
"Não precisa ficar com vergonha."
"Estou falando sério. É estranho ouvir você dizer isso. Eu não gosto."
"E só ‘mano’?"
"É praticamente a mesma coisa."
"Então vou pegar leve. Que tal ‘irmão mais velho’?"
Para mim, não parecia tão diferente, mas eu não estava em condições de fazer piada. Meu coração estava acelerado.
O jeito casual com que Narasaka disse “irmão mais velho”, como se fosse a Ayase, me fez imaginar que era ela quem tinha dito aquilo.
Até agora, Ayase só usava isso na frente do pai e da Akiko. Narasaka não tinha como saber disso.
"P-para…"
"Ah, qual é. Você é irmã dele de verdade agora. Ou você já chama ele de irmão e tal?"
"Asamura é Asamura."
"Sem graça."
"Isso não tem nada a ver com diversão. Pronto, acabou o assunto!", declarou Ayase, batendo palmas.
Narasaka fez uma cara de insatisfação, mas logo sorriu de novo, como se tivesse esquecido.
"Já que vocês estão comemorando meu aniversário, vou fazer uma super festa pra vocês em dezembro!"
Uma super festa? O que será que ela estava imaginando?
Ela parecia gostar mesmo de organizar eventos… comecei a ficar preocupado.
"Geralmente quem faz aniversário em dezembro acaba juntando com o Natal", eu disse.
Contei como era com a minha família, e Ayase disse que com ela era igual. Parecia algo bem comum.
Pensando bem, eu sempre fui grato pelo meu aniversário, porque era a única época em que meus pais não brigavam.
Eu não ia reclamar, mesmo sendo uma comemoração só para duas coisas.
Ainda assim… sentia que tinha perdido alguma coisa.
Expliquei isso, e Ayase assentiu com força. Devia ter sido parecido na família dela.
Foi então que ouvi um leve rangido e olhei para a porta.
Um garotinho, provavelmente na idade do jardim de infância, estava espiando pela fresta.
Narasaka se virou ao perceber.
"Ei! Eu falei que estava ocupada com meus amigos. Vai procurar a mamãe!"
Ele ignorou e continuou olhando — mais precisamente, para a mesa.
Segui seu olhar até os doces.
Narasaka também percebeu e balançou a cabeça.
"Não. Já está quase na hora do jantar."
"Não vale…"
"Ah, sério!" Narasaka levantou e foi até ele. "Tem para vocês também, mas só depois do jantar."
"O quêêê?"
Ela não levantou a voz. O menino fez bico, mas obedeceu quando ela deu um tapinha nas costas dele.
"Pronto, vai lá."
"Eu quero lanche!"
"Primeiro o jantar!"
"A Maaya é má!"
"Ah é? Você divide seus lanches comigo?"
"Urrgh!"
Ela brincou com ele enquanto o levava para longe do quarto. Depois de um tempo, o barulho diminuiu.
"Desculpa pela interrupção", disse Narasaka ao voltar.
"Sem problema", respondeu Ayase.
Concordei. "Seu irmãozinho é bem animado."
"É… os pequenos são assim. Ele é o caçula."
Ela parecia bem mais velha que os irmãos.
"É difícil cuidar de tantos irmãos!"
Disse isso, mas parecia se divertir.
Dava pra ver que ela gostava deles.
Talvez se sentisse mais como mãe do que como irmã.
"Acho que você daria uma ótima mãe, Narasaka", eu disse.
Ela me olhou, chocada.
"Asamura. Isso é algo que você deveria dizer só para Saki."
"Maaya. Do que você está falando?", retrucou Ayase.
Hã? Só pra Ayase…?
Foi aí que entendi: ela interpretou como “boa candidata para casamento”.
"Ah? Você não quer que ele pense isso de você, Saki?"
"Não foi isso que ele quis dizer. Né, Asamura?"
"Você não quer ser mãe algum dia? Ou pai, no caso?", provocou Narasaka.
"Eu respeito minha mãe, mas é diferente. Nem penso nisso ainda."
"Ah, entendi."
"…Entendeu o quê?"
"Você quer ser noivo!"
"Como você chegou nisso?!", disse Ayase, fria.
Narasaka continuava sorrindo.
Ayase suspirou.
"Por que eu estou brigando tanto com você no seu aniversário…"
Porque ela não para de provocar, pensei.
Narasaka fez bico.
"Dói quando você olha assim pra mim, irmão Asamura. Viu? Não vou te machucar." Ela estendeu o dedo mindinho.
Fiquei olhando, sem saber o que fazer.
"Tudo bem, pode me morder."
"Eu não vou te morder."
"Porque a Saki está olhando?"
"Mesmo que não estivesse."
"Maaya, o que você está falando?", disse Ayase.
Ainda bem que ela não entendeu.
No fim, Narasaka continuou brincando, mas não conseguiu quebrar a expressão calma de Ayase.
Já estava quase na hora do pai dela chegar, então decidimos ir embora.
Ela ia jantar com a família depois.
Imaginei o pai chegando com um bolo grande, a mãe preparando comida, e Narasaka rindo com os irmãos.
Na porta, Ayase disse:
"Sua família é muito legal, Maaya. Vocês se dão muito bem."
"O quê? Isso é o que eu deveria dizer pra você."
"Hã?"
"Vocês se dão muito bem."
"O que você está dizendo?"
"Não quer que eu ache que você se dá bem com seu irmão?"
"Não é isso…"
"Ah, entendi. Você queria que eu dissesse ‘que casal bonito!’"
"Q-quem é casal aqui?!"
"Sua mãe e o pai do Asamura."
"Ngh."
Talvez tenha sido a primeira vez que vi Ayase sem palavras.
"Eles se dão bem, né?"
"É…"
Saímos para o frio, mas acho que não foi isso que deixou o rosto dela vermelho.
Narasaka sorriu.
"Hum? Em quem você estava pensando como casal?"
"Eu vou embora. Até amanhã."
"Até! Tchau, Asamura!"
Ela sabia provocar na medida certa.
"Bom… tenha um bom jantar de aniversário", eu disse.
Fui embora com Ayase.
"Sério… ela vive me provocando… Mas sabe de uma coisa?" Ayase olhou pra mim. "Se ela acha que a gente se dá bem como irmãos, então estamos fazendo certo."
"É… acho que sim."
No caminho, ela ficava lembrando das coisas que Narasaka disse, fazendo cara de irritada ou corando.
"Essa Maaya…"
Devem ser bem próximas, pensei.
Lembrei de uma frase de Saneatsu Mushanokoji:
“Como é bonito ter bons amigos.”
Não tinha lido muito dele, mas conhecia essa frase.
[Ayko: Saneatsu Mushanokoji foi um autor, dramaturgo, poeta e filosofo japonês, datado dos períodos Taisho e Showa do Japão, Omedetaki Hito e Yujo são duas de suas obras mais famosas!]
No fim, é sempre bom ver pessoas se dando bem — sejam amigos, família ou casais.
Pensei no pai e na Akiko… e então olhei de relance para Ayase ao meu lado.
Um casal que não briga na frente dos filhos, hein?
Por um instante, imaginei um futuro distante.
Claro, como estudante, não conseguia imaginar como seria minha vida de verdade.
Um vento frio soprou, e eu estremeci.

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