Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 3

Capítulo 4: 25 de Agosto (Terça-feira)

25 DE AGOSTO (TERÇA-FEIRA)

Depois de acordar, fiquei deitado na cama, pensando.

Será que eu tinha cometido algum erro?

   "Provavelmente."

Disse isso para o teto e, sem ninguém para me ouvir, a resposta pareceu ecoar de volta para mim.

Virei de lado e conferi a hora. Já passava do meio-dia, mas eu ainda estava cansado. Tinha ficado acordado pensando na noite anterior e quase não consegui dormir.

Como eu deveria lidar com a teimosia da Ayase e fazê-la relaxar um pouco?

Teimosa… É, era isso. Ela era determinada — obstinada até demais.
E isso a tornava frágil.

Depois de dois meses morando com ela, eu sentia que a conhecia um pouco melhor. Agora que a via quase todos os dias no trabalho, aprendia ainda mais.

Eu imaginava que ela pensava mais ou menos assim: crianças tomam como garantido aquilo que recebem e, por isso, acabam recebendo mais do que dão. Quando criança, Ayase pedia para a mãe comprar sorvete, levá-la à piscina. Era uma criança comum, que apenas recebia sem dar nada em troca. E isso era perfeitamente natural.

Mas Ayase não concordava com essa ideia. Esse era o grande problema.

Por causa da situação familiar, ela deixou de agir como criança por volta do fim do ensino fundamental. Já não se permitia mais ser uma.

Para ela, a sociedade funcionava com base em dar e receber, e ela decidiu que daria mais do que receberia.

Talvez tivesse criado essa regra por sentir culpa por sempre ter “recebido” quando era criança — na época em que a mãe enfrentava tudo sozinha. (Ou, pelo menos, era assim que Ayase via as coisas.) Ela queria crescer rápido e diminuir o peso sobre Akiko. Para ela, o tempo em que viveu apenas recebendo era vergonhoso. Acreditava que seu egoísmo infantil tinha tornado a vida da mãe ainda mais difícil.

Que ironia.

A própria Akiko havia dito que gostaria que Ayase tivesse podido aproveitar mais tempo como uma criança despreocupada.

Pensar nisso tudo deixava meu coração pesado. Tanto Akiko quanto Ayase pensavam uma na outra, mas acabavam agindo em direções opostas.

A mãe que queria que a filha permanecesse criança por mais um pouco.
A filha que queria crescer.

Os desejos das duas se chocavam.

Naquela época, não havia como conversarem e chegarem a um meio-termo, já que Ayase ainda era apenas uma criança. Talvez agora, mais velha, isso fosse possível, mas…

Ayase começou a subir os degraus rumo à vida adulta reprimindo os próprios desejos. Ela carregava a infância como se fosse uma dívida com a mãe, desesperada para quitá-la o mais rápido possível. Tudo isso moldou a Ayase que eu conhecia — alguém que se culpava por tudo.

Era por isso que ela não conseguia relaxar.
Por isso não conseguia esquecer as responsabilidades e simplesmente se divertir.

Ela não conseguia nem se perdoar por querer ir à piscina.

   "Eu não tenho tempo para isso. De verdade, não tenho."

Ela tinha dito isso com a expressão fria de sempre, mas eu percebi um traço de desespero por trás das palavras. Foi por isso que não consegui responder nada.

Se ao menos eu tivesse feito algo esperto, como um personagem de romance, ou agido de forma mais dramática… talvez ela tivesse mudado de ideia.

Não, isso não estava certo. Eu não podia simplesmente fugir do problema. Se quisesse ajudá-la, precisava ser realista.

O alarme ao lado da cama começou a tocar. Já estava na hora de me levantar.

Desliguei-o com movimentos descuidados e me arrastei para fora da cama.

Depois de levantar, percebi que estava num horário estranho, entre o café da manhã e o almoço.

Fiquei parado na sala, pensando no que fazer. Devia comer alguma coisa? Ou tentar aguentar até o almoço?

Normalmente, Ayase já teria acordado e preparado o café da manhã antes de o meu pai sair para o trabalho, mas tudo indicava que ela ainda estava dormindo. Bastava olhar para a mesa de jantar. Isso acontecia de vez em quando, e ninguém na família considerava garantido que ela fizesse café da manhã todos os dias.

Na verdade, meu pai e Akiko haviam pedido para que ela não se esforçasse tanto durante o período de provas e tinham até proibido que ela cozinhasse por um tempo.

Voltando ao assunto principal… como eu estava me sentindo?

Estou razoavelmente com fome. Talvez eu faça uma torrada…

Nesse momento, a porta da sala se abriu e Ayase apareceu.

   "...Ah."

   "Bom dia, Ayase."

   "...Bom dia."

Ela parecia exausta, com as pálpebras pesadas. A aura digna que ela sempre mantinha, até mesmo em casa, tinha desaparecido. Usava roupas mais folgadas do que o normal; sua armadura parecia estar com atributos baixos tanto de ataque quanto de defesa.

   "Você não dormiu?"

   "Dormi… por volta das seis da manhã."

Isso não era exatamente dormir. Soava mais como um cochilo.

   "Você devia voltar para a cama e descansar. Não trabalha até a noite."

   "Estou bem… Que horas são?"

Ela ergueu a cabeça lentamente e olhou para o relógio. Os olhos embaçados focaram por um instante, depois se arregalaram.

   "O quê…?! Já está tão tarde assim…?"

Ela arfou e olhou para a mesa. Não havia nada ali, é claro.

   "Desculpa. O papai não comeu nada, comeu?"

   "Está tudo bem. Acho que ele comeu pão."

Havia um prato com algumas migalhas na pia da cozinha. Ele devia ter comido torradas, mas não teve tempo de colocar o prato na lava-louças — embora tivesse guardado a manteiga e a geleia na geladeira.

Era assim que vivíamos antes de Ayase e Akiko se mudarem. Na verdade, já era digno de elogio ele ter comido alguma coisa.

Ayase não precisava se sentir culpada por isso.

Eu disse isso, mas ela não pareceu ouvir. Mordeu o lábio, como se tivesse cometido um erro grave.

   "Eu nunca dormi demais assim antes”

   "Você deve estar exausta. Volta para a cama e descansa."

   "Não vou fazer isso… Me desculpa mesmo! Você também não comeu nada ainda, né? Vou preparar algo agora."

As olheiras sob seus olhos eram visíveis. Ela estava cansada demais para que eu simplesmente agradecesse e deixasse que cozinhasse.

   "Ayase"
Chamei ela, com um tom sério e um pouco formal.

   "S-sim…?"

   "Quero que você me escute, tudo bem? Não tente se esquivar da conversa."

   "Hã… do que você está falando?"

   "Lembra do que você disse quando se mudou para cá?"

Ela suspirou, surpresa. Devia se lembrar.

   "...‘É bom que a gente consiga conversar assim’…?"

Assenti, era exatamente isso.

Desde o começo, combinamos de colocar todas as cartas na mesa. Compartilhar informações, sentimentos, conversar para nos darmos bem. Por isso, decidi dizer exatamente o que pensava.

   "Do meu ponto de vista, você está claramente sem dormir o suficiente. Pode até discordar, mas dê uma olhada no espelho. Eu não quero que você se force a fazer café da manhã nesse estado. Estou preocupado que você fique doente. Se quiser, pode se sentar na cadeira enquanto eu preparo algo. Essa é a minha opinião sincera."

   "Ngh… Mas eu disse que faria o café."

   "Normalmente, talvez. Mas podemos ser flexíveis. Sua missão hoje é dormir, não cozinhar. Essa é a minha recomendação."

   "M-mas…"

   "Se você estivesse agindo como sempre, eu não estaria dizendo isso. Mas você mesma disse que nunca tinha dormido até tão tarde antes, não foi?"

   "...Foi."

   "Então hoje não é um dia normal. Você não precisa se forçar a agir como de costume. Agora, sente-se. Ou, se preferir, volte para o quarto e durma mais."

[Ayko: Yuuta goat.]

Enquanto falava, puxei a cadeira que ela costumava usar. Ela rangiu contra o piso de madeira.

   "Eu só estou um pouco sem dormir."

   "Eu sei. E isso te dá todo o direito de se sentar nessa cadeira. Vamos."

   "...Tudo bem."

Ela cedeu e se sentou. Eu nunca tinha visto Ayase parecer tão fraca.

   "Acha que consegue comer uma fatia de torrada?"

Ela assentiu, e coloquei duas fatias na torradeira — uma para ela e outra para mim. Em seguida, peguei manteiga e geleia na geladeira e coloquei tudo à sua frente, junto com facas e colheres. Também encontrei um pouco de presunto fatiado fino.

   "Quer que eu grelhe o presunto? Sei que você sempre faz assim."

   "Eu gosto mais desse jeito."

   "Levemente tostado, né?"

   "...É, gosto assim."

   "Eu também. A parte tostada fica bem crocante."

Como concordávamos nisso, coloquei um pouco de óleo numa frigideira e comecei a aquecer o presunto no fogão de indução. Quando começou a chiar, percebi o quanto estava com fome. Por que o som de carne fritando sempre despertava o apetite?

Coloquei as torradas douradas em um prato e levei à mesa. Depois, pus o presunto tostado em outro prato e salpiquei pimenta-do-reino, do jeito que Ayase costumava fazer. Espera… ela não costumava fazer isso antes de grelhar? …Bom, tanto faz.

Lembrei de algo e abri a geladeira. Ainda havia um pouco de leite.

   "Quer um pouco de leite quente?"

   "Com esse calor…?"

   "Aqui dentro está fresco por causa do ar-condicionado. Achei que seria bom você se aquecer com uma bebida quente se for voltar a dormir."

Ayase ficou em silêncio outra vez e, então, disse:

   "...Tudo bem."

   "Já estou fazendo."

Coloquei o leite em uma caneca, aqueci no micro-ondas e o coloquei à sua frente. Depois, enchi um copo com chá de cevada para mim e o pus sobre a mesa. Em seguida, sentei-me e juntei as palmas das mãos, indicando que estava prestes a comer.

   "Bom, vamos comer. Eu devia ter separado alguns legumes também, mas fazer o quê."

   "Assim está bom… Vamos comer"
Ayase falou baixinho.

Ela passou manteiga na torrada, colocou o presunto por cima e deu uma pequena mordida. Fiz o mesmo, e comemos em silêncio por um tempo.

Não levou muito para terminar uma fatia fina de pão, e notei que Ayase agora segurava a caneca com as duas mãos, bebendo o leite aos poucos. Olhei para o meu copo vazio e pensei se deveria enchê-lo novamente.

Ayase soltou o ar, num som que parecia um suspiro, e pousou a caneca sobre a mesa. O leve ruído ecoou pelo ambiente.

   "Eu estava pensando…"

Ela deu outro pequeno gole no leite, como se fosse alguma poção especial para lhe dar coragem.

   "...Eu não me importo de ir à piscina."

Eu estava prestes a abrir a geladeira para pegar mais chá de cevada, mas puxei a mão de volta imediatamente e me virei para Ayase.

   "Você mudou de ideia?"

   "Mudei agora. Antes de dormir ontem à noite, eu tinha certeza de que não iria… Não, isso não está certo. Eu estava em dúvida."

   "Até às seis da manhã?"

   "Até às seis da manhã."

   "E agora você decidiu que quer ir?"

Ela assentiu.

   "Quando acordei hoje, senti… que talvez estivesse tudo bem. Mas depois de tudo o que eu tinha dito, foi difícil admitir isso."

Ao ouvir isso, toda a força pareceu sair do meu corpo. Afundei na cadeira como uma água-viva.

Eu não precisava ter feito nada dramático. Ayase apenas pensou muito sobre isso por uma noite inteira — tanto que não conseguiu dormir. Quando finalmente descansou e acordou, sua opinião havia mudado. Só isso.

Ah, então é assim que funciona na vida real. Aquilo soou estranhamente convincente. No mundo real, não é preciso um esforço hercúleo de alguém. Às vezes, basta uma frase simples para provocar uma mudança. Eu já tinha lido em algum lugar que as pessoas podem reformular toda a sua visão de mundo a partir das menores coisas.

   "Mas há um problema", ela disse.

O quê?

   "Um problema sério, que envolve você também."

   "Você não sabe nadar? Eu não sou bom o suficiente para te ensinar."

   "Não será necessário. Eu sei nadar."

   "Entendi."

Então não era isso. Devia ser algo ainda mais sério — algo grande, que também me incluía.

   "Como eu não pretendia ir, aceitei trabalhar nesse dia. Acho que você também."

   "Quando é a ida à piscina?"

   "No dia vinte e sete — depois de amanhã."

   "O quê… Sério?"

   "Sério."

Nós dois estaríamos de folga no dia seguinte, dia vinte e seis, e trabalhando no dia seguinte a esse. Droga. Ayase finalmente tinha mudado de ideia e decidido ir, mas, desse jeito, nenhum de nós conseguiria.

Pensei por alguns instantes e decidi sugerir a solução mais básica possível.

   "Olha, você finalmente decidiu que quer ir. Então vamos fazer isso acontecer."

   "Acha que dá?"

   "Bom, esse tipo de coisa não é tão incomum. Acho que vai dar certo."

   "Você acha? Eu pensei que fosse impossível…"

   "É só trocar o turno com alguém. Simples, não?"

Era uma sugestão simples, e tentei parecer confiante, mas eu sabia muito bem que esse tipo de coisa nem sempre funcionava tão facilmente.

Eram quatro e meia da tarde em Shibuya. A luz do sol entrava inclinada, e o calor escaldante havia diminuído um pouco.

Empurrei minha bicicleta pelo cheiro de asfalto queimado enquanto caminhava ao lado de Ayase. Fiquei do lado mais próximo da rua, com a bicicleta entre mim e os carros que passavam.

Decidimos ir mais cedo à livraria depois de concordar que seria falta de educação pedir ao gerente para trocar nossos turnos durante o expediente.

Como mencionei antes, para irmos juntos, ou quem estava de bicicleta ou quem estava a pé precisava ajustar o ritmo. Nem Ayase nem eu gostávamos de nos preocupar com esse tipo de coisa. Mas isso só era um problema quando não havia um motivo.

Eu nunca imaginei que iríamos trabalhar juntos por uma razão como essa.

   "Que bom. Está ficando nublado"
Disse Ayase, olhando para o céu.

Ela tinha razão. Metade do céu estava coberta. Ainda não estava escuro, pois restavam trechos azuis, mas o ar parecia um pouco mais fresco, um pouco menos sufocante.

Ayase, que vinha se abanando com uma das mãos, parou e ajeitou a alça da bolsa sobre o ombro. A bolsa estava bem cheia, já que precisávamos levar nossos uniformes para casa.

A roupa de Ayase naquele dia a fazia parecer diferente.

Ela vestia uma blusa clara, de verão, com mangas e gola que não expunham muita pele. Um laço estreito pendia onde um homem usaria uma gravata. Usando a analogia da armadura da própria Ayase, eu diria que era um traje com alta defesa e baixo ataque.

Eu tinha dito que precisaríamos ser muito educados na negociação. Talvez por isso ela tivesse escolhido aquela roupa. Fazia com que parecesse correta e formal.

Mas os brincos ainda brilhando em suas orelhas pareciam dizer que ela picaria como uma abelha se alguém fosse descuidado. Isso era muito a cara dela. Se fosse dizer mais alguma coisa, ela parecia um pouco quente demais, já que não estava mostrando tanta pele.

   "Você está bem? Não está com calor?"

   "Agora que nublou, estou bem."

   "Conseguiu dormir um pouco?"

   "Sim. Duas horas."

Duas horas não pareciam suficientes, mas não havia motivo para insistir nisso de novo, e eu não queria tratá-la como uma criança. Minha intenção não era transformá-la em uma outra pessoa.

Enquanto me perdia em pensamentos, a conversa foi morrendo, e caminhamos em silêncio por um tempo.

Quando comecei a ouvir o barulho do trânsito congestionado e dos caminhões de propaganda tocando música alta sem nenhuma consideração pelos moradores, soube que estávamos nos aproximando de Shibuya propriamente dita.

À medida que o clima ao nosso redor mudava, Ayase falou:

   "Desculpa por ontem."

   "Pela piscina?"

   "Isso também. Mas tem outra coisa. Acho que fui um pouco desagradável quando você veio trabalhar com a Yomiuri."

   "Ah… isso."

Ela se referia àquela conversa que tinha soado estranha para mim.

   "Como irmã, fico aliviada que ele tenha encontrado alguém tão maravilhoso quanto você."

Eu tinha rido e assumido que Ayase estava apenas brincando, tentando divertir Yomiuri. Mas eu sabia que ela não gostava quando diziam esse tipo de coisa, e aquilo tinha ficado na minha cabeça.

Eu teria imaginado que ela se oporia a esse tipo de estereótipo — de que um garoto e uma garota andando juntos devem ser um casal. Mesmo que pensasse isso, provavelmente diria que não era certo dizer algo assim diretamente.

   "Eu estaria quebrando nossa promessa se me sentisse estranha com algo e não te contasse. Está tudo bem, vou ser sincera. Eu consigo."
Ela levou um tempo organizando os pensamentos em palavras, como se estivesse tentando se convencer.
   "Como eu posso dizer isso? Acho que eu só queria que você me dissesse logo se você e a Yomiuri estavam namorando."

   "Entendi. Mas por quê?"

   "Não sei… Vamos deixar assim."

Que jeito estranho de colocar isso. Será que ela sabia o motivo, mas não conseguia dizer? Parecia que Ayase estava tentando sondar minha relação com Yomiuri, desviando o olhar de mim o tempo todo. Ambas as coisas pareciam carregadas de significado, e senti meu coração começar a bater mais rápido.

…Antecipação? Para com isso, Yuuta Asamura. Antecipação de quê?

Me forcei a me acalmar e esperei em silêncio que Ayase continuasse.

   "Agora que trabalhei com ela, dá para perceber que ela é uma pessoa realmente boa."

   "É, ela é."

   "Ela é gentil, atenciosa, inteligente, sabe de tudo e é divertida de conversar — nunca entediante."

   "Ela também é meio relaxada e vive fazendo piadas indecentes."

   "Isso não são defeitos, Asamura. É charme… mas não preciso te explicar isso. Você trabalha com ela há mais tempo do que eu"

Disse Ayase, com um sorriso torto. 

   "Por que diabos eu estou te fazendo uma apresentação da Yomiuri, afinal?"

Eu queria perguntar a mesma coisa. O que Ayase realmente queria me dizer?

   "Acho que pensei que ela seria uma cunhada aceitável. Só isso. Desculpa… provavelmente não devia ter dito algo que pudesse te restringir, mas acabei falando sem pensar."

Sem hesitar, Ayase explicou o que havia levado à reação dela no dia anterior. Sua explicação foi tão fluida que parecia que ela estava lendo algum tipo de roteiro mental que havia preparado com antecedência.

Era mesmo aquilo que ela sentia?

Mais uma vez me forcei a engolir essa dúvida. Ayase tinha dito que me contaria o que a deixara desconfortável. Se eu duvidasse dela, toda a base do nosso relacionamento desmoronaria.

Nesse caso, não me restava outra opção além de concordar com a cabeça.

   “Tudo bem, você já está perdoada. Então pare de se desculpar.”

   “Tudo bem.”

E assim encerramos o assunto, deixando-o para trás… Pelo menos, para mim e para Ayase, aquele deveria ser o jeito mais confortável de lidar com as coisas. Ainda assim, por algum motivo, eu não conseguia me livrar de uma sensação estranha de incômodo, como se um nó estivesse preso na minha garganta.

A multidão foi ficando mais densa à medida que nos aproximávamos da estação. A maioria dos trabalhadores de escritório ainda deveria estar no expediente, e mesmo assim já era possível ver homens de gravata e ouvir o som dos saltos altos das mulheres, misturados aos estudantes ainda de férias de verão.

Então, enquanto estacionava minha bicicleta, algo me passou pela cabeça. Estalei a língua.

   “Droga.”

Ayase me olhou, surpresa.
   “O que foi?”

   “Ayase, você percebeu uma coisa?”

   “O quê?”

   “Eu sabia que iríamos trabalhar e voltar juntos. Então por que diabos eu trouxe a bicicleta?”
Se fôssemos caminhar na ida e na volta, eu poderia simplesmente tê-la deixado em casa.

   “Hã?”
Ayase me encarou como se eu estivesse falando algo completamente sem sentido.
   “Você não tem um motivo?”

   “Não. Nenhum. Trouxe por puro hábito.”

   “B-bem… essas coisas acontecem, eu acho… Pfft!”

   “O poder do hábito é meio assustador.”

   “É. Vamos deixar por isso mesmo.”

Eu conseguia ver o riso nos olhos dela. Droga, ela estava rindo de mim.

Mas tudo bem… Ela vinha tão tensa ultimamente que talvez fosse melhor vê-la sorrir, não importava o motivo.

Estacionei a bicicleta, alcancei Ayase e entramos juntos pela entrada dos funcionários. Lá dentro, encontramos um veterano e perguntamos onde o gerente estava.

Quando abri a porta do escritório, ele estava lá, sentado atrás da mesa, perto da janela.

   “Oh…? Se não são os Asamura… Não, espere. Você atende por Ayase, não é?”

Eu não podia culpá-lo por confundir o nome dela, já que no papel ela era Saki Asamura.

Meu pai e Akiko haviam se casado oficialmente, o que significava que todos na nossa família agora tinham o sobrenome Asamura. Mesmo assim, Ayase continuava usando seu nome antigo na escola e no trabalho, por conveniência. Isso não era incomum. Eu já tinha ouvido dizer que cada vez mais pessoas continuavam usando o nome de solteiro em cartões de visita, e-mails, cadastros e afins.

Como a livraria era um emprego novo, cheio de pessoas novas, Ayase poderia ter escolhido usar Saki Asamura, mas aparentemente não queria receber nenhum tratamento especial por ser minha irmã. E como eu a chamava de Ayase, nossos colegas ainda não tinham descoberto que éramos parentes.

   “Boa tarde, senhor”
Eu disse.
   “É que…”

   “Hm?”

Como não fomos embora depois de cumprimentá-lo, o gerente ergueu o olhar.

Apesar do cargo, ele ainda estava na casa dos trinta. Tinha um jeito gentil, mas corria o boato de que era muito competente.

   “Aconteceu alguma coisa?”
Ele nos perguntou.

   “Ah… desculpe aparecer assim de repente, mas… eu e a Ayase estaríamos de folga amanhã e trabalharíamos no dia seguinte. Será que seria possível trocar nossos turnos?”

   “Oh…? Isso é inesperado. Surgiu algum compromisso?”

   “Bem…”

Mentir nessas situações não era uma boa ideia, porque, se fosse descoberto, estaríamos perdidos. O importante era ser honesto, mas sem dar mais informações do que o necessário.

Então foi isso que eu disse:

   “Uma amiga nossa nos convidou de última hora para um passeio.”

O gerente sabia que estudávamos na mesma escola, então entenderia que se tratava de uma amiga em comum. Ayase era próxima de Narasaka, e eu mal podia dizer que éramos amigos, mas não havia necessidade de explicar isso.

Ayase continuou a partir daí.

   “Ela estava viajando até ontem.”

Isso era verdade. Quando ouvi isso, entendi por que ela não tinha entrado em contato comigo. Ela já tinha contado à Ayase sobre a festa na piscina, então por que me ligaria ou mandaria mensagem enquanto estava viajando?

Havia uma mentira na nossa história, no entanto. O convite só foi “repentino” para mim, não para Ayase. Por isso, fui eu quem lidou com essa parte da explicação, enquanto Ayase mencionou a viagem de Narasaka.

Fazendo isso, é possível esconder a verdade sem mentir diretamente, embora eu não recomende muito esse método.

A parte mais importante veio em seguida: precisávamos convencê-lo da nossa sinceridade.

   “Desculpe incomodar, mas poderia nos permitir trocar os dias de trabalho?”
Pedi ao gerente, curvando-me profundamente. Ayase fez o mesmo.

   “Hm. Só um instante.”
O gerente começou a mexer no computador, provavelmente olhando nossos horários.
   “Os dois, é…?”

Levantei a cabeça e olhei para Ayase. Ela parecia preocupada. O que aconteceria agora? Se ele recusasse, eu teria de pensar no próximo passo. Claro, nosso pedido era legal, e tecnicamente ele não poderia negar, mas eu não tinha nenhuma intenção de forçar a situação e estragar minha relação com o chefe. Aquilo não exigia medidas tão drásticas.

    “Dia vinte e sete… quinta-feira, né? Hm.”
O gerente pegou o telefone e fez uma ligação. Depois de uma explicação breve, trocou algumas palavras com a pessoa do outro lado da linha e desligou. Em seguida, repetiu o processo.

   “Parece que não tem problema. Temos duas pessoas experientes e com horários flexíveis amanhã, e elas disseram que conseguem cobrir vocês.”

   “Sério?!”

   “Sério.”
O gerente sorriu.
  “Mas espero que vocês dois trabalhem duro para compensar.”

Ele estava usando bem a cenoura e o chicote. Um adulto sempre tinha vantagem ao negociar com dois estudantes do ensino médio. Talvez ele até tivesse percebido nossa desculpa fraca. Mas o que importava agora era deixar Ayase se divertir. Eu faria o que fosse preciso para que isso acontecesse.

Reconhecendo o aviso do gerente, respondi com a voz mais séria que consegui.

   “Prometemos dar o nosso melhor!”

   “S-sim. Vamos trabalhar duro para compensar!”

Nós dois nos curvamos mais uma vez e deixamos o escritório do gerente.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, Ayase suspirou.

   “Estou tão aliviada”

   “Que bom que deu certo.”

   “Acho que nunca fiquei tão tensa assim.”

   “Não acha que está exagerando um pouco?”

Quando já estávamos trocados com os uniformes, nosso turno estava prestes a começar.

Naquele dia, precisávamos organizar os livros adicionais que haviam chegado, então empilhamos as caixas em um carrinho e o empurramos pelo labirinto quase florestal das estantes.

   “Ayase, nosso próximo destino é ali. São lançamentos da seção de livros técnicos.”

   “Tudo bem, Asamura.”

Dizendo que era perda de tempo esperar eu acompanhá-la com o carrinho, ela pegou alguns livros da caixa e se adiantou até a estante. Quando cheguei, ela já estava colocando os volumes nos espaços vazios.

   “A forma como você administra o tempo ajuda bastante”.

   “Quem impressiona é você. Sabe onde cada livro fica e como chegar lá do jeito mais rápido.”

   “Não tenho tudo decorado.”

Muitos dos livros que tinham chegado naquele dia eram de gêneros que eu gostava, o que me permitiu traçar uma rota eficiente pela loja. Eu só tinha dado sorte.

As caixas ficaram vazias pelo menos quinze minutos antes do previsto. Então sugeri:

   “Certo, vamos fazer uma pausa”.

   “Tá bom.”

Levamos o carrinho para os fundos e fomos até a sala de descanso. Ayase foi até o dispensador de chá gelado, encheu um copo de papel e se sentou.

   “Asamura”
Ela disse de repente. Sua voz soava menos formal, talvez porque estivéssemos sozinhos na sala. Ela tomou o chá de uma vez, levantou-se para pegar mais e, depois de se sentar novamente, continuou.
  “Do meu ponto de vista, não é que você não consiga fazer amigos. Você só não faz.”

   “Não é essa a minha intenção.”

   “Mas você não se importa muito em não ter muitos, né?”

   “É… isso é verdade.”

   “Viu só?”

   “Hm. Pensando assim, acho que você está certa. Eu não fico desesperado para fazer amigos.”

Dito isso, eu não desgostava de ter amigos. Acho que eu simplesmente aceitava quem aparecesse.

   “Para falar a verdade”
Ayase começou.

   “Eu não achei que o gerente fosse trocar nossos turnos tão facilmente. Não… isso não está certo. Eu estava com medo de negociar. Eu não queria negociar, então me convenci de que não era possível.”

   “Eu só estou acostumado. Já troquei turnos várias vezes antes.”

   “Isso não significa que você tem mais experiência em se comunicar do que eu?”

Nunca tinha pensado nisso.
  “Acho que… dá para dizer que sim.”

   “Você parecia confiante quando chegamos à loja hoje e quando perguntou ao outro funcionário onde o gerente estava. E também durante a negociação, você se manteve firme e disse exatamente o que queria… Para mim, você não parece alguém que tem dificuldade de se comunicar.”

   “Você está me superestimando.”

Eu não era tão bom assim. Apenas trabalhava na livraria havia algum tempo e, como meus colegas e eu compartilhávamos um assunto em comum, o trabalho, eu conseguia conversar de alguma forma.

   “O trabalho é um lugar onde todos esperam que as pessoas sejam honestas e sinceras umas com as outras”, eu disse.
   “Então é um pouco mais fácil. Não é tão difícil ter esse tipo de diálogo direto de que você estava falando.”

   “Eu não consigo.”

   “Claro que consegue. Você só precisa se acostumar a trabalhar aqui. Na verdade, você já está quase lá. Acho que é muito mais difícil se comunicar com amigos, onde parecem existir regras fixas, mas na verdade não existem. Eu… não sou bom nisso. Do jeito que eu vejo, você é muito melhor nisso do que eu.”

   “Ah… para com isso.”

Era verdade. Eu tinha evitado dizer, mas era graças às regras dela que estávamos nos dando tão bem como família.

Eu não podia contar a ela, agora que finalmente tinha decidido ir à piscina, mas naquele momento era eu quem estava cheio de inseguranças. Eu tinha me comprometido a acompanhá-la, mas, embora conseguisse conversar com Ayase e talvez com Narasaka, não tinha nenhuma confiança de que conseguiria me divertir perto dos outros colegas de classe.

E a festa na piscina seria dali a apenas dois dias.

[Ayko: Finalizando mais um capítulo, realmente admiro o nível com que o Yuuta lê a Saki e vice-versa, mesmo quando acreditam não se entenderem tão bem, e de fato, nesses pequenos detalhes Gimai tem dado A U L A S!]

 

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