Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 3

Capítulo 3: 24 de Agosto (Segunda-feira)

24 DE AGOSTO (SEGUNDA-FEIRA)

Naquela manhã, acordei e fui até a sala de estar, apenas para descobrir que não havia ninguém ali.

Eu sabia que meu pai e Akiko tinham saído. Meu pai já tinha ido trabalhar, e Akiko ainda não tinha voltado para casa. Ela havia nos avisado que chegaria tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista.

Mas Ayase também não estava ali, e normalmente ela já estaria acordada a essa hora. Será que estava no quarto dela? Porém, a sala não estava quente. Pelo contrário, estava agradável e fresca.

Espera, que? Fresca?

Foi então que percebi algo estranho.

O ar-condicionado estava soltando ar frio. Tinha sido consertado. Eu tinha chegado tarde na noite anterior e ido direto para o quarto sem jantar, então não havia notado. Pelo visto, um técnico tinha vindo durante o dia e feito o reparo. Lembrei que meu pai e Akiko haviam dito que iriam fazer compras, mas talvez tivessem priorizado o conserto.

Eles devem ter deixado ligado para mim, sabendo que eu acordaria em breve.

Olhei em direção à mesa de jantar e vi o café da manhã já servido.

Será que…?

Peguei o celular e vi uma mensagem da Ayase.

   “Preparei o café da manhã, então pode comer. Eu já comi.”

Isso significava que ela já estava acordada. Devia estar no quarto, estudando ou limpando alguma coisa.

Enviei uma mensagem agradecendo e me sentei no lugar de sempre à mesa.

   “Então hoje é um café da manhã japonês tradicional.”

O salmão grelhado estava servido no prato azul reservado para peixes, acompanhado por um pequeno monte de daikon ralado e duas ameixas em conserva perto da borda. Outro prato tinha um pacote de alga para tempero, e um prato maior trazia uma salada. Lembrava os cafés da manhã servidos em pousadas tradicionais japonesas.

[Ayko: Daikon (大根) é um termo utilizado no Japão para se referir a rabanetes!]

E, como sempre, agradeci silenciosamente à Ayase.

Depois de observar tudo, peguei as tigelas vazias de arroz e de sopa de missô que Ayase havia deixado sobre a mesa, levantei-me e fui até a cozinha. Lá, reaqueci a sopa e, enquanto isso, servi o arroz da panela elétrica.

Antes que a sopa começasse a ferver, desliguei o fogo, enchi a tigela e voltei para a mesa.

Juntei as mãos, agradeci pela refeição e comecei a comer.

Depois de despejar shoyu sobre o daikon ralado e deixá-lo absorver bem, coloquei-o sobre o salmão. Em seguida, usei os hashis para separar o peixe em pedaços e comi tudo junto.

A doçura do salmão, misturada ao sabor marcante do daikon, se espalhava pela boca a cada mordida.

Peixe é realmente bom. Era delicioso de um jeito diferente das outras carnes. O daikon deixava um frescor que praticamente garantia que eu conseguiria comer bastante arroz em seguida.

[Ayko: Realmente, o sabor do daikon no shoyu, junto do salmão ou peixe branco, torna a experiência de comer o peixe (que já é boa) única. E olha que eu não sou fã de rabanete]

   “Uma refeição japonesa simples é mesmo a melhor”
Pensei ao pegar a sopa de missô.

Era um pensamento meio clichê, mas verdadeiro.

Naquela manhã, a sopa tinha pequenos cogumelos nameko. Saboreei sua textura escorregadia, coberta pelo missô, enquanto mastigava e engolia junto com o caldo.

Mais uma vez, o trabalho da Ayase tinha sido impecável.

[Ayko: Mais uma nota culinária, cogumelos Nameko são realmente originários do Japão, sendo bastante comum o encontrar em caldos ou em sopas de missô]

Sempre sentia vontade de mandar uma mensagem comentando isso, mas tinha medo de parecer estranho se falasse algo tão trivial por texto. Era diferente quando eu podia dizer pessoalmente.

Em vez disso, agradeci silenciosamente em meu coração.

   “Obrigado por sempre fazer um missô tão delicioso, Ayase.”

Depois de comer e lavar a louça, ainda tinha um pouco de tempo antes de sair para o trabalho. Sem saber o que fazer, olhei em volta pela sala e decidi ajudar com a limpeza.

Cobri o restante da comida na mesa com plástico filme para protegê-la da poeira. Eu poderia ter guardado tudo na geladeira, mas Akiko voltaria em breve, e achei melhor não esfriar demais o peixe grelhado. Se ela decidisse não comer, eu guardaria depois.

Uma boa regra para limpar a casa era começar de cima para baixo, já que a poeira sempre caía no chão. Limpei as superfícies ao meu alcance, dei uma varrida rápida e depois passei o pano para dar brilho no piso de madeira.

Manter as mãos ocupadas ajudava, mas minha mente começou a divagar. Passei a pensar em como Ayase vinha agindo de forma estranha nos últimos dias.

Tudo tinha começado no sábado.

   “Não se preocupe com a Maaya. Nós não somos o tipo de amigas que sai juntas durante as férias de verão, está bem?”

Eu não conseguia entender por que ela tinha vindo até o meu quarto só para dizer isso. Ayase realmente faria algo tão sem sentido assim?

   “Hmmm.”

Parei de mover o pano, apoiei o queixo no cabo e soltei um gemido baixo.

Foi então que me lembrei de outra coisa.

Maru tinha dito que eu também estava convidado para a ida à piscina da Narasaka, mas ninguém tinha entrado em contato comigo. Claro que ninguém do grupo da Narasaka tinha meu contato, então isso fazia sentido. Eles não poderiam me convidar mesmo que quisessem.

Nesse caso, o que a Narasaka faria? Provavelmente pediria para Ayase me convidar.

Fazia sentido Ayase recusar se não quisesse ir, mas não fazia sentido ela deliberadamente não me contar sobre isso.

Pensei no que eu faria se estivesse no lugar dela. E se Maru fizesse um plano parecido e me pedisse para convidar a Ayase? Mesmo que eu não fosse, com certeza contaria a ela. Diria algo como: “O Maru te convidou para fazer tal coisa com a gente.”

Se eu não fizesse isso, minha decisão egoísta estaria tirando dela uma possível diversão. Nosso relacionamento deveria ser justo e equilibrado, e algo assim simplesmente não me pareceria certo.

Então por que ela não tinha me contado?

Algo estava errado. Ao perceber isso, notei que tinha parado de limpar completamente.

   “Opa!”

Voltei a limpar a sala, embora minha mente continuasse ocupada com pensamentos sobre Ayase e o que ela estava fazendo. Eu tinha acabado de terminar de passar o pano quando ouvi a porta da frente se abrir e vi Akiko entrar cambaleando, como se estivesse prestes a desabar.

   “Ah… Yuuta. Bom dia…”

   “Bem-vinda de volta, e bom dia. Quer comer alguma coisa?”

   “Quero… só vou comer um sorvete e ir dormir”
Disse ela, com os olhos semicerrados.

Abri o freezer e peguei um picolé que havia ali. Meu pai fazia questão de manter o congelador bem abastecido, já que Akiko adorava sorvete. Este era de morango.

   “Ah, aliás, vocês consertaram o ar-condicionado ontem?”

   “Mm… Ah, sim. O Taichi chamou o técnico na hora, então…”

Ela parecia exausta, e suas frases iam ficando incompletas.

Sentou-se e começou a comer o sorvete enquanto explicava. Pelo visto, o filtro do ar-condicionado estava sujo. Meu pai tinha tentado consertar sozinho e quase causado ainda mais problemas, mas, felizmente, o técnico resolveu tudo.

Meu pai provavelmente tinha tentado se exibir na frente da Akiko. Que desastre.

   “Máquinas são complicadas, não são?”, comentou Akiko.
   “Parecem perfeitamente normais, e de repente quebram do nada.”

Meu coração deu um salto.

Parecem normais até, de repente, quebrarem. Na minha mente, as palavras dela se ligaram ao que Yomiuri havia dito outro dia sobre pessoas sérias sofrerem colapsos de repente.

Talvez não fosse só com máquinas. Talvez fosse assim com pessoas também.

Pessoas sérias não conseguiam parar sozinhas. Se ninguém as forçasse a descansar, um dia acabariam quebrando. Mas como Ayase reagiria a uma sugestão dessas?

   “A Ayase não gosta de pessoas que tentam forçá-la a parar de fazer o que quer?”

Fiz a pergunta a Akiko, esperando entender melhor a personalidade da Ayase antes de agir. Akiko parou de comer o sorvete, olhou para o nada e pensou por um momento.

   “Hã? Você está perguntando se ela não gosta que pressionem ela a fazer coisas?”

   “P-pressionar…?”
Achei que dava para colocar dessa forma, embora a nuance fosse um pouco diferente.
  “Não exatamente pressionar. Quero dizer… por exemplo, se alguém faz planos e tenta levá-la junto. Algo assim.”

   “Então você quer saber se ela gosta de pessoas insistindo para levá-la a encontros? Bom, conhecendo ela, acho que não ficaria muito feliz. Acredito que a maioria das garotas prefira que tudo aconteça do jeito certo.”

   “Então ela não gostaria… Eu já imaginava.”

A leitura que Akiko fez da personalidade da filha parecia bastante precisa. Mas então, o que eu deveria fazer para ajudá-la a relaxar?

   “Hm?”
Akiko interrompeu meus pensamentos de repente.
   “Você quer convidá-la para um encontro? Yuuta… você se apaixonou por ela?”

E assim, congelei.

O quê? O que foi que ela acabou de me perguntar?

Em pânico, revi mentalmente nossa conversa. Eu tinha causado algum mal-entendido?

   “N-não! Não é isso que eu quis dizer. Não estou falando de nada romântico. Eu só achei que a Ayase talvez estivesse levando tudo sério demais.”

Eu precisava me explicar. Com muito cuidado, contei a ela sobre a conversa que eu e Yomiuri tivemos no dia anterior.

Akiko sorriu, com uma expressão convencida. Parecia ter entendido. Suspirei, aliviado.

   “Agora entendi, por um momento, achei que você pudesse ter se apaixonado por ela.”
Ela me respondeu.

   “Eu nunca—”

Isso não era possível.

Ayase era minha irmã mais nova. Minha irmã. Eu não podia me apaixonar por ela. Isso simplesmente não podia acontecer.

  “Sim… acho que você pode estar certo sobre a Saki”, murmurou Akiko, me trazendo de volta dos meus pensamentos.
  “Eu fiquei muito ocupada na época em que ela entrou no ensino fundamental II. E a Saki, por sua vez, tentou me ajudar, evitando me dar trabalho sempre que podia. Ela se tornou muito independente… independente demais para uma garota da idade dela.”

   “É… é essa a impressão que eu também tenho.”

   “Sim. Pode até soar como algo positivo, mas quando penso que tudo isso é culpa minha, por não ter conseguido cuidar dela direito… eu me arrependo. Sinto que acabei me aproveitando dela. Queria ter deixado que ela continuasse sendo uma criança despreocupada por mais um tempo.”

Queria ter deixado que ela continuasse sendo uma criança despreocupada por mais um tempo.

As palavras de Akiko apertaram meu coração. Lembrei-me da foto que eu tinha visto da Ayase quando era pequena — uma menina que pedia sorvete para a mãe e implorava para ir à piscina. Mas Ayase se forçou a crescer. Ela decidiu viver de forma independente, sem depender de ninguém.

Tudo começou com o desejo de aliviar o peso sobre a mãe. Mas agora era mais do que isso.

   “Yuuta”
Chamou Akiko, e eu levantei o olhar. A expressão em seu rosto estava bem séria.
  “Eu realmente não deveria pedir isso ao meu enteado, mas você poderia ajudar a Saki a dar uma pausa de vez em quando, para que ela não se sobrecarregue tanto? Se ela resistir, então você pode usar um pouco de força, como mencionou.”

Hesitei por um instante, e depois assenti.

Até então, eu havia tentado manter certa distância das pessoas. Eu não podia — e nem queria — ser responsável pela vida de ninguém, assim como não gostava que os outros se intrometessem nos meus assuntos. Sempre evitei relações de dependência mútua, em que eu e outra pessoa acabássemos sendo um peso um para o outro.

Me lembrei do que Ayase tinha dito quando nos conhecemos:

   “Não vou esperar nada de você, e não quero que você espere nada de mim.”

Foi exatamente por isso que aquelas palavras haviam sido tão reconfortantes para mim na época. Achei que, se fosse possível, o melhor seria manter nossa relação leve e com certa distância.

Mas se ela estivesse caminhando rumo a um colapso, eu não podia simplesmente ficar parado assistindo.

Mesmo que isso significasse que ela viesse a me odiar.

   “Não se preocupe. Se ela começar a te odiar, eu te conto o que ela mais gosta.”

   “O que ela mais gosta…? Hm. Isso, uh… faria ela ficar feliz de novo?”

   “Com certeza!”, Akiko abriu um largo sorriso.

Ela tinha um sorriso bonito. Embora eu duvidasse que existisse um remédio tão conveniente assim, pedi que ela me contasse quando chegasse a hora.

Eu realmente não queria que Ayase me odiasse.

Afinal, ela era minha irmã mais nova, e ainda dividíamos o mesmo teto.

O único som na sala de estar era o zumbido suave do ar-condicionado.
Depois de me agradecer pelo sorvete, Akiko jogou o palito no lixo. Ela devia estar realmente exausta. Cambaleando um pouco, seguiu em direção ao quarto que dividia com meu pai. Fiquei um pouco preocupado se ela conseguiria chegar à cama sem desabar antes.

Bom trabalho hoje… e boa noite. Então…

Guardei o salmão grelhado que não tinha sido comido na geladeira e fui bater na porta do quarto da Ayase.

   “O que foi?”

Através da fresta da porta, pude ver um canto da escrivaninha dela. Um caderno e um livro didático estavam abertos, e ela segurava um par de fones de ouvido na mão. Devia ter acabado de os tirar. Em vez de fones pequenos, ela usava aqueles grandes, que cobrem a orelha inteira. Imaginei que estivesse ouvindo lo-fi hip-hop enquanto estudava. O ar-condicionado do quarto estava no máximo, e ali estava um pouco mais frio do que na sala. Akiko tinha comentado que Ayase não gostava de calor.

   “Então, sobre a festa na piscina da Narasaka—”

   “Eu não vou”
Disse ela de forma direta, sem me deixar terminar. Ao perceber meu constrangimento, acrescentou, quase como uma justificativa:
  “Não tenho tempo para ficar relaxando numa piscina.”

É exatamente esse o problema, pensei.

Eu sabia que ela não estava tentando me irritar. Para ela, tirar um tempo para se divertir era sinônimo de fuga. Ela não acreditava que fosse necessário “relaxar” de vez em quando. Usando uma expressão antiga japonesa, Ayase me lembrava alguém com um coração tão reto quanto o bambu jovem.

Pensei no que fazer a seguir. Se eu continuasse pressionando, ela só ficaria ainda mais teimosa. Respirei fundo e continuei:

   “Tudo bem, sem problemas. Mas eu estava pensando em ir. Então… você pode me passar o contato da Narasaka?”

Meu plano era mostrar que eu estava me divertindo, na esperança de que Ayase também relaxasse um pouco. Ela se virou para mim e me encarou diretamente.

   “Não.”

   “Hã? Uh…”

A resposta me pegou de surpresa. Eu não esperava uma recusa tão direta. Ayase não gostava de reações ilógicas ou baseadas apenas em emoção, então achei que ela não me negaria isso. Afinal, a Narasaka estava tentando entrar em contato comigo.

Ayase pareceu se surpreender um pouco consigo mesma.

  “Quer dizer… não é educado passar o contato de outra pessoa sem permissão…”, disse por fim.

   “Ah…”

Então era isso e ela estava certa. Nesse caso, a recusa era lógica. Informações pessoais precisavam ser protegidas. Dava para contar com Ayase para se atentar a esses detalhes.

Naquele momento, acreditei plenamente nela.

   “Vou perguntar para a Maaya, aí te aviso assim que ela responder, tudo bem?”

   “Entendi.”

Ela provavelmente mandaria uma mensagem ou um e-mail para a Narasaka, o que não iria levar muito tempo. Disse que precisava estudar, então deixei que continuasse. De qualquer forma, nos veríamos no trabalho naquela noite. Fechei a porta e voltei para o meu quarto.

Eu não estava tão preocupado em conseguir levá-la à piscina ou não. Para ela, os estudos e o trabalho de meio período eram como uma montanha inamovível à sua frente. Enquanto ela pensasse assim, carregaria uma pressão psicológica enorme.

Ir à piscina não era importante. Meu único receio era que ela não se permitisse relaxar antes de acabar entrando em colapso.

Decidi que falaria com ela novamente no trabalho.

Naquela tarde, saí do apartamento.

Pedalei em minha bicicleta através de ondas de ar sufocante que subiam do concreto. Meu trajeto seguia por uma estrada irregular e cheia de subidas e descidas, passando por várias estações de trem. Para aguentar o calor, coloquei uma garrafa de água no cesto da bicicleta, junto com a bolsa, onde pudesse alcançá-la facilmente.

A cada gota de suor que eu sentia escorrer pela roupa me fazia fazer uma careta, mas isso não mudava o fato de que eu gostava do trajeto.

Ao passar pela região de Omotesando, que estava cheia de universitários aproveitando as férias de verão, vi um prédio que se destacava entre os demais. Era um cursinho famoso que incentivava seus alunos a tentar ingressar na prestigiada Universidade de Tóquio.

Quando estacionei a bicicleta e entrei no prédio, senti um estranho alívio. Aquele lugar, com sua atmosfera séria, combinava mais comigo do que o clima festivo de Shibuya ou do restante de Omotesando. Do lado de fora do cursinho, havia várias boutiques populares, e estudantes universitárias faziam fila em frente a uma casa de panquecas perfeita para tirar fotos e postar nas redes sociais.

Entrei em uma sala de aula e garanti uma carteira o mais próxima possível do canto. Diferente do ensino médio, ali era possível sentar onde quisesse, mas parecia da natureza humana continuar usando o mesmo lugar enquanto estivesse disponível.

Vale mencionar que eu não era um aluno regular daquele cursinho. Estava apenas participando de uma turma de verão.

A maioria dos outros estudantes parecia estar ali pelo mesmo motivo, e ninguém conversava como em uma escola comum. Todos mantinham os livros abertos e se concentravam em silêncio.

Minha escola, o Colégio Suisei, também era uma instituição de elite, mas seus alunos não eram todos assim. Talvez a diferença de clima — sério ou relaxado — tivesse mais a ver com as relações interpessoais do que com notas ou personalidade.

Todos ali tinham cabelo preto, em vez de castanho ou loiro tingido. Ninguém usava acessórios chamativos ou maquiagem pesada, e as camisas estavam devidamente abotoadas. A maioria correspondia ao tipo sério e estudioso que a sociedade costuma idealizar. O olhar afiado com que encaravam os livros era totalmente diferente do dos meus colegas do Suisei.

Todos eram como a Ayase, pensei de repente.

Em termos de aparência, eram bem diferentes, mas a forma como se curvavam sobre os livros e a seriedade no olhar eram semelhantes.

Todos estavam dando cem por cento de si. Pareciam soldados prestes a ir para a guerra.

Não eram como eu, que só queria entrar em uma universidade razoável dentro das minhas próprias possibilidades.

Mas tive a sensação de que, mesmo em comparação com aquelas pessoas, Ayase tinha um hábito especialmente ruim de se sobrecarregar. Além de buscar independência financeira, ela fazia tudo sozinha, sem frequentar cursos de verão caros. Se qualquer outro estudante do ensino médio dissesse que faria tudo por conta própria, provavelmente seria alvo de piadas, acusado de teimosia. Mas Ayase tirava notas altas em todas as matérias. Ninguém podia zombar dela.

No último mês, ela havia conseguido até superar em grande parte sua fraqueza em Língua Japonesa Moderna. A cada dia, se tornava mais uma candidata exemplar à universidade.

Quanto a mim… eu não era tão dedicado ao esforço extremo. Achava melhor absorver o que pudesse das aulas de verão e melhorar aos poucos. Era importante conhecer os próprios limites.

   “C-com licença…”

   “Hã? Ah, você precisava de algo?

Demorei um pouco para reagir àquela voz tímida. Era a primeira vez que alguém falava comigo durante uma aula de verão, e no início nem percebi que ela estava se dirigindo a mim.

Era a garota que sentava ao meu lado. Ela não sentava sempre no mesmo lugar, mas eu a tinha visto por perto várias vezes. Não tinha um penteado extravagante nem roupas excêntricas, mas havia algo que se destacava nela: sua altura.

Ela devia ter algo próximo de um metro e oitenta — uma cabeça mais alta do que eu — e me senti estranhamente intimidado com ela parada à minha frente.

   “Você deixou isso cair”
Apesar da altura, tinha uma voz surpreendentemente insegura.

   “A-ah, deixei?”

Reconheci o marcador de páginas no chão. Devia ter caído quando abri o livro.

   “Obrigado”
Agradeci ao pegar o marcador. Nossos olhares se encontraram. Ela estava observando o marcador.

   “Esse é da feira de verão. É o que estão distribuindo na livraria perto da estação, não é?”

   “Ah… sim.”

Não era prudente dizer que eu trabalhava lá. Não era uma boa ideia compartilhar informações pessoais com estranhos.

   “Que coincidência. Eu passo bastante por aquela loja.”

   “Acho que a maioria das pessoas da região compra livros lá.”

   “É verdade. Ah-ha-ha.”
A garota alta riu de forma leve.

E foi isso. Ela não queria conversar comigo em específico. Só estava sendo gentil ao avisar que eu tinha deixado algo cair, e acabamos tendo um assunto em comum — a livraria. Foi apenas uma troca cotidiana, sem significado especial.

Observando seu perfil enquanto ela se sentava, me senti um pouco desconfortável.

…Será que eu já tinha visto uma cliente como ela na loja?

Provavelmente tínhamos horários parecidos, já que ambos éramos estudantes do ensino médio, mas eu não lembrava de já ter a visto no caixa. Eu certamente me lembraria de alguém com aquela estatura — ela parecia uma modelo.

Porém eu não trabalhava vinte e quatro horas por dia, e ela provavelmente não ia à loja com tanta frequência. Além disso, não era raro duas pessoas estarem no mesmo lugar e não se cruzarem. Continuei repetindo isso para mim mesmo enquanto voltava a focar nos estudos.

A aula daquele dia foi completamente normal. Não tive mais nenhuma interação com a garota, e o tempo passou como sempre Assim, me concentrei nos estudos da tarde até o começo da noite.

Quando a última aula terminou, chequei o horário e vi que ainda tinha cerca de quarenta minutos até o início do meu turno noturno. A livraria ficava a uns dez minutos de bicicleta. E eu naturalmente, levei isso em consideração ao escolher aquele cursinho.

Guardei os livros na bolsa e caminhei rapidamente até a área de estacionamento. Lá, destranquei a bicicleta e subi nela. Eu fazia aquilo todos os dias durante o verão, então já tinha virado rotina. Quase não precisava pensar.

Mas então algo diferente aconteceu.

   “Hã?”
Pisquei, confuso.

Enquanto começava a pedalar distraído, avistei alguém familiar sentado em uma das mesas externas da famosa casa de panquecas bem em frente ao cursinho.
O longo cabelo preto dela estava preso com uma tiara elegante, e ela usava uma blusa de tecido macio que se ajustava suavemente ao corpo, combinada com uma saia rodada. Aquela mulher vestida como uma jovem nobre refinada não era outra senão minha colega de trabalho, Shiori Yomiuri.

Ela estava com amigas da faculdade? Yomiuri estava sentada em uma mesa para quatro, junto de outras três mulheres, e todas pareciam ter uma conversa séria enquanto cortavam suas panquecas com gestos elegantes.

Por estarem relativamente próximas e falarem em um tom consideravelmente alto, eu conseguia ouvir o que diziam.

Duas das mulheres pareciam universitárias da mesma idade de Yomiuri, mas a outra era claramente diferente — tinha um ar digno e maduro.

Enquanto as estudantes usavam roupas leves de verão, a mulher mais velha, que parecia uma intelectual, vestia um cardigã de mangas compridas apesar do calor. Ela alternava o olhar entre as garotas como se estivesse avaliando cada uma delas.

   “Então, alguém pode apresentar um contra-argumento? Quando as pessoas comparam as humanidades às ciências naturais, costumam chamá-las de ‘ciências brandas’, que não contribuem para a sociedade, e questionam seu valor. Se vocês não conseguirem convencê-las do contrário, não serão capazes de justificar suas pesquisas.”

Talvez intimidadas, as garotas trocaram olhares sérios e hesitaram. A mulher intelectual manteve um sorriso confiante enquanto cortava sua panqueca com elegância e levava um pedaço à boca.

Definitivamente, aquela não era a conversa que se esperaria ouvir em uma casa de panquecas da moda. Mas talvez os outros clientes achassem tudo tão incompreensível que simplesmente não se incomodassem. Seja qual fosse o motivo, o grupo de Yomiuri se encaixava de forma surpreendente no cenário ao redor.

Apesar do clima estranho à mesa, uma das garotas reuniu coragem para falar — era Yomiuri.

   “Se definirmos as ciências naturais como a busca por identificar leis reproduzíveis por meio de experimentos, então, em termos de avanço tecnológico e contribuição para a sociedade humana, elas são de fato superiores. Enquanto isso for verdade, não acredito que possamos formular um contra-argumento negando esse fato.”

   “Muito sensato. Vejo que você entende que distorcer a verdade apenas para refutar algo é uma péssima ideia.”

   “Sim. Ainda assim, apesar disso, as humanidades continuam sendo uma área de estudo valiosa.”

   “De que forma? O estudo da literatura e dos fatos históricos não passa de entretenimento. Como você justifica destinar os preciosos recursos de pesquisa do país a estudos tão inúteis?”

   “Desvendar a história de nossos antepassados é essencial para responder à questão fundamental de como os seres humanos devem viver.”

   “Você realmente acredita nisso? Literatura e história não passam de registros do passado deixados por determinados indivíduos. Compreendê-los não nos ajuda a entender tendências gerais da humanidade como espécie.”

   “Ao aprender sobre o passado, podemos compreender o futuro. Também podemos buscar no passado pistas sobre como resolver problemas modernos.”

   “Você está dizendo que a história se repete?”

   “Sim, exatamente. Todo conflito social tem raízes em causas que já surgiram inúmeras vezes no passado. Acredito que, ao estudar a história, podemos encontrar respostas adequadas para os problemas do presente.”

   “Vamos com calma, Yomiuri. Isso já é forçar um pouco a barra.”

   “Hã?”

   “O ditado de que a história se repete não passa da opinião de quem tem um passado. Nenhuma quantidade de pesquisa histórica, baseada em um passado com dados quantitativos praticamente inexistentes, pode provar a repetibilidade dos eventos.”

   “Ngh…!”

[Ayko: Antes de ouvirmos o lado da srta. Intelectual, devo dizer que concordo com a visão da Yomiuri, se não entendemos sobre nosso próprio passado, como podemos evitar os diversos erros já cometidos? Como podemos ignorar nosso passado, se é por causa desse passado que somos quem somos e temos o que temos hoje? Não acredito que investir no estudo de nosso passado seja fútil, muito menos algo desnecessário]

Yomiuri ficou sem palavras. Parecia que a mulher mais velha havia tocado em um ponto sensível.

Girando a faca de maneira displicente ao lado da cabeça, ela continuou:

   “Hoje em dia, tornou-se possível observar todo tipo de fenômeno através da lente dos dados. A facilidade com que eles podem ser obtidos e analisados revela verdades humanas que antes eram impossíveis de provar. As pessoas do futuro talvez tenham muito a aprender com o passado, mas esse passado é o nosso presente. Se queremos aprender com o passado para resolver problemas futuros, devemos primeiro nos concentrar nas conquistas das ciências naturais. Certo, mais algum contra-argumento?”

A mulher ergueu o queixo em desafio, e Yomiuri respondeu imediatamente:

   “Os valores das pessoas modernas são construídos sobre uma tradição cultural contínua. Ao compreender literatura, história, religião e outros costumes, conseguimos entender corretamente como chegamos ao ponto em que estamos hoje. Por exemplo, se um artista de um país produz um videoclipe que desrespeita a religião de outro país e isso gera uma enorme comoção pública, existe alguma forma de usar as ciências naturais para identificar a causa dessa reação? Elas conseguem prever e elaborar um plano para resolver o problema? Um pesquisador das humanidades seria capaz de formular várias hipóteses imediatamente.”

   “Hm. É uma refutação bastante agressiva, mas não deixa de ser um bom raciocínio.”

Devia ter sido um argumento forte. A mulher mais velha parou de mover a faca e pareceu refletir sobre o que Yomiuri havia dito por alguns segundos.

Mas bastaram apenas alguns segundos. Logo ela voltou a falar.

   “Como você prova a relação de causa e efeito se a origem da indignação está enraizada na história e na religião únicas daquele país?”

   “O quê?!”

   “A raiva realmente surgiu porque a cultura do grupo foi desrespeitada? Talvez os sons usados no vídeo fossem simplesmente desagradáveis ao cérebro humano. Ou talvez as cores tenham amplificado a fúria.”

   “Seria possível encontrar alguma correlação por meio de experimentos sociais e questionários aplicados às pessoas envolvidas.”

   “Certo, acho que já chega.”

   “Hã? …Ah!”

Com um sorriso no rosto, a mulher mais velha roubou um pedaço da panqueca do prato à frente de Yomiuri, que ficou paralisada. Em seguida, mordeu o pedaço com um entusiasmo inocente, completamente incompatível com sua aparência intelectual.

   “Infelizmente, não posso apoiar o seu ponto de vista”, disse ela.
   “Você mesma acabou de admitir que se debruçar sobre a literatura do passado é algo sem sentido, e que pesquisar o que está acontecendo agora é mais importante. Que pena. Vai ter que se esforçar mais nessas sutilezas.”

   “Ngh…!”

[Ayko: Só para finalizar, se não se estuda o passado, não se compreende como chegamos e como sabemos o que sabemos hoje. O argumento da senhora intelectual faz sentido, sim, mas não tem um olhar multifacetado, literalmente falando. Ao observarmos de um ponto de vista mais distante poderia-se constatar que o problema não seriam os sons do vídeo, e sim a falta de respeito com a opinião alheia, advinda de aspectos culturais antigos do povo de tal país. Acho que expliquei o que queria dizer kkk]

Derrotada, Yomiuri segurou a cabeça, frustrada. Com o garfo, espetou o último pedaço de panqueca no prato e o enfiou na boca. Fiquei realmente surpreso com a maneira infantil como suas bochechas inflaram enquanto ela mastigava.

As trocas dela com a mulher mais velha, sua expressão, sua postura — eu estava vendo uma Yomiuri completamente diferente daquela que eu conhecia na livraria. Diante de mim, ela sempre parecia tão confiante que aquilo era até refrescante.

Ela se virou para a mulher mais velha e perguntou:

   “Professora Kudou, como a senhora consegue argumentar de forma tão eloquente contra algo assim? A senhora não faz parte da área de humanidades?”

Então aquela mulher de aparência intelectual se chamava Kudou. Devia ser professora, ou talvez professora associada. Eu tinha lido em algum lugar que era preciso ser bem mais velha para se tornar professora, mas ela ainda parecia jovem.

   “É simples”, respondeu ela.
   “Eu entendo a diferença entre o que se pensa e o que se diz.”

   "Entendo… Então qual seria o seu argumento?"

   "Eu começaria dizendo: ‘Qual é o problema de ser uma ciência humana?’"

   "...Hã?"

   "Embora as ciências humanas sejam frequentemente classificadas como ciências ‘brandas’, há espaço para questionar a ideia preconcebida de que elas não contribuem para a humanidade. Nossos opositores afirmam que os avanços nas ciências naturais certamente levarão à felicidade das pessoas, mas, para isso ter significado, é preciso primeiro definir o que é felicidade. Infelizmente, não existe uma definição comum de conceitos como justiça ou felicidade entre os seres humanos. Por exemplo, eu estou extremamente feliz agora, comendo essas panquecas doces, mas me pergunto que porcentagem da humanidade concordaria comigo."

   "Do ponto de vista biológico, a felicidade não é definida pela capacidade de deixar descendentes?"

   "Você está dizendo que pessoas que não podem ter filhos são infelizes?"

   "...Entendo o que você quer dizer. E hoje em dia, poucas pessoas pensam assim."

   "Exatamente. No fim das contas, conceitos como o que constitui a felicidade da  humanidade ou como os humanos deveriam viver são extremamente difíceis de definir. Os avanços trazidos pelas ciências naturais necessariamente se apoiam nessa base instável. As ciências aplicadas só existem graças às ciências humanas, e negá-las fará tudo desmoronar junto. Então, se você não quer isso, nos aceite! …Essa é a minha resposta."

   "Ah… entendo. Certo…"

   "Foi uma boa ideia chamar atenção para o tema da comunicação com outros países. Talvez você tivesse tido mais sucesso se tivesse primeiro reconhecido o valor das ciências humanas antes de tentar justificá-las."

   "Isso foi muito educativo… Obrigada, professora", disse Yomiuri, fazendo uma reverência. Em seguida, ela suspirou profundamente.
   "Aaah… eu nunca consigo vencer uma discussão."

   "Não, você foi incrível, Yomiuri"
Disse uma das outras garotas.
   "Eu já não estava acompanhando desde o começo."

   "Nem eu."

   "Ei,não pensem que vocês estão livres. Estou pagando essas panquecas caríssimas, então quero que usem o cérebro para fazer valer a pena. Certo, vamos para o próximo tema—"

Exclamou a professora.

As garotas soltaram algo parecido com um pequeno grito.
  "Você está brincando?! Se nem a Yomiuri consegue vencer uma discussão com você, não temos a menor chance!"

Enquanto a conversa mudava de assunto, Yomiuri desviou o olhar das outras garotas, talvez para esconder sua frustração.

Foi então que, por pura coincidência — ou talvez inevitavelmente, considerando nossas posições —, nossos olhares se encontraram, eu sentado sobre minha bicicleta.

Droga.

Eu tinha começado a ouvir por acaso, mas, pensando bem, era claramente uma escuta indiscreta. Não era um comportamento muito educado da minha parte.

Mas Yomiuri rapidamente desviou o olhar, conferiu o relógio e disse "Oh!" de forma exagerada.
  "Com licença, professora, eu preciso ir trabalhar."

   "Claro, pode ir. Não se preocupe com a conta."

   "Obrigada."

Ela fez uma reverência educada, jogou a bolsa no ombro e saiu correndo.

Ao passar por mim, ela me lançou um olhar, que interpretei como uma mensagem silenciosa. Comecei a pedalar, seguindo-a.

Alguns minutos se passaram enquanto seguíamos pela Cat Street. Quando já estávamos longe o suficiente da casa de panquecas para não sermos vistos, aproximei-me por trás.

   "Desculpa"

   "Você está pedindo desculpas? Isso significa que admite seu crime?"

   "Foi tudo um mal-entendido. Eu só estava passando por ali."

   "Não sei se você é teimoso demais ou de menos. De qualquer forma, você é culpado. Mas… eu sei que você não estava me seguindo."

   "Fico aliviado em saber que você confia em mim."

   "Você é inteligente demais para isso. Se realmente quisesse seguir alguém, seria muito mais esquisito."

   "Esse não era exatamente o tipo de confiança que eu queria…"
Para esclarecer a situação, abri minha bolsa e mostrei o livro didático.
  "Estou tendo aulas de verão. Meu cursinho fica ali."

   "Oh. Entendido."

   "Câmbio desligo. Estamos quites?"

   "Agora eu entendi. Você só estava passando por ali e só por acaso ouviu tudo."

   "Eu…"

Ela tinha me encurralado.

Como uma detetive experiente, usou perguntas astutas para me levar a uma confissão. Fiquei sem palavras, e ela caiu na gargalhada.

   "Estou brincando. Só estava me vingando por você ter me visto passando vergonha. Certo, vamos!"

   "Ah, certo!"

Desci da bicicleta e passei a empurrá-la enquanto seguia Yomiuri. Quando a alcancei, olhei de soslaio para ela.

Seu lindo cabelo preto balançava a cada movimento elegante, e ela usava roupas limpas e bem arrumadas. Iluminada pela luz forte do sol, ela parecia cada vez mais uma filha mimada de uma família rica. No verão, o fim de tarde era tão claro quanto o dia. Quando tínhamos ido ao cinema há muito tempo, já estava escuro, e eu não tinha percebido isso. Mas vê-la agora, sob a luz, com roupas comuns, causava uma impressão ainda mais forte.

   "Ah, não acredito que você me viu cerrando os punhos por perder uma discussão. Minha dignidade como sua veterana foi ferida."

   "Eu não diria isso…"

Isso implicaria que você tinha dignidade para começo de conversa, pensei. Quase deixei escapar em voz alta, e tive a vaga sensação de que ela percebeu. Ela me lançou um olhar fulminante. Mudei de assunto rapidamente, sem querer provocar ainda mais sua ira.

   "Quem era aquela mulher com quem você estava?" perguntei a Yomiuri.

   "A professora Kudou?"

   "Sim, ela."

   "Você é mesmo entediante como homem. Três universitárias estavam naquela mesa, e você só se interessou pela mulher mais velha."

   "Não é falta de educação falar da idade de uma mulher?"

   "Mulheres podem fazer isso. É um caso especial, Yuuta."

Você está imitando ela agora? Yomiuri provavelmente ficaria emburrada se eu dissesse isso, então fiquei quieto.

   "Kudou é professora associada na nossa faculdade. Você deve ter deduzido isso pela idade."

   "Sim, mais ou menos. Mas é férias de verão. Ela costuma ir a casas de panqueca com alunas assim?"

   "Às vezes ela convida, mas não são muitas que aceitam."

   "Mas você, como intelectual, é diferente."

   "Hm, não gostei da forma como você disse isso. Vou te dar cinquenta de cem."

   "Não me diga que você não aguenta. Você vive me provocando assim."

   "Eu sou uma intellectuelle. Sou uma garota, sabia?"

[Ayko: Intellectuelle é a forma feminina do termo intelectual no francês.]

   
  "Ah."

Ela não parecia se incomodar em ser chamada de intelectual.

   "Talvez você não perceba pela forma como falo com você, mas sou uma das alunas mais dedicadas da faculdade."

   "Eu sei que você é inteligente, então não me surpreende tanto… mas como dizem, sempre existe um peixe maior."

   "Kudou é de outro mundo."

   "Não saberia dizer. Só vi vocês conversando por alguns minutos."

   "Ela é sempre assim. Insondável. Muitas vezes não consigo entender o que ela está pensando."

   "É assim que você é para mim."

Para mim, Yomiuri era uma mulher mais velha indecifrável. Eu não fazia ideia do que se passava em sua mente. Seu vasto conhecimento e a forma como conseguia acessá-lo instantaneamente estavam muito além das minhas capacidades. Muitas vezes eu sentia que ela me tinha na palma da mão. Talvez fosse apenas a diferença de gerações? Fiquei me perguntando: se eu conseguisse chegar ao nível dela, começaria a entender o significado por trás de suas palavras e ações?

Enquanto refletia sobre isso, Yomiuri franziu a testa.
   "Ei, para com isso."

   "Do que você está falando?"

   "Você deve estar pensando em como pode me superar."

   "Hã?"
Incapaz de entender como ela chegou a essa conclusão, soltei um som constrangido.

   "Você está frustrado com sua falta de conhecimento e sabedoria e acabou de jurar que um dia vai me superar."

   "Eu não sabia que estudar era tão competitivo."

   "Esse é o meu jeito de aproveitar. Surpreso?"

   "Não. Na verdade, concordo."

Pelas aparências, Yomiuri parecia o tipo de garota que levava os estudos a sério e realmente gostava de ler. No entanto, ela tinha o hábito de trazer uma rivalidade infantil para a conversa, algo que lembrava mais uma criança do ensino fundamental. Mas essa era a Shiori Yomiuri.

   "Dito isso, discussões intensas como aquela de antes parecem cansativas."

   "São mesmo. Você tem que ficar atento o tempo todo e garantir que não haja falhas na sua lógica. Não dá para relaxar. A Kudou sempre entra na conversa se você disser algo incoerente. Eu não gosto de ter essas discussões antes do trabalho. Elas me drenam mental e fisicamente."

   "Para mim, você parecia bem empolgada."

   "Se vou fazer, faço direito, mesmo sendo trabalhoso. Mas… tudo bem. Já me  recuperei."

   "O que você quer dizer?"

   "Eu mantenho minha saúde mental provocando você. Conversar com você é tããão relaxante."

   "Parece mais que você gosta de implicar com novatos."

   "Você é como uma poltrona confortável, jovem"
Ela disse, imitando uma senhora idosa. Em seguida, fingiu perder o equilíbrio e apoiou a mão na cesta da minha bicicleta.

   "É…"

Eu ia dizer para ela parar de me tratar como uma poltrona, mas me contive de repente.

Eu tinha acabado de perceber algo — essa era a grande diferença entre Yomiuri e Ayase.

Saímos da Cat Street, e a avenida principal apareceu à frente. Nossa livraria estava logo ali. Eu tinha acabado caminhando com Yomiuri em vez de andar de bicicleta.

Yomiuri provavelmente aceitava os convites da Kudou sempre que ela chamava, independentemente do quão inconveniente fosse ou do momento. Ela considerava vantajoso ir, então ia, mas não conseguia evitar o desgaste físico e mental que vinha depois.

Apesar disso, Yomiuri mantinha um certo equilíbrio. Ela sabia como compensar. Sabia até que ponto podia me provocar, e eu aceitaria. Mesmo que seus argumentos não fossem sólidos, estávamos apenas nos divertindo, então ninguém a contestaria. Ao se divertir assim, ela conseguia equilibrar seu lado sério com o não tão sério.

Fiquei pensando se os problemas da Ayase poderiam ser resolvidos se ela tivesse alguém assim por perto.

   "Oh…"
  Enquanto pensava nisso, Yomiuri e eu entramos na loja e demos de cara com Ayase. O dia tinha sido cheio de coincidências, mas isso não era tão inesperado, já que estávamos todos no mesmo turno.

   "Oi, Saki!"

   "Mm… Ah, oi. Então vocês dois vieram juntos hoje."

Nosso encontro também deve tê-la surpreendido. Por um instante, ela exibiu aquele olhar frio que eu sempre via em casa, antes de rapidamente forçar um sorriso amigável. Apenas Yomiuri parecia totalmente despreocupada.

   "A gente se encontrou por acaso perto do cursinho dele. Não foi, Yuuta?"

   "Ah… foi."

Demorei um pouco para responder.

Talvez porque eu estivesse pensando na Ayase instantes antes, me senti um pouco estranho, mesmo não tendo feito nada de errado.

   "Vocês se encontraram por acaso, é?"
Ayase disse. Parecia saborear cada palavra. Em seguida, abriu um sorriso largo.
  "Como irmã dele, fico aliviada que ele tenha encontrado alguém tão maravilhosa como você."

   "Oh? Você sabe provocar bem, Saki."

   "É tudo graças ao seu treinamento. Hee-hee!"
Ayase riu baixinho, balançando os ombros. Sua capacidade de adaptação era impressionante — ela já estava dominando conversas com Yomiuri.

Ainda assim, algo parecia estranho.
Aliás, eu já tinha visto ela provocar alguém com base em uma suposição não confirmada antes?

Eu tinha muitas dúvidas — sobre, entre outras coisas, o jeito esquisito como ela estava agindo e sobre a questão da piscina. Tentei me aproximar dela durante o trabalho, mas, infelizmente, o momento nunca parecia dar certo.

Quando ficávamos lado a lado no caixa, sempre que eu estava livre, ela estava atendendo clientes. Quando eu dobrava capas de livros, ela se afastava para arrumar as prateleiras. Durante meu intervalo, finalmente perguntei se ela tinha tido alguma resposta da Narasaka, mas tudo o que ela fez foi balançar levemente a cabeça antes de sair da loja, dizendo que ia comprar uma bebida.

Comecei a achar que ela estava me evitando.

Eventualmente, chegou a hora de ir para casa. Me preparei para sair e fiquei esperando por Ayase.

Mas a única pessoa que saiu do vestiário feminino foi Yomiuri.

   "Ah, tenho um recado para você, Yuuta a Saki já foi embora. Disse que queria passar em algum lugar no caminho para casa."

   "Hã?"

Pisquei. Ayase não tinha me dito nada disso. Peguei meu celular rapidamente e conferi as mensagens, mas não havia nenhuma dela. Eu ainda estava parado, atordoado, quando o telefone começou a vibrar. Percebendo que algo tinha chegado, olhei para a tela e vi uma mensagem aparecer.

   "Vou fazer compras, então não precisa me esperar."

Abri o aplicativo para ler a mensagem inteira, mas não havia mais nada além disso.

   "Entendi", respondi.

Era verdade que algumas lojas ficavam abertas depois das dez. Talvez ela estivesse comprando algo pessoal e não se sentisse à vontade comigo junto. Mesmo assim, a forma repentina como tudo aconteceu parecia estranha.

Voltei a me perguntar se ela estava me evitando. Mas, não… por que ela faria isso?

Voltei para casa de bicicleta e, quando percebi, já estava parado em frente ao nosso prédio. Foi aí que me dei conta de como chegava rápido em casa pedalando. Mas, ao me perguntar se isso realmente importava, percebi que não.

Em algum momento, eu tinha me acostumado a voltar para casa caminhando com Ayase.

Estacionei a bicicleta no pátio do prédio, entrei no elevador e subi até o nosso andar.

Era segunda-feira, então o pai provavelmente já estava em casa e dormindo, já que precisava acordar cedo no dia seguinte. Akiko devia estar trabalhando.

Sussurrei "cheguei" para não acordar o pai e fui para a sala.

Normalmente, eu chegava em casa com Ayase e ela preparava o jantar… mas eu não podia continuar dependendo dela. Certo, vamos lá. Abri a geladeira e encontrei uma salada e uma panela coberta com plástico-filme.

   "Parece sopa de missô."

Como era verão, Ayase colocava tudo o que preparava com antecedência na geladeira ou no freezer.

Achei que ela chegaria logo, então abri o armário, peguei dois conjuntos de tigelas para arroz e sopa e arrumei a mesa. Eu poderia servi-las depois. Coloquei a salada sobre a mesa e conferi a geladeira e o freezer novamente, tentando descobrir qual era o prato principal. No freezer, encontrei vários potes pequenos de plástico.

   "O que é isso?"

Tirei alguns e vi que continham arroz cozido com diversos ingredientes e congelado. O arroz estava amarronzado por causa do caldo de dashi e misturado com shiitake fatiado, cenoura e tofu frito.

   "Cheguei."

Virei-me e vi Ayase entrando no apartamento.

   "O que foi? Ah, o jantar… desculpa, eu preparo agora."

   "Não, tudo bem. Você sempre cuida disso. Pensei em fazer hoje pela primeira vez. O que eu faço com isso aqui?"
Apontei para o arroz nos potes.

Como eu nunca tinha cozinhado arroz na vida, nunca me passou pela cabeça fazer uma grande quantidade e congelar. Fiquei me perguntando há quanto tempo ela vinha fazendo isso. Eu a via indo e voltando da geladeira para o micro-ondas, mas nunca tinha parado para pensar exatamente no que ela fazia.

   "Ah, isso. Preparei mais cedo hoje. É só colocar no micro-ondas."

   "...Quantos minutos?"

   "Está escrito ali no aparelho."

O que ela disse não fez sentido de imediato, então fui até o micro-ondas e olhei com atenção. Ao lado do temporizador, havia vários botões com imagens de comida.

   "Ah, isso."

Encontrei o desenho de uma tigela de arroz com a palavra “reaquecer” ao lado. Eu usava micro-ondas havia cinco anos e nunca tinha reparado nisso.

Coloquei dois pacotes congelados dentro e estava prestes a apertar o botão quando Ayase me interrompeu.

   "Espera. Tira a tampa."

Olhei para os recipientes rasos e quadrados, confuso, inclinando a cabeça.

   "Se você esquentar com a tampa, o gelo derrete e o arroz fica grudento e horrível."

   "E-eu… entendi."

Eu não compreendi totalmente o que ela quis dizer, mas, se o resultado fosse um arroz mais gostoso, parecia mais sensato seguir as instruções. Enquanto eu aquecia o arroz, Ayase esquentou a sopa de missô que eu tinha tirado da geladeira.

O jantar foi arroz com shiitake e outros ingredientes, sopa de missô com tofu e salada. Ayase tirou alguns tomates-cereja da geladeira, cortou-os em quatro partes e colocou sobre a salada. A salada tinha alface, repolho e tiras finas de nabo. Os tomates acrescentavam vermelho ao verde e branco, deixando tudo mais bonito.

   "Esse toque final faz parecer ainda mais apetitoso"

   "Pratos japoneses feitos em casa costumam ficar meio marrons, então colocar tomates ou pimentões vermelhos e amarelos ajuda bastante."

Normalmente, eu só conhecia pimentões verdes, mas comecei a ver versões mais coloridas nas refeições e resolvi pesquisar. Descobri que existiam pimentões laranja, vermelhos e amarelos. Esses costumavam ser menos amargos que os verdes e podiam até ser comidos crus depois de lavados.

Depois que Ayase assumiu a cozinha, comecei a ver todo tipo de alimento novo na mesa. Talvez as informações que eu e o pai tínhamos estivessem desatualizadas.

   "Você improvisa muito bem."

Fiquei um pouco envergonhado por simplesmente comer tudo o que ela fazia sem nunca pensar a respeito.

   "Não é nada demais."

   "Sou sempre grato a você. De verdade. Sobre arranjar um emprego bem pago para você… talvez eu tenha que desistir disso, mas vou fazer o possível para apoiar sua independência."

   "Você encontrou aquela música de fundo para estudar, não foi? Eu gostei muito. Então estamos quites"
Ela me retrucou, e disse com um sorriso.

Naquele momento, o clima estranho dos últimos dias pareceu diminuir.

Vi Ayase colocar folhas de chá verde em um bule pequeno, então peguei duas xícaras no armário e as coloquei à sua frente. Ela serviu o chá, e começamos a comer.

O arroz quente estava delicioso. Como Ayase havia dito, estava soltinho e fumegante, sem ficar grudento.

   "Tem mais no freezer. Se não for suficiente, pode pegar."

   "Já está tarde. Isso aqui está bom."

Olhei para o relógio na parede — já passava das onze. Hora de terminar o jantar, tomar banho e dormir. Talvez fosse diferente em época de provas, mas como Ayase sempre tomava banho depois de mim, ela não conseguiria ir dormir se eu demorasse demais comendo.

Enquanto aproveitávamos um jantar tranquilo, percebi que ainda não sabia o que fazer. O dia estava acabando, e eu ainda não tinha obtido uma resposta dela. Suspirei e tomei uma decisão.

   "É… sobre a piscina da Narasaka."

   "Isso de novo?"

   "Você ainda não me passou o contato dela. Se ela estiver esperando minha resposta, acho  que já passou da hora de dar uma."

   "...Tudo bem. Aqui."
Com uma expressão um pouco emburrada, ela pegou o celular da mesa e começou a abrir as informações da Narasaka.

   "Espera."
Estendi a mão, pedindo que ela parasse.
  "Eu não me importo com o contato da Narasaka."

   "...O quê?"

   "Na verdade, eu nem estou tão interessado em ir à piscina com ela."

A expressão desconfiada de Ayase se transformou em surpresa. Era como se ela não tivesse a menor ideia do que estava acontecendo — como se tivesse levado um soco vindo de uma direção completamente inesperada.

Isso mesmo. Eu estava prestes a dizer algo que ela jamais imaginaria.

Eu não me importava que Ayase não quisesse ir à piscina. E, para respeitar a vontade dela, tudo o que eu podia fazer era esperar até que mudasse de ideia.

Eu considerava interferir nas decisões de outra pessoa um ato arrogante de alguém embriagado por ficção e pelo próprio ego. A vida real não era como uma história, e fingir o contrário era patético e um convite para tudo dar errado. Eu sabia disso e, ainda assim, me preocupava com ela.

   "Eu quero que você se divirta na piscina."

   "Eu não entendo o que você está dizendo."

Ela me olhava como se eu fosse um alienígena — embora provavelmente nunca tivesse visto um. Mesmo assim, ignorei isso e continuei.

   "Olha, eu disse que queria ir porque achei que isso poderia te influenciar a ir também. Depois pedi o contato da Narasaka, pensando que você poderia ficar com ciúmes se achasse que eu estava me divertindo sem você."

   "Eu? Com ciúmes?"

   "Sim, você."

   "Por que eu ficaria com ciúmes?"

Ela parecia genuinamente confusa. Eu ficaria extremamente aliviado se aquela expressão refletisse o que ela realmente sentia por dentro.

   "Você quer ir à piscina, não quer?"

Ayase fechou a boca. Em seguida, apertou os lábios, como se tivesse decidido não dizer mais nada.

   "Akiko me contou. Ela disse que, quando você era criança, odiava o verão e vivia pedindo sorvete ou para ir à piscina. Você ainda não gosta do calor, gosta?"

   "Isso não…"

   "É verdade. Foi por isso que você voltou para o quarto tão rápido quando o ar-condicionado quebrou. Você deve estar pelo menos um pouco interessada em ir à piscina com sua amiga. Estou errado?"

   "Por que você quer tanto que eu vá à piscina?"

   "O pai não disse que, quando virarmos alunos do terceiro ano, vamos ter que estudar muito mais, então deveríamos aproveitar enquanto ainda podemos? Você lembra disso, não lembra?"

   "Lembro, mas…"

   "Eu sei que você quer se tornar independente o mais rápido possível. Mas, do jeito que está indo, você vai desmoronar antes de chegar lá. Isso me preocupa."

   "Você… está preocupado comigo?"

   "Sim, estou. Eu quero que você pegue mais leve consigo mesma. E, para isso, acho que você precisa descansar e se soltar de vez em quando."

Eu já tinha dito tudo o que queria dizer, então apenas esperei pela resposta dela.

   "Eu… não sei"
Ela disse, abaixando as sobrancelhas finas enquanto olhava para a mesa.
  "Eu não tenho tempo para isso. De verdade, não tenho."

   "Ayase…"

Ela mordeu o lábio e pegou o bloquinho que estava sobre a mesa. Em seguida, apanhou uma caneta e escreveu algo, olhando para o celular de vez em quando. Por fim, bateu o bloquinho sobre a mesa, à minha frente.

   "Eu preciso estudar."

Com isso, ela levou as tigelas até a pia da cozinha e se trancou no quarto.

   "Que droga…"

Suspirei e olhei para o bloquinho à minha frente.

Ayase tinha anotado um número de telefone e escrito Maaya abaixo dele. Devia ser o número da Narasaka.

   "Mas não faz sentido eu ir sozinho…"

Meus ombros caíram enquanto eu arrumava a louça e seguia para o meu quarto.


[Ayko: Que capítulo hein? A conversa da Akiko com o Yuuta sobre a Saki logo no começo do capítulo  me tocou bastante, infelizmente essa é a realidade de muita gente que cresce em famílias quebradas, o choque de realidade quando você tem que crescer rápido demais, é assustador. Se possível, gostaria que nenhuma criança, nenhuma pessoa tivesse de passar por isso, se desprender da própria infância por saber que sobrecarregaria seu pai ou sua mãe é uma barra difícil de se segurar, cuidem das crianças ao redor de vocês, e de vocês mesmo também]

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