Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 3

Capítulo 2: 23 de Agosto (Domingo)

23 DE AGOSTO (DOMINGO)

O calor me acordou naquela manhã.

Conferi o despertador ao lado do travesseiro e vi que eram… três — não, quatro minutos depois das dez. Já era a última semana de agosto, mas o calor do verão parecia não ter a menor intenção de ir embora.

Me lembrei que Akiko havia me dito que era possível sofrer insolação mesmo dentro de casa e liguei rapidamente o ar-condicionado. Depois, como eu estava suado, troquei de roupa.

Quando finalmente abri a porta da sala de estar, fui engolido por uma onda sufocante de calor. Mal conseguia respirar.

Meu pai estava em cima de uma escada, examinando o ar-condicionado. Akiko estava ao lado dele, com uma expressão preocupada. Era domingo, mas era bem raro ver os dois juntos na sala por dois dias seguidos. Algo estava acontecendo.

Meu pai olhou para mim.
   “Ah, Yuuta. Bom dia.”

   “Bom dia, Yuuta.”

   “Bom dia. Hum… tem algo errado com o ar-condicionado?”

   “Ele parou de funcionar há pouco. Fui mexer nele e acabei acordando a Akiko.”

   “Quer ajuda?”

   “Oh, não, está tudo bem. Não estou tentando consertar nada, só dando uma olhada. Um amador como eu não tem como arrumar um ar-condicionado.”

Ele tinha razão.

Meu pai verificou as mensagens de erro no visor e comparou com o manual. Depois, apertou o botão de ligar e desligar no controle remoto, mudando o modo de operação, mas nenhum ar frio saiu do aparelho.

   “Este é o mais antigo da casa”, ele disse.
   “Talvez seja hora de comprar um novo.”

   “E você acabou de comprar um para o quarto da Saki… Desculpa, Taichi.”
Acrescentou Akiko

   “Ei, não é culpa de ninguém. Usávamos aquele quarto como depósito, então não precisava de refrigeração antes. Mas a Saki não consegue estudar sem ar-condicionado, consegue?”

   “Obrigada, Taichi.”

Enquanto ouvia a conversa deles, percebi que Ayase não estava na sala.

   “A Ayase está no quarto dela?”, perguntei.

   “Sim. Ela estava aqui observando o Taichi até um minuto atrás, mas disse que estava quente demais. Ela não lida bem com calor.”

[Ayko: Sejamos sinceros, prefiro muito mais o frio que o calor quando… mas muito frio também não dá não. Ah, detalhe, Taichi ser tão atencioso tanto com a Saki quanto com Akiko mostra muito por que o Yuuta é como é né?]

   “Ah.”

   “Quando era pequena, era um pesadelo. Pedia sorvete, fazia escândalo para ir à piscina…”

Me lembrei daquela foto dela quando criança, a que meu pai me mostrou antes de ele e Akiko se casarem. Ela parecia uma aluna do ensino fundamental cheia de energia. Hoje em dia, parecia bem mais tranquila. Era difícil imaginar a Ayase fazendo birra e implorando para a mãe levá-la para passear.

   “Ela ficou mais fácil de lidar conforme cresceu, mas sinto um pouco de saudade daquela época.”

   “Será que todas as crianças param de querer passar tempo com os pais na puberdade?”, disse meu pai.
   “O Yuuta também foi assim.”

Akiko baixou o olhar e suspirou.
   “No caso da Saki, não demorou tanto assim… Quando ela entrou no ensino fundamental II, já era como é hoje.”

Akiko falava de forma vaga, mas eu conseguia imaginar mais ou menos o que tinha acontecido. Ayase havia me contado que foi nessa época que as coisas ficaram tensas em casa: o pai dela parou de voltar para casa, e Akiko começou a trabalhar. Mesmo tão nova, ela deve ter percebido a situação e parado de causar qualquer estresse adicional.

   “Desculpa, não quis me intrometer”
Disse meu pai.

Akiko sorriu e disse.
    “Tudo bem.”

Ela não parecia incomodada com o assunto, mas meu pai estava visivelmente constrangido. Qual é, pai. Você não está ajudando a Akiko ficando todo sem jeito aí em cima da escada.

Eu não fazia ideia de que Ayase gostava de ir à piscina quando era pequena… Tinha dificuldade imaginando ela se divertindo na água. Fiquei me perguntando se ela ainda gostaria disso, se todas as preocupações desaparecessem e ela pudesse fazer o que quisesse.

Por ser alguém introvertido e caseiro, eu não gostava muito da ideia de grandes multidões nem de me cansar com exercícios.

   “Hmm. Parece que quebrou de vez. Acho que vou ter que chamar a assistência técnica, mas esta é a época mais movimentada do ano para esse tipo de coisa. Vai saber quando poderão mandar alguém.”

   “Que situação… Ah, tenha cuidado ao descer, querido.”

   “Yuuta, é melhor você passar o dia no seu quarto.”

   “Tudo bem.”

Naturalmente, eu tinha turno à noite naquele dia.

Perguntei ao meu pai e à Akiko se eles tinham planos. Akiko disse que queria ir às compras, e meu pai disse que iria junto para carregar as sacolas. Eu não tinha pensado em sair, mas aquilo soava como uma boa ideia.

Akiko disse que avisaria Ayase sobre a situação e foi para a cozinha.
  “Yuuta, você quer comer alguma coisa? Vou preparar algo para mim.”

   “Ah, quero sim. Obrigado.”

Meu pai e Ayase já tinham tomado café da manhã, então Akiko esquentou as sobras para nós. Meu pai abriu a porta do quarto deles, tentando trazer um pouco de ar fresco, mas foi como enxugar gelo, e logo eu estava suando baldes. Nessas horas, eu sentia muita falta de um ventilador.

Depois que terminamos de comer e guardamos a louça, peguei algo para beber na geladeira e voltei para o meu quarto, assim como Ayase havia feito.

E agora?

Era por volta do meio-dia. Folheando as páginas do livro que estava lendo, me perguntava o que Ayase estaria fazendo, quando Maru ligou para o meu celular. Ele perguntou quais eram meus planos para aquela tarde. Eu disse que não tinha nenhum, então ele me convidou para ir às compras com ele.

Relutante em sair naquele calor, eu estava prestes a recusar quando lembrei que ficaria trancado no quarto o dia inteiro. E então, pensando bem, decidi aceitar.

Pouco tempo depois, eu estava em frente à estação de Shibuya. O centro ficava muito mais cheio nos fins de semana do que durante a semana. Observando as ondas de pessoas passarem, o calor parecia aumentar exponencialmente.

Eu tinha estacionado minha bicicleta no lugar de sempre, perto da estação. Foi o que me pareceu mais prático, já que eu trabalharia naquela noite.

Maru queria ir a uma loja que vendia produtos de anime. Eles também vendiam mangás e light novels, o que fazia deles concorrentes da livraria onde eu trabalhava — não que isso importasse. Além disso, nossa loja nem vendia produtos de anime.

Caminhei para o norte pela rua Jingu e virei para oeste na Inogashira. Em certo ponto, a rua se bifurcou, e segui pela Udagawa. Acho que essa é a forma mais simples de descrever o trajeto. Pode parecer longe para quem não conhece Shibuya, mas a paisagem urbana movimentada servia como uma boa distração.

Um grupo usava um espaço vazio na rua para distribuir amostras grátis de um novo suco em lata. Em outro ponto, uma garota em uma barraca improvisada na frente de uma loja promovia seus produtos mais populares. Quando eu me permitia observar tudo ao redor, sempre parecia chegar ao destino num piscar de olhos.

Cheguei cinco minutos antes do horário combinado com Maru.

   “Ei. Valeu por ter vindo.”
Tomokazu Maru — meu melhor amigo — me viu e veio até mim. Ele estava bronzeado por causa dos treinos de beisebol.

   “E aí. Quanto tempo. Não teve treino à tarde hoje?”

   “Não. Só de manhã. Treinar sem parar não está mais na moda. Se cansar demais nesse calor, só dá em doença e lesão. Tem que descansar quando dá — esse é o jeito moderno de treinar.”

   “Entendi.”

Cada treino devia ser bem puxado, então não interessava ao técnico sobrecarregar o time e acabar com jogadores machucados.

   “Desculpa fazer você sair nesse calor.”

   “Na verdade…”

Contei a Maru sobre o ar-condicionado quebrado e expliquei que tinha decidido sair com ele porque em casa estava tão quente quanto na rua. Achei que, sendo honesto, ele não se sentiria culpado.

   “Que desastre. Bom, primeiro quero comprar o que vim buscar antes que esgote.”

   “Tudo bem.”

Maru geralmente não envolvia outras pessoas em seus hobbies. Se ele tinha me chamado, devia haver um bom motivo. Provavelmente queria comprar duas unidades de algo que tinha limite de uma por cliente. Se fosse sozinho, teria que ir a várias lojas, e ele não tinha tempo para isso. Pelo que entendi, aquele item específico tinha sido lançado três dias antes, então fazia sentido ele temer que acabasse.

Uma vez que eu me comprometia com algo, fazia questão de cumprir. Estava preparado para comprar qualquer coisa que ele quisesse… Foi só então que percebi que ainda não sabia o que era.

   “Depois que concluirmos nossa missão, podemos comer alguma coisa, se bater a  fome.”

   “Boa ideia.”

Eu já tinha ido algumas vezes às seções de mangá e light novel daquela loja, mas, como não me interessava muito por este tipo de produto, deixei Maru me guiar.

   “Então, sobre o que é esse anime?”, perguntei.

Maru explicou enquanto seguia apressado à frente. Pelo visto, ele estava atrás de um produto relacionado a um anime que tinha ido ao ar na primavera. A série já havia terminado, mas animes populares costumavam ganhar novos produtos depois. Eu me lembrava do anime de que ele falava: uma história slice of life sobre cinco garotos e garotas em uma cidade rural tranquila, cercada pela natureza.

[Ayko: Esse tal slice of life que o Maru mencionou por alguma razão me lembrou de Hoshizora e Kakaru Hashi]

   “O que eu quero é o robô.”

   “O quê?”

Não entendi nada. Aquele anime não era sobre adolescentes vivendo numa cidadezinha pacata?

   “Não lembra? A light novel que o protagonista estava lendo no episódio cinco era de ficção científica.”

   “Ah…”

Tudo voltou à minha memória. Ultimamente, a cultura nerd tinha se popularizado, e personagens nerds animados frequentemente apareciam nos elencos, seja como protagonistas ou coadjuvantes. Eu lembrava que aquele personagem em especial era fã de uma série de ficção científica cheia de batalhas, que não tinha praticamente nenhuma relação com a trama principal.

   “Espera, não me diga que…”

   “O robô é dessa série de ficção científica que o protagonista gosta.”

   “Isso é forçar demais a barra para produto de anime. Esse robô nem aparece na série!”

“Mas ele é incrível”, disse Maru, antes de mencionar o nome do ilustrador que o havia desenhado. Ele ficou chocado quando eu disse que nunca tinha ouvido falar dele e logo emendou um discurso eloquente sobre a minha ignorância.

   “Então, eles estão lançando um brinquedo desse robô, é isso?”

   “Exatamente.”

Quando chegamos à seção certa da loja, vimos que estávamos com sorte. O robô ainda estava disponível. E chegamos bem na hora, porque, depois de pegarmos dois, só restou um.

Levamos os robôs até o caixa e entramos na fila. Como era domingo, a loja estava cheia, então a espera seria longa. Fomos para o fim da fila e continuamos conversando enquanto ela avançava lentamente.

   “Entendo o que você quer dizer”, eu disse.
  “Esse robô é bem legal.”

   “Eu te disse.”

Eu não era especialista em brinquedos desse tipo, mas até a embalagem chamava atenção. O robô vinha numa caixa grande, com cerca de cinquenta centímetros de altura, coberta pelo logotipo da série fictícia de onde supostamente vinha. O logo do anime era bem menor e ficava em um canto. Ficava até difícil dizer de qual obra o brinquedo era, mas eu gostava da ideia de que parecia que a série do robô realmente existia no nosso universo.

   “Ele também tem um monte de partes móveis. Vai ser divertido de brincar.”

   “Você vai brincar com isso…?”

   “Oh? Nunca brincou com brinquedos de robôs ou monstros?”

   “Acho que sim, mas não com muita frequência.”

[Ayko: Saudades de quando eu brincava com os bonecos do Max Steel, e ele tinha um Pikachu como arma]

Eu conseguia entender o apelo de exibir e admirar, mas não entendia por que alguém gostaria de brincar com eles. Eu gostava mais de ler mangás e romances do que de assistir animes.

Quando eu era pequeno, montei e expus alguns navios de guerra de plástico que meu pai colecionava. Mas depois que minha mãe biológica ficou brava e jogou tudo fora, dizendo que só ocupavam espaço, prometi a mim mesmo que nunca mais faria aquilo. Poderia ter sido um hobby divertido se eu tivesse tido uma família mais compreensiva.

Mangás e romances eram muito mais fáceis. Eu podia me trancar no quarto e ler, e, como pareciam apenas livros, era mais difícil que minha mãe reparasse.

   “Oh, Asamura”, disse Maru, mudando de assunto de repente.
  “Ouvi dizer que você vai à piscina com a Narasaka e a amiga dela. É verdade?”

Ao ouvir isso, meu cérebro simplesmente travou. Quem ia à piscina com quem mesmo?

Sem perceber minha confusão, ele continuou.
  “Seu danado. Eu viro o rosto por um segundo e você já está saindo em encontros.”

   “Espera! Do que você está falando?”

   “Como assim? Estou falando de você, da Ayase e da Narasaka indo à piscina.”

   “Essa é a primeira vez que ouço falar disso.”

Eu nem sabia de qual piscina ele estava falando

Eu estava confuso, e isso deve ter ficado evidente no meu rosto.
Maru me contou que tinha ouvido falar do convite por meio dos amigos do time de beisebol. Segundo eles, Narasaka estava planejando ir à piscina com alguns colegas da nossa turma, tanto meninos quanto meninas, e Saki Ayase e Yuuta Asamura eram dois dos nomes na lista dela.

   “Ela ainda não te convidou?”

   “Não. Nem sequer falei com ela desde que as férias começaram.”

   “Hmm. Talvez você receba um convite em breve.”

   “Já estamos quase no fim de agosto cara.”

   “Isso não deve ser um problema, já que ainda está fazendo tanto calor.”

   “É… acho que você tem razão.”

Eu não fazia ideia de que um plano desses estava em andamento… Será que eu era próximo o bastante de Narasaka para receber um convite assim? Eu conseguia contar nos dedos de uma mão as vezes em que tínhamos conversado. Sabia que ela era uma pessoa ousada e sociável, mas aquilo estava muito além do que eu conseguia imaginar.

Bem, não havia garantia nenhuma de que ela realmente fosse me chamar. Afinal, aquilo era apenas informação de segunda mão.

Pouco depois, Maru e eu chegamos à frente da fila. Pagamos pelos nossos robôs e seguimos de volta em direção à estação, pelo mesmo caminho por onde havíamos vindo. Quando estávamos quase chegando à livraria onde eu trabalhava, encontramos um café e entramos.

Nós dois pedimos cafés gelados.
Maru também pediu um sanduíche club grande. Ele era atleta, então comia bastante.

O café custava quase o dobro do que custaria em uma lanchonete de fast-food, mas valia a pena pelo conforto de poder sentar em uma cadeira agradável. Ainda assim, aquele café específico fazia parte de uma rede e era apenas um pouco mais sofisticado do que um fast-food. Era o tipo de lugar onde os clientes habituais faziam pedidos indecifráveis, que soavam como feitiços arcanos, enquanto Maru e eu, modestamente, pedíamos algo bem mais normal.

Comparado a uma cafeteria de verdade, que aumentaria o preço em um dígito inteiro, aquele tipo de lugar era bem mais adequado ao orçamento de um estudante do ensino médio.

Certa vez, entrei em uma cafeteria perto da estação de Shibuya sem olhar o cardápio do lado de fora e saí imediatamente depois de ver os preços. Foi extremamente constrangedor, mas pagar quatro dígitos por uma xícara de café era demais para mim.

Maru e eu colocamos as bandejas sobre a mesa e suspiramos.

    “Então por que você precisava de dois daqueles robôs?”
Perguntei, olhando para as sacolas de papel.

   “Um é para uso normal, e o outro é para guardar, claro.”

   “Ah, então não é para evangelizar?”

   “…Você já sabia, não é? Isso foi baixo, Asamura.”

   “Na verdade, não sabia, mas tinha uma suspeita. Só me lembrei de você dizendo que tinha alguém para quem costumava dar presentes.”

Eu também sabia que algumas pessoas compravam várias unidades de algo de que realmente gostavam. Mas, se me perguntassem, Maru não parecia o tipo que chamaria um amigo só para ajudá-lo a comprar algo apenas para ter dois. Ele devia ter um motivo para precisar de dois robôs, mesmo que isso significasse ficar me devendo.

   “Na verdade, alguém me pediu para comprar.”

   “Alguém pediu para você?”

   “Sim. Uma amiga online. Ela queria um, mas não conseguia ir à loja durante o período de vendas, então prometi comprar um e enviar para ela.”

   “Ah.”

Eu não sabia que Maru tinha uma amiga assim.

Ele me contou que eles tinham se conhecido em um chat sobre anime. Acabaram se dando bem, passaram a trocar recomendações e a enviar produtos relacionados a coisas de que sabiam que o outro gostava.

Como trocavam itens, deviam ter compartilhado endereços. Ainda assim, não sabiam os nomes reais um do outro, apenas seus nomes de usuário nas redes sociais. Aquilo me pareceu bem típico de uma amizade moderna. Pelo endereço, Maru sabia que ela morava em algum lugar próximo, na cidade, mas disse que nunca tinham se encontrado pessoalmente.

    “Eu pensaria que, sendo pessoas com interesses tão parecidos, vocês acabariam se encontrando em eventos presenciais. Na verdade, parece o tipo de coisa que você tentaria organizar.”

Eventos presenciais eram encontros físicos, em oposição aos virtuais. Embora fosse possível conversar com alguém a qualquer momento pela internet, os seres humanos também tendiam a querer se ver cara a cara de vez em quando. Maru tinha habilidade de organização e iniciativa, e parecia o tipo de pessoa que agiria assim que a ideia surgisse. Ainda que fosse limitado pelos treinos de beisebol, que continuavam até os fins de semana.

   “Não é uma boa ideia”, ele disse.

   “Por quê?”

   “Não é todo mundo, claro, mas eventos presenciais casuais costumam atrair caras que só querem dar em cima de garotas. Você teria que tomar cuidado para limitar os participantes a pessoas de confiança, ou estaria pedindo problemas. Pelo menos, é assim que eu me sentiria se estivesse organizando algo.”

   “Isso é bem cauteloso da sua parte. Espere… dar em cima de garotas? Essa sua amiga é uma garota, por acaso?”

   “Segundo ela, sim. Ela é universitária.”

   “Uma universitária… então é mais velha do que a gente.”

O rosto de Yomiuri passou pela minha mente. Ela era a única universitária que eu conhecia. Não era comum estudantes do ensino médio como Maru e eu conhecerem universitárias, e, ainda assim, parecia que nós dois conhecíamos uma. Que coincidência curiosa.

Pensando bem, provavelmente era ainda mais raro conhecer alguém da mesma idade pela internet.

   “Pelas postagens dela, ela parece muito inteligente. Tem bastante conhecimento, e não concentrado em apenas uma área, como eu. Nossas conversas são boas e significativas, e ajuda o fato de ela ser positiva, não importa com quem esteja falando.”

   “Hm. Ela parece o tipo de pessoa de quem muita gente gostaria de se aproximar… Acho que entendo por que você está sendo cauteloso agora.”

   “É. Ela é bem popular no chat.”

Se Maru organizasse um encontro presencial, muitos caras poderiam aparecer esperando conseguir um encontro com ela.

   “Estou impressionado por vocês já trocarem produtos de anime.”

   “Sim, aconteceu por coincidência. Depois eu te conto tudo.”

   “Vou cobrar isso. Então… você se apaixonou por ela?”

Maru pareceu um pouco chocado. Provavelmente não esperava que eu fizesse uma pergunta dessas.

   “Ah, hã… não exatamente.”

Que resposta estranha. Ele sempre tirava sarro de mim por coisas desse tipo, então achei que não havia problema em devolver na mesma moeda.

Eu ia perguntar “Tem certeza?”, mas Maru parecia genuinamente envergonhado e começou a murmurar algo sem muita clareza. Pouco depois, se levantou, dizendo que precisava ir ao banheiro.

[Ayko: Maru todo apaixonadinho, que fofo que fofo.]

Isso, vindo do Maru…?

Fiquei me perguntando se aquela garota era a mesma pessoa para quem ele enviava presentes. Eu o considerava meu melhor amigo, mas naquele momento me ocorreu que ainda havia muita coisa na vida dele que eu não conhecia. Eu sempre tinha presumido que, assim como eu, ele não se interessava muito por romance..

Romance, é?
Eu gostava de romances de comédia romântica, mas sempre os lia como um espectador, apenas observando a vida dos outros. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer comigo.

Como poderia? Aquilo era a realidade. Alguma garota bonita não ia simplesmente cair do céu e começar a namorar comigo… a menos que meu pai se casasse com uma mulher que tivesse uma filha da minha idade e nós passássemos a morar juntos, suponho. Embora isso não garantisse que ela fosse bonita. Ainda assim, ela era, claro. Não havia como negar.

[Ayko: Yuuta… Isso foi, bastante, bem, muito, grandiosamente específico…]

Espere um pouco. Em quem eu estava pensando agora?

Era verdade que Ayase era bonita, mas ela era minha irmã mais nova.

   “Asamura?”

Ela também tinha uma voz bonita. Exatamente assim. Mas continuava sendo minha irmã, e…

Hã?!

Quando me virei, vi uma garota de cabelo claro parada no corredor, ao lado da nossa mesa, olhando para mim. E eu não estava alucinando não. Era a própria Ayase.

[Ayko: E que timing da Ayase, meeeu amigo]

   “O que você está fazendo aqui…?”, perguntei.

   “Este é o café mais perto da livraria.”

   “Ah… entendi.”

Isso não deveria ter sido uma surpresa. Nós trabalhávamos na mesma livraria, no mesmo turno, e, como aquele café era o melhor lugar para matar o tempo, havia uma grande chance de encontrá-la ali. Ela tinha vindo pelo mesmo motivo que eu usara para sugerir o lugar ao Maru. Era praticamente inevitável.

Mesmo assim, fui pego de surpresa. O que eu deveria dizer agora?

   “Bom, então vou indo”, ela me disse.

   “Hã?”

Meu cérebro, que até então estava girando sem rumo, foi obrigado a reiniciar. Quando finalmente recuperei a noção, eu apenas observava Ayase se afastar, meio atônito.

Ela estava vestida de forma bem veranil, com uma blusa de um ombro só e shorts azul-claros. Ela realmente tem a cintura alta; isso a faz parecer uma modelo. Ah, hoje ela está usando tênis. Isso é raro. Será que escolheu para combinar com a roupa?

Ela se afastou com leveza. A porta se abriu para ela e, logo depois, se fechou.

   “Desculpa a demora.”

   “Hã?! Ah, Maru.”

   “Pensei que já estivesse na hora de você ir trabalhar e voltei correndo, mas… Asamura? Não era a Ayase com quem você estava falando?”

Que horas eram? Olhei para o relógio e vi que meu turno estava prestes a começar. Ah, então era por isso que Ayase tinha ido embora.

   “Tem alguma coisa rolando entre você e a Ayase, não tem?”
Maru me disse, desconfiado.

   “Ah… não exatamente.”

Eu estaria mentindo descaradamente se dissesse que não. Talvez já fosse hora de contar a Maru sobre a nossa situação: que nossos pais tinham se casado e que nós havíamos nos tornado irmãos. Eu poderia sim explicar que era só isso e que as suspeitas dele estavam completamente erradas.

Mas o que exatamente ele estava suspeitando?

No fim das contas, usei a falta de tempo como desculpa para encerrar a conversa e praticamente fugi dali. Naquele momento, perdi todo o direito de criticar adultos por adiarem assuntos e jogarem pelo seguro para evitar complicações.

Entrei correndo na livraria, sem sobrar um segundo. Já lá dentro, troquei de roupa, coloquei o uniforme, amarrei o avental e conferi o crachá. No instante em que saí do vestiário, dei de cara com Ayase e Yomiuri, que faziam o mesmo.

   “Oi, Yuuta! Pronto para trabalhar?”

   “Oi, Yomiuri. Pode apostar.”

   “Oi, Asamura.”

   “S-sim. Oi, Ayase.”

Eu me sentia um pouco estranho. Ainda não tinha superado o choque de encontrá-la inesperadamente no café.

   “Parece que hoje só estamos nós neste turno”, comentou Yomiuri.

Isso significava que éramos apenas três funcionários de meio período cuidando da loja inteira.

   “Então estamos meio desfalcados”, observei.

   “Sim, mas vai ficar tudo bem. A Saki vale por duas pessoas sozinha.”

   “Eu preferia que você não ficasse aumentando tanto as expectativas”, disse ela, modestamente. Mas Yomiuri estava certa. O trabalho dela era impecável. Ayase era séria e rápida, sempre disposta a aprender coisas novas, e, naquele ponto, já era tão competente quanto eu.

Ela realmente tinha tudo sob controle. O cabelo podia ser de um loiro chamativo, mas no trabalho ela sempre tirava os brincos. Embora eu duvidasse que alguém hoje em dia a julgasse só pela aparência, todo tipo de pessoa frequentava livrarias, então nunca se sabia que tipo de reclamação poderia surgir. Eu não achava que ela se importaria pessoalmente com uma bronca, mas provavelmente não queria causar problemas para a loja.

Ela até pintava as unhas com cores discretas e evitava enfeitá-las, já que os clientes prestariam atenção às mãos dela quando estivesse no caixa, passando troco ou colocando capas nos livros. Se fizesse tudo perfeitamente, dificilmente ouviria reclamações, mas no começo ela teve dificuldade com tarefas simples, como retirar embalagens plásticas, por não ter experiência anterior.

Era fácil reclamar quando um novato desajeitado se vestia de forma chamativa. Eu nunca teria imaginado que ela se esforçaria tanto para evitar esse tipo de risco. Ayase levava o trabalho completamente a sério, suando mesmo dentro da livraria com ar-condicionado.

Nós, funcionários de meio período, precisávamos revezar os intervalos, porque, se todos saíssemos ao mesmo tempo, não haveria ninguém para atender os clientes ou passar compras no caixa em caso de aperto. Ayase fez o intervalo dela cerca de duas horas depois de começarmos.

Nossos intervalos não eram longos. Duravam apenas cerca de dez minutos. Em turnos completos, podíamos tirar uma hora, mas em um meio turno das seis às dez da noite, não havia tanto tempo assim.

   “Vou fazer meu intervalo agora”, disse Ayase.

   “Claro, Saki. Descansa um pouco.”

   “Volto em dez minutos.”
Depois de confirmar, Ayase se afastou.

   “Hmmm…”
Yomiuri pareceu pensativa enquanto observava a outra garota se afastar.

   “O que foi?”

Havia uma funcionária fixa no caixa, atendendo o último cliente. As pessoas provavelmente estavam saindo para jantar naquele horário.

Yomiuri fez um gesto com a mão, me chamando.

   “O que é?”
Perguntei novamente.

Ela me levou para um canto atrás dos caixas e disse: “É sobre a Sakikins.”

   “Que tipo de apelido é esse?”

   “Ué? Está reclamando, irmãozão?”

   “Às vezes você chama ela de Saki, outras de Ayase. Dá até confusão.”

   “Então vamos decidir agora. Saki, Sakizinha, Satch… Qual você prefere?”

   “Não me pergunte. Para mim, Ayase está ótimo.”

   “Então fica Saki.”

Acabamos voltando ao ponto inicial. Eu não me importava com o que Yomiuri chamasse ela, mas torcia para que não esperasse que eu passasse a usar o apelido que ela escolhesse.

   “Então, o que tem a Ayase?”
Perguntei a Yomiuri.

   “Tsc!”

   “Por favor, não estale a língua para mim.”

   “Isso é sério.”

   “Não parece.”

   “Quero dizer a sua irmã. Ela é séria demais!”

   “Ah, é?”

Havia algo errado nisso?

   “Não me entenda mal. Ela é incrível no trabalho. Dedicada, esforçada, aprende rápido e faz questão de fazer tudo perfeitamente. É uma funcionária exemplar.”

   “Você esqueceu de mencionar que ela é só uma funcionária de meio período.”

   “Para de implicar! O problema é que ela pega pesado demais consigo mesma quando não consegue fazer alguma coisa.”

Engoli em seco.

Depois de avisar que estava apenas dando sua opinião pessoal, Yomiuri começou a falar sobre o jeito da Ayase.

Segundo ela, Ayase tinha tendência a se culpar por tudo. Embora isso fosse comum em pessoas muito capazes, Yomiuri temia que Ayase pudesse acabar tendo um colapso nervoso se algo a impedisse de progredir ou se as coisas dessem errado de repente.

Ela contou que conhecera, na faculdade, uma garota muito parecida com Ayase, que acabara desenvolvendo problemas sérios.

   “Ela também era excelente em tudo. Pelo que sei, sempre foi a melhor desde o ensino fundamental. Não era só talento, ela se esforçava muito. Mas, quando entrou na faculdade, falhou pela primeira vez.”

A maioria das pessoas não acharia isso nada demais.

   “Todo mundo tem coisas que não consegue fazer, não importa o quanto tente”, continuou Yomiuri. “Somos humanos, afinal. Mas essa garota não via assim. Ela não conseguia se perdoar. Colocava toda a culpa em si mesma, convencida de que tinha fracassado porque era preguiçosa.”

   “E… o que aconteceu?”

   “Ela voltou para casa. Acho que morava em Shikoku. Depois disso… não sei. Espero que esteja bem.”

Percebi que Yomiuri devia ser bastante preocupada, a ponto de se importar tanto com alguém que nem sequer era sua amiga. Preferi guardar esse pensamento para mim.

Segundo Yomiuri, pessoas que se culpavam por tudo não podiam se dar ao luxo de relaxar. Viviam tensas, acumulavam estresse facilmente.

Em outras palavras, não conseguiam parar sozinhas.

Com o tempo, acabavam se esgotando. Para parar alguém assim, alguém que sentia que morreria se não continuasse avançando, era inevitável impedi-la de fazer o que queria. Era preciso ir contra a vontade dela justamente porque você se importava.

A explicação de Yomiuri me lembrou da vez em que Ayase perdeu o controle e parou de me ouvir. Eu tinha sido obrigado a fazê-la parar e me escutar. Naquele momento, eu estava desesperado e não tinha plena consciência do que fazia.

Soava bonito dizer que dava o seu máximo em tudo, mas…

   “Quando você diz que tudo é importante, é quase como dizer que nada é”, disse Yomiuri. “Não acha?”

   “É ‘quase’, mas você não está dizendo que é exatamente a mesma coisa, certo?”

   “Bom, algumas pessoas realmente consideram tudo importante. Mas, para isso, é preciso ser um prodígio. A maioria das pessoas é comum. Só consegue lidar com uma certa quantidade de coisas, e eu não acho que precisem tentar fazer tudo.”

   “Entendo. Foi uma conversa esclarecedora.”

   “Então você precisa guardar energia para o que realmente importa. Tem que ser um pouco relaxado. Entendeu?”

   “Sim. Então você está dizendo que precisamos lembrar pessoas como a Ayase de fazer pausas.”

   “Exatamente! Esse é o meu Yuuta. Então você me perdoa se eu fizer um intervalo um pouquinho maior do que o normal, né?”

Yomiuri juntou as palmas das mãos, implorando. Ela já tinha abandonado completamente o tom sério e agora só tentava arrancar um favor.

   “Que transição… Imagino que tenha algo que você queira fazer.”

   “Se eu esperar o fim do turno, vai estar fechado. Leva quinze minutos para ir e voltar.”

Suspirei. Yomiuri era mesmo única…

   “Tudo bem. Pode somar o meu intervalo ao seu. Vá fazer esse misterioso passeio de compras.”

   “Isso! Toca aqui.”

   “Nem pensar.”

   “Estraga-prazeres.”

   “Eu realmente não consigo acompanhar você.”

Eu tinha ficado tocado pelas observações dela e impressionado com sua maturidade, e agora isso. Que jeito de acabar com o clima.

   “De qualquer forma”, ela acrescentou, “se você realmente se importa com a sua irmã, talvez devesse se intrometer um pouco mais na vida dela.”
E, dizendo isso, voltou para os caixas.

   “Preciso me intrometer se me importo com ela, é?”

Talvez Yomiuri estivesse falando sério, afinal. Ela era tão difícil de decifrar.

Era mais uma noite quente. Eu já tinha terminado o turno, e a temperatura continuava alta.

Empurrando minha bicicleta ao lado de Ayase, ficando mais perto da rua, pensei no que Yomiuri havia dito.

Ayase vinha se esforçando muito no trabalho no último mês. Eu imaginava que fosse para aumentar suas economias, na esperança de morar sozinha. Em parte, era culpa minha por não ter conseguido encontrar um emprego em que ela ganhasse dinheiro rapidamente. Em vez disso, ela tinha escolhido trabalhar comigo, para aprender com alguém que conhecia. Tudo isso fazia sentido.

Mas, como meu pai havia dito, eu não a tinha visto se divertir nem uma única vez durante esse período. Algo que Maru mencionara também não saía da minha cabeça.

   “Precisamos lembrar pessoas como a Ayase de fazer pausas.”

Hmm. Talvez eu devesse perguntar a ela sobre isso…

   “Ayase, por acaso a Narasaka te convidou para ir à piscina? …E talvez a mim também?”

   “A Maaya entrou em contato com você?”
Ela fez a pergunta de imediato, franzindo a testa. Então era verdade.

   “Não. A Narasaka não tem meu contato.”

   “Então como você ficou sabendo disso?”
Ela estava inegavelmente desconfiada.

   “Alguém me contou. Só isso. Eu não sabia de nada.”

Expliquei que tinha ouvido de um amigo que Narasaka estava planejando um encontro em uma piscina.

   “Você quer ir?”

Por um instante, pensei que estivesse perguntando se eu queria ir com ela. Depois percebi que ela só queria saber se eu tinha interesse em ir à piscina.

Ayase não gostava de deixar margem para mal-entendidos. Quando fazia uma pergunta assim, não havia nenhum significado oculto. Ela apenas queria saber se eu queria ir. Nesse caso, eu deveria responder exatamente o que pensava.

   “Para ser sincero, acho que eu só chamaria atenção indo a uma piscina com um monte de extrovertidos. Então não, não me anima muito.”
Percebi que havia um sorriso torto no meu rosto ao responder.

Por um momento, achei ter visto uma expressão solitária cruzar o rosto de Ayase quando passamos sob a luz de um poste.

   “Não? Então você não precisa se forçar.”

A resposta seca me incomodou. Eu não conseguia identificar o sentimento por trás dela. Podia ser irritação ou até tristeza. De uma forma estranha, também senti um certo alívio.

   “E você não vai?”, perguntei.
   “Quero dizer, à piscina.”

   “Não vou.”

   “Por quê?”

   “……”

Quando tentei insistir, ela se fechou. Os carros passavam rapidamente ao meu lado, talvez ela simplesmente não tivesse ouvido. Mas, se tivesse ouvido, insistir poderia acabar a irritando.

E com isso fiquei com uma estranha sensação de desconforto.

   “Não vou.”

Fiquei me perguntando o que ela estava sentindo ao dizer aquilo.

Continuamos andando, e as luzes do nosso prédio surgiram mais adiante. Eu precisava guardar a bicicleta, então pedi que ela fosse na frente. Quando fiquei sozinho, continuei pensando nela até o momento em que abri a porta do nosso apartamento.

 

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