Volume 3
Capítulo 1: 22 de Agosto (Sábado)
22 DE AGOSTO (SÁBADO)
Era uma manhã de sábado, bem no meio das férias de verão. Do lado de fora da janela, as cigarras cantavam alto.
Enquanto cutucava a omelete do café da manhã com a ponta dos hashis, um pensamento me passou pela cabeça: não era um desperdício termos fins de semana durante as férias? Não dava para pegar todos esses dias e trocá-los por mais folga depois?
[Ayko: Aqui o Yuuta foi visíonario tá? Imagina entrar em período de férias, e depois entrar em férias pós férias, é tipo um fim de semana seguido de feriado prolongado, sonho demaiskkkkkk]
Eu não achava que isso fosse pedir demais. Normalmente, quando um feriado nacional caía em um domingo, a segunda-feira seguinte era folga. Então, não faria sentido devolverem todos os sábados e domingos que “perdíamos” durante as férias? Ou, se isso fosse exagero, pelo menos os domingos.
Eu pensava assim desde o ensino fundamental e, naquele dia, finalmente trouxe o assunto à mesa do café da manhã.
Meu pai pareceu chocado.
“Você já tem um mês inteiro de folga. Tem algo que queira fazer e precise de ainda mais tempo?”
Parei de mexer os hashis e pensei por um instante.
“…Nada em especial.”
“Então por quê?”
“Só parece que estou sendo roubado.”
“Você fala como uma criança.”
“Não acho que isso tenha a ver com idade.”
“Quando você chega à minha idade, nem sabe mais o que fazer com os dias de folga.”
“Ah, fala isso logo na frente da Akiko… Você não gostaria de sair com a família ou algo assim?”
“Heh-heh. Ora, Yuuta, você é tão atencioso”, disse Akiko, “diferente do Taichi.”
Ela estava sentada à frente do meu pai, pegando delicadamente pedaços da omelete.
Akiko havia se casado com meu pai dois meses antes, e assim se tornou minha madrasta. Ela trabalhava como bartender, então saía à noite e muitas vezes voltava tarde. Já meu pai tinha um emprego comum, logo saía cedo pela manhã e voltava no começo da noite.
Eles eram recém-casados, mas mal passavam tempo juntos sem ser nos dias de folga. Por isso, sempre que os via tomando café da manhã na mesma mesa, a sensação imediata era de fim de semana.
“Mas sabe, Yuuta”, ela continuou, “as coisas mudam dependendo de como você olha para elas.”
“Mudam?”
“Por exemplo, hoje é sábado e estamos de folga, mas para você é como qualquer outro dia, já que está no meio das férias, certo?”
Assenti.
Durante férias longas como as de verão, é fácil perder a noção dos dias da semana. Talvez não tanto no começo, no fim de julho, mas depois de um mês vivendo assim, isso é inevitável.
“Mas, na verdade, hoje é sábado, não um dia útil, e você vai trabalhar, não vai?”
“Sim. Hoje vou fazer um turno completo, então saio antes do meio-dia.”
“Que bom para você. E ontem você também trabalhou, certo? Então não está fazendo nada de diferente.”
“É.”
“Mas, como hoje é sábado, você recebe adicional por trabalhar no fim de semana!”, declarou Akiko, animada.
“Não é ótimo?!”
“Hã? …O quê?!”
“Para você pode parecer tudo igual, mas ainda assim você ganha esse bônus. Não sente que está saindo no lucro?”
“Ah… é verdade. Acho que sim.”
“E você não receberia esse bônus se todos os sábados e domingos das férias fossem trocados por dias úteis. Pensando por esse lado, não acha que as coisas estão ótimas do jeito que estão?”
Agora que eu pensava nisso, ela tinha razão. Eu sentia que havia algo estranho na lógica dela, mas o tom naturalmente sincero da sua voz quase me fez acreditar completamente.
“Suspiro… Asamura, ela está te enganando”, comentou Ayase. Ela estava se concentrando em comer, mas parecia não aguentar ouvir mais aquilo.
“Ah, é? Eu tive essa impressão.”
“Pois é. Pela lógica dela, até hoje você esteve trabalhando nas suas férias por salário normal.”
“Ah… entendi.”
O argumento da Ayase era simples: os dias úteis durante as férias de verão não eram como dias úteis normais, mas sim mais parecidos com fins de semana. Vendo dessa forma, não havia vantagem alguma. Na verdade, eu estava perdendo dinheiro cinco dias por semana.
Akiko quase tinha me convencido porque começou definindo os sábados das férias como “dias normais”, fixando essa ideia na minha cabeça. Era preciso tomar cuidado com pessoas assim, que tentavam te enrolar.
[Ayko: Akiko poderia participar de Great Pretender… A mulher tem lábia rapaz]
“Cuidado com a mamãe. Ela é praticamente uma vigarista.”
“Ora, ora, Saki”, disse Akiko.
“Não é assim que se fala da própria mãe.”
“Justamente por eu ser sua filha é que sei como você realmente é. Para você, enganar alguém quando quer é a coisa mais fácil do mundo.”
“Isso me traz lembranças”, disse meu pai em voz baixa.
“A Akiko sempre foi boa em me animar, não importa o quão deprimido eu estivesse.”
Se essa era a reação do meu pai ao que Ayase tinha acabado de dizer, isso não significava que ele estava admitindo que também tinha sido enganado? Eu não entendia por que ele parecia tão feliz com isso.
Fazia sentido que a mulher à nossa frente tivesse facilidade em enganar alguém como meu pai ou eu. Ela havia trabalhado por anos como bartender no centro de Shibuya e era uma verdadeira mestra no atendimento ao cliente.
Ainda assim, decidi deixar isso de lado por enquanto.
“Pensar que estou trabalhando por salário normal nos meus dias de folga é bem deprimente, convencer a mim mesmo de que estou trabalhando como sempre, mas ocasionalmente recebendo um extra sem motivo, parece muito melhor para a minha saúde mental. Então vou ficar com essa versão.”
Akiko sorriu docemente e estendeu o braço fino.
“Quer mais sopa de missô, Yuuta?”
“Quero, sim.”
“Oh, eu pego. Eu também queria mais.”
Ayase se levantou antes de Akiko e pegou minha tigela.
“Obrigado.”
“De nada.”
“Saki”, chamou meu pai.
“Pode pegar mais para mim também?”
“Claro.” Com a concha em uma das mãos, ela se virou e pegou a tigela dele.
“Obrigado, Saki.”
“Não foi nada. Aqui está, Asamura.”
“Obrigado, Ayase.”
Ayase se serviu por último, sentou-se novamente e voltou a comer.
“Saki, sua sopa de missô está ótima como sempre”, disse meu pai, com um sorriso bobo no rosto.
Nos fins de semana, Akiko ajudava Ayase a preparar o café da manhã, mas a sopa daquele dia havia sido feita pela própria Ayase. Tinha os ingredientes de sempre: cebolinha e tofu frito. Encharcados pelo sabor do missô, os pedaços de tofu estavam macios e contrastavam muito bem com a textura crocante da cebolinha.
“É verdade”, eu disse.
“Você faz uma sopa de missô excelente, Ayase.”
Ela hesitou por um instante antes de responder.
“…Obrigada, Asamura.”
Akiko sorriu.
“Hi-hi. Vejo que vocês dois estão se dando muito bem.”
“Concordo”
O meu pai disse.
Os dois trocaram um sorriso cúmplice. Foi um alívio vê-los se encarando com tanta tranquilidade. Todas as minhas lembranças de infância à mesa eram de gritos, silêncios constrangedores e comida fria.
Aquilo era completamente diferente. O casal apaixonado à minha frente trocava palavras tão doces que, às vezes, dava até vontade de desviar o olhar. As provocações me deixavam um pouco desconfortável, mas valiam o sacrifício. Ayase parecia cansada daquilo, mas ainda permanecia à mesa, o que significava que provavelmente sentia o mesmo que eu.
“Mas vocês ainda se chamam pelo sobrenome. Isso não é estranho?”, perguntou meu pai de repente.
Akiko se virou para Ayase.
“Você ainda tem vergonha de chamá-lo de irmão mais velho? Pode chamá-lo de Yuuta, se for mais fácil.”
Fiquei impressionado. Talvez isso viesse da experiência. Eu não conseguia imaginar Ayase dizendo algo como “onii-chan” de forma carinhosa, mas Yuuta não era tão diferente de Asamura e soava mais próximo — mais familiar. Não que eu já tivesse tido um irmão, mas parecia uma forma razoável de ela se dirigir a mim.
Ayase, porém, balançou a cabeça suavemente. “Não é vergonha nem nada disso. Só não parece certo…”
“Não parece?” insistiu Akiko.
“Não.”
“Bem, tudo bem”, ela disse.
“E acho que assim também não fica confuso.”
“Confuso?”
“Antes de começarmos a namorar”, explicou meu pai, “a Akiko me chamava de Sr. Asamura. Se a Saki pensar em mim como Sr. Asamura e no Yuuta como Asamura, ainda evitamos confusão aqui em casa.”
Eu nem ouvi o final da frase. Fiquei completamente paralisado, de boca aberta.
Nunca tinha pensado nisso antes, mas meu pai tinha razão. Era apenas questão de boas maneiras, mesmo sendo próximos. Meu pai havia sido cliente da Akiko, então, como profissional, ela não poderia simplesmente diminuir a distância entre eles e chamá-lo de Taichi de repente.
Esse era o jeito japonês de fazer as coisas — pelo menos em público. Mas espera um pouco…
“Quer dizer que você chamava a Akiko de Srta. Ayase antes de começarem a namorar…?”
“Claro que sim. Não é o natural?”
“Demorou bastante para ele começar a me chamar pelo nome”, acrescentou Akiko.
“Ha-ha-ha! Você vai me deixar envergonhado”, disse meu pai, coçando as bochechas avermelhadas. Ele parecia um adolescente, e só de olhar já senti vergonha alheia.
[Ayko: Não sei bem porquê, mas me veio um leve gosto de Shihoko e Shuuto Fujimiya nessa cena do Taichi e da Akiko]
Ainda estávamos tomando café da manhã, e os recém-casados já exibiam todo o seu carinho. Mas suponho que isso seja o que se chama de uma família feliz.
Levantei o olhar e vi as sobrancelhas de Ayase se franzirem por um instante, como se algo a estivesse incomodando. Logo depois, porém, ela voltou a comer com sua expressão fria de sempre. Isso também me ajudou a recuperar a compostura.
Obrigado, Ayase.
Servi café e coloquei as xícaras à frente de todos. Era o mínimo que eu podia fazer, já que não tinha ajudado a preparar a refeição. Meu pai e Ayase tomaram o café puro, enquanto Akiko acrescentou um pouco de leite ao dela.
“Obrigada, Yuuta”, disse Akiko.
“De nada.”
Por sinal, eu mudo a forma como tomo café dependendo do meu humor.
Falando em café, no último mês tínhamos bebido exclusivamente Brazil Santos ou Jamaican Blue Mountain. Meu pai havia comprado grandes quantidades quando Ayase estava se preparando para a prova de recuperação, depois de ouvir que o aroma ajudava na concentração. Ainda havia bastante sobrando, então continuávamos bebendo o mesmo.
[Ayko: Por curiosidade, sim, ambas as marcas de café existem, e ambos são ótimos! Brazil Santos tem notas de chocolate, cacau, nozes e/ou frutas secas, me agrada bastante.
O Jamaican Blue Mountain é bastante renomado mundialmente, é um café com quase nenhuma amargura e extremamente suave, cultivado em uma região específica das Blue Mountains, os grãos demoram para crescer e por isso tem um sabor único, e todo café produzido passa por rigorosa inspeção pela JACRA. Grande parte do café é exportado para o Japão.]
Fiquei me perguntando se tinha sido o café que me ajudara a terminar a lição de casa das férias tão rápido, ou apenas o fato de saber que eu estaria ocupado trabalhando.
“Eu ainda não acredito que a Saki conseguiu um emprego na mesma livraria que o Yuuta!”
“Mãe, quantas vezes você já disse isso?”
“É que eu fiquei muito surpresa.”
“É meu primeiro emprego. É mais eficiente ter alguém conhecido lá para me ensinar as coisas. Além disso, eu queria ler mais e melhorar minha nota em Língua Japonesa Moderna. Só isso.”
Acho que aquela já era a terceira ou quarta vez naquele verão que eu ouvia essa conversa.
Akiko parecia não entender, mas para Ayase, ter precisado fazer uma prova de recuperação em Língua Japonesa Moderna antes das férias devia ter sido devastador.
Para ser sincero, o emprego da Ayase também me surpreendeu. Ela deveria estar procurando algo fácil, onde pudesse ganhar bastante dinheiro rápido, mas acabou trabalhando em uma livraria que não pagava muito e exigia bastante esforço. E, diferente de mim, ela não estava lá por amor aos livros.
Quando a vi na livraria no último dia de aula, meus olhos quase saltaram das órbitas. Ela não tinha me dito nada sobre trabalhar ali.
Eu queria perguntar por que tinha mantido segredo, mas não consegui sair enquanto estava de turno, e a pergunta ficou martelando na minha cabeça. Quando cheguei em casa e ela me contou imediatamente, foi quase anticlimático.
A resposta dela foi simples: “Eu ficaria com vergonha se te contasse e acabasse não sendo contratada.”
Era um motivo bem comum, mas compreensível. Eu também ficaria envergonhado se me candidatasse a um trabalho que parecia fácil e fosse rejeitado.
Tomei meu café com calma, deixando meus pensamentos voltarem para a noite em que Ayase me disse que, a partir do dia seguinte, começaria a trabalhar comigo.
“Vocês dois ficam bem trabalhando tanto assim?”
“Está tudo bem, pai”, eu disse.
“Estou frequentando direitinho as aulas de verão. E, como sempre digo, sei cuidar de mim.”
Como aluno do segundo ano, eu já precisava começar a pensar seriamente nos exames de ingresso para a universidade. Como o Colégio Suisei era especialmente renomado, meus colegas falavam praticamente só de simulados e cursos de verão — a menos que estivessem ocupados com esportes, como meu melhor amigo, Tomokazu Maru.
Ayase, no entanto, não faria aulas de verão comigo. O cursinho famoso que as oferecia cobrava uma taxa alta, e ela teria de depender das economias da família para frequentá-lo. Meu pai tentou convencê-la de que isso não seria um problema, mas ela se manteve firme, e no fim ele acabou cedendo.
Ela estava determinada a entrar em uma universidade de prestígio apenas por mérito próprio e se recusava a fazer concessões ou aceitar ajuda de qualquer pessoa. Eu precisava respeitar essa determinação.
“Aulas de verão?”, meu pai respondeu.
“Ah, isso não é tão importante assim.”
Depois de descartar com facilidade as preocupações acadêmicas do filho — provavelmente por confiar demais em mim —, ele levantou a última coisa que eu esperava ouvir: “São férias de verão, e nenhum de vocês parece ter feito algo realmente divertido.”
“É isso que está te preocupando?”
Ayase e eu estávamos ocupados quase todos os dias, e até mesmo cafés da manhã em família como aquele aconteciam apenas algumas vezes por mês. Eu também achei estranho um pai se preocupar mais com diversão do que com estudos, mas ele parecia completamente sério.
“É importante aproveitar a vida”, continuou. “Quando se é adulto, é difícil arranjar tempo livre. Vocês deveriam valorizar os altos e baixos da juventude e passar tempo com os amigos enquanto podem.”
“Eu podia jurar que vocês dois ainda estavam ‘aproveitando a juventude’ até um minuto atrás.”
“Akiko e eu temos um relacionamento maduro.”
Observando meu pai e Akiko, comecei a refletir sobre uma questão filosófica. Afinal, qual era a diferença entre crianças e adultos? Talvez tudo se resumisse a quem estava definindo isso.
“Vocês são estudantes do ensino médio, não querem viajar, ir a festivais, se divertir?”
“Eu achei que pais deveriam mandar os filhos diminuírem a diversão. Além disso, meu trabalho é divertido”, respondi, exasperado.
Meu pai balançou a cabeça. “Pode até ser divertido, mas trabalho ainda é trabalho. Vocês precisam aproveitar o tempo livre.”
“Talvez, mas…”
Eu sempre achei que a maioria dos adultos via estudantes do ensino médio trabalhando nas férias como jovens apenas se divertindo. Pelo menos alguns pensavam assim. Mas meu pai era uma exceção.
“No terceiro ano, você vai ter que se concentrar muito nos exames de ingresso, é por isso que acho que você deveria se divertir um pouco mais agora.”
“Eu concordo”, disse Akiko. “Também me preocupo com a Saki. Ela costuma se esforçar demais.”
Pensando bem, meu pai e Akiko realmente pareciam ter preocupações diferentes da maioria dos adultos. Eu já vinha pensando nisso havia algum tempo: os dois eram muito parecidos.
“E quanto aos seus amigos?”, Akiko continuou.
“Você não acha que eles se sentem sozinhos?”
Amigos, hein… A imagem de um cara musculoso de óculos surgiu na minha mente. Dei um sorriso torto.
“Não tenho muitos amigos que sentiriam minha falta. O único que sentiria está sofrendo no campo de beisebol agora…”
Meu melhor amigo, Tomokazu Maru, era o catcher do time de beisebol da escola. Mesmo sendo férias de verão, ele treinava todos os dias. E não era só isso — também tinha acampamentos de treino e jogos amistosos em outras províncias. Naturalmente, ele não tinha tempo para sair comigo.
“Eu gosto de férias longas”, ele sempre dizia. “Temos mais tempo para treinar!”
Ao lembrar disso, olhei para Ayase.
“Essa é a minha situação. As amigas da Ayase parecem um pouco mais ativas, pelo menos.”
“Eu não tenho planos”, ela respondeu.
A única amiga dela que eu conhecia era Maaya Narasaka. Diferente do Maru, eu nunca tinha ouvido falar dela estar atolada em atividades de clube. Além disso, ela tinha um jeito de irmã mais velha e parecia especialmente ligada à Ayase. Era difícil acreditar que ela não tivesse feito nenhum convite durante todo o longo recesso de verão.
Mas Ayase negou isso com tanta naturalidade que achei difícil insistir no assunto. Embora curioso, deixei passar, e a conversa terminou ali.
Mais tarde, enquanto eu me arrumava para ir trabalhar, ouvi uma batida na porta do meu quarto.
Quando abri, Ayase estava parada na entrada. Com naturalidade, ela disse:
“Não se preocupe com a Maaya. Nós não somos do tipo de amigas que saem juntas durante as férias de verão, está bem?”
Fiquei sem palavras. O tom dela era tão seco que comecei a me perguntar se a tinha ofendido, e minha mente ficou em branco.
“Ayase, espera.”
“…O quê?”
Por puro reflexo, eu a parei quando ela se virou para voltar ao quarto, mas não consegui pensar no que dizer. Era difícil explicar, mas algo estava me incomodando. Havia uma fragilidade na maneira como ela agia. Minha intuição geralmente estava certa, então eu não queria simplesmente ignorar aquilo.
O melhor era cortar qualquer mal-entendido pela raiz.
Ser amigo não significava necessariamente sair junto durante as férias, e depois de três meses morando sob o mesmo teto, eu sabia bem que Ayase preferia se dedicar ao próprio aperfeiçoamento em vez de sair para se divertir.
Mas isso não significava que ela estivesse sempre sozinha. Eu já tinha passado um tempo com ela e Narasaka depois da escola jogando videogame, e em outra ocasião, Narasaka tinha vindo ajudar Ayase a estudar e até preparado o jantar.
Do jeito que Ayase falava agora, parecia que as duas tinham se afastado de repente.
“Desculpa”, ela disse por fim.
“O quê?!” Entrei em pânico. Eu não acreditava que tinha parado ela só para me perder nos próprios pensamentos.
“Desculpa se te preocupei. Não estou chateada, nem de mau humor. Eu e a Maaya simplesmente não costumamos sair juntas.”
“Mas ela veio aqui algumas vezes.”
“Ela estava curiosa sobre você. E ela vem se eu pedir, como da última vez. Ela gosta de ajudar as pessoas.”
Lembrei de Narasaka dizendo que tinha vários irmãos mais novos. Diferente de Ayase e de mim, que crescemos sem irmãos, ela provavelmente estava acostumada a cuidar dos outros.
“Mas se eu não peço, ela não vem” Ayase continuou, “E eu sou do mesmo jeito.”
“Ah. Acho que entendo. Eu também não costumo sair muito com outras pessoas.”
“Você gosta de ficar sozinho?”
“Acho que prefiro.”
Talvez fosse mais correto dizer que eu sabia me virar sozinho. Se quisesse, podia passar horas sozinho sem me incomodar nem um pouco. Na verdade, estar perto de outras pessoas me deixava ansioso. Quando eu era criança, minha mãe estava sempre irritada, e eu vivia com medo de piorar ainda mais o humor dela. Casa nunca foi um lugar relaxante para mim. Talvez por isso eu tenha me refugiado nos livros.
Não era apenas que eu ficava bem sozinho. Se fosse sincero, ficar sozinho era mais fácil.
“Ah, então você é como eu”, Ayase respondeu. “Nesse caso, acho que não há mais nada a dizer.”
“É.”
“Certo, vou me arrumar para o trabalho. Tenho uma coisa para resolver antes, então vou sair bem mais cedo.”
“Entendi.” Assenti com a cabeça, mas ainda assim, a sensação estranha não desapareceu.
Mesmo sem saber o que, eu sabia que algo estava acontecendo com Ayase. Eu não diria que ela estava mentindo, mas o comportamento dela parecia estranho. E mesmo depois que voltei para o meu quarto, continuei pensando nisso, até que uma ideia me ocorreu: por que Ayase tinha vindo até o meu quarto só para garantir que não sairia com a Narasaka durante as férias?
Saí do apartamento pouco antes do meio-dia. Naquele dia, meu turno ia da tarde até a noite.
Estacionei minha bicicleta em um canto do estacionamento e conferi o relógio. Ainda faltava cerca de meia hora para eu entrar no trabalho.
“Estou um pouco adiantado, mas não o suficiente para ir a outro lugar…”
Olhando para a livraria, decidi matar o tempo lá dentro e entrei pela entrada dos clientes.
Em geral, todas as livrarias são organizadas de forma parecida.
Assim que você entra, há uma estante pensada para chamar a atenção, cheia de lançamentos e livros em destaque, empilhados de modo que as capas fiquem visíveis. Pode parecer que muitos clientes passam direto, mas isso acontece porque é uma área de grande circulação. Assim que entrei, vi um homem de meia-idade, provavelmente um trabalhador de escritório, olhar rapidamente para a estante antes de seguir para a seção de revistas esportivas. Mesmo um olhar rápido como aquele já justificava o esforço.
Se uma livraria tem apenas uma entrada, o caixa quase nunca fica longe. Para um cliente que já terminou as compras, o mais importante é seguir rapidamente para o próximo compromisso. Era essencial poupá-lo do estresse de atravessar a loja inteira depois de pagar.
Depois da área de lançamentos, os livros são organizados de acordo com o quanto vendem. Os mais populares ficam mais próximos da entrada, enquanto os que demoram mais a sair ficam no fundo. A regra geral é colocar os livros que vendem bem em locais de maior destaque.
Toda livraria segue uma lógica própria na disposição das seções. Um colega mais experiente já tinha me explicado isso uma vez, e foi um verdadeiro momento de iluminação para mim.
Lembrei de quando comecei a trabalhar ali. Eu tinha perguntado à Yomiuri:
“Se a disposição é tão importante, por que as livrarias vivem mexendo nela?”
Parecia que a maioria reorganizava as seções a cada seis meses mais ou menos. Eu achava isso extremamente irritante, e quanto maior a loja, pior. Uma biblioteca jamais faria algo assim.
“É um saco”, continuei reclamando.
“A gente fica de olho em um livro e, de repente, ele some, movido para sabe-se lá onde.” Eu tinha certeza de que qualquer amante de livros já tinha sentido isso pelo menos uma vez.
“É exatamente por isso que fazem isso”, ela respondeu.
A resposta me deixou confuso. “Como assim?”
“Ou, para ser mais precisa, fazemos isso porque os clientes acham que se lembram.”
“Não entendi.”
“Na verdade, eles só acham que se lembram. As pessoas olham para as coisas, mas não costumam fixar os detalhes. Por exemplo, olhe esse espaço na prateleira. Você lembra qual livro estava aqui antes?”
Ela tocou o canto de uma fileira de paperbacks. Um livro tinha sido vendido, deixando um espaço vazio do tamanho de um volume. Estávamos na seção de light novels, que eu já tinha olhado inúmeras vezes, mas não conseguia lembrar qual livro estava ali.
“Aqui está a resposta”, disse ela, mostrando a capa de um livro que tinha acabado de voltar ao estoque. Era um título que vendia bem, escrito por um autor conhecido por contos curtos — algo raro hoje em dia. Eu já tinha lido, e mesmo não sendo parte de uma série, deveria ter notado que livros do mesmo autor estavam dos dois lados do espaço vazio.
“Ah, esse.”
“Você olhou essa prateleira há pouco e não percebeu nada de diferente, percebeu?”
“Bem… é verdade.”
“Em outras palavras, você não se lembra do que estava ali. Mas seu cérebro acha que está tudo como sempre. Humanos são apenas animais, sabe? E animais tendem a perder o foco quando percebem que nada mudou.”
Gelei. Ela tinha acabado de me usar como prova do próprio argumento, o que tornava tudo ainda mais convincente. Notei um leve sorriso se formando em seu rosto. À primeira vista, Yomiuri parecia uma beleza japonesa clássica, toda elegância e reserva, mas na realidade era meio excêntrica.
“Então é assim que funciona.”
“Isso mesmo. As pessoas se convencem de que nada mudou e, por isso, deixam de prestar atenção. As livrarias tentam destruir essa falsa sensação de complacência, então, de vez em quando, mudam tudo de lugar. Assim, os clientes precisam procurar novamente o que querem, o que os obriga a prestar mais atenção. Diferente de bibliotecas, livrarias são um negócio. Se os clientes só olham a estante de lançamentos, qual é o sentido do resto? Se não mexerem nas outras prateleiras, elas morrem. Consigo pensar em várias livrarias que deixaram suas estantes estagnarem e apodrecerem, e nenhuma delas existe mais.”
[Ayko: Uau. Fiquei impressionado com a explicação também, uau.]
“Obrigada pela explicação tão profunda e filosófica.”
“Sou bem legal, não sou?”
“Você me lembrou um velho centenário de barba branca, tipo os que aparecem em RPGs.”
“Hmph. Isso não parece nada legal.” Yomiuri fez um bico e cruzou os braços, emburrada.
Ao me lembrar daquela conversa, olhei da estante de lançamentos para as prateleiras atrás dela.
Sempre achei que livrarias são como vitrines do conhecimento humano. As novidades refletem o fluxo do tempo, e dá para sentir o que está acontecendo no mundo apenas observando títulos e capas. Era minha forma favorita de matar o tempo.
Passei pela estante de destaques e comecei a circular pela loja, conferindo os lançamentos e fazendo questão de percorrer com os olhos as lombadas alinhadas nas prateleiras. Isso me ajudava a ter uma boa noção do que havia em estoque, o que seria útil para responder às perguntas dos clientes quando eu começasse a trabalhar.
Depois de dar uma volta completa pelas estantes, achei que já podia ir trocar de roupa e vestir o uniforme. No momento em que me virei em direção ao fundo da loja, alguém tocou meu ombro por trás.
“Ei, Yuuta.”
Virei-me e vi Shiori Yomiuri, ainda usando roupas casuais.
“Ei, não me assusta desse jeito”, reclamei. “Quase me deu um ataque do coração.”
“Seu coração é tão frágil assim?”
“Pode não parecer, mas é.”
“Eu acredito se você tirar ele e me mostrar.”
“Só se prometer colocar de volta exatamente do jeito que estava.”
Ela riu. “Uma barganha digna de Shakespeare. Até eu sei que não dá para arrancar o coração de alguém sem derramar um pouco de sangue, então vou ter que aceitar sua palavra.”
“Ótimo.”
Olhei melhor para ela e notei que Yomiuri usava uma blusa branca sem mangas e jeans justos, com o cabelo preto preso em duas marias-chiquinhas frouxas. O pescoço à mostra transmitia uma sensação fresca e refrescante.
“Você chegou bem cedo, não chegou?”, ela comentou.
“Você também.”
Eu tinha achado que Yomiuri trabalharia no mesmo turno que Ayase e eu.
“Ficar em casa é entediante, e a livraria tem um ótimo ar-condicionado. Achei que podia dar uma olhada antes de ir para os fundos.”
“Não tinha nada melhor para fazer?”
“Universitários são assim.”
“Sem seminários ou clubes? Nenhuma pesquisa para terminar?”
“La, la, la! Não estou ouvindo nada do que você está dizeeendo!”
“Por favor, não aja como uma criança do ensino fundamental. Quantos anos você tem, afinal?”
“Você não sabia? Dizem que é melhor agir como alguém mais novo do que parecer mais velho.”
“Agora você está inventando sofismas como um aluno do ginásio.”
“Uma zebra não muda suas listras. No fundo, todos somos as mesmas pessoas que éramos no ensino fundamental.”
“Isso até soa profundo, mas não passa de uma desculpa para ser preguiçosa, não é…?”
“Você vai entender quando entrar na faculdade. Universitários não são tão adultos quanto os alunos do ensino médio imaginam.”
Ela abriu um sorriso. Eu tinha que admitir: era bastante convincente.
“Aliás, onde está sua irmãzinha hoje?”
“Não sei… Ela ainda não chegou? Saiu antes de mim, então deve aparecer a qualquer momento.”
Eu nunca tinha vindo trabalhar junto com Ayase. Ela sugeriu que continuássemos traçando uma linha clara entre vida pública e privada, assim como fazíamos na escola, e eu concordava com ela.
Dito isso, não seria exatamente um problema se descobrissem que éramos irmãos. O gerente da loja já tinha visto nossos currículos, então sabia. Só não sentíamos vontade de sair contando isso aos outros funcionários.
[Ayko: Privado, mas não secreto :)]
Além disso, eu vinha de bicicleta, enquanto Ayase vinha a pé. Para virmos juntos, um de nós teria que mudar a rotina, e nenhum dos dois estava disposto a fazer esse esforço.
“Quem diria que sua irmã também trabalha aqui! Ei, por que você está me olhando desse jeito?”
“Ah, nada… Estávamos falando de algo parecido em casa.”
Era assim tão surpreendente para todo mundo que Ayase trabalhasse na livraria?
Yomiuri me lançou um olhar pensativo.
“Não acho isso tão estranho, mas estudantes do ensino médio normalmente querem aproveitar o tempo livre. Sua irmã parece muito com você, no entanto: só trabalho.”
“Você acha? E você? Foi a algum lugar neste verão?”
“Hm? Eu? Claro que fui! Coloquei um biquíni arrasador e fiquei na praia, onde todos os garotos deram em cima de mim. Não é isso que universitárias fazem?”
Por que ela soava tão orgulhosa disso?
E o que seria exatamente um ‘biquíni arrasador’? Objetivamente falando, Yomiuri era muito bonita. Se ficasse de boca fechada, parecia a personificação da beleza japonesa tradicional, com sua figura elegante e cabelos longos e negros. Por dentro, porém, era mais parecida com um senhor de meia-idade.
“Você foi à praia?”, perguntei.
“Por que essa cara de nojo?”
“Não é nojo… É que, quando penso em praia, só imagino multidões.”
Será que existia alguma praia no continente onde fosse possível nadar sem atravessar um mar de gente? Como introvertido, eu não lidava bem com ambientes assim.
“Tudo bem. Eu não fui à praia para nadar.”
“Então foi só para encontrar caras?”
“Isso mesmo.”
“O que tem de tão bom em caras dando em cima de você?”
“Eles pagam minhas refeições.”
“Mas você tem renda…”
[Ayko: Yomiuri sabe jogar com as cartas que tem em mãos… comida de praia geralmente é caro mesmo.]
Por outro lado, não se ganhava muito trabalhando meio período numa livraria. Livros não eram exatamente lucrativos, o que mantinha os salários baixos. Mesmo os funcionários efetivos sofriam, e era ainda pior para os temporários.
“Ué? Você não gosta de refeições grátis?”, ela perguntou.
“Não gosto de dever nada a ninguém. Quando alguém paga algo para mim, parece que está insinuando que eu não consigo ganhar o suficiente sozinho. Não gosto da sensação.”
Como alguém que via o mundo como uma troca equivalente, receber algo de graça só me deixava desconfortável. A comida sempre parecia mais saborosa quando eu a comprava com meu próprio dinheiro.
“Bom, isso até parece um bom jeito de pensar. Mas no meu caso, eles podem apreciar uma bela universitária de biquíni, então é uma troca justa. Pense em toda aquela pele jovem à mostra.”
“Pele jovem…? Você soa mais como um velho ressecado.”
“Está me chamando de uma carcaça seca?”
“Não estou.” Só estou pensando isso.
“Então você só está pensando.”
“Desculpa.”
“A propósito”, disse Yomiuri, apoiando o dedo indicador nos lábios e sorrindo como um gato que acabou de aprontar.
“Tudo o que eu disse agora era mentira.”
“…Tudo?”
“Sim, tudo.”
“Por que você mentiu?”
“Sem motivo!” respondeu, com ênfase.
Agora que eu sabia que era tudo invenção, ficava óbvio. Seus braços brancos à mostra e o rosto bonito estavam tão pálidos quanto sempre, sem o menor sinal de bronzeado.
“Brincadeiras à parte, o expediente vai começar logo”, disse ela.
“Que tal irmos nos trocar?”
Seguimos para os fundos da loja e nos separamos. Fui para o vestiário masculino e vesti meu uniforme.
Eu estava prestes a entrar no escritório quando Yomiuri e Ayase saíram juntas do vestiário feminino. Ao que parecia, Ayase havia chegado exatamente no horário.
Ela vestia o avental, um traje que eu já tinha visto inúmeras vezes desde o início das férias. Seu cabelo estava diferente de como usava em casa ou na escola: preso num rabo de cavalo simples e funcional, amarrado com um laço. O feixe longo e estreito lembrava a cauda de um cavalo majestoso. Talvez fosse o contraste entre o uniforme básico e o cabelo chamativo, mas, por mais que eu a visse todos os dias, meu olhar era atraído por ela como por um ímã.
Por um instante, nossos olhos pareceram se encontrar. Mas durou menos de um segundo, e ela logo desviou o olhar.
Vamos lá, Yuuta, acostume-se com isso de uma vez, me repreendi, endireitando a postura. Se eu continuasse olhando daquele jeito, só a deixaria desconfortável.
Talvez por ser sábado e as aulas estarem em recesso, a loja estava cheia desde o meio-dia. Por volta das três, porém, houve uma pausa.
Ayase acabara de registrar uma compra, agradecendo com entusiasmo e se despediu do cliente em seguida. Depois disso, ninguém mais se aproximou do caixa. Ayase, Yomiuri e eu ficamos atrás do balcão e soltamos um suspiro coletivo de alívio.
“Ayase, você aprende rápido”, disse Yomiuri.
“Quem diria que você só está aqui há um mês!”
“Sério?”
“Sim. Seu irmão também foi impressionante no começo. Mas acho que você pode até superá-lo!”
Ela parecia falar sinceramente. Eu sentia o mesmo. Ayase era habilidosa no caixa e no atendimento aos clientes. Eu já nem precisava mais ajudá-la, e ela dominara praticamente tudo em menos de uma semana. Eu definitivamente não me lembrava de ter aprendido tão rápido.
Foi então que percebi. Yomiuri se referia a Ayase como “sua irmãzinha” quando falava comigo, mas a chamava de Ayase durante o trabalho. Eram detalhes assim que a faziam parecer madura — não pela idade, mas emocionalmente.
“Obrigada”, respondeu Ayase com um sorriso.
Como eu a via quase sempre em casa ultimamente, estava acostumado à postura fria e reservada que ela mantinha em privado. Fazia um tempo que eu não a via exibir esse tipo de sorriso profissional. Aquilo me lembrou de como ela parecia quando nos conhecemos naquele restaurante com nossos pais.
“É tudo graças à minha ótima professora”, ela acrescentou.
“Até sua resposta é perfeita!”, exclamou Yomiuri.
“Não, eu falo sério.”
“Com licença…”
“Oh, desculpe, senhora!”
Ayase reagiu prontamente à cliente que se aproximava do caixa. Com um sorriso impecável, passou a ajudar a senhora elegante, que parecia procurar um mangá.
“Quer que eu assuma o caixa?”
“Sim, por favor”, respondeu Ayase, indo para o salão de vendas.
Achei que ela voltaria logo, mas, mesmo após dez minutos, ainda não tinha retornado. Fiquei um pouco preocupado, mas os clientes começaram a se acumular, e eu não podia sair dali.
Ayase não era uma grande leitora e também não consumia muito mangá. Talvez tivesse se perdido tentando ajudar a cliente.
Yomiuri tocou meu ombro. Ela deve ter percebido a preocupação no meu rosto.
“Eu cuido do caixa. Vá ajudá-la.”
Agradeci e fui correndo. A caminho da seção de mangás, vi Ayase andando de um lado para o outro com a senhora.
“Ayase. Encontraram o que estavam procurando?”
“Asamura…”
Quando ela se virou, vi suas sobrancelhas franzidas, como se estivesse completamente perdida.
A cliente era bastante idosa e parecia estar ali para comprar um livro para o neto. Provavelmente não entendia muito de mangá e parecia um pouco insegura.
O livro que procuravam era um lançamento daquele mês. Havia sido anunciado recentemente que ganharia uma adaptação em anime, e esperávamos boas vendas. Tínhamos encomendado várias cópias, então não deveria estar esgotado. E, ainda assim, elas não conseguiam encontrá-lo.
“Pelo selo da editora, deveria estar nesta estante…”, disse Ayase.
“Você checou no sistema?”
Perguntei, olhando para um computador no canto da loja. Ele deveria mostrar tudo o que havia em estoque.
“Diz que temos mais de cinco cópias. Mas…”
“Não estava no expositor da frente, estava?”
“Não. Já verificamos.”
Depois de entender a situação, comecei a pensar. Não fazia sentido não encontrarem um lançamento recente. Ele estava vendendo bem, mas os registros indicavam que ainda havia exemplares disponíveis.
Mesmo assim, como Ayase dissera, não estava no expositor cheio de cartazes coloridos.
Examinei as lombadas na estante, repleta de livros da mesma editora. Ao conferir os títulos organizados por autor, encontrei outros volumes da série, mas não o mais recente. Ao que parecia, os que estavam ali já tinham sido vendidos.
“Não está aqui…”, murmurei.
“Não. Mas deveria estar.”
“Nesse caso… Hmm. Talvez por aqui… É, isso parece suspeito.”
Levantei o livro do topo de uma pilha de lançamentos. Debaixo dele, havia outro completamente diferente — justamente o que procurávamos.
“Oh!”
“Aqui está. É este que a senhora procura, certo?”
Quando os clientes pegavam livros, muitas vezes não os devolviam ao lugar correto. Era exatamente o que havia acontecido ali. Se Ayase ou eu tivéssemos organizado a pilha, ou se alguém tivesse largado o livro de qualquer jeito, teríamos notado na hora. Mas como a pilha estava bem arrumada, era difícil perceber. Havia cinco exemplares do mangá sob o livro errado, exatamente como indicava o sistema.
“Uau…!”, exclamou Ayase. “Como você soube que estava aí?”
“Só um palpite. Mas deixa isso pra lá — sua cliente está esperando.”
“Ah, certo. Hum… senhora, é este o livro que estava procurando?” Ayase se virou para a cliente e mostrou o mangá.
A mulher pegou o livro e sorriu, satisfeita.
“Sim, sim. Acho que é este.”
“Vai levar só esse?”
Ela assentiu, e nós a acompanhamos até o caixa. Depois de pagar, guardou o livro na bolsa como se fosse um tesouro, fez uma reverência profunda e saiu.
Ayase e eu suspiramos aliviados.
“Fico feliz que tenha encontrado o livro dela”, disse ela. “Mas como você conseguiu…? Foi como se tivesse ESP.”
“Não foi nada demais.”
O cartaz promocional dizia “À VENDA EM 2 DE AGOSTO!”, e eu sabia que a editora do livro que estava por cima seguia um cronograma diferente. Por isso, aquela pilha me parecia estranha.
“Eu não tinha reparado…”
Provavelmente Ayase não prestava tanta atenção às datas de lançamento de mangás quanto eu, um leitor compulsivo que aguardava ansiosamente por novidades.
“É difícil quando você não sabe o que observar. Eu só tenho um pouco mais de experiência.”
Lembrei-me do que Yomiuri dissera tempos atrás.
“Os animais tendem a perder o foco quando percebem que nada mudou.”
Ideias preconcebidas tornam invisível aquilo que está bem diante dos nossos olhos.
“Mesmo assim, fiquei impressionada”, disse Ayase.
“A Yomiuri teria encontrado ainda mais rápido.”
A própria Yomiuri já tinha voltado ao salão de vendas assim que retornamos ao caixa.
“Oh…”, murmurou Ayase, preparando-se para registrar mais compras.
O movimento começava a aumentar novamente, e uma fila de clientes se formava.
Eu conseguia ver a lua brilhando pelos vãos entre os prédios.
Faltavam cerca de dez dias para o fim de agosto. O vento tocava minha pele morno demais, e o calor que subia do asfalto da calçada, ainda preso desde a tarde, parecia me sufocar.
Eram quase dez e quinze da noite. Estudantes do ensino médio só podiam trabalhar até as dez, e precisávamos estar completamente fora do salão até esse horário. Na prática, isso significava que o expediente terminava às nove e cinquenta.
Ainda assim, só agora eu tinha conseguido juntar minhas coisas e sair da loja. Ayase tinha terminado no mesmo horário, e caminhávamos lado a lado.
Nós não gostávamos de combinar horários e íamos trabalhar separadamente, cada um no momento que achasse melhor. Então por que sempre estávamos voltando para casa juntos?
Havia um motivo bem claro: Akiko insistiu nisso. Essa foi a única condição que ela impôs para permitir que a filha trabalhasse até tão tarde. Ela não queria que Ayase voltasse sozinha para casa à noite, atravessando Shibuya.
No começo, Ayase reclamou. Disse que era ridículo Akiko achar que ela precisava do irmão como guarda-costas só por ser mulher. No passado, ela já tinha andado sozinha pela cidade tarde da noite sempre que precisava visitar a mãe no trabalho, então não entendia tanta preocupação.
Isso me fez lembrar dos rumores sobre Ayase sair à noite em troca de dinheiro. Alguém devia tê-la visto tarde da noite quando ela ia visitar Akiko. Finalmente tudo fazia sentido.
Provavelmente havia outro motivo para Ayase não querer voltar comigo: eu chegaria muito mais rápido se estivesse sozinho, pedalando minha bicicleta. Ela não queria me obrigar a andar no ritmo dela. Eu teria pensado o mesmo no lugar dela. Afinal, quando se tratava de dar e receber, essa sempre foi a política dela.
No fim, porém, Ayase aceitou a condição de Akiko, argumentando que ainda dependia dela e que seria egoísta fazê-la se preocupar sem necessidade.
Confesso que fiquei um pouco aliviado. Por mais que Ayase insistisse que não havia problema algum, eu não gostava da ideia de vê-la andando sozinha pelo centro de Shibuya à noite. Se isso acontecesse todos os dias, e não apenas ocasionalmente quando ia visitar a mãe, as chances de algo dar errado certamente aumentariam. Quando comentei isso, ela concordou de forma casual.
E foi assim que Ayase e eu passamos a voltar para casa juntos.
Enxuguei o suor que escorria pelo queixo enquanto abríamos caminho entre a multidão. Não parecia ter esfriado nem um pouco desde a tarde.
"Esse calor de verão ainda não dá trégua, né?", comentei.
"Já é outono...", disse Ayase ao mesmo tempo.
"Hã?"
"O quê?"
Nós dois paramos no meio da calçada. Ayase me encarou, surpresa, e eu retribuí o olhar, sem entender. Depois de me observar por um instante, ela assentiu.
"Você estava falando do calor?", perguntou.
"É. E você?"
"Eu estava falando daquilo"
Ayase me respondeu, apontando com o queixo para uma boutique ao lado de uma passarela de pedestres. Ela parecia indicar a vitrine.
Do outro lado do vidro, havia uma fileira de manequins.
"Isso é outono?"
"É. Quer dizer, é sim, não é?"
Ela ficou ainda mais chocada quando me viu inclinar a cabeça, confuso.
"O quê?! Você realmente não percebe?"
"Desculpa. Eu não consigo ver diferença entre as roupas que você está usando e as dos manequins."
Pensando bem, dava para notar que aquelas roupas não eram exatamente de pleno verão. As mangas pareciam um pouco longas demais… talvez. Mas Ayase também não usava mangas curtas. Ela vestia uma camisa xadrez por cima de uma regata de tricô.
"Não é disso que estou falando. Dá para perceber na hora que as cores e os acessórios são as tendências mais recentes do outono. Na verdade, já faz um bom tempo que essas lojas não vestem os manequins com roupas de verão. Mais importante ainda: ontem mesmo esses manequins estavam usando roupas diferentes."
"Estavam?"
"Você só pode estar brincando…"
"Não estou dizendo que não acredito em você. Tenho certeza de que você sabe do que está falando. Só queria que parasse de me olhar como se eu fosse o Papai Noel ou um zumbi."
"Você é muito mais estranho do que isso. Se o Papai Noel ou um zumbi aparecessem agora, eu nem me surpreenderia."
"Ei, isso machuca meus sentimentos."
Ela me tratava como se eu fosse um animal em extinção da Lista Vermelha da IUCN ou alguma criatura lendária. Será que eu era estranho por achar que a esquisita ali era ela? Quantas pessoas conseguiriam lembrar o que os manequins estavam vestindo no dia anterior?
[Ayko: A Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), de 1964, é o portfólio mais abrangente do mundo sobre o estado de conservação global de animais, fungos e plantas. Funcionando como um indicador crítico da saúde da biodiversidade mundial, onde cada espécie é categorizada entre 9 siglas diferentes!]
"Você realmente não tem nenhum interesse por moda?", ela perguntou.
"Você já me viu lendo revista de moda?"
Alguém que ama livros como eu prefere gastar dinheiro com leitura, não com roupas. E, de qualquer forma, para que me arrumar mais se sou tão introvertido? Quem eu estaria tentando impressionar? Quando disse isso a Ayase, ela também assentiu.
"Entendo… Então, quando você não se interessa, simplesmente não percebe nada."
"Aparentemente."
"Bom, acho que não tem problema, já que você não parece querer trabalhar em uma loja de roupas nem nada do tipo…"
"…Hã? Do que você está falando?"
"Nada...", respondeu de forma seca, acelerando o passo.
Sem entender o que se passava na cabeça dela, empurrei minha bicicleta e apressei o passo para alcançá-la.
Por algum motivo, depois disso, ela parecia estar de bom humor.
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