Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 2

Capítulo 6: 21 de Julho (Terça-feira)

21 DE JULHO (TERÇA-FEIRA)

Algo sério devia ter acontecido com a gravidade da Terra naquela terça-feira. A passagem surpreendentemente lenta do tempo era a prova disso. Eu estava tão inquieto que cheguei a acreditar que aquilo fosse um daqueles eventos climáticos extremos causados pelos avanços da tecnologia humana. Estava praticamente pronto para me tornar um ativista ambiental.

As aulas haviam terminado. Parecia que tinham durado uma eternidade. Finalmente, era hora da prova de recuperação da Ayase.

Era o último dia de aula antes da cerimônia de encerramento da escola, e as palestras desanimadas dos professores entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Eu não lembrava do que Maru tinha falado durante os intervalos, nem sequer do gosto do pão que comi no almoço. Fiquei sozinho na sala depois que todo mundo saiu, decidido a ouvir o resultado assim que Ayase terminasse. Foi então que, de repente, voltei a mim.

…Espera aí. Isso não é um pouco exagerado? Parece meio assustador.

Era verdade que eu vinha ajudando a Ayase de várias formas nos últimos dias, na preparação para a prova. Mas isso não me dava o direito de aparecer lá exigindo saber como ela tinha se saído.

Eu a veria no apartamento de qualquer forma. Não havia necessidade de me apressar.

   “Além disso, tenho que ir trabalhar. Melhor voltar pra casa.”

Sozinho na sala de aula, murmurei para mim mesmo, tentando esfriar a cabeça. Não tinha o hábito de falar sozinho, mas dizer as coisas em voz alta me ajudava a criar coragem para ir embora.

Sentindo-me um pouco envergonhado, arrumei minhas coisas e saí apressado da escola.

No fim das contas, não consegui me concentrar no trabalho e fiz um monte de besteiras na livraria. Apertava os botões errados do caixa o tempo todo. Parecia meu primeiro dia no emprego. Já fazia muito tempo que eu não precisava pedir desculpas a um cliente por algo que eu realmente tinha feito errado.

   “Yuuta? Você está bem?”

   “…Acho que sim. Enfim, estou indo. Boa noite.”

Yomiuri se aproximou com um ar preocupado, mas eu não consegui me explicar.

Sabendo que não podia me distrair andando de bicicleta, me recompus e consegui chegar em casa sem sofrer nenhum acidente. Notei que estava pedalando com mais força e acelerando mais do que o normal. Será que eu queria tanto assim saber o resultado da Ayase? Por quê? Eu nunca ficava tão interessado nem nos meus próprios resultados.

Enquanto pensava nisso, cheguei ao nosso apartamento, entrei no elevador e subi até o nosso andar.

Clac!

Quando tentei abrir a porta, ouvi um barulho alto e senti como se tivesse deslocado o ombro. A porta deveria ter aberto, mas não abriu. Estava presa.

Parecia estar trancada.

Estranho.

Quando Ayase estava em casa, ela costumava calcular a hora em que eu chegaria e deixava a porta destrancada para mim. Eu já tinha pedido para ela não fazer isso, pois não era seguro. Mas ela sempre me lembrava de que a porta do apartamento trancava sozinha e que o prédio havia sido projetado para impedir a entrada de estranhos. Além disso, segundo ela, seria mais problemático se eu perdesse ou esquecesse a chave e ela tivesse que interromper o que estivesse fazendo para atender a campainha. No fim, acabei aceitando o argumento dela.

Ela tinha explicado tudo com lógica, mas eu tinha a impressão de que fazia aquilo por consideração comigo, para que eu tivesse uma preocupação a menos ao voltar do trabalho exausto… Talvez fosse só imaginação minha.

De qualquer forma, a porta estava trancada. Peguei minha chave, encaixei na fechadura e ela abriu facilmente. Não parecia haver nenhum problema com o mecanismo.

   “Cheguei… Ayase?”

Chamei por ela enquanto entrava. O apartamento estava escuro.

Acendi a luz, caminhei pelo corredor e entrei na sala. Lá também estava completamente escuro, sem sinal de ninguém. Fui até a cozinha, mas não havia nenhum indício de que Ayase tivesse começado a preparar o jantar.

Pensando que talvez estivesse dormindo no quarto, me virei, mas a porta estava fechada e eu não conseguia ver nada lá dentro.

Voltei para a entrada e conferi os sapatos, mas os que ela costumava usar não estavam ali. Também não vi os do meu pai nem os da Akiko. Todos estavam fora, e apenas meus tênis estavam ali.

Isso significava que eu estava sozinho.

Olhei o celular. Eram nove e meia. Ayase nunca ficava fora até tão tarde sem avisar.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Será que ela tinha ficado chocada e decepcionada com o resultado da prova e feito algo terrível…? Talvez por eu ter assistido recentemente a um filme romântico com um final trágico, comecei a imaginar o pior.

Queria acreditar que ela não estava em perigo. Mas Ayase era muito dura consigo mesma. Eu conseguia vê-la se encurralando.

O motivo de eu ter passado o dia inteiro inquieto e desesperado para saber o resultado dela — a ponto de me envolver de forma incomum nos assuntos dela — era um pressentimento.

A dependência excessiva e quase patológica que ela tinha da lógica, e o desprezo que sentia por esse traço em si mesma. Seu desejo teimoso de ser mais flexível. Esse tipo de autoanulação não podia fazer bem à saúde mental dela.

Aceitar ajuda minha e da Narasaka para estudar provavelmente já tinha ido longe demais para os padrões dela. E se, depois de tudo isso, ela ainda tivesse falhado na recuperação?

   “……Tsc.”

Quando percebi, meus dedos já estavam digitando uma mensagem no celular.

Onde você está?


[Ayko: Yuuta preocupado com a Ayase, cara, que bonitinho!]

Eu estava sendo grudado. Essa era uma das várias frases que eu tinha prometido nunca usar com a Ayase, para manter nosso relacionamento familiar tranquilo. Mas agora eu não conseguia evitar. Não queria me arrepender depois. Se isso significasse passar vergonha, que fosse.

Cinco segundos… Dez… Trinta…

Um minuto se passou, e nada apareceu na tela.

Não adiantava. Eu não conseguia esperar. Não dava para ficar ali parado sem fazer nada.

Entrei em ação. Calcei os sapatos, puxei a porta com tanta força que até me surpreendi, e saí para o corredor.

O elevador estava no térreo. Apertei o botão e esperei impaciente que ele subisse.

Tap, tap. Meus dedos do pé batiam no chão a cada dois segundos, e meu pé direito estava tão inquieto que chegava a ser cômico — mesmo eu me lembrando de que bater o pé não faria o elevador chegar mais rápido.

Ainda assim, o barulho continuou — tap, tap, tap — e ficou cada vez mais rápido.

Os adultos sempre reclamavam que os jovens de hoje eram influenciados demais pela ficção. Era verdade — eu lia demais, via filmes demais, e agora tinha colocado na cabeça alguma ideia estranha de que precisava ser um herói. Mesmo sabendo que o evento trágico que eu imaginava raramente acontecia na vida real.

Ainda assim, o fato era que cerca de duzentos estudantes japoneses do ensino médio escolhiam morrer todos os anos. Muitos por motivos que ninguém mais compreendia. Duzentos em um universo de três milhões de estudantes. Eram uma minoria, e era pouco provável que você encontrasse um deles. Mas Ayase parecia fazer parte da maioria? De jeito nenhum.

Talvez eu só pensasse assim por não ter muita experiência lidando com estranhos. Mas a personalidade e o comportamento dela me pareciam um pouco diferentes.

Diferentes o suficiente para eu achar que era possível que ela estivesse naquele grupo de duzentos.

Ping. Alheio à minha frustração, um pequeno som ecoou — o mesmo de sempre.

O elevador tinha chegado, e quase bati em alguém que estava saindo quando entrei de uma vez.

   “Ei!”

   “Oh…!”

Nós dois tentamos nos desviar um do outro, assumindo poses estranhas enquanto nos afastávamos.

A outra pessoa recuou para dentro do elevador, enquanto eu entrei de lado. O resultado foi que ficamos os dois dentro daquele espaço fechado.

Meu corpo congelou, e meus pensamentos também. Nos encaramos, e quando tive certeza, falei:

   “Ah… Ayase?”

   “Asamura… Aonde você vai a essa hora?” Os olhos da estudante do ensino médio estavam arregalados. Ela estava no fundo do elevador, de uniforme, segurando a mochila escolar com uma mão e uma sacola de compras com a outra.

   “Ah, bom… é que… eu…”

Eu não sabia como responder. Não podia dizer que estava preocupado com ela e tinha saído correndo do apartamento para salvá-la de algum destino trágico.

Ouvi o som bobo da porta do elevador se fechando atrás de mim.

Ah, é mesmo. Ayase era calma e controlada, nada parecida com uma irmãzinha fictícia. Os acontecimentos da vida real eram triviais e entediantes, e por mais que o protagonista saísse correndo, ele nunca acabaria em um lugar romântico com uma vista maravilhosa para encenar a cena final perfeita.

A realidade não acontecia no último andar de um prédio com vista panorâmica da cidade, nem no topo de uma colina à noite. Acontecia dentro de um elevador apertado de um prédio qualquer.

   “Está tarde”, eu disse. “Você não estava em casa e eu não conseguia falar com você, então pensei que talvez tivesse ido mal na prova e estivesse chorando em algum lugar…”

Tentei suavizar minhas palavras. Agora que eu sabia que ela estava bem, admitir que tinha imaginado sua vida em perigo ultrapassaria meu limite de vergonha.

   “Ha-ha-ha. Acho que te deixei preocupado. Desculpa por isso.”
Ela relaxou um pouco e disse:
  “Sobre o resultado… bom, para ser sincera, fiquei um pouco decepcionada.”

   “O quê?”

Então o resultado não tinha sido bom afinal?

Enquanto eu me preocupava, ela colocou a sacola no chão e tirou uma folha de papel da mochila.

A nota era 94.

Eu achava que a nota mínima para passar era 80.

   “Você passou! Não me assuste assim.”

   “Você tirou 96, não foi? Eu estava esperando superar a sua nota.”

   “Ah, era isso que você quis dizer?”

Ela fez um bico descontente enquanto eu soltava um suspiro de alívio.

Eu estava certo; ela realmente era dura demais consigo mesma. Estava competindo comigo na minha melhor matéria, logo depois de ter reprovado nela.

  “Desculpa por te preocupar. Hoje fui a um supermercado diferente”, ela disse, pegando a sacola novamente e abraçando-a. Ela tinha o logotipo de uma loja de departamentos em Shibuya.

   “Você foi a uma loja de departamentos?”

   “Sim. Eles têm produtos de alta qualidade por preços mais baixos do que no supermercado de sempre. Não se preocupe, só comprei coisas em promoção, então não ultrapassei meu orçamento normal.”

   “Você é mesmo confiável.”

   “Estou agindo como uma dona de casa temporária, então é o mínimo.”

   “Dona de casa temporária? É um jeito estranho de dizer isso.”

   “Acho que resume bem a situação. Não pretendo fazer tarefas domésticas para sempre, mas é basicamente o que estou fazendo agora.”

   “É verdade. Faz sentido.”

Eu não esperava que Ayase começasse a criar rótulos. Foi um pouco chocante vê-la agir de repente como a Yomiuri. Eu gostaria, no mínimo, de um aviso prévio.

Embora, pensando bem, minha experiência com a Yomiuri já tivesse provado que avisos não ajudavam muito.

   “Mas isso não explica por que você foi a uma loja de departamentos”, eu disse.
  “Queria comemorar por ter passado na recuperação?”

   “Cinquenta por cento. Você está meio certo e meio errado.”

   “Qual é a resposta modelo?”

   “Eu queria demonstrar minha gratidão… Pode soar condescendente, mas não é essa a intenção”, ela disse em tom monótono, desviando o olhar.

   “Eu não fiz nada que mereça um presente de agradecimento”, respondi.
  “Na verdade, ainda te devo, já que não consegui te dar nenhuma das coisas que você queria.”

   “Você fez muito para me ajudar na prova. Me falou sobre música lofi, me deu dicas para estudar Japonês Moderno e ainda fez o jantar ontem à noite.”

   “Isso não chega nem perto do esforço que você fez, cozinhando a maioria dos nossos jantares por mais de um mês.”

   “Eu já disse. Gosto de dar mais nas trocas e devolver o dobro do que recebo. Um banqueiro famoso disse isso uma vez.”

   “Acho que essa frase é sobre vingança, na verdade.”

   “Essencialmente é a mesma coisa. Só depende se a retribuição é positiva ou negativa. Eu quero te servir a refeição mais luxuosa que eu conseguir.”

   “Ayase…”

Quão dedicada alguém consegue ser?

Do meu ponto de vista, Ayase já tinha me dado demais, e eu precisava descobrir como retribuir. Mas, como sempre, Ayase conseguia dar ainda mais antes mesmo de eu começar.

Como eu poderia fazer essa minha meia-irmã parar de dar e começar a aceitar?

Era um problema até que agradável de se ter, e todos os irmãos mais velhos do mundo que lidavam com irmãs egoístas e mimadas provavelmente trocariam de lugar comigo num instante.

Ainda assim, o problema não saía da minha cabeça. Foi então que Ayase abaixou a voz e falou:

   “Ou… eu preciso ser mais velha que você para que confie em mim?”

   “O quê?”

Eu não esperava por aquilo e respondi sem pensar. Só consegui imaginar uma pessoa a quem ela pudesse estar se referindo — Shiori Yomiuri.

…Hã?

O que estava acontecendo? Senti um desconforto nebuloso crescer dentro de mim. A expressão de Ayase me causou uma sensação estranha.

   “Você está falando da Yomiuri?”, perguntei.
  “O que ela tem a ver com isso?”

   “Ela é alguém em quem você confia. Pelo que sei, é a única pessoa em quem você confia desse jeito.”

   “Bom, nós trabalhamos juntos em muitos turnos.”

Minha garganta ficava mais seca a cada palavra. Eu deveria estar dizendo a verdade, mas parecia que eu estava dando desculpas, e a culpa só aumentava.

Balancei a cabeça. Que diabos eu estava pensando? Isso era só uma reação à minha imaginação exagerada de mais cedo? Senti meu coração falhar uma batida.

Talvez fosse eu quem acabaria morrendo como um personagem de filme. Droga, lá ia minha imaginação de novo. Eu não tinha jeito mesmo.

   “Você pode contar comigo em casa do mesmo jeito que conta com ela no trabalho. Pode ser assim? Considere isso o desejo egoísta da sua irmã mais nova.”

Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, como uma irmãzinha de verdade. Fiquei surpreso ao vê-la agir daquele jeito, mas não consegui deixar de rir por dentro diante de um pedido “egoísta” tão altruísta. Ainda assim, como irmão mais velho, achei que precisava ceder se ela sentia aquilo com tanta força.

   “Se eu deixar você me pagar uma refeição, isso conclui sua missão atual?”

Ela assentiu, satisfeita.

   “Sim. Isso me deixaria feliz.”

Parecia estranho que ela ficasse feliz com aquilo, quando era ela quem estava me fazendo um favor.
Mas aquilo era a realidade. A ficção tendia a apresentar ações lógicas e reações equivalentes, mas a realidade não funcionava assim. Era como os objetos naturais, que, ao contrário dos feitos pelo homem, muitas vezes eram tortos. Essa irregularidade era o que tornava a realidade real.

   “…Quanto tempo será que vamos ficar parados aqui?”, eu disse.

   “É uma sorte que ninguém mais tenha apertado o botão do elevador.”

O elevador havia permanecido no nosso andar enquanto ficávamos ali dentro. Se demorássemos muito mais, alguém acabaria achando que estávamos pregando uma peça.

Ficar em pé naquela caixinha sem motivo algum começou a parecer ridículo, então trocamos sorrisos e apertamos o botão para sair. O fato de termos escapado tão facilmente foi mais um lembrete de que estávamos no mundo real.

Assim que voltamos ao apartamento, Ayase começou a preparar um jantar tardio, e então notei algo.

   “Ei, posso te perguntar só mais uma coisa?”
  “O quê?”

   “Eu te mandei uma mensagem. Por que você não respondeu?”

   “Ah, isso.”

Ela riu como se não fosse nada demais e me entregou o celular. Ele estava desligado, a tela completamente escura. Tentei ligá-lo, mas não deu nenhum sinal de vida.

   “É aquela lofi hip-hop de que você me falou. Fiquei viciada em estudar ouvindo isso, mas tocar música no celular consome muita bateria. Ultimamente ele tem descarregado sozinho.”

[Ayko: Para os que desconhecem, Lo-Fi Hip Hop é um estilo de música, geralmente sem letras, cujos sons são melódicos e calmos, alguns até são acompanhados por som de chuva! Escuto bastante para traduzir, ler e estudar também!]

   “Ah… entendi.”

A vida real era sempre entediante.

Se eu tivesse realmente estado calmo naquele momento, teria percebido a grande mentira presente naquela conversa e o desconforto que eu deveria ter apontado. Isso nunca me ocorreu porque eu estava distraído demais com a preocupação e, depois, com o alívio de saber que minha meia-irmã estava bem. A montanha-russa emocional tinha anestesiado meus pensamentos.

A percepção me atingiu quando eu estava indo dormir naquela noite. A pergunta ficou presa como um nó na garganta, mas já era tarde demais para fazê-la, e a verdade desapareceu para sempre na escuridão.

A única forma de descobrir a resposta teria sido ler o diário da Ayase.

Eu sabia que a loja de departamentos em Shibuya ficava mais longe do que o supermercado do bairro. Mas, se isso fosse realmente tudo o que ela tinha feito, não havia como ela ter voltado às nove e meia da noite.

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora