Volume 2
Capítulo 5: 20 de Julho (Segunda-feira)
20 DE JULHO (SEGUNDA-FEIRA)
Era a manhã do início da semana seguinte.
A minha sala de aula estava completamente sem vida; isso estava óbvio desde o instante em que entrei. Era quase como um filme em preto e branco, como se as cores tivessem sido drenadas. Eu conseguia ouvir as conversas dos meus colegas, mas suas vozes estavam muito mais baixas do que o normal e o clima, bem mais preguiçoso.
Eu sabia o motivo — as nossas férias de verão começariam bem no meio daquela semana. A atmosfera estava em um nível totalmente diferente da semana anterior. Nossas férias estavam logo ali, na esquina. Pedir para nós, estudantes, levarmos a escola a sério agora era como pedir para um time dar o máximo de si em uma partida que não vale nada.
Eu estava curiosamente observando aquela cena diante de mim, onde até o fluxo do tempo parecia estar desacelerado, quando um garoto com cara de sono entrou na sala.
“Bom dia, Maru. Deve ser difícil ter treino tão cedo todo dia”, eu disse.
“E aí, Asamura…”
Ele parecia e soava exausto.
Poucos times esportivos da nossa escola tinham destaque em nível nacional, mas tínhamos muitos clubes rigorosos que ficavam mais ou menos no meio do ranking. O time de beisebol, do qual o Maru pertencia, era um desses times; eles treinavam duas vezes por dia — uma de manhã e outra depois da escola — e eu tinha ouvido dizer que era bem puxado.
Mas, mesmo sob essas condições, ele normalmente não demonstrava nenhum cansaço ou estresse, graças ao seu talento natural. Então por que ele estava tão exausto?
“Você está com uma cara péssima”, eu disse. “Aconteceu alguma coisa que sugou toda a sua energia?”
“Perdemos na segunda rodada do torneio do distrito.”
“Então você está deprimido.”
“Não, não é isso. Isso significa que nossos treinos de verão vão ficar muito mais intensos.”
“Não deveria ser o contrário? Normalmente eu acharia que vocês treinariam mais pesado se ainda estivessem no torneio.”
“Não importa o quanto a gente treine, existe um limite de quanto dá para melhorar em um curto período de tempo, então é melhor descansar e se recuperar. E o nosso técnico não quer correr o risco de alguém se machucar, então a gente não precisa treinar tão pesado enquanto ainda está competindo no torneio.”
“Faz sentido.”
“É… Ugh.”
Maru se sentou de forma desanimada, olhou ao redor da sala e franziu a testa.
Ele deu uma olhada nos outros alunos falando preguiçosamente sobre seus planos para as férias de verão e murmurou:
“Eu invejo esses caras que realmente podem curtir as férias.”
“Isso não parece coisa sua.”
“Claro que parece. Tempo livre é o melhor recurso que alguém poderia ter. Embora, claro, fui eu mesmo que decidi gastar meu tempo jogando beisebol, então não estou reclamando.”
“Então por que você está com inveja deles?”
“Pelo jeito, não me parece que terei tempo de ir ao cinema. As distribuidoras miram em famílias e casais durante as férias mais longas, e sempre lançam um monte de filmes grandes no verão, mas eu não vou poder ir se estiver sempre treinando.”
Maru suspirou fundo. Eu ri sozinho — isso era bem a cara dele. Eu não achava que fosse uma boa ideia ele maratonar filmes durante um torneio só porque os treinos não estavam tão intensos, mas estávamos falando do Maru. Claro que ele tinha preocupações diferentes de um comum estudante do ensino médio que joga beisebol.
“Tem um monte de filmes que eu quero ver”, ele disse.
“Tipo Fenda na Noite Azul?”
[Ayko: No texto original, o nome do filme é Gap in The Blue Night, uma refêrencia a Your Name, talvez?]
“O quê? Isso é só mais um drama choroso típico. Talvez sirva para garotas que querem chorar ou casais que querem uma desculpa para se agarrar, mas não chega nem perto do suficiente para um cinéfilo como eu.”
“Eu achei que foi bem bom. Não acho que alguém que se autoproclama cinéfilo deveria criticar um filme que nem sequer assistiu.”
“Oh? Você viu?”
Droga. Talvez eu não devesse ter mencionado isso. Escolhi minhas próximas palavras com cuidado, torcendo para que ele não ficasse curioso demais sobre por que eu fui, em que circunstâncias e com quem.
“Fiquei interessado porque o romance em que ele é baseado estava vendendo muito bem na livraria onde eu trabalho, então fui ver uma sessão tarde, sozinho.”
“Asamura… você foi num encontro, não foi?”
“Hã?! Não sei do que você está falando.”
“Então por que você disse que foi sozinho se eu nem perguntei? Eu sei que você faz as coisas sozinho. Não tinha motivo nenhum para me dizer isso.”
“Bancando o detetive agora? Você está pensando demais.”
Falei com calma, mas estava suando frio.
Maru me observava atentamente, com olhos afiados como os de um falcão. Era desconfortável ter alguém que parecia ler seus pensamentos, e eu me perguntei se não seria mais fácil simplesmente contar que eu tinha ido ao cinema com a Yomiuri.
Talvez os criminosos se sentem assim quando são interrogados por detetives. Não que eu pretendesse descobrir.
“Narasaka, Ayase… Asamura, você certamente tem andado bem popular ultimamente, hein.”
“É tudo um mal-entendido. Não está acontecendo nada.”
“Tem certeza? Muita gente disse que te viu conversando com a Narasaka. Acho que a última vez foi em frente à biblioteca.”
“O quê? Agora estou sendo vigiado? Não gosto nem um pouco de quanto você parece saber sobre a minha vida.”
“Os olhos das pessoas estão por toda parte. Coisas erradas sempre acabam vindo à tona.”
As paredes têm ouvidos. As pessoas sempre comentam. Eu estava começando a entender o verdadeiro significado desses ditados.
“Não acho que conversar com a Narasaka possa ser considerado algo errado”, eu disse.
“Isso é um crime grave, se você perguntar a um cara que está gostando dela… Não me diga que você foi ver aquele filme com a Narasaka?”
“Eu não fui com ela… nem com ninguém.”
Quase terminei a frase cedo demais, de um jeito bem suspeito, mas me corrigi rapidamente.
Ouvi o Maru estalar a língua. Ele era bom em me fazer falar. Ele pode até ser meu melhor amigo, mas eu não podia baixar a guarda perto dele.
“Bom, tanto faz”, ele disse. “Mas me avisa se você despertar para a alegria de namorar, tá? E não precisa ter vergonha. Como um especialista em relações interpessoais, eu vou garantir que tudo corra bem.”
Ele mostrou seus dentes brilhantes, brancos e saudáveis num sorriso e me deu um joinha. A desenvoltura do Maru era um pouco assustadora, mas ele também era o amigo mais confiável que alguém poderia ter.
“Eu aviso. Quando chegar a hora.”
“Okay.”
Com essa resposta de uma palavra, ele deixou o assunto de lado. Graças aos seus poderes de observação afiados, Maru tinha percebido que eu tinha ido ao cinema com alguém. Mas, em vez de satisfazer a própria curiosidade, ele respeitou meus sentimentos e recuou. Considerei isso um sinal de sua maturidade. Ele era realmente um bom amigo.
…Não que eu fosse dizer isso a ele. Seria constrangedor demais.
Assim que o dia de aula acabou e vi o Maru ir embora para o treino de beisebol, continuei sentado na minha carteira, observando meus colegas saírem um por um e rolando distraidamente as notícias e as redes sociais no celular.
Dez minutos depois, todos tinham ido embora, exceto dois alunos que conversavam animadamente sobre uma ou outra coisa. Uma brisa suave de verão entrou pela janela entreaberta, enquanto o canto de uma cigarra soava em algum lugar distante, me dando uma nostalgia sem motivo específico. Talvez todo japonês fosse programado para se sentir nostálgico ao ver uma cena de verão como essa. Eu não era exceção — nem mesmo no meio da cidade.
Depois de ficar refletindo sobre essas observações inúteis por um tempo, soltei um suspiro e decidi me levantar.
Eu não estava perdendo tempo à toa. Desde que Ayase e eu nos tornamos meio-irmãos, tínhamos feito a regra de voltar para casa em horários diferentes. Como íamos para o mesmo destino e pelo mesmo caminho, era possível que nos encontrássemos por acaso. Eu queria evitar deixar a Ayase desconfortável… mas naquele dia, a minha consideração unilateral saiu pela culatra.
“Ei, ali está o Asamura!”
“Hã?”
Eu já tinha calçado meus sapatos e estava prestes a sair do prédio da escola quando ouvi uma voz atrás de mim. Me virei e vi uma garota de cabelo castanho-claro batendo de leve no meu ombro.
“E aí? Que coincidência. Vamos para casa no mesmo horário!”
“Narasaka.”
Era a Maaya Narasaka. Eu também conseguia ver outra estudante atrás dela — Ayase.
Espera, por que elas estão juntas depois da aula? Enquanto eu me perguntava isso, a Narasaka fez uma sugestão:
“Vamos para casa juntos!”
“Hã… por quê?”, perguntei.
“Como assim, ‘por quê’? Porque… por que não?”
“Não faço ideia do que você está querendo dizer. Você vai para o mesmo lado?”
“Vou sim. Vou para a casa da Saki.”
“O quê, agora?”
Lancei para a Ayase um olhar questionador, e ela juntou as mãos em pedido de desculpa.
“A Maaya vai me ajudar a estudar”, ela disse.
“Ah, entendi. Mas, Narasaka, você não acha melhor irmos separados…?”
“De jeito nenhum. Não tem motivo para não irmos juntos.”
Ela recusou isso como se não fosse nada. Ela era a garota mais animada da escola, com centenas de amigos. Parecia que nem hesitava quando o assunto era falar com garotos. Eu quase não tinha contato com o tipo dela antes, mas não era tão raro assim meninos e meninas andarem juntos. Talvez eu e a Ayase estivéssemos só sendo paranoicos quanto às pessoas entenderem errado a nossa situação.
“A gente vai para o mesmo lugar, então deveríamos ir juntos. Não é, Saki?”, disse ela.
“Bom, eu acho que…”, Ayase disse, olhando para mim.
…Parecia que não tínhamos muita escolha. Assenti em resignação. Ayase suspirou como se tivesse desistido.
“Talvez eu não devesse ter pedido ajuda da Maaya”, ela murmurou.
Saímos da escola juntos. Andar bem ao lado de duas garotas estava me deixando com a garganta seca. Eu não conseguia parar de me preocupar com as pessoas olhando estranho para nós.
Mas a Narasaka estava certa. Passamos por outros alunos enquanto seguíamos em direção ao portão da escola, mas ninguém nos encarou ou sequer olhou para nós. Aparentemente, a combinação de um garoto e duas garotas não era nada fora do comum.
Alguém parecia ter contado ao Maru que tinha me visto com a Narasaka, mas talvez nós não chamássemos tanta atenção andando em três pessoas.
Assim que saímos do terreno da escola, seguimos pela estrada de Shibuya até Daikanyama. O relevo da região tinha muitas subidas e descidas, e o sol ainda estava alto no céu, queimando o asfalto sob nossos pés. O suor se acumulava debaixo do meu uniforme, me fazendo sentir péssimo.
Caminhando ao meu lado, Ayase enxugava o pescoço com um lenço. Até uma garota como ela, que nunca perdia a calma, estava sentindo o calor. Ao observar esse fato óbvio, me senti como um cientista fazendo a descoberta do século.
Nesse momento, ouvi um alegre som eletrônico e me virei. A Narasaka estava alguns passos atrás de mim e da Ayase, sorrindo enquanto apontava o celular para nós.
“Ah, não se preocupem comigo. E não se virem. Ajam naturalmente!”
“Você está tirando fotos?”, perguntou a Ayase.
“Você precisa pedir permissão primeiro, mesmo entre amigos.”
“Não estou tirando fotos. Isso é um vídeo.”
“Dá no mesmo. Você precisa pedir a nossa permissão. Me dá isso aqui para eu apagar.”
“Eeeeei! Não pega meu celular!”
Ayase arrancou impiedosamente o smartphone da Narasaka. Ela conferiu a imagem diante dos meus olhos e apagou na hora.
“Saki, você nunca me deixa tirar fotos suas. Eu teria apagado logo depois de qualquer jeito. Não precisava fazer isso.”
“Eu não gosto de tirar fotos. Não sou fotogênica. E eu ficaria chateada com você se não apagasse. Isso daria trabalho. Além disso, eu não quero desconfiar de você. É melhor eu mesma resolver isso para poder ficar tranquila.”
“Asamura, ajuda! A Saki está implicando comigo com um argumento irrefutável!”
Por que a Narasaka estava apelando para mim? Eu não me importava de ser incluído, mas queria que ela tivesse escolhido um assunto mais fácil para eu opinar. De qualquer forma, minha resposta já estava decidida.
“Eu fico do lado da Ayase”, eu disse.
“Onii-chan é um traidor!”, exclamou a Narasaka.
“Eu sei que vocês são irmãos, mas não precisam pensar igual!”
“Eu não me lembro de ter formado uma aliança com você, e gostaria que parasse de me chamar de ‘Onii-chan’.”
O argumento dela não fazia sentido, já que eu e a Ayase não éramos irmãos de sangue, mas era verdade que eu vinha notando semelhanças nos valores e hábitos nossos conforme passávamos mais tempo juntos. Talvez esse tipo de coisa acontecesse naturalmente.
“Deixa isso para lá”, disse a Ayase.
“O que você estava fazendo afinal? Por que gravar um vídeo de nós?”
“Ah, eu achei que vocês dois parecem bem juntos. Deviam virar youtubers, como um casal. Já pensaram nisso? Podem chamar de ‘A Loira Bonita e o Cara Sombrio Viram Irmãos’!”
“Nunca. Quem assistiria uma coisa dessas?!”
Ayase pareceu horrorizada com a sugestão, e eu concordei com a cabeça.
“Também acho… e, Narasaka, eu posso até ser meio sombrio, mas dói quando alguém diz isso na minha cara.”
“Ei, não me entenda mal. Eu não quis te criticar. Tem um monte de caras atraentes no Instagram que usam a tag ‘garoto sombrio’ para postar selfies cheias de clima. As garotas adoram isso.”
“Na verdade, espera. Ouvir alguém me chamar de atraente só me deixa constrangido. É uma mentira tão óbvia.”
“Ah, não entenda errado. Eu não estou dizendo que você é naturalmente bonito. Só quis dizer que, com um pouco de maquiagem, você poderia ir longe.”
De qualquer forma, ela não estava só me chamando de mediano? A Narasaka não parecia ter más intenções, o que só tornava mais difícil para mim reclamar.
“E tem gente que assistiria, sim”, ela continuou. “Até que existe bastante demanda por vídeos de casal no YouTube. Talvez seja tarde demais para criar uma trend, já que já tem um monte de vídeos assim, mas vídeos de irmãos são raros, então acho que faria sucesso! Se der certo, a gente pode comprar um apartamento de luxo num prédio alto com a grana da publicidade!”
“Grana de publicidade… Dá para ganhar dinheiro com isso?”, perguntou Ayase.
A palavra “grana” tinha chamado a atenção dela.
[Ayko: Ayase focando nas notas, e não é a de japonês moderno kkk]
“Claro que dá! Se o vídeo ficar popular, pum — dinheiro grande!”
“‘Pum’, é…”, murmurou Ayase.
“Espera aí, Narasaka. Ayase, para por aí.”
Eu interrompi quando as duas estavam começando a se empolgar e trouxe as duas de volta para a realidade.
Não era muito legal da minha parte jogar um balde de água fria nos grandes planos delas, mas eu me sentiria mal se deixasse as duas correrem atrás de um sonho que eu sabia que estava condenado desde o começo.
“Cada vez mais gente está subindo vídeos hoje em dia”, eu disse, “incluindo celebridades e grandes empresas. Não é fácil fazer sucesso… ou pelo menos foi o que eu ouvi num vídeo de alguém que entende do assunto.”
Eu tinha pesquisado sobre ganhos com publicidade em sites de vídeo quando a Ayase tinha me pedido para encontrar um trabalho de meio período que pagasse bem. Era uma área que já tinha deixado gente milionária e ainda era ranqueada entre as profissões mais desejadas pelas crianças quando pensavam no futuro. Mas, apesar do sucesso de alguns, incontáveis outros acabavam tendo colapsos mentais por causa da competição feroz e da obsessão com número de visualizações, e no fim fracassavam. E quem fazia vídeos como casal tinha ainda mais problemas.
“Mesmo que um canal faça sucesso, manter algo assim é um desafio ainda maior. Um casal pode se esforçar muito, mas se se separassem, teriam que parar de gravar vídeos, apesar de todo o sucesso conquistado com tanto esforço.”
“Mgh. Bom, sim, mas é exatamente por isso que vocês dois são perfeitos”, rebateu a Narasaka.
“Como assim?”, perguntei.
“Diferente de casais românticos, vocês dois são irmãos. Não podem terminar! Consegue pensar em uma situação melhor pros espectadores curtirem vocês dois ficando todo melosos? Não consegue, né?!”
“Você está começando a fazer sentido…”
“Não, não está”, interrompeu Ayase. “Asamura, por que você está deixando a Maaya te influenciar?”
“Desculpa.”
Ayase me lançou um olhar severo, e eu pedi desculpas.
Dizem que começar imediatamente e agir rápido são as chaves do sucesso, mas eu acho que esse tipo de conselho é mais útil quando você já falhou em alguma coisa. Assim que sinto que o clima ficou estranho, eu esqueço todo o resto e peço desculpas na hora. Pedir desculpas instantaneamente — esse devia ser o meu lema. Embora esse tipo de comunicação talvez só seja possível porque eu e a Ayase decidimos não mentir sobre nossos sentimentos nem esconder nosso descontentamento.
Ayase enrolou algumas mechas de cabelo no dedo e suspirou.
“Eu não vou fazer isso. Nunca daria certo.”
“Ah, qual é”, disse Narasaka. “Daria sim. Você e o Asamura são inteligentes.”
“Isso não parece um elogio vindo de alguém que tirou notas melhores do que nós dois nas provas.”
“Notas de provas não importam. Como posso dizer… é tipo inteligência do Zhuge Liang — vocês têm estratégia.”
“Tanto faz, eu não posso. Quem sabe quanto tempo isso levaria se fôssemos levar a sério? Eu não teria mais tempo sobrando para estudar.”
“Que pena. Eu acho que vocês fariam sucesso com certeza. Eu também queria ver vocês dois sendo melosos!”
“Isso é só o que você quer… e eu já te disse que a gente não é assim.”
“A gente não pode fazer isso de qualquer jeito”, eu disse.
“Mesmo que o canal ficasse grande, teríamos outros problemas.”
Narasaka era a única aluna da escola que sabia que eu e a Ayase éramos meio-irmãos. Se fizéssemos esse negócio de YouTube de casal e ficasse popular, todo mundo saberia sobre nós. Além disso, se colocássemos vídeos que fizessem nossa relação parecer romântica, como explicaríamos isso para o pai e para Akiko?
Claro, a Ayase era super bonita, inteligente, atenciosa e sabia manter uma distância confortável. Ela era o tipo ideal de pessoa para se conviver. Se tivéssemos um relacionamento romântico, isso talvez poderia ser muito bom.
Mas a Ayase era minha meia-irmã. Isso não era ficção. Ela era minha meia-irmã na vida real. Eu nem podia começar a considerar isso.
“Bom, deixa para lá”, disse Narasaka. “Olha, nem precisa ser YouTube. Vocês podem fazer outra coisa. Se conseguirem se estabelecer, talvez arrumem um trabalho que pague bem! Para começar, Asamura, você devia criar um Instagram. Não estou brincando!”
“Por quê? Eu não tenho nenhum talento para fotografia.”
“Só posta um monte de fotos em que você pareça legal e usa a tag ‘garoto sombrio’! Vai dar certo!”
“Eu disse não.”
Eu até disse isso, mas já estava de costas para Narasaka, baixando o aplicativo do Instagram. Andei atrás das duas enquanto elas continuavam conversando e criei uma conta de teste, depois fiz um perfil seguindo as instruções do tutorial. Se eu conseguisse ficar popular sem muito esforço e parecesse que dava para ganhar algum dinheiro, eu contaria para Ayase.
…Mas, mesmo fuçando no aplicativo o caminho inteiro de volta, eu nem consegui descobrir quais usuários tinham mais seguidores. Fiquei com a sensação de que não ia acabar fazendo muita coisa com aquela conta.
Quando cheguei em casa, entrei no meu quarto e fechei a porta. A tensão dos meus músculos começou a relaxar — eu conseguia sentir isso até nas pontas dos dedos.
Voltar para casa com a Ayase e a Narasaka foi muito diferente da minha rotina. Eu não tinha como não ficar nervoso.
Tranquei a porta para evitar que a Narasaka entrasse por engano, liguei o ar-condicionado, afrouxei a gravata e tirei o uniforme. O ar frio foi um alívio na minha pele suada, mas me segurei no último segundo para não comentar isso em voz alta. Eu precisava lembrar que a Narasaka estava lá.
Eu já tomava cuidado com os barulhos que fazia no dia a dia por causa da Ayase. Com uma completa estranha como a Narasaka, então, isso era o dobro. Foi aí que eu percebi uma coisa: a ideia de que a Narasaka era uma completa estranha implicava que existiam estranhos que não eram completamente estranhos.
A Ayase era uma estranha, mas diferente das outras estranhas. O fato de essa distinção existir na minha mente significava que eu tinha chegado um pouco mais perto de considerá-la como família?
Troquei de roupa e saí do meu quarto. A caminho da cozinha para pegar algo para beber, vi a Ayase sentada com os seus livros abertos e a Narasaka orientando ela. Ayase ainda estava com o uniforme escolar. Talvez não quisesse que sua amiga fosse a única de uniforme.
As duas pareciam sérias. Até a Narasaka, que estava fazendo palhaçada no caminho para casa, estava ajudando a Ayase com uma expressão sincera no rosto.
Tomando o máximo de cuidado para não as atrapalhar, abri a geladeira, coloquei gelo num copo e depois servi chá de cevada. Fazendo o mínimo de barulho possível, voltei devagar pro meu quarto.
Coloquei o copo de chá numa mesinha baixa, sentei no chão com as pernas cruzadas e abri um aplicativo de mangá no celular. Eu tinha salvado várias séries nas duas últimas semanas enquanto estava ocupado com as provas, e agora finalmente podia colocar tudo em dia. Eu não tive que trabalhar hoje, então, ao menos por uma vez, eu estava livre para gastar meu tempo como quisesse.
Cerca de uma hora depois, terminei de ler a maioria dos mangás da minha lista. Decidi procurar uma série que o Maru tinha me recomendado algum tempo atrás, toquei no botão de busca e congelei.
A hora mostrada no canto superior esquerdo do meu celular marcava cinco horas.
Com o celular na mão, eu me levantei. Precisava preparar o jantar.
Normalmente era a Ayase quem cuidava das nossas refeições, mas no dia seguinte seria a grande prova de recuperação dela de Japonês Moderno. Eu queria que ela usasse cada minuto que tinha para estudar.
Entrei na sala de estar, e a Ayase levantou o olhar para mim.
“Ah, desculpa, já está na hora de eu começar a fazer o jantar”, ela disse.
“Espero que você não se importe se for algo simples hoje.”
“Tudo bem. Você continua estudando. Eu faço o jantar.”
“Hã?! Sério…?”
Sorri para tranquilizá-la e fui para a cozinha. A Ayase, que já tinha largado a caneta e se levantado, voltou a se sentar, parecendo surpresa.
“Eu não trabalho hoje, e sua prova é amanhã”, eu disse.
“Você deveria focar nos seus estudos.”
“…Obrigada. Eu agradeço.”
A voz dela saiu suave, um pouco confusa, mas foi um agradecimento firme.
A Narasaka, que estava observando a troca, disse:
“Aha.”
Ela tocou o queixo como uma detetive resolvendo um caso e estreitou os olhos como um gato.
“Muito bem, Asamura. Você vai dar um ótimo marido.”
“Agora você está fingindo ser o quê?”, perguntei.
“Uma crítica de arte!”
“Eu não estou entendendo.”
Enquanto continuava essa troca de falas sem sentido, mexi no celular e abri um site de receitas.
Se eu estivesse sozinho, teria esquentado alguma coisa no micro-ondas para o jantar. Ao olhar nos armários, encontrei alguns pacotes de curry instantâneo que eu e o pai tínhamos comparado antes de começarmos a morar com a Ayase e a Akiko. O rótulo dizia Extra Picante em letras vermelhas chamativas. Desde que nossa família tinha aumentado, a Akiko e a Ayase vinham cozinhando a maior parte das nossas refeições, e não comíamos mais tanta comida instantânea, de micro-ondas ou congelada como antes. Aquele curry era um resquício da antiga vida minha e do pai. Nunca tínhamos nos preocupado com coisas como nível de pimenta.
A comida que a Ayase e a Akiko tinham feito no último mês tendia a ter um sabor mais suave. Nada era exageradamente temperado. Até pratos que deveriam ser apimentados tinham sido ajustados para ficar menos fortes. Isso provavelmente significava que “extra picante” estava fora de cogitação.
Se eu tivesse tempo para ficar pensando nessas coisas, o melhor seria perguntar. Mas a Narasaka estava ali, e isso me fez hesitar. Tolerância a comida apimentada era uma questão de orgulho para algumas pessoas. Não gostar de comida picante podia ser considerado infantil.
Decidido. Nada de curry. Eu só teria que consultar as donas de casa experientes da World Wide Web. Eu era sortudo por ter nascido numa era em que dava para acessar incontáveis receitas direto pelo celular.
“Certo, vamos lá.”
Criei coragem e comecei a tarefa.
No fim das contas, porém, eu falhei. Bom, não exatamente. Para falhar, eu teria que ter feito alguma coisa de fato. Eu realmente tinha subestimado o quão longe conseguiria chegar com zero experiência na cozinha.
Cada palavra que aparecia nas receitas que eu encontrava era um mistério. O que era “farinha de bolo”? Era diferente da farinha que tínhamos em casa? Como eu “temperava” a carne? A receita dizia para colocar a carne numa travessa quando estivesse pronta, mas como eu saberia quando estava pronta? Tudo era vago demais. “Refogue por cinco a dez minutos”? Tem uma diferença enorme entre cinco e dez. Como saber qual é o certo?
Não tinha jeito. Eu tinha pouco conhecimento básico demais e nem conseguia entender o que as receitas diziam. Para mim, cozinhar parecia várias vezes mais difícil do que a prova de recuperação de Japonês Moderno da Ayase.
…Achei melhor começar fazendo arroz. Até eu sabia lavar arroz e colocar na panela elétrica. E, no pior dos casos, a gente podia comer arroz branco com alguma coisa tipo pasta de alga pronta.
Decidi deixar as tarefas mais complicadas para depois e começar com o que eu conseguia fazer. Com isso em mente, esvaziei a cabeça e comecei a lavar o arroz. Eu sentia a água fria anestesiando minhas mãos.
Mais ou menos quando terminei de lavar o arroz e estava apertando os botões da panela, alguém entrou na cozinha.
“Aaaasaamuuura!”
“Ah, Narasaka. Fica à vontade para pegar algo para beber na geladeira se estiver com sede.”
“Não é por isso que eu vim. Eu vim ver como você está! Parece que você está tendo um pouco de dificuldade.”
“Onde você colocou a câmera escondida?”, eu disse enquanto olhava em volta.
“Eu não estou te filmando! Eu notei que você de repente começou a fazer arroz e pensei que talvez não estivesse acostumado com isso.”
“Então você normalmente… não começa pelo arroz…?”
“Algumas famílias começam, mas como o arroz só leva uma hora para ficar pronto, lá em casa a gente prepara os outros pratos primeiro.”
“Entendi… Isso é meio vergonhoso, mas…”
Contei a ela que tinha achado que daria para inventar alguma coisa olhando receitas, mas quando tentei, a terminologia parecia uma língua estrangeira. Como parecia que ia levar tempo para “traduzir”, eu tinha decidido começar com algo que sabia fazer — cozinhar arroz.
Narasaka assentiu e voltou para a sala.
“Ei, Saki? Dá para você continuar revisando sem mim, né?”, ela perguntou.
“Dá sim, graças a toda a sua ajuda”, respondeu Ayase.
“Ótimo, continua assim! Eu vou lá ajudar o Asamura na cozinha.”
“Ah, sério? Não é pedir demais?”
“Não é problema nenhum. Vai ser uma chance de eu mostrar minhas habilidades de dona de casa. Hee-hee-hee! ♪”
“Tem certeza? Bom, obrigada. Vou ficar esperando o resultado.”
Ayase me lançou um olhar inseguro. Eu conseguia ver meu reflexo nos olhos dela. Eu parecia tão perdido quanto ela.
“Então, Onii-chan. Eu vim te resgatar com orientação e incentivo! Vamos lá!”
“Ah… o-obrigado.”
Narasaka arregaçou as mangas do uniforme, mostrando os braços. Ela estava cheia de energia e veio na minha direção toda animada. Eu assenti timidamente, um pouco sobrecarregado. Eu já não tinha mais forças para reclamar de ela me chamar de “Onii-chan”.
“Certo, primeiro de tudo”, disse Narasaka.
“Qual é o conceito por trás do que você quer cozinhar?”
“Conceito…? Eu não sei, mas eu queria ajudar a Ayase a relaxar a cabeça para a prova de amanhã, então pensei em algo com bastante nutrição e proteína.”
“Entendi. É meio básico, mas porco agridoce deve servir. Deixa eu ver… Isso, parece que temos tudo o que precisamos”, disse ela, abrindo a geladeira e tirando um pouco de carne de porco.
Foi então que uma coisa me passou pela cabeça.
“Dá para fazer porco agridoce com o que a gente tem?”, perguntei.
“A carne não precisa ser em pedaços grandes?”
“Sim. É mais fácil se tiver fatias grossas, tipo as de tonkatsu. Mas carne fatiada fina também funciona. Muitas receitas desses sites até recomendam usar.”
Fiz uma busca rápida e, de fato, encontrei várias receitas de porco agridoce usando carne fatiada fina.
“Tudo depende de como você corta”, disse Narasaka com orgulho, como uma mestra instruindo um aprendiz. Eu não tinha como reclamar.
As habilidades culinárias da Narasaka eram excelentes. Ela tirou os ingredientes e temperos da geladeira sem nem olhar receita nenhuma e espalhou tudo na bancada num piscar de olhos. Depois começou a preparar a carne e os legumes, me ensinando os passos no processo.
Como ela entendia perfeitamente o que estava fazendo, as explicações eram fáceis de entender, até para um iniciante como eu. Aprender enquanto fazia foi especialmente útil, e antes mesmo de perceber, eu já estava fazendo tudo sozinho.
“Uau, Narasaka, você é incrível. Parece até uma professora de economia doméstica.”
“O quêêê?! Não dá para usar um exemplo mais legal? Que tal uma chef de primeira linha que acabou de voltar da França?”
“Mas aí você não seria uma professora.”
“Acho que é verdade!”
Ela sorriu como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
“Você também é incrível, Asamura. Aprende super-rápido. Me dá até vontade de te ensinar cada vez mais.”
“Acho que isso é porque você é uma boa professora… Mas, falando nisso, a Ayase também cozinha bem. Será que todos na nossa turma sabem cozinhar assim, e só eu não faço ideia do que estou fazendo?”
Minha voz vacilou diante da possibilidade de eu ser mais ingênuo do que pensava.
Duas amostras não tinham valor estatístico, mas eram suficientes para formular uma hipótese.
“Ah-ha-ha. Calma lá. A turma inteira? Sem querer me gabar, mas acho que eu cozinho bem, sim.”
…Ainda bem.
A voz animada da Narasaka afastou minhas dúvidas. Aquilo poderia ter sido realmente constrangedor.
“Tenho vários irmãos mais novos, e meus pais trabalham, então eu faço bastante coisa em casa”, ela explicou. “Só consegui vir hoje porque a minha mãe está em casa, mas isso é bem raro.”
“Agora que você falou nisso… você veio aqui no mês passado, mas depois não apareceu mais.”
“Exato. Uma vez por mês já é o limite.”
Então a Narasaka só podia sair uma vez por mês. Isso era bem inconveniente para uma estudante do ensino médio.
Apesar disso, suas notas eram excelentes. Ou ela era extremamente esforçada, ou ainda mais talentosa naturalmente do que Maru. Ultimamente, eu vinha pensando que ela era meio estranha, com toda aquela animação exagerada. Agora, precisava reconsiderar.
“Asamura, deixa eu te perguntar uma coisa. Não tem mesmo nada acontecendo entre você e a Saki?”
Enquanto eu terminava de preparar o molho agridoce seguindo as instruções dela e começava a misturar o missô em uma panela com água quente, a Narasaka lançou essa pergunta simples, completamente do nada.
“Claro que não”, respondi de imediato. “Somos irmãos.”
“Mas vocês são praticamente estranhos. Não são parentes de sangue.”
“Somos irmãos de acordo com o registro familiar, então isso está fora de cogitação. E por que você está tão interessada nisso?”
“Não sei exatamente, mas tenho a sensação de que a Saki mudou.”
“Isso é só a sua opinião pessoal…”
“É. Mas não são todas as conversas apenas pessoas compartilhando opiniões?”
“…Acho que sim.”
Ela tinha razão. Em conversas normais, só pessoas como eu, que não eram boas em se comunicar, precisavam organizar todos os pensamentos logicamente. Alguém como a Narasaka, que sempre era ela mesma, não precisava se preocupar em estar na mesma página que o outro. Provavelmente conseguia se virar só com instinto e reflexo.
"Por exemplo, a Saki tem usado mais perfume ultimamente", disse ela.
"Você reparou?"
"Nem um pouco."
"Ainda bem. Seria meio assustador se tivesse reparado."
"Para de tentar me colocar em armadilhas."
Fiquei aliviado por ter levado uma vida íntegra. É claro que eu estava bem consciente da nova garota em casa, mas justamente por isso fazia o meu melhor para não encarar demais nem prestar atenção no cheiro dela.
"Então o que dá para perceber pela quantidade de perfume que alguém usa?", perguntei.
"Agora é verão, uma estação complicada para nós, garotas, porque todo mundo sua, mesmo só andando. Usamos muitos lenços umedecidos, xampus com cheiro forte e, no geral, fazemos bastante esforço… quando começamos a nos interessar por garotos, claro."
"Entendi."
"No verão passado, a Ayase só usava lenços umedecidos. Ela não sua muito, então isso era suficiente. Sem problemas."
"Mas você está dizendo que este ano ela está fazendo mais coisas."
"Exato! É como se estivesse fazendo tudo o que pode. E meus instintos de detetive estão dizendo que ela está interessada em alguém. Não concorda, Watson?"
"Entendo."
"‘Entendo’ o quê? É só isso que você tem a dizer? Estou te falando que uma garota superfofa pode estar prestando atenção em você, e você não reage a nada?"
"Bem… acho natural ela prestar atenção em mim…"
"Aha! Então o sentimento é mútuo!"
"Não, não foi isso que eu quis dizer", interrompi, cortando o embalo da Narasaka.
"Somos praticamente estranhos morando na mesma casa. Faz sentido tomar cuidado para não cheirar mal perto um do outro. Isso é só educação básica."
Eu era igual. Antes, andava por aí com cabelo bagunçado, olhos inchados e pijama não muito cheirosos. Quando éramos só meu pai e eu, nunca me importei com isso. Mas agora não dava mais. Eu não tinha coragem de aparecer desleixado na frente da Ayase e da Akiko, duas mulheres que eu mal conhecia… Na verdade, eu estava pensando bastante nisso ultimamente.
"Você realmente acha que é só isso?", perguntou a Narasaka.
"Tenho certeza de que você vai entender quando for morar com alguém… provavelmente."
"Hmm… Ah!"
Narasaka, com os lábios em um biquinho, olhou para a sala de estar e suspirou, como se tivesse acabado de notar algo. Ela me cutucou de lado e começou a cochichar animada.
"Viu isso? A Saki estava olhando para cá."
"Estava?"
Olhei para a Ayase, e nossos olhos se encontraram. A boca dela ficou entreaberta por um instante, e então ela desviou o olhar rapidamente.
Fora o leve movimento dos olhos e da boca, nada na expressão dela mudou. Era a mesma de sempre — fria como gelo, o rosto bonito voltado para o caderno, totalmente concentrada nos estudos.
"Ela provavelmente percebeu que estávamos falando dela", falei. "Você fala alto demais, Narasaka."
"Errado. Isso é definitivamente o poder do amor em ação."
"Tá bom, tá bom. Chega de fofoca por enquanto. Isso não é um mangá. Você só vai irritar a Ayase se for longe demais."
"Boa tentativa. A Saki já está irritada comigo. Não tem como ela ficar mais irritada do que já está."
"Você está mesmo tentando me provocar com esse argumento?"
Eu realmente não entendia as piadas dela. Devia ser coisa de gente alegre. Eu sabia que ela não tinha má intenção, mas eu não poderia mudar quem eu era.
Enquanto isso, terminamos a sopa de missô e tudo estava pronto para o jantar. Eram seis e meia quando olhei o relógio, e um bip eletrônico anunciou que o arroz estava pronto.
"Tempo purr-feito", disse Narasaka, com uma entonação estranha. "Isso marca o encerramento da Aula Especial de Culinária da Maaya."
Ela estava usando o avental da Ayase enquanto me instruía, mas agora o tirou e foi para a sala.
"Você está temporariamente dispensada do dever de estudo, Comandante Saki", disse ela, abraçando a Ayase por trás. "Está na hora de uma pausa bagunçada."
Ayase devia estar ouvindo música enquanto estudava. Ela tirou os fones, parecendo um pouco exasperada.
"Por que eu virei uma oficial graduada do nada? …Mas obrigada por ajudar o Asamura a fazer o jantar."
"De nada. Bom, já está na hora de eu ir."
"Hã? Você não vai jantar com a gente?"
"Hoje é o dia da minha mãe cuidar dos meus irmãos, mas a gente tem a regra de jantar juntos. É um dos raros dias em que posso aproveitar a comida da mamãe."
O fato de ela dizer isso casualmente, com um sorriso, era prova de que tinha uma família unida.
Para mim, alguém que cresceu ouvindo os pais brigarem, a vida familiar da Narasaka era inimaginável.
Ela juntou suas coisas, acenou e se despediu de forma rápida e eficiente, como se combinasse com o jargão militar de antes. Quando passou por mim, parado perto da porta, lançou um sorriso sugestivo e sussurrou para que só eu ouvisse:
"Vou deixar vocês dois a sós agora! ♪"
"Como eu sempre digo…"
"Tá bom, tchau! ♪"
Ela acenou vigorosamente, como se quisesse cortar minhas objeções, e então foi embora.
Eu fiquei ali, parado, olhando-a ir, quando a Ayase se aproximou e perguntou, desconfiada:
"O que foi? Ela disse alguma coisa estranha?"
"…Não, tá tudo bem. É só que…"
"Só o quê?"
"…Acho que ela é um pouco estranha."
"Eu também."
A Ayase concordou comigo. Talvez aquele tenha sido o momento em que estivemos mais em sintonia desde que nos tornamos irmão e irmã.
"Ah, isso está delicioso."
Agora eram sete da noite. Acabamos jantando sozinhos, como de costume. Quando a Ayase colocou um pedaço do porco agridoce na boca, seus olhos se arregalaram.
Em vez de empolgação, a primeira coisa que senti foi um profundo alívio.
"Fico feliz que tenha gostado", falei.
"Porco agridoce, é? Parece que você estava pensando em mim ao escolher o prato."
"…Perspicaz como sempre, não é?"
Fiquei pensando se alguém que cozinhava todos os dias conseguia perceber facilmente minhas intenções.
"Obrigada", disse ela. "Agradeço a consideração."
"De nada. Dito isso, talvez você devesse agradecer à Narasaka, não a mim."
"Foi ela que fez tudo isso?"
"Tecnicamente, fui eu. Mas ela ficou ao meu lado explicando cada passo, embora tenha recuado e me deixado fazer a maior parte das coisas importantes… Acho que ela daria uma professora muito boa, na verdade."
"Entendo o que você quer dizer. Se fosse eu e visse um iniciante tropeçando, teria feito tudo sozinha."
"É. E assim também é mais seguro."
Mas a Narasaka nunca saiu do modo professora. Aposto que ela seria uma ótima professora de jardim de infância. Ou, considerando suas notas excelentes, uma instrutora em qualquer nível. Imaginei a Narasaka cuidando de crianças pequenas com um sorriso no rosto, e aquilo pareceu certo.
"Como estão indo os estudos?", perguntei.
"Bem, graças a vocês. Não tive problemas para resolver as questões extras que a Maaya inventou."
"Isso é bom."
"Ela ficou um pouco surpresa com meu método de estudo, no entanto. Disse que parecia complicado e provavelmente bem menos eficiente."
"Também não acho que seja a estratégia mais rápida."
Não era necessário entender completamente um texto dado em uma prova, e era relativamente fácil responder às perguntas se você compreendesse a intenção básica do autor. Mas esse método só funcionava para certas pessoas e só era considerado o “jeito correto” porque fazia sentido para a maioria.
Uma dependência extrema, quase patológica, do pensamento lógico era vista como falta de flexibilidade. Mas esse era o tipo de pessoa que a Ayase era, e parecia que o cérebro dela simplesmente travava quando tentava responder algo sem compreensão total. Por isso, tivemos que recorrer a um método de estudo complicado e drástico para que ela eliminasse a ambiguidade que sentia e melhorasse em Japonês Moderno.
No passado, a Ayase havia elogiado o alto grau de flexibilidade da Narasaka e sugerido que essa era provavelmente a razão de ela ser tão popular na escola. Dizem que os opostos se atraem, então fazia todo o sentido que a Ayase fosse a antítese da Narasaka.
E havia mais uma coisa que começava a fazer sentido para mim. A Ayase era extremamente teimosa em reconhecer a diversidade. Detestava estereótipos e suposições, e ia longe demais tentando se comunicar da forma mais adequada possível. Eu achava que isso se devia à maneira como o pai dela usava seus próprios preconceitos para abusar de sua mãe. Mas provavelmente não era só isso.
Isso era apenas algo que eu tinha pensado sozinho. Não perguntei a ela, e estava apenas criando teorias rudimentares para satisfazer minha curiosidade, mas…
…Achei que ela estivesse lutando.
Lutando contra o próprio sangue — o sangue de um pai que ela não respeitava e seu pensamento rígido e inflexível. Sua tendência era resistir à ambiguidade, tornar tudo preto no branco, ver tudo apenas da própria perspectiva e tirar conclusões precipitadas.
Era por isso que ela vestia aquela armadura grossa. Era uma tentativa de se manter flexível.
…Claro, como eu disse, isso era apenas minha teoria.
"Não se preocupe", falei. "Você fez um bom progresso. Vai se sair muito bem amanhã."
"…Uhum."
Ela havia interpretado mal meu silêncio e agora estava sorrindo, tentando me tranquilizar. Não pude contar o que havia se passado pela minha cabeça, então não a corrigi.
Em vez disso, disse apenas:
"Estou torcendo por você, Ayase."
"Obrigada, Asamura. Fiz o que pude. Agora é só esperar e ver o que o destino tem guardado para mim."
Então ela segurou os hashis, pegou outro pedaço de porco agridoce e colocou na boca.
"Está delicioso", disse.
Durante todo o jantar, ela continuou comentando como a comida estava boa e me agradecendo.
A prova de recuperação que decidiria o destino da Ayase estava prestes a acontecer. Se ela teria tempo livre nas férias ou se ficaria presa a obrigações — tudo dependia daquela prova.
Não tinha nada a ver comigo, mas parecia como um problema meu. Era estranho, mas guardei esses sentimentos e torci com todas as forças pela minha meia-irmã, que havia se esforçado tanto.
…Arrasa, Ayase.
[Ayko: Asamura todo cuidadoso com a Ayase, muito fofo essa parte de ele sentir como se o problema fosse parte de algo que ele também faz parte, força Ayase!]
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