Pt. 2 – Arco 3

Capítulo 43: Todos Querem Dominar o Mundo (6)

Corredor, Casa do Sol Nascente - 01:29 da madrugada, dezesseis de Julho.

— MACONHA MACONHA MACONHA!!! — David Goe gritava, tendo sua mente dominada pela forma espectral que protegia o Coração do Primeiro Homem.

Elin sabia que precisava tirar aquilo das mãos dele o mais rápido possível. Ela largou Leonard no chão, saiu correndo até David e pulou sem hesitar para dentro do véu de energia, agarrando o Coração. Porém, quando prestes a tirar o artefato da mão dele, um punho esverdeado surgiu no ar e a jogou para longe com um soco. Ela não conseguiu levar a relíquia consigo.

— Merda! — reclamou, caída ao lado do detetive inconsciente.

David Goe se tornava cada vez mais bestial, enquanto uma enorme forma humanoide feita de energia surgia em sua retaguarda, trazendo consigo um sorriso afiado e diabólico.

— É, está confirmado. Nem o poder daquele covarde do Christopher consegue resistir ao Bat-Maconha! — exclamou Einstein, preparando um par de orbes escarlates. — O controle mental desse demônio verde todo esquisito está se sobressaindo ao Rule The World… o que fazemos?

— O Bat-Maconha deve ter cancelado o controle mental que o David estava sofrendo para que ele próprio pudesse controlá-lo. Temos que pegar o Coração, antes que o David mate todo mundo que tá dentro deste hotel! Se a minha hipótese estiver correta, o David vai ficar livre tanto do Rule The World quanto do Bat-Maconha no momento em que largar a relíquia.

A artista sacou seu caderno de desenhos e começou a libertar tudo o que tinha. Soldados, bonecas humanoides, animais, carros, motos, tanques de guerra e tudo que desenhou nos últimos dias saltaram para fora das folhas e partiram em direção ao dono do hotel.

— MACONHA MACONHA MACONHA MACONHA MACONHA MACONHA!!! — gritava David.

A cena que veio a seguir foi simplesmente incompreensível.

Todo o corredor do hotel metamorfo passou a se esticar para comportar todas as criações da artista, e então, perdeu totalmente a sua forma. O hotel inteiro começou a se abrir; assumindo formas espirais e alucinantes, tomando colorações totalmente desconexas. 

Enquanto isso, tanto Einstein quanto Elin e seu exército de desenhos tiveram que lidar com os mais diversos e insanos desafios. Mobílias voavam em suas direções e tomavam formas excêntricas para atacá-los; lâminas, dragões, assassinos, correntes. Era o mais próximo que um usuário de alucinógenos poderia encontrar na vida real das coisas que vê enquanto entorpecido.

Einstein revidava todos os seus inimigos com disparos de mana. Elin voltara a carregar o investigador inconsciente e se contentou em ficar fugindo para impedi-lo de ser alvejado; corria para lá e para cá, saltando entre plataformas sempre que a superfície onde pisava se transformava em um buraco ou em uma poça de lava. Mal entendia o que estava acontecendo, mas continuava fugindo e fugindo.

Até que, quando foi perceber, a maior parte dos seus desenhos foram mortos/destruídos. Um dos poucos que continuava vivo era Robertinho Roubalheiras, um pirata que conseguiu o feito de alcançar David Goe.

— Me passe isso, bigodudo, se não quiser morrer! — anunciou o pirata, apontando o trabuco até a cabeça dele.

— Maconha! 

A arma simplesmente derreteu sobre a mão do desenho-vivo. Ele começou a gritar de dor, mas nada que alguns palavrões não resolvessem. Em um surto de raiva, o pirata pulou contra David para agarrar o Coração. Só que, com a força do Bat-Maconha, bastou apenas um soco para o dono do hotel atravessar o peito do sujeitinho.

Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, Elin bolava um baita plano. Ela se virou para Einstein, em meio à guerra esquizofrênica, e fez alguns sinais com a cabeça. Logo, passou a girar com tudo o que tinha para acumular força e arremessar Leonard Mystery.

A sua força de humana foi incapaz de fazer o detetive voar muito longe, mas não se pode dizer o mesmo da força mágica do orbe de ar que Einstein arremessou no mesmo instante. Quando o detetive foi atingido pela esfera, uma ventania poderosa o arremessou contra David Goe em uma velocidade estrondosa. Ele parecia uma bala de canhão.

Tamanho impacto acabou por acordá-lo. A mente de Leonard ainda estava sob a influência do inimigo.

— O quê? — indagou Leonard, enquanto voava loucamente através do cenário totalmente maluco e distorcido do hotel. Christopher havia perdido a conexão com David Goe. Portanto, voltou a usar o detetive como fantoche principal. Durante o voo, percebeu que estava partindo em direção ao Coração do Primeiro Homem.

Sequer processou alguma resposta para aquilo tudo, só sabia que não tinha mais controle algum de David Goe e que precisava levar o Coração até Panthael. Então, fez o detetive arrancar um pedaço do tecido do próprio terno e envolvê-lo na mão para que não entrasse em contato direto com o órgão bizarro. Se focou totalmente no artefato, enquanto voava velozmente e ficava cada vez mais próximo. 

Até que…

Caiu em cima do homem de bigode e agarrou o Coração do Primeiro Homem.

Leonard começou a puxar com força, mas David estava inundado com aquela aura verde que o concedia um poder físico absurdo. Nem mesmo as condições sobre-humanas de Leonard conseguiam se equivaler. Por isso, usou a outra mão para sacar a Mystery Gun e atirar contra o dono do hotel.

— Droga! — gritou quando a arma foi despedaçada por um soco vindo da mão livre de David. Acabou por perder a disputa de força, largando a relíquia. 

— Maconha, maconha, maconha! — David agarrou o Coração com mais obsessão do que nunca e se afastou. — MACONHA!!!

Todavia, chegou um ponto em que o dono do hotel não conseguiu mais se afastar, porque várias raízes escarlates se prenderam nos braços dele. Raízes cuja origem eram as pernas de Leonard Mystery.

— Essas raízes — disse Christopher, através do detetive. — As raízes da Árvore dos Mundos… Sou incapaz de controlá-las, mesmo controlando o portador delas. É fascinante. Como ousa se apossar desse poder, Leonard? Apenas Panthael deveria ter o direito de usar o The Root!

— Maconha, maconha… maconha! — gritava David, sendo puxado pelas raízes. Tentava fazer de tudo para destruí-las, mas nem sua força era capaz disso.

Então…

— Strange Magic: Pirimpimbulau! — berrou Einstein Heisenberg Holmes, arremessando um orbe elétrico contra o dono do hotel. — Catapimbas, nem tive tempo de pensar em um nome legal para o ataque!

A bola mágica fora o suficiente para, naquela situação, fazer com que David Goe acabasse largando o artefato. Leonard não perdeu tempo e se levantou em um salto, usando o tecido que tinha arrancado do próprio terno para finalmente coletar o Coração do Primeiro Homem.

— O quê? — questionou o dono do hotel. A figura endiabrada que estava atrás dele desapareceu, e a sua mente voltou ao normal.

“Droga! Imaginei que meu controle sobre ele voltaria assim que conseguisse tirar essa coisa estranha de suas mãos”, pensou Christopher. “Oh, se eu tivesse mais do meu sangue para infectá-lo novamente… Burro, burro, burro!” 

Ocupado demais em se autodepreciar, Chris nem notou que um outro orbe elétrico avançava vertiginosamente na direção de Leonard. O detetive desmaiou novamente no instante em que foi atingido e o controlador de mentes já não conseguia mais ver através de seus olhos.

 

 

A primeira coisa que Leonard Mystery visualizou ao acordar foi a máscara de hamster estranhamente inexpressiva que Einstein vestia o tempo todo. Levantou em um salto, levemente confuso. Se lembrava de estar lutando contra Christopher, até que tudo ficou totalmente preto.

— Uai?

— Ora bolas, acho que o detetive realmente voltou — disse o feiticeiro.

Quando olhou aos arredores, se localizou dentro de um dos vários quartos da Casa do Sol Nascente. Não havia nenhuma pessoa hipnotizada ao redor. Na verdade, estava cercado apenas por seus colegas: Einstein, Elin e David Goe. 

— A luta já acabou? — questionou.

— Sim, já acabou — respondeu o dono do hotel. — Os seus amigos descobriram que o Coração do Primeiro Homem é capaz de anular o Rule The World.

— Não é beeem anular — explicou Elin. — É que o Bat-Maconha possui quem toca no Coração do Primeiro Homem. Se a vítima já estiver sendo controlada por outra pessoa quando toca na relíquia, ele vai livrar ela desse controle mental para colocá-la em outro controle mental.

— Ô negocinho complicado — afirmou o investigador. — Curti. E o que cês fizeram com o moleque lá? O Christopher?

Os três se entreolharam. Leonard só ficava cada vez mais confuso.

— O bunda mole fugiu! — exclamou Einstein Heisenberg Holmes.

— Ele tinha usado o poder do David para entrar dentro do chão, isso antes da gente liberá-lo do transe — explicou a artista. — Não temos ideia do que aconteceu depois que o Bat-Maconha apareceu. Aquele insuportável continuou controlando seu corpo, na verdade, foi ele quem tirou o Coração da mão do David. Depois, o Einstein te nocauteou e deixamos o Bat-Maconha te possuir momentaneamente, só pra te libertar.

Naquele ponto, o cérebro de Leonard já estava querendo derreter e implorava por uma execução indolor. 

— Tá, bom saber que estamos todos vivos e bem. O nosso próximo destino é o Havaí, né?

— Isso — respondeu Einstein. — Mas…

O hamster tentou usar sua magia, mas não conseguiu fazer mais do que criar pequenos feixes de luz com as mãos. 

— Cê tá sem mana, usou muito do seu poderzinho.

— É, mas… acho que é diferente.

— Por quê? Não é a primeira vez que você fica sem mana — disse Elin.

— Sim, é que… carambolas, eu já não deveria conseguir usar mana há muito tempo. Mas precisei usar para te salvar, Elin, quando você levou um tiro. Depois, continuei usando loucamente durante a luta. Doeu muito fazer aquilo. Agora, sinto que vou morrer se usar mais mana, é como se a minha alma estivesse sangrando… ou como se meu popô doesse após fazer muito cocô. Não estou de brincadeira!

Foi impossível esconder o espanto, seja no rosto de Leonard ou no de Elin.  Eles ficaram sem saber o que dizer por alguns instantes, até que Elin retomou:

— Muito obrigada, viu? Você me salvou mesmo naquele momento. Vou ficar te devendo uma.

— Poxa — disse o detetive. — Mandou muito bem, cara. Foi vacilo meu ter sido controlado por aquele moleque desgraçado. Se o seu popô tá doendo, a culpa é minha.

— Ora, quanta manhojice. De nada adianta a gente ficar pensando nesse tipo de coisa! — exclamou o feiticeiro. — Sei muito bem que os dois iriam fazer o mesmo se estivessem na minha situação. E nenhum de nós tem direito de reclamar dos vacilos do amiguinho, porque nós três somos profissionais em vacilar. O grande problema disso é que vou demorar mais para nos teletransportar, já que é o meu truque mais complicado de se fazer. Vou demorar cerca de uma semana para fazer algo desse nível sem sofrer consequências graves, acredito... Duvido que tenhamos tempo para esperar tudo isso de tempo, né? Sabe, o país inteiro anda nos caçando e tudo mais.

O dono do hotel se envolveu:

— É verdade. Compreendo que não foi a intenção, mas toda essa invasão aconteceu pela presença dos três em meu hotel. Felizmente, todos os meus clientes continuaram vivos e estão bem após o incidente. Só que isso em nada muda o fato de que aquele crypto pode retornar para cá na tentativa de me interrogar. Terei que me ausentar e ficar em algum lugar mais afastado por um período de tempo.

— Poxa, cara — começou Leonard. — Desculpa aê, sério. Não queríamos ferrar o teu rolê.

— Tudo bem, entendo. Apenas peguem o Coração do Primeiro Homem e saiam daqui o mais rápido possível. Desejo toda a sorte do mundo aos três, torço para que sejam capazes de derrotar esses cryptos. Sinto que eles não têm boas intenções.

Leonard Mystery, Einstein Heisenberg Holmes e Elin Rose se entreolharam. Após aquela série de acontecimentos tão marcantes e perigosos, se arrumaram o mais rápido possível. Tomaram um banho merecido, inclusive. 

Levando o Coração do Primeiro Homem consigo, eles se despediram do peculiar homem de bigode largo e saíram do hotel pelos fundos. O som das sirenes policiais poderiam ser escutadas de longe.

Eles nem sabiam como prosseguir, apenas tinham certeza de que o próximo lugar para onde deveriam ir era o Havaí, lar de um homem chamado Springsteen — o responsável por localizar o Coração do Primeiro Homem e o homem que poderia trazer mais respostas sobre toda aquela conspiração. 

Poucas certezas, muitas dúvidas. Apenas tinham em mente que muitas outras aventuras e mistérios estavam por vir.

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