Pt. 2 – Arco 3

Capítulo 44: O Comando de Elite

???

Aquele lugar era apertado. Muito apertado. Muito mesmo.

Christopher pensou que seria genial fazer aquilo, de se esconder dentro do chão da Casa do Sol Nascente. Era fácil fazer algo do tipo quando se tem total controle da estrutura do hotel, conseguindo até mesmo se afundar dentro do piso como se estivesse submerso no mar. Assim, ninguém poderia machucar seu corpo real.

A questão é que nunca poderia prever que iria perder o controle do corpo de David Goe assim que ele entrasse em contato com o Coração do Primeiro Homem. E sem controle sobre o David Goe, sem controle sobre A Casa do Sol Nascente. Burrice ou azar?

Bem, um pouco dos dois. O pior é que logo depois, conseguiu recuperar controle sobre Leonard Mystery, mas falhou miseravelmente em fazer o corpo fugir para salvá-lo. Acabou que Leonard foi nocauteado e seus amigos desgraçados deram algum jeito de livrá-lo do controle mental.  Provavelmente, usando o poder daquele maldito Coração.

O que seria esse órgão pulsante e cheio de energia, afinal? Não sabia como responder essa pergunta, mas aquela energia lhe lembrava muito os poderes espetaculares de Panthael. Tinha certeza de que seu líder adoraria obter aquilo. Era certamente bem mais poderoso que Leonard, Einstein e Elin.

Ficar preso dentro da terra era desconfortável e confuso. Encontrava-se encaixado em um claustrofóbico espaço com o quase exato tamanho de seu corpo, e o pouquíssimo ar que tinha guardado em seus pulmões já estava acabado. Mal conseguia pensar, muito menos gritar, e torcia para não ser encontrado pelo olho bizarro de David Goe.

Se estivesse com mais oxigênio no cérebro, certamente se questionaria sobre a fala de Einstein, que disse fazer o que estava fazendo para vingar seu irmão. “Que irmão?”, pensou. Se perguntava até onde a loucura dos dois pretendia levá-los. Nada do que eles faziam parecia ter sentido.

Todavia, nada mais importava. Estava há bons minutos soterrado e ninguém jamais seria capaz de encontrá-lo. Sequer estava caído dentro de um buraco, pois chegou nadando até aquele ponto. E a única pessoa capaz de resgatá-lo, aparentemente, foi morta por uma ruiva intrometida.

Aparentemente.

— Oi, oi, oi! — exclamou uma voz quase inaudível, que viera de cima.

Então, ele escutou um som de explosão.

Quando abriu os olhos, percebeu que agora não estava mais submerso dentro de um mar de concreto, mas sim em uma cratera totalmente aberta. Em cima dele, sua salvadora — a ciborgue Bomba Lógica, cheia de ferimentos e sangue.

— Santo amado! — exclamou ele, já com os olhos marejando. — Sinto que meus pulmões iam explodir. Muito obrigado. Nossa, obrigado mesmo, sério!

Com ajuda dela, conseguiu sair de dentro da cratera. Os dois se encontravam em um dos corredores do hotel.

— Opa. Desculpa, viu? — disse a ciborgue, segurando o moço atônito para que ele não acabasse caindo. — A luta contra a ruivinha acabou durando bem mais do que eu esperava. Descobri que a vadia é uma vampira… o pior é que acabei a deixando escapar. 

— Nem sei o que dizer.

— E pelo visto, você não conseguiu pegá-los… eles ainda estão aqui, mas acho que estamos tão fodidos que o melhor a se fazer é ir embora…

Foi a vez do Chris de segurá-la para impedi-la de cair.

— Tudo bem? — perguntou para a ciborgue.

— Sinceramente? Acho que preciso tomar um pouco de gasolina… só um pouquinho…

— Olha, temos que sair daqui o mais rápido possível. Tem um maluco que literalmente pode controlar esse hotel inteiro. Além de que o amiguinho novo do Einstein e da Elin é um sociopata maluco… sendo que o Einstein e Elin sozinhos já são dois sociopatas malucos!

— Ué, nós também somos sociopatas malucos.

— Mas somos mais auto-conscientes. 

— Ah, sim.

— Vamos embora. Eu preciso de um hambúrguer e você de gasolina.

— Vamos!

 

??? - 04:40 da madrugada, dezesseis de Julho.

 

Quando os seus olhos se abriram, o mundo não era nada mais do que um borrão. Ele se levantou, atordoado e sonolento, com as memórias ainda bagunçadas por consequência dos acontecimentos violentos que envolveram a sua vida nas últimas horas.

O agente Gregory se levantou da cama da enfermaria.

— Thomas Fitzgerald Gregory, sim? — falou uma mulher de sotaque francês, adentrando o recinto.

— Isso.

— “Gregory” é um sobrenome muito estranho.

— É mesmo.

— Tudo bem, monsieur?

— Depende muito do seu conceito de bem… — respondeu, se levantando com dificuldades.

— Já consegue ficar de pé, então está bem o suficiente — virou-se e, sem esperá-lo, saiu andando.

 Gregory, mesmo cambaleante, ajeitou seu avental hospitalar e seguiu a agente. 

Ao sair da enfermaria, encontrou um enorme corredor cinzento, por onde passavam apenas homens sérios vestidos com ternos ou secretárias. Aquele cenário não enganava seus sentidos, e ele facilmente entendeu que estava na parte mais inferior do subsolo do Pentágono.

A sua visão foi voltando ao normal à medida em que andava. Como estava sendo deixado para trás, deu uma pequena carreira até parar ao lado daquela mulher. Quando olhou bem o rosto dela, a reconheceu.

Só havia uma mulher dos Homens de Preto conhecida por usar um terno com gravata borboleta e carregar uma grande cartola na cabeça, tal qual um mágico festivo.

— Por acaso, não seria você a Bonnie Sunny?

Ela revirou os seus olhos escuros até o rosto dele, com um tom desconfortável, como se estivesse o julgando.

Oui — respondeu, por fim. — Eu mesma.

— Entendo. Por acaso, tenho o direito de me perguntar para onde uma agente do seu nível está me guiando?

— Qual é o benefício de questionar, uma vez que vai descobrir isso em questão de alguns minutos? Seria um homem de preto que sobreviveu há tantas coisas, incapaz de esperar por apenas alguns instantes?

— Muito pelo contrário. Irei me manter quieto.

Gregory continuou a segui-la, sem fazer um “pio” sequer. 

O silêncio ajudou sua mente a se aprofundar nas memórias do horrível incidente. Os fragmentos, aos poucos, foram se juntando e ganhando forma. Todos tinham morrido, cada um dos soldados. 

As explosões e tiros ensurdeciam seus ouvidos, e a velocidade com que tudo aconteceu lhe desnorteara. Ainda assim, se lembrava muito bem do rosto daquela coisa, que matou todos eles com uma facilidade assustadora.

Apesar das memórias retornarem, elas não traziam consigo uma vontade heroica por justiça.

Não. 

O que tomava conta da mente de Gregory era o medo mais primordial de todos. O medo daquilo que é mais forte, possivelmente invencível. Junto dele, cresceu nele uma impotência devastadora e uma raiva incapaz de ser saciada.

Até que, no meio dos lapsos de memória, surgiu aquela criatura; a planta, uma árvore pequena de tons escarlates. O pior de tudo estava longe de ser a sua aparência, mas sim, aquela intenção assassina que ele nem sentia vontade de esconder.

“O que aconteceu depois disso?”, pensou.

— O senhor parece um morto-vivo — falou Bonnie, olhando para ele de relance.

— Perdão, pode repetir?

— Esses seus olhos. Sempre foram assim? Parece os de um morto-vivo.

— Não. Receio que não.

— Engraçado. 

O silêncio voltou muito rápido, mas depois de alguns minutos, foi novamente rompido.

— Você é um péssimo profissional.

— O quê? Por quê?

Sem sequer encará-lo, ela suspirou impacientemente e afirmou:

— O dever dos Homens de Preto é agir sem questionar.

— Com todo o respeito, mas sempre fiz isso.

— Acredito no senhor.

— Então, por que disse que sou péssimo?

— Pois quando vejo os seus olhos, agente… — Sunny virou-se novamente para ele. — Vejo os olhos de alguém egoísta, disposto a trair o país para cumprir um objetivo puramente pessoal.

Gregory tentou, mas falhou em disfarçar a sutil crescente de ódio que rapidamente surgiu em seu rosto. Argumentou:

— Como pode falar isso para mim, agente especial Sunny? Eu quase morri para eliminar o alvo.

— É aí que está a origem do problema. Todos os outros morreram, mas você está aqui, vivo. É impressionante, não acha?

— Tenho que concordar, mas se estiver achando que me encontro envolvido em alguma espécie de traição…

— Não estou. 

— Aonde quer chegar com essa conversa, então?

Gregory parou na frente de uma porta, onde a mulher também havia acabado de parar. Encarou o rosto arrogante dela, que, com um sorriso sarcástico, finalmente resolveu responder:

— Imagino que conheça o Comando de Elite.

— Sim, claro.

— Me diga, o que os diferenciam dos homens de preto comuns?

— Os poderes, certo? Todos vocês são cryptos

— Desenvolva.

— … São alguns dos poucos cryptos que atualmente trabalham para o país?

— É. São status raros, não acha?

— Acho.

— O que status raros oferecem, em sua visão?

— Deveres, certamente.

— Com toda a certeza. E, em troca, privilégios.

— Privilégios? — Gregory não entendia até onde aquilo ia chegar.

— Isso. Privilégios. São poucos os cryptos que conseguiram ser domados. Poucos também são os que se aliam ao país por conta própria, e o motivo disso é óbvio.

Assim que ela abriu a porta, o agente entrou na sala. Ele abriu bem os olhos quando viu, em sua frente, todos os membros do Comando de Elite.

De um lado, duas garotas desarrumadas jogando UNO com um pneu. Do outro lado, uma criança de oito anos jogando Atari ao lado de uma ruiva. 

A tal ruiva saltou para longe da criança e, com um rosto sorridente, correu desengonçadamente até Bonnie… para então, acertar um chute no estômago dela..

— Bonnie! — exclamou a mesma ruiva. Mesmo tendo chutado a pessoa pelo qual chamava pelo nome, não carregava nenhuma raiva no tom de voz.

“Meu Deus!”, pensou Gregory, aterrorizado ao ver a mulher que o guiou até lá simplesmente ser ejetada para fora do chão devido ao poderoso chute daquela garota.

Bonnie Sun, que certamente só deveria parar de voar quando se chocasse contra a parede do corredor, pegou sua cartola e tirou um guarda-chuva de dentro dela. Quando o guarda-chuva foi aberto, ela simplesmente parou de voar e flutuou calmamente até o chão — indo contra qualquer lei da física.

“O que foi isso?”, pensou o agente Gregory.

— Quem é você? — A ruiva virou-se repentinamente para ele.

— Eu? Eu! Sim, eu! Sou o agente Gregory. Ao seu dispor.

— Negativo — falou Bonnie, caminhando calmamente. Ao parar na frente da ruiva, se vingou ao golpeá-la com o guarda-chuva. — Me perdoe, essa que acabou de conhecer é a Billie.

— Já ouvi falar… ah, “negativo” o quê?

— Você não está ao dispor dela. Não é mais de um cargo inferior ao dela.

— O que quer dizer com isso?

A criança no canto da sala, sem tirar os olhos da TV, começou a falar 

— Realmente ficou enrolando ele até chegar aqui, Sunny? Se cê chama Gregory, né, ô carinha?

— Isso — respondeu o agente.

— Tá todo mundo falando de você. O homem de preto que virou um crypto do dia pra noite.

Crypto?!”

Gregory olhou para Bonnie, com a expressão mais confusa que um ser humano poderia fazer.

— Eu sei, está sem palavras — falou ela. — É compreensível. E não, ninguém sabe explicar muito bem como isso aconteceu, fizeram todos os tipos de testes em seu corpo. A única coisa que descobriram é que, o que está dentro de você…

Gregory recuou quando ela puxou um revólver, mas não foi rápido o suficiente para se esquivar do disparo.

BANG!!!

O som ensurdecedor do disparo foi escutado por todo o andar. Gregory permaneceu parado durante alguns segundos, pensando que já tinha morrido. Só que, ao olhar para frente, notou que a bala apenas cruzou metade do caminho e, depois, ficou suspensa no ar. Em seguida, o projétil caiu no chão.

— Nossa, perdão, tinha me esquecido do barulho que tiros fazem — retomou Bonnie Sunny. — Como eu dizia, o que está dentro de você não te deixa morrer de jeito nenhum.

— Dentro de mim?

— É. Um crypto em forma de planta, pelo que me disseram. Um médico o descobriu quando foi tratar dos seus ferimentos. O coitado morreu na hora, o bisturi saiu voando e entrou na garganta dele.

— Cacete.

— Pois é. O aconselhável seria que fizessem mais testes em você, mas tipo, acabamos de perder o The Cock Dwayne Johnson. Ele está muito machucado para trabalhar. Além disso, o país continua sendo assolado pela maior infestação de cryptos dos últimos tempos. Por isso, terá que trabalhar com a gente.

— Tenho?

— Sim. Considere-se o novo membro do Comando de Elite. 

— Agora, voltando ao que eu falava anteriormente; o senhor, admitindo ou não, está disposto a trair o país em nome de cumprir os seus objetivos pessoais. Sabendo disso, digo que não precisa se preocupar, pois sua próxima missão está conciliada com os seus objetivos pessoais.

— Objetivos…?

— Vamos matar os terroristas soviéticos que fugiram de Woodnation, não é óbvio? — falou Billie, entrando no meio. — Inclusive, lutei contra aquela ciborgue que quase te matou, a “Bomba Lógica”. Relaxa, vamos deixá-la para você.

Bonnie Sunny saiu do meio, balançando seu guarda-chuva. Por fim, afirmou:

— A nossa missão é matar todos eles.

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